Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 1
PLANTANDO A CAPOEIRA ANGOLA: SENTIPENSAMENTOS SOBRE
CAPOEIRA ANGOLA, MULHERIDADES E AMAZÔNIA
PLANTANDO CAPOEIRA ANGOLA: SENTIMIENTOS Y PENSAMIENTOS SOBRE
CAPOEIRA ANGOLA, LAS MUJERES Y LA AMAZONIA
PLANTING CAPOEIRA ANGOLA: FEELINGS AND THOUGHTS ABOUT CAPOEIRA
ANGOLA, WOMANITIES AND THE AMAZON
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA1
e-mail: carmemvirgolina@gmail.com
Como referenciar este artigo:
TEIXEIRA, C. P. V. Plantando a Capoeira Angola:
Sentipensamentos sobre Capoeira Angola, mulheridades e
Amazônia. Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23,
n. 00, e023018. e-ISSN: 2359-2419. DOI:
https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794
| Submetido em: 21/05/2022
| Revisões requeridas em: 16/01/2023
| Aprovado em: 24/05/2023
| Publicado em: 22/12/2023
Editores:
Profa. Dra. Maria Teresa Miceli Kerbauy
Prof. Me. Mateus Tobias Vieira
Profa. Me. Thaís Caetano de Souza
1
Artista-pesquisadora do teatro-dança, capoeirista, educadora social e produtora cultural. Pesquisadora vinculada
a Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas (ABRACE). Doutora em Artes pelo
Programa de Pós-graduação em Artes da Universidade Federal do Pará, Mestra em Ciências Sociais, com ênfase
em Antropologia Social pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Pará,
Graduada em Letras com Licenciatura em Língua Francesa pela Universidade Federal do Pará.
Plantando a Capoeira Angola: Sentipensamentos sobre Capoeira Angola, mulheridades e Amazônia
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 2
RESUMO: Este ensaio pretende sentipensar o evento Plantando a Capoeira Angola, evidenciando
o protagonismo de mulheres na capoeira. Partindo de uma confluência de narrativas pautadas em
vivências aqui apresentadas, o texto busca articular as experiências que ocorreram no evento a
referenciais teóricos de áreas diversas do conhecimento, que põem em diálogo conceitos como
sentipensar e performance negra, os quais serão esmiuçados no decorrer do texto. Ao evidenciar
como uma vivência entre mulheres capoeiristas pode propiciar reflexões e incentivo para que
possamos anunciar um novo tempo, de uma capoeira que acolha a diversidade de corpos que a
manifestam, este ensaio afirma participações de mulheridades na capoeira e a importância histórica
delas nesse contexto. Tecendo conexões entre mulheridades matripotentes de motrizes africanas e
ancestralidades amazônicas em Belém, a presente escrevivência anuncia a eficácia de grupos, rodas
de conversas, encontros autogeridos por mulheres como espaços que favorecem a afirmação de
identidades plurais no universo da capoeira.
PALAVRAS-CHAVE: Mulheridades. Capoeira Angola. Performance Negra. Sentipensamentos.
Escrevivência.
RESUMEN: Este ensayo tiene como objetivo reflexionar sobre el evento Plantando a Capoeira
Angola, destacando el papel protagónico de la mujer en la capoeira. A partir de una confluencia
de narrativas basadas en las experiencias aquí presentadas, el texto busca articular las vivencias
ocurridas en el evento con referentes teóricos de diferentes áreas del conocimiento, que ponen en
diálogo conceptos como sentimiento y performance negra, los cuales se detallarán a lo largo. el
texto. Al resaltar cómo una experiencia entre mujeres capoeiristas puede proporcionar reflexiones
y estímulos para que podamos anunciar una nueva era, de una capoeira que acoge la diversidad
de cuerpos que la expresan, este ensayo afirma la participación de las mujeres en la capoeira y su
importancia histórica en esta contexto. Tejiendo conexiones entre mujeres matripotentes de origen
africano y ascendencia amazónica en Belém, este escrito anuncia la eficacia de grupos, círculos
de conversación, encuentros autogestionados por mujeres como espacios que favorecen la
afirmación de identidades plurales en el universo de la capoeira.
PALABRAS CLAVE: Mujeres. Capoeira Angola. Rendimiento negro. Sentimientos. Escribiendo.
ABSTRACT: This essay intends to feel/think about the event Plantando a Capoeira Angola,
highlighting the protagonism of women in capoeira. Starting from a confluence of narratives, based
on experiences presented here, the text seeks to articulate the experiences that occurred at the event
with interdisciplinary theoretical references that put in dialogue concepts such as feelingthinking
and black performance. Demonstrating how an experience among women capoeiristas can provide
reflections and encouragement so that we can announce a new era of capoeira that welcomes the
diversity of bodies that manifest it, this essay affirms the participation of women in capoeira and
their historical importance in it. Evidencing connections between matripotent women with African
motives and Amazonian ancestry in Belém, this writing announces the effectiveness of groups,
conversation circles, meetings self-managed by women as spaces that favor the affirmation of plural
identities in the universe of capoeira.
KEYWORDS: Women. Capoeira Angola. Black Performance. Feelings. Writing.
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 3
Tu não sabes, mas eu sou aquelas mulheres de fogo
São aquelas mulheres de fogo o meu respirar[...]
E quando me vês passando por aí
A olhos nus não notas eu carregada por elas
Porque em mim caminham todas essas
(Roberta Tavares - Mulheres de Fogo)
Eu fui no pé da jurema
Peguei as sementes de lá
Trouxe elas comigo
Plantei em outro lugar
(Corrido de capoeira angola)
Licença aí colega velha, licença de Chegar
2
- Introdução
O ensaio que segue pretende registrar e sentipensar, pela sua importância e ineditismo,
o primeiro encontro de capoeira angola, organizado por angoleiras, com participação apenas
de mulheres, na Amazônia paraense. O evento intitulado Plantando a Capoeira Angola foi
realizado entre os dias 03 e 06 de fevereiro de 2022, em dois municípios paraenses: Belém,
capital do estado e Castanhal, cidade próxima, cuja distância de condução da capital é de 75
km. Gostaria de antecipar ao leitor que assumo, neste texto, meus sentimentos, memórias e
poéticas, presentes em meus trabalhos artísticos e também em minha escrita. Dessa forma,
possivelmente, gero incômodo em uma certa ordem vigente acadêmica, que insiste em afirmar
o raciocínio cartesiano, com suas dicotomias, como fonte única de produção de conhecimento.
De que serviria uma estudante vinculada a um programa de pós-graduação em artes, se não para
querer interpelar, inclusive os paradigmas s-positivistas das escritas no universo da
academia?
Dialogo principalmente com o conceito de sentipensar. Segundo Moraes e Saturnino
(2004), da área da pedagogia, é de fundamental importância a educação emocional e o ensino-
aprendizagem das formas de se relacionar, e sobretudo, perscrutar a estreita vinculação entre
perceber, sentir, pensar e atuar, evidenciando a conexão entre nossas emoções e nossas atitudes.
Para os autores, o amor, por exemplo, é um sentimento possível de ser ensinado e aprendido,
2
Em cada subtítulo do texto, trago trechos de cantigas de capoeira angola. E trago o itálico como marca de trechos
de cantigas e também de depoimentos de praticantes.
Plantando a Capoeira Angola: Sentipensamentos sobre Capoeira Angola, mulheridades e Amazônia
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 4
enquanto conduta de respeito mútuo e solidariedade. Dessa maneira, ambientes nos quais se
reconheça o estreito laço entre cognição e afetividade, este ensino-aprendizagem é favorecido
e, dessa forma, demonstro, por meio de relatos, como um evento de capoeira angola, que se
formatou entre mulheres, configurou-se num ambiente no qual a capoeira se manifestou como
ferramenta eficiente para engendrar reflexões antimachistas, dentre as quais a produção deste
ensaio é uma mostra.
Dialogo, ainda, com o conceito de escrevivência, de Evaristo (2009), para quem existe
um corpus específico de escritores no Brasil com suas escritas atravessadas pelas experiências
da/com a negritude. A partir desses diálogos, e de vinte anos de prática de capoeira angola,
justifico a licença que me dou da escrita em primeira pessoa e do tema das minhas experiências
em coletivos como fato relevante para discussão de conceitos que contribuem no debate sobre
as relações de gênero em nossa sociedade e na capoeira. Convoco, também, para essa escrita
tessitura as vozes das companheiras do coletivo, trazendo para o texto algumas falas, frutos de
conversas informais ou de perguntas direcionadas a camaradas e mestras, gerando, para utilizar
um termo empregado por Mestre Nego Bispo, uma confluência de narrativas, como o encontro
de rios, que não deixam suas singularidades ao se encontrarem, mas que, em conjunto, formam
algo maior. Nesse sentido, agradeço, em especial, os diálogos com a mana
3
Mayara La Rocque,
poeta, escritora, integrante do coletivo, que foi interlocutora importante para a organização final
da estrutura deste texto.
Assim como em outros trabalhos meus, este ensaio representa um olhar, dentre tantos
outros possíveis, para as temáticas abordadas. Muito longe de se pretender verdade absoluta,
ou possibilidade de esgotamento do tema, apresenta-se como uma oportunidade de exercício
narrativo. Ademais, é também uma resposta à dívida que sinto ter ficado ao não ter tido
condições, perante a inúmeras pressões misóginas, de ter dedicado uma sessão devida à questão
de gênero na dissertação que escrevi sobre capoeira angola em Belém, aproximadamente
doze anos, na qual, timidamente, pergunto na introdução do trabalho (TEIXEIRA, 2010, p. 23):
“Num ambiente tradicionalmente masculino, uma mulher, procurando refletir sobre este
universo, torna-se uma representação de ameaça?”. Então, mais de dez anos depois, eu mesma
respondo que sim, porém pretendo refazer a afirmação inicial da dissertação, na qual me referi
3
Optei por colocar em notas de rodapé alguns termos inerentes ao universo da capoeira angola e/ou da militância
social em Belém, assim como em itálico, no texto, palavras inerentes a esse universo. Propus uma dinâmica a um
grupo de companheiras que fazem parte do coletivo e trago, então, nas notas do texto as definições de Brenda
kalife, Bruna Matins e Xokeide d’Oya para alguns termos da capoeira angola e do candomblé angola.
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 5
ao ambiente da capoeira como tradicionalmente masculino, pois esse ambiente sempre foi
atravessado por mulheridades.
Gostaria, ainda, antes de seguir nessa escrita, de explicar minha opção, desde o título do
ensaio, por utilizar a palavra mulheridades, em detrimento de outras palavras como feminino,
por exemplo. Essa escolha referenda o fato de se acreditar que seja esta a forma mais acertada
para representar a pluralidade de identidades de mulheres presentes no encontro. Eu poderia
dizer que nenhuma delas, ali presente, performatiza a expectativa vigente de uma feminilidade
que remeta a fragilidade, passividade e objetificação, como a palavra feminino, ou mesmo
mulher, pode suscitar. Tornamo-nos mulheres o por conta de uma condição biológica, mas
por identificação e aprendizagem de comportamentos sociais que variam de cultura a cultura e
que, no interior de um mesmo grupo social, pode assumir aspectos diversos. Conforme
questiona Butler (2003, p. 09): “Ser mulher constituiria um fato natural ou uma performance
cultural, ou seria a naturalidade constituída mediante atos performativos discursivamente
compelidos, que produzem o corpo no interior das categorias de sexo e por meio delas?” Para
a autora, as categorias de identidade de gênero o resultadas no ocidente de duas instituições
definidoras: o falocentrismo e a heterossexualidade compulsória.
Eu Quero Ver Idalina - Presença de Mulheridades na capoeira
A presença de mulheridades na capoeira é muita antiga. Para muitos historiadores e
historiadoras, os registros mais antigos dessas presenças estariam associados a um contexto que
remonta ao culo XIX. Na fala de outros mestres e outras mestras, a própria ginga
4
, palavra
que denomina o principal movimento corporal da capoeira, seria uma referência à Rainha
Nzinga Mbandi, rainha africana muito conhecida por ter vencido várias batalhas em Angola,
contra os colonizadores portugueses, celebrada por suas notáveis habilidades intelectuais e
físicas. Segundo Fonseca (2021, p. 62):
Njinga Mbandi é até hoje lembrada em Angola como um símbolo da luta
contra a colonização e sua trajetória foi recuperada pelos movimentos de
independência nos anos de 1970. Na diáspora seu nome também aparece em
muitas manifestações da cultura afro, como capoeira, congados e candomblés,
associados à resistência negra e ao poder feminino.
4
Movimento base da capoeira, no qual, por meio da troca entre pernas e braços, o corpo elabora a preparação para
outros movimentos de ataque e defesa.
Plantando a Capoeira Angola: Sentipensamentos sobre Capoeira Angola, mulheridades e Amazônia
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 6
Sendo então o principal movimento da capoeira, a ginga, que consiste em balançar o
corpo, ludibriando assim o oponente, uma homenagem numa derivação do nome da rainha
Nzinga, percebemos, como apontam historiadoras, como Fonseca (2021) e Foltran (2017), que
embora a capoeira seja costumeiramente vista como um espaço masculino, sempre contou em
suas formas de organização e lugares de expressão com a presença ativa de mulheridades.
Portanto, por que constatamos no ambiente da capoeira a reprodução de violências de gênero
contra corpos que não performatizam masculinidades?
Em consonância com outras mulheres sentipensantes do meio da capoeira, que em suas
narrativas evidenciam a contradição que existe no fato de essa prática ser um espaço de
questionamento da ordem colonial, que escravizou corpos negros, e, ao mesmo tempo, um
espaço onde muitos valores do patriarcado, uma das bases desse mesmo sistema escravista.
Assim surgiu o coletivo Angoleiras Cabanas, que vem ganhando destaque na organização de
mulheres em torno da prática da Capoeira Angola, na cidade de Belém, desde 2018. Segundo
Marinho e Assunção (2021, p. 63), com o intuito de criar ambientes saudáveis para a
propagação dos saberes ancestrais inerentes à capoeira angola, assim como na busca de refletir
e intervir nessas contradições ainda existentes nessa práticaé que surgiu o coletivo. Segundo
a idealizadora e integrante do coletivo, Brenda Kalife, em entrevista cedida em março de 2022:
Toda mulher já passou ou passa por situações de opressão dentro da prática
da capoeira. No entanto, poucos são os espaços onde é possível se dialogar
sobre. Pensando nisso, o coletivo Angoleiras Cabanas, a priori, Flores de
Angola, foi idealizado para que mulheres pudessem se reunir para troca de
saberes, treinos e diálogos sobre as violências que atravessam os corpos
femininos nesta prática. Dessa forma, o coletivo foi criado de modo
independente, como um movimento autônomo, com o objetivo de encorajar
mulheres a se manterem na capoeira, tendo umas às outras como camaradas
e cúmplices na luta antimachista. Nesse março de 2002, fazemos quatro anos
de vida e de existência, com muitas aprendizagens e realizações para contar.
Com o aumento deplorável de casos de violência contra a mulher, durante o período de
pandemia, somado a experiências de violências contra muitas de nós dentro da própria capoeira,
acreditamos que realizar um evento de capoeira angola protagonizado por mulheres seria uma
ação política combativa à chaga social do machismo, manifestado na sociedade como um todo,
inclusive, infelizmente, também dentro da capoeira e, muitas vezes, vale lembrar, pelas próprias
mulheres.
Constata-se que a condução de mulheres na prática da capoeira costuma ser muito mais
cooperativa do que competitiva, muito mais acolhedora, e por isso resolvemos convidar para o
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 7
comando do evento duas mestras mulheres. São inúmeros os relatos de situações de
constrangimento promovidas por conduções de masculinidades que exacerbam a marcialidade
e a força física, dificultando a manifestação do enorme potencial que a capoeira possui de
ferramenta pedagógica de transformação do sistema racista e machista.
Figura 1 Plantando a Capoeira Angola
Fonte: Treinel Brenda Kalife e Mestra Di, na roda de abertura do evento, no terreiro de candomblé
angola Mansu Nangetu. Foto: Mel Mater
O conceito do evento, por sua vez, apostou na representatividade e na ancestralidade,
assim como na conexão entre as mulheridades da capoeira angola e a floresta amazônica,
investindo na vinda de duas mestras de capoeira para Belém. Segundo Bruna Maria, integrante
do coletivo e organizadora do evento, em entrevista cedida em março de 2022, a conexão entre
a natureza como entidade viva e a capoeira angola é intrínseca:
No meu sentir, a capoeira é um campo de multiculturas e multirresistência
que, no seu universo, transmite na memória oral e corporal o viver e saber
tradicional, simples, rural, muitas vezes em um contexto de marginalidade
social. O que vivemos durante os dias imersivos do Plantando Capoeira
Angola, em certa medida, foi também um retorno ao coletivo, um retorno à
mãe terra. Atravessando a brincadeira do “vadiar angola”, também falamos
de soberania alimentar, de cuidado com o planeta, e a agrofloresta como uma
prática de cuidado com o solo e geração de alimentos também nutre essa luta
por uma autonomia.
Plantando a Capoeira Angola: Sentipensamentos sobre Capoeira Angola, mulheridades e Amazônia
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 8
As principais aspirações desse Encontro foram a discussão de táticas de rExistências e
os enfrentamentos contra as mazelas do patriarcado, do racismo e demais práticas coloniais de
opressão, inclusive contra a natureza; assim como a possibilidade de agregar às performances
físicas e musicais das mulheres participantes mais repertório de cantos, toques e
movimentações. Utilizo, aqui, o termo performance em seu aspecto epistemológico, segundo o
qual, de acordo com os pesquisadores da área da antropologia da performance, tal palavra
significa comportamento restaurado. Assim, todo ato desempenhado, restaurado por alguém
para o olhar de outras pessoas pode ser visto como performance. Nesse sentido, desde um
simples movimento que se repete na intimidade do cotidiano de alguém até uma apresentação
teatral podem ser estudados pelo prisma da performance. Quando falamos de capoeira, nos
referimos a um tipo de performance que pode ser vista como performance ritual. Segundo
Martins (1997, p. 72):
As performances rituais cerimônias e festejos, por exemplo, são férteis
ambientes de memória, dos vastos repertórios de reservas mnemônicas, ações
cinéticas, padrões, técnicas e procedimentos culturais restituídos e expressos
no e pelo corpo. Os ritos transmitem e instituem saberes estéticos, filosóficos
e metafísicos, dentre outros além de procedimentos, técnicas, quer em sua
moldura simbólica, quer nos modos de enunciação, nos aparatos e convenções
que esculpem sua performance
Vim no Balanço do Mar de Angola Capoeira e Bem viver
O encontro foi forte e intenso, tal qual as tempestades do inverno amazônico que
ocorrem entre o final e o início do ano, e, ao fim, todas tiveram novas terras em si, revolvidas,
com sementes plantadas. Por isso, a inserção, na epígrafe que abre este ensaio, do corrido
5
que
Mestra Di cantava durante o evento serve como uma metáfora sobre pegar as sementes num
lugar e plantar em outro, como se a vinda das mestras e as manas do Maranhão tivesse trazido
sementes novas, manejando em nós o desejo antigo de continuar rExistindo em bem viver, entre
nós mulheres, com a sociedade como um todo e com a natureza enquanto entidade viva.
Proveniente do movimento indígena do Equador, para o qual, na língua kíchua, o sumak
kawsay, ou seja, o bem viver termo citado em inúmeras constituições de países da América
do Sul a partir dos anos 2000 propõe a construção de um outro tipo de sociedade, pautando
5
Cantiga de capoeira de base oral composta de versos (possíveis de criação e modificação), seguida de coro que
são cantados por todos os presentes em uma roda de capoeira angola.
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 9
dentre outros princípios, o reconhecimento da natureza enquanto sujeito de direitos. Segundo
Léon T (2008, p. 01), o bem viver
sintetiza visões e práticas ancestrais, debates e propostas atuais, o acúmulo de
pensamento crítico e lutas sociais das últimas décadas; junta dinâmicas
nacionais e internacionais de resposta ao ‘modelo de desenvolvimento’ e ao
‘modelo de civilização' que conduziram a uma situação já reconhecida como
insustentável.
É inegável o potencial da capoeira angola como espaço de experiência de bem viver.
Sobre perspectivas do bem viver, Acosta (2016, p. 27) afirma que, nessa linha de pensamento,
“a superação das desigualdades é inescapável. A descolonização e a despatriarcalização são
tarefas fundamentais, tanto quanto a superação do racismo, profundamente enraizado em nossas
sociedades.”
Esta proposta, em andamento, praticada por povos indígenas e em Interculturalidade
Crítica (WALSH, 2009) também por outros povos, pode ser observada em universos de culturas
de motrizes africanas. A Interculturalidade Crítica, conceito, por sua vez, também proveniente
de movimentos indígenas sul-americanos, versa sobre a possibilidade de aproximações entre
culturas, que, mesmo distintas, se unem na implementação de propostas contra o capitalismo.
Na Amazônia, quanto mais o povo negro adentrou na floresta, mais se deu o contato com povos
indígenas, principalmente no firmamento de colaborações solidárias.
Nossa atual necessidade amazônica de replantar uma enorme parcela devastada da
floresta, de cuidar para que o desmatamento o chegue ao ponto de irreversibilidade e a
floresta morra pode nos fazer lembrar da tática das mulheres negras escravizadas, que, ao fugir
para quilombos no Brasil, levavam em seus cabelos, sementes escondidas, para cultivar em
liberdade outros campos; tecnologia ancestral que nos aponta um porvir de esperança na
necessidade de plantar, replantar e cultivar cuidados. Portanto, a metáfora do corrido citado na
epígrafe se aloja onde as trocas de experiências corporais, musicais são partilhadas como
sementes, e que também nos lembra da urgência dos cuidados com a natureza.
Nesse sentido, vale ainda trazer à memória que, nos quilombos, nome dado aos
acampamentos de treinamentos de guerra dos povos nômades Jagas, na África, as mulheres
possuíam papel fundamental, eram numerosas e adotavam modos de vida guerreira. Lá,
cuidavam desde a alimentação, dos objetos de guerra, até o manuseio de machadinhas e lanças.
Dessa forma, ocupavam postos hierárquicos fundamentais no vencimento das guerras, como
sacerdotisas, das quais os guerreiros e guerreiras dependiam (FONSECA, 2021). É possível
Plantando a Capoeira Angola: Sentipensamentos sobre Capoeira Angola, mulheridades e Amazônia
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 10
estabelecer analogias entre performances de mulheridades de quilombos desde a África até as
identidades de angoleiras, nome dado às mulheres que praticam capoeira angola.
Vale ressaltar que o estado do Pará concentra, segundo dados do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), a maior quantidade de quilombos na região norte, onde existe
uma vasta contribuição das populações negras na cultura local, o que pode se perscrutar nas
corporeidades dos folguedos aqui presentes e, também, em outras tecnologias locais. Pelo fato
de não termos no estado uma mestra de capoeira angola, convidamos duas provenientes de
outros estados para conduzir o evento, mestra Di, de Pernambuco e mestra Samme, do
Maranhão; com o intuito de relacionar o contexto amazônico a questões de gênero e raça. A
grande maioria das mulheres participantes do evento eram amazônidas, mulheres paraenses e
maranhenses, estados vizinhos, brasileiros, por onde a floresta amazônica se estende.
Se a floresta amazônica é indissociável dos povos que nela habitam, pois somos nós os
guardiões e guardiãs desse bioma, podemos também associar os ataques e ameaças que a
floresta amazônica sofre aos ataques que a mulher nortista amazônica também sofre, o que
constatamos nos altos índices de violência praticados contra a mulher na região. Os povos
tradicionais amazônicos, e isso inclui povos tradicionais de motrizes africanas aqui presentes,
são sangrados cotidianamente em suas dignidades pelo descaso com o qual o Estado brasileiro
trata a região, que embora seja uma das mais ricas do mundo em recursos naturais, destaca-se
como um espaço onde se apontam os piores índices de desenvolvimento humano do país.
Dessa forma, a presença dos grandes projetos na região, como a construção de
hidrelétricas, que nos o impostas, construídas à revelia dos impactos ecológicos e sociais
causados, assim como a presença dos garimpos, aumentam a vulnerabilidade de mulheres.
Muitas vezes com a chegada do capital a pobreza se instala e as mulheres são empurradas para
a prostituição, fazendo da nossa região uma das campeãs da exploração sexual infanto-juvenil,
segundo relatórios da Polícia Federal, e rota marcada do tráfico de mulheres cis e trans, com a
omissão do Estado brasileiro, fato agravado nos últimos quatro anos de ascensão de um governo
de extrema direita.
Enquanto eu sentia a riqueza da pluralidade de personalidades das mulheres presentes
ali no Plantando a Capoeira Angola, ocorriam, em mim, reminiscências de vários tipos de
abusos e assédios que ocorrem contra mulheres. Eu fabulava internamente sobre nossos poderes
de rExistir e reconhecia vários (re)sentimentos me atravessando, raivas, medos, esperanças,
desejos, urgências de nos tornarmos protagonistas, narradoras de nossas trajetórias, acolhendo
as fragilidades, sim, que nos constituem também, mas não só, também reconhecendo nossas
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 11
capacidades. Eu queria encontrar o que nos faz fortes, mas também não podia deixar de perceber
que justamente nas fragilidades se forjam as forças. Quais outras vozes senão aquelas que foram
subalternizadas conhecem melhor que qualquer outras a sede por justiça e libertação?
Queríamos encontrar um tempo cosmogônico de mulheres que não partiram de um
princípio de subserviência, como no mundo branco ocidental, e sim um tempo das mulheres
que sabem de seu protagonismo. Assim, queríamos essa volta ao mundo
6
pela capoeira angola,
um suspiro do tempo linear do sistema capitalista para espiralar no tempo de cosmologias da
capoeira. Como poderíamos fazê-lo se na tradição da capoeira angola no Pará, não temos
mestras mulheres? Como fazê-lo, se o projeto de embranquecimento da nação tentou e tenta
apagar narrativas, memórias, protagonismos de mulheres não brancas? O espaço do evento
Plantando a Capoeira Angola se fez para nós como essa possibilidade. Segundo Fonseca (2022,
p. 08):
A sociedade do Kunene- sul de Angola- via o círculo do Ngolo como um
espaço sagrado. A elola ou ovahakelela, a roda, era socialmente um espaço
especial que evocava imagens poderosas do status sagrado da força. O ritual
circular era configurado para levar os praticantes ao mundo espiritual. A roda
da capoeira retoma o valor social do círculo e é entendida como a volta do
mundo”, a roda da vida onde tudo acontece, onde as características mais
íntimas de cada um são evidenciadas, é a verdadeira sala de aula da capoeira
onde se formam os mestres e se transmite práticas e valores tradicionais, é o
palco em que ocorre a ligação com a “terra mãe”. Ao realizar esta “volta ao
mundo”, o angoleiro sente que se reconecta com a ancestralidade, como se sua
alma pudesse ir à África e trazer elementos da visão de mundo dos antigos
para seu jogo.
A questão da não linearidade do tempo e da multidimensionalidade dos acontecimentos
sempre me inquietou. Em circularidade espiralar, estamos certamente ligadas às ancestrais
matripotentes, que foram invisibilizadas dos discursos oficiais da história de forma geral, e
também da história da capoeira, colocadas em segundo plano, mas que sempre estiveram lá em
elementos já citados, como a ginga, a cabaça
7
, na circularidade, na malemolência dos corpos,
nos nomes de mulheres citados nas cantigas, Marias, Idalinas, Catarinas, Salomés, Nossas
Senhoras, Sereias. Valemo-nos do tempo cíclico celebrado na capoeira, que remonta a um
retorno de um tempo primordial, como o fazem em geral todas as práticas tradicionais, para
celebrar e invocar em nossos próprios corpos e vivencias essas outras mulheres de outros
6
Momento de trégua na capoeira, quando os jogadores caminham de forma circular, apoiando-se um na mão do
outro, até retomarem o jogo, propriamente dito, com movimentos de ataque e defesa.
7
Cabaça: fruto seco de plantas dos gêneros Lagenaria e Cucurbita, útil na confecção de instrumentos musicais,
como o berimbau, que é responsável pela caixa acústica dos instrumentos.
Plantando a Capoeira Angola: Sentipensamentos sobre Capoeira Angola, mulheridades e Amazônia
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 12
tempos. Em A Dívida Impagável, a socióloga e professora Denise Ferreira da Silva (2019, p.
45) questiona os pilares do pensamento moderno ocidental, em diálogo com a física quântica,
e nos remete a um princípio de unidade:
Tudo possui uma existência atual [actual] (espaçotempo) e virtual (não-local).
Sendo assim, por que então não pensar a existência humana da mesma
maneira? Por que não presumir que além de suas condições físicas (corporais
e geográficas) de existência, em sua constituição fundamental, no nível
subatômico, os humanos existam emaranhados com todas as coisas (animadas
e inanimadas) do universo? [...] a socialidade não é mais nem causa nem efeito
das relações envolvendo existentes separados, mas a condição incerta sob a
qual tudo que existe é uma expressão singular de cada um e de todos os outros
existentes atuais virtuais do universo, ou seja, como Corpus Infinitum.
Se todos os seres estão assim interligados da mesma maneira, passado, presente e futuro
conectam-se em um só presente, num tempo alinear. A presença negra na Amazônia vem sendo
documentada por alguns estudiosos, dentre os quais destaco Salles (2004), pioneiro nessa área
de estudo, que demonstrou a inserção de capoeiristas em outros folguedos populares no estado
do Pará, sobretudo, no boi-bumbá desde o culo XIX. Na literatura produzida desde o início
do século XX, como é o caso da obra Batuque, de Bruno de Menezes (1939), para citar apenas
uma dentre outras obras literárias, também se registra a presença negra na Amazônia. Essa
presença ainda é constatada nos jornais policiais da época, nos quais, não por acaso, meretrizes,
batuqueiros, desordeiros e capoeiras eram todos e todas enquadrados pelo crime de vadiagem,
pois infringiam o código de condutas de uma Belém caricatamente voltada à Europa, com uma
elite governante rendida ao projeto da colonialidade e que negava, portanto, a contribuição
incontestável de motrizes negras e indígenas na formação da cultura material e imaterial da
cidade. Ainda nesse contexto do século XIX em Belém, estudos mais recentes apontam para
registros policiais que indicam mulheres presas pelo crime de vadiagem. Silva (2016, p. 48),
referendando levantamentos históricos, pontua:
[...] outras mulheres também foram encontradas envolvidas na capoeiragem
nas ruas de Belém século XIX: Maria Meia Noite, Joana Maluca, Maria
Galinha e tantas outras, foram notícias nas páginas dos jornais da época. O
perfil dessas mulheres, em nada condiz com os modelos estabelecidos,
entrando em contradição com os padrões comportamentais ditados para as
mulheres brancas de elite, assim como para as escravizadas.
A capoeira em si nos remete, pela temporalidade cíclica, a um universo de uma África
perdida, para onde qualquer pessoa que tenha sonhos de retorno a uma terra prometida pode se
identificar. Há, desse modo, a busca por essa ancestralidade, pois, coloca-nos nesse tempo
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 13
espiral de retorno a um passado presente, em nossos corpos. Assim foram alguns dias de
experiências nossas dentro da roda viva da capoeira: treinos, cantorias, rodas de conversas,
convivências, batuques, tambores, maracas - da qual ninguém saiu incólume. Queríamos esse
retorno, no Plantando a Capoeira Angola, à Rainha Nzinga Mbandi, que em Angola lutou
contra os portugueses. Queríamos este retorno a Dandara de Palmares, que lutou pela
construção do primeiro território livre da coroa no Brasil colonial. Queríamos celebrar as
existências de mulheres de corpos encapoeirados
8
, nas ruas de Belém do século XIX; todas
elas que nos inspiram, acompanham e se mantêm vivas em nós, pois, antes de nós, lutaram para
que hoje estivéssemos aqui, assim como, depois de nós, lutarão ainda, nos corpos das mulheres
capoeiras que virão.
Estar próxima a duas mulheres mestras de capoeira angola oportunizava-nos, no evento,
o reencontro com a ancestralidade. Lélia Gonzales (2020), no ensaio A Mulher Negra na
sociedade brasileira: uma abordagem político-econômica, ressalta tanto o lugar de
vulnerabilidade dilatado da mulher negra pois o sexismo e o racismo justapostos as colocam
expostas aos mais altos níveis de opressão na pirâmide social brasileira quanto a importância
e o protagonismo desta mulher negra na rExistência ao sistema escravocrata colonial,
ressaltando suas estratégias de sobrevivência no interior de uma sociedade capitalista e racista.
Lélia Gonzalez cita, dentre essas estratégias, desde as quais ela chama de resistência
passiva até casos como os de Luísa Mahin - que na Revolta dos Malês, em 1835, na Bahia,
teve participação tão relevante na organização e na luta armada desta Revolta, que ao fim foi
deportada de volta à África, mas antes de partir, deu à luz a ninguém menos que Luiz Gama,
um dos maiores militantes pela luta abolicionista no século XX, presente em todos os grandes
movimentos de libertação nacional - O negro e a negra também na Amazônia participaram da
Cabanagem, revolta popular que chegou a depor o poder local em Belém e se alastrou por todo
território paraense e em outros pontos longínquos da Amazônia. Essa revolta inspira o nome do
coletivo, e, embora eu ainda não possua grande conhecimento sobre a participação de mulheres
nessa revolta, estudos apontam a participação efetiva delas na luta armada, como guerrilheiras.
Por certo, investigar o que foi um corpo de mulher dentro dessa guerra, especialmente a
presença de guerrilheiras cabanas capoeiristas mulheres, seria matéria para próximos escritos.
Se é sabido que, mesmo para homens durante um longo período, a capoeiragem era
considerada uma prática criminosa; para mulheres, certamente, foi a partir da nova roupagem
8
Corpo encapoeirado foi uma expressão que ouvi recente da capoeirista Nildes Sena.
Plantando a Capoeira Angola: Sentipensamentos sobre Capoeira Angola, mulheridades e Amazônia
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 14
assumida nos anos 60 em diante, que a presença de mulheres se tornou uma constante nas
academias e grupos. Segundo Foutran (2017, p. 101):
O único registro anterior a 1968 que cita mulheres envolvidas neste novo
modo de fazer capoeira angola, ou seja, nas academias, é o Livro de Registros
do Centro Esportivo de Capoeira Angola (CECA), do Mestre Pastinha. Em
seu caderno de controle de matriculas, Pastinha anotava algumas informações
sobre os alunos de sua academia, como nome, endereço, idade e profissão. O
registro de 113, referente aos anos de 1962 a 1965, é apenas a fotografia
3x4 do rosto de uma mulher. Abaixo desta foto não qualquer informação.
As outras duas mulheres inscritas no Livro de Registro de Pastinha são Maria
de Lourdes Barbosa, matriculada em 1968, e Arbernia Soares Rezende, em
1969. Também de 1968 é o livro de Waldeloir Rego no qual afirma ter sido
Gato Preto o primeiro Mestre de Capoeira a ensinar mulheres.
Atualmente, é crescente o interesse de mulheres capoeiristas em se reunirem para
sentipensar as questões de gênero no interior do universo da capoeira. Existem grupos e
coletivos que destinam treinos só para mulheres, mobilizações nacionais e internacionais pelas
redes, eventos com espaços crescentes para as questões da mulher na capoeira e, segundo
levantamento da Rede Angoleira de Mulheres (RAM), há, atualmente, 26 mestras de capoeira
angola mulheres no mundo.
No site da Pró-Reitoria de Extensão (PROEX) da Universidade Federal da Bahia,
localiza-se com facilidade a informação de que se fez, em 2001, a primeira mestra mulher, na
história da capoeira angola do país, Valdelice Santos de Jesus, conhecida como Mestra Jararaca,
formada na Bahia, por Mestre Curió. Apesar de não me deter aqui a aspectos históricos, pois
não é meu recorte/intenção, sabemos que a presença da mulher na capoeira se conta, pelo
menos, desde o culo XIX ou, como mencionamos, desde bem antes, na própria figura da
rainha Nzinga. Entretanto, quais tipos de mulheridades nos foram permitidas manifestar nesses
territórios das capoeiras? Hoje, o que reivindicamos é um espaço em que possamos manifestar
as singularidades de nossos corpos, senhoras de nossas próprias narrativas, donas de identidades
múltiplas e, sobretudo, capazes de fazer de nossos corpos encapoeirados ambientes de
memórias que nos conectem a essas mulheres rainhas, estrategistas, livres, ativas, habilidosas
intelectual e fisicamente.
Recentemente, em conversa informal com Carla Baía, uma capoeirista e dançarina da
cidade, parceira querida de outros trabalhos artísticos, relembrávamos a finada Sílvia Leão,
conhecida também como de Anjo, que recebeu de Mestra Janja, postumamente, em 2016,
num evento realizado pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 15
Belém, o tulo de mestra
9
. Foi a partir da vinda de mestra Janja, por sua vez, de Salvador,
fundadora do grupo de capoeira angola Nzinga, pioneira em muitas das discussões de gênero
dentro da capoeira e na academia, que postumamente se reconheceu quem viria a ter sido a
primeira mulher mestra de capoeira na cidade de Belém. Tendo sido importante liderança do
grupo Dandara Bambula e idealizadora do Movimento Capoeira Mulher, em Belém, um dos
primeiros coletivos de capoeira organizado somente por mulheres no Brasil, Sílvia foi
homenageada recentemente, dando nome à lei que instituiu o dia 13 de maio como o dia
municipal da capoeira em Belém.
Retomo, então, o ponto citado acima, de quando Lélia nos fala sobre uma resistência
passiva. Essa palavra passiva se refere à forma simbólica que a estratégia de rExistência
ganhou, porém ativa nos resultados finais alcançados. Lélia, dialogando com teorias da
psicanálise, faz-nos atentar ao papel fundamental exercido pelas mulheres negras no Brasil, na
formação do inconsciente coletivo nacional. Cuidadoras tanto de seus próprios filhos quanto
dos filhos dos brancos, antes como mucamas e, depois, como babás e empregadas domésticas,
coube a essas mulheres a contação das primeiras estórias da infância, tão fundamentais na
constituição da visão de mundo dos sujeitos, africanizando, dessa maneira, a cultura brasileira,
pois as cantigas, estórias, brincadeiras ensinadas eram as provenientes de suas motrizes
culturais vindas da África.
Nesse sentido, considerando o imenso poder narrativo no interior das cantigas de
capoeira angola, que podem ser vistas como detentoras do mesmo poder simbólico que Lélia
atribui às narrativas, cito também a produção da cartilha ABC da Capoeira Angola (2022), outro
trabalho do Coletivo Angoleiras Cabanas, dessa vez premiado pela lei Aldir Blanc Juventude
Ativa de Emaús 2020, organizado pela mana Bruna Maria Martins e constituído pelo registro
de corridos de capoeira angola que citam a presença de mulheres, crianças e campesinato. As
cantigas de capoeira exercem grande influência no imaginário e ethos dos capoeiristas, gerando
paisagens sonoras e imagéticas. Culminância de um ano de trabalho desenvolvido no
assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra Mártires de Abril, localizado
em Mosqueiro, distrito de Belém, esse trabalho se iniciou a partir do contato com a Ciranda
Paulo Freire, em abril de 2019, atividade direcionada às crianças do movimento, quando
ministramos uma oficina de capoeira angola, na Jornada de Lutas por Reforma Agrária Popular
9
Sobre a mestra Pé de Anjo, vale conferir o quadrinho organizado por Carla Baia e Carla Costa: Ayana: a menina
dos pés de anjo.
Plantando a Capoeira Angola: Sentipensamentos sobre Capoeira Angola, mulheridades e Amazônia
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 16
em Defesa da Amazônia. A partir de então, de 2019 até 2020, período inicial da pandemia de
Covid-19, realizamos uma série de outras oficinas com os sem terrinhas
10
.
Sai Catarina, Saia do Mar, Venha Ver Idalina
(Vi)vemos todas as distorções de valores morais provocadas pelo mundo moderno, que
possui por pilares o racismo e o machismo, dando existência a inúmeras gerações que
reproduzem discursos de ódio, nos quais mulheres são menores ou submissas, enquanto aquelas
que protagonizam as lutas por equidade de direitos são recorrentemente perseguidas, torturadas
e até assassinadas. O desalento dessas constatações, somadas ao fato de não termos mestras de
capoeira angola em Belém, nos levou ao encontro de outras referências, mulheres de mestria,
líderes de religiões de motrizes africanas: me refiro as mametus
11
de tradição do candomblé
angola, uma das nações de candomblé existentes no país. O coletivo Angoleiras Cabanas foi
acolhido mais de uma vez por essas mametus na cidade de Belém, tendo sido, por exemplo, o
primeiro dia do evento Plantando a Capoeira Angola, realizado no terreiro Mansu Nangetu,
com o apoio de Mametu Nangetu.
Nesse sentido, vale ainda ressaltar uma outra ação realizada pelo coletivo Angoleiras
Cabanas, em março de 2020, quando nos reunimos na Defensoria Pública da cidade de Belém
do Pará, em uma roda de conversa, chamada de Protagonismo Feminino e Tradição, composta
pela então ouvidora Juliana Oliveira, Mãe Jucy, Mãe Xokeide d’ Oya e Mestra Catita (uma das
poucas mestras mulheres na cidade, proveniente da capoeira regional). A roda de conversa girou
em torno do protagonismo de mulheres de tradição e os enfrentamentos ao se combater
desigualdades de gênero, no interior de práticas culturais de motrizes africanas.
Na forma como essas mulheres militam, torna-se tido que o combate ao racismo é uma
prioridade. Muito próximas a seus irmãos e companheiros, sobretudo, homens negros, elas
distinguem perfeitamente a necessidade de combate às desigualdades de gênero. Ademais,
compreendem com clareza que a justiça branca não abarca a complexidade das relações nesses
10
Sem terrinhas: crianças que fazem parte do Movimento Sem Terra (MST).
11
No tocante aos termos sobre o candomblé, trago o diálogo com a mana Ekedy Xokeid de Oyá, que, além de ser
integrante do coletivo, é iniciada na nação gege do candomblé. Segundo Xokeide, esse termo é específico do
candombde angola, no candomblé ketu a nomenclatura seria Ialorixá, no candomblé gege do qual eu faço parte
a nomenclatura é Doné [...]então na casa a mametu, ialorixa ou doné ela vai ter também essa função de chefiar
de liderar a casa juntamente com seus filhos e as outras hierarquias ela tem mediunidade para incorporar
para receber orixá, pra se comunicar com os orixás ou nkissis ou voduns.
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 17
territórios. A pauta do combate às violências contra mulheres nesses contextos demanda, então,
o surgimento de estratégias provenientes desses mesmos territórios e vozes operantes.
Para mim, estar junto de outras 24 manas, em um primeiro momento, no terreiro sagrado
do Mansu Nangetu, fazia-me sentipensar outro lugar de poder da mulher negra em nossa
sociedade, que Lélia Gonzalez (2020) nos aponta, no ensaio acima citado, que é justamente o
papel das mães de santo. Muito mais do que espaços de práticas voltadas à religião, os terreiros
afro-religiosos são também territórios de acolhimento, produção de conhecimento, política e
bem viver. Além disso, são liderados principalmente por mulheres, as quais não se eximem das
discussões nas esferas políticas oficiais na cidade de Belém. Com base nisso, abordar as
trajetórias de militância, atuação política de algumas dessas mães de santo daria por si um
outro ensaio.
Não se pode compreender a ancestralidade africana, partindo-se de um princípio de
suposta subserviência da mulher. Segundo a pesquisadora e professora nigeriana Oyèrónk
Oyěwùmío (2020), que utiliza o conceito de matripotência, ao se referir às formas de
organização de algumas sociedades yorubanas, o lugar de poder dentro dessas sociedades nunca
esteve associado à categoria gênero, tal como ocorre nas sociedades ocidentais. Segundo o
pensamento dessas matrizes africanas, o que rege o social é a ancestralidade, sendo as mulheres
extremamente respeitadas e valorizadas pelo papel fundamental que a Ya, mãe, exercia nessas
formas de organização, podendo mesmo se afirmar que essa seria a unidade social mais
fundamental dessas sociedades: a relação entre a mãe a prole. A encuba em seu corpo uma
alma que era existente e auxilia o criador na criação da criatura, sendo, portanto, muito
venerada, respeitada e compreendida como poderosa, de tal forma que muitas mulheres nessas
sociedades foram rainhas, políticas e guerreiras. No mundo ocidental, o núcleo familiar
patriarcal pressupõe que ser mulher se reduz a ser esposa e cuidar dos afazeres do lar e dos
filhos do protagonista, o marido. Se quisermos então adentrar mais profundamente nas formas
de ver o mundo de práticas culturais de motrizes africanas, necessitamos buscar outras
referências para além do feminismo eurocentrado. Dessa forma, dialogo com o pensamento de
Oyěwùmío (2020. p. 06):
os conceitos feministas emergiram da lógica da família nuclear patriarcal, uma
forma de família que está universalizada de forma inadequada. Nesta seção,
desenhando a partir da minha própria pesquisa sobre a sociedade Iorubá do
sudoeste da Nigéria, eu apresento um tipo diferente de organização familiar.
A família Iorubá tradicional pode ser descrita como uma família não-
generificada. É não-generificada porque papéis de parentesco e categorias não
Plantando a Capoeira Angola: Sentipensamentos sobre Capoeira Angola, mulheridades e Amazônia
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 18
são diferenciados por gênero. Então, significativamente, os centros de poder
dentro da família são difusos e não são especificados pelo gênero. Porque o
princípio organizador fundamental no seio da família é antiguidade baseada
na idade relativa, e não de gênero, as categorias de parentesco codificam
antiguidade, e não gênero.
Consideramos, assim, de grande força política e simbólica a participação de Mametu
Nangetu em nosso evento, que nos abriu o salão do Mansu Nangetu e nos deu sua bênção para
a roda de abertura. A ela rendemos nossos sinceros agradecimentos! Lembramos e citamos o
papel fundamental de outras mães em Belém, como Mãe Nalva, Mãe Jucy D’oya, Mametu
Muagile, entre outras, como mulheres de fronte na luta por políticas públicas, a favor de uma
cultura da paz e no combate contra o racismo religioso e ambiental, tão arraigado em nosso
país. Essas mães também vêm formando toda uma geração de jovens negros e negras que têm,
de forma crescente, protagonizado movimentos artísticos, culturais e intelectuais que impactam
a cidade, para muito além do território dos terreiros. É marcante também a presença de homens
que frequentam os terreiros, de distintas classes sociais e diferentes origens étnicas e que
embora exerçam funções de suma importância no funcionamento dos terreiros, como é o caso
dos tatas, dos ogãs
12
, estão ali sob o comando, na maioria das casas de santo, das vozes de
mulheres.
12
Ogã ele é um sacerdote que não tem mediunidade para incorporação, ele é considerado pai de santo também
dentro das casas. Ele no caso, o ogã ele pode exercer várias funções dentro do candomblé, na verdade o ogã,
quando ele é iniciado ou confirmado, ele é designado para uma função específica que pode ser de corte ou de
toque. Tem o ogã que é responsável por tocar, por conduzir os atabaques e a música também né e por consequência
a dança e tem os ogãs que já são ligados a outras funções.
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 19
Figura 2 Roda de Capoeira Angola no Mansu Nangetu
Fonte: Acervo da autora. Mametu Nangetu, Coletivo Angoleiras Cabanas, Mestra Samme, Mestra Di,
Coletivo Angoleiras de Upaon Açu, Convidados e Filhos de Santo do Mansu Nangetu
Sinto, logo sei. A decolonialidade do que fomos ensinadas e ensinados a sentir também
é urgente. O encontro com mulheres que, mais tempo que nós, caminham na capoeira
angola, nos candomblés, carimbós, tambor de criola, batuques e hoje ocupam posições de
destaque em âmbito nacional e internacional nos inspira e nos (co)move. Eu me recordo de um
momento em que Mestra Samme referia-se com muito respeito a outras mestras dentro da
capoeira. As reflexões de Samme, ao se referir ao comportamento delas, girava em torno de
frases como: ver aquela mulher tocar, cantar daquela forma e ter batido aquela rasteira
naquele cara, aquilo fala por si, é um grande exemplo, é a forma daquela mulher de estar
na luta. Ela não precisa falar sobre feminismo, ela é a militância”.
Inspirada nas reflexões de Samme sobre os distintos nomes que possamos dar as nossas
lutas, eu percebia a riqueza que um evento de mulheres diversas pode provocar. Admitir as
diferenças existentes entre nós dentro de um coletivo, começou a me parecer de fundamental
importância para que a força do coletivo não atropelasse as subjetividades. Sentipensar os
limites de aproximação como caminhos para elaborar estratégias de boa convivência e respeito,
dando suspiro para as distâncias também necessárias, mesmo no interior de comunitas, também
Plantando a Capoeira Angola: Sentipensamentos sobre Capoeira Angola, mulheridades e Amazônia
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 20
passou a me parecer muito importante. Embora percebamos que nossa diversidade e nossas
diferenças gerem, por vezes, conflitos, também podemos perceber a força de agregar diferenças,
pela diversidade de complementares olhares, talentos e potências, que somados, formam um
corpo de coletividade realizador.
Durante o evento, ainda em Belém e, em seguida, no espaço do Arte Fazenda, na Vila
do Apeú, eu também (re)sentia a difícil relação que eu mesma tinha tido com outras mulheres,
da minha própria família e de outros espaços. (Re)sentia tantas vezes ter me sentido
negligenciada e violentada por elas também, e não apenas por homens, pois mulheres também
violentam umas às outras. Por mais espinhoso que isso seja, precisa ser dito, assim como precisa
ser examinado o potencial de ser violenta que também temos cada uma de nós, marcadas por
tanto.
O caminho de cuidado, acolhimento entre nós não é óbvio num sistema que tem um dos
seus pilares sediado no machismo. Longo é o caminho de reconstruções para nos irManarmos
num sistema que nos dispõe como inimigas e introjeta em nós sentimentos de competitividade,
estrategicamente. Justo assim, o coletivo Angoleiras Cabanas surgiu com o propósito de que
treinando juntas pudéssemos fortalecer laços de companheirismo, na luta que cada uma faz para
melhorar como capoeiristas e para soterrar o patriarcado que existe, inclusive, dentro de nós
mesmas. Nesse sentido, também acredito ser possível aproximar o conceito de sentipensar para
descrever o que vivenciei no coletivo e especialmente o que vivenciamos com esse evento,
sentindo que esse espaço foi um ambiente educacional formador e transformador das pessoas
envolvidas. Segundo Moraes e de La Torre (2001, p. 16):
É importante lembrar que através da ação/reflexão mudamos estruturalmente
em nossa corporalidade, segundo o curso de nossas emoções, de nossos
pensamentos e sentimentos, dos conteúdos de nossas conversações e
reflexões. É desta maneira que o viver/conviver se estabelece e vai modelando
os diferentes domínios de nossa existência. Na realidade, o domínio de nossa
existência é sempre o domínio de uma co-existência, de uma co-deriva natural
nas palavras de Maturana, de existências coletivas, cujas transformações
estruturais dependem dos valores, desejos e aspirações de cada um de nós
Quero dialogar, aqui, com o pensamento da mulheirista Audre Lorde, em sua pujante
compilação de ensaios, Irmã Outsider, sobretudo no ensaio A Poesia Não É Um Luxo, no qual
a autora fabula justamente sobre o lugar de poder das mulheres, que, para ela, se situa no nosso
poder de compreendermos o mundo também, para além da razão, a partir dos sentimentos.
Vivemos em uma sociedade pautada no exacerbado raciocínio lógico cartesiano e essa
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 21
sociedade colapsada, hoje, precisa buscar novas possibilidades de caminhos, esperanças de
porvir. Segundo Lorde (2019, p. 46):
quando entramos em contato com nossa ancestralidade, com a consciência não
europeia de vida como situação a ser experimentada e com a qual se interage,
aprendemos cada vez mais a apreciar nossos sentimentos e a respeitar essas
fontes ocultas do nosso poder - é delas que surge o verdadeiro conhecimento
e com ele, as atitudes duradouras.
me encaminhando para o fim desta escrita, quero ainda suscitar reflexões sobre
processos de colonialidade em relação a nossa região norte, Amazônia paraense, mais
especificamente, dentro desse universo da capoeira angola. Da mesma maneira que mulheres
são subalternizadas dentro de uma prática que se pretende libertária, também nossa região é
tratada de forma desigual em relação a centros de referências de capoeira angola, muito embora
historicamente e estatisticamente, a prática da capoeira se apresente como antiga e constituinte
da cultura da cidade de Belém. Aqui e na Amazônia de forma geral, vive-se um isolamento
geográfico em relação a outros centros culturais do país, que lançam para a floresta amazônica,
suas cidades e povos um olhar que nos exotiza e nos como lugar tanto de repositório das
riquezas nacionais, como território a ser conquistado.
Embora a prática da capoeira em Belém remonte séculos de história, a modalidade
da capoeira angola nessa mesma cidade é uma tradição que vem se forjando
aproximadamente 20 anos, segundo uma média de relatos de praticantes, protagonistas dessa
história. Isso faz com que os interessados na modalidade passem a se relacionar com mestres
da Bahia e de alguns outros estados do país, investindo em formações que se dão ou com a ida
dos capoeiristas locais aos centros tradicionais da capoeira angola, ou com a vinda de mestres
que oferecem oficinas na cidade. Essa dinâmica teria nos colocado mais uma vez no lugar de
uma região exótica desabitada pronta para ser desbravada por pessoas de outras regiões.
Atualmente, existem alguns poucos mestres, contramestres e treineis de capoeira angola e ainda
nenhuma mulher contramestre ou mestra em nossa cidade nessa modalidade de capoeira,
embora já existam treineis mulheres.
Como proposta do evento Plantando a Capoeira Angola, não queríamos repetir mais
uma vez relações colonialistas, trazendo mestres dos grandes centros de referência de capoeira
angola. Optamos então, como estratégia, pela aliança com o coletivo Angoleiras de Upaon
Açu, de São Luís, capital vizinha a Belém. Inclusive, historicamente toda essa região em outro
Plantando a Capoeira Angola: Sentipensamentos sobre Capoeira Angola, mulheridades e Amazônia
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 22
momento histórico se chamava Grão Pará, desde São Luís até Belém. Apostamos nessa aliança:
outro coletivo de mulheres fora do circuito tradicional de capoeira angola no país.
Adentrando um pouco mais em questões da realidade amazônica, onde localizam-se as
cidades ditas mais pobres do país e, não por acaso, onde a exploração sexual de mulheres
também possui alto índice, gostaria de dialogar com o pensamento de Vandana Shiva (2004),
para quem a ideologia do progresso chama de pobreza a prudente subsistência, destruindo
estilos de vida sustentáveis e criando a verdadeira pobreza material. As economias de
subsistência praticadas em muitos territórios terceiro mundistas, também praticada entre
ribeirinhos, quilombolas, indígenas amazônicos não são pobres no sentido de estarem privadas
de algo, mas são assim denominadas porque não participam da economia de mercado. Dessa
forma, os povos amazônicos, guardiões da floresta são vistos pelo restante do país como
desprovidos, quando, em verdade, vêm guardando as derradeiras riquezas naturais desse
importantíssimo bioma para o planeta. O sistema capitalista, racista, misógino trava uma guerra
contra a natureza, contra as mulheres, contra os povos originários, contra crianças, contra as
populações mais pobres.
Após o evento Plantando a Capoeira Angola, tivemos a oportunidade de realizar falas
sobre a trajetória do Coletivo Angoleiras Cabanas, numa live realizada em abril de 2022, no
Programa Mandinga de Mulher, proposta por um outro coletivo independente de mulheres
angoleiras do estado da Bahia, que se intitulam como Marias Felipas. Considerei análoga a
proposta desse coletivo em relação ao nosso, pelo seu formato independente. Portanto, trouxe
aqui a voz de Christine Zonzon, integrante do Marias Felipas, praticante de capoeira angola
desde a década de 80, em Salvador, pesquisadora, autora dos livros Nas Rodas da Capoeira e
da Vida Corpo Experiência e Tradição e O Legado de Ritinha da Bahia Mulheres no jogo da
Resistencia e uma das diretoras do filme documentário Mulheres da Virada, em entrevista
cedida em maio de 2022, sobre o coletivo Marias Felipas:
[...] a gente participou de congressos acadêmicos propondo rodas,
discussões, sempre sobre o tema da opressão de gênero na capoeira e fora da
capoeira, mas o nosso foco sempre foi de uma luta dentro da capoeira,
desconstruir, questionar e denunciar a violência de gênero que se exerce de
uma forma às vezes simbólica, às vezes física e sexual também, claro.
Quais segredos o patriarcado nos fez esconder durante tanto tempo, nos recônditos, tão
guardados e que agora parece vir do subterrâneo, como lava quente de vulcão, pelas vozes de
movimentos sociais, que reclamam espaços antes negados? O que, sobretudo, temos a ensinar
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 23
depois de séculos de vigílias e punições sobre nossos corpos e sentimentos e que pode apontar
caminhos de construções de outras convivências sociais pautadas em mais equidade?
Eu já vou beleza, eu já vou me embora
Quando, em meados dos anos 30, no século XX, os dois estilos de capoeira, angola e
regional, surgiram a partir de uma cisão de princípios entre Mestre Bimba e Mestre Pastinha,
Belém manteve-se como uma cidade onde predominou a prática da capoeira regional. No fim
dos anos 80, então, o Núcleo de Capoeira Angola Arte e liberdade (NUCAAL), que funcionava
na sede do prédio do vadião na Universidade Federal do Pará (UFPA), coordenado pelo mestre
Bezerra, mas que contou com a passagem de vários outros mestres locais, protagonizou um dos
primeiros processos de transição de um grupo de capoeira regional para um grupo de capoeira
angola. Lembro de alguns nomes de mulheres que integraram esse coletivo: Tuca e Sueli, por
exemplo, e relembrá-las mais detalhadamente também fica para um próximo texto.
Concomitante a isso, um outro grupo, liderado pelo Mestre Índio, o Angola Dobrada
também atuava no estado do Pará e se dedicava à prática da capoeira angola. Destaco, dessa
época a presença da angoleira Walquiria Fagundes. que hoje figura como uma das angoleiras
mais antigas da cidade e também atuante no coletivo Angoleiras Cabanas. Não posso deixar de
citar, ainda, ao um pouco da minha própria trajetória, a figura emblemática da angoleira Vitória
Aranha, falecida recentemente, que fez parte da Federação Internacional de Capoeira Angola
(FICA) e morou em Belém no início dos anos 2000, tendo um papel muito importante e pioneiro
na capoeira angola em Belém.
Comecei minha história com a capoeira angola em 2003. Naquela época, fiz minha
primeira viagem a Belo Horizonte, buscando formação em teatro. Flanando pelas ruas do
centro, recebi um panfleto de um desconhecido: tratava-se de uma divulgação para um
aniversário de um mestre de capoeira angola, mestre João Espiritual, resolvi então ir para o
aniversário, e, ao olhar a festa, me estonteei! Era o canto do Grão Mestre Dunga que soava no
ambiente, e quem estava no jogo era o mestre João. Os corpos derramavam-se pelo chão em
arabescos, e eu fui atravessada pela poética daqueles gestos. Na semana seguinte, tive meu
primeiro treino de capoeira angola com o então treinel Daniel, hoje mestre Daniel. Seis meses
depois, já de volta a Belém, ouvi falar de um grupo que se reunia à noite no prédio do vadião,
na UFPA, e que praticava esta modalidade de capoeira: a capoeira angola. Quando cheguei ao
grupo a presença da Vitória Aranha era marcante. Naquele momento composto por muitas das
Plantando a Capoeira Angola: Sentipensamentos sobre Capoeira Angola, mulheridades e Amazônia
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 24
pessoas que hoje continuam protagonizando, por Belém e outras cidades do Pará, as práticas de
capoeira angola, esse grupo que incialmente conheci se desfez e refez inúmeras vezes, por conta
de variados conflitos. Vitória Aranha, mulher preta que junto a outros homens liderava o grupo
naquele momento, foi de fundamental importância para a vinda de muitos mestres de capoeira
angola para Belém.
Após esse primeiro contato em 2003, em Belo Horizonte, no ano seguinte Mestre João
esteve pela primeira vez em Belém, acompanhado da Mestra Lena Santos. Em 2005, eu os
encontrei novamente em Porto Alegre, na edição do Fórum Social Mundial daquele ano, e de
lá, quando acabou o fórum, segui para Belo Horizonte mais uma vez. Em 2009, estive
novamente na capital mineira, em uma edição do Lapinha Museu Vivo no Mês da Abolição,
encontro de capoeira realizado anualmente pela Associação Cultural Eu Sou Angoleiro
(ACESA) e pela Associação dos Atores da Pândega, coordenada pelo Mestre Gersino, em
Minas Gerais. Finalmente, em 2010, fui residir em Belo Horizonte, onde fiquei durante sete
anos, convivendo com os Mestres João e Lena e outras referências da ACESA, treinando
capoeira angola e dança afro-brasileira. Mestra Lena, então, é uma referência de mestra mulher
com quem convivi.
Essas memórias me povoavam a alma durante o Plantando Angola. No mês de fevereiro,
convivemos com um alto índice pluviométrico, e sendo eu em minha mulheridade, das águas,
sentia-me atravessada por todas essas voltas ao mundo, correntezas pessoais, enquanto sangrava
alí, dentro de um evento de mulheres. Convoco, novamente, Audre Lorde, que ao falar sobre o
conceito de mulheres-que-se-identificam-com-mulheres, destaca que:
Para as mulheres, a necessidade e o desejo de cuidarem umas das outras não
são patológicos, mas redentores, e é nesse saber que o nosso verdadeiro poder
é redescoberto. É essa conexão real que é tão temida pelo mundo patriarcal.
Somente em uma estrutura patriarcal é que a maternidade é o único poder
social disponível para as mulheres [...] A diferença (entre mulheres) não deve
ser apenas tolerada, mas vista como uma reserva de polaridades necessárias,
entre as quais nossa criatividade pode irradiar como uma dialética [...] Como
mulheres, fomos ensinadas a ignorar nossas diferenças, ou a vê-las como
causas de desunião e desconfiança, em vez de encará-las como potenciais de
mudança
O retorno e a inspiração à África Mãe e a outras formas de organização de povos
originários atualiza-se no comportamento de mulheres que não são subservientes; nesse caso
específico, mulheres amazônidas de corpos encapoeirados. Mais fortalecidas em nossas
práticas, seguimos, daqui de Belém, esperando que todas possam ter na capoeira angola esse
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 25
território de pertencimento e fortalecimento para as lutas diárias, de bem viver de formação e
transformação de si e do meio, como nos sugere o sentipensar enquanto caminho pedagógico.
Por mais mulheres em suas diversidades praticando a capoeira angola, por homens conscientes
e aliados na luta contra o patriarcado. Salve a Capoeira Angola, essa entidade viva que se
manifesta em nossos corpos e nos nutre a vida! Salve as mulheres de tradição, as angoleiras,
que pela prática da capoeira angola, atualizam em seus corpos a memória coletiva de mulheres
protagonistas de suas rExistências.
A presença de mulheres que sempre estiveram na capoeira continuará a existir no que
depender das inúmeras mulheres que hoje treinam e formam outras mulheres e homens na
capital da Amazônia. Belém é uma cidade de tradição de capoeiragem, que aqui assumiu
contornos próprios, merecedora da devida reverência, independente dos discursos de
modalidades de capoeira angola e regional. Mulheres capoeiristas aqui, desde Maria Meia-
Noite passando por Mestra de Anjo, Mestra Cigana, Mestra Lene, Mestra Catita, Vitória
Aranha, entre tantas outras, existiram, rExistem e existirão. Que possamos superar a reprodução
de machismos nesses espaços, reconhecendo outros corpos possíveis, assim como formas de
convivência pautadas no cuidado, colaboração, respeito mútuo, nos quais sentimentos e
pensamentos estejam articulados na produção de corpos encapoeirados.
REFERÊNCIAS
ACOSTA, A. O bem viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo:
Autonomia Literária Elefante, 2016.
BUTLER, J. Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2003.
Do Morro Produções. Confluências Antônio Bispo. Youtube. 28/06/2021. Disponível em:
https://youtu.be/fi-4T8tdYDY. Acesso em: 14 maio 2022.
EVARISTO, C. Literatura negra: uma poética de nossa afro-brasilidade. Scripta, v. 13, n. 25,
p. 17-31, 2009.
FOLTRAN. P. J. Capoeira é pra homem, menino e mulher: angoleiras entre a colonialidade e
a descolonização. Sankofa. Revista de História da África e de Estudos da Diáspora
Africana, São Paulo, v. 10, n. 19, agosto 2017.
FOLTRAN. P. J. Mulheres Incorrigiveis Histórias de Valentia, Desordem e Capoeiragem
na Bahia. São Paulo: Ed. Dandara, 2021.
Plantando a Capoeira Angola: Sentipensamentos sobre Capoeira Angola, mulheridades e Amazônia
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 26
FONSECA, M. B. Poderosas Rainhas Africanas. Belo Horizonte: Ancestre, 2021.
FONSECA, M. B. Iê Aruanda! A memória de Angola cantada na capoeira. In: MELO, J. C.
de (org.). Caleidoscópio de Clio: saberes históricos em diferentes espaços de memória.
Belém: RFB, 2022.
GONZALEZ, L. A mulher negra na Sociedade Brasileira: uma abordagem político
econômica. In: Por Um Feminismo Afro Latino Americano Ensaios Intervenções e
Diálogos. Rio de Janeiro: Zahar,2020.
LORDE, A. A Poesia não é um luxo. In: LORDE, A. Irmã Outsider. Belo Horizonte:
Autêntica, 2019.
MARINHO, A. F.; ASSUNÇÃO, B. K. Saberes Ancestrais e o Combate à Colonialidade de
Gênero: a experiência do coletivo Angoleiras Cabanas em Belém-PA. Revista Gênero na
Amazônia, n. 10, p. 61-70, jul./dez. 2022.
MARTINS, B. M. (org.). ABC da Capoeira Angola Catingas de capoeira sobre Mulheres,
Crianças e Campesinato: material auxiliar para treinos e letramento de crianças. Belém:
Edição da autora, 2022.
MARTINS, L. M. Afrografias da Memória. São Paulo: Perspectiva; Belo Horizonte: Mazza
Edições, 1997.
MARTINS, L. M. Performances do Tempo Espiralar. Poéticas do Corpo Tela. Rio de
Janeiro: Cobogó, 2021.
MENEZES, B. de. Batuque. Belém: edição do autor, 1939.
MORAES, M. C.; TORRE, S. de La. Sentipensar sob o olhar autopoiético: estratégias para
reencantar a educação. São Paulo: PUC, 2001.
MORAES, M. C.; TORRE, S. de La. Os fundamentos do sentipensar. In: MORAES, M. C.;
TORRE, S. de La. Sentipensar: fundamentos e estratégias para reencantar a educação.
Petrópolis, RJ: Ed. Vozes, 2004.
OYÈWÙMI, O. Conceituando o gênero: os fundamentos eurocêntricos dos conceitos
feministas e o desafio das epistemologias africanas. In: BERNARDINO-COSTA, J.;
MALDONADO-TORRES, N.; GROSFOGUEL, R. (org.). Decolonialidade e pensamento
afrodiaspórico. Belo Horizonte: Autêntica, 2020.
Rádio Capoeira. Programa Mandinga de Mulher apresenta: Imagens e Memórias de Mulheres
na Capoeira. Youtube, 09 abr. 2022. Disponível em:
https://www.youtube.com/live/gsEhKItwVzk?feature=share. Acesso em: 15 abr. 2022.
SALLES, V. O Negro na Formação da Sociedade Paraense. Belém: Paka-Tatu, 2004.
SILVA, D. F. da. INTRODUÇÃO (Di)Ante(s) do Texto. In: A Dívida Impagável. São Paulo:
Oficina de Imaginação Política e Living Commons, 2019.
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 27
TAVARES, R. Mulheres de Fogo. In: fanzine. Belém, 2008.
TEIXEIRA. C. P. V. Nas Voltas que o Mundo Deu Nas Voltas que o Mundo Da: Um
Estudo sobre Ritual e Performance na Capoeira Angola em Belém. Orientadora: Prof. Dr.
Marilu Campelo. 2010. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) Universidade Federal
do Pará, Belém, 2010.
SILVA, M. Z. G. da. Movimento capoeira mulher: Saberes ancestrais e a práxis feminista
no século XXI em Belém do Pará. Orientação: Prof. Dr. Ariel Feldman. 2016. Dissertação
(Mestrado em Educação e Cultura) Universidade Federal do Pará, Cametá, PA, 2016.
SHIVA, V. La mirada del ecofeminismo. Revista On-Line de la Universidad Bolivariana,
v. 3, n. 9, 2004.
WALSH, C. Interculturalidade Crítica e Pedagogia Decolonial: in-surgir, re-existir e re-viver.
In: CANDAU, V. M. (org.) Educação Intercultural na América Latina: entre concepções,
tensões e propostas. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2009.
Entrevistas:
KALIFE, Brenda. O Coletivo Angoleiras Cabanas. Entrevistadora: Carmem Pricila
Virgolino Teixeira. Arquivos pessoais da entrevistadora. Em: 10/03/2022.
MARTINS, Bruna. O Coletivo Angoleiras Cabanas. Entrevistadora: Carmem Pricila
Virgolino Teixeira. Arquivos pessoais da entrevistadora. Em: 10/03/2022.
ZONZON, Christine. O Coletivo Marias Felipas. Entrevistadora: Carmem Pricila Virgolino
Teixeria. Em: 14/05/2022.
D’OYA, Xokeide. O Candomblé. Entrevistadora: Carmem Pricila Virgolino Teixeria. Em:
16/05/2022.
Plantando a Capoeira Angola: Sentipensamentos sobre Capoeira Angola, mulheridades e Amazônia
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 28
CRediT Author Statement
Reconhecimentos: Não se aplica.
Financiamento: A pesquisa foi realizada com financiamento da CAPES.
Conflitos de interesse: Não há conflitos de interesse.
Aprovação ética: Não passou por comitê.
Disponibilidade de dados e material: Não se aplica.
Contribuições dos autores: Autoria única.
Processamento e editoração: Editora Ibero-Americana de Educação.
Revisão, formatação, normalização e tradução.
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 1
PLANTING CAPOEIRA ANGOLA: FEELINGS AND THOUGHTS ABOUT
CAPOEIRA ANGOLA, WOMANITIES AND THE AMAZON
PLANTANDO A CAPOEIRA ANGOLA: SENTIPENSAMENTOS SOBRE CAPOEIRA
ANGOLA, MULHERIDADES E AMAZÔNIA
PLANTANDO CAPOEIRA ANGOLA: SENTIMIENTOS Y PENSAMIENTOS SOBRE
CAPOEIRA ANGOLA, LAS MUJERES Y LA AMAZONIA
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA1
e-mail: carmemvirgolina@gmail.com
How to reference this article:
TEIXEIRA, C. P. V. Planting Capoeira Angola: Feelings
and thoughts about Capoeira Angola, womanities and the
Amazon. Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n.
00, e023018. e-ISSN: 2359-2419. DOI:
https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794
| Submitted: 21/05/2022
| Required revisions: 16/01/2023
| Approved: 24/05/2023
| Published: 22/12/2023
Editors:
Profa. Dra. Maria Teresa Miceli Kerbauy
Prof. Me. Mateus Tobias Vieira
Profa. Me. Thaís Caetano de Souza
1
Theater-dance artist-researcher, capoeira player, social educator and cultural producer. Researcher linked to the
Brazilian Association for Research and Postgraduate Studies in the Performing Arts (ABRACE). PhD in Arts from
the Postgraduate Program in Arts at the Federal University of Pará, Master's Degree in Social Sciences, with an
emphasis on Social Anthropology from the Postgraduate Program in Social Sciences at the Federal University of
Pará, Bachelor's Degree in Letters with a major in French Language from the Federal University of Pará.
Planting Capoeira Angola: Feelings and thoughts about Capoeira Angola, womanities and the Amazon
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 2
ABSTRACT: This essay intends to feel/think about the event Plantando a Capoeira Angola,
highlighting the protagonism of women in capoeira. Starting from a confluence of narratives, based
on experiences presented here, the text seeks to articulate the experiences that occurred at the event
with interdisciplinary theoretical references that put in dialogue concepts such as feelingthinking
and black performance. Demonstrating how an experience among women capoeiristas (capoeira
players) can provide reflections and encouragement so that we can announce a new era of capoeira
that welcomes the diversity of bodies that manifest it, this essay affirms the participation of women
in capoeira and their historical importance in it. Evidencing connections between matripotent
women with African motives and Amazonian ancestry in Belém, this writing announces the
effectiveness of groups, conversation circles, meetings self-managed by women as spaces that favor
the affirmation of plural identities in the universe of capoeira.
KEYWORDS: Women. Capoeira Angola. Black performance. Feelings. Writing.
RESUMO: Este ensaio pretende sentipensar o evento Plantando a Capoeira Angola, evidenciando
o protagonismo de mulheres na capoeira. Partindo de uma confluência de narrativas pautadas em
vivências aqui apresentadas, o texto busca articular as experiências que ocorreram no evento a
referenciais teóricos de áreas diversas do conhecimento, que põem em diálogo conceitos como
sentipensar e performance negra, os quais serão esmiuçados no decorrer do texto. Ao evidenciar
como uma vivência entre mulheres capoeiristas pode propiciar reflexões e incentivo para que
possamos anunciar um novo tempo, de uma capoeira que acolha a diversidade de corpos que a
manifestam, este ensaio afirma participações de mulheridades na capoeira e a importância
histórica delas nesse contexto. Tecendo conexões entre mulheridades matripotentes de motrizes
africanas e ancestralidades amazônicas em Belém, a presente escrevivência anuncia a eficácia de
grupos, rodas de conversas, encontros autogeridos por mulheres como espaços que favorecem a
afirmação de identidades plurais no universo da capoeira.
PALAVRAS-CHAVE: Mulheridades. Capoeira Angola. Performance negra. Sentipensamentos.
Escrevivência.
RESUMEN: Este ensayo tiene como objetivo reflexionar sobre el evento Plantando a Capoeira
Angola, destacando el papel protagónico de la mujer en la capoeira. A partir de una confluencia
de narrativas basadas en las experiencias aquí presentadas, el texto busca articular las vivencias
ocurridas en el evento con referentes teóricos de diferentes áreas del conocimiento, que ponen en
diálogo conceptos como sentimiento y performance negra, los cuales se detallarán a lo largo. el
texto. Al resaltar cómo una experiencia entre mujeres capoeiristas puede proporcionar reflexiones
y estímulos para que podamos anunciar una nueva era, de una capoeira que acoge la diversidad
de cuerpos que la expresan, este ensayo afirma la participación de las mujeres en la capoeira y su
importancia histórica en esta contexto. Tejiendo conexiones entre mujeres matripotentes de origen
africano y ascendencia amazónica en Belém, este escrito anuncia la eficacia de grupos, círculos
de conversación, encuentros autogestionados por mujeres como espacios que favorecen la
afirmación de identidades plurales en el universo de la capoeira.
PALABRAS CLAVE: Mujeres. Capoeira Angola. Rendimiento negro. Sentimientos. Escribiendo.
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 3
You don't know it, but I'm one of those women of fire
Those women of fire are my breath[...]
And when you see me passing by
The naked eye doesn't notice me being carried by them
Because in me go all them
(Roberta Tavares - Mulheres de Fogo, our translation)
I went to the jurema tree
I got its seeds
I brought them along
I've planted elsewhere
(Corrido de capoeira angola, our translation)
Excuse me, old pal, excuse me for arriving
2
- Introduction
The following essay aims to record and reflect on the importance and unprecedented
nature of the first capoeira angola meeting organized by angoleiras, with the participation only
of women, in the Amazon region of Pará. The event entitled "Plantando a Capoeira Angola"
(Planting Capoeira Angola) took place between the 3rd and 6th of February, 2022, in two
municipalities in Pará: Belém, the state capital, and Castanhal, a nearby town, 75 km from the
capital. I would like to point out to the reader that in this text I assume my feelings, memories
and poetics, which are present in my artistic work and also in my writing. In this way, I may
cause discomfort in a certain academic order that insists on affirming Cartesian reasoning, with
its dichotomies, as the only source of knowledge production. What would be the point of a
student linked to a postgraduate program in the arts, if not to challenge the post-positivist
paradigms of writing in the academic world?
My main dialogue is with the concept of feeling-thinking. According to Moraes and
Saturnino (2004), from the field of pedagogy, emotional education and the teaching-learning of
ways of relating is of fundamental importance, and above all, scrutinizing the close link between
perceiving, feeling, thinking and acting, highlighting the connection between our emotions and
our attitudes. For the authors, love, for example, is a feeling that can be taught and learned as a
form of mutual respect and solidarity. In this way, environments in which the close link between
2
In each subtitle of the text, I include excerpts from capoeira angola songs translated by the journal’s team. And I
use italics to mark excerpts from songs and also testimonies from practitioners.
Planting Capoeira Angola: Feelings and thoughts about Capoeira Angola, womanities and the Amazon
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 4
cognition and affectivity is recognized, this teaching-learning is favored and, in this way, I
demonstrate, through reports, how a capoeira angola event, which was formatted among
women, was configured in an environment in which capoeira manifested itself as an efficient
tool for engendering anti-machist reflections, among which the production of this essay is a
sample.
Furthermore, I am dialoguing with Evaristo's (2009) concept of writing as an
experience, for whom there is a specific corpus of writers in Brazil whose writings are crossed
by experiences of/with blackness. Based on these dialogues, and twenty years of capoeira
angola practice, I justify the license I give myself to write in the first person and the theme of
my experiences in collectives as a relevant fact for discussing concepts that contribute to the
debate on gender relations in our society and in capoeira. I also call on the voices of the
collective's members to contribute to this writing, bringing into the text some of their speeches,
the fruit of informal conversations or questions directed at comrades and masters, generating,
to use a term used by Mestre Nego Bispo, a confluence of narratives, like the meeting of rivers,
which do not leave their singularities when they meet, but which, together, form something
greater. In this sense, I am especially grateful for the dialogues with mana
3
(sister) Mayara La
Rocque, a poet, writer and member of the collective, who was an important interlocutor in the
final organization of the structure of this text.
As with my other work, this essay represents one view, among many others, of the topics
covered. Far from claiming to be absolute truth, or the possibility of exhausting the topic, it
presents itself as an opportunity for narrative exercise. Furthermore, it is also a response to the
debt I feel I have owed by not being able, in the face of countless misogynistic pressures, to
dedicate a proper section to the issue of gender in the dissertation I wrote on capoeira angola in
Belém, approximately twelve years ago, in which I timidly ask in the introduction to the work
(TEIXEIRA, 2010, p. 23, our translation): "In a traditionally male environment, does a woman
seeking to reflect on this universe become a threatening representation?". So, more than ten
years later, I myself answer yes, but I intend to rephrase the initial statement in the dissertation,
in which I referred to the capoeira environment as traditionally masculine, because this
environment has always been crossed by womanhood.
3
I chose to footnote some of the terms inherent to the universe of capoeira angola and/or social activism in Belém,
and to italicize words inherent to this universe in the text. I proposed a dynamic to a group of companions who are
part of the collective and I then included in the notes to the text the definitions of Brenda Kalife, Bruna Matins and
Xokeide d'Oya for some capoeira angola and candomblé angola terms.
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 5
Before I go any further, I would also like to explain my choice, right from the title of
the essay, of using the word "womanities" instead of other words like "feminine", for example.
This choice reflects the fact that I believe it is the right way to represent the plurality of women's
identities present at the meeting. I could say that none of the women present there perform the
current expectation of a femininity that refers to fragility, passivity and objectification, as the
word feminine, or even woman, can evoke. We become women not because of a biological
condition, but because we identify with and learn social behaviors that vary from culture to
culture and which, within the same social group, can take on different aspects. As Butler (2003,
p. 09, our translation) asks: "Would being a woman constitute a natural fact or a cultural
performance, or would naturalness be constituted through discursively compelled performative
acts, which produce the body within and through the categories of sex?" For the author, gender
identity categories are the result in the West of two defining institutions: phallocentrism and
compulsory heterosexuality.
I Want to See Idalina - The presence of women in capoeira
The presence of women in capoeira goes back a long way. For many historians, the
oldest records of these presences are associated with a context that dates back to the 19th
century. In the words of other masters, ginga
4
itself, the word used to describe capoeira's main
body movement, is a reference to Queen Nzinga Mbandi, an African queen well known for
having won several battles in Angola against the Portuguese colonizers, celebrated for her
remarkable intellectual and physical abilities. According to Fonseca (2021, p. 62, our
translation):
Njinga Mbandi is still remembered today in Angola as a symbol of the struggle
against colonization and her story was recovered by the independence
movements in the 1970s. In the diaspora, her name also appears in many
manifestations of Afro culture, such as capoeira, congados and candomblés,
associated with black resistance and female power.
Sendo então o principal movimento da capoeira, a ginga, que consiste em balançar o
corpo, ludibriando assim o oponente, uma homenagem numa derivação do nome da rainha
Nzinga, percebemos, como apontam historiadoras, como Fonseca (2021) e Foltran (2017), que
embora a capoeira seja costumeiramente vista como um espaço masculino, sempre contou em
4
Capoeira's basic movement, in which, by exchanging legs and arms, the body prepares for other attack and
defense movements.
Planting Capoeira Angola: Feelings and thoughts about Capoeira Angola, womanities and the Amazon
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 6
suas formas de organização e lugares de expressão com a presença ativa de mulheridades.
Portanto, por que constatamos no ambiente da capoeira a reprodução de violências de gênero
contra corpos que não performatizam masculinidades?
In consonance with other women who feel strongly about capoeira, their narratives
highlight the contradiction that exists in the fact that this practice is a space for questioning the
colonial order, which enslaved black bodies, and at the same time, a space where many values
of patriarchy, one of the foundations of that same slave system. Thus emerged the Angoleiras
Cabanas collective, which has been gaining prominence in organizing women around the
practice of Capoeira Angola in the city of Belém since 2018. According to Marinho and
Assunção (2021, p. 63, our translation), "the collective was created with the aim of creating
healthy environments for the propagation of the ancestral knowledge inherent in capoeira
angola, as well as seeking to reflect on and intervene in the contradictions that still exist in this
practice". According to the creator and member of the collective, Brenda Kalife, in an interview
given in March 2022:
Every woman has experienced or is experiencing situations of oppression
within the practice of capoeira. However, there are few spaces where it is
possible to talk about it. With this in mind, the Angoleiras Cabanas collective,
a priori Flores de Angola, was created so that women could get together to
exchange knowledge, train and talk about the violence that crosses women's
bodies in this practice. In this way, the collective was created independently,
as an autonomous movement, with the aim of encouraging women to stick with
capoeira, having each other as comrades and accomplices in the anti-machist
struggle. In March 2002, we celebrated four years of life and existence, with
many lessons learned and achievements to tell.
With the deplorable increase in cases of violence against women, during the pandemic
period, added to experiences of violence against many of us within capoeira itself, we believe
that holding a capoeira angola event starring women would be a political action to combat the
social scourge of machismo, manifested in society as a whole, including, unfortunately, also
within capoeira and often, it is worth remembering, by women themselves.
We found that the way women lead capoeira is usually much more cooperative than
competitive, much more welcoming, which is why we decided to invite two female masters to
lead the event. There are countless reports of embarrassing situations caused by masculine
conducts that exacerbate martiality and physical strength, making it difficult to manifest
capoeira's enormous potential as a pedagogical tool for transforming the racist and sexist
system.
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 7
Figure 1 Planting Capoeira Angola
Source: Treinel Brenda Kalife e Mestra Di, na roda de abertura do evento, no terreiro de candomblé
angola Mansu Nangetu. Foto: Mel Mater
The concept of the event, in turn, focused on representativeness and ancestry, as well as
the connection between capoeira angola womanities and the Amazon rainforest, investing in
two female capoeira masters coming to Belém. According to Bruna Maria, a member of the
collective and organizer of the event, in an interview in March 2022, the connection between
nature as a living entity and capoeira angola is intrinsic:
In my opinion, capoeira is a field of multicultures and multi-resistance which,
in its universe, transmits in oral and corporal memory traditional, simple,
rural living and knowledge, often in a context of social marginalization. What
we experienced during the immersive days of Planting Capoeira Angola, to a
certain extent, was also a return to the collective, a return to mother earth.
Through the game of "vadiar angola", we also talked about food sovereignty,
caring for the planet, and agroforestry as a practice of caring for the soil and
generating food also nourishes this struggle for autonomy (our translation).
The main aspirations of this meeting were to discuss rEx(s)istence tactics and
confrontations against the evils of patriarchy, racism and other colonial practices of oppression,
including against nature; as well as the possibility of adding to the physical and musical
performances of the participating women a repertoire of songs, touches and movements. Here
Planting Capoeira Angola: Feelings and thoughts about Capoeira Angola, womanities and the Amazon
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 8
I use the term performance in its epistemological aspect, according to researchers in the field
of performance anthropology, which means restored behavior. Thus, any act performed,
restored by someone for the gaze of other people can be seen as a performance. In this sense,
everything from a simple movement that is repeated in the intimacy of someone's daily life to
a theatrical performance can be studied through the prism of performance. When we talk about
capoeira, we are referring to a type of performance that can be seen as a ritual performance.
According to Martins (1997, p. 72, our translation):
Ritual performances, ceremonies and celebrations, for example, are fertile
environments for memory, for the vast repertoires of mnemonic reserves,
kinetic actions, patterns, techniques and cultural procedures restored and
expressed in and through the body. Rites transmit and institute aesthetic,
philosophical and metaphysical knowledge, among others, as well as
procedures and techniques, both in their symbolic framework and in the modes
of enunciation, apparatuses and conventions that sculpt their performance.
I came on the Swing of the Angolan Sea Capoeira and Good Living
The meeting was strong and intense, just like the Amazonian winter storms that occur
between the end and the beginning of the year, and at the end of it, everyone had new land in
themselves, turned over, with seeds planted. For this reason, the insertion, in the epigraph that
opens this essay, of the corrido
5
that Mestra Di sang during the event serves as a metaphor
about taking seeds from one place and planting them in another, as if the coming of the masters
and manas from Maranhão had brought new seeds, stirring in us the ancient desire to continue
rEx(s)isting in good living, among us women, with society as a whole and with nature as a
living entity. It comes from the indigenous movement in Ecuador, for which, in the Kíchua
language, sumak kawsay, or good living - a term used in countless constitutions in South
American countries since the 2000s - proposes the construction of a different kind of society,
based, among other principles, on the recognition of nature as a subject of rights. According to
Léon T (2008, p. 01, our translation), the good life is
synthesizes ancestral visions and practices, current debates and proposals, the
accumulation of critical thinking and social struggles of recent decades; it
brings together national and international dynamics in response to the
'development model' and the 'civilization model' that have led to a situation
that is already recognized as unsustainable.
5
An oral capoeira song made up of verses (which can be created and modified), followed by a chorus that is sung
by everyone present in a capoeira angola roda.
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 9
The potential of capoeira angola as a space for the experience of good living is
undeniable. With regard to perspectives on good living, Acosta (2016, p. 27, our translation)
states that, in this line of thinking, "overcoming inequalities is inescapable. Decolonization and
depatriarchalization are fundamental tasks, as is overcoming racism, which is deeply rooted in
our societies."
This ongoing proposal, practiced by indigenous peoples and in Critical Interculturality
(WALSH, 2009) by other peoples as well, can be observed in African-driven cultures. Critical
Interculturality, a concept that also comes from South American indigenous movements, is
about the possibility of bringing together cultures that, even though they are different, come
together to implement proposals against capitalism. In the Amazon, the further the black people
went into the forest, the more they came into contact with indigenous peoples, especially when
it came to establishing collaborative solidarity.
Our current need in the Amazon to replant a huge part of the forest that has already been
devastated, to take care that deforestation does not reach the point of irreversibility and the
forest dies, can remind us of the tactics of enslaved black women who, when fleeing to
quilombos in Brazil, carried hidden seeds in their hair to cultivate other fields in freedom;
ancestral technology that points us to a future of hope in the need to plant, replant and cultivate
care. Therefore, the metaphor of the corrido mentioned in the epigraph is found there, where
exchanges of bodily and musical experiences are shared like seeds, and which also reminds us
of the urgency of caring for nature.
In this sense, it is worth remembering that in the quilombos, the name given to the war
training camps of the nomadic Jagas peoples in Africa, women played a fundamental role, were
numerous and adopted a warrior lifestyle. There, they took care of everything from food and
objects of war to handling hatchets and spears. In this way, they occupied fundamental
hierarchical positions in the waging of wars, as priestesses, on whom the warriors depended
(FONSECA, 2021). It is possible to draw analogies between the performances of quilombo
women from Africa and the identities of angoleiras, the name given to women who practice
capoeira angola.
It is worth noting that the state of Pará has, according to data from the Brazilian Institute
of Geography and Statistics (IBGE), the largest number of quilombos in the northern region,
where there is a vast contribution of black populations to local culture, which can be seen in the
corporealities of the folguedos present here and also in other local technologies. Because we do
not have a female capoeira angola master in the state, we invited two from other states to lead
Planting Capoeira Angola: Feelings and thoughts about Capoeira Angola, womanities and the Amazon
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 10
the event, mestra Di, from Pernambuco and mestra Samme, from Maranhão; with the aim of
relating the Amazonian context to issues of gender and race. The vast majority of the women
taking part in the event were Amazonian, women from Pará and Maranhão, neighboring
Brazilian states where the Amazon rainforest extends.
If the Amazon rainforest is inseparable from the people who inhabit it, because we are
the guardians of this biome, we can also associate the attacks and threats that the Amazon
rainforest suffers with the attacks that northern Amazonian women also suffer, which we can
see in the high rates of violence practiced against women in the region. The traditional peoples
of the Amazon, and this includes traditional peoples of African descent, are bled of their dignity
on a daily basis by the neglect with which the Brazilian state treats the region, which, although
it is one of the richest in the world in terms of natural resources, stands out as a place with the
worst human development indices in the country.
In this way, the presence of major projects in the region, such as the construction of
hydroelectric dams, which are imposed on us, built in disregard of the ecological and social
impacts caused, as well as the presence of gold mines, increase the vulnerability of women.
Often, with the arrival of capital, poverty sets in and women are pushed into prostitution,
making our region one of the champions of child and adolescent sexual exploitation, according
to Federal Police reports, and a marked route for the trafficking of cis and trans women, with
the omission of the Brazilian state, a fact that has been aggravated in the last four years by the
rise of an extreme right-wing government.
While I felt the richness of the plurality of personalities of the women present at
Plantando a Capoeira Angola, I had reminiscences of various types of abuse and harassment
that occur against women. I was internally fantasizing about our powers to rEx(s)ist and I
recognized various feelings(resentments) running through me: anger, fear, hope, desire, the
urgent need to become protagonists, narrators of our own journeys, accepting the weaknesses,
yes, which also constitute us, but not only that, also recognizing our capacities. I wanted to find
out what makes us strong, but I also had to realize that it is precisely in our weaknesses that our
strengths are forged. What other voices but those that have been subalternized know better than
any others the thirst for justice and liberation?
We wanted to find a cosmogonic time of women who did not start from a principle of
subservience, as in the white western world, but a time of women who know their protagonism.
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 11
So, we wanted capoeira angola to take us volta ao mundo
6
(around the world), to take a break
from the linear time of the capitalist system and spiral into the cosmological time of capoeira.
How could we do this if there are no women masters in the capoeira angola tradition in Pará?
How can we do this if the project of whitening the nation has tried and tries to erase the
narratives, memories and protagonisms of non-white women? For us, the Plantando a Capoeira
Angola event was such a possibility. According to Fonseca (2022, p. 08, our translation):
Kunene society - southern Angola - saw the Ngolo circle as a sacred space.
The elola or ovahakelela, the circle, was socially a special space that evoked
powerful images of the sacred status of force. The circular ritual was designed
to take practitioners to the spirit world. The capoeira roda takes up the social
value of the circle and is understood as "the tour of the world", the circle of
life where everything happens, where the most intimate characteristics of each
person are brought out, it is the real capoeira classroom where mestres are
trained and traditional practices and values are passed on, it is the stage where
the connection with the "mother earth" takes place. By making this "return to
the world", the angoleiro feels that he is reconnecting with his ancestry, as if
his soul could go to Africa and bring elements of the worldview of the ancients
to his game.
The question of the non-linearity of time and the multidimensionality of events has
always disturbed me. In spiral circularity, we are certainly linked to the matripotentes ancestors,
who have been invisibilized from the official discourses of history in general, and also from the
history of capoeira, placed in the background, but who have always been there in elements
already mentioned, such as the ginga, the cabaça
7
, in the circularity, in the malemolence of the
bodies, in the names of women mentioned in the songs, Marias, Idalinas, Catarinas, Salomés,
Nossas Senhoras, Sereias. We use the cyclical time celebrated in capoeira, which goes back to
a primordial time, as all traditional practices do in general, to celebrate and invoke in our own
bodies and experiences these other women from other times. In A Dívida Impagável (The
Unpayable Debt), sociologist and professor Denise Ferreira da Silva (2019, p. 45, our
translation) questions the pillars of modern Western thought, in dialogue with quantum physics,
and brings us back to a principle of unity:
Everything has an actual (space-time) and virtual (non-local) existence. So
why not think of human existence in the same way? Why not assume that
beyond their physical (bodily and geographical) conditions of existence, in
their fundamental constitution, at the subatomic level, humans exist entangled
6
A moment of truce in capoeira, when the players walk in a circular pattern, leaning on each other's hands, until
they resume the game itself, with attack and defense movements.
7
Cabaça: dried fruit of plants of the genera Lagenaria and Cucurbita, useful for making musical instruments, such
as the berimbau, which is responsible for the instrument's acoustic box.
Planting Capoeira Angola: Feelings and thoughts about Capoeira Angola, womanities and the Amazon
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 12
with all things (animate and inanimate) in the universe? [...] sociality is no
longer either cause or effect of relations involving separate existents, but the
uncertain condition under which everything that exists is a singular expression
of each and every other virtual actual existent in the universe, that is, as Corpus
Infinitum.
If all beings are thus interconnected in the same way, past, present and future are
connected in a single present, in an alinear time. The black presence in the Amazon has been
documented by a number of scholars, including Salles (2004), a pioneer in this field of study,
who demonstrated the inclusion of capoeiristas in other popular folklore in the state of Pará,
especially in boi-bumbá since the 19th century. In the literature produced since the beginning
of the 20th century, such as the work Batuque, by Bruno de Menezes (1939), to name just one
of the other literary works, the black presence in the Amazon is also recorded. This presence
can still be seen in the police newspapers of the time, in which, not by chance, harlots,
batuqueiros, troublemakers and capoeiras were all framed for the crime of vagrancy, as they
violated the code of conduct of a Belém that was caricatured as Europe, with a ruling elite that
was surrendered to the project of coloniality and therefore denied the undeniable contribution
of black and indigenous drivers in shaping the material and immaterial culture of the city. Still
in this 19th century context in Belém, more recent studies point to police records that show
women arrested for the crime of vagrancy. Silva (2016, p. 48, our translation), referencing
historical surveys, points out:
[...] other women were also found involved in capoeira on the streets of Belém
in the 19th century: Maria Meia Noite, Joana Maluca, Maria Galinha and
many others were featured in the newspapers of the time. The profile of these
women was not at all in line with the established models, contradicting the
behavioral standards dictated for elite white women, as well as for enslaved
women.
Capoeira itself takes us back, through its cyclical temporality, to a universe of a lost
Africa, which anyone who dreams of returning to a promised land can identify with. In this
way, there is a search for this ancestry, because it places us in this spiral time of returning to a
past that is present in our bodies. This is how a few days of our experiences within the living
roda of capoeira went: training, singing, rounds of conversations, socializing, drumming,
maracas - from which no one emerged unscathed. In Plantando a Capoeira Angola, we wanted
to return to Queen Nzinga Mbandi, who fought against the Portuguese in Angola. We wanted
this return to Dandara de Palmares, who fought for the construction of the first territory free
from the crown in colonial Brazil. We wanted to celebrate the existence of women with
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 13
capoeira bodies
8
on the streets of Belém in the 19th century; all of them who inspire us,
accompany us and remain alive in us because, before us, they fought for us to be here today,
just as, after us, they will still fight in the bodies of capoeira women to come.
Being close to two women capoeira angola masters gave us the opportunity, at the event,
to reconnect with our ancestry. Lélia Gonzales (2020), in her essay A Mulher Negra na
sociedade brasileira: uma abordagem político-econômica (The black woman in Brazilian
society: a political and economic approach), highlights both the place of vulnerability of black
women - because sexism and racism juxtaposed expose them to the highest levels of oppression
in the Brazilian social pyramid - and the importance and protagonism of these black women in
the rEx(s)istence to the colonial slave system, highlighting their survival strategies within a
capitalist and racist society.
Among these strategies, Lélia Gonzalez cites what she calls "passive" resistance, as well
as cases such as Luísa Mahin - who played such an important role in the organization and armed
struggle of the Malês Revolt in Bahia in 1835, that she was eventually deported back to Africa,
but before leaving, she gave birth to none other than Luiz Gama, one of the greatest activists in
the abolitionist struggle in the 20th century, present in all the great national liberation
movements - Black men and women in the Amazon also took part in the Cabanagem, a popular
uprising that overthrew local power in Belém and spread throughout Pará and other distant parts
of the Amazon. This revolt inspired the collective's name and, although I still have little
knowledge about the participation of women in this revolt, studies point to their effective
participation in the armed struggle, as guerrillas. Of course, investigating what a woman's body
was like in that war, especially the presence of female cabana capoeirista guerrillas, would be
a subject for future writings.
While it is known that, even for men, capoeiragem was considered a criminal practice
for a long time, for women it was certainly from the new guise it took on in the 1960s onwards
that the presence of women became a constant in academies and groups. According to Foutran
(2017, p. 101, our translation):
The only record from before 1968 that mentions women involved in this new
way of doing capoeira angola, i.e. in the academies, is the Mestre Pastinha's
Book of Records of the Capoeira Angola Sports Center (CECA). In his
enrollment control notebook, Pastinha wrote down some information about
the students in his academy, such as name, address, age and profession.
Record no. 113, for the years 1962 to 1965, is just a 3x4 photograph of a
8
Corpo encapoeirado (capoeira body) was an expression I heard recently from capoeirista Nildes Sena.
Planting Capoeira Angola: Feelings and thoughts about Capoeira Angola, womanities and the Amazon
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 14
woman's face. There is no information below this photo. The other two women
registered in Pastinha's Book of Records are Maria de Lourdes Barbosa,
registered in 1968, and Arbernia Soares Rezende, in 1969. Also from 1968 is
Waldeloir Rego's book in which he claims that Gato Preto was the first
Capoeira Mestre to teach women.
Nowadays, women capoeiristas are increasingly interested in getting together to think
about gender issues within the world of capoeira. There are groups and collectives that train
only women, national and international mobilizations through networks, events with growing
spaces for women's issues in capoeira and, according to a survey by the Angoleira Women's
Network (RAM), there are currently 26 women capoeira angola masters in the world.
On the website of the Pro-Rectory of Extension (PROEX) of the Federal University of
Bahia, you can easily find the information that in 2001 the first woman master in the history of
capoeira angola in the country was made, Valdelice Santos de Jesus, known as Mestra Jararaca,
trained in Bahia by Mestre Curió. Although I will not go into historical aspects here, as it is not
my focus/intention, we know that women have been present in capoeira since at least the 19th
century or, as we have already mentioned, much earlier, in the figure of Queen Nzinga herself.
However, what kinds of womanities have we been allowed to manifest in these capoeira
territories? Today, what we are demanding is a space in which we can manifest the singularities
of our bodies, masters of our own narratives, owners of multiple identities and, above all,
capable of making our capoeira bodies environments of memories that connect us to these
queenly, strategist, free, active, intellectually and physically skilled women.
Recently, in an informal conversation with Carla Baía, a capoeirista and dancer from
the city, a dear partner in other artistic endeavors, we remembered the late Sílvia Leão, also
known as de Anjo, who received the title of master from Mestra Janja, posthumously, in
2016, at an event held by the National Historical and Artistic Heritage Institute (IPHAN), in
Belém
9
. It was with the arrival of mestra Janja from Salvador, founder of the capoeira angola
group Nzinga and a pioneer in many of the gender discussions within capoeira and in the
academy, that she was posthumously recognized as the first woman capoeira master in the city
of Belém. Having been an important leader of the Dandara Bambula group and the creator of
the Movimento Capoeira Mulher (Women's Capoeira Movement) in Belém, one of the first
capoeira collectives organized solely by women in Brazil, Sílvia was recently honoured by
being named after the law that instituted 13 of May as the municipal capoeira day in Belém.
9
About the master Pé de Anjo, it's worth checking out the comic organized by Carla Baia and Carla Costa: Ayana:
a menina dos pés de anjo.
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 15
So, I return to the point made above, when Lélia talks about passive resistance. This
word "passive" refers to the symbolic form that the strategy of rEx(s)istence has taken, but it is
active in the final results achieved. Lélia, dialoguing with theories of psychoanalysis, makes us
pay attention to the fundamental role played by black women in Brazil in the formation of the
national collective unconscious. Caring for their own children as well as the children of whites,
first as mucamas and then as nannies and domestic servants, these women were responsible for
telling the first stories of childhood, which were so fundamental in shaping the subjects'
worldview, thus Africanizing Brazilian culture, since the songs, stories and games taught came
from their cultural roots in Africa.
In this sense, considering the immense narrative power within capoeira Angola songs,
which can be seen as possessing the same symbolic power that Lélia attributes to narratives, I
would also mention the production of the booklet entitled ABC da Capoeira Angola (2022),
another work by the Angoleiras Cabanas Collective, this time awarded by the law Aldir Blanc
Juventude Ativa de Emaús 2020, organized by mana Bruna Maria Martins and made up of a
record of capoeira Angola corridos that mention the presence of women, children and peasants.
Capoeira songs have a great influence on the imaginary and ethos of capoeiristas, generating
sound and image landscapes. The culmination of a year's work developed in the settlement of
the Landless Rural Workers' Movement Mártires de Abril, located in Mosqueiro, a district of
Belém, this work began with contact with Ciranda Paulo Freire in April 2019, an activity aimed
at the movement's children, when we gave a capoeira angola workshop at the Jornada de Lutas
por Reforma Agrária Popular em Defesa da Amazônia ("Journey of Struggles for Popular
Agrarian Reform in Defense of the Amazon"). From then on, from 2019 until 2020, the initial
period of the Covid-19 pandemic, we held a series of other workshops with the landless
children.
Come out Catarina, Come out of the Sea, Come and See Idalina
We see (live) all the distortions of moral values caused by the modern world, whose
pillars are racism and sexism, giving rise to countless generations that reproduce hate speech,
in which women are inferior or submissive, while those who take the lead in the struggle for
equal rights are repeatedly persecuted, tortured and even murdered. The discouragement of
these findings, coupled with the fact that there are no women masters of capoeira angola in
Belém, led us to find other references, women of mastery, leaders of religions of African origin:
Planting Capoeira Angola: Feelings and thoughts about Capoeira Angola, womanities and the Amazon
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 16
I am referring to the mametus
10
of the candomblé angola tradition, one of the candomblé nations
that exist in the country. The Angoleiras Cabanas collective has been welcomed more than
once by these mametus in the city of Belém, for example on the first day of the Plantando a
Capoeira Angola event, held at the Mansu Nangetu terreiro, with the support of Mametu
Nangetu.
In this sense, it is also worth highlighting another action carried out by the Angoleiras
Cabanas collective, in March 2020, when we met at the Public Defender's Office in the city of
Belém do Pará, in a round table discussion, called Female Protagonism and Tradition,
composed of the then ombudsman Juliana Oliveira, Mãe Jucy, Mãe Xokeide d' Oya and Mestra
Catita (one of the few female masters in the city, from capoeira regional). The conversation
centered on the role of women of tradition and the challenges of combating gender inequalities
within African cultural practices.
In the way these women militate, it is clear that fighting racism is a priority. Very close
to their brothers and comrades, especially black men, they perfectly understand the need to
combat gender inequalities. Furthermore, they clearly understand that white justice does not
encompass the complexity of relations in these territories. The agenda of combating violence
against women in these contexts therefore demands the emergence of strategies from these same
territories and operating voices.
For me, being together with 24 other manas, at first, in the sacred terreiro of Mansu
Nangetu, made me think about another place of power for black women in our society, which
Lélia Gonzalez (2020) points out to us, in the aforementioned essay, which is precisely the role
of the mães de santo (mothers of saint). Much more than spaces for religious practices, Afro-
religious terreiros are also territories of hospitality, knowledge production, politics and good
living. In addition, they are mainly led by women, who are not exempt from discussions in the
official political spheres in the city of Belém. Based on this, addressing the trajectories of
militancy and political action of some of these mães de santo would be another essay in itself.
African ancestry cannot be understood on the basis of the supposed subservience of
women. According to Nigerian researcher and professor Oyèrónk Oyěwùmío (2020), who uses
10
With regard to candomblé terms, I spoke to mana Ekedy Xokeid de Oyá, who, as well as being a member of the
collective, is initiated into the Gege nation of candomblé. According to Xokeide, this term is specific to Angolan
candomblé, in Ketu candomblé the nomenclature would be Ialorixá, in Gege candomblé, of which I am a member,
the nomenclature is Doné [... ]so in the house the mametu, ialorixa or doné will also have this function of leading
the house together with her children and the other hierarchies, she has the mediunity to incorporate to receive
orixá, to communicate with the orixás or nkissis or voduns.
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 17
the concept of matripotence when referring to the organizational forms of some Yoruba
societies, the place of power within these societies has never been associated with the category
of gender, as is the case in Western societies. According to the thinking of these African
matrices, what governs the social is ancestry, and women are extremely respected and valued
for the fundamental role that Ya, mother, played in these forms of organization, and it could
even be said that this was the most fundamental social unit in these societies: the relationship
between mother and offspring. The incubates in her body a soul that already existed and
assists the creator in the creation of the creature, and is therefore highly revered, respected and
understood as powerful, so much so that many women in these societies were queens,
politicians and warriors. In the Western world, the patriarchal family nucleus presupposes that
being a woman is reduced to being a wife and taking care of the household chores and children
of the protagonist, the husband. If we want to delve more deeply into the ways of seeing the
world in the cultural practices of African women, we need to look for references other than
Eurocentric feminism. In this way, I engage with the thinking of Oyěwùmío (2020. p. 06, our
translation):
feminist concepts emerged from the logic of the patriarchal nuclear family, a
form of family that is inadequately universalized. In this section, drawing from
my own research into the Yoruba society of southwestern Nigeria, I present a
different type of family organization. The traditional Yoruba family can be
described as a non-generational family. It is non-gendered because kinship
roles and categories are not differentiated by gender. So, significantly, the
centers of power within the family are diffuse and not specified by gender.
Because the fundamental organizing principle within the family is seniority
based on relative age, not gender, kinship categories encode seniority, not
gender.
We therefore consider Mametu Nangetu's participation in our event to be of great
political and symbolic force, as she opened the Mansu Nangetu hall to us and gave us her
blessing for the opening circle. We sincerely thank her! We remember and cite the fundamental
role of other mothers in Belém, such as Mãe Nalva, Mãe Jucy D'oya, Mametu Muagile, among
others, as leading women in the fight for public policies, in favor of a culture of peace and in
the fight against religious and environmental racism, which is so entrenched in our country.
These mothers have also been training a whole generation of young black men and women who
have increasingly led artistic, cultural and intellectual movements that have an impact on the
city, far beyond the territory of the terreiros. The presence of men who frequent the terreiros,
from different social classes and different ethnic origins, is also striking, and although they
Planting Capoeira Angola: Feelings and thoughts about Capoeira Angola, womanities and the Amazon
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 18
perform extremely important functions in the running of the terreiros, such as the tatas, the
ogãs
11
, they are there under the command, in most casas de santo, of women's voices.
Figure 2 Capoeira Angola circle at Mansu Nangetu
Source: Author’s data. Mametu Nangetu, Coletivo Angoleiras Cabanas, Mestra Samme, Mestra Di,
Coletivo Angoleiras de Upaon Açu, Convidados e Filhos de Santo do Mansu Nangetu
I feel, therefore I know. The decoloniality of what we have been taught to feel is also
urgent. Meeting women who, for longer than us, have been walking in capoeira angola,
candomblés, carimbós, tambor de criola, batuques and today occupy prominent positions at
national and international level inspires and moves us. I remember a moment when Mestra
Samme referred with great respect to other mestras within capoeira. Samme's reflections, when
referring to their behavior, revolved around phrases like: "Seeing that woman play, sing like
that and beat that guy with a lowkick, that speaks for itself, it's already a great example, it's
that woman's way of being in the fight. She does not need to talk about feminism, she is
militancy" (our translation).
11
Ogã is a priest who does not have the mediunity for incorporation, he is also considered a pai de santo within
the houses. In fact, when the ogã is initiated or confirmed, he is assigned to a specific function, which can be corte
or toque. There is the ogã who is responsible for playing, for conducting the atabaques and the music as well, and
consequently the dance, and there are the ogãs who are already linked to other functions.
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 19
Inspired by Samme's reflections on the different names we can give our struggles, I
realized how rich an event of diverse women can be. Admitting the differences between us
within a collective began to seem fundamentally important to me, so that the strength of the
collective did not overpower our subjectivities. Thinking about the limits of closeness as ways
of developing strategies for good coexistence and respect, while allowing for the distances that
are also necessary, even within communitas, also began to seem very important to me. Although
we realize that our diversity and differences sometimes generate conflicts, we can also see the
power of aggregating differences, through the diversity of complementary perspectives, talents
and powers, which together form a fulfilling collective body.
During the event, still in Belém and then at the Arte Fazenda space in Vila do Apeú, I
also felt(resented) the difficult relationship I myself had had with other women, from my own
family and from other spaces. I felt(resented) so many times that I had felt neglected and
violated by them too, and not just by men, because women also violate each other. As thorny
as this is, it needs to be said, just as we need to examine the potential to be violent that each of
us, marked by so much, also has.
The path of caring for and welcoming each other is not obvious in a system that has one
of its pillars based on machismo. The path of reconstructing ourselves is a long one in a system
that disposes of us as enemies and strategically introjects feelings of competitiveness into us.
That's why the Angoleiras Cabanas collective came about with the aim that by training together
we could strengthen bonds of companionship, in the struggle that each of us makes to improve
as capoeiristas and to bury the patriarchy that exists, including within ourselves. In this sense,
I also believe it is possible to approximate the concept of feeling-thinking to describe what I
experienced in the collective and especially what we experienced with this event, feeling that
this space was an educational environment that formed and transformed the people involved.
According to Moraes and de La Torre (2001, p. 16, our translation):
It's important to remember that through action/reflection we structurally
change our corporeality, according to the course of our emotions, our thoughts
and feelings, the content of our conversations and reflections. This is how
living is established and shapes the different domains of our existence. In
reality, the domain of our existence is always the domain of a co-existence, of
a natural co-derivative in Maturana's words, of collective existences, whose
structural transformations depend on the values, desires and aspirations of
each one of us
Planting Capoeira Angola: Feelings and thoughts about Capoeira Angola, womanities and the Amazon
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 20
I want to talk here about the thinking of the womanist Audre Lorde, in her powerful
compilation of essays, Irmã Outsider (Sister Outsider), especially in the essay A Poesia Não É
Um Luxo (Poetry Is Not a Luxury), in which the author fables precisely about women's place
of power, which, for her, lies in our power to understand the world beyond reason, from our
feelings. We live in a society based on exacerbated Cartesian logical reasoning and this
collapsed society today needs to seek new possibilities for paths, hopes for the future.
According to Lorde (2019, p. 46, our translation):
when we get in touch with our ancestry, with the non-European awareness of
life as a situation to be experienced and interacted with, we learn more and
more to appreciate our feelings and to respect these hidden sources of our
power - it is from them that true knowledge arises, and with it, lasting
attitudes.
As I approach the end of this article, I would like to reflect on processes of coloniality
in relation to our northern region, the Pará Amazon, more specifically within the universe of
capoeira angola. In the same way that women are subalternized within a practice that purports
to be liberating, our region is also treated unequally in relation to capoeira angola reference
centers, even though historically and statistically, the practice of capoeira is presented as ancient
and a constituent part of the culture of the city of Belém. Here and in the Amazon in general,
we are geographically isolated in relation to other cultural centers in the country, which look at
the Amazon rainforest, its cities and peoples in an exoticizing way and see us as a place that is
both a repository of national wealth and a territory to be conquered.
Although the practice of capoeira in Belém dates back centuries, capoeira angola in this
city is a tradition that has been forging itself for around 20 years, according to an average of
reports from practitioners, the protagonists of this history. As a result, those interested in the
sport have started to interact with woman masters from Bahia and some other states in the
country, investing in training that takes place either when local capoeiristas go to traditional
capoeira angola centers, or when masters come to offer workshops in the city. This dynamic
would have once again placed us in the position of an exotic, uninhabited region ready to be
explored by people from other regions. Currently, there are only a few mestres, counter-masters
and trainers of capoeira angola and still no women counter-masters or masters in our city in
this form of capoeira, although there are already women trainers.
As part of the Plantando a Capoeira Angola event, we did not want to repeat colonialist
relations by bringing in masters from the major capoeira angola reference centers. We
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 21
therefore opted, as a strategy, for an alliance with the Angoleiras de Upaon Açu collective, from
São Luís, the capital neighboring Belém. In fact, historically this whole region was called Grão
Pará, from São Luís to Belém. We bet on this alliance: another women's collective outside the
traditional capoeira angola circuit in the country.
Delving a little deeper into the reality of the Amazon, where the country's so-called
poorest cities are located and, not coincidentally, where the sexual exploitation of women is
also high, I would like to discuss the thoughts of Vandana Shiva (2004), for whom the ideology
of progress calls prudent subsistence poverty, destroying sustainable lifestyles and creating real
material poverty. The subsistence economies practiced in many third-world territories, as well
as those practiced among the Amazon's riverside communities, quilombolas and indigenous
peoples, are not poor in the sense of being deprived of something, but are so called because
they do not participate in the market economy. In this way, the Amazonian peoples, guardians
of the forest, are seen by the rest of the country as destitute, when, in fact, they have been
guarding the last natural riches of this extremely important biome for the planet. The capitalist,
racist, misogynist system is waging war against nature, against women, against native peoples,
against children, against the poorest populations.
After the Plantando a Capoeira Angola event, we had the opportunity to talk about the
trajectory of the Angoleiras Cabanas Collective in a live broadcast in April 2022 on the
Mandinga de Mulher program, proposed by another independent collective of Angoleiras
women from the state of Bahia, who call themselves Marias Felipas. I considered this
collective's proposal to be similar to ours, due to its independent format. Therefore, I brought
here the voice of Christine Zonzon, a member of Marias Felipas, a capoeira angola practitioner
since the 1980s in Salvador, a researcher, author of the books Nas Rodas da Capoeira e da Vida
Corpo Experiência e Tradição (In the Circles of Capoeira and Life - Body Experience and
Tradition) and O Legado de Ritinha da Bahia Mulheres no jogo da Resistencia (The Legacy of
Ritinha da Bahia Women in the Game of Resistance) and one of the directors of the
documentary film Mulheres da Pá Virada, in an interview given in May 2022, about the Marias
Felipas collective:
[...] we took part in academic congresses proposing circles, discussions,
always on the subject of gender oppression in capoeira and outside capoeira,
but our focus was always on fighting within capoeira, deconstructing,
questioning and denouncing the gender violence that is exercised in a
sometimes symbolic way, sometimes physically and sexually too, of course
(our translation).
Planting Capoeira Angola: Feelings and thoughts about Capoeira Angola, womanities and the Amazon
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 22
What secrets has patriarchy made us hide for so long, in the recesses, so guarded, and
which now seem to be coming from underground, like hot lava from a volcano, through the
voices of social movements claiming spaces that were previously denied? What, above all, do
we have to teach after centuries of surveillance and punishment of our bodies and feelings, and
what can point the way to building other social coexistences based on greater equity?
I'll be going soon beauty, I'll be leaving soon
When, in the mid-1930s, the two styles of capoeira, angola and regional, emerged from
a split in principles between Mestre Bimba and Mestre Pastinha, Belém remained a city where
the practice of regional capoeira predominated. At the end of the 1980s, then, the Núcleo de
Capoeira Angola Arte e Liberdade (NUCAAL), which was based in the vadião building at the
Federal University of Pará (UFPA), coordinated by mestre Bezerra, but which included several
other local masters, led one of the first processes of transition from a capoeira regional group
to a capoeira angola group. I remember a few names of women who were part of this collective:
Tuca and Sueli, for example, and remembering them in more detail is also for a future article.
At the same time, another group led by Mestre Índio, Angola Dobrada, was also active
in the state of Pará and dedicated itself to the practice of capoeira angola. I would highlight the
presence of Walquiria Fagundes, who today is one of the oldest angoleiras in the city and is
also active in the Angoleiras Cabanas collective. I must also mention, from my own
background, the emblematic figure of the recently deceased angoleira Vitória Aranha, who was
a member of the International Capoeira Angola Federation (FICA) and lived in Belém in the
early 2000s, playing a very important and pioneering role in capoeira angola in Belém.
I began my history with capoeira angola in 2003. At that time, I made my first trip to
Belo Horizonte, in search of theater training. Flitting through the streets of the city center, I
received a flyer from a stranger: it was an advertisement for the birthday of a capoeira angola
mestre, Mestre João Espiritual, so I decided to go to the birthday, and when I looked at the
party, I was stunned! It was Grão Mestre Dunga's chant that was ringing through the room, and
it was mestre João who was at the game. The bodies spilled across the floor in arabesques, and
I was struck by the poetics of those gestures. The following week, I had my first capoeira angola
training session with then-trainer Daniel, now mestre Daniel. Six months later, back in Belém,
I heard about a group that met in the evenings in the vadião building at UFPA and practiced
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 23
this form of capoeira: capoeira angola. When I arrived at the group, Vitória Aranha's presence
was striking. At that time it was made up of many of the people who today continue to be the
protagonists of capoeira angola practices in Belém and other cities in Pará. This group, which
I initially met, has been broken up and remade countless times, due to various conflicts. Vitória
Aranha, a black woman who together with other men led the group at the time, was of
fundamental importance in bringing many capoeira angola masters to Belém.
After this first contact in 2003, in Belo Horizonte, the following year Mestre João was
in Belém for the first time, accompanied by Mestra Lena Santos. In 2005, I met them again in
Porto Alegre, at that year's World Social Forum, and from there, when the forum was over, I
went to Belo Horizonte once more. In 2009, I was again in the capital of Minas Gerais, at an
edition of Lapinha Museu Vivo in the Month of Abolition, a capoeira meeting held annually by
the I Am Angoleiro Cultural Association (ACESA) and the Pândega Actors Association,
coordinated by Mestre Gersino, in Minas Gerais. Finally, in 2010, I went to live in Belo
Horizonte, where I stayed for seven years, living with Mestres João and Lena and other ACESA
references, training capoeira angola and Afro-Brazilian dance. Mestra Lena, then, is a reference
of a female master with whom I lived.
These memories filled my soul during Plantando Angola. In the month of February, we
experienced a high rainfall, and since I am a woman of the waters, I felt crossed by all these
turns in the world, personal currents, as I bled there, inside a women's event. I call on Audre
Lorde again, who, when talking about the concept of women-who-identify-with-women, points
out that:
For women, the need and desire to take care of each other is not pathological,
but redemptive, and it is in this knowledge that our true power is rediscovered.
It is this real connection that is so feared by the patriarchal world. Only in a
patriarchal structure is motherhood the only social power available to women
[...] Difference (between women) must not only be tolerated, but seen as a
reserve of necessary polarities, between which our creativity can radiate like
a dialectic [...] As women, we have been taught to ignore our differences, or
to see them as causes of disunity and mistrust, rather than as potentials for
change (our translation).
The return and inspiration to Mother Africa and to other forms of organization of native
peoples is actualized in the behavior of women who are not subservient; in this specific case,
Amazonian women with capoeira bodies. Stronger in our practices, we continue, from Belém,
hoping that all women can find in capoeira angola this territory of belonging and strengthening
for their daily struggles, of living well, of formation and transformation of themselves and their
Planting Capoeira Angola: Feelings and thoughts about Capoeira Angola, womanities and the Amazon
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 24
surroundings, as suggested by feeling-thinking as a pedagogical path. For more women in their
diversity practicing capoeira angola, for men who are aware and allies in the fight against
patriarchy. Hail to Capoeira Angola, this living entity that manifests itself in our bodies and
nourishes our lives! Hail to the women of tradition, the angoleiras, who through the practice of
capoeira angola, actualize in their bodies the collective memory of women protagonists of their
rEx(s)istences.
The presence of women who have always been in capoeira will continue to exist as long
as it depends on the countless women who today train and educate other women and men in the
capital of the Amazon. Belém is a city with a tradition of capoeiragem, which has taken on its
own contours here, deserving of due reverence, regardless of the discourses of capoeira angola
and regional modalities. Women capoeiristas here, from Maria Meia-Noite to Mestra de
Anjo, Mestra Cigana, Mestra Lene, Mestra Catita, Vitória Aranha, among many others, have
existed, eEx(s)ist and will exist. May we overcome the reproduction of machismo in these
spaces, recognizing other possible bodies, as well as forms of coexistence based on care,
collaboration, mutual respect, in which feelings and thoughts are articulated in the production
of capoeira bodies.
REFERENCES
ACOSTA, A. O bem viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo:
Autonomia Literária Elefante, 2016.
BUTLER, J. Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2003.
Do Morro Produções. Confluências Antônio Bispo. Youtube. 28/06/2021. Available:
https://youtu.be/fi-4T8tdYDY. Access: 14 May 2022.
EVARISTO, C. Literatura negra: uma poética de nossa afro-brasilidade. Scripta, v. 13, n. 25,
p. 17-31, 2009.
FOLTRAN. P. J. Capoeira é pra homem, menino e mulher: angoleiras entre a colonialidade e
a descolonização. Sankofa. Revista de História da África e de Estudos da Diáspora
Africana, São Paulo, v. 10, n. 19, agosto 2017.
FOLTRAN. P. J. Mulheres Incorrigiveis Histórias de Valentia, Desordem e Capoeiragem
na Bahia. São Paulo: Ed. Dandara, 2021.
FONSECA, M. B. Poderosas Rainhas Africanas. Belo Horizonte: Ancestre, 2021.
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 25
FONSECA, M. B. Iê Aruanda! A memória de Angola cantada na capoeira. In: MELO, J. C.
de (org.). Caleidoscópio de Clio: saberes históricos em diferentes espaços de memória.
Belém: RFB, 2022.
GONZALEZ, L. A mulher negra na Sociedade Brasileira: uma abordagem político
econômica. In: Por Um Feminismo Afro Latino Americano Ensaios Intervenções e
Diálogos. Rio de Janeiro: Zahar,2020.
LORDE, A. A Poesia não é um luxo. In: LORDE, A. Irmã Outsider. Belo Horizonte:
Autêntica, 2019.
MARINHO, A. F.; ASSUNÇÃO, B. K. Saberes Ancestrais e o Combate à Colonialidade de
Gênero: a experiência do coletivo Angoleiras Cabanas em Belém-PA. Revista Gênero na
Amazônia, n. 10, p. 61-70, jul./dez. 2022.
MARTINS, B. M. (org.). ABC da Capoeira Angola Catingas de capoeira sobre Mulheres,
Crianças e Campesinato: material auxiliar para treinos e letramento de crianças. Belém:
Edição da autora, 2022.
MARTINS, L. M. Afrografias da Memória. São Paulo: Perspectiva; Belo Horizonte: Mazza
Edições, 1997.
MARTINS, L. M. Performances do Tempo Espiralar. Poéticas do Corpo Tela. Rio de
Janeiro: Cobogó, 2021.
MENEZES, B. de. Batuque. Belém: edição do autor, 1939.
MORAES, M. C.; TORRE, S. de La. Sentipensar sob o olhar autopoiético: estratégias para
reencantar a educação. São Paulo: PUC, 2001.
MORAES, M. C.; TORRE, S. de La. Os fundamentos do sentipensar. In: MORAES, M. C.;
TORRE, S. de La. Sentipensar: fundamentos e estratégias para reencantar a educação.
Petrópolis, RJ: Ed. Vozes, 2004.
OYÈWÙMI, O. Conceituando o gênero: os fundamentos eurocêntricos dos conceitos
feministas e o desafio das epistemologias africanas. In: BERNARDINO-COSTA, J.;
MALDONADO-TORRES, N.; GROSFOGUEL, R. (org.). Decolonialidade e pensamento
afrodiaspórico. Belo Horizonte: Autêntica, 2020.
Rádio Capoeira. Programa Mandinga de Mulher apresenta: Imagens e Memórias de Mulheres
na Capoeira. Youtube, 09 abr. 2022. Available:
https://www.youtube.com/live/gsEhKItwVzk?feature=share. Access: 15 Apr. 2022.
SALLES, V. O Negro na Formação da Sociedade Paraense. Belém: Paka-Tatu, 2004.
SILVA, D. F. da. INTRODUÇÃO (Di)Ante(s) do Texto. In: A Dívida Impagável. São Paulo:
Oficina de Imaginação Política e Living Commons, 2019.
TAVARES, R. Mulheres de Fogo. In: fanzine. Belém, 2008.
Planting Capoeira Angola: Feelings and thoughts about Capoeira Angola, womanities and the Amazon
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 26
TEIXEIRA. C. P. V. Nas Voltas que o Mundo Deu Nas Voltas que o Mundo Da: Um
Estudo sobre Ritual e Performance na Capoeira Angola em Belém. Orientadora: Prof. Dr.
Marilu Campelo. 2010. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) Universidade Federal
do Pará, Belém, 2010.
SILVA, M. Z. G. da. Movimento capoeira mulher: Saberes ancestrais e a práxis feminista
no século XXI em Belém do Pará. Orientação: Prof. Dr. Ariel Feldman. 2016. Dissertação
(Mestrado em Educação e Cultura) Universidade Federal do Pará, Cametá, PA, 2016.
SHIVA, V. La mirada del ecofeminismo. Revista On-Line de la Universidad Bolivariana,
v. 3, n. 9, 2004.
WALSH, C. Interculturalidade Crítica e Pedagogia Decolonial: in-surgir, re-existir e re-viver.
In: CANDAU, V. M. (org.) Educação Intercultural na América Latina: entre concepções,
tensões e propostas. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2009.
Interviews:
KALIFE, Brenda. O Coletivo Angoleiras Cabanas. Entrevistadora: Carmem Pricila
Virgolino Teixeira. Interviewer's personal files. In: 10/03/2022.
MARTINS, Bruna. O Coletivo Angoleiras Cabanas. Entrevistadora: Carmem Pricila
Virgolino Teixeira. Interviewer's personal files. In: 10/03/2022.
ZONZON, Christine. O Coletivo Marias Felipas. Interviewer: Carmem Pricila Virgolino
Teixeria. In: 14/05/2022.
D’OYA, Xokeide. O Candomblé. Interviewer: Carmem Pricila Virgolino Teixeria. In:
16/05/2022.
Carmem Pricila Virgolino TEIXEIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 27
CRediT Author Statement
Acknowledgements: Do not apply.
Funding: The research was carried out with funding from CAPES.
Conflict of interest: No conflicts of interest.
Ethical approval: Did not went through a committee.
Availability of data and material: Do not apply.
Author’s contribution: Single author.
Processing and editing: Editora Ibero-Americana de Educação.
Proofreading, formatting, normalization and translation.