Plantando a Capoeira Angola: Sentipensamentos sobre Capoeira Angola, mulheridades e Amazônia
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023018, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.16794 14
assumida nos anos 60 em diante, que a presença de mulheres se tornou uma constante nas
academias e grupos. Segundo Foutran (2017, p. 101):
O único registro anterior a 1968 que cita mulheres envolvidas neste novo
modo de fazer capoeira angola, ou seja, nas academias, é o Livro de Registros
do Centro Esportivo de Capoeira Angola (CECA), do Mestre Pastinha. Em
seu caderno de controle de matriculas, Pastinha anotava algumas informações
sobre os alunos de sua academia, como nome, endereço, idade e profissão. O
registro de nº 113, referente aos anos de 1962 a 1965, é apenas a fotografia
3x4 do rosto de uma mulher. Abaixo desta foto não há qualquer informação.
As outras duas mulheres inscritas no Livro de Registro de Pastinha são Maria
de Lourdes Barbosa, matriculada em 1968, e Arbernia Soares Rezende, em
1969. Também de 1968 é o livro de Waldeloir Rego no qual afirma ter sido
Gato Preto o primeiro Mestre de Capoeira a ensinar mulheres.
Atualmente, é crescente o interesse de mulheres capoeiristas em se reunirem para
sentipensar as questões de gênero no interior do universo da capoeira. Existem grupos e
coletivos que destinam treinos só para mulheres, mobilizações nacionais e internacionais pelas
redes, eventos com espaços crescentes para as questões da mulher na capoeira e, segundo
levantamento da Rede Angoleira de Mulheres (RAM), há, atualmente, 26 mestras de capoeira
angola mulheres no mundo.
No site da Pró-Reitoria de Extensão (PROEX) da Universidade Federal da Bahia,
localiza-se com facilidade a informação de que se fez, em 2001, a primeira mestra mulher, na
história da capoeira angola do país, Valdelice Santos de Jesus, conhecida como Mestra Jararaca,
formada na Bahia, por Mestre Curió. Apesar de não me deter aqui a aspectos históricos, pois
não é meu recorte/intenção, sabemos que a presença da mulher na capoeira se conta, pelo
menos, desde o século XIX ou, como já mencionamos, desde bem antes, na própria figura da
rainha Nzinga. Entretanto, quais tipos de mulheridades nos foram permitidas manifestar nesses
territórios das capoeiras? Hoje, o que reivindicamos é um espaço em que possamos manifestar
as singularidades de nossos corpos, senhoras de nossas próprias narrativas, donas de identidades
múltiplas e, sobretudo, capazes de fazer de nossos corpos encapoeirados ambientes de
memórias que nos conectem a essas mulheres rainhas, estrategistas, livres, ativas, habilidosas
intelectual e fisicamente.
Recentemente, em conversa informal com Carla Baía, uma capoeirista e dançarina da
cidade, parceira querida de outros trabalhos artísticos, relembrávamos a finada Sílvia Leão,
conhecida também como Pé de Anjo, que recebeu de Mestra Janja, postumamente, em 2016,
num evento realizado pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em