Myrian Pereira VASQUES, Thelma Mendes PONTES e Ana Claudia FERNANDES
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. esp. 2, e023016, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23iesp.2.16903 15
Na parte de alimentao, porque tem universidade que nos oferece almoo, caf… Que
não seja somente mingau de aveia, que tenha banana, peixe assado também. Isso nunca houve
e é muito triste. Eu, particularmente, não como sal, se como sal é bem pouco, eu não como
açúcar, então tudo tem açúcar ou é muito sal, essas coisas me incomodam muito no restaurante
universitário. Isso às vezes me deixava triste no começo, aí com o tempo que eu fui me
adaptando, eu comecei a comer açúcar, comecei comer sal. Acho que é isso, é necessário ter
culinária indígena, pelo menos uma vez, para nos agradar um pouco, pensar em nós um pouco.
Fazer a culinária de cada povo. Um dia de culinária de um povo, outro dia culinária de outro
povo, isso seria muito legal numa universidade. E não só para nós, seria para os não indígenas
nos conhecerem, conhecer nossa culinária, conhecer a diversidade do povo, a diversidade que
o Brasil tem.
O Brasil é um país muito lindo, só não é lindo por causa do preconceito, por causa do
racismo, por causa de diminuir, porque você é indígena, porque você é preto, por causa disso.
Se a gente virasse humano de verdade, se os não indígenas se unissem com a gente, o Brasil
seria o melhor país do mundo. Essa é minha opinião, eu acho que é isso que deve ter na
universidade, em cada universidade, para receber nós. Seria uma recepção diferenciada, uma
forma diferente de tratamento de cada povo.
A universidade deveria se capacitar para fazer isso. E fazer o Porteiras Abertas, como
nós implantamos em Lagoa do Sino, onde eu estou atuando, no campus Lagoa do Sino, na
Universidade Federal de São Carlos, lá conseguimos também. Reivindicamos o espaço no
Porteiras Abertas, na jornada científica, temos o Dia dos Índios, que hoje é Dia dos Povos
Indígenas, conseguimos ter esses espaços, acho que todas as universidades devem ter isso, para
cada povo apresentar seu grafismo, sua cultura, a sua língua, isso é muito bom.
Como mãe na Universidade, eu gostaria de ter um espaço somente para as mães
indígenas, que não seja misturado com os não indígenas. Não no termo de não querer viver e
não querer conhecer a cultura do não indígena, não é isso. Quem é mãe sabe e, muitas vezes,
nós, mães indígenas, nós preferimos que o nosso espaço seja mais livre, com nossas crianças,
que tenha um quintalzinho para a gente começar a ensinar nossos filhos, desde cedo, a plantar,
a cuidar das plantas. Um lugarzinho para ele poder fazer a arte dele, as crianças indígenas
gostam muito de desenhar, isso é uma coisa nossa mesmo. Eu já vi, também, outras crianças,
de outros povos indígenas, que também gostam muito de desenhar. Ter uma maloquinha, algo
diferenciado ou um quarto, somente para a mãe indígena que tem filhos.