Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. esp. 2, e023015, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23iesp.2.17005 1
GÊNERO, REPRESENTAÇÃO POLÍTICA E OS PROCESSOS DE INTERDIÇÃO
DAS MULHERES NO BRASIL
1
GÉNERO, REPRESENTACIÓN POLÍTICA Y PROCESOS DE PROHIBICIÓN DE LAS
MUJERES EN BRASIL
GENDER, POLITICAL REPRESENTATION AND PROCESSES FOR PROHIBITION
OF WOMEN IN BRAZIL
Maria Mary FERREIRA2
e-mail: mm.ferreira@ufma.com
Como referenciar este artigo:
FERREIRA, M. M. Gênero, representação política e os
processos de interdição das mulheres no Brasil. Rev.
Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. esp. 2, e023015,
2023. e-ISSN: 2359-2419. DOI:
https://doi.org/10.47284/cdc.v23iesp.2.17005
| Submetido em: 21/07/2022
| Revisões requeridas em: 06/06/2023
| Aprovado em: 30/09/2023
| Publicado em: 23/12/2023
Editores:
Profa. Dra. Maria Teresa Miceli Kerbauy
Prof. Me. Mateus Tobias Vieira
Profa. Me. Thaís Caetano de Souza
1
Este estudo é parte de investigações realizadas pela pesquisadora desde 1998, aprofundada nos livros Os
Bastidores da Tribuna: mulher, política e poder no Maranhão (2010) e Mulheres, protagonismos e sub-
representação, (2019). Ambas financiadas pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Desenvolvimento Científico e
Tecnológico do Maranhão FAPEMA.
2
Universidade Federal do Maranhão (UFMA), São Luís MA Brasil. Professora Associada do Programa de
Pós-graduação em Políticas Públicas e Departamento de Biblioteconomia da Universidade Federal do Maranhão.
Doutora em Sociologia pela Unesp/FCLAr e Pós-doutora em Comunicação e Informação pela Universidade do
Porto/Portugal.
Gênero, representação política e os processos de interdição das mulheres no Brasil
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. esp. 2, e023015, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23iesp.2.17005 2
RESUMO: No Brasil, a sub-representação de mulheres em cargos eletivos aponta para uma
democracia não consolidada. Os 17% de representação feminina na Câmara Federal retratam
as dificuldades do Estado brasileiro de elevar os patamares de presença feminina, mesmo
considerando a política de cotas. Tais dificuldades se explicam na cultura patriarcal que
perpassa as organizações sociais e instituições políticas, entre as quais os partidos e sindicatos.
Ao comparar o Brasil com outras nações latino-americanas, observa-se que países como
Argentina, Bolívia e Costa Rica alcançaram patamares semelhantes aos europeus. O recente
impeachment que resultou na destituição de Dilma Rousseff da presidência do país evidencia
que no Brasil, o conservadorismo, o patriarcado e a misoginia são perpetuados nas relações
políticas, sustentados pela mídia, setores do judiciário e pelas bancadas fundamentalistas do
Congresso. Esses fatos têm contribuído para acirrar mais ainda as desigualdades de gênero e
classe. Este texto apresenta reflexões construídas a partir de estudos e pesquisas desenvolvidas
nas duas últimas décadas (2010, 2015, 2019), enriquecidas por diálogos com diversos autores
que denotam que a cultura patriarcal tem sido um dos fatores que mais incide sobre a violência
política que interdita as mulheres de ter uma presença mais efetiva nos espaços de poder e
decisão. Os resultados eleitorais apresentados denotam essa assertiva que se afirma na
desvalorização das mulheres e na superioridade masculina.
PALAVRAS-CHAVE: Sub-representação. Gênero. Política. Brazil.
RESUMEN: En Brasil, la subrepresentación de las mujeres en cargos electos apunta a una
democracia no consolidada. La representación femenina del 17% en la Cámara Federal
retrata las dificultades del Estado brasileño para elevar los niveles de presencia femenina,
incluso considerando la política de cuotas. Estas dificultades se explican por la cultura
patriarcal que impregna las organizaciones sociales y las instituciones políticas, incluidos
partidos y sindicatos. Al comparar Brasil con otras naciones latinoamericanas, se observa que
países como Argentina, Bolivia y Costa Rica han alcanzado niveles similares a los de Europa.
El reciente golpe de Estado que destituyó a Dilma Rousseff como presidenta del país muestra
que en Brasil el conservadurismo, el patriarcado y la misoginia se han renovado en las
relaciones políticas, apoyados por los medios de comunicación, sectores del poder judicial y
las bancadas fundamentalistas del Congreso. Estos hechos han contribuido a exacerbar aún
más las desigualdades de género y clase. Este texto presenta reflexiones construidas a partir
de estudios e investigaciones desarrolladas en las últimas dos décadas (2010, 2015, 2019),
enriquecidas por diálogos con varios autores que denotan que la cultura patriarcal ha sido
uno de los factores que más incide en la violencia política que prohíbe a las mujeres tener una
presencia más efectiva en los espacios de poder y toma de decisiones. Los resultados
electorales presentados denotan esta afirmación que se afirma en la devaluación de la mujer y
la superioridad masculina.
PALABRAS CLAVE: Subrrepresentación. Género. Política. Brasil.
Maria Mary FERREIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. esp. 2, e023015, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23iesp.2.17005 3
ABSTRACT: The underrepresentation of women in elected positions points to an
unconsolidated democracy. The 17% female representation in the Federal Chamber portrays
the Brazilian State's difficulties in raising the levels of female presence, even considering the
quota policy. Such difficulties are explained by the patriarchal culture that pervades social
organizations and political institutions, including parties and unions. When comparing Brazil
with other nations on the same continent, it is observed that countries such as Argentina,
Bolivia, and Costa Rica have reached similar levels to those in Europe. The recent coup that
removed Dilma Rousseff from the president of the country shows that in Brazil, conservatism,
patriarchy, and misogyny have been renewed in political relations, supported by the media, the
judiciary sectors, and the fundamentalist benches in Congress. A fact that has contributed to
intensifying further also gender and class inequalities. This text presents reflections constructed
based on studies and research developed in the last two decades (2010, 2015, 2019), enriched
by dialogues with several authors who denote that patriarchal culture has been one of the
factors that most affect political violence that prohibits women from having a more effective
presence in spaces of power and decision-making. The electoral results presented denote this
assertion that is affirmed in the devaluation of women and male superiority.
KEYWORDS: Underrepresentation. Gender. Politics. Brazil.
Introdução
Os estudos sobre gênero e política no Brasil têm evidenciado que a permanência da sub-
representação feminina reflete os processos de subordinação das mulheres na sociedade e o
pouco investimento dos partidos no recrutamento das mesmas para disputar cargos eletivos. É
certo afirmar que a sub-representação demarca as contradições da democracia no Brasil, tendo
em vista os resultados eleitorais que retratam os vácuos da democracia representativa ao não
incluir segmentos historicamente alijados dos processos de participação: mulheres, indígenas,
negros, pobres. Esse fato faz com que o Brasil se diferencie de grande parte das nações latino-
americanas e europeias, cujos indicadores de presença de mulheres na política refletem os
avanços obtidos nestes países nas duas últimas décadas do século XXI.
De acordo com a União Interparlamentar, em países como Ruanda, Cuba e Nicarágua, as
mulheres superam os homens na representação política. São mais de 50% o número de
representantes femininas nas denominadas câmaras altas nesses países. Em Ruanda, por
exemplo, 61,3% das cadeiras são ocupadas por bancada feminina, seguida de Cuba com 53,4%,
na Nicarágua são 50,6% e no México as mulheres ocupam 50% das principais cadeiras. Na
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Bolívia, as mudanças processadas desde a eleição de Evo Morales
3
em 2006 possibilitaram
grandes avanços na democracia no país, culminando com a eleição da maior bancada feminina
em 2017, quando os bolivianos elegeram 53,1% de deputadas no parlamento boliviano. Este fato
é surpreendente que no país, duas décadas, as mulheres representavam apenas 12%
(FERREIRA, 2010; 2019).
Nações como Cuba, México e Nicarágua somam-se a muitas nações europeias que, desde
meados do século XX, começaram a alterar as relações de gênero nos espaços legislativos. Países
como Suécia, Noruega e Dinamarca vêm alterando as estruturas políticas patriarcais há mais de
cinco décadas, através de um conjunto de medidas que passou a se configurar como necessárias,
para garantir à população feminina maior representação no poder.
Os estudos de Dahlerup (1999) aponta que desde 1986, as norueguesas, suecas e
dinamarquesas mantinham uma relação de quase igualdade em comparação a seus pares, a
partir da eleição de minorias representativas. O aumento da representação feminina se deve a
diversos fatores entre os quais a política de cotas, bem como “é resultado de mudanças na posição
educacional e social feminina e de outras mudanças estruturais da sociedade e do sistema
político” (DAHLERUP,1999, p.152). O aumento da representação por sua vez incidiu nos anos
subsequentes na efetivação de políticas públicas alterando a vida dos cidadãos que residiam nos
países escandinavos, conforme aponta estudos de Ferreira (2020, p. 34).
As mudanças que se processaram em grande parte da Europa, fruto da luta
feminista do início do século XX, podem ser mensuradas pela amplitude das
políticas públicas de igualdade de gênero que foram sendo implementados a
partir do final dos anos setenta. Importante destacar que países como Suécia,
Dinamarca, Finlândia as mulheres constituíam já nos anos setenta mais de 30%
do parlamento, fato que irá incidir no conjunto de políticas públicas de
igualdade de gênero construídos nestes últimos cinquenta anos.
Para entender a exclusão das mulheres na política e como os processos de interdição são
lentos, basta se reportar para o início do século XX, quando as mulheres ainda eram impedidas
de circular e de expor suas ideias em lugares públicos. Isso denota que os processos de interdição
das mulheres nos espaços públicos foram, durante muito tempo, justificados pela visão patriarcal
3
Evo Morales foi presidente da Bolívia por três mandatos consecutivos, de 2006 a 2019. Líder sindical dos
cocaleros agricultores que cultivam a planta coca. Fez um governo de coalizão em todos os seus mandatos,
resistiu às pressões americanas, porém em 2019 renunciou à presidência após golpe orquestrado pela Organização
dos Estados Americanos OEA, conforme denúncias de comunidade internacional (KIST, 2019).
Maria Mary FERREIRA
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construída, naturalizada e disseminada a partir da determinação de que havia lugares destinados
aos homens e lugares destinados à mulher.
O lugar determinado aos homens foi sempre o lugar público, o lugar da interlocução, o
lugar do poder; às mulheres cabia e ainda cabe o lugar do privado, do silêncio e do confinamento.
Ao determinar e delimitar lugares masculinos e femininos, a sociedade foi silenciando e
anulando as mulheres da vida política, não reconhecendo sua capacidade de interferir na
sociedade. Assim, segundo Ferreira (2020) foram construídas as ideologias baseadas em
estereótipos que:
[...] reforçaram a “incapacidade” das mulheres de gerir bens públicos, dada
sua “fragilidade”, “irracionalidade”, “submissão” e até “emoção”. Para os
homens de “bem” de então, opositores contumaz da emancipação das
mulheres, o poder e o parlamento não eram compatíveis com as mulheres,
chegadas a “forte emoção”. Além do mais, o que iria fazer uma mulher
naquele ambiente inadequado a boas moças e senhoras? Tais argumentos
foram fatores decisivos para estabelecer as relações de desigualdade e
interditar à mulher o direito de decidir e contribuir sobre os destinos das
cidades e das nações (FERREIRA, 2020, p. 14).
As ideologias citadas são desconstruídas em algumas nações, conforme mencionado,
porém, no Brasil, a aversão à mudança no cenário político reflete os indicadores de gênero e
étnico racial, que denotam o aprisionamento da sociedade brasileira à cultura racista e patriarcal.
Os índices de violência política imputados às mulheres, desde 2015, expõem a democracia e
intimidam as mulheres que ousam romper com os processos de interdição.
A partir desse contexto, a proposta deste artigo é refletir como a sub-representação
feminina no Brasil revela os equívocos e as contradições da democracia nesse país. Discute-se
também como as práticas políticas dos partidos marcadas pela cultura patriarcal, interditam o
direito das mulheres em participar igualmente da construção do espaço político, uma vez que
são os partidos políticos os responsáveis pelo recrutamento de candidaturas. Isso explica em
grande parte o porquê do número ínfimo de mulheres que se dispõem a se candidatar,
naturalizando os processos de exclusão e reforçando a célebre frase: “mulher não gosta de
política!”.
O artigo está dividido em dois momentos que se articulam intrinsecamente: no primeiro,
discute-se sobre o patriarcado e a representação das mulheres nos espaços decisórios,
apresentando exemplos de como essa participação avança no debate de gênero, mas, ao mesmo
tempo, é limitado pela cultura patriarcal que perpassa as relações sociais e políticas
cotidianamente. No segundo momento, reflete-se, através de dados, sobre a lentidão da ascensão
Gênero, representação política e os processos de interdição das mulheres no Brasil
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das mulheres a cargos eletivos e como as instituições sociais, marcadamente machistas e
patriarcais, interferem na cidadania das mulheres, interditando seu reconhecimento como sujeito
de direito.
Patriarcado, Representação e Participação Política: como a sociedade anula e interdita às
mulheres
A leitura de Karl Marx nos permite compreender a necessidade e urgência de construir
uma alternativa à sociedade capitalista, especialmente nestes tempos sombrios em que o
fascismo se instaurou em grande parte das nações, entre as quais o Brasil. Da mesma forma que
a leitura de Simone de Beauvoir nos incita a descobertas sobre o fato de que “Ninguém nasce
mulher, torna-se mulher”. No que complementa a autora:
[...] Nenhum destino biológico, psíquico, econômico, define a forma que a
fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da sociedade que
elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam
de feminino (BEAUVOIR, 1975, p. 9).
O destino das mulheres é selado desde o nascimento: casar, ter filhos, ser escrava, ser de
alguém. Em muitas comunidades, nas pequenas cidades brasileiras, a exemplo de Arari (MA),
em pleno século XXI, ainda é comum rotular as mulheres como “Maria de Francisco Souza”,
“Marta de Antônio José”, “Juliana de Pedro do Rosário”. As mulheres continuam sendo vistas
como propriedade de alguém. Esse fato explica a permanência do patriarcado, que se constitui
um dos pilares da cultura machista e um dos maiores entraves ao reconhecimento das mulheres
como sujeito de direito.
A criação do patriarcado data segundo Lerner (2019) de mais de dois milênios, seu
princípio emerge no Estado arcaico tendo como unidade básica de sua organização a família
patriarcal, que a mulher como coisa, objeto, sem autonomia, e inexpressiva. A cultura
patriarcal considera as mulheres irrelevantes em todo o processo civilizatório, nega sua presença
e também secundarizou sua força produtiva. Em termos históricos o patriarcado criou regras e
expressou valores que se incrustaram na sociedade, internalizando-se como verdades, a partir da
ideologia e poder masculino. Federici (2017, p. 27) considera que Karl Marx “nunca poderia ter
suposto que o capitalismo preparava o caminho para a libertação humana se tivesse olhado sua
história do ponto de vista das mulheres”. Isso porque a história nos revela que os homens desde
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tempos remotos alcançaram certo grau de liberdade formal, enquanto que as mulheres foram
tratadas como seres socialmente inferiores.
Os estudos de Federici (2017) e de Lerner (2019) abrem caminhos para compreender a
permanência desse sistema de opressão que data dos tempos da escravidão. A forma como os
grupos conquistavam as tribos nas sociedades primitivas evidenciava a cultura patriarcal,
tendo em vista que as primeiras a serem aprisionadas e escravizadas eram as mulheres, enquanto
os homens eram mortos.
[...] Somente depois que os homens aprenderam como escravizar as mulheres
dos grupos que podiam ser definidos como estranhos é que eles aprenderam a
escravizar os homens desses grupos e, em seguida, grupos subordinados de suas
próprias sociedades (LERNER, 2019, p. 351).
A autora considera que a escravidão de mulheres naquele período estava associada a uma
combinação de racismo com o machismo, que precederam a sociedade de classes. As diferenças
de classes foram, em seu início, expressas e constituídas em termos de relações patriarcais. É
certo afirmar que as mulheres, assim como os homens, se constituem de grupos oprimidos e
subordinados. Em toda a história da humanidade isso é visível e constitui o cerne da luta social
por emancipação e liberdade, relacionado especialmente à luta pela sobrevivência e pela
superação das necessidades. Todavia, não se pode desconsiderar que no contexto em que se
processaram mudanças sociais “[...] as mulheres lutaram contra formas de opressão e dominação
diferentes das dos homens, e a luta delas, ahoje, encontra-se mais atrasada em relação à dos
homens” (LERNER, 2019, p. 353). Um exemplo dessa assertiva é a luta para se inserir nos
espaços de poder e decisão, lugar que, conforme afirma Perrot (2005a; 2005b), continua sendo
visto como um “santuário” dominado pelos homens que determinam as regras desse poder e
definem como as mulheres devem atuar.
Se de um lado o patriarcado oprime e anula as mulheres, o capitalismo, que emerge com
a constituição de novos tempos de liberdade propagados pela revolução Francesa, secundariza
seu lugar neste mundo, invisibilizando sua presença ao determinar seu silêncio na história,
confinando-a nos espaços domésticos ou nos empregos subalternos. Essa situação que foi se
diluindo na Europa no século XIX, nos países latino-americanos, a exemplo do Brasil, passam a
ter mais expressão de luta em meados do século XX com a emergência dos movimentos
feminista e a luta contra as ditaduras.
Ao longo da trajetória da democracia no Brasil, caracterizada por avanços e retrocessos,
bem como por golpes e contragolpes, destaca-se a Revolução de 1930. Este evento marcou uma
Gênero, representação política e os processos de interdição das mulheres no Brasil
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ruptura com a República Velha, dominada pelas oligarquias regionais que priorizavam seus
interesses individuais sobre os interesses da nação. Trinta e quatro anos depois, em 1964, quando
o Brasil reconstruía as políticas de estado, os militares promovem o Golpe Militar de 64 contra
o então presidente João Goulart, desestabilizando a democracia em construção e implantando
um regime autoritário que durou vinte e um anos. Os esforços empreendidos pelas organizações
sociais (movimentos feministas, sindicais, partidários, igrejas, entre outros) para restaurar o País
se tornam constantes, diversificadas, radicais, culminando com a abertura política, a destituição
dos militares do poder e a promulgação de uma nova Constituição Brasileira em 1988,
considerada uma das constituições mais democráticas e inclusivas do mundo.
Os esforços de tornar o Brasil uma nação democrática não passou, e nem passa, apenas
pela força, pressão e ação dos homens. As mulheres empreenderam inúmeros movimentos para
que o Estado democrático de direito em construção no Brasil as contemplasse. A luta das
mulheres por reconhecimento, direito, educação, liberdade, trabalho e renda estão transcritas nas
páginas de uma história que somente pouco tempo as reconheceu como sujeito. É uma luta
que não se inicia com as sufragistas no final do século XIX, são lutas que se enfronham nas
senzalas, nas casas grandes, nas primeiras fábricas criadas no país. É possível conhecer esses
esforços através da literatura feminina e das lutas feministas que emergem nos anos sessenta e
setenta (século XX), na luta contra a escravidão, na luta pelo voto, pela educação e trabalho e na
resistência à ditadura, conforme refletem os estudos de Alves (1980), Hahner (1981), Costa
(1998, 2009), Ferreira (2010; 2015; 2020, 2022), Nascimento (2020).
Gênero e Representação Política no Brasil: apontamentos para compreender a dimensão
histórica da luta feminista por igualdade
A categoria gênero permite compreender os processos de subordinação das mulheres
vistos como uma construção das sociedades patriarcais. Por ser relacional, a categoria permite
analisar, ao longo da história e em diferentes sociedades, como as desigualdades foram
naturalizadas e como se aprofundaram nas sociedades capitalistas. Explica também sua
permanência atualmente em virtude dos valores apreendidos e reproduzidos através de diversas
estruturas que aceitam e reforçam as relações desiguais entre os gêneros. Dentre essas
estruturas, destacam-se: a família, a escola, a igreja e seus aparatos religiosos, os setores do
judiciário, os partidos políticos, os sindicatos, entre outros.
Maria Mary FERREIRA
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Através dessa categoria de análise é possível compreender que a subordinação das
mulheres e sua consequente exclusão da esfera pública é uma construção histórica,
institucionalizada nos mais antigos códigos de leis e imposta pelo poder do Estado. No Brasil,
basta avaliar as legislações que foram sendo aprovadas ao longo da constituição do Estado-
Nação. Por exemplo: o Código Civil de 1916 estabelecia que o poder pátrio era do marido e,
apenas em sua falta, a mulher exercia esse poder. Somente neste século, exatamente em 2002,
com a aprovação de um novo Código Civil, ficou estabelecido que a chefia da família deve ser
exercida por ambos em regime de colaboração, ou seja, “A direção da sociedade conjugal será
exercida, em colaboração, pelo marido e pela mulher, sempre no interesse do casal e dos filhos”
(BRASIL, 2002, art. 1.567, p. 342).
As restrições à participação política impostas às mulheres brasileiras foram sendo
gradativamente diluídas a partir das mudanças no Código Eleitoral de 1932, quando foi
concedido o direito ao voto às mulheres casadas, viúvas e solteiras que tivessem renda própria.
Vejam que nessa primeira legislação que concedeu o direito de voto às mulheres, a maioria
delas não teve acesso ao exercício do direito, tendo em vista sua condição de dependência por
não ter renda própria.
Importante lembrar também, que com a aprovação do Estatuto da Mulher Casada (Lei
n.º 4.121/62), algumas incoerências jurídicas foram corrigidas, mas, outras também intoleráveis
permaneceram em vigor, como: 1) a permissão para anular o casamento nos casos que o marido
descobrisse que a mulher tinha tido relações sexuais anteriores ao casamento; 2) a
manutenção da possibilidade do pai deserdar a filha considerada “desonesta” (ALMEIDA,
2019).
As restrições e subordinação impostas às mulheres pelos códigos, normas e leis
impediam as mesmas de exercer qualquer tipo de trabalho fora do lar. A mulher podia
exercer qualquer função que não fosse o trabalho doméstico quando autorizada pelo marido,
sendo este detentor do direito de revogar essa autorização a qualquer momento. A Consolidação
das Leis do Trabalho (CLT), em seu artigo 446, estabelecia essa condição, a qual foi
revogada em 1989 pela Lei 7.855:
Ao marido ou pai é facultado pleitear a rescisão do contrato de trabalho [da
mulher], quando a sua continuação for suscetível de acarretar ameaça aos
vínculos da família, perigo manifesto às condições peculiares da mulher ou
prejuízo de ordem física ou moral para o menor (BRASIL, 1943).
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Como pode ser observado, os processos de interdição das populações femininas no
mundo do trabalho e na vida pública estão expressos nas legislações brasileiras e se reforçam
na cultura patriarcal que se mantém fiel aos códigos centenários. Os fatos até aqui expostos,
permitem-nos compreender como foram construídos os processos de interdição das mulheres
na política e como eles se materializaram em práticas políticas machistas e patriarcais para
interferir na ascensão das mesmas nos cargos de decisão, em especial, nos espaços dos
legislativos, que, como mencionado, o Brasil está entre os países onde o público feminino é um
dos mais sub-representados.
A desigualdade de gênero nos cargos legislativos e executivos no Brasil é visível. Os
números apontam que, mesmo considerando a luta das mulheres ao longo de nove décadas, o
sexo feminino representa aproximadamente 17% das deputadas eleitas na Câmara Federal, em
2022. Nas câmaras municipais, as mulheres representam 13%. Nos executivos, a presença das
mulheres ainda causa estranhamento, haja vista os números ainda muito reduzidos de mulheres
prefeitas e governadoras no país. No cenário atual, apenas duas mulheres foram eleitas: a
governadora Fátima Bezerra pelo estado do Rio Grande do Norte em seu segundo mandato e
Raquel Lyra, que governa o Estado de Pernambuco em seu primeiro mandato. Ambas têm larga
experiência como gestoras e parlamentares em mandatos anteriores.
Se hoje ainda causa estranhamento uma mulher no poder, como se viu quando Dilma
Rousseff foi eleita em 2010 e reeleita em 2014, imaginemos em 1934 quando apenas a paulista
Carlota Pereira de Queiroz foi eleita para a Câmara Federal. Situação semelhante é observada
em 1979, quando Eunice Michiles assume o cargo de senadora após a morte do titular, o
Senador João Bosco Ramos de Lima (ARENA). A trajetória da primeira senadora brasileira
descrita no estudo de Vale (2020) retrata a história de muitas mulheres que lutaram com
tenacidade e conseguiram romper com o anonimato, resistindo ao processo de exclusão que
lhes impunha a sociedade patriarcal de ontem e que perdura atualmente.
Os estigmas enfrentados por Carlota Pereira de Queiroz quando foi eleita para a Câmara
Federal, em 1934, foram os mesmos quando a senadora Eunice Michiles assumiu o senado em
1979. Continuaram sendo também os mesmos estigmas imputados à Presidenta Dilma Rousseff
quando assumiu o comando do país em 2011. A clareza do papel político que cada uma
desenvolveu em momentos distintos da vida política brasileira e os limites que lhes impunham
o cargo e/ou mandato foram sempre compreendidos como desafios superados no processo da
ação parlamentar. O caso de Dilma Rousseff foi o mais emblemático, pois culminou com um
golpe destituindo-a do poder.
Maria Mary FERREIRA
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Ao abordar o tema da representação e sub-representação política das mulheres no Brasil
deve-se considerar a intensa luta das sufragistas que data no final do século XIX, e que estavam
em sintonia com as lutas de mulheres de outras nações imbuídas dos mesmos propósitos desde
o início desse século a exemplo de Inglaterra, França, Dinamarca entre outras nações. Nesses
países, as mulheres se movimentavam na luta por cidadania, em especial o direito ao voto e na
luta contra a escravidão. Embora tardiamente, esses movimentos passaram a circular em vários
estados do Brasil, em especial, nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia.
Ao refletir sobre a exclusão das mulheres nos espaços de decisão e de poder no Brasil, é
importante voltar o olhar para a organização da vida pública e da vida privada deste país, mesmo
porque suas contradições são fruto de uma elite racista e patriarcal. A escrita de Jessé de Souza
(2017) é bastante ilustrativa quando nos diz:
A família patriarcal reunia em si toda a sociedade. Não o elemento
dominante, formado pelo senhor e sua família nuclear, mas também os
elementos intermediários constituídos pelo enorme número de bastardos e
dependentes, além da base de escravos domésticos e, na última escala de
hierarquia, os escravos da lavoura (SOUZA, 2017, p. 42).
A exclusão das mulheres e dos negros no Brasil obedecia a um projeto de negação e
aceitação dos mesmos como sujeitos políticos. A herança patriarcal justificava, e ainda justifica,
o confinamento das mulheres no mundo privado, uma vez que o mundo público era destinado
aos detentores do poder, ou seja, aqueles que têm o domínio sobre a economia, sobre a política,
sobre o Estado, sobre a vida social. O mundo público é o lugar da interlocução, do discurso, da
fala, é um lugar que não cabia e ainda não cabe às mulheres, conforme apontam os dados
eleitorais.
Para entender o processo de exclusão das mulheres na política brasileira e a lentidão de
sua superação, é preciso adentrar no mundo das mulheres e observar a sobrecarga das tarefas
domésticas que as afastam do mundo público. O tempo que as mulheres dedicam ao cuidado da
casa, dos filhos e dos idosos limita significativamente o tempo que poderiam dedicar à
participação política. Historicamente, essa restrição tem sido uma das principais formas de
impedimento das mulheres na esfera pública. Sua presença ainda pouco representativa em cargos
de liderança em partidos, sindicatos e outras organizações políticas refletem a falta de
reconhecimento do seu papel como sujeitos políticos. Apesar disso, é valorizada sua contribuição
nas atividades cotidianas que mantêm essas organizações funcionando e vivas.
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É sempre bom lembrar que a ausência das mulheres nos cargos eletivos retrata a visão
patriarcal das organizações políticas, que não construíram formas de garantir a presença e
participação das mulheres nos espaços de poder e decisão. Para Ferreira (2010):
A ausência das mulheres nesses espaços representativos da sociedade reflete
na formação das mentalidades e no sentimento de inferioridade incorporado
pela própria mulher e pelos demais sujeitos sociais. A partir desses espaços é
possível perceber como essas distinções entre o que é “permitido” e o que é
“negado”, que perpassam toda a sociedade patriarcal, são invisíveis e fazem
com que as mulheres encontrem dificuldades para romper com este “destino
determinado” que as exclui de participar da vida pública (FERREIRA, 2010,
p. 49).
As brasileiras lutam séculos para garantir direitos, igualdade e justiça social. Desde
a luta pelo sufrágio, no final do século XIX, as mulheres desenvolveram diversas estratégias de
luta, entre as quais destacamos passeatas, greves e outras manifestações que proliferaram em
todo o Brasil. Essas manifestações irradiaram na imprensa através da escrita feminina, na qual
as mulheres expressavam seus descontentamentos contra a situação de opressão que as
confinavam no mundo privado. Dadas as proibições que lhes eram impostas pela sociedade
patriarcal, as mulheres escreviam através de pseudônimos, cumpriam assim um papel político
importante de mostrar o descontentamento das sufragistas acerca da negação ao direito ao voto.
Importante lembrar que as lutas e reivindicações das mulheres não se esvaneceram com
a conquista do voto, em 1932, após esse grande feito, as mulheres continuaram a promover e
protagonizar movimentos, greves e protestos que perpassaram o Estado Novo, nas décadas de
trinta e quarenta. Foram lutas que se intensificaram nos anos sessenta e setenta e se articularam
com os movimentos anárquicos, na luta por educação, na luta contra a ditadura militar. No final
dos anos setenta e nos anos oitenta, as lutas eram direcionadas contra a carestia, contra a
violência à mulher, pela legalização do aborto, que se somavam as lutas pela anistia, por
eleições direta e pela redemocratização do país, consideradas como as principais bandeiras dos
movimentos feministas que repercutem de forma bastante positiva no cenário político nacional
(FERREIRA, 2007).
Vale destacar que as mulheres estiveram em todos os momentos em que se lutou e ainda
se luta neste país por direitos, igualdade, liberdade, pão e justiça. Na luta por eleições diretas
no início dos anos oitenta do século XX, as mulheres exerceram um papel extremamente
relevante, mostraram que, ao lado da falta de liberdade de expressão, das condições sociais
agudizadas pelo capitalismo, existia também a opressão dos homens sobre as mulheres, que
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tolhia seus direitos, invisibilizava sua presença e negativava sua participação política. Neste
contexto de luta, o movimento feminista cumpriu papel relevante de trazer à tona não apenas
as contradições da sociedade capitalista e patriarcal, mas, também, a importância da
organização política das mulheres. A partir dos anos oitenta, a luta das mulheres se massificou
e a questão da violência passou a ser central.
A questão da violência contra as mulheres tem, ao longo das décadas, se constituído
como o tema que mais mobiliza os movimentos organizados de mulheres. Pode-se afirmar que,
desde a emergência do feminismo, é unânime que este é um problema que afeta mulheres de
todas as classes sociais, todas as gerações, credos, raças e etnias.
É também a violência tema da maior parte das políticas públicas implementadas no
Brasil nas últimas décadas, fruto das lutas ininterruptas dos movimentos feministas. Dessas
lutas foi possível avançar na construção de estruturas públicas que possibilitaram visibilizar as
injustiças sociais e os déficits que o estado brasileiro tinha em relação às populações femininas.
Desse modo, a criação e implementação de estruturas legais e de proteção às mulheres,
programas de educação de gênero nas escolas, a lei das cotas na política, se constituíram
instrumentos necessários de proteção e valorização das mulheres.
Nas duas últimas décadas, especialmente no período de 2003 a 2015, que compreende
os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, as estruturas foram ampliadas mais
ainda. Varas de combate à violência, promotorias da mulher, leis trabalhistas, mudança no
Código Civil, “[...] ampliação das pesquisas com enfoque de gênero e fortalecimento dos
organismos de políticas para as mulheres dão a real dimensão dos avanços das lutas feministas
e a resposta do Estado brasileiro a essas demandas” (FERREIRA, 2015, p. 34).
É certo que se avançou em relação aos direitos sociais das mulheres, contudo, não se
pode dizer o mesmo em relação aos direitos sexuais e reprodutivos, que retrocederam, e em
relação aos direitos políticos, haja vista a sub-representação que coloca o Brasil entre os países
com menor representação do mundo, conforme mencionado neste texto.
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Desigualdade de gênero na política brasileira e as cotas para ampliação das mulheres na
política
Ao refletir sobre a necessidade de mudanças no sistema político brasileiro é imperativo
que haja um grande investimento por parte do Estado brasileiro de forma mais direta na
formação política da sociedade, em especial das mulheres, garantindo os espaços legais de
direito de exercício do poder político às mesmas. Na garantia de espaços, é imprescindível que
os partidos políticos cumpram a Lei das Cotas e criem mecanismos que garantam a participação
política das mulheres.
Tal assertiva se justifica em virtude de a Lei das Cotas ser uma conquista dos
movimentos de mulheres e feministas para construir a igualdade e paridade entre os gêneros
nos espaços de poder. As cotas para mulheres na política é uma resposta do Estado brasileiro
aos movimentos feministas após a X Conferência Mundial de Mulheres realizada na China em
1995. Nessa conferência, um dos pontos comuns da luta das mulheres no mundo foi o direito à
representação política e à participação mais acentuada das mulheres nos processos decisórios.
A política de cotas no Brasil, adotada através da Lei n9.096/95, estabelecia cotas de
20%. Em 1996, essa lei foi alterada pela Lei n.º 9.504/96, ampliando para 30% no mínimo e
máximo de 70% as candidaturas de cada sexo, ou seja, as cotas de gênero. Em 2009, essa
legislação sofreu outra alteração. Desta feita, a nova lei assegurou a escolha e o registro de
candidatos por meio do cálculo do percentual com base no “número de vagas requeridas”, e não
mais no número de vagas a preencher. A partir desse contexto e reflexões apresentadas, vamos
então discutir: o que diferencia o Brasil da Bolívia, Costa Rica, Argentina? Por que a Política
de Cotas não funciona no Brasil?
As diferenças estão basicamente na sistemática adotada pelos partidos. Nesses
países se adota o sistema de listas fechadas, ou seja, os eleitores optam por uma lista ordenada
de candidatos sem dispor da possibilidade de expressar preferências, nem de modificar a
posição dos mesmos. As listas são elaboradas pelos partidos, que definem a composição e
organizam os candidatos de acordo com sua prioridade de eleição. Borner (2009, p. 69)
esclarece que:
[...] não existe um acordo entre os expertos acerca das vantagens das listas
fechadas para fomentar a participação de mulheres nos organismos de
representação política, no caso argentino essa modalidade de votação constitui
um fator chave para explicar a notável eficácia conseguida pela Lei de Cota
Feminina.
Maria Mary FERREIRA
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No Brasil, infelizmente não há um cumprimento das legislações que regem a política de
cotas. Grande parte dos partidos não cumpre a legislação, não investe nas candidaturas
femininas e ainda cria mecanismo de se livrarem das penalidades. Os dados da representação
política das mulheres no Congresso Nacional demonstram que, diferente do que vem ocorrendo
em países como Bolívia, Costa Rica e Argentina, no Brasil as mulheres não ultrapassam os 17%
(dezessete por cento) nos cargos eletivos. Tais dados também se reproduzem nos legislativos
estaduais e municipais.
As mulheres em cargos representativos nas instâncias de poder no Brasil
O que se observa a partir dos resultados eleitorais, conforme tabela 1, é que pouco se
alterou na representação feminina nos espaços de poder no Brasil nas últimas décadas, no que
se denominou redemocratização do Brasil, mesmo considerando ação dos movimentos
feministas, as mulheres permanecem sub-representadas.
Tabela 1 Representação feminina na Câmara Federal no Brasil 1995 a 2022
DEPUTADAS
DEPUTADOS
TOTAL
91
422
513
77
436
513
51
462
513
45
468
513
45
468
513
42
471
513
28
485
513
34
479
513
413
3.691
Fonte: Dados Pesquisa Mary Ferreira, 2019. TRE, 2018.
Os dados apresentados na Tabela 1 denotam que, em 27 anos, as mudanças nos
indicadores de gênero e política foram ínfimas. São números que evidenciam a sub-
representação das mulheres no poder e refletem o não funcionamento da democracia
representativa no Brasil, tendo em vista que a bancada de deputados eleitos nos últimos pleitos
traduz uma exclusão inaceitável dos segmentos sociais. Os dados apontam que em vinte e sete
anos apenas trezentos e vinte e duas mulheres foram eleitas, enquanto os homens ocuparam três
mil duzentos e sessenta e nove cadeiras.
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A gravidade dos fatos também se faz notar nas bancadas eleitas em 2018 e 2022,
composta em sua maioria por ruralistas, empresários e evangélicos. Mas, observa-se nas eleições
de 2022 um pequeno número de sindicalistas eleitos que retrata o viés classista que também está
presente no perfil dos parlamentares. Nestas duas últimas eleições, chamou atenção o aumento
gradativo de mulheres, tendo em vista as noventa e uma deputadas federais eleitas. Porém, não
se pode desconsiderar que poucas delas têm identidade com as bandeiras históricas dos
movimentos feministas.
Os dados mencionados evidenciam a exclusão das mulheres do poder, que se soma à sub-
representação dos negros e dos pobres. O cenário político atual demonstra que a luta de classes
nunca esteve tão claramente delineada neste país desde o golpe que destituiu a Presidenta eleita
Dilma Rousseff e os eventos que levaram à eleição de Bolsonaro em 2018.
O que se viu na última eleição realizada em 2018, com a ascensão de Jair Bolsonaro, foi
o acirramento do ódio e o recrudescimento da violência étnico racial e da violência de gênero,
expresso nos dados que denotam o aumento exacerbado do fenômeno. Essa violência foi
largamente disseminada no momento em que se constituíram as forças reacionárias para dar o
golpe na Presidenta Dilma Rousseff em 2016.
Importante lembrar que, todo o processo denominado de impeachmentfoi marcado por
violências brutais que denotam o aumento acentuado de violência política imputado às mulheres
e naturalizado na sociedade patriarcal em que vivemos. Dilma Rousseff foi certamente uma das
maiores vítimas. Esse fato é notado quando foram veiculadas imagens de simulações de estupros
feitas para atingir a sua moral. Em um segundo momento, no decorrer do processo do
impeachment realizado no Congresso, ela foi profundamente atingida pelas palavras e agressões
verbais que expressaram a falta de respeito a uma mulher, especialmente pelo que ela
representava.
O clima de deboche, de disputa e agressão pessoal imputado à então presidenta, demarca
a falta de princípios éticos e políticos que moveram a ação do Congresso naquele momento
histórico, mas também a desqualificação das mulheres para cargos eletivos. Ficou evidente que
os atos que culminaram com o golpe na sessão de 17 de abril de 2016, cujas falas atestavam o
machismo, o preconceito e a misoginia dos deputados e deputadas brasileiras naquela sessão,
que marcam o ápice do fascismo no Brasil.
A expressão “tchau querida” se soma a outras declarações que denotam a agressão à
Presidenta Dilma Rousseff. Uma das mais violentas investidas foi a do então deputado Jair
Bolsonaro, que declarou:
Maria Mary FERREIRA
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Pela família e pela inocência das crianças em sala de aula, que o PT nunca
teve… Contra o comunismo, pela nossa liberdade, contra a Folha de S. Paulo,
pela memória do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma
Rousseff (XAVIER, 2017, p. 2).
Outra frase, por demais inusitada, foi a do então Presidente do Congresso, Eduardo
Cunha (PMDB), preso, logo após o golpe, que assim declarou: Que Deus tenha misericórdia
dessa nação. Voto ‘Sim'” (XAVIER, 2017, p. 2). Essas duas declarações expressam não somente
a crueldade de lembrar à Dilma Rousseff o sofrimento que passou nas salas de tortura,
promovidas pelo general mencionado, mas a forma perversa como agem homens que se afirmam
no patriarcado, na cumplicidade de uma sociedade que, além de machista, é violenta e em muitas
situações parece desconhecer os princípios de humanidade.
A partir desse contexto, podemos afirmar que a sub-representação das mulheres nos
espaços legislativos é consequência da cultura machista e patriarcal que se mantém fortemente
enraizada nas organizações políticas. O domínio masculino traduz as dificuldades dos homens
em discutir e questionar seus privilégios, denotando também a permanência da divisão sexual
do trabalho, que reflete na subalternidade das mulheres, interferindo no exercício de sua
cidadania.
Desse modo, o que se observa é que dentro desse modelo patriarcal em voga no Brasil a
divisão sexual do trabalho favorece os homens, e em menor escala as mulheres brancas,
conforme reflete Biroli (2018, p. 42):
A divisão sexual do trabalho está ancorada na naturalização de relações de
autoridade e subordinação, que são apresentadas como se fossem fundadas na
biologia e/ou justificadas racialmente. Em conjunto, as restrições impostas por
gênero, raça e classe social confirmam escolhas, impõem desigualmente
responsabilidades e incitam a determinadas ocupações, ao mesmo tempo que
bloqueiam ou dificultam o acesso a outras.
Por último, é importante considerar que a sub-representação das mulheres brasileiras nos
espaços de poder e decisão acarreta diversas questões adicionais. Isso inclui a entrada tardia das
mulheres nos cursos superiores, a sobrecarga da dupla jornada de trabalho, que reduz sua
participação nos partidos políticos, o empobrecimento das mulheres e sua luta pela
sobrevivência. Além disso, é crucial mencionar o alto número de mulheres chefes de família,
que chega a 38%, e que têm a responsabilidade exclusiva de sustentar seus filhos devido à
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ausência do pai. Somando-se a isso, não se pode subestimar o papel da cultura patriarcal, que
exerce um poder significativo na vida política e partidária do país.
Considerações finais
A proposta deste artigo foi refletir a sub-representação das mulheres nos espaços de
poder, em especial os poderes legislativos, fato que demarca as contradições da democracia no
Brasil. Nesse estudo, apresentamos dados eleitorais referentes a outros países e como estes
alteraram as relações desiguais, ampliando a presença de mulheres nos legislativos, que por sua
vez têm criado legislações que vêm de forma gradativa transformando as relações de gênero na
política formal.
O processo de exclusão das mulheres incide no imaginário social que as vê como pouco
afeitas à política. Sua presença, ainda pouco representativa nos cargos de direção das
universidades, secretarias de estado, partidos políticos, sindicatos e organizações políticas,
reflete o seu não reconhecimento e consequente desvalorização. Mesmo considerando sua
presença nas atividades cotidianas dos partidos e sindicatos, bem como nas estruturas das
organizações, que se fortalecem na divisão sexual do trabalho e de outros múltiplos fatores que
são invisibilizados pela ideologia maternalista, impondo às mulheres papéis aparentemente
incompatíveis com a militância e ação política.
Os papéis reproduzidos dentro das organizações, em especial dos partidos e sindicatos,
reforçam e naturalizam a exclusão, transcritas em frases do tipo: “as mulheres não querem se
candidatar”, “este não é um lugar adequado para mulheres”. Ou seja, os homens se consideram
os “donos do poder e das instituições”. As decisões passam efetivamente por eles. Os partidos
no Brasil continuam sendo santuários dos homens e para os homens, as mulheres continuam
ocupando posições subalternas, embora se observe que pequenas mudanças vem ocorrendo, a
exemplo de: a eleição de Gleisi Hoffmann na presidência de um dos maiores partido político do
Brasil: o Partido dos Trabalhadores (PT) em 2017, as candidaturas de Dilma Rousseff (PT),
Marina Silva (Cidadania) e Cláudia Durans (PSTU Partido Socialista dos Trabalhadores
Unificado) e a eleição e reeleição de Dilma Rousseff, em 2010 e 2014.
Ao analisar o processo de impeachment, politicamente denominado como golpe, nota-se
que a partir desse momento o cenário político do país foi alterado pelas forças conservadoras,
onde prevaleceu a cultura patriarcal. Essa cultura foi aliada às forças do capital, intensificando
a luta de classes e comprometendo a democracia em construção no Brasil.
Maria Mary FERREIRA
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Maria Mary FERREIRA
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CRediT Author Statement
Reconhecimentos: À FAPEMA pelo financiamento da Pesquisa Mulher e Protagonismo
Político no Maranhão que sustentam grande parte das reflexões traduzidas neste artigo.
Financiamento: FAPEMA.
Conflitos de interesse: Não há conflitos de interesse.
Aprovação ética: Não se aplica.
Disponibilidade de dados e material: Os dados citados estão disponíveis em livros e
artigos citados pela autora.
Contribuições dos autores: Autoria única.
Processamento e editoração: Editora Ibero-Americana de Educação.
Revisão, formatação, normalização e tradução.
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DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23iesp.2.17005 1
GENDER, POLITICAL REPRESENTATION AND PROCESSES FOR
PROHIBITION OF WOMEN IN BRAZIL
1
GÊNERO, REPRESENTAÇÃO POLÍTICA E OS PROCESSOS DE INTERDIÇÃO
DAS MULHERES NO BRASIL
GÉNERO, REPRESENTACIÓN POLÍTICA Y PROCESOS DE PROHIBICIÓN DE LAS
MUJERES EN BRASIL
Maria Mary FERREIRA2
e-mail: mm.ferreira@ufma.com
How to reference this paper:
FERREIRA, M. M. Gender, political representation and
processes for prohibition of women in Brazil. Rev.
Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. esp. 2, e023015,
2023. e-ISSN: 2359-2419. DOI:
https://doi.org/10.47284/cdc.v23iesp.2.17005
| Submitted: 21/07/2022
| Revisions required: 06/06/2023
| Approved: 30/09/2023
| Published: 23/12/2023
Editors:
Prof. PhD. Maria Teresa Miceli Kerbauy
Prof. Me. Mateus Tobias Vieira
Prof. Me. Thaís Caetano de Souza
1
This study is part of research conducted by the researcher since 1998, further elaborated in the books Os
Bastidores da Tribuna: mulher, política e poder no Maranhão (2010) and Mulheres, protagonismos e sub-
representação, (2019). Both were funded by the Foundation for Research and Scientific and Technological
Development of Maranhão FAPEMA.
2
University Federal of Maranhão (UFMA), São Luís MA Brazil. Associate Professor in the Graduate Program
in Public Policies and the Department of Library Science at the Federal University of Maranhão. Doctoral degree
in Sociology from Unesp/FCLAr and completed postdoctoral studies in Communication and Information at the
University of Porto, Portugal.
Gender, political representation and processes for prohibition of women in Brazil
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. esp. 2, e023015, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23iesp.2.17005 2
ABSTRACT: The underrepresentation of women in elected positions points to an
unconsolidated democracy. The 17% female representation in the Federal Chamber portrays
the Brazilian State's difficulties in raising the levels of female presence, even considering the
quota policy. Such difficulties are explained by the patriarchal culture that pervades social
organizations and political institutions, including parties and unions. When comparing Brazil
with other nations on the same continent, it is observed that countries such as Argentina,
Bolivia, and Costa Rica have reached similar levels to those in Europe. The recent coup that
removed Dilma Rousseff from the president of the country shows that in Brazil, conservatism,
patriarchy, and misogyny have been renewed in political relations, supported by the media, the
judiciary sectors, and the fundamentalist benches in Congress. A fact that has contributed to
intensifying further also gender and class inequalities. This text presents reflections constructed
based on studies and research developed in the last two decades (2010, 2015, 2019), enriched
by dialogues with several authors who denote that patriarchal culture has been one of the factors
that most affect political violence that prohibits women from having a more effective presence
in spaces of power and decision-making. The electoral results presented denote this assertion
that is affirmed in the devaluation of women and male superiority.
KEYWORDS: Underrepresentation. Gender. Politics. Brazil.
RESUMO: No Brasil, a sub-representação de mulheres em cargos eletivos aponta para uma
democracia não consolidada. Os 17% de representação feminina na Câmara Federal retratam
as dificuldades do Estado brasileiro de elevar os patamares de presença feminina, mesmo
considerando a política de cotas. Tais dificuldades se explicam na cultura patriarcal que
perpassa as organizações sociais e instituições políticas, entre as quais os partidos e
sindicatos. Ao comparar o Brasil com outras nações latino-americanas, observa-se que países
como Argentina, Bolívia e Costa Rica alcançaram patamares semelhantes aos europeus. O
recente impeachment que resultou na destituição de Dilma Rousseff da presidência do país
evidencia que no Brasil, o conservadorismo, o patriarcado e a misoginia são perpetuados nas
relações políticas, sustentados pela mídia, setores do judiciário e pelas bancadas
fundamentalistas do Congresso. Esses fatos têm contribuído para acirrar mais ainda as
desigualdades de gênero e classe. Este texto apresenta reflexões construídas a partir de estudos
e pesquisas desenvolvidas nas duas últimas décadas (2010, 2015, 2019), enriquecidas por
diálogos com diversos autores que denotam que a cultura patriarcal tem sido um dos fatores
que mais incide sobre a violência política que interdita as mulheres de ter uma presença mais
efetiva nos espaços de poder e decisão. Os resultados eleitorais apresentados denotam essa
assertiva que se afirma na desvalorização das mulheres e na superioridade masculina.
PALAVRAS-CHAVE: Sub-representação. Gênero. Política. Brazil.
Maria Mary FERREIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. esp. 2, e023015, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23iesp.2.17005 3
RESUMEN: En Brasil, la subrepresentación de las mujeres en cargos electos apunta a una
democracia no consolidada. La representación femenina del 17% en la Cámara Federal
retrata las dificultades del Estado brasileño para elevar los niveles de presencia femenina,
incluso considerando la política de cuotas. Estas dificultades se explican por la cultura
patriarcal que impregna las organizaciones sociales y las instituciones políticas, incluidos
partidos y sindicatos. Al comparar Brasil con otras naciones latinoamericanas, se observa que
países como Argentina, Bolivia y Costa Rica han alcanzado niveles similares a los de Europa.
El reciente golpe de Estado que destituyó a Dilma Rousseff como presidenta del país muestra
que en Brasil el conservadurismo, el patriarcado y la misoginia se han renovado en las
relaciones políticas, apoyados por los medios de comunicación, sectores del poder judicial y
las bancadas fundamentalistas del Congreso. Estos hechos han contribuido a exacerbar aún
más las desigualdades de género y clase. Este texto presenta reflexiones construidas a partir
de estudios e investigaciones desarrolladas en las últimas dos décadas (2010, 2015, 2019),
enriquecidas por diálogos con varios autores que denotan que la cultura patriarcal ha sido
uno de los factores que más incide en la violencia política que prohíbe a las mujeres tener una
presencia más efectiva en los espacios de poder y toma de decisiones. Los resultados
electorales presentados denotan esta afirmación que se afirma en la devaluación de la mujer y
la superioridad masculina.
PALABRAS CLAVE: Subrrepresentación. Género. Política. Brasil.
Introduction
Studies on gender and politics in Brazil have highlighted that the persistence of female
underrepresentation reflects women's subordination in society and the limited efforts by political
parties to recruit them for elected positions. It is accurate to assert that this underrepresentation
marks the contradictions of democracy in Brazil, considering electoral outcomes that depict the
gaps in representative democracy by excluding historically marginalized segments from
participation: women, indigenous peoples, Black individuals, and the poor. This fact sets Brazil
apart from many Latin American and European nations, where indicators of women's presence
in politics reflect advances made in these countries during the last two decades of the 21st
century.
According to the Inter-Parliamentary Union, in countries like Rwanda, Cuba, and
Nicaragua, women outnumber men in political representation. Women in these countries' upper
chambers represent more than 50% of the members. For instance, 61.3% of seats in Rwanda are
held by female representatives, followed by Cuba with 53.4%, Nicaragua with 50.6%, and
Mexico with women occupying 50% of the main seats. In Bolivia, the changes initiated since
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Evo Morales's
3
election in 2006 have led to significant advances in democracy, culminating in
the election of the most prominent female caucus in 2017, when Bolivians elected 53.1% female
deputies to the Bolivian parliament. This is remarkable, considering that two decades ago,
women represented only 12% (FERREIRA, 2010; 2019).
Nations like Cuba, Mexico, and Nicaragua join many European countries that, since the
mid-20th century, have begun to change gender relations in legislative spaces. Countries such
as Sweden, Norway, and Denmark have been altering patriarchal political structures for over
five decades through a set of measures that have become necessary to ensure greater female
representation in power.
Dahlerup's studies (1999) indicate that since 1986, Norwegian, Swedish, and Danish
women have maintained a nearly equal relationship compared to their male counterparts,
stemming from the election of representative minorities. The increase in female representation
is attributed to various factors, including quota policies, as well as "results from changes in the
educational and social position of women and other structural changes in society and the political
system" (DAHLERUP, 1999, p. 152, our translation). The increase in representation, in turn, has
led in subsequent years to implementing public policies that have altered the lives of citizens
residing in the Scandinavian countries, as indicated by Ferreira's studies (2019, p. 34, our
translation):
The changes that have taken place in much of Europe, stemming from the
feminist struggle of the early 20th century, can be measured by the breadth of
gender equality public policies that have been implemented since the late
1970s. It is essential to highlight that in countries like Sweden, Denmark, and
Finland, women already constituted over 30% of parliament in the 1970s,
which has influenced the array of gender equality public policies developed
over the past fifty years.
To understand women's exclusion from politics and how the interdiction processes are
slow, one only needs to look back to the early 20th century, when women were still prevented
from moving about and expressing their ideas in public places. This indicates that the processes
of women's interdiction in public spaces were, for a long time, justified by the patriarchal view
3
Evo Morales served as the President of Bolivia for three consecutive terms, from 2006 to 2019. He was a union
leader of the cocaleros farmers who cultivate the coca plant. He led a coalition government throughout his
mandates and resisted American pressures, but in 2019, he resigned from the presidency following a coup
orchestrated by the Organization of American States (OAS), as reported by the international community (KIST,
2019).
Maria Mary FERREIRA
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constructed, naturalized, and disseminated based on the determination that there were places
designated for men and places designated for women.
The place designated for men was always the public sphere, the place of dialogue, and
the place of power, while women were and still are confined to the private sphere, silence, and
confinement. By determining and delineating masculine and feminine places, society silenced
and nullified women from political life, not recognizing their ability to influence society. Thus,
according to Ferreira (2020), ideologies based on stereotypes were constructed, which:
[...] reinforced the "inability" of women to manage public goods, given their
"fragility," "irrationality," "submissiveness," and even "emotion." For the
"virtuous" men of that time, staunch opponents of women's emancipation,
power, and parliament were not compatible with women, who were deemed
prone to "strong emotion." Moreover, what would a woman do in an
unsuitable environment for proper ladies? Such arguments were decisive
factors in establishing relations of inequality and denying women the right to
decide and contribute to the destinies of cities and nations (FERREIRA, 2020,
p. 14, our translation).
While these ideologies have been deconstructed in some nations, as mentioned, in Brazil,
the aversion to change in the political landscape reflects gender and ethnic-racial indicators,
indicating the entrapment of Brazilian society in a racist and patriarchal culture. The indices of
political violence against women since 2015 expose democracy and intimidate women who dare
to break free from the processes of interdiction.
In this context, the purpose of this article is to reflect on how female underrepresentation
in Brazil reveals the misconceptions and contradictions of democracy in this country. It also
discusses how political party practices marked by patriarchal culture inhibit women's rights to
participate equally in the construction of the political space, as political parties are responsible
for recruiting candidates. This largely explains the tiny number of women willing to run for
office, naturalizing processes of exclusion and reinforcing the famous phrase: "Women don't
like politics!".
The article is divided into two intrinsically linked moments: the first discusses patriarchy
and women's representation in decision-making spaces, presenting examples of how this
participation advances in gender discourse but, at the same time, is limited by the patriarchal
culture that pervades social and political relations daily. In the second part, the article reflects,
through data, on the slow ascent of women to elected positions and how social institutions,
notably macho and patriarchal ones, interfere with women's citizenship, denying their
recognition as rights-bearing subjects.
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Patriarchy, Representation, and Political Participation: How Society Nullifies and
Interdicts Women
Reading Karl Marx allows us to understand the necessity and urgency of building an
alternative to capitalist society, especially in these dark times when fascism has taken hold in
many nations, including Brazil. Similarly, reading Simone de Beauvoir prompts us to discover
that "One is not born, but rather becomes, a woman." This complements the author's perspective.
[...] No biological, psychological, economic fate determines the figure that the
human female presents in society; it is the entire social ensemble that elaborates
this intermediate product between the male and the eunuch that is called
femininity (BEAUVOIR, 1975, p. 9, our translation).
The fate of women is sealed from birth: to marry, have children, be enslaved, belong to
someone. In many communities, in small Brazilian towns, such as Arari (MA), in the 21st
century, it is still expected to label women as “Maria de Francisco Souza”, “Marta de Antônio
José”, “Juliana de Pedro do Rosário
4
. Women continue to be seen as someone's property. This
fact explains the persistence of patriarchy, which constitutes one of the pillars of macho culture
and one of the greatest obstacles to recognizing women as subjects of rights.
According to Lerner (2019), the creation of patriarchy dates back to more than two
millennia. Its principle emerges in the archaic state, with the basic unit of its organization being
the patriarchal family, which views women as objects, without autonomy, and insignificant.
Patriarchal culture considers women irrelevant in the entire process of civilization, denies their
presence, and also sidelines their productive strength. Historically, patriarchy created rules and
expressed values that became embedded in society, internalizing themselves as truths, stemming
from male ideology and power. Federici (2017, p. 27, our translation) argues that Karl Marx
"could never have supposed that capitalism was preparing the way for human liberation if he
had looked at its history from the point of view of women". This is because history reveals that
men have achieved a certain degree of formal freedom since ancient times, while women have
been treated as socially inferior beings.
The studies by Federici (2017) and Lerner (2019) pave the way to understanding the
persistence of this system of oppression dating back to the time of slavery. The way groups
conquered tribes already evidenced patriarchal culture, considering that the first to be captured
and enslaved were women, while men were killed.
4
"Maria, wife of Francisco Souza," "Marta, wife of Antônio José," "Juliana, wife of Pedro do Rosário."
Maria Mary FERREIRA
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[...] Only after men learned how to enslave the women of groups that could be
defined as strangers did they learn to enslave the men of those groups and then
subordinate groups of their societies (LERNER, 2019, p. 351, our translation).
The author considers that the enslavement of women during that period was associated
with a combination of racism and sexism that preceded class society. Class differences were, at
their inception, expressed and constituted in terms of patriarchal relations. It is true to affirm that
women, like men, constitute oppressed and subordinate groups. Throughout human history, this
is visible and constitutes the essence of the social struggle for emancipation and freedom,
especially related to the struggle for survival and overcoming needs. However, it cannot be
overlooked that in the context of social changes, "[...] women fought against forms of oppression
and domination different from those of men, and their struggle, to this day, is more backward
than that of men" (LERNER, 2019, p. 353, our translation). An example of this assertion is the
struggle to insert themselves into spaces of power and decision-making, a place that, as Perrot
(2005a; 2005b), asserts, continues to be seen as a "sanctuary" dominated by men who determine
the rules of that power and define how women should act.
While patriarchy oppresses and nullifies women, capitalism, which emerged with the
constitution of new times of freedom propagated by the French Revolution, sidelines their place
in this world, invisibilizing their presence by determining their silence in history, confining them
to domestic spaces or subordinate jobs. This situation, which was fading in Europe in the 19th
century, gained more expression of struggle in Latin American countries, such as Brazil, in the
mid-20th century with the emergence of feminist movements and the fight against dictatorships.
Throughout the trajectory of democracy in Brazil, characterized by advances and
setbacks, as well as coups and counter-coups, the Revolution of 1930 stands out. This event
marked a rupture with the Old Republic, dominated by regional oligarchies that prioritized their
individual interests over the interests of the nation. Thirty-four years later, in 1964, as Brazil was
rebuilding state policies, the military staged the Military Coup of 1964 against then-President
João Goulart, destabilizing the nascent democracy and implanting an authoritarian regime that
lasted twenty-one years. The efforts undertaken by social organizations (feminist movements,
unions, political parties, and churches, among others) to restore the country became constant,
diversified, and radical, culminating in the political opening, the removal of the military from
power, and the promulgation of a new Brazilian Constitution in 1988, considered one of the most
democratic and inclusive constitutions in the world.
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The efforts to make Brazil a democratic nation did not, and do not, rely solely on the
strength, pressure, and action of men. Women have undertaken numerous movements for the
democratic state of law under construction in Brazil to include them. The struggle of women for
recognition, rights, education, freedom, work, and income is transcribed on the pages of a history
that only recently recognized them as subjects. It is a struggle that did not begin with the
suffragettes at the end of the 19th century; these are struggles that delve into the slave quarters,
the mansions, and the first factories created in the country. One can learn about these efforts
through women's literature and feminist struggles that emerged in the sixties and seventies (20th
century), in the fight against slavery, for suffrage, education and work, and in resistance to
dictatorship, as reflected in the studies by Alves (1980), Hahner (1981), Costa (1998, 2009),
Ferreira (2010; 2015; 2020, 2022), and Nascimento (2020).
Gender and Political Representation in Brazil: Notes to Understand the Historical
Dimension of the Feminist Struggle for Equality
The gender category allows us to understand the processes of women's subordination as
a construction of patriarchal societies. Being relational, the category allows us to analyze,
throughout history and in different societies, how inequalities were naturalized and how they
deepened in capitalist societies. It also explains their current persistence due to the values
learned and reproduced through various structures that accept and reinforce unequal gender
relations. Among these structures, we highlight the family, the school, the church and its
religious apparatus, judicial sectors, political parties, and trade unions, among others.
Through this analytical category, it is possible to understand that the subordination of
women and their consequent exclusion from the public sphere is a historical construction
institutionalized in the oldest codes of laws and imposed by the power of the State. In Brazil, it
is enough to evaluate the legislation passed throughout the Nation-State's constitution. For
example: the Civil Code of 1916 established that paternal power belonged to the husband and,
only in his absence, did the woman exercise that power. Only in this century, precisely in 2002,
with the approval of a new Civil Code, it was established that the leadership of the family should
be exercised by both collaboratively, that is, "The direction of the conjugal society will be
exercised, in collaboration, by the husband and the wife, always in the interest of the couple
and the children" (BRASIL, 2002, art. 1.567, p. 342, our translation).
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The restrictions on political participation imposed on Brazilian women were gradually
diluted, starting from changes in the Electoral Code of 1932, when the right to vote was granted
to married, widowed, and single women who had their income. Note that in this first legislation
granting women the right to vote, the majority of them did not have access to exercise this right,
considering their dependency due to lack of their income.
It is also important to remember that with the approval of the Married Women's Statute
(Law No. 4,121/62), some legal inconsistencies were corrected, but other intolerable ones
remained in force, such as: 1) the permission to annul the marriage in cases where the husband
discovered that the woman had already had sexual relations before marriage; 2) the maintenance
of the possibility for the father to disinherit the daughter considered "dishonorable"
(ALMEIDA, 2019).
The restrictions and subordination imposed on women by codes, norms, and laws
prevented them from engaging in any type of work outside the home. A woman could only
perform any function other than domestic work when authorized by her husband, who had the
right to revoke this authorization at any time. The Consolidation of Labor Laws (CLT), in its
article 446, established this condition, which was only revoked in 1989 by Law 7,855:
The husband or father is allowed to plead for the termination of the [woman's]
employment contract, when its continuation is likely to endanger family ties,
pose a manifest danger to the peculiar conditions of the woman, or cause
physical or moral harm to the minor (BRASIL, 1943, our translation).
As can be observed, the processes of interdiction of female populations in the workforce
and public life are expressed in Brazilian legislation and are reinforced by the patriarchal culture
that remains faithful to centuries-old codes. The facts presented here allow us to understand
how the processes of interdiction of women in politics were constructed and how they
materialized in macho and patriarchal political practices to interfere with their ascension to
decision-making positions, especially in legislative spaces, where, as mentioned, Brazil is
among the countries where the female public is one of the most underrepresented.
Gender inequality in legislative and executive positions in Brazil is evident. The
numbers indicate that, even considering women's struggle over nine decades, females represent
approximately 17% of elected deputies in the Federal Chamber in 2022. In municipal councils,
women represent 13%. In the executive branch, the presence of women still causes
astonishment, given the still very low numbers of female mayors and governors in the country.
In the current scenario, only two women were elected: Governor Fátima Bezerra for the state
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of Rio Grande do Norte in her second term and Raquel Lyra, who governs the state of
Pernambuco in her first term. Both have extensive experience as managers and parliamentarians
in previous terms.
If today it still causes astonishment to see a woman in power, as seen when Dilma
Rousseff was elected in 2010 and reelected in 2014, let us imagine in 1934 when only Carlota
Pereira de Queiroz from São Paulo was elected to the Federal Chamber. A similar situation was
observed in 1979 when Eunice Michiles assumed the position of senator after the death of the
incumbent, Senator João Bosco Ramos de Lima (ARENA). The trajectory of the first Brazilian
senator described in Vale's (2020) study reflects the history of many women who fought
tenaciously and managed to break the anonymity, resisting the process of exclusion imposed
on them by the patriarchal society of yesterday and which persists today.
The stigmas Carlota Pereira de Queiroz faced when she was elected to the Federal
Chamber in 1934 were the same as when Senator Eunice Michiles took office in the Senate in
1979. They remained the same stigmas imposed on President Dilma Rousseff when she took
office in 2011. The clarity of the political role that each one developed at different moments in
Brazilian political life and the limitations imposed on them by the position and/or mandate were
always understood as challenges overcome in the process of parliamentary action. The case of
Dilma Rousseff was the most emblematic, as it culminated in a coup removing her from power.
When addressing the theme of women's political representation and underrepresentation
in Brazil, one must consider the intense struggle of suffragists dating back to the late 19th
century, who were in line with the struggles of women from other nations imbued with the same
purposes since the beginning of that century, such as England, France, Denmark, among other
nations. In these countries, women were engaged in the struggle for citizenship, especially the
right to vote and the fight against slavery. Although belatedly, these movements began to
circulate in various states of Brazil, especially in the states of Rio de Janeiro, São Paulo, and
Bahia.
Reflecting on the exclusion of women from decision-making and power spaces in Brazil,
it is essential to turn our attention to the organization of public and private life in this country,
precisely because its contradictions stem from a racist and patriarchal elite. The writing of Jessé
de Souza (2017) is quite illustrative when he tells us:
The patriarchal family encompassed all of society. Not only the dominant
element, formed by the master and his nuclear family, but also the intermediate
elements constituted by the enormous number of bastards and dependents, in
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addition to the base of domestic slaves and, at the bottom of the hierarchy, the
field slaves (SOUZA, 2017, p. 42, our translation).
The exclusion of women and Black people in Brazil followed a project of denial and
acceptance of them as political subjects. The patriarchal heritage justified, and still justifies, the
confinement of women in the private sphere, since the public sphere was intended for those who
hold power, namely, those who have dominion over the economy, politics, the state, and social
life. The public sphere is the place of dialogue, discourse, speech; it is a place that did not fit,
and still does not fit, women, as indicated by electoral data.
To understand the process of exclusion of women in Brazilian politics and the slow pace
of its overcoming, it is necessary to delve into the world of women and observe the burden of
household tasks that keep them away from the public sphere. The time that women dedicate to
household chores and caring for children and the elderly significantly limits the time they can
devote to political participation. Historically, this restriction has been one of the main
impediments to women in the public sphere. Their still limited presence in leadership positions
in parties, unions, and other political organizations reflects the lack of recognition of their role
as political subjects. Nevertheless, their contribution to the daily activities that keep these
organizations functioning and alive is valued.
It is always worth remembering that the absence of women in elected positions reflects
the patriarchal view of political organizations, which have not built ways to ensure the presence
and participation of women in positions of power and decision-making. According to Ferreira
(2010):
The absence of women in these representative spaces of society reflects on the
formation of mentalities and the feeling of inferiority incorporated by women
themselves and by other social subjects. From these spaces, it is possible to
perceive how these distinctions between what is 'allowed' and what is 'denied',
which permeate the entire patriarchal society, are invisible and make it
difficult for women to break free from this 'determined destiny' that excludes
them from participating in public life (FERREIRA, 2010, p. 49, our
translation).
Brazilian women have been fighting for centuries to ensure rights, equality, and social
justice. Since the struggle for suffrage in the late 19th century, women have developed various
strategies, including marches, strikes, and other demonstrations that proliferated throughout
Brazil. These demonstrations spread through the press via women's writing, in which they
expressed their discontent against the oppressive situation that confined them to the private
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sphere. Given the prohibitions imposed on them by patriarchal society, women wrote under
pseudonyms, thus fulfilling a crucial political role in showing the suffragists' dissatisfaction
with the denial of the right to vote.
It is important to remember that the struggles and demands of women did not dissipate
with the achievement of suffrage in 1932. After this great feat, women continued to promote
and lead movements, strikes, and protests that spanned the Estado Novo period in the thirties
and forties. These struggles intensified in the sixties and seventies and were articulated with
anarchist movements, in the fight for education, against the military dictatorship. In the late
seventies and eighties, the struggles were directed against inflation, violence against women,
and the legalization of abortion, which were added to the struggles for amnesty, direct elections,
and the democratization of the country, considered the main flags of the feminist movements
that had a very positive impact on the national political scene (FERREIRA, 2007).
It is worth noting that women have always been present when fighting for rights,
equality, freedom, bread, and justice in this country. In the struggle for direct elections in the
early eighties of the 20th century, women played an extremely relevant role, showing that,
alongside the lack of freedom of expression, the social conditions aggravated by capitalism,
there was also the oppression of men over women, which curtailed their rights, made their
presence invisible, and negated their political participation. In this context of struggle, the
feminist movement played a relevant role in bringing to light not only the contradictions of
capitalist and patriarchal society but also the importance of women's political organization.
From the eighties onwards, women's struggle became massified, and the issue of violence
became central.
The issue of violence against women has, over the decades, become the most mobilizing
theme for organized women's movements. It can be affirmed that, since the emergence of
feminism, it is unanimous that this is a problem that affects women of all social classes,
generations, beliefs, races, and ethnicities.
Violence is also the subject of the majority of public policies implemented in Brazil in
recent decades, as a result of the uninterrupted struggles of feminist movements. From these
struggles, it was possible to advance in the construction of public structures that made it possible
to visualize social injustices and the deficits the Brazilian state had in relation to female
populations. Thus, the creation and implementation of legal and protective structures for
women, gender education programs in schools, and the quota law in politics constituted
necessary instruments for the protection and valorization of women.
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The structures were further expanded in the last two decades, especially from 2003 to
2015, including the governments of Luiz Inácio Lula da Silva and Dilma Rousseff. Courts to
combat violence, women's prosecutor's offices, labor laws, changes in the Civil Code, "[...]
expansion of research with a gender focus and strengthening of women's policy agencies give
a real dimension to the advances of feminist struggles and the response of the Brazilian state to
these demands" (FERREIRA, 2015, p. 34, our translation).
It is true that progress has been made regarding the social rights of women; however,
the same cannot be said regarding sexual and reproductive rights, which have regressed, and
regarding political rights, given the under-representation that places Brazil among the countries
with the lowest representation in the world, as mentioned in this text.
Gender inequality in Brazilian politics and quotas for increasing women's participation
in politics
When reflecting on the need for changes in the Brazilian political system, it is imperative
that there be a significant investment by the Brazilian state more directly in the political
education of society, especially women, guaranteeing legal spaces for the exercise of political
power by them. In ensuring spaces, it is essential that political parties comply with the Quota
Law and create mechanisms to guarantee women's political participation.
This assertion is justified because the Quota Law is an achievement of women's and
feminist movements to build equality and parity between genders in positions of power. Quotas
for women in politics are a response from the Brazilian state to feminist movements after the X
World Conference on Women held in China 1995. In this conference, one of the common points
of women's struggle worldwide was the right to political representation and increased
participation of women in decision-making processes.
The quota policy in Brazil, adopted through Law No. 9,096/95, established quotas of
20%. In 1996, this law was amended by Law No. 9,504/96, increasing the quotas to a minimum
of 30% and a maximum of 70% for each sex, that is, gender quotas. In 2009, this legislation
underwent another alteration. This time, the new law ensured the choice and registration of
candidates through the calculation of the percentage based on the "number of required
vacancies," and no longer on the number of vacancies to be filled. Based on this context and
the reflections presented, let us then discuss: what sets Brazil apart from Bolivia, Costa Rica,
and Argentina? Why does the Quota Policy not work in Brazil?
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The differences lie primarily in the system adopted by the parties. In these countries,
the closed list system is adopted, meaning that voters choose from a ranked list of candidates
without the possibility of expressing preferences or modifying their position. The lists are
prepared by the parties, which define the composition and organize the candidates according to
their priority for election. Borner (2009, p. 69, our translation) clarifies that:
[...] there is no agreement among experts about the advantages of closed lists
for promoting the participation of women in political representation bodies; in
the case of Argentina, this voting modality constitutes a key factor in
explaining the remarkable effectiveness achieved by the Women's Quota Law.
Unfortunately, in Brazil, there is a lack of compliance with the laws governing quota
policies. A large part of the parties does not comply with the legislation, does not invest in
female candidacies, and even creates mechanisms to avoid penalties. The data on the political
representation of women in the National Congress demonstrate that, unlike what is happening
in countries such as Bolivia, Costa Rica, and Argentina, women in Brazil do not exceed 17%
(seventeen percent) in elected positions. Such data is also replicated in state and municipal
legislatures.
Women in Representative Positions in Brazilian Power Structures
What can be observed from the election results, as shown in Table 1, is that little has
changed in female representation in positions of power in Brazil in recent decades, during what
has been termed the democratization of Brazil. Even considering the actions of feminist
movements, women remain underrepresented.
Table 1 - Female representation in the Brazilian Federal Chamber - 1995 to 2022
FEMALE DEPUTIES
MALE DEPUTIES
TOTAL
91
422
513
77
436
513
51
462
513
45
468
513
45
468
513
42
471
513
28
485
513
34
479
513
413
3.691
Source: Data from Mary Ferreira Research, 2019. TRE, 2018.
Maria Mary FERREIRA
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The data presented in Table 1 indicate that, over 27 years, changes in gender and political
indicators have been minimal. These numbers highlight the underrepresentation of women in
power and reflect the malfunctioning of representative democracy in Brazil, given that the
elected deputies in recent elections translate into an unacceptable exclusion of social segments.
The data show that in twenty-seven years, only three hundred and twenty-two women were
elected, while men occupied three thousand three hundred and sixty-nine seats.
The seriousness of the situation is also evident in the benches elected in 2018 and 2022,
composed mostly of ruralists, businessmen, and evangelicals. However, in the 2022 elections, a
small number of unionists were elected, reflecting the class bias that is also present in the profile
of parliamentarians. In these last two elections, the gradual increase in women was noteworthy,
considering the ninety-one elected federal deputies. However, it cannot be overlooked that few
of them identify with the historical banners of feminist movements.
The mentioned data highlight the exclusion of women from power, which adds to the
underrepresentation of blacks and the poor. The current political landscape demonstrates that the
class struggle has never been so clearly outlined in this country since the coup that removed
President Dilma Rousseff from office and the events that led to the election of Bolsonaro in
2018.
What was witnessed in the last election held in 2018, with the rise of Jair Bolsonaro, was
the intensification of hatred and the worsening of ethnic-racial violence and gender violence, as
evidenced by data showing the exacerbated increase of the phenomenon. This violence was
widely disseminated at the moment when reactionary forces were formed to oust President
Dilma Rousseff in 2016.
It is important to remember that the entire process called "impeachment" was marked by
brutal violence that reflects the sharp increase in political violence against women, normalized
in the patriarchal society in which we live. Dilma Rousseff was certainly one of the greatest
victims. This fact is noted when images of simulated rapes were circulated to undermine her
moral standing. At a later stage, during the impeachment process in Congress, she was deeply
affected by words and verbal aggressions that expressed a lack of respect for a woman, especially
for what she represented.
The atmosphere of mockery, rivalry, and personal aggression attributed to the then-
president demarcates the lack of ethical and political principles that guided the action of
Congress at that historical moment, as well as the disqualification of women for elected
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positions. It became evident that the acts that culminated in the coup on April 17, 2016, whose
speeches testified to the sexism, prejudice, and misogyny of Brazilian deputies in that session,
marked the peak of fascism in Brazil.
The expression "tchau querida" (goodbye dear) adds to other statements that denote
aggression towards President Dilma Rousseff. One of the most violent attacks was by then
deputy Jair Bolsonaro, who declared:
For the family and the innocence of children in the classroom, which the PT
never had... Against communism, for our freedom, against Folha de S. Paulo,
in memory of Colonel Carlos Alberto Brilhante Ustra, the terror of Dilma
Rousseff (XAVIER, 2017, p. 2, our translation).
Another highly unusual statement was made by then President of Congress, Eduardo
Cunha (PMDB), who was arrested shortly after the coup, and declared: "May God have mercy
on this nation. I vote 'Yes'" (XAVIER, 2017, p. 2, our translation). These two statements not
only express the cruelty of reminding Dilma Rousseff of the suffering she endured in the torture
chambers, orchestrated by the mentioned general, but also the perverse manner in which men
who assert themselves in patriarchy act, in complicity with a society that, besides being sexist,
is violent and often seems to ignore principles of humanity.
From this context, we can affirm that the underrepresentation of women in legislative
spaces is a consequence of the deeply entrenched sexist and patriarchal culture within political
organizations. Male dominance reflects the reluctance of men to discuss and question their
privileges, also indicating the persistence of the sexual division of labor, which results in the
subordination of women, affecting their exercise of citizenship.
Thus, what is observed is that within this patriarchal model prevalent in Brazil, the sexual
division of labor favors men, and, to a lesser extent, white women, as reflected by Biroli (2018,
p. 42, our translation):
The sexual division of labor is anchored in the naturalization of relations of
authority and subordination, which are presented as if they were based on
biology and/or racially justified. Together, the gender, race, and social class
restrictions confirm choices, unequally impose responsibilities, and incite
certain occupations, while blocking or hindering access to others.
Finally, it is essential to consider that the underrepresentation of Brazilian women in
positions of power and decision-making entails various additional issues. This includes the late
entry of women into higher education, the burden of a double workload, which reduces their
Maria Mary FERREIRA
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participation in political parties, the impoverishment of women, and their struggle for survival.
Furthermore, it is crucial to mention the high number of women heads of households, reaching
38%, who are solely responsible for supporting their children due to the absence of the father.
Adding to this, one cannot underestimate the role of patriarchal culture, which wields significant
power in the political and party life of the country.
Final considerations
The purpose of this article was to reflect on the underrepresentation of women in
positions of power, especially in legislative bodies, a fact that demarcates the contradictions of
democracy in Brazil. In this study, we presented electoral data from other countries and how
they have altered unequal relations, increasing the presence of women in legislatures, which in
turn have gradually transformed gender relations in formal politics through legislation.
The process of excluding women affects the social imagination that sees them as less
inclined toward politics. Their still limited presence in leadership positions in universities, state
secretariats, political parties, unions, and political organizations reflects their lack of recognition
and consequent devaluation. They are even considering their presence in the daily activities of
parties and unions, as well as in the structures of organizations, which are reinforced by the
sexual division of labor and other multiple factors that are obscured by maternalistic ideology,
imposing seemingly incompatible roles on women with activism and political action.
The roles reproduced within organizations, especially political parties and unions,
reinforce and naturalize exclusion, as expressed in phrases like "women don't want to run for
office" and "this is not a suitable place for women." In other words, men consider themselves
the "masters of power and institutions." Decisions effectively go through them. Parties in Brazil
continue to be male sanctuaries, for men, with women still occupying subordinate positions,
although small changes are being observed, such as: the election of Gleisi Hoffmann as president
of one of Brazil's largest political parties, the Workers' Party (PT), in 2017, the candidacies of
Dilma Rousseff (PT), Marina Silva (Citizenship), and Cláudia Durans (PSTU - Unified Socialist
Workers' Party), and Dilma Rousseff's election and reelection in 2010 and 2014.
Analyzing the impeachment process, politically termed as a coup, it is noted that from
that moment on, the country's political landscape was altered by conservative forces, where
patriarchal culture prevailed. This culture was allied with capitalist forces, intensifying the class
struggle and compromising democracy under construction in Brazil.
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CRediT Author Statement
Acknowledgements: I gratefully acknowledge FAPEMA for funding the Women and
Political Protagonism in Maranhão research project, which underpins most of the reflections
in this article.
Funding: FAPEMA.
Conflicts of interest: There are no conflicts of interest.
Ethical approval: Not applicable.
Data and material availability: The data cited is available in books and articles cited by
the author.
Author’s contributions: Single authorship.
Processing and editing: Editora Ibero-Americana de Educação.
Proofreading, formatting, normalization and translation.