Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023019, 2023. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.17560 1
SOBRE UMA CERTA NOÇÃO DE PONTO DE VISTA: A INCIDÊNCIA DO
PENSAMENTO DE DELEUZE & GUATTARI NA ETNOLOGIA AMERÍNDIA
SOBRE UNA CIERTA NOCIÓN DE PUNTO DE VISTA: EL IMPACTO DEL
PENSAMIENTO DE DELEUZE & GUATTARI EN LA ETNOLOGÍA AMERINDIA
ON A CERTAIN NOTION OF POINT OF VIEW: THE INCIDENCE OF DELEUZE &
GUATTARI’S THOUGHT ON AMERINDIAN ETHNOLOGY
Vicente Cretton PEREIRA1
e-mail: vicente.cretton@ufv.br
Como referenciar este artigo:
PEREIRA, V. C. Sobre uma certa noção de ponto de vista:
A incidência do pensamento de Deleuze & Guattari na
etnologia ameríndia. Rev. Cadernos de Campo,
Araraquara, v. 23, n. 00, e023019, 2023. e-ISSN: 2359-
2419. DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.17560
| Submetido em: 12/12/2022
| Revisões requeridas em: 19/06/2023
| Aprovado em: 24/09/2023
| Publicado em: 22/12/2023
Editores:
Profa. Dra. Maria Teresa Miceli Kerbauy
Prof. Me. Mateus Tobias Vieira
Profa. Me. Thaís Caetano de Souza
1
Docente de magistério superior na Universidade Federal de Viçosa. Possui graduação em Ciências Sociais pela
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2006), e Mestrado em Ciências Sociais pelo PPCIS (Programa de Pós
Graduação em Ciências Sociais) do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade do Estado do Rio
de Janeiro (2010), e doutorado em Antropologia pelo PPGA (Programa de Pós Graduação em Antropologia) da
Universidade Federal Fluminense (2014). De 2010 até final de 2011 atuou como professor, por indicação da
comunidade mbya guarani de Camboinhas (Niterói-RJ), na escola Amba Porã, núcleo avançado da Escola
Municipal Portugal Neves.
Sobre uma certa noção de ponto de vista: A incidência do pensamento de Deleuze & Guattari na etnologia ameríndia
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023019, 2023. e-ISSN: 2359-2419
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RESUMO: O artigo busca sistematizar alguns dos elos existentes entre as pesquisas em
etnologia nas Terras Baixas da América do Sul e a filosofia de Deleuze & Guattari, apontando
os principais conceitos e as formas com que foram utilizados de modo a justificar tais
conexões. Principalmente tenta-se responder às seguintes questões: porque e como a filosofia
da diferença têm sido boa para que certos etnólogos das terras baixas sul-americanas pensem
as visões de mundo dos povos junto aos quais pesquisam? Como mapear o uso desta
ferramenta que é a filosofia da diferença? O que a etnologia propôs em termos de produção (e
tradução) de conceitos a partir do pensamento de Deleuze & Guattari? Durante este percurso,
chega-se, ainda, a uma divisão do encontro entre etnologia indígena e filosofia da diferença
em três momentos principais. A primeira na obra de Eduardo Viveiros de Castro, a segunda
com o trabalho de Tania Stolze Lima, a terceira, mais recente, na qual os pesquisadores
voltam a buscar recursos conceituais diretamente na filosofia da diferença a partir do
perspectivismo.
PALAVRAS-CHAVE: Etnologia indígena. Perspectivismo ameríndio. Filosofia da
diferença.
RESUMEN: El artículo busca sistematizar algunos de los vínculos entre la investigación
etnológica en las tierras bajas sudamericanas y la filosofía de Deleuze & Guattari, señalando
los principales conceptos y las formas en que han sido utilizados para justificar estas
conexiones. Sobre todo, intenta responder a las siguientes preguntas: ¿por qué y cómo la
filosofía de la diferencia ha servido a ciertos etnólogos de las tierras bajas sudamericanas
para pensar las cosmovisiones de los pueblos que investigan? ¿Cómo podemos mapear el uso
de esta herramienta, la filosofía de la diferencia? ¿Qué ha propuesto la etnología en términos
de producción (y traducción) de conceptos a partir del pensamiento de Deleuze & Guattari?
Durante este recorrido, el encuentro entre la etnología indígena y la filosofía de la diferencia
se dividió en tres momentos principales. El primero en el trabajo de Eduardo Viveiros de
Castro, el segundo con el trabajo de Tania Stolze Lima, y el tercero, más reciente, en el que
los investigadores vuelven a buscar recursos conceptuales directamente en la filosofía de la
diferencia a partir del perspectivismo.
PALABRAS CLAVE: Etnología indígena. Perspectivismo amerindio. Filosofía de la
diferencia.
Vicente Cretton PEREIRA
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n. 00, e023019, 2023. e-ISSN: 2359-2419
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ABSTRACT: The article seeks to systematize some of the links between ethnological research
in the South American Lowlands and the philosophy of Deleuze & Guattari, pointing out the
main concepts and the ways in which they have been used to justify these connections. Above
all, it tries to answer the following questions: why and how has the philosophy of difference
been good for certain ethnologists in the South American lowlands to think about the
worldviews of the peoples they research? How can we map the use of this tool, the philosophy
of difference? What has ethnology proposed in terms of the production (and translation) of
concepts based on the thinking of Deleuze & Guattari? In the course of this journey, we also
arrive at a division of the encounter between indigenous ethnology and the philosophy of
difference into three main moments. The first in the work of Eduardo Viveiros de Castro, the
second with the work of Tania Stolze Lima, and the third, more recent, in which researchers
are once again looking for conceptual resources directly in the philosophy of difference based
on perspectivism.
KEYWORDS: Indigenous ethnology. Amerindian perspectivism. Philosophy of diference.
Introdução
O assunto abordado na presente investigação foi objeto de análises anteriores por
alguns dos autores que aqui nos servem como referência, principalmente Eduardo Viveiros de
Castro (no livro Metafísicas Canibais de 2015 e em outros artigos
2
). A ligação entre Gilles
Deleuze e a etnologia foi explorada também em contextos não-indígenas, como por
exemplo em relação às sociedades quilombolas do Vale do Ribeira (ver CUNHA 2016). Nossa
maior preocupação deverá ser, portanto, sistematizar (sem esgotar o assunto, evidentemente)
alguns dos elos existentes, na história da etnologia das Terras baixas da América do Sul, entre
esta disciplina e a filosofia de Deleuze e Guattari (doravante D&G) cuja obra seria de tanta
relevância para a antropologia quanto as de Foucault ou Derrida, como escreve Viveiros de
Castro (2007, p. 92) , apontando os principais conceitos e usos dos mesmos que foram os
maiores responsáveis por esta conexão. Algumas das questões que nos orientam são: porque e
como a filosofia da diferença têm sido boa para que certos etnólogos das terras baixas sul-
americanas pensem as visões de mundo dos povos junto aos quais pesquisam? Como mapear
o uso desta ferramenta que é a filosofia da diferença? O que a etnologia propôs em termos de
produção (e tradução) de conceitos a partir do pensamento de D&G?
O texto se divide em três partes principais, cada uma delas explorando o que seria uma
2
Notavelmente no seu Filiação Intensiva e Aliança Demoníaca (VIVEIROS DE CASTRO, 2007), onde o autor
explora uma parte da “estética conceitual contemporânea”, cuja sedimentação contou com participação decisiva
da obra de D&G.
Sobre uma certa noção de ponto de vista: A incidência do pensamento de Deleuze & Guattari na etnologia ameríndia
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fase específica do encontro entre D&G e a etnologia. Partimos assim do trabalho de Eduardo
Viveiros de Castro com os Araweté, onde a etnologia indígena expressou de modo explícito a
necessidade de uma filosofia diferente daquela a partir da qual a racionalidade dita moderna
representa a si mesma (numa linhagem cartesiana, digamos assim). Em seguida passamos ao
trabalho de Tania Stolze Lima
3
junto aos Yudjá, onde se consolidam noções ameríndias de
ponto-de-vista e de assimetria a partir de conceitos deleuzeguattarianos. Por fim apresentamos
ressonâncias dos trabalhos destes em etnografias mais recentes que retornam à obra de D&G,
após um período em que a disciplina, ainda que gravitando em torno do perspectivismo
ameríndio, deixou de citá-la diretamente.
Os Tupi-Guarani e a diferença constitutiva
Sabe-se que os momentos iniciais da carreira de Viveiros de Castro, na década de
1970, foi marcada pela construção de uma teoria antropológica sobre sociedades tupi-guarani
tendo os estudos sobre os do Brasil Central como espécie de pano de fundo, um certo
“escrever contra”, como diz o autor (VIVEIROS DE CASTRO; SZTUTMAN, 2008, p. 27-8),
isto é, contra a paisagem predominante em que se dava então sua formação. À organização
social jê, que apresenta sociedades que se esforçam para continuar idênticas a si mesmas
conjurando e congelando o devir (VIVEIROS DE CASTRO, 1986, p. 27), Viveiros de Castro
irá contrapor a sociedade araweté, uma sociedade sem interior, sobre cuja noção de pessoa o
autor escrevia então que se podia dizer que não propriamente existe: “enquanto devir ela não
é; enquanto relação móvel entre termos, ela é um ‘entre’ (um entre-dois) e não um ente”
(VIVEIROS DE CASTRO, 1986, p. 118).
É somente na página 122 d’Os deuses canibais que o autor busca justificar e detalhar
aquilo que ele mesmo chama de sua insistência no conceito de devir
4
que se opõe ao
conceito de Ser , e para tanto evoca uma citação sobre a filosofia guarani presente no
3
Junto com Lima e Viveiros de Castro, Aparecida Vilaça foi coautora da teoria do perspectivismo a partir de sua
pesquisa sobre caça, xamanismo e canibalismo wari’. Embora seu artigo Fazendo corpos (1998) tenha sido
publicado dois anos depois dos artigos seminais dos dois primeiros sobre perspectivismo (ambos de 1996), sua
etnografia sobre os Wari’, orientada por Viveiros de Castro (e defendida em 1989, tendo sido publicada em
1992), foi uma base de dados fundamental para as discussões sobre um ponto de vista situado no corpo e sobre a
diferença entre os seres. Como sua etnografia dispensa completamente a filosofia de D&G, seu trabalho se
situaria melhor em conjunto com o de autores como Antonio Gonçalves, Carlos Fausto, Philippe Descola, Anne-
Christine Taylor, Bruce Albert, Philippe Erikson, Jean-Pierre Chaumeil, Patrick Menget (entre outros) nos
quais a diferença é tratada como operador mas não de modo deleuziano.
4
Maiores esclarecimentos sobre o conceito podem ser encontrados em Viveiros de Castro, 2007 (especialmente
a partir da página 115).
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trabalho de Heléne Clastres: “uma lógica que recusa o princípio de contradição parece operar
nesse pensamento que, ao mesmo tempo, opõe os extremos e almeja torna-los compatíveis
(CLASTRES, 1978, p. 89 apud VIVEIROS DE CASTRO, 1986, p. 122-3), diz a passagem
destacada por ele. Estendendo a intuição da antropóloga francesa, Viveiros de Castro afirma
que os extremos se opõem apenas para serem dissolvidos enquanto extremos e passa, em
seguida, a pôr o conceito de devir mais às claras. Assim, na nota de numero 21, parte-se da
análise canônica do totemismo construída por Lévi-Strauss a partir da noção de série
(cosmológica, sociológica), onde a metonímia seria o processo imperante no interior de cada
série e a metáfora o processo de articulação de pelo menos duas séries, a fim de afirmar na
verdade a insuficiência de ambos os processos para a compreensão da articulação entre
cosmologia e sociedade entre os Tupi-Guarani. Justifica-se a utilização desta “noção
heterogênea”, a de devir, para qualificar processos que não seriam nem interiores às séries e
nem uma articulação entre elas, mas sim processos de transformação: a passagem de uma
série à outra, como a metamorfose da morte araweté ou a transubstanciação canibal, por
exemplo. O conceito parecia então servir para operar uma fuga do estruturalismo.
A noção filosófica de devir estava sendo usada por Viveiros de Castro em dois
sentidos “que se recobrem parcialmente”, como explica em seguida na mesma nota: o
primeiro deles nos remete a oposição entre Ser e Devir fundadora da metafísica ocidental (“a
parte do Devir é bastante mais pesada na filosofia tupi-guarani que o foi na história do
pensamento ocidental”, explica ele); o segundo nos remete ao autor dual D&G e designa
processos pré-representativos, anteriores à geração de identidades pela posição em uma
estrutura de oposições por meio da operação metonímica-metafórica:
Nesta acepção, o Devir fala de processos que se passam no Real antes da
distinção realidade/representação; e emprego o conceito para indicar que o
ser da pessoa Araweté é um devir-outro: devir-deus, -inimigo, -jaguar, onde
se o Outro, enquanto objeto do devir é imaginário, o devir é real, e a
alteridade uma qualidade do verbo, não um predicado seu (...). Se no
primeiro sentido “Devir” se põe (ou não) como anterior e englobante face ao
ser encarado como substância e termo, no segundo ele se opõe ao “ser”
como cópula identitária (VIVEIROS DE CASTRO, 1986, p. 124).
Por fim, ainda na mesma nota, Viveiros de Castro justifica suas escolhas em relação às
ferramentas filosóficas utilizadas dizendo não se tratar de preferências pessoais ou ideológicas
colocadas de modo apriorístico à análise, mas sim de uma linguagem que durante o percurso
da investigação se apresentou como sendo a mais apropriada para uma descrição intuitiva da
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cosmologia tupi-guarani e araweté. A primeira conexão entre etnologia e filosofia da diferença
acontece, então, por uma necessidade dada no percurso da investigação, onde provavelmente
as ferramentas antropológicas (o estruturalismo, a etnologia jê, a obra dos Clastres etc.)
mostraram-se, digamos assim, insuficientes para dar conta de uma descrição densa do
material araweté.
Na mesma época, em artigo escrito junto com Manuela Carneiro da Cunha, Viveiros
de Castro (VIVEIROS CASTRO; CARNEIRO DA CUNHA, 1985) promove um debate
fundamental acerca dos fundamentos da sociedade tupinambá se contrapondo, agora não tanto
à etnologia dos povos jê, mas às ideias de Florestan Fernandes sobre o papel da guerra para
este povo. Se Fernandes, colocando a guerra a serviço da religião, considerava a vingança
tupinambá como manifestação da intenção de satisfazer a necessidade de uma relação
sacrificial com um parente morto ou com um ancestral mítico (FERNANDES, 2006[1952], p.
371), Viveiros de Castro & Carneiro da Cunha enfatizam o papel produtivo e fundante destes
mesmos fenômenos, isto é, a guerra e a vingança como constituindo o motor da sociedade
tupinambá.
O desafio era, então, o de pensar em que medida a guerra produz uma sociedade que
não existe senão por ela, através dela. Entender como a memória de vinganças passadas e a
promessa de vinganças futuras atuavam não como fins, mas como motores que tinham na
persistência da relação com inimigos uma condição de existência básica: “não se trata de
haver vingança porque as pessoas morrem e precisam ser resgatadas do fluxo destruidor do
tempo; trata-se de morrer para haver vingança, e assim haver futuro” (VIVEIROS CASTRO;
CARNEIRO DA CUNHA, p. 201). A guerra não teria mais uma função social, como defendia
Florestan Fernandes, mas seria o próprio nexo da sociedade tupinambá, onde a vítima morta
no terreiro da aldeia inimiga era o penhor de novas vinganças e o resultado de vinganças
anteriores. Uma sociedade constituída na dimensão temporal, portanto e dependente do que
lhe é exterior, isto é, seus inimigos. Em contraste com os estudos jê, nos quais a existência da
sociedade era substanciada no espaço, na morfogênese tupinambá a espacialidade estava
subordinada à temporalidade e a circulação perpétua de memória entre grupos inimigos era
responsável pela abertura do socius ao além, ao alheio, ao que fosse diferente de si mesmo.
Encontramos ecos da ideia de devir aqui, ou seja, de uma diferença que é constitutiva, e essa
ideia irá embasar a descrição intuitiva tanto da sociedade como também da pessoa tupi.
Tal “abertura do sociusirá reaparecer em três conferências e um seminário realizados
na França em maio de 1992, os quais darão origem a um dos artigos d’A inconstância da alma
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selvagem (VIVEIROS DE CASTRO, 2011[2002]) a saber, “A imanência do inimigo”, onde o
modo de subjetivação da pessoa entra no lugar de morfogênese da sociedade e a circulação de
memória lugar à troca de perspectivas entre matador e vítima, numa fusão de pontos de
vista. Assim, o matador araweté recebe do inimigo morto cantos caracterizados por um regime
enunciativo marcado pelo ponto de vista do inimigo, ou seja, um estilo citacional onde o
sujeito da enunciação é a própria vítima, após sua morte (VIVEIROS DE CASTRO,
2011[2002], p. 275). Além disso a fusão entre o matador e seu inimigo morto pressupõe um
devir-outro do primeiro, que jamais deixará de estar acompanhado do espírito de sua vítima,
se diferenciando assim não apenas de si mesmo mas de qualquer outro Araweté que não tenha
matado ninguém. O destino final do matador araweté é tornar-se Iraparadï, o que significa
que a sua alma não será devorada pelos deuses quando chegar aos patamares celestes, como a
alma dos Araweté comuns (que após a devoração viram elas mesmas também deuses), ou
seja, ele é um tipo de deus antecipado, e essa conclusão evoca a condição do guerreiro
tupinambá para o qual o acesso à “terra sem mal” seria justamente a morte em terreiro
inimigo.
De fato, Viveiros de Castro consegue perceber a continuidade entre os materiais
tupinambá e araweté considerando um movimento de translação observado por ele na
cosmologia destes últimos: muitos dos conteúdos simbólicos veiculados na guerra por outros
povos amazônicos (como Jívaro e Munduruku por exemplo), no caso araweté estão
deslocados para a relação entre deuses e homens (VIVEIROS DE CASTRO, 2011[2002], p.
283), ou seja, o espaço e a função da exterioridade foram ocupados pelos deuses sendo ao
mesmo tempo afins e inimigos (devoradores) dos Araweté. O devir-outro do matador é um
exemplo então de um processo que pode ser amplamente generalizado de “transformação
ritual do Eu” (termo que o autor toma da etnologia melanésia) a partir da relação com um
inimigo reduzido a um estado de extrema subjetividade e produzindo um movimento de
“aproximação fusional” e de “imanentização da diferença”. Esta relação que se cria pela
supressão de um dos termos (relacionados) que é introjetado pelo outro faz da predação um
modo de subjetivação
5
: introjetar o Outro (a diferença) produz o sujeito como uma
transformação de si mesmo.
5
É bastante provável que o termo subjetivação, para Viveiros de Castro, tenha sua origem no uso que Michel
Foucault faz dele: “procurei antes de tudo produzir uma história dos diferentes modos de subjetivação do ser
humano em nossa cultura; tratei, nessa perspectiva, de três modos de objetivação que transformam os seres
humanos em sujeitos. [...] Não é, então, o poder, mas o sujeito, que constitui o tema geral de minhas
investigações” (DREYFUS; RABINOW, 1984: 297-298 apud ADORNO, 2017, p. 36). Note-se que Foucault é
Sobre uma certa noção de ponto de vista: A incidência do pensamento de Deleuze & Guattari na etnologia ameríndia
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Vimos até aqui que o conceito deleuzeguattariano de devir uma modalidade de
síntese relacional que difere de uma conexão ou conjunção de termos e não tem a semelhança
ou a identidade como causa, chamada por D&G de síntese disjuntiva ou disjunção inclusiva
(VIVEIROS DE CASTRO, 2007, p. 99) acompanhou Viveiros de Castro em trabalhos
importantes, possibilitando a descrição da sociedade araweté enquanto entre e não ente (isto é,
mais como processo e menos como algo que existe por si) e, em consequência disso, ajudando
na construção de uma morfologia social tupinambá na qual a temporalidade seria o suporte
principal, e a vingança passa a ser entendida como troca da perspectiva de Inimigo. Depois, a
mesma troca de perspectiva, agora de volta aos Araweté, é evocada para mostrar a condição
do matador araweté como um sujeito que difere de si mesmo.
Em 1996 surge, a partir do diálogo com Tania Stolze Lima (VIVEIROS DE CASTRO,
2011[2002], p. 347), o importante artigo sobre o perspectivismo ameríndio, que se tornaria
uma influente teoria antropológica dentro e fora do Brasil nos anos seguintes. Duas epígrafes
indicam os caminhos percorridos pelo autor: a primeira retirada de uma etnografia
matsiguenga (BAER, 1994 apud VIVEIROS DE CASTRO, 1996, p. 115) e a segunda de uma
obra de Gilles Deleuze sobre Leibiniz. Ou seja, de início se sugere que se trata de uma
teoria fortemente embasada na etnologia ameríndia, mas sobre a qual a filosofia da diferença
incide de maneira decisiva. Considerando a conhecida frase de Tim Ingold, “antropologia
para mim é filosofia com as pessoas dentro” (INGOLD, 2014), poderia se pensar que a
ontologia (isto é, o discurso sobre o existente) de povos como os Matsiguenga, Araweté e
talvez de modo mais direto os Yudjá (ou Juruna, estudados por LIMA, 1996) forneceu
material concreto para uma certa linhagem do pensamento filosófico europeu cuja última
dobra é a obra de Deleuze (grande parte dela escrita, como se sabe, em parceria com
Guattari).
Porém, antes do que isso, o perspectivismo ameríndio é uma necessária tentativa de
“levar a sério” (VIVEIROS DE CASTRO, 2002, p. 134) afirmações como “os pecaris são
humanos”, “humanos são vistos como anta pelas serpentes”, “gente é macaco de onça”, “o
que vemos como vermes num cadáver os urubus veem como peixes pulando num rio”,
“sangue é cauim para a onça”, etc. Levar a sério sem, no entanto, tratá-las de maneira literal e
tampouco desqualificá-las como mera fantasia, mas considerando-as como pertencentes ao
citado por Viveiros de Castro como um dos nomes principais do que seria uma “antropologia das sociedades
complexas”, ao lado de Louis Dumont, Bruno Latour e Marylin Strathern (VIVEIROS DE CASTRO;
SZTUTMAN [org.], 2008, p. 45).
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mundo de Outrem. O conceito, que atua aqui em defesa de uma metodologia para o trabalho
de campo antropológico que fosse mais simétrica, é, também ele, deleuziano (a obra A Lógica
do Sentido é a referência aqui). As metáforas operativas do perspectivismo compõem um
mundo que não existe a não ser em seu interior mesmo, tal como explica o autor:
Outrem é a expressão de um mundo possível. Um possível que existe
realmente, mas que não existe atualmente fora de sua expressão em outrem.
O possível exprimido está envolvido ou implicado no exprimente (que lhe
permanece entretanto heterogêneo), e se acha efetuado na linguagem ou no
signo, que é a realidade do possível enquanto tal o sentido. O Eu surge
então como explicação desse implicado, atualização desse possível, ao tomar
o lugar que lhe cabe (o de ‘eu’) no jogo de linguagem. O sujeito assim efeito,
não causa; ele é o resultado da interiorização de uma relação que lhe é
exterior ou antes, de uma relação à qual ele é interior: as relações são
originariamente exteriores aos termos, porque os termos o interiores às
relações (VIVEIROS DE CASTRO 2002, p. 118, grifos do autor).
Tais metáforas se referem geralmente à dupla acepção de animais e plantas em geral
(mas alguns de maneira especial, como plantas psicotrópicas, grandes mamíferos e perigosos
predadores: anta, onça, jiboia, datura, tabaco etc.) como possuindo uma forma exterior que
difere qualitativamente de sua forma interna: haveria como que uma “roupa animal” a revestir
uma subjetividade ou uma intencionalidade idêntica à humana (VIVEIROS DE CASTRO,
2011[2002], p. 351). A dimensão constitutiva, sugere o autor, das inversões perspectivas diz
respeito aos estatutos relativos e relacionais de predador e presa de modo que a “personitude”
(qualidade de pessoa) e a “perspectividade” (capacidade de ocupar um ponto de vista) seriam
questão de grau e de situação e não propriedades diacríticas de certas espécies (VIVEIROS
DE CASTRO, 2011[2002], p. 353). Ou seja, para esta ontologia a qualidade humana ou
animal de um animal é algo que apenas poderia ser verificado a posteriori: “a possibilidade de
que um ser até então insignificante revele-se como um agente prosopomórfico capaz de afetar
os negócios humanos está sempre aberta; a experiência pessoal, própria ou alheia, é mais
decisiva que qualquer dogma cosmológico substantivo” (VIVEIROS DE CASTRO,
2011[2002], p. 353). Quando os Yudjá saem a caçar porcos-do-mato não sabem a princípio se
o seu ponto de vista prevalecerá, que o medo (e outras afecções) diante do animal poderá
causar em alguém a perda da perspectiva humana: sentindo medo, esta pessoa revela o
acontecimento do ponto de vista dos porcos, que veem a caçada como uma guerra (cf. LIMA,
1996). É humano sentir medo diante do inimigo numa guerra, mas não diante do animal que
será sua comida, logo é uma afecção que produz uma troca de pontos de vista, o porco-do-
mato apresentando-se na sua forma humana e a pessoa yudjá aderindo ao mundo dos porcos-
Sobre uma certa noção de ponto de vista: A incidência do pensamento de Deleuze & Guattari na etnologia ameríndia
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do-mato, tornando-se, por isso, ela mesma um animal: “na caçada, porém, a alma do caçador,
se lhe ocorre abandonar seu sítio devido ao medo que atinge o sujeito, não apenas é visível
para os porcos como é capturada e vai viver com eles, ganhando, com o tempo, corpo de
porco, visível ao olhar humano” (VIVEIROS DE CASTRO, 2011[2002], p. 36). Isto é, o
corpo de tal caçador vai se tornando um “corpo de porco” para os humanos, ou seja, com
pelos, presas, cauda etc.
O perspectivismo apresentado assim pelos ameríndios, e que pode ser observado de
maneira geral nas três américas (com modulações contextuais e específicas evidentemente
6
),
coloca para os pesquisadores a questão de o que pode ser um sujeito (VIVEIROS DE
CASTRO, 2002, p. 118). Questão efetivamente nova que foge à dualidade entre sujeito e
objeto que é fundante no pensamento europeu, e que é respondida pelo pensamento ameríndio
da seguinte forma: é sujeito quem ora ocupe o ponto de vista. Não se trata assim de afirmar a
relatividade do verdadeiro, mas sim a verdade do relativo, ideia segundo Viveiros de Castro,
que define o perspectivismo pois “o perspectivismo o de Leibniz e Nietzsche como o dos
Tukano ou Juruna não é um relativismo, isto é, afirmação de uma relatividade do
verdadeiro, mas um relacionalismo, pelo qual se afirma que a verdade do relativo é a
relação (VIVEIROS DE CASTRO, 2002, p. 129). O que tornou inicialmente possível a
percepção de uma abertura do socius e da pessoa tupi-guarani ao exterior, passou também a
atuar na construção de uma teoria geral (e ameríndia) sobre o ponto de vista. A troca de
perspectiva agora não mais diz respeito somente à relação entre inimigos (como no caso
tupinambá ou araweté), mas também à relação entre espécies, cada qual sendo potencialmente
sujeito de um mundo singular.
Ferramentas postas à disposição pela filosofia da diferença foram, assim, utilizadas
por Viveiros de Castro ao longo de sua obra para atualizar um programa de pesquisa
propriamente antropológico, sugerido muitos anos antes por Lévi-Strauss a partir de seu longo
estudo sobre mitos ameríndios, como bem cita Viveiros de Castro (2011[2002], p. 347) na
epígrafe da versão revista do artigo de 1996: “(...), a reciprocidade de perspectivas que vi
como a característica própria do pensamento mítico pode reivindicar um domínio de
6
Como teoria ameríndia, variações do perspectivismo podem ser encontradas entre muitos povos indígenas da
américa, como os Wari’ (VILAÇA, 1992; 1998), os Parakanã (FAUSTO, 2014[2001]), os Paumari (BONILLA,
2005), os Ikpeng (RODGERS, 2002), os Guajá (CORMIER, 2003), os Kanamari (COSTA, 2017), os Guarani
(PEREIRA, 2016), os Mebengokré (COHN, 2011), os Kaxinawá (LAGROU, 2007), os Nahua (ROMERO,
2007), os Runa (KOHN, 2013) e muitos outros, o que nos leva a pensar num “fundo cosmológico” comum à
grande parte desses povos. Como teoria antropológica o perspectivismo achou ressonâncias em etnografias de
povos indígenas de outras regiões do mundo, como Sibéria (WILLERSLEV, 2007) e Ásia (HOLBRAAD;
WILLERSLEV, 2007), por exemplo.
Vicente Cretton PEREIRA
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explicação muito mais vasto”. Um Lévi-Strauss que a partir das Mitológicas estabeleceu as
balizas de uma “filosofia do porvir” marcada pelo selo da interminibilidade e da virtualidade
(tendo talvez fundado de certa forma o próprio pós-estruturalismo, como sugere VIVEIROS
DE CASTRO, 2015, p. 30) e que viveu para comentar, nos anos 2000, que “colegas
brasileiros” a partir de uma análise crítica da noção de afinidade acabaram trazendo a filosofia
novamente para o centro do debate antropológico: “não mais a nossa filosofia, aquela de que
minha geração queria se livrar com a ajuda dos povos exóticos; mas, em uma notável
reviravolta, a deles” (LÉVI-STRAUS, 2000 apud VIVEIROS DE CASTRO, 2015, p. 30-1).
De fato, em mais de uma ocasião, como apontado na introdução deste trabalho, o próprio
Viveiros de Castro estabeleceu os paralelos necessários entre as obras de D&G e Lévi-Strauss
(ver por exemplo VIVEIROS DE CASTRO, 2007 e VIVEIROS DE CASTRO, 2015),
explicitando as formas pelas quais o perspectivismo é herdeiro destas duas linhas de
pensamento, ou seja, um cruzamento entre filosofia e antropologia.
Assimetria e poder nas cosmologias ameríndias
Na etnografia de Tania Stolze Lima sobre os Yudjá a primeira referência ao quadro
conceitual de D&G aparece na apresentação do mito com o qual a autora inicia o texto e que
tem como personagem principal a figura de Sena’ã, um ser dito então “cromático” que em
seus atos de criação gera uma socialidade “bem temperada” (LIMA, 2005, p. 53). O
pensamento que se exprime pelo mito é então caracterizado pela autora, por meio de D&G,
como um pensamento de tipo popular
7
, isto é, um pensamento que trabalha com analogias de
proporção: “‘semelhanças que diferem ao longo de uma série, ou de uma série à outra’, de
acordo com o grau diverso conforme se aproximam ou afastam-se de um termo eminente,
dado como razão da série” (LIMA, 2005, p. 53). Tal pensamento (ou seja, o pensamento em
sua forma popular) exige a aplicação de uma imaginação cuidadosa que leve em conta ramos
da série, rupturas aparentes, verdadeiras e falsas semelhanças, progressões e regressões etc.
Imaginação esta que os ameríndios possuem e utilizam, muitas vezes deixando nos etnólogos
a impressão de uma organização social “fluida”. Ecoando observações de Pierre Clastres e
Anne-Christine Taylor, a autora explica:
Clastres, para quem as sociedades fluidas da região não são
imediatamente mais transparentes que as da Europa e apresentam uma
7
Por oposição a um pensamento régio (royale).
Sobre uma certa noção de ponto de vista: A incidência do pensamento de Deleuze & Guattari na etnologia ameríndia
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dimensão temporal essencial, afirmou que elas “sabem administrar
perfeitamente a possibilidade da diferença na identidade, da alteridade no
homogêneo; e nessa recusa do mecanismo pode-se ler o signo de sua
criatividade (...). Taylor ressaltou que a ideia mestra do pensamento
sociológico jívaro mais uma sociedade fluida consiste precisamente em
“situar em um ótimo de distância um outro que não é nem completamente
exótico, nem completamente o mesmo, mas é as duas coisas ao mesmo
tempo (...). (LIMA, 2005, p. 53-4)
As sociedades ameríndias apresentam, assim, um modelo sociológico que contrasta
com aquele que D&G caracterizaram pela reunião dos atributos do discreto, da extensão e da
totalização. Tais sociedades, como a dos Yudjá, apresentam um pensamento não sobre a
emergência de um sistema de identidades coletivas extensivas e complementares, mas “a
passagem de um contínuo inercial, indiferenciado, a um contínuo ativo, diferenciador, criador
de posições diferenciais intensivas, qualitativas, (...)” (LIMA, 2005, p. 54).
Em todo esse regime diferenciante a que fica submetida a forma social ameríndia
muitos autores observaram uma intenção política, sendo talvez Pierre Clastres o mais célebre
dentre eles. Contudo, para Lima a questão levantada por este autor, sobre a filosofia política e
a constituição social dos povos indígenas, envolvia uma questão mais abrangente que foi
melhor formulada por Félix Guattari, amigo daquele, como se sabe. Trata-se da distinção
proposta por este autor entre grupos assujeitados e grupos-sujeito, não como tipos de grupos,
mas sim como pólos ou estados de qualquer grupo (LIMA, 2005, p. 114). Se para qualquer
grupo o assujeitamento é um risco sempre presente, o grupo-sujeito ativa “coeficientes de
transversalidade” para assumir o sentido de sua práxis e deter o poder real, ou seja, nem
horizontalidade igualitarista e nem uma hierarquia verticalizadora, mas um grupo que,
deliberadamente ou não, coloca-se na postura de “se assumir como agente de sua própria
morte” (GUATTARI, 1987 apud LIMA, 2005, p. 114). O problema é importante porque
permite escapar à dupla opção clastreana “por uma teoria da sociedade e de um tipo de
sociedade (LIMA, 2005, p. 115, grifos da autora), isto é, Guattari nos permite compreender
porque noções de igualdade e hierarquia (na maioria das vezes postas a serviço de teorias da
sociedade), por exemplo, não captam satisfatoriamente os processos em curso nas sociedades
amazônicas (“em todas, como assinalou Overing, pode-se notar a presença de hierarquia, e
todas parecem ser igualitárias”, nota LIMA, 2005, p. 115) e também nas sociedades
ameríndias em geral.
No material Yudjá dois destes processos aparecem de forma estratégica na
argumentação da autora: um é a formação social assimétrica indicada pela noção de função-
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Eu e o outro é um sistema sociocosmológico marcado pela noção yudjá de ponto de vista
(chamada de função-Outrem, LIMA, 2005, p. 212). A primeira se desenvolve a partir da
reflexão sobre grupos sociais na Amazônia, pensados então como grupos de descendência
corporal ou corpórea (a referência principal aqui é ANTHONY SEEGER, 1980 apud LIMA,
2005, p. 81), isto é, grupos compostos pela identidade corporal dada pela partilha das mesmas
substâncias por pessoas que se acham relacionadas. Não se prestando à análise por meio do
exame das parentelas bilaterais e nem pelo inventário das relações de parentesco, a formação
dos grupos yudjá se por meio de uma relação assimétrica entre uma figura proeminente (o
“chefe”) e os demais integrantes, ou seja, um grupo é sempre o “pessoal” (away) de alguém.
Ocorre então que a função de “chefe” corresponde à função de sujeito, ou melhor à
focalização momentânea e contextual desta função-Eu que resulta da relação entre termos
não-equivalentes (ou seja, assimétricos): um homem e sua mulher e filhos, um tio e um
sobrinho, um chefe e seu grupo, etc. Assim, internamente a forma social yudjá se apresenta
com uma constituição assimétrica, sendo a função-Eu sempre apropriada por uma pessoa
“fazendo dela o coletivo e fazendo deste aquela pessoa” (LIMA, 2005, p. 94).
Isto que a autora chama de função-Eu se relaciona de forma muito direta com a ideia
de “dono” (iwa, em Yudjá) que é muito comum entre povos ameríndios em geral
8
. Ela
explica: “é-se iwa de uma coisa porque se é seu dono (...) ou porque se manifesta predileção
por ela (...). É-se iwa do que se faz existir. Assim como daquilo que se protege ou garante a
existência” (LIMA, 2005, p. 95). A ideia é “boa para pensar” tanto o tipo de agência que torna
possível os acontecimentos mais mundanos e cotidianos como também a criação do universo,
da existência: por exemplo, se Sena´ã é iwa deste mundo porque o criou, a pessoa yudjá que
atrai as demais oferecendo cauim (e a festa que acompanha seu consumo ) também é iwa do
cauim.
A noção de iwa é equivale à noção de “posição de sujeito”, que o iwa é sempre o
sujeito na relação com as coisas e pessoas das quais é dono. Temos, então, que esta posição
circula entre as pessoas (por exemplo, qualquer um pode vir a ser “dono do cauim” em
determinada ocasião), mas também se cristaliza em certos elementos (geralmente o membro
mais velho de um grupo cognático, o qual articula a função-Eu com sua senioridade). A meio
caminho da função circulante e da sua cristalização, ainda o “dono de aldeia” (ou chefe, na
glosa indígena [LIMA, 2005, p. 96]). Com tudo isso chega-se a um desenho geral da
8
Sobre o assunto ver Fausto (2008).
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configuração do socius yudjá composto por grupos que internamente se organizam por meio
de uma relação assimétrica (ou seja, o “chefe” e os demais) e externamente por meio de uma
relação de simetria entre dois “chefes”. Tal configuração é ainda aberta ao evento de modo
que pode apresentar estados alternados de assimetria (como quando um chefe trabalha para
outro).
O que é chamado pela autora de função-Outrem é aparentemente a transposição para o
cosmos desta constituição política da forma social yudjá, e, para discuti-la, ela evoca o seu
artigo de 1996 sobre o perspectivismo, enumerando algumas ideias então fundamentais
(LIMA, 2005, p. 213), a saber: perspectivismo o é a mesma coisa que relativismo; o
animismo (ou melhor, a oposição entre aparência e essência) é insuficiente para caracterizar
tal noção indígena
9
; o xamã não possui um ponto de vista privilegiado sobre a vida e a
cosmologia nativas e, por último, para tal noção indígena um ponto de vista do todo é
inconcebível. Ou seja, trata-se de uma noção indígena de ponto de vista que, ao fazer fugir o
espectador absoluto, é contra o Estado (para citar Clastres) e mais especificamente contra a
forma Estado do pensamento (para citar D&G).
Estamos assim diante de um sistema sociocosmológico que opera uma continuidade
entre estados de subjetividade e propriedades do cosmos (LIMA, 2005, p. 214), de modo que
“é próprio da pessoa humana ser dotada de uma perspectiva que contém outras” (LIMA,
2005, p. 216). O duplo movimento do olhar, que faz a pessoa se transformar em animal ou
espírito (via embriaguez, por exemplo) ou um animal (ou espírito) aparecer a alguém como
pessoa, faz surgir a questão: é o cosmos uma pessoa fractal (WAGNER. 1991 apud LIMA
2005, p. 217)? Ou para colocarmos ao modo yudjá, seria o céu, esta maloca onde estamos
todos abrigados, a pele do mundo?
Em artigo de 1999, que talvez seja um dos textos mais didáticos sobre o
perspectivismo que se escreveu, Lima efetivamente se apoia em D&G para caracterizar o
regime cosmológico indígena a partir de diferentes tipos de diferença entre certos animais,
espíritos e humanos (LIMA, 1999, p. 48). Segundo nosso autor dual, haveriam dois modos de
tratar uma variável, “fazendo-a operar como uma constante ou colocando-a em estado de
variação contínua” (LIMA, 1999): o segundo modo é especialmente apropriado para tratar do
assunto focalizado no artigo ora em tela (isto é, a relação entre cultura e natureza), que
estamos diante de uma cosmologia na qual “a diferença significativa dos humanos para com
9
Existem duas maneiras principais de tratar o perspectivismo: como um corolário do animismo (SÁEZ, 2012) ou
como um caso particular do animismo (DESCOLA, 2015).
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os porcos, (...), não é a mesma que existe para com o caititu, o jaguar ou o guariba” (LIMA,
1999). A compreensão de tal cosmologia ficaria assim impossibilitada por uma análise a partir
de esquemas concêntricos, hierarquizantes e atemporais (a separação estanque entre natureza
e cultura, por exemplo) cujo corolário é justamente o tratamento da distância entre humanos e
animais como uma constante.
O perspectivismo ameríndio faz da identidade entre humanidade e animalidade uma
condição para se pensar a diferença entre ambas, de modo que enquanto nós criamos sistemas
de classificação que procuram dar conta da totalidade de uma vez ao distinguir homem,
natureza e sobrenatureza, os Juruna procedem por partes, inventariando cada caso para então
distinguir o que é humano, divino ou animal no interior mesmo da classe dos humanos,
animais e espíritos. Assim, temos 3 oposições - humano/não-humano; animal/não-animal;
espírito/não-espírito - que são aplicadas a cada ente ou tipo de ser (LIMA, 1999, p. 47). Aqui
a assimetria aparece na capacidade que cada ente ou tipo de ser possui de impor seu ponto de
vista, isto é, de se impor como sujeito da relação (que é então uma relação reversível, já que a
posição de sujeito é algo que circula), o que implica que no perspectivismo a hierarquia é
codificada a posteriori.
Trata-se de uma teoria da relação entre pontos de vista que são a um tempo
análogos e determinados contextualmente como assimétricos. Se o ponto de vista da definição
das categorias de alteridade pertence aos próprios termos, logo temos a ausência de um ponto
de vista do todo, ou melhor, temos uma ideia deleuzeguattariana do todo, que se opõe
precisamente à ideia de uma totalidade transcendente: “uma parte ao lado das partes, (...), se
aplica a elas, instaurando somente comunicações aberrantes entre vasos não comunicantes,
unidades transversais entre elementos que guardam toda a sua diferença nas suas dimensões
próprias” (D&G 1976 apud LIMA, 1999, p. 50).
A empreitada teórico-conceitual do perspectivismo cumpre um duplo papel em sua
relação com o estruturalismo, isto é, o de ser um de seus principais herdeiros, mas também o
de fazer deslizar as principais engrenagens postas em funcionamento por Lévi-Strauss. Tal
parece ser um dos efeitos desejados pelo uso das ideias de D&G em análises etnográficas
como as que vimos até aqui. Em 2011, num texto mais geral (Lima se refere ali aos
ameríndios, e não mais aos Yudjá ou Juruna especificamente), a autora associa o
estruturalismo a uma certa forma-Estado do pensamento cujas relações com o pensamento
indígena acabam por desarmar seus conceitos de poder (“relações que não mais desejaríamos
ter”, enfatiza LIMA, 2011, p. 627). De um estruturalismo tardio (ou mesmo pós-
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estruturalismo, como diz Viveiros de Castro, ver supra) do próprio Lévi-Strauss a uma
antropologia política compromissada com o princípio de identidade na obra breve e intensa de
Clastres e daí para uma “cartografia do poder e da diferença nas cosmologias ameríndias”
informada pela filosofia da diferença e por uma certa noção indígena de ponto de vista. Eis,
sumariamente, alguns dos pontos chave da obra da autora.
Recentemente, após novo trabalho de campo entre os Yudjá, Lima (2018) nos
apresenta um novo dispositivo indígena que fará mudar o problema do perspectivismo para
ela, passando de uma cosmologia relacional (ou uma ontologia) a uma pragmática
especulativa (LIMA, 2018, p. 119). O dispositivo é a entrada da ayahuasca na vida dos Yudjá,
o que se deu por volta de 2012 por meio da União do Vegetal (UDV) de Cuiabá, mas cujo uso
pelos indígenas em seu território não foi orientado pela ritualística desta organização
religiosa, adquirindo, como era de se esperar, novos significados e principalmente novos
resultados. De fato, o trabalho de campo da autora de 2016 contrasta com o realizado na
década de 1980, quando não havia pajés entre os Yudjá, estando seu xamanismo meio que
adormecido. Agora, com a ayahuasca, intensificam-se as experimentações rituais e oníricas e
o xamanismo floresce. Com ele os relatos míticos e outras narrativas sobre a ayahuasca:
A sequência de ões e interações envolvendo uma equipe de médicos da
UDV na chegada da ayahuasca entre os Yudjá em Tubatuba e a
experimentação ritual e onírica que isso deslanchou, isto é, a face maquínica
do agenciamento, se ela tem sua formalização independente da face
expressiva, ambas são inseparáveis, no sentido de que os enunciados,
motivados pelas falas antigas, antecipam, preparam ou promovem
remanejamentos do agenciamento, dando margem à operação de retomada
do passado, de reocupação dos mundos espirituais e aos processos de
ressingularização da pajelança entre os Yudjá (LIMA, 2018, p. 128).
A questão fundamental aqui é dar conta deste processo de criação sem subordiná-lo às
formas culturais constituídas, isto é, levando em conta afetos que tornam a adoção da
ayahuasca um problema aberto e vital (LIMA, 2018, p. 135). Para passar algo desta
“reapropriação processual da produção do mundo” Lima une a experiência dos Yudjá com o
discurso dos mesmos sobre esta mesma experiência, e aproxima ambas à doutrina espinozista
(que faz da alegria um afeto político) e certos desenvolvimentos dela (D&G, Guattari e
Debaise & Stengers, principalmente).
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Desdobramentos do perspectivismo
Contemporâneos aos trabalhos de Viveiros de Castro e Tania Stolze Lima temos as
etnografias de Aparecida Vilaça (1992), Carlos Fausto (2014[2001]), Marco Antonio
Gonçalves (2001), entre outros, nas quais, embora a reciprocidade de perspectivas apareça, de
um modo ou de outro, como um ponto chave na argumentação, não a preocupação em
associá-la aos conceitos filosóficos de D&G. Posteriormente, Viveiros de Castro e Lima
(acrescente-se também Márcio Goldman, mas este fora do campo da etnologia ameríndia) se
aprofundaram na obra de D&G em seus trabalhos, de maneira simultânea a que o
perspectivismo ganhava peso teórico a nível mundial, o que fez com que uma nova leva de
pesquisadores começasse a buscar também as ferramentas deleuzeguattarianas. Utilizaremos,
por mera preferência pessoal, os trabalhos de David Rodgers (2002) e Valéria Macedo (2013)
para tratar desta nova leva de pesquisadores, reconhecendo que outros nomes poderiam
igualmente aparecer aqui, como Renato Sztutman, Pedro Cesarino, Marina Vanzolini, entre
outros.
No texto de Rodgers, D&G e a filosofia da diferença o abertamente citados e
utilizados como uma ferramenta preferencial para se pensar o próprio perspectivismo, por
meio, principalmente, das noções de “afetos e devires” (2002, p. 102). A argumentação se
desenvolve em torno do xamanismo e da menstruação entre os Ikpeng (um povo do Alto
Xingu), e desenha um socius no qual um certo modo comportamental constitui um bloco
social fluido e heterogêneo, capaz de capturar novos elementos fabricando a si mesmo como
uma figura singular: uma anomalia populacional, sem poder político e com potência
cosmológica (RODGERS, 2002, p. 116). Tal modo comportamental se baseia nas diferentes
funções de homens e mulheres como algo que guarda potência cosmopolítica, isto é, uma
função masculina de contenção arquitetural e uma função feminina como conteúdo ou matriz
populacional engendram uma visão dos Ikpeng enquanto multiplicidade
10
, ou um povo que
contém em si outros povos.
Assim, a anomalidade potencial dos homens os ejeta para fora do socius feminino,
10
Como nota Viveiros de Castro (2007, p.97), multiplicidade é, na obra de D&G, um “meta-conceito que define
um certo tipo de entidade” cuja imagem concreta é o famoso “rizoma” da introdução de Mil Platôs. O rizoma é
um sistema reticular acentrado formado por “devires” ou relações intensivas entre singularidades heterogêneas
(VIVEIROS DE CASTRO, 2007, p. 98). A ideia de multiplicidade é resultado de uma decisão dos autores no
sentido de "destronar as noções metafísicas clássicas de essência e de tipo”, e, nesse sentido, o corolário deste
raciocínio, na página seguinte, é bem significativo: “Em suma, não há pontos de vista sobre as coisas; as coisas e
os seres é que são os pontos de vista. Se não entidade sem identidade, não multiplicidade sem
perspectivismo” (grifos do autor).
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transformando-os em aliados ou visitantes em seu próprio povo. Impelidos pelo desejo das
mulheres, que se apropriam dos produtos obtidos por eles no exterior por meio da caça, guerra
e captura, os homens se ocupam de “visitações retornantes”. Tudo se passa como se, para os
Ikpeng, as espécies masculinas em geral fossem algo como um abrigo arborescente para uma
população ou bando feminino, de modo análogo a que a quebra do corpo do xamã (após sua
morte) é um tipo de “menstruação cósmica” (RODGERS, 2002, p. 113) que libera agências
xamânicas contidas, que se espalham, então, pela floresta. Tais agências serão conclamadas
pelos xamãs vivos, e serão colocadas a serviço da cura, da saúde e da vida.
Segundo Rodgers os rituais ikpeng mostram modos pelos quais eles instilam a si
mesmos como um povo por meio de uma mistura impura de elementos dissolvidos
(ibidem:94). Da mesma forma que as máscaras e dançadores ikpeng causam uma “confusão
humano animal”, as fases “formiga” e “vespa” indicam modos do povo (e existem vários
modos exclusivos, isto é, não totalizados):
As pessoas comparam a fase-formiga (arayo) de coleta e feitura de ninho no
solo à sua própria produção de roças e malocas; enquanto a fase-vespa
(turum), associada ao nomadismo guerreiro e à caça coletiva, alterna entre o
enxame predatório e o ninho arbóreo ao que corresponde uma alternância
ikpeng entre os ataques mesmos e a base nos acampamentos, quer se trate da
guerra ou da caça (há algum tempo a guerra foi descontinuada, mas
permanece latente a ameaça de sua reemergência). Por isso, trata-se menos
de uma autodesignação do que de uma auto-apelidação uma descrição
etológica daquilo que a população circunscrita apenas precariamente como
um “nós-exclusivo” (tˇsimna) seria capaz (RODGERS, 2002, p. 94).
O fato de que a vida precisa ser extraída da floresta (ou seja, do exterior do socius) é
pensado pelos Ikpeng como uma violência que causa a ira dos espíritos demônios, mas os
homens são encantados pelo perigo. Diante de sua condição precária e transitória, sua cultura
pressupõe o “efeito vital do tóxico” (RODGERS, 2002, p. 97). O ato de sobreviver a
condições adversas ou de ressucitar de múltiplas mortes (imere) afeta decisivamente o mundo
dos Ikpeng, mas particularmente mulheres menstruadas e xamãs. Rodgers põe em operação
aqui um paralelismo entre a “menina diluída” e o “menino submerso”, isto é, as figuras da
menina púbere e do menino que se inicia no xamanismo.
De um lado, é preciso “desfazer” a saída perigosa de sangue que resulta do processo
revertido de “fazer filhos”, de modo que o corpo da mulher menstruada precisa ser
neutralizado ou esvaziado enquanto permanece envolvido pelos parentes e por uma
arquitetura doméstica que irão fabricar para ela um novo corpo como espaço oco, isto é
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definido pelo seu “exterior abrigador” (RODGERS, 2002, p. 108). De outro lado, o neófito é
esvaziado e seu contato com o exterior é reduzido ao mínimo (o autor fala aqui em
“fechamento somático”), num processo que resulta no corpo do xamã como receptáculo de
zoeira e fedor, um conduto do afeto inumano uma pessoa estragada ou uma ex-pessoa cujo
destino após a morte é não ser canibalizado pelos mortos que habitam o céu
11
(RODGERS,
2002, p. 112). Sobreviver a encontros potencialmente danosos é aqui uma condição de vida, e
intoxicar-se se constitui assim em um tipo de absorção corporal que altera o “eu/nós” a partir
da expansão da sua capacidade de ser afetado (RODGERS, 2002, p. 98).
O autor considera, a esta altura do texto, o perspectivismo de Viveiros de Castro e
Tania Stolze Lima como uma abstração necessária para se compreender o processo de
redimensionar o plano molecular ao plano cósmico que operam os Ikpeng quando dizem que
“o cuspe dos xamãs é um vasto e impenetrável lago para espíritos”, ou que “uma tocha acesa
em suas mãos é um incêndio devastador na floresta” ou ainda que “a orelha de pau é o beiju
dos mortos” (RODGERS, 2002, p. 100). Para Rodgers, de um modo geral, os ameríndios
descrevem uma diversidade de fontes de avaliação dentro de um mesmo mundo, constituindo
uma percepção bastante sutil do mesmo, baseada no trânsito, nos movimentos e nos afetos
entre espécies diferentes a partir de uma dita “lógica do sensível” (RODGERS, 2002, p. 100).
Dado o imperativo moral antropológico de reconhecer o humano, o perspectivismo
seria a saída lógica para a ciência social compreender os mundos ameríndios de modo não-
simbólico e também não-real (RODGERS, 2002, p. 101). Assim, o devir-onça do xamã nos
obriga a deslocar nossa noção do que seja uma “onça de verdade”, que quando os
ameríndios falam disso não estão querendo dizer que metaforicamente o xamã virou uma
onça, e tampouco estão delirando ou fantasiando. O que há é o que o autor chama de “tensão
ontológica”, na qual devir (em ikpeng, “sumir” aluku) não equivale à transformação que
não ocorre (ainda) nenhuma passagem para uma nova morfologia definida (RODGERS, 2002,
p. 103). Afetos e devires seriam assim vetores que abrem sempre para um potencial vindo do
novo, de fora, acionando partículas mistas, porém sempre acopladas um tipo ou modo: afeto
abelha, devir queixada, afeto inimigo, etc.
Em um mundo semelhante em diversos aspectos ao descrito para (e pelos) os Ikpeng
vivem os Mbya Guarani do sul e sudeste do país estudados por Valéria Macedo (2013), onde
também pode ser encontrada uma multiplicidade de potências que ora podem causar doenças
11
A mesma imagem apresentada pelo material araweté para descrever o destino do matador, como vimos antes.
Sobre uma certa noção de ponto de vista: A incidência do pensamento de Deleuze & Guattari na etnologia ameríndia
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e ora podem curar as pessoas. Novamente o aparato conceitual de D&G é convocado de
maneira explícita, principalmente em sua interface com a obra de Espinoza (MACEDO, 2013,
p. 185), na qual o mal é sempre um mau encontro que decompõe parte das relações que
constituem um corpo. Ou seja, um corpo que age sobre outro pode destruir parte das relações
que o compõem ou pode também potencializar estas relações, compondo com elas
(MACEDO, 2013, p. 185). Resultam daí duas modalidades principais de afetos, a tristeza e a
alegria, respectivamente. Para os Mbya, a alegria estaria diretamente associada à proximidade
dos corpos para com as almas” (nhe’ë), e a tristeza, pelo contrário, ao definhar do corpo que
resulta do afastamento da “alma”. Ao afastar-se o nhe’ë o corpo do sujeito fica suscetível a
toda espécie de agenciamentos, isto é, outras “almas” que podem vir a se juntar à pessoa
12
,
causando na situação mais extrema o -jepota, isto é, a transformação em animal.
Os bons encontros entre os corpos de pessoas mbya com as nhe’ë acontecem de modo
privilegiado nas casas de reza (opy’i), onde por meio das danças, rezas e uso do cachimbo os
Mbya se fortalecem, se encorajam e produzem para si corpos leves (MACEDO, 2013, p. 190):
Quanto mais forte a conexão do sujeito e seu nhe’e, maior a sua capacidade
de transitar pelo mundo e pelos outros. Inclusive, quanto mais forte a
conexão, mais o nhe’e pode se afastar do corpo, em sonhos, cantos e visões,
ampliando capacidade xamânica do sujeito. O fazer ou fortalecer o corpo,
contudo, deve ser uma busca reiterada porque sempre o perigo do corpo
ser desfeito. Daí o perigo sempre eminente dos adoecimentos e dos
encantamentos como o jepota (MACEDO, 2013, p. 191).
Ao mesmo tempo toda uma série de subjetividades (e corpos) como que disputam as
pessoas mbya tais como espíritos dos mortos, seres da noite, donos de animais e de lugares,
entre outros (MACEDO, 2013, p.192). Assim como os Mbya podem abusar de objetos,
lugares e animais ofendendo seus donos, estes podem atingir seus corpos com pedras ou
outros pequenos objetos causando doenças, ou mesmo tornando-se parceiros sexuais das
pessoas mbya, como no caso do -jepota. De fato, aqui fala-se em “virar animal”, mas no
sentido de ter o corpo atingido ou ocupado por uma afecção animal, e a autora cita D&G: “o
devir pode e deve ser qualificado como devir-animal sem ter um termo que seria o animal que
se tornou” (D&G, 1997, p. 18 apud MACEDO, 2013, p. 195), ou como um mbya diz para a
autora, “por causa dos espíritos da mata, atraídos pelo cheiro da carne, espíritos animais
penetram no corpo de um jovem e ele começa a se alimentar de outro jeito. (...). Ele se
12
Para descrições parecidas, porém não deleuzianas, sobre agências que vêm “andar junto” com a pessoa mbya
ver Pissolato (2007) e Pereira (2019).
Vicente Cretton PEREIRA
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alimenta do jeito do animal, come carne crua, não quer mais arroz e feijão” (MACEDO, 2013,
p. 195). O desafio de se viver nesta terra seria então o de se apropriar de recursos e incorporar
capacidades de uma multiplicidade de outros, em relações que podem tanto fazer corpos
(fortalecer, alegrar etc.) quanto desfazê-los (ou fazer um outro corpo, metamorfoseá-lo, etc),
sendo crucial para os humanos conseguir reiterar a sua perspectiva de sujeito, -nhemboete
(MACEDO, 2013, p. 203).
A leitura do material ikpeng e mbya guarani por Rodgers e Macedo, respectivamente,
pode ser situada num universo deleuzeguattariano de fato, porém, em grande parte isso se
deve ao aporte perspectivista que esses autores adotaram. Mesmo diante de paisagens
etnológicas distintas como o Alto Xingu e São Paulo, vemos assim a mobilização de
categorias como “afeto”, “afecção” e “devir” enquanto formas privilegiadas de se falar da
abertura do socius (ou da pessoa) para o exterior, capazes de operar transformações ou
passagens “de uma série a outra”, como escreve Viveiros de Castro (ver supra). Xamãs
“grávidos” de suas agências xamânicas, um povo que contém uma multiplicidade de povos
em si, um universo de corpos (de humanos, animais, donos etc.) que compõem e decompõem
as relações que mantém entre si, encontros sexuais com animais resultando em pessoas-
animais, tudo isso torna a utilização do arcabouço filosófico criado por D&G mais do que
justificável.
Considerações finais
De maneira geral concluímos, após o breve percurso até aqui, que o trabalho de D&G
tem sido bom para pensar as cosmologias ameríndias por seu esforço interno em desenvolver
uma linha de pensamento orientada pelo conceito de diferença. Nosso exercício de localizar o
uso das ferramentas deleuzeguattarianas ao longo do desenvolvimento da etnologia, e mais
especificamente do perspectivismo, sugere que se de um lado conceitos como o de devir
parecem ser bastante adequados para descrever certas realidades ameríndias, de outro sua
utilização por autores de peso no campo (Viveiros de Castro e Tania Stolze Lima,
principalmente) contribuiu sobremaneira para sua proliferação direta ou indireta. Por fim,
consideramos que através de noções como Outrem, devir, afeto, afecção entre outras podemos
nos aproximar mais do sentido dado aos ameríndios para termos como -jepota, aluku, iwa etc
bem como avançamos em nossa compreensão de sua sociabilidade, criando ideias como a de
que a sociedade araweté seria um entre e não um ente ou ainda que a morfologia tupinambá se
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dava na temporalidade e não na espacialidade.
Ao longo deste texto observamos alguns momentos particulares nos usos de conceitos
deleuzeguattarianos pela etnologia, a começar pela total marginalidade nos anos 1980, quando
Viveiros de Castro traz a noção de devir em sua etnografia sobre os Araweté. Mas mesmo
com isso a filosofia da diferença não se generalizou entre os etnólogos e amazonistas. A
primeira geração de alunos de Viveiros de Castro, entre eles Tania Stolze Lima, Aparecida
Vilaça, Carlos Fausto e Marco Antonio Gonçalves ou contribuíram para a teoria do
perspectivismo com dados etnográficos, ou não trabalharam com a noção ameríndia de
perspectiva (em parte porque esta ainda estava sendo formulada no momento de suas
pesquisas). Com uma formulação deleuzeguattariana do perspectivismo ameríndio, avançada
por Viveiros de Castro e Tania Stolze Lima uma nova leva de pesquisadores começa a
“deleuzianizar” a etnologia, entre eles Pedro Cesarino, Renato Sztutman, Marina Vanzolini, os
citados David Rodgers e Valéria Macedo, entre outros. Nesse momento, alguns etnólogos
passam a se interessar pelas ferramentas conceituais de D&G novamente, recuperando noções
como as de “devir” ou “afeto” para fornecer descrições mais detalhadas ou, digamos, fiéis dos
mundos indígenas.
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CRediT Author Statement
Reconhecimentos: Não se aplica.
Financiamento: Não se aplica.
Conflitos de interesse: Não há conflitos de interesse.
Aprovação ética: Não se aplica.
Disponibilidade de dados e material: Não se aplica.
Contribuições dos autores: Autoria única.
Processamento e editoração: Editora Ibero-Americana de Educação.
Revisão, formatação, normalização e tradução.
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ON A CERTAIN NOTION OF POINT OF VIEW: THE INCIDENCE OF DELEUZE &
GUATTARI’S THOUGHT ON AMERINDIAN ETHNOLOGY
SOBRE UMA CERTA NOÇÃO DE PONTO DE VISTA: A INCIDÊNCIA DO
PENSAMENTO DE DELEUZE & GUATTARI NA ETNOLOGIA AMERÍNDIA
SOBRE UNA CIERTA NOCIÓN DE PUNTO DE VISTA: EL IMPACTO DEL
PENSAMIENTO DE DELEUZE & GUATTARI EN LA ETNOLOGÍA AMERINDIA
Vicente Cretton PEREIRA1
e-mail: vicente.cretton@ufv.br
How to reference this article:
PEREIRA, V. C. On a certain notion of point of view: The
incidence of Deleuze & Guattari’s thought on Amerindian
ethnology. Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 23, n.
00, e023019, 2023. e-ISSN: 2359-2419. DOI:
https://doi.org/10.47284/cdc.v23i00.17560
| Submitted: 12/12/2022
| Required revisions: 19/06/2023
| Approved: 24/09/2023
| Published: 22/12/2023
Profa. Dra. Maria Teresa Miceli Kerbauy
Prof. Me. Mateus Tobias Vieira
Profa. Me. Thaís Caetano de Souza
1
Professor at the Federal University of Viçosa. Graduated in Social Sciences from the State University of Rio de
Janeiro (2006), has a Master's degree in Social Sciences from the PPCIS (Postgraduate Program in Social
Sciences) of the Institute of Philosophy and Human Sciences of the State University of Rio de Janeiro (2010),
and a PhD in Anthropology from the PPGA (Postgraduate Program in Anthropology) of the Fluminense Federal
University (2014). From 2010 until the end of 2011 he worked as a teacher, by appointment of the Mbya Guarani
community of Camboinhas (Niterói-RJ), at the Amba Porã school, an advanced nucleus of the Portugal Neves
Municipal School.
On a certain notion of point of view: The incidence of Deleuze & Guattari’s thought on Amerindian ethnology
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ABSTRACT: The article seeks to systematize some of the links between ethnological
research in the South American Lowlands and the philosophy of Deleuze & Guattari, pointing
out the main concepts and the ways in which they have been used to justify these connections.
Above all, it tries to answer the following questions: why and how has the philosophy of
difference been good for certain ethnologists in the South American lowlands to think about
the worldviews of the peoples they research? How can we map the use of this tool, the
philosophy of difference? What has ethnology proposed in terms of the production (and
translation) of concepts based on the thinking of Deleuze & Guattari? In the course of this
journey, we also arrive at a division of the encounter between indigenous ethnology and the
philosophy of difference into three main moments. The first in the work of Eduardo Viveiros
de Castro, the second with the work of Tania Stolze Lima, and the third, more recent, in which
researchers are once again looking for conceptual resources directly in the philosophy of
difference based on perspectivism.
KEYWORDS: Indigenous ethnology. Amerindian perspectivism. Philosophy of diference.
RESUMO: O artigo busca sistematizar alguns dos elos existentes entre as pesquisas em
etnologia nas Terras Baixas da América do Sul e a filosofia de Deleuze & Guattari,
apontando os principais conceitos e as formas com que foram utilizados de modo a justificar
tais conexões. Principalmente tenta-se responder às seguintes questões: porque e como a
filosofia da diferença têm sido boa para que certos etnólogos das terras baixas sul-
americanas pensem as visões de mundo dos povos junto aos quais pesquisam? Como mapear
o uso desta ferramenta que é a filosofia da diferença? O que a etnologia propôs em termos de
produção (e tradução) de conceitos a partir do pensamento de Deleuze & Guattari? Durante
este percurso, chega-se, ainda, a uma divisão do encontro entre etnologia indígena e filosofia
da diferença em três momentos principais. A primeira na obra de Eduardo Viveiros de Castro,
a segunda com o trabalho de Tania Stolze Lima, a terceira, mais recente, na qual os
pesquisadores voltam a buscar recursos conceituais diretamente na filosofia da diferença a
partir do perspectivismo.
PALAVRAS-CHAVE: Etnologia indígena. Perspectivismo ameríndio. Filosofia da diferença.
RESUMEN: El artículo busca sistematizar algunos de los vínculos entre la investigación
etnológica en las tierras bajas sudamericanas y la filosofía de Deleuze & Guattari, señalando
los principales conceptos y las formas en que han sido utilizados para justificar estas
conexiones. Sobre todo, intenta responder a las siguientes preguntas: ¿por qué y cómo la
filosofía de la diferencia ha servido a ciertos etnólogos de las tierras bajas sudamericanas
para pensar las cosmovisiones de los pueblos que investigan? ¿Cómo podemos mapear el uso
de esta herramienta, la filosofía de la diferencia? ¿Qué ha propuesto la etnología en términos
de producción (y traducción) de conceptos a partir del pensamiento de Deleuze & Guattari?
Durante este recorrido, el encuentro entre la etnología indígena y la filosofía de la diferencia
se dividió en tres momentos principales. El primero en el trabajo de Eduardo Viveiros de
Castro, el segundo con el trabajo de Tania Stolze Lima, y el tercero, más reciente, en el que
los investigadores vuelven a buscar recursos conceptuales directamente en la filosofía de la
diferencia a partir del perspectivismo.
PALABRAS CLAVE: Etnología indígena. Perspectivismo amerindio. Filosofía de la
diferencia.
Vicente Cretton PEREIRA
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DOI: 3
Introduction
The subject addressed in this research has already been the subject of previous
analysis by some of the authors who serve as our reference, especially Eduardo Viveiros de
Castro (in his 2015 book Metafísicas Canibais ("Cannibal Metaphysics") and in other
articles
2
). The link between Gilles Deleuze and ethnology has also been explored in non-
indigenous contexts, for example in relation to the quilombola societies of the Ribeira Valley
(see CUNHA 2016). Our main concern should therefore be to systematize (without
exhausting the subject, of course) some of the links that exist, in the history of ethnology of
the South American Lowlands, between this discipline and the philosophy of Deleuze and
Guattari (henceforth D&G) - whose work would be as relevant to anthropology as those of
Foucault or Derrida, as Viveiros de Castro writes (2007, p. 92) -, pointing out the main
concepts and uses of the same that were most responsible for this connection. Some of the
questions that guide us are: why and how has the philosophy of difference been good for
certain ethnologists from the South American lowlands to think about the worldviews of the
peoples they research? How can we map the use of this tool, the philosophy of difference?
What has ethnology proposed in terms of the production (and translation) of concepts based
on the thinking of D&G?
The text is divided into three main parts, each exploring a specific phase of the
encounter between D&G and ethnology. We start with Eduardo Viveiros de Castro's work
with the Araweté, where indigenous ethnology explicitly expressed the need for a different
philosophy from that from which so-called modern rationality represents itself (in a Cartesian
lineage, so to speak). We then move on to Tania Stolze Lima's
3
work with the Yudjá, where
she consolidates Amerindian notions of point-of-view and asymmetry based on
Deleuzeguattarian concepts. Finally, we present resonances of their work in more recent
ethnographies that return to the work of D&G, after a period in which the discipline, although
2
Notably in his Intensive Affiliation and Demonic Alliance (Filiação Intensiva e Aliança Demoníaca,
VIVEIROS DE CASTRO, 2007), where the author explores a part of the "contemporary conceptual aesthetic",
whose sedimentation was decisively influenced by the work of D&G.
3
Together with Lima and Viveiros de Castro, Aparecida Vilaça co-authored the theory of perspectivism based on
her research into Wari' hunting, shamanism and cannibalism. Although her article Fazendo corpos ("Making
bodies") (1998) was published two years after the first two seminal articles on perspectivism (both from 1996),
her ethnography of the Wari', supervised by Viveiros de Castro (defended in 1989 and published in 1992), was a
fundamental database for discussions on a point of view situated in the body and on the difference between
beings. As her ethnography completely dispenses with the philosophy of D&G, her work would be better placed
alongside that of authors such as Antonio Gonçalves, Carlos Fausto, Philippe Descola, Anne-Christine Taylor,
Bruce Albert, Philippe Erikson, Jean-Pierre Chaumeil, Patrick Menget (among others) - in which difference is
treated as an operator, but not in a Deleuzian way.
On a certain notion of point of view: The incidence of Deleuze & Guattari’s thought on Amerindian ethnology
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DOI: 4
gravitating around Amerindian perspectivism, no longer cited it directly.
The Tupi-Guarani and the constitutive difference
It is known that the initial moments of Viveiros de Castro's career, in the 1970s, were
marked by the construction of an anthropological theory on Tupi-Guarani societies, with
studies on the of Central Brazil as a kind of backdrop, a certain "writing against", as the
author puts it (VIVEIROS DE CASTRO; SZTUTMAN, 2008, p. 27-8), that is, against the
predominant landscape in which they were formed at the time. In contrast to the social
organization, which presents societies that strive to remain identical to themselves by
conjuring and freezing the future (VIVEIROS DE CASTRO, 1986, p. 27), Viveiros de Castro
would contrast the Araweté society, a society without an interior, about whose notion of
person the author wrote at the time that it could be said that it did not really exist: "as
becoming it is not; as a mobile relationship between terms, it is an 'in-between' (an in-
between-two) and not an entity" (VIVEIROS DE CASTRO, 1986, p. 118, our translation).
It's only on page 122 of "Os deuses canibais" (The Cannibal Gods) that the author
tries to justify and detail what he himself calls his insistence on the concept of becoming
4
-
which is opposed to the concept of Being - and to do so he evokes a quote about Guarani
philosophy from the work of Heléne Clastres: "a logic that refuses the principle of
contradiction seems to operate in this thought which, at the same time, opposes extremes and
aims to make them compatible" (CLASTRES, 1978, p. 89 apud VIVEIROS CASTRO, 1986,
p. 122-3, our translation), says the passage he highlights. Extending the French
anthropologist's intuition, Viveiros de Castro states that extremes oppose each other only to be
dissolved as extremes and then goes on to clarify the concept of becoming. Thus, in note 21,
we start from the canonical analysis of totemism constructed by Lévi-Strauss based on the
notion of series (cosmological, sociological), where metonymy would be the prevailing
process within each series and metaphor the process of articulating at least two series, in order
to affirm the insufficiency of both processes for understanding the articulation between
cosmology and society among the Tupi-Guarani. The use of this "heterogeneous notion", that
of becoming, is justified in order to qualify processes that are neither interior to the series nor
an articulation between them, but rather processes of transformation: the passage from one
4
Further clarification on the concept can be found in Viveiros de Castro, 2007 (especially from page 115
onwards).
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series to another, such as the metamorphosis of Arawedeath or cannibal transubstantiation,
for example. The concept then seemed to serve as an escape from structuralism.
The philosophical notion of becoming was being used by Viveiros de Castro in two
senses "that partially overlap", as he explains later in the same note: the first refers us to the
opposition between Being and Becoming that is the foundation of Western metaphysics ("the
part of Becoming is much heavier in Tupi-Guarani philosophy than it has been in the history
of Western thought," he explains); the second refers us to the dual author D&G and designates
pre-representative processes, prior to the generation of identities by position in a structure of
oppositions through the metonymic-metaphoric operation:
In this sense, Devir speaks of processes that take place in the Real before the
reality/representation distinction; and I use the concept to indicate that the
being of the Araweté person is a becoming-other: becoming-god, -enemy, -
jaguar, where if the Other, as the object of becoming, is imaginary, the
becoming is real, and otherness is a quality of the verb, not a predicate of it
(...). If in the first sense "becoming" is (or is not) anterior and encompassing
in relation to being seen as substance and term, in the second sense it is
opposed to "being" as an identity copula (VIVEIROS DE CASTRO, 1986,
p. 124, our translation).
Finally, still in the same note, Viveiros de Castro justifies his choices in relation to the
philosophical tools used by saying that they are not personal or ideological preferences placed
a priori in the analysis, but rather a language that during the investigation appeared to be the
most appropriate for an intuitive description of Tupi-Guarani and Araweté cosmology. The
first connection between ethnology and the philosophy of difference thus arises from a need
that arose during the course of the research, where anthropological tools (structuralism,
ethnology, the work of Clastres, etc.) probably proved insufficient to provide a dense
description of Araweté material.
At the same time, in an article written together with Manuela Carneiro da Cunha,
Viveiros de Castro (VIVEIROS CASTRO; CARNEIRO DA CUNHA, 1985) promoted a
fundamental debate about the foundations of Tupinambá society, opposing himself not so
much to the ethnology of the peoples, but to Florestan Fernandes' ideas about the role of
war for these people. If Fernandes, placing war at the service of religion, considered
Tupinambá vengeance as a manifestation of the intention to satisfy the need for a sacrificial
relationship with a dead relative or mythical ancestor (FERNANDES, 2006[1952], p. 371),
Viveiros de Castro & Carneiro da Cunha emphasize the productive and founding role of these
same phenomena, that is, war and vengeance as constituting the engine of Tupinambá society.
On a certain notion of point of view: The incidence of Deleuze & Guattari’s thought on Amerindian ethnology
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The challenge, then, was to think about the extent to which war produces a society that
exists only because of it, through it. To understand how the memory of past vengeance and the
promise of future vengeance acted not as ends, but as motors that made the persistence of the
relationship with enemies a basic condition of existence: "it is not a question of having
vengeance because people die and need to be rescued from the destructive flow of time; it is a
question of dying so that there can be vengeance, and thus a future" (VIVEIROS CASTRO;
CARNEIRO DA CUNHA, p. 201). War would no longer have a social function, as Florestan
Fernandes argued, but would be the very nexus of Tupinambá society, where the victim killed
in the yard of the enemy village was the pledge of new vendettas and the result of previous
vendettas. A society constituted in the temporal dimension, and therefore dependent on what
is external to it, that is, its enemies. In contrast to studies, in which the existence of society
was substantiated in space, in Tupinambá morphogenesis spatiality was subordinated to
temporality and the perpetual circulation of memory between enemy groups was responsible
for opening up the socius to the beyond, to others, to what was different from itself. We find
echoes of the idea of becoming here, that is, of a difference that is constitutive, and this idea
will underpin the intuitive description of both society and the Tupi person.
This "opening up of the socius" will reappear in three conferences and a seminar held
in France in May 1992, which will give rise to one of the articles in "A inconstância da alma
selvagem" (The inconstancy of the savage soul) (VIVEIROS DE CASTRO, 2011[2002]),
namely "A imanência do inimigo" (The immanence of the enemy), where the person's mode
of subjectivation takes the place of the morphogenesis of society and the circulation of
memory gives way to the exchange of perspectives between killer and victim, in a fusion of
points of view. Thus, the Araweté slayer receives from the dead enemy chants characterized
by an enunciative regime marked by the enemy's point of view, in other words, a citational
style where the subject of enunciation is the victim himself, after his death (VIVEIROS DE
CASTRO, 2011[2002], p. 275). Furthermore, the fusion between the killer and his dead
enemy presupposes an other-becoming of the former, who will never cease to be accompanied
by the spirit of his victim, thus differentiating himself not only from himself but from any
other Araweté who has not killed anyone. The final destiny of the Arawekiller is to become
Iraparadï, which means that his soul will not be devoured by the gods when it reaches the
celestial heights, like the soul of the ordinary Araweté (who, after being devoured, also
become gods themselves), in other words, he is already a kind of anticipated god, and this
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conclusion evokes the condition of the Tupinambá warrior for whom access to the "land
without evil" would be precisely death in an enemy's yard.
In fact, Viveiros de Castro can only perceive the continuity between the Tupinambá
and Araweté materials by considering a movement of translation he observed in the latter's
cosmology: many of the symbolic contents conveyed in war by other Amazonian peoples
(such as the Jívaro and Munduruku, for example), in the case of the Araweté, are displaced to
the relationship between gods and men (VIVEIROS DE CASTRO, 2011[2002], p. 288), in
other words, the space and function of exteriority has been occupied by the gods, who are
both affinities and enemies (devourers) of the Araweté (VIVEIROS DE CASTRO,
2011[2002], p. 288). The other-becoming of the slayer is an example of a process that can be
widely generalized as a "ritual transformation of the Self" (a term the author takes from
Melanesian ethnology) based on the relationship with an enemy reduced to a state of extreme
subjectivity and producing a movement of "fusional approximation" and "immanentization of
difference". This relationship created by the suppression of one of the (related) terms that is
introjected by the other makes predation a mode of subjectivation
5
: Introjecting the Other (the
difference) produces the subject as a transformation of itself.
We have seen so far that the Deleuzeguattarian concept of becoming - a type of
relational synthesis that differs from a connection or conjunction of terms and does not have
similarity or identity as its cause, called by D&G as disjunctive synthesis or inclusive
disjunction (VIVEIROS DE CASTRO, 2007, p. 99) - accompanied Viveiros de Castro in
important works, making it possible to describe Araweté society as between and not being
(that is, more as a process and less as something that exists by itself) and, as a result, helping
to construct a Tupinambá social morphology in which temporality would be the main support,
and revenge would come to be understood as an exchange of the Enemy's perspective. Later,
the same change of perspective, now back to the Araweté, is evoked to show the condition of
the Araweté slayer as a subject who differs from himself.
In 1996, in dialog with Tania Stolze Lima (VIVEIROS DE CASTRO, 2011[2002], p.
347), he wrote an important article on Amerindian perspectivism, which would become an
5
It is quite likely that the term subjectivation, for Viveiros de Castro, has its origins in Michel Foucault's use of
it: "I sought above all to produce a history of the different modes of subjectivation of human beings in our
culture; I dealt, in this perspective, with three modes of objectivization that transform human beings into
subjects. [...] It is not power, then, but the subject that constitutes the general theme of my investigations"
(DREYFUS; RABINOW, 1984: 297-298 apud ADORNO, 2017, p. 36, our translation). It should be noted that
Foucault is cited by Viveiros de Castro as one of the main names in what would be an "anthropology of complex
societies", alongside Louis Dumont, Bruno Latour and Marylin Strathern (VIVEIROS DE CASTRO;
SZTUTMAN [org.], 2008, p. 45).
On a certain notion of point of view: The incidence of Deleuze & Guattari’s thought on Amerindian ethnology
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influential anthropological theory in Brazil and abroad in the following years. Two epigraphs
indicate the paths taken by the author: the first is taken from a Matsiguenga ethnography
(BAER, 1994 apud VIVEIROS DE CASTRO, 1996, p. 115) and the second from a work by
Gilles Deleuze on Leibiniz. In other words, from the outset it is suggested that this is a theory
strongly based on Amerindian ethnology, but on which the philosophy of difference has a
decisive impact. Considering Tim Ingold's well-known phrase, "anthropology for me is
philosophy with people in it" (INGOLD, 2014), one might think that the ontology (i.e. the
discourse on existence) of peoples like the Matsiguenga, Araweté and perhaps more directly
the Yudjá (or Juruna, studied by LIMA, 1996) provided concrete material for a certain lineage
of European philosophical thought whose last fold is the work of Deleuze (much of it written,
as we know, in partnership with Guattari).
But before that, Amerindian perspectivism is a necessary attempt to "take seriously"
(VIVEIROS DE CASTRO, 2002, p. 134, our translation) statements such as "the peccaries
are human", "humans are seen as tapirs by snakes", "people are jaguar monkeys", "what we
see as worms in a corpse the vultures see as fish jumping in a river", "blood is cauim for the
jaguar", etc. Take them seriously without, however, treating them literally or disqualifying
them as mere fantasy, but considering them as belonging to the world of Another. The
concept, which acts here in defense of a more symmetrical methodology for anthropological
fieldwork, is also Deleuzian (A Lógica do Sentido (The Logic of Meaning) is the reference
here). The operative metaphors of perspectivism make up a world that does not exist except
within itself, as the author explains:
Another is the expression of a possible world. A possible that really exists,
but does not currently exist outside of its expression in someone else. The
expressed possible is involved or implicated in the expressive (which
remains heterogeneous to it), and is realized in language or in the sign,
which is the reality of the possible as such - meaning. The "I" then appears
as an explanation of this implication, an actualization of this possible, by
taking its rightful place (that of "I") in the language game. The subject is
thus an effect, not a cause; it is the result of the internalization of a
relationship that is external to it - or rather, of a relationship to which it is
internal: the relationships are originally external to the terms, because the
terms are internal to the relationships (VIVEIROS DE CASTRO 2002, p.
118, authors emphasis, our translation).
Such metaphors generally refer to the double meaning of animals and plants in general
(but some in a special way, such as psychotropic plants, large mammals and dangerous
predators: tapir, jaguar, boa constrictor, datura, tobacco, etc.) as having an external form that
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differs qualitatively from their internal form: there would be like an "animal garment"
covering a subjectivity or intentionality identical to the human one (VIVEIROS DE
CASTRO, 2011[2002], p. 351). The constitutive dimension, the author suggests, of
perspective inversions concerns the relative and relational status of predator and prey, so that
"personity" (quality of being a person) and "perspectivity" (ability to occupy a point of view)
would be a matter of degree and situation and not diacritical properties of certain species
(VIVEIROS DE CASTRO, 2011[2002], p. 353). In other words, for this ontology, the human
or animal quality of an animal is something that can only be verified a posteriori: "the
possibility of a hitherto insignificant being revealing itself as a prosopomorphic agent capable
of affecting human affairs is always open; personal experience, one's own or that of others, is
more decisive than any substantive cosmological dogma" (VIVEIROS DE CASTRO,
2011[2002], p. 353, our translation). When the Yudjá go out hunting bush pigs, they do not
know at first whether their point of view will prevail, since fear (and other affections) in front
of the animal can cause someone to lose their human perspective: feeling afraid, this person
reveals the event from the point of view of the pigs, who see the hunt as a war ( see LIMA,
1996). It is human to feel fear in the face of the enemy in a war, but not in the face of the
animal that will be your food, so it is an affection that produces an exchange of points of view,
the bush pig presenting itself in its human form and the Yudjá person adhering to the world of
the bush pigs, thus becoming an animal herself: "on the hunt, however, the hunter's soul, if it
occurs to him to abandon his place due to the fear that strikes the subject, is not only visible to
the pigs but is captured and goes to live with them, gaining, over time, a pig's body, visible to
the human gaze" (VIVEIROS DE CASTRO, 2011[2002], p. 36, our translation). In other
words, the body of such a hunter becomes a "pig's body" for humans, in other words, with
hair, tusks, a tail, etc.
The perspectivism presented in this way by the Amerindians, which can be observed
in general in the three Americas (with contextual and specific modulations, of course
6
), raises
the question of what a subject can be (VIVEIROS DE CASTRO, 2002, p. 118). This is an
effectively new question, since it escapes the duality between subject and object that is the
6
As an Amerindian theory, variations of perspectivism can be found among many indigenous peoples of the
Americas, such as the Wari’ (VILAÇA, 1992; 1998), the Parakanã (FAUSTO, 2014[2001]), the Paumari
(BONILLA, 2005), the Ikpeng (RODGERS, 2002), the Guajá (CORMIER, 2003), the Kanamari (COSTA,
2017), the Guarani (PEREIRA, 2016), the Mebengokré (COHN, 2011), the Kaxinawá (LAGROU, 2007), the
Nahua (ROMERO, 2007), the Runa (KOHN, 2013) and many others, which leads us to think of a "cosmological
background" common to most of these peoples. As an anthropological theory, perspectivism has found
resonance in ethnographies of indigenous peoples from other regions of the world, such as Siberia
(WILLERSLEV, 2007) e Ásia (HOLBRAAD; WILLERSLEV, 2007), for example.
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foundation of European thought, and which is answered by Amerindian thought in the
following way: the subject is whoever occupies the point of view. It is not a question of
affirming the relativity of the true, but rather the truth of the relative, an idea according to
Viveiros de Castro, who defines perspectivism as "perspectivism - that of Leibniz and
Nietzsche as well as that of the Tukano or Juruna - is not a relativism, that is, an affirmation
of the relativity of the true, but a relationalism, by which it is affirmed that the truth of the
relative is the relation" (VIVEIROS DE CASTRO, 2002, p. 129, our translation). What
initially made it possible to perceive an opening up of the Tupi-Guarani socius and person to
the outside world, also began to act in the construction of a general (and Amerindian) theory
of the point of view. The exchange of perspective now no longer concerns only the
relationship between enemies (as in the case of the Tupinambá or Araweté), but also the
relationship between species, each of which is potentially the subject of a singular world.
Tools made available by the philosophy of difference were thus used by Viveiros de
Castro throughout his work to update a properly anthropological research program, suggested
many years earlier by Lévi-Strauss from his long study of Amerindian myths, as Viveiros de
Castro rightly quotes (2011[2002], p. 347, our translation) in the epigraph to the revised
version of the 1996 article: "(...), the reciprocity of perspectives that I saw as the characteristic
feature of mythical thought can claim a much broader domain of explanation". A Lévi-Strauss
who, starting with Mythologies, established the guidelines for a "philosophy of the future"
marked by the seal of interminability and virtuality (perhaps having founded post-
structuralism itself in a way, as VIVEIROS DE CASTRO, 2015, p. 30 suggests) and who
lived to comment, back in the 2000s, that "Brazilian colleagues", based on a critical analysis
of the notion of affinity, ended up bringing philosophy back to the center of the
anthropological debate: "no longer our philosophy, the one that my generation wanted to get
rid of with the help of exotic peoples; but, in a remarkable twist, their" (LÉVI-STRAUS, 2000
apud VIVEIROS DE CASTRO, 2015, p. 30-1, our translation). In fact, on more than one
occasion, as already pointed out in the introduction to this work, Viveiros de Castro himself
has established the necessary parallels between the works of D&G and Lévi-Strauss (see for
example VIVEIROS DE CASTRO, 2007 and VIVEIROS DE CASTRO, 2015), explaining
the ways in which perspectivism is heir to these two lines of thought, in other words, an
intersection between philosophy and anthropology.
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Asymmetry and power in Amerindian cosmologies
In Tania Stolze Lima's ethnography of the Yudjá, the first reference to the conceptual
framework of D&G appears in the presentation of the myth with which the author begins the
text and whose main character is the figure of Sena'ã, a so-called "chromatic" being who in
his acts of creation generates a "well-seasoned" sociality (LIMA, 2005, p. 53). The thought
that is expressed through the myth is then characterized by the author, through D&G, as a
thought of a popular type
7
, that is, a thought that works with analogies of proportion:
"'similarities that differ throughout a series, or from one series to another', according to the
different degree to which they approach or move away from an eminent term, given as the
reason for the series" (LIMA, 2005, p. 53). Such thinking (in other words, thinking in its
popular form) requires the application of a careful imagination that takes into account
branches of the series, apparent ruptures, true and false similarities, progressions and
regressions, etc. Imagination that the Amerindians possess and use, often leaving ethnologists
with the impression of a "fluid" social organization. Echoing observations by Pierre Clastres
and Anne-Christine Taylor, the author explains:
Clastres, for whom the fluid societies of the region are not immediately more
transparent than those of Europe and have an essential temporal dimension,
said that they "know how to perfectly manage the possibility of difference in
identity, of alterity in the homogeneous; and in this refusal of mechanism we
can read the sign of their creativity (...). Taylor, on the other hand, pointed
out that the main idea of Jivaro sociological thinking - more of a fluid
society - consists precisely in "situating at a great distance an other who is
neither completely exotic nor completely the same, but is both at the same
time (...)" (LIMA, 2005, p. 53-4, our translation).
Amerindian societies thus present a sociological model that contrasts with the one that
D&G characterized by bringing together the attributes of discreteness, extension and
totalization. These societies, like that of the Yudjá, do not think about the emergence of a
system of extensive and complementary collective identities, but "the passage from an
inertial, undifferentiated continuum to an active, differentiating continuum, creating intensive,
qualitative differential positions (...)" (LIMA, 2005, p. 54, our translation).
In all this differentiating regime to which the Amerindian social form is subjected,
many authors have observed a political intention, with Pierre Clastres perhaps being the most
famous among them. However, for Lima, the question raised by this author about the political
7
As opposed to regal thinking (royale).
On a certain notion of point of view: The incidence of Deleuze & Guattari’s thought on Amerindian ethnology
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philosophy and social constitution of indigenous peoples involved a broader issue that was
better formulated by Félix Guattari, a friend of his, as we know. This is the distinction
proposed by this author between subjected groups and subject-groups, not as types of groups,
but as poles or states of any group (LIMA, 2005, p. 114). If for any group subjection is an
ever-present risk, the group-subject activates "transversality coefficients" to assume the
meaning of its praxis and hold real power, in other words, neither egalitarian horizontality nor
a verticalizing hierarchy, but a group that, deliberately or not, puts itself in the position of
"assuming itself as the agent of its own death" (GUATTARI, 1987 apud LIMA, 2005, p. 114,
our translation). The problem is important because it allows us to escape the double Clastrean
option "for a theory of society and a type of society" (LIMA, 2005, p. 115, authors
highlights), in other words, Guattari allows us to understand why notions of equality and
hierarchy (most often put at the service of theories of society), for example, do not
satisfactorily capture the processes underway in Amazonian societies ("in all of them, as
Overing pointed out, one can see the presence of hierarchy, and all seem to be egalitarian",
notes LIMA, 2005, p. 115, our translation) and also in Amerindian societies in general.
In the Yudjá material, two of these processes appear strategically in the author's
argument: one is the asymmetrical social formation indicated by the notion of function-I and
the other is a sociocosmological system marked by the Yudjá notion of point of view (called
function-Other, LIMA, 2005, p. 212). The first develops from the reflection on social groups
in the Amazon, then thought of as groups of bodily or corporeal descent (the main reference
here is ANTHONY SEEGER, 1980 apud LIMA, 2005, p. 81), that is, groups composed of
bodily identity given by the sharing of the same substances by people who are related. Not
suitable for analysis by examining bilateral kinship or by inventorying kinship relations, the
formation of Yudjá groups takes place through an asymmetrical relationship between a
prominent figure (the "chief") and the other members, in other words, a group is always
someone's "personal" (away). The function of "boss" then corresponds to the function of
subject, or rather to the momentary and contextual focus of this function-I that results from
the relationship between non-equivalent (i.e. asymmetrical) terms: a man and his wife and
children, an uncle and a nephew, a boss and his group, etc. Thus, internally, the Yudjá social
form has an asymmetrical constitution, with the function-I always being appropriated by one
person "making it the collective and making the collective that person" (LIMA, 2005, p. 94,
our translation).
What the author calls the function-I is very directly related to the idea of "owner" (iwa,
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in Yudjá), which is very common among Amerindian peoples in general. She explains: "One
is iwa of a thing because one owns it (...) or because one shows a predilection for it (...). You
are iwa of what you make exist. As well as that which protects or guarantees existence"
(LIMA, 2005, p. 95). The idea is "good for thinking about" both the type of agency that
makes the most mundane and everyday events possible and also the creation of the universe,
of existence: for example, if Sena'ã is iwa of this world because he created it, the Yudjá person
who attracts others by offering cauim (and the feast that accompanies its consumption) is also
iwa of the cauim.
The notion of iwa is equivalent to the notion of "subject position", since the iwa is
always the subject in relation to the things and people he owns. This position circulates
between people (for example, anyone can become the "owner of the cauim" on a given
occasion), but it also crystallizes in certain elements (usually the oldest member of a cognatic
group, who articulates the function-I with their seniority). Halfway between the circulating
function and its crystallization, there is also the "village owner" (or chief, in the indigenous
gloss [LIMA, 2005, p. 96]). With all this, we arrive at a general outline of the configuration of
the Yudjá socius, made up of groups that are internally organized through an asymmetrical
relationship (i.e. the "chief" and the others) and externally through a symmetrical relationship
between two "chiefs". This configuration is also open to events, so it can present alternating
states of asymmetry (such as when one chief works for another).
What the author calls the function-Other is apparently the transposition of this political
constitution of the Yudjá social form into the cosmos, and to discuss it, she evokes her 1996
article on perspectivism, listing some fundamental ideas (LIMA, 2005, p. 213), namely:
perspectivism is not the same thing as relativism; animism (or rather, the opposition between
appearance and essence) is insufficient to characterize this indigenous notion
8
; the shaman
does not have a privileged point of view on native life and cosmology and, finally, for this
indigenous notion, a point of view of the whole is inconceivable. In other words, it is an
indigenous notion of point of view which, by making the absolute spectator flee, is against the
State (to quote Clastres) and more specifically against the State form of thought (to quote
D&G).
We are thus faced with a sociocosmological system that operates a continuum between
states of subjectivity and properties of the cosmos (LIMA, 2005, p. 214), so that "it is proper
8
There are two main ways of treating perspectivism: as a corollary of animism (SÁEZ, 2012) or as a particular
case of animism (DESCOLA, 2015).
On a certain notion of point of view: The incidence of Deleuze & Guattari’s thought on Amerindian ethnology
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to the human person to be endowed with a perspective that contains others" (LIMA, 2005, p.
216). The double movement of the gaze, which transforms a person into an animal or spirit
(via drunkenness, for example) or an animal (or spirit) appearing to someone as a person,
raises the question: is the cosmos a fractal person (WAGNER, 1991 apud LIMA 2005, p.
217)? Or to put it in the Yudjá way, is the sky, this maloca where we are all sheltered, the skin
of the world?
In a 1999 article, which is perhaps one of the most didactic texts on perspectivism ever
written, Lima effectively draws on D&G to characterize the indigenous cosmological regime
based on different types of difference between certain animals, spirits and humans (LIMA,
1999, p. 48). According to our dual author, there are two ways of treating a variable, "making
it operate as a constant or placing it in a state of continuous variation" (LIMA, 1999): the
second way is especially appropriate for dealing with the subject focused on in the article at
hand (i.e. the relationship between culture and nature), since we are dealing with a cosmology
in which "the significant difference between humans and pigs, (...), is not the same as that
which exists with the caititu, the jaguar or the guariba" (LIMA, 1999). Understanding such a
cosmology would thus be made impossible by an analysis based on concentric, hierarchical
and timeless schemes (the watertight separation between nature and culture, for example)
whose corollary is precisely the treatment of the distance between humans and animals as a
constant.
Amerindian perspectivism makes the identity between humanity and animality a
condition for thinking about the difference between the two, so that while we create
classification systems that try to deal with the whole at once by distinguishing between man,
nature and supernature, the Juruna proceed in parts, making an inventory of each case in order
to then distinguish what is human, divine or animal within the class of humans, animals and
spirits. Thus, we have three oppositions - human/non-human; animal/non-animal; spirit/non-
spirit - which are applied to each entity or type of being (LIMA, 1999, p. 47). Here the
asymmetry appears in the capacity that each entity or type of being has to impose its point of
view, that is, to impose itself as the subject of the relationship (which is then a reversible
relationship, since the position of subject is something that circulates), which implies that in
perspectivism the hierarchy is codified a posteriori.
It is a theory of the relationship between points of view that are both analogous and
contextually determined as asymmetrical. If the point of view of the definition of the
categories of alterity belongs to the terms themselves, then we have the absence of a point of
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view of the whole, or rather, we have a Deleuzeguattarian idea of the whole, which is
precisely opposed to the idea of a transcendent totality: "a part alongside the parts, (...) applies
to them, establishing only aberrant communications between non-communicating vessels,
transversal unities between elements that keep all their difference in their own dimensions"
(D&G 1976 apud LIMA, 1999, p. 50).
The theoretical-conceptual undertaking of perspectivism fulfills a double role in its
relationship with structuralism, namely that of being one of its main heirs, but also that of
sliding the main gears set in motion by Lévi-Strauss. This seems to be one of the desired
effects of using D&G's ideas in ethnographic analyses such as those we have seen so far. In
2011, in a more general text (Lima refers there to Amerindians, and no longer to the Yudjá or
Juruna specifically), the author associates structuralism with a certain State-form of thought
whose relations with indigenous thought end up disarming its concepts of power ("relations
that we no longer wish to have", emphasizes LIMA, 2011, p. 627, our translation). From the
late structuralism (or even post-structuralism, as Viveiros de Castro puts it, see above) of
Lévi-Strauss himself to a political anthropology committed to the principle of identity in the
brief and intense work of Clastres and from there to a "cartography of power and difference in
Amerindian cosmologies" informed by the philosophy of difference and a certain indigenous
notion of point of view. Here are some of the key points of the author's work.
Recently, after new fieldwork among the Yudjá, Lima (2018) presents us with a new
indigenous device that will change the problem of perspectivism for her, moving from a
relational cosmology (or an ontology) to a speculative pragmatics (LIMA, 2018, p. 119). The
device is the entry of ayahuasca into the lives of the Yudjá, which took place around 2012
through the União do Vegetal (UDV) in Cuiabá, but whose use by the indigenous people in
their territory was not guided by the rituals of this religious organization, acquiring, as was to
be expected, new meanings and especially new results. In fact, the author's fieldwork in 2016
contrasts with that carried out in the 1980s, when there were no shamans among the Yudjá and
their shamanism was somewhat dormant. Now, with ayahuasca, ritual and oneiric
experimentation intensifies and shamanism flourishes. With it the mythical tales and other
narratives about ayahuasca:
The sequence of actions and interactions involving a team of doctors from
the UDV in the arrival of ayahuasca among the Yudjá in Tubatuba and the
ritual and oneiric experimentation that this triggered, that is, the machinic
face of the agency, if it has its formalization independent of the expressive
face, both are inseparable, in the sense that the enunciations, motivated by
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the old speeches, anticipate, prepare or promote the rearrangement of the
agency, giving rise to the operation of retaking the past, the reoccupation of
the spiritual worlds and the processes of resingularization of pajelança
among the Yudjá (LIMA, 2018, p. 128, our translation).
The fundamental issue here is to account for this process of creation without
subordinating it to constituted cultural forms, that is, taking into account the affections that
make the adoption of ayahuasca an open and vital problem (LIMA, 2018, p. 135). In order to
convey something of this "procedural re-appropriation of the production of the world", Lima
combines the experience of the Yudjá with their discourse on this same experience, and brings
both closer to the Spinozist doctrine (which makes joy a political affect) and certain
developments of it (D&G, Guattari and Debaise & Stengers, mainly).
Developments in perspectivism
Contemporary to the work of Viveiros de Castro and Tania Stolze Lima are the
ethnographies of Aparecida Vilaça (1992), Carlos Fausto (2014[2001]), Marco Antonio
Gonçalves (2001), among others, in which, although the reciprocity of perspectives appears,
in one way or another, as a key point in the argument, there is no concern to associate it with
the philosophical concepts of D&G. Later, Viveiros de Castro and Lima (plus Márcio
Goldman, but this was outside the field of Amerindian ethnology) delved deeper into D&G's
work in their papers, at the same time that perspectivism was gaining theoretical weight
worldwide, which led a new wave of researchers to start looking for Deleuzeguattarian tools
as well. We will use, out of personal preference, the works of David Rodgers (2002) and
Valéria Macedo (2013) to deal with this new wave of researchers, recognizing that other
names could also appear here, such as Renato Sztutman, Pedro Cesarino, Marina Vanzolini,
among others.
In Rodgers' text, D&G and the philosophy of difference are openly cited and used as a
preferred tool for thinking about perspectivism itself, mainly through the notions of "affects
and becomings" (2002, p. 102, our translation). The argument develops around shamanism
and menstruation among the Ikpeng (a people of the Upper Xingu) and draws a socius in
which a certain behavioral mode constitutes a fluid and heterogeneous social block, capable
of capturing new elements by fabricating itself as a singular figure: a population anomaly,
without political power and with cosmological potency (RODGERS, 2002, p. 116). This
behavioral mode is based on the different functions of men and women as something that
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holds cosmopolitical power, that is, a male function of architectural containment and a female
function as content or population matrix engender a vision of the Ikpeng as multiplicity
9
, or a
people that contains other peoples.
In this way, the potential anomaly of men ejects them from the female socius,
transforming them into allies or visitors to their own people. Driven by the desire of the
women, who appropriate the products obtained by them abroad through hunting, war and
capture, the men engage in "return visits". Everything happens as if, for the Ikpeng, the male
species in general were something like a tree shelter for a female population or flock, in the
same way that the breakdown of the shaman's body (after his death) is a kind of "cosmic
menstruation" (RODGERS, 2002, p. 113, our translation) that releases contained shamanic
agencies, which then spread through the forest. These agencies will be summoned by the
living shamans, and will be put at the service of healing, health and life.
According to Rodgers, Ikpeng rituals show ways in which they instill themselves as a
people through an impure mixture of dissolved elements (RODGERS, 2002, p. 94). In the
same way that the ikpeng masks and dancers cause a "human-animal confusion", the "ant"
and "wasp" phases indicate modes of the people (and there are several exclusive modes, i.e.
not totalized):
The people compare the ant-phase (arayo) of gathering and nesting on the
ground to their own production of swiddens and malocas; while the wasp-
phase (turum), associated with warrior nomadism and collective hunting,
alternates between the predatory swarm and the arboreal nest, which
corresponds to an ikpeng alternation between the attacks themselves and the
base in the camps, whether it's war or hunting (war has been discontinued for
some time, but the threat of its re-emergence remains latent). It is therefore
less a self-designation than a self-apellation - an ethological description of
what the population circumscribed only precariously as a "we-exclusive"
(tˇsimna) would be capable of (RODGERS, 2002, p. 94, our translation).
The fact that life has to be extracted from the forest (in other words, from outside the
socius) is thought of by the Ikpeng as a violence that causes the wrath of the demon spirits,
but men are enchanted by the danger. Faced with their precarious and transitory condition,
9
As Viveiros de Castro (2007, p.97) notes, multiplicity is, in D&G's work, a "meta-concept that defines a certain
type of entity" whose concrete image is the famous "rhizome" from the introduction to A Thousand Plateaus.
The rhizome is an acentric reticular system formed by "becomings" or intensive relations between heterogeneous
singularities (VIVEIROS DE CASTRO, 2007, p. 98, our translation). The idea of multiplicity is the result of a
decision by the authors to "dethrone the classical metaphysical notions of essence and type", and in this sense,
the corollary of this reasoning, on the following page, is very significant: "In short, there are no points of view
on things; it is things and beings that are the points of view. If there is no entity without identity, there is no
multiplicity without perspectivism" (author’s emphasis, our translation).
On a certain notion of point of view: The incidence of Deleuze & Guattari’s thought on Amerindian ethnology
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their culture presupposes the "vital effect of the toxic" (RODGERS, 2002, p. 97, our
translation). The act of surviving adverse conditions or resurrecting from multiple deaths
(imere) decisively affects the world of the Ikpeng, but particularly menstruating women and
shamans. Rodgers draws a parallel here between the "diluted girl" and the "submerged boy",
in other words, the figures of the pubescent girl and the boy who begins shamanism.
On the one hand, it is necessary to "undo" the dangerous outflow of blood that results
from the reversed process of "making children", so that the menstruating woman's body needs
to be neutralized or emptied while remaining enveloped by relatives and a domestic
architecture that will manufacture a new body for her as a hollow space, that is, defined by its
"sheltering exterior" (RODGERS, 2002, p. 108, our translation). On the other hand, the
neophyte is emptied and their contact with the outside world is reduced to a minimum (the
author speaks here of "somatic closure"), in a process that results in the shaman's body as a
receptacle for filth and stench, a conduit for inhuman affection - a spoiled person or an ex-
person - whose fate after death is not to be cannibalized by the dead who inhabit heaven
10
(RODGERS, 2002, p. 112). Surviving potentially harmful encounters is here a condition of
life, and becoming intoxicated thus constitutes a type of bodily absorption that alters the
"I/we" by expanding its capacity to be affected (RODGERS, 2002, p. 98).
At this point in the text, the author considers the perspectivism of Viveiros de Castro
and Tania Stolze Lima as a necessary abstraction to understand the process of resizing the
molecular plane to the cosmic plane that the Ikpeng operate when they say that "the spit of the
shamans is a vast and impenetrable lake for spirits", or that "a torch lit in their hands is a
devastating forest fire" or that "the wooden ear is the kiss of the dead" (RODGERS, 2002, p.
100, our translation). For Rodgers, in general, the Amerindians describe a diversity of sources
of evaluation within the same world, constituting a very subtle perception of it, based on the
transit, movements and affections between different species based on a so-called "logic of the
sensible" (RODGERS, 2002, p. 100, our translation).
Given the anthropological moral imperative to recognize the human, perspectivism
would be the logical way for social science to understand the Amerindian worlds in a non-
symbolic and also non-real way (RODGERS, 2002, p. 101). Thus, the shaman's becoming a
jaguar forces us to shift our notion of what a "real jaguar" is, since when the Amerindians talk
about it, they do not mean that the shaman has metaphorically become a jaguar, nor are they
10
The same image presented by the Araweté material to describe the killer's fate, as we saw earlier.
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delirious or fantasizing. What is happening is what the author calls an "ontological tension",
in which becoming (in ikpeng, "disappearing" - aluku) is not equivalent to transformation,
since there is not (yet) any passage to a new defined morphology (RODGERS, 2002, p. 103).
Affections and becomings would thus be vectors that always open up to a potential coming
from the new, from outside, triggering mixed particles, but always coupled to a type or mode:
bee affection, peccary becoming, enemy affection, etc.
In a world similar in many ways to the one described for (and by) the Ikpeng live the
Mbya Guarani of the south and southeast of the country studied by Valéria Macedo (2013),
where a multiplicity of powers can also be found that can sometimes cause illness and
sometimes heal people. Once again, the conceptual apparatus of D&G is explicitly called
upon, especially in its interface with the work of Spinoza (MACEDO, 2013, p. 185), in which
evil is always a bad encounter that breaks down part of the relationships that make up a body.
In other words, a body that acts on another can destroy part of the relationships that make it
up or it can also enhance these relationships by composing with them (MACEDO, 2013, p.
185). This results in two main types of affect, sadness and joy, respectively. For the Mbya, joy
is directly associated with the closeness of the body to the "soul" (nhe'ë), and sadness, on the
other hand, with the withering away of the body as a result of the distance from the "soul".
When the nhe'ë moves away, the subject's body becomes susceptible to all kinds of agencies,
i.e. other "souls" that can join the person
11
, causing in the most extreme situation -jepota, i.e.
transformation into an animal.
The good encounters between the bodies of the Mbya people and the nhe'ë happen in a
privileged way in the prayer houses (opy'i), where through dances, prayers and the use of the
pipe the Mbya strengthen, encourage and produce light bodies for themselves (MACEDO,
2013, p. 190):
The stronger the connection between the subject and their nhe'e, the greater
their ability to move through the world and with others. In fact, the stronger
the connection, the more the nhe'e can move away from the body, in dreams,
chants and visions, expanding the subject's shamanic capacity. Making or
strengthening the body, however, must be a repeated quest because there is
always the danger of the body being undone. Hence the ever-present danger
of illness and incantations such as the jepota (MACEDO, 2013, p. 191, our
translation).
At the same time, a whole series of subjectivities (and bodies) compete with Mbya
11
For similar, but not Deleuzian, descriptions of agencies that come to "walk together" with the mbya person,
see Pissolato (2007) and Pereira (2019).
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people, such as spirits of the dead, beings of the night, owners of animals and places, among
others (MACEDO, 2013, p.192). Just as the Mbya can abuse objects, places and animals,
offending their owners, they can hit their bodies with stones or other small objects, causing
illness, or even becoming sexual partners of the Mbya people, as in the case of the -jepota. In
fact, here we talk about “becoming an animal”, but in the sense of having the body affected or
occupied by an animal affection, and the author quotes D&G: “becoming can and should be
qualified as becoming-animal without having a term which would be the animal it became”
(D&G, 1997, p. 18 apud MACEDO, 2013, p. 195, our translation), or as one mbya says to the
author, “because of the spirits of the forest, attracted by the smell of the meat, spirits Animals
penetrate a young person's body and he begins to eat differently. (...). He eats like an animal,
eats raw meat, does not want rice and beans anymore” (MACEDO, 2013, p. 195, our
translation). The challenge of living on this earth would then be to appropriate resources and
incorporate capabilities from a multiplicity of others, in relationships that can either make
bodies (strengthen, brighten etc.) or unmake them (or make another body, metamorphose -lo,
etc.), being crucial for humans to be able to reiterate their perspective as a subject, -
nhemboete (MACEDO, 2013, p. 203).
The reading of the Ikpeng and Mbya Guarani material by Rodgers and Macedo,
respectively, can be situated in a Deleuzeguattarian universe, however, to a large extent this is
due to the perspectivist approach that these authors adopted. Even in the face of distinct
ethnological landscapes such as Upper Xingu and São Paulo, we see the mobilization of
categories such as “affection”, “illness” and “becoming” as privileged ways of talking about
the opening of the socius (or the person) to the outside , capable of operating transformations
or passages “from one series to another”, as Viveiros de Castro writes (see above). “Pregnant”
shamans with their shamanic agencies, a people that contains a multiplicity of peoples within
themselves, a universe of bodies (humans, animals, owners etc.) that compose and decompose
the relationships they maintain among themselves, sexual encounters with animals resulting in
animal people, all of this makes the use of the philosophical framework created by D&G more
than justifiable.
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Final considerations
In general, we conclude, after the brief journey so far, that D&G's work has been good
for thinking about Amerindian cosmologies due to its internal effort in developing a line of
thought guided by the concept of difference. Our exercise of locating the use of
Deleuzeguattarian tools throughout the development of ethnology, and more specifically of
perspectivism, suggests that if, on the one hand, concepts such as becoming seem to be quite
adequate to describe certain Amerindian realities, on the other hand, their use by authors of
weight in the field (Viveiros de Castro and Tania Stolze Lima, mainly) contributed greatly to
its direct or indirect proliferation. Finally, we consider that through notions such as Other,
becoming, illness, affection among others we can get closer to the meaning given to the
Amerindians for terms such as -jepota, aluku, iwa etc. as well as advancing in our
understanding of their sociability, creating ideas such as that Araweté society would be a
between and not a being or even that Tupinambá morphology occurred in temporality and not
in spatiality.
Throughout this text we observe some particular moments in the use of
Deleuzeguattarian concepts by ethnology, starting with total marginality in the 1980s, when
Viveiros de Castro brings the notion of becoming into his ethnography of the Araweté. But
even with this, the philosophy of difference did not become widespread among ethnologists
and Amazonians. Viveiros de Castro's first generation of students, among them Tania Stolze
Lima, Aparecida Vilaça, Carlos Fausto and Marco Antonio Gonçalves, either contributed to
the theory of perspectivism with ethnographic data, or did not work with the Amerindian
notion of perspective (in part because this was still being formulated at the time of his
research). With a Deleuzeguattarian formulation of Amerindian perspectivism, advanced by
Viveiros de Castro and Tania Stolze Lima, a new wave of researchers began to “deleuzianize”
ethnology, among them Pedro Cesarino, Renato Sztutman, Marina Vanzolini, the
aforementioned David Rodgers and Valéria Macedo, among others. At this time, some
ethnologists became interested in the conceptual tools of D&G again, recovering notions such
as “becoming” or “affection” to provide more detailed or, let's say, faithful descriptions of
indigenous worlds.
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CRediT Author Statement
Acknowledgements: Do not apply.
Funding: Do not apply.
Conflict of interest: There are no conflicts of interest.
Ethical approval: Do not apply.
Availability of data and material: Do not apply.
Authors’ contribution: Single author.
Processing and editing: Editora Ibero-Americana de Educação.
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