Mediando Ausência e Efetuando Espiritualidade: Presença, Imagens e a Imaginação Cristã
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, v. 24, n. esp. 1, e024013, 2024. e-ISSN: 2359-2419
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v24iesp.1.19290 8
A minha abordagem às imagens cristãs baseia-se numa compreensão da religião como
mediação que requer necessariamente meios de comunicação (De Vries, 2001; Meyer, 2008,
2010a). Em vez de tomar o divino como auto-revelador – como afirmado, especialmente, nas
ideias protestantes sobre Deus como o totalmente Outro – meu foco como estudioso é como a
mediação religiosa é capaz de transmitir aos praticantes religiosos, de maneira persuasiva, uma
sensação de ser, em contato com o divino ou transcendental. Os meios de comunicação social,
aqui, são entendidos num sentido amplo que ultrapassa uma definição restrita em termos de
meios de comunicação de massa. Autorizados como transportadores adequados do divino
dentro de um regime religioso (como por exemplo a Igreja Cristã medieval), os meios de
comunicação social fazem a imaginação religiosa materializar-se no mundo através de coisas,
corpos, textos, sons e imagens. Imaginando um “além” que exige um modo especial de acesso,
a própria religião pode muito bem ser caracterizada como um “meio de ausência” que torna
presente o que não está “lá” (Weibel, 2011: 33). Agindo como “mediadores que moldam o
conteúdo que transmitem”, em vez de meramente agirem como ferramentas de transmissão ou
“intermediários”, os meios de comunicação são as formas através das quais a religião é
importante e acontece (Latour, 2005, p. 39-40). Utilizo a forma não em oposição ao conteúdo,
mas como condição necessária para expressá-lo, bem como a modalidade de repetição. Na
verdade, a religião é definida por estruturas de repetição que requerem formas particulares
(Meyer, 2010b; Groys, 2011, p. 25). Para sublinhar os canais multissensoriais através dos quais
estas formas abordam e moldam assuntos religiosos, cunhei o termo “formas sensacionais” e
"presente" de uma forma comum podem ser experimentados - repetidamente - como disponíveis
e acessíveis. Evoluindo em torno de formas sensacionais, as religiões implicam as suas próprias
modalidades de faz-de-conta que produzem crença.
As imagens operam dentro de formas sensacionais que medeiam a imaginação cristã e
moldam a crença de maneiras particulares (como também sugerido pela citação de Belting
usada como lema deste ensaio, 2006, p. 176, tradução do autor). Em vez de terem poder e
agência intrínsecos, as pessoas aprendem a abordar, valorizar, tratar e olhar para as imagens de
formas específicas, resultando num processo de animação através do qual as imagens podem
(ou não) impressionar os seus espectadores. As religiões, no meu entender, implicam regimes
bastante explícitos, e, portanto, observáveis, que estipulam a natureza e o status das imagens,
estabelecem modos de controle e uso adequado das imagens, determinam o que esperar delas e
organizam práticas de abordagem delas, incluindo a devoção - atos nacionais de olhar (Morgan,
1998). Aqui é importante levar em conta o cenário socioespacial em que as imagens são