Rev. Cadernos de Campo, Araraquara v. 24, n. esp. 2, e024014, 2024. e-ISSN: 2359-2419.
DOI: https://doi.org/10.47284/cdc.v24iesp.2.19567 1
BIOÉTICA INTERSECCIONAL NA AMÉRICA LATINA: AGÊNCIA POLÍTICA,
AUTONOMIA RELACIONAL E CUIDADO COM A VIDA
BIOÉTICA INTERSECCIONAL EN AMÉRICA LATINA: AGENCIAMIENTO
POLÍTICO, AUTONOMÍA RELACIONAL Y CUIDADOS PARA LA VIDA
INTERSECTIONAL BIOETHICS IN LATIN AMERICA: POLITICAL AGENCY,
RELATIONAL AUTONOMY AND CARE FOR LIFE
María Graciela de ORTÚZAR1
e-mail: mariagracieladeortuzar@gmail.com
Cintia RODRÍGUEZ GARAT2
e-mail: cintiadanielarodriguez@gmail.com
Como referenciar este artigo:
ORTÚZAR, M. G. de; RODRÍGUEZ GARAT, C. Bioética
interseccional na América Latina: agência política,
autonomia relacional e cuidado com a vida. Rev. Cadernos
de Campo, Araraquara v. 24, n. esp. 2, e024014, 2024. e-
ISSN: 2359-2419. DOI:
https://doi.org/10.47284/cdc.v24iesp.2.19567
| Submetido em: 01/07/2024
| Revisões requeridas em: 18/07/2024
| Aprovado em: 26/07/2024
| Publicado em: 27/11/2024
Editores:
Profa. Dra. Maria Teresa Miceli Kerbauy
Profa. Me. Thaís Cristina Caetano de Souza
Prof. Me. Paulo Carvalho Moura
Prof. Thiago Pacheco Gebara
1
Faculdade de Ciências Humanas e da Educação (FAHCE), Universidade Nacional de La Plata (UNLP) e
Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Tecnológicas (CONICET)-Centro de Pesquisa e Estudos Filosóficos
(CIEFI) La Plata, Província de Buenos Aires (Província de Buenos Aires) Argentina. Doutora em Filosofia,
Professora Adjunta de Seminários de Ética Aplicada (Graduação e s-Graduação), Departamento de Filosofia,
Faculdade de Ciências Humanas e da Educação (FAHCE), UNLP; e Pesquisador Independente do CONICET-
CIEFI.
2
Faculdade de Ciências Humanas e da Educação (FAHCE) e Universidade Nacional de La Plata (UNLP) La
Plata, Província de Buenos Aires, Argentina. Doutoranda em Filosofia, Faculdade de Ciências Humanas e da
Educação. Mestre em Filosofia, Universidade de Quilmes. Mestre em Bioética, Faculdade Latino-Americana de
Ciências Sociais (FLACSO), Campus Argentina. Professor e Pesquisador.
Bioética interseccional na América Latina: agência política, autonomia relacional e cuidado com a vida
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara v. 24, n. esp. 2, e024014, 2024. e-ISSN: 2359-2419.
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RESUMO: O objetivo deste trabalho é desafiar as correntes tradicionais da bioética, que
fundamentam ideais abstratos de imparcialidade, cidadania universal e autonomia absoluta;
confrontá-los a partir do conhecimento situado e do reconhecimento da matriz de dominação
interseccional vigente na América Latina. Procura investigar como transformar múltiplas
desigualdades, repolitizando a justiça interseccional, a agência política em momentos críticos
de progresso e colonização dos nossos bens comuns. Nossa proposta final é uma bioética crítica
interseccional, representativa e participativa, que inclua de forma não subordinada as vozes e
os conhecimentos dos outros, focada em nossas necessidades regionais, promovendo nossa
autonomia relacional e o cuidado com a vida, em e para nossos territórios, comunidades e as
gerações futuras.
PALAVRAS-CHAVE: Justiça interseccional. Bioética plural. Autonomia relacional. Cuidado
com a vida. Eco-sico-social determinantes da saúde.
RESUMEN: El objetivo del trabajo es interpelar las corrientes tradicionales de la bioética,
en las cuáles subyacen ideales abstractos de imparcialidad, ciudadanía universal y autonomía
absoluta; confrontando las mismas desde el conocimiento situado y el reconocimiento de la
matriz de dominación interseccional vigente en América Latina. Se busca indagar cómo
transformar las desigualdades múltiples, repolitizando la justicia interseccional, el
agenciamiento político en momentos críticos de avances y colonización de nuestros bienes
comunes. Nuestra propuesta final es una bioética crítica interseccional, representativa y
participativa, que incluya de manera no subordinada las voces y saberes otros, enfocada en
nuestras necesidades regionales, promoviendo nuestra autonomía relacional y el cuidado para
la vida, en y para nuestros territorios, comunidades, y generaciones futuras.
PALAVRAS CLAVES: Justicia interseccional. Bioética plural. Autonomía relacional.
Cuidados para la vida. Eco-sico-determinantes de la salud.
ABSTRACT: This work aims to challenge the traditional currents of bioethics, which underlie
abstract ideals of impartiality, universal citizenship and absolute autonomy; confronting them
from situated knowledge and recognition of the matrix of intersectional domination in force in
Latin America. It seeks to investigate how to transform multiple inequalities, repoliticizing
intersectional justice, political agency in critical moments of progress and colonization of our
common goods. Our final proposal is an intersectional, representative and participatory
critical bioethics, which includes in a non-subordinate way the voices and knowledge of others,
focused on our regional needs, promoting our relational autonomy and care for life, in and for
our territories, communities, and future generations.
KEY WORDS: Intersectional justice. Plural bioethics. Relational autonomy. Care of life. Eco-
sico social determinants of health.
María Graciela ORTÚZAR y Cintia RODRÍGUEZ GARAT
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara v. 24, n. esp. 2, e024014, 2024. e-ISSN: 2359-2419.
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Bioética Interseccional na América Latina: Agência Política, Autonomia Relacional e
Cuidado com a Vida
A bioética, como reflexão teórico-prática e situada dos complexos problemas que
afligem nossa saúde coletiva latino-americana; enfrenta o desafio atual de repensar seu
macromarco de justiça social interseccional e ampliar sua representação, incentivando debates
democráticos participativos e plurais na arena ética, política, científica, econômica e cultural; a
fim de promover cuidados circulares, ecopsicológicos, sociais, em e para nossa sociedade.
A bioética, como reflexão teórico-prática e situada dos complexos problemas que
afligem nossa saúde coletiva latino-americana; enfrenta o desafio atual de repensar seu
macromarco de justiça social interseccional e ampliar sua representação, incentivando debates
democráticos participativos e plurais na arena ética, política, científica, econômica e cultural; a
fim de promover cuidados circulares, ecopsicológicos, sociais, em e para nossa sociedade (de
Ortúzar, 2024).
Em relação a esse tema, é necessário investigar como as relações de poder e a matriz de
dominação interseccional, que condicionam a vida na América Latina, produzem múltiplas
desigualdades e determinantes ecopsicossociais de nossa saúde. Da mesma forma, também é
fundamental repensar como essa subordinação se reproduz no campo da bioética no nível
epistêmico. Neste ponto, nosso compromisso está na construção de enclaves críticos (bioéticos,
científicos, coletivos) ligados aos grupos afetados em nível local; e fortalecer as redes entre
grupos excluídos internacionalmente, a fim de atuar sobre as desigualdades interseccionais
acima mencionadas e responder à necessidade predominante de "cuidado com a vida" na
América Latina).
Nesse sentido, testemunhamos recentemente durante a pandemia como os processos
sociais que afetam nossas vidas ultrapassam as fronteiras territoriais, com um novo senso de
vulnerabilidade devido às ações das forças mencionadas (vírus; tecnologias; mudanças
climáticas, entre outras). Foi precisamente no auge do coronavírus que a bioética ganhou vida.
No entanto, suas ações se concentraram quase exclusivamente em questões distributivas, como:
(1) os Protocolos de Racionamento de Recursos (por exemplo, Protocolo do Último Leito) em
nível local; e (2) a distribuição de vacinas por meio da COVAX em nível internacional. No
entanto, em ambos os casos houve discriminação interseccional. Na abordagem local, foram
privilegiados os critérios de qualidade de vida (DALYs e QALYs), que implicam em
preconceitos identitários (menor qualidade de vida) para pessoas com deficiência (capacitismo)
Bioética interseccional na América Latina: agência política, autonomia relacional e cuidado com a vida
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(Leani, 2021); excluindo das emergências os problemas de saúde coletiva (acesso à água
potável, subsídio emergencial, alimentação, entre outros) de grupos com direitos historicamente
violados (comunidades indígenas, migrantes, grupos LGBT, entre outros). Em referência ao
segundo caso, houve um claro abuso de poder por parte das potências em relação aos nossos
países "subdesenvolvidos", evidenciando claramente interesses especulativos dos "países
desenvolvidos" ao monopolizar no mercado as vacinas destinadas aos nossos países (ou seja,
duplicar as necessárias para a sua população), o que não deixou "esgotado" para as
Organizações Internacionais, impedindo sua redistribuição para países menos favorecidos, mas
também contribuiu para o aumento dos preços no mercado, aprofundando as desigualdades que
afetaram diretamente grupos historicamente marginalizados. A fraqueza das referidas
Organizações Internacionais em intervir e favorecer, em meio a uma emergência, a distribuição
de benefícios e recursos essenciais para os países mais necessitados, foi desnudada. Mais uma
vez, triunfou a predominância dos interesses do mercado global. Diante dessa situação, é
necessário repensar formas alternativas de desenho institucional, ou seja, repensar a
representação de nossos países no espaço público internacional para que sua participação seja
efetiva (de Ortúzar, 2021).
No entanto, a atenção às desigualdades de nossos povos ultrapassa o problema social da
justiça distributiva de bens e/ou recursos, mostrando uma complexidade maior dadas as relações
estruturais de poder. Em outras palavras, os problemas de nossa bioética não se reduzem apenas
a problemas de racionamento de recursos em centros de saúde de alta tecnologia. Essas
prioridades refletem os valores da sociedade norte-americana e emanam da bioética principista
(Beauchamp; Childress, 1979). Essa corrente, amplamente difundida em todo o mundo e
convertida, em nível hospitalar, em um "mantra mágico" que consiste na recitação acrítica de
princípios abstratos que não têm solução em caso de conflitos entre eles (Gert, 1996). A referida
concepção centra-se nos direitos individuais e negligência a proteção ativa dos direitos coletivos
dos grupos "vulneráveis", ou seja, cidadanias diferenciadas e marginais. Também está
associado à tecnociência, ou seja, está ligado a questões altamente comerciais e não a
necessidades de saúde coletiva." Essa associação funcional é uma epistemologia em si,
resultado da construção de uma hegemonia sustentada por meio de processos diversos, injustos
e dolorosos de subalternização cujo apagamento nos fez olhar para nós mesmos no espelho
errado." (Carrizo, 2024).
Por outro lado, o caráter universal e androcêntrico da ciência e da própria bioética foi
denunciado pela bioética crítica, que contribuiu para o estudo do poder e a análise da opressão
María Graciela ORTÚZAR y Cintia RODRÍGUEZ GARAT
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devido às injustiças de gênero (Wolf, 1996). Emerge uma "bioética feminista da periferia", que
pretende levar em conta as circunstâncias, as assimetrias de poder e abusos e as necessidades
específicas das mulheres a partir de seu contexto histórico e cultural.
É nessa direção crítica que consideramos importante avançar, vinculando a justiça
interseccional e a ética do cuidado à vida. É oportuno lembrar, em relação aos estudos do
cuidado, a proposta pioneira de Carole Gilligan (1982) como alternativa às concepções de
justiça liberal e a uma ciência pensada como imparcial e neutra, mesmo quando representa os
interesses de um grupo privilegiado (homem branco heterossexual).
É justamente a ênfase nas diferenças, preconceitos e exclusões múltiplas geradas pela
concepção universal de cidadania que levou Iris Young (2000) a questionar a imparcialidade
da justiça social e a enfatizar a cidadania diferenciada. Nessa disputa, Fraser (2014) assume o
desafio e responde às críticas de Young, estendendo sua concepção bidimensional de justiça
social (distribuição e reconhecimento) à representação (distribuição, reconhecimento e
representação).
Esse foco no problema da paridade participativa na democracia, com suas condições
materiais e simbólicas, é um problema que ainda não foi resolvido, dadas nossas democracias
fracas e as profundas desigualdades que nos atravessam. Assim, no campo da bioética, emerge
uma série de correntes alternativas (latino-americanas; narrativas, coloniais, decoloniais,
interseccionais e pluralistas) que buscam a ampliação da representação em uma mesma
disciplina. Assim, a bioética feminista da periferia e a bioética decolonial e pós-colonial
(Spivak, 1994) questionaram conceitos supostamente universais que escondem a exclusão e o
silenciamento desses outros, de suas vozes.
A desconstrução da bioética nos permite mostrar como a colonização e a dominação
também fundamentam nossa disciplina, tornando visíveis as assimetrias de poder e abusos na
representação de mulheres de carne e osso de nossos territórios. A bioética do Sul levanta a
importância de incorporar a diversidade, a justiça epistêmica e a interseccionalidade crítica nos
discursos éticos (Diniz; Guilhem, 2008). Todas as opiniões são reconhecidas como
tendenciosas. Portanto, o enquadramento dos problemas não deve responder exclusivamente ao
ponto de vista de grupos sociais privilegiados, mas deve incluir os diferentes pontos de vista
das comunidades, envolvendo os outros marginalizados e ouvindo a diversidade de suas vozes
e conhecimentos. Essas visões, vividas por pessoas de diferentes grupos sociais, foram
historicamente silenciadas.
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Trata-se de exercitar a empatia pelo reconhecimento do outro concreto e garantir sua
participação nos processos de tomada de decisão, para que todos os pontos de vista sejam
ouvidos. Trata-se de autorizar outras vozes, e não as silenciar em nossos esquemas de produção
de conhecimento, investigando como outros mundos são limitados na prática pelo saber/poder
do grupo privilegiado. Uma diversidade e uma diferença que não é suficiente para assimilar e
reunir das margens um sistema centrado que reproduza os mesmos jogos de poder dentro das
instituições (educação, saúde, judiciário, outras). Trata-se de reconhecer as múltiplas
singularidades e mundos possíveis; e não os assimilar, negá-los em sua especificidade,
objetificá-los e subjugá-los (de Ortúzar, 2024). Comecemos assim a parar o medo, desaprender
e recuperar nosso corpo e nosso território
Propomos pensar o mesmo, repensando uma bioética que responda às nossas
necessidades regionais, atendendo à diversidade de saberes e aos problemas atuais de riscos à
vida humana em nossas comunidades e populações do sul (migrantes, comunidades indígenas,
diversidade funcional e sexual, grupos afro, entre outros). O dano sofrido por esses grupos é
um efeito local de interesses transnacionais, que atuam com a cumplicidade de grupos
privilegiados locais (e.g. apropriação de lítio e uso indevido da água; inundações e secas em
decorrência de danos ambientais, patentes e ausência de medicamentos essenciais, entre
outros).
Os grupos afetados são os grupos mais fracos de nossa região, ou seja, aqueles que
historicamente foram discriminados e cujos direitos foram frequentemente violados, mostrando
como o racismo está subjacente às relações de poder em nossas sociedades colonizadas. É
fundamental preocuparmo-nos e respondermos às atuais emergências coletivas (inundações,
secas, fome, danos ambientais e psicossociais, solastalgia, guerras, entre outros), abordando as
nossas desigualdades sociais e as múltiplas formas de violência através de processos complexos
de cuidado da vida, o que nos leva a questionar e repensar a bioética de e para a nossa região.
Nosso ponto de partida parte do reconhecimento de que os espaços de privilégio
ocupados por alguns sujeitos na estrutura social m como reverso a exclusão de outros e são
efeito de processos de hierarquização racial, sexual, de classe, de gênero, entre outras formas
de opressão (Combahee River, 1974; Davis, 2008; ganchos, 2020). Nessa aposta, quisemos
acrescentar as contribuições do feminismo crítico, mas também, e muito especialmente, as
contribuições do feminismo negro dos anos 70 e anos subsequentes, para suas reflexões sobre
a interseccionalidade a partir das margens; e as contribuições das pensadoras feministas latino-
americanas, focadas em denunciar o sistema colonizador, capitalista e globalizado, que penetra
María Graciela ORTÚZAR y Cintia RODRÍGUEZ GARAT
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em todos os aspectos da vida, materiais e intersubjetivos. Ou seja, tanto as mulheres brancas
ricas quanto as negras pobres são produzidas por relações de gênero, raça e classe; A dificuldade
em assumi-lo dessa maneira reside no fato de que os primeiros, desfrutando de privilégios de
classe e cor, não percebem ou experimentam as relações entrelaçadas de classe, raça e sexo que
os produzem, enquanto os segundos o fazem (Anzaldúa, 2021; Lugones, 2010; Vigoya, 2016;
Curiel, 2007).
Gênero e raça estão interligados de forma especial em nossa região colonizada
(Lugones, 2010), mostrando mais uma vez como o racismo prevalece em nossa região. Da
mesma forma, reconhecemos que a interseccionalidade não é apenas uma abordagem para
tornar visíveis essas relações estruturais de poder; pois é por meio da própria organização desses
coletivos à margem que conseguimos nos empoderar coletivamente e alcançar a agência
política, criando fortes laços sociais de cuidado complexo e projetando movimentos
emancipatórios.
Nessas coordenadas, convidamos o leitor a participar do debate sobre a pesquisa
interseccional aplicada à bioética, pesquisa enraizada nas lutas políticas realizadas a partir das
margens, refletindo sobre uma visão repolitizada dessa interseccionalidade, para gerar o duplo
movimento: questionar a opressão hegemônica excludente (gênero, raça e classe, diversidade,
fator geopolítico); e propor transformações e agenciamentos políticos da autonomia relacional,
do cuidado coletivo, para encarnar a justiça interseccional emancipatória e o cuidado da vida,
levando em conta o quadro relacional da comunidade.
No quadro geral proposto, o objetivo deste número especial é questionar as correntes
tradicionais da bioética baseada no conhecimento situado e no reconhecimento da matriz de
dominação interseccional vigente na América Latina; movendo-se em direção ao
entrelaçamento da autonomia relacional. Como eixos de reflexão, é um prazer compartilhar
com vocês a seguinte espinha dorsal do nosso Dossiê intitulado "Bioética Interseccional,
Autonomia Relacional e Saúde a partir das Margens", composto por contribuições de seis
proeminentes autores regionais de várias disciplinas, que nos ilustram sobre:
(I) Como pensar a interseccionalidade na bioética para enfrentar múltiplas
desigualdades, agência política e autonomia (Adriana María Arpini);
(II) Como visibilizar a parcialidade da abordagem da cidadania universal e ampliar
a representação em saúde a partir da paridade participativa da cidadania
diferenciada (Jessica Marcela Kaufman);
Bioética interseccional na América Latina: agência política, autonomia relacional e cuidado com a vida
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(III) como criar redes de apoio e espaços de autocuidado para mulheres em saúde
mental, fomentando uma cultura de solidariedade e a necessária resiliência
comunitária (Aridnaj de Oliveira Lima);
(IV) Como promover performances éticas na cura do HIV, entendendo que a TX de
células-tronco não é um fenômeno dado, mas um processo em constante
construção, que transcende a prática clínica e é permeado por disputas
narrativas, políticas, afetivas e práticas (Kris Herik de Oliveira);
(V) como tornar visível a discriminação interseccional sofrida por mulheres
migrantes regionais com deficiência pelos estereótipos de
"normalidade/anormalidade" da ideologia dominante e pelo entrelaçamento de
raça, gênero, classe e fator geopolítico apoiado por políticas e legislação racistas
(Marina Sorgi);
(VI) Como repensar as políticas sociais no campo da saúde intercultural na atenção à
saúde dos migrantes indígenas, tanto a partir dos saberes e práticas de
autocuidado, quanto dos esforços de valorização da medicina ancestral mapuche
(Brígida Baeza y Pastor Cea Merino).
Os leitores poderão continuar lendo abaixo sobre o resumo estendido de cada uma
dessas ricas obras Ver "Contribuições interseccionais para o dossiê”.
Para encerrar, proponho levantar colaborativamente a bandeira de uma bioética crítica
interseccional, representativa e participativa e plural; que inclui de forma não subordinada as
vozes e os saberes dos outros, aqueles que surgem das margens; comprometendo-nos com a
transformação de estruturas sociais injustas e opressivas; Defender uma ciência e saúde pública
mais inclusivas e focadas em nossas necessidades regionais, promovendo nossa autonomia
relacional e cuidado com a vida, em e para nossos territórios, comunidades e gerações futuras.
Organizadora,
María Graciela de Ortúzar
***
María Graciela ORTÚZAR y Cintia RODRÍGUEZ GARAT
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Contribuições interseccionais para o Dossiê
Este dossiê apresenta uma série de estudos e reflexões sobre a bioética a partir de uma
perspectiva interseccional. A importância dessas contribuições reside na abordagem das
complexas marcas opressivas, que historicamente se entrincheiraram colonial, patriarcal e
classisticamente nos corpos femininos e diversos das comunidades subalternas, como uma
expressão clara de traços corpóreo-políticos (Foucault, 2010; Mbembe, 2016; Mignolo, 2015;
Rodríguez Garat, 2023). Por isso, este dossiê oferece a oportunidade de tornar visível como os
mecanismos da colonização atual continuam a irrigar nossas geografias (Rodríguez Garat,
2022; 2023). Nessa linha, em primeiro lugar, destaco as contribuições do trabalho intitulado
"Bioética Interseccional: Perspectiva Latino-Americana, Decolonial e Feminista" de Adriana
María Arpini. O artigo oferece uma revisão crítica e propositiva da bioética, explorando como
o conceito de interseccionalidade pode ser uma ferramenta poderosa para abordar múltiplas
desigualdades e promover a inclusão participativa de grupos marginalizados. Arpini examina a
inter-relação entre colonialidade e gênero, destacando como essas categorias foram
historicamente fundidas e inseparáveis na experiência das mulheres negras. Essa abordagem
ressalta a necessidade de perceber gênero e raça como inextricavelmente interligados,
proporcionando uma perspectiva mais complexa e realista das opressões e resistências nos
contextos latino-americanos. Especificamente, propõe uma reconfiguração da justiça social que
é verdadeiramente interseccional. Isso implica considerar as necessidades, valorizações e
capacidades das subjetividades, afastando-se de uma lógica de identidade formal para uma mais
real e corporificada. Arpini critica a lógica categórica tradicional e sugere uma justiça social
mais inclusiva e equitativa, que leve em consideração as diversas experiências e realidades dos
indivíduos. Também enfatiza a importância da autonomia relacional e da redistribuição de bens.
Essa abordagem busca transformar as estruturas sociais, econômicas, políticas e culturais para
promover maior equidade e respeito às diversas identidades. Juntas, como apontei, essas
contribuições buscam reconfigurar a compreensão da bioética e da justiça social a partir de uma
perspectiva integral e interseccional no contexto das complexidades e diversidades das
experiências humanas, especialmente em contextos latino-americanos e decoloniais,
oferecendo uma visão transformadora que enriquecerá o debate acadêmico e prático no campo
da bioética.
Bioética interseccional na América Latina: agência política, autonomia relacional e cuidado com a vida
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Em segundo lugar, caminhando para a constituição de uma bioética comprometida com
as necessidades de nossos povos, Jessica Marcela Kaufman, em sua obra "O acesso diferenciado
à cidadania na bioética feminista: uma revisão das críticas em torno dos ideais de imparcialidade
e autonomia absoluta na bioética predominante", destaca a parcialidade da abordagem bioética
hegemônica centrada no ideal de uma cidadania universal abstrata que impõe o ponto de vista
da visão de setores privilegiados (homem branco), e ignora a diversidade dos marginalizados.
Dessa forma, Kaufman fornece uma abordagem bioética feminista decolonial para promover
uma política igualitária da diferença baseada na paridade participativa de agentes entendidos
como concretos e inter-relacionados.
Em seguida, o trabalho intitulado "Desigualdades de cuidados e suas consequências na
saúde mental", de Aridnaj de Oliveira Lima, oferece contribuições cruciais para a compreensão
e abordagem desses problemas a partir de uma perspectiva abrangente e crítica. Nesse sentido,
o estudo destaca a carga desproporcional que as mulheres assumem nas tarefas de cuidado,
destacando como essa responsabilidade excessiva afeta significativamente sua saúde mental.
Esse desequilíbrio é agravado em contextos de pobreza e vulnerabilidade, exacerbando
condições de estresse e ansiedade nas mulheres cuidadoras. Ao tornar visíveis essas
desigualdades, o trabalho fornece uma compreensão profunda de como a dinâmica do cuidado
não remunerado afeta negativamente o bem-estar psicológico das mulheres. Assim, uma das
principais contribuições do trabalho é a conexão direta que estabelece entre a desigualdade na
distribuição do cuidado e os problemas de saúde mental. Ao analisar o custo físico e emocional
que as mulheres sofrem devido a essas responsabilidades, o estudo oferece uma perspectiva
detalhada sobre os efeitos prejudiciais dessas dinâmicas em sua saúde mental. Além de
descrever o problema, Oliveira Lima sugere intervenções necessárias no nível das políticas
públicas e das estruturas sociais. Nesse sentido, ela propõe a necessidade de políticas que
reconheçam e redistribuam equitativamente as responsabilidades de cuidado, bem como
programas de apoio à saúde mental dos cuidadores. Essas recomendações buscam transformar
as estruturas que perpetuam a desigualdade e promover maior bem-estar para as mulheres. Além
do exposto, o trabalho também aplica uma perspectiva interseccional, considerando como
fatores como classe social, etnia e nível socioeconômico influenciam as experiências de cuidado
e saúde mental das mulheres. O estudo de Aridnaj enfatiza a importância da ação comunitária
e do apoio mútuo. Promove a criação de redes de apoio e espaços de autocuidado para mulheres,
fomentando uma cultura de solidariedade e resiliência comunitária. Essas iniciativas são
María Graciela ORTÚZAR y Cintia RODRÍGUEZ GARAT
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essenciais para a construção de um ambiente mais justo e equitativo, onde as responsabilidades
de cuidado sejam compartilhadas e devidamente reconhecidas.
Em quarto lugar, encontramos um trabalho original na área dos transplantes, intitulado
" “À boa ciência”: performações éticas em transplantes experimentais de células-tronco para a
cura do HIV" de Kris Herik de Oliveira, que do ponto de vista socioantropológico, examina
cinco casos de "cura" ou "remissão a longo prazo" do VIH, com transplantes experimentais de
células estaminais, sustentando que a ética da cura do HIV não é um fenômeno dado, mas um
processo em constante construção, que transcende a prática clínica e é permeado por disputas
narrativas, políticas, afetivas e práticas. Nesse sentido, o autor faz uma contribuição interessante
e original sobre as "formações éticas", mostrando como elas podem contribuir para a ciência e
a democracia.
Marina Sorgi, em quinto lugar, aborda em sua obra "Banir estereótipos em pessoas com
“deficiência” para sua inclusão social e cultural: a tripla discriminação de mulheres migrantes
com diferentes habilidades na Argentina" o conceito de discriminação interseccional aplicado
a mulheres migrantes com diversas habilidades na Argentina. Para isso, retoma os estereótipos
e significados imaginários sob a ideia de "normalidade/anormalidade", a partir dos estereótipos
fundantes da ideologia dominante de seu tempo e é construído por lutas de poder, dando origem
a um "nós" contrastando-o com um "outro". Essa discriminação é reproduzida diariamente em
nosso país no plano jurídico e cultural, com retrocessos nos últimos anos em termos de direitos
dos migrantes regionais na Argentina.
Por fim, Brígida Baeza e o Pastor Cea Merino apresentam o trabalho intitulado "Saúde
e interculturalidade na Região de Aysén (Chile), itinerários terapêuticos de mulheres
migrantes", que oferece importantes contribuições para a compreensão e desenvolvimento de
políticas no campo da saúde intercultural. Em particular, este trabalho enriquece o campo dos
estudos interculturais em saúde por meio da recuperação e valorização do conhecimento
relacionado à medicina mapuche, ao mesmo tempo em que aborda as experiências de grupos
migrantes recentes em Aysén. Por meio de uma análise detalhada, são identificadas barreiras
de saúde e representações racistas que afetam determinados grupos, como as mulheres
afrodescendentes, destacando um problema apontado em estudos anteriores realizados pela
Universidade de Aysén. Uma das principais contribuições deste trabalho é a visualização do
pluralismo médico na região, onde as necessidades não cobertas pelo sistema oficial de saúde
se cruzam com os conhecimentos de autocuidado utilizados pelas mulheres migrantes. Essas
práticas de cura, que muitas vezes não são reconhecidas ou adequadamente interpretadas pelo
Bioética interseccional na América Latina: agência política, autonomia relacional e cuidado com a vida
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sistema formal de saúde, ressaltam a importância de integrar esse conhecimento às políticas de
saúde intercultural. O estudo de Baeza e Cea-Merino sugere que as políticas sociais no campo
da saúde intercultural devem levar em conta tanto o conhecimento e as práticas de autocuidado
dos migrantes quanto os esforços para valorizar a medicina ancestral mapuche. Enfatiza a
necessidade de um diálogo permanente entre o campo da saúde e outras esferas institucionais,
como educação e justiça, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida das populações
migrantes, especialmente as mulheres, que assumem papéis cruciais no cuidado de suas famílias
em contextos migratórios muitas vezes hostis. Com base em extenso trabalho de campo em
Coyhaique e arredores, este estudo oferece uma perspectiva empírica valiosa que pode orientar
a formulação de políticas e práticas em saúde intercultural. Evidentemente, suas recomendações
são fundamentais para avançar na integração de conhecimentos tradicionais e práticas de saúde
interculturais, fornecendo uma estrutura para melhorar as políticas e práticas de saúde voltadas
para as populações migrantes na região de Aysén.
Organizadora,
Cintia Rodríguez Garat
María Graciela ORTÚZAR y Cintia RODRÍGUEZ GARAT
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara v. 24, n. esp. 2, e024014, 2024. e-ISSN: 2359-2419.
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CRediT Author Statement
Reconhecimentos: Gostaria de agradecer o trabalho especial dos autores realizado em um
clima social de grande dificuldade em nossa região sul. Quero também agradecer e
reconhecer os trabalhos recebidos que não pudemos incluir nesta ocasião, e certamente se
possível fazê-lo em futuras publicações. No que diz respeito à edição, quero reconhecer o
trabalho de Cintia na divulgação, compilação e submissão de artigos para avaliação pela
revista, bem como seu resumo final. Muito especialmente, quero agradecer ao Prof. Dra.
Maria Teresa Miceli Kerbauy e Prof. Me. Thaís Cristina Caetano de Souza, assim como o
restante de sua equipe, pela seriedade de seu trabalho de edição e por seu acompanhamento
caloroso e respeitoso neste processo de compilação que já dura mais de um ano e meio.
Financiamento: Esta publicação está enquadrada nos seguintes projetos de grupo
financiados: 1-PICT-2021- GRF [1] TI-00786 I GRF-T1 ÉTICA E DIREITO HUMANO
À SAÚDE NUMA PERSPETIVA INTERSECCIONAL (género, classe social, migrações,
alterações climáticas, violência múltipla, diversidade funcional, ecodeterminantes, idade,
diálogo intercultural, entre outros). 2.PICT "Análise histórica do conceito de saúde e
contribuições teóricas interseccionais para a construção de "saúde inclusiva e integral
(gênero, etnia, classe social, fator geopolítico, diálogo intercultural, diversidade funcional
e de gênero, entre outros)", financiado pela SECYT-UNLP, 2023-2027. Diretor: M.
Graciela de Ortúzar, UNLP-CONICET
Conflitos de interesse: Sem conflitos de interesse.
Aprovação ética: Não aplicável.
Disponibilidade de dados e material: Não aplicável.
Contribuições dos autores: A contribuição dos autores neste artigo é bem definida pela
divisão deste artigo em duas partes e pela assinatura dos respectivos autores em cada uma
delas.
Processamento e editoração: Editora Ibero-Americana de Educação.
Revisão, formatação, normalização e tradução.
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara v. 24, n. esp. 2, e024014, 2024. e-ISSN: 2359-2419. DOI:
https://doi.org/10.47284/cdc.v24iesp.2.19567 1
BIOÉTICA INTERSECCIONAL EN AMÉRICA LATINA: AGENCIAMIENTO
POLÍTICO, AUTONOMÍA RELACIONAL Y CUIDADOS PARA LA VIDA
BIOÉTICA INTERSECCIONAL NA AMÉRICA LATINA: AGÊNCIA POLÍTICA,
AUTONOMIA RELACIONAL E CUIDADO COM A VIDA
INTERSECTIONAL BIOETHICS IN LATIN AMERICA: POLITICAL AGENCY,
RELATIONAL AUTONOMY AND CARE FOR LIFE
María Graciela de ORTÚZAR1
e-mail: mariagracieladeortuzar@gmail.com
Cintia RODRÍGUEZ GARAT2
e-mail: cintiadanielarodriguez@gmail.com
Como referenciar este artigo:
ORTÚZAR, M. G. de; RODRÍGUEZ GARAT, C. Bioética
interseccional en América Latina: agenciamiento político,
autonomía relacional y cuidados para la vida. Rev.
Cadernos de Campo, v. 24, n. esp. 2, e024014, 2024. e-
ISSN: 2359-2419. DOI:
https://doi.org/10.47284/cdc.v24iesp.2.19567
| Submetido em: 01/07/2024
| Revisões requeridas em: 18/07/2024
| Aprovado em: 26/07/2024
| Publicado em: 27/11/2024
Editores:
Profa. Dra. Maria Teresa Miceli Kerbauy
Profa. Me. Thaís Cristina Caetano de Souza
Prof. Me. Paulo Carvalho Moura
Prof. Thiago Pacheco Gebara
1
Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación (FAHCE), Universidad Nacional de La Plata (UNLP) y
Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Tecnológicas (CONICET)-Centro de Investigaciones y
Estudios Filosóficos (CIEFI) La Plata, Prov de de Buenos Aires (Prov. Bs As) Argentina. Doctora en Filosofía,
Profesora Adjunta de Seminarios de Ética Aplicada (Grado y Postgrado), Departamento de Filosofía, Facultad de
Humanidades y Ciencias de la Educación (FAHCE), UNLP; e Investigadora Independiente del CONICET-CIEFI.
2
Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación (FAHCE) y Universidad Nacional de La Plata (UNLP)
La Plata, Prov. Buenos Aires, Argentina. Doctoranda en Filosofía, Facultad de Humanidades y Ciencias de la
Educación. Magíster en Filosofía, Universidad de Quilmes. Maestranda en Bioética, Facultad Latinoamericana de
Ciencias Sociales (FLACSO), Sede Argentina. Docente e Investigadora.
Bioética interseccional en América Latina: Agenciamiento político, autonomía relacional y cuidados para la vida
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara v. 24, n. esp. 2, e024014, 2024. e-ISSN: 2359-2419.
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RESUMEN: El objetivo del trabajo es interpelar las corrientes tradicionales de la bioética, en
las cuáles subyacen ideales abstractos de imparcialidad, ciudadanía universal y autonomía
absoluta; confrontando las mismas desde el conocimiento situado y el reconocimiento de la
matriz de dominación interseccional vigente en América Latina. Se busca indagar cómo
transformar las desigualdades múltiples, repolitizando la justicia interseccional, el
agenciamiento político en momentos críticos de avances y colonización de nuestros bienes
comunes. Nuestra propuesta final es una bioética crítica interseccional, representativa y
participativa, que incluya de manera no subordinada las voces y saberes otros, enfocada en
nuestras necesidades regionales, promoviendo nuestra autonomía relacional y el cuidado para
la vida, en y para nuestros territorios, comunidades, y generaciones futuras.
PALAVRAS CLAVES: Justicia interseccional. Bioética plural. Autonomía relacional.
Cuidados para la vida. Eco-sico-determinantes de la salud.
RESUMO: O objetivo deste trabalho é desafiar as correntes tradicionais da bioética, que
fundamentam ideais abstratos de imparcialidade, cidadania universal e autonomia absoluta;
confrontá-los a partir do conhecimento situado e do reconhecimento da matriz de dominação
interseccional vigente na América Latina. Procura investigar como transformar múltiplas
desigualdades, repolitizando a justiça interseccional, a agência política em momentos críticos
de progresso e colonização dos nossos bens comuns. Nossa proposta final é uma bioética
crítica interseccional, representativa e participativa, que inclua de forma não subordinada as
vozes e os conhecimentos dos outros, focada em nossas necessidades regionais, promovendo
nossa autonomia relacional e o cuidado com a vida, em e para nossos territórios, comunidades
e as gerações futuras.
PALAVRAS-CHAVE: Justiça interseccional. Bioética plural. Autonomia relacional. Cuidado
com a vida. Eco-sico-social determinantes de la salud.
ABSTRACT: This work aims to challenge the traditional currents of bioethics, which underlie
abstract ideals of impartiality, universal citizenship and absolute autonomy; confronting them
from situated knowledge and recognition of the matrix of intersectional domination in force in
Latin America. It seeks to investigate how to transform multiple inequalities, repoliticizing
intersectional justice, political agency in critical moments of progress and colonization of our
common goods. Our final proposal is an intersectional, representative and participatory
critical bioethics, which includes in a non-subordinate way the voices and knowledge of others,
focused on our regional needs, promoting our relational autonomy and care for life, in and for
our territories, communities, and future generations.
KEY WORDS: Intersectional justice. Plural bioethics. Relational autonomy. Care of life. Eco-
sico social determinants of health.
María Graciela ORTÚZAR y Cintia RODRÍGUEZ GARAT
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara v. 24, n. esp. 2, e024014, 2024. e-ISSN: 2359-2419.
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Bioética interseccional en América Latina: Agenciamiento político, autonomía relacional
y cuidados para la vida
La bioética, como reflexión teórico-práctica y situada de los problemas complejos que
aquejan a nuestra salud colectiva latinoamericana; se enfrenta con el desafío actual de replantear
su marco-macro de justicia social interseccional, y ampliar su representación, incentivando
debates democráticos participativos y plurales en la arena ética, política, científica, económica,
y cultural; de modo de promover cuidados circulares, eco-sico sociales, en y para nuestra
sociedad.
En relación con este tema, es necesario indagar cómo las relaciones de poder y la matriz
de dominación interseccional, que condicionan la vida en América Latina, producen
desigualdades múltiples y determinantes eco-sico-sociales de nuestra salud. Asimismo, también
resulta clave replantear cómo esta subordinación se reproduce en el campo de la bioética a nivel
epistémico. En este punto, nuestro compromiso radica en construir enclaves críticos (bioéticos,
científicos, colectivos) vinculados con grupos afectados a nivel local; y fortalecer redes entre
grupos excluidos a nivel internacional, con el fin de actuar sobre las citadas desigualdades
interseccionales y responder a la imperante necesidad del “cuidado para la vida en
latinoamérica (de Ortúzar, 2024).
En este sentido, reconocemos las tensiones existentes entre el contexto global y local, y
los conflictos ético-políticos generados por la crisis civilizatoria, alertando sobre las actuales
desigualdades originadas en nuevas olas trasnacionales colonizadoras de bienes comunes
latinoamericanos, con implicancias en nuestra salud sico social colectiva ante el daño
ocasionado a nuestra casa común (Ej. extracción de litio en territorios indígenas en nombre de
la transición energética. mal uso del agua, extractivismo y desforestación, entre otros).
En esta línea, recientemente hemos sido testigos en pandemia de cómo los procesos
sociales que afectan nuestras vidas superan las fronteras territoriales, existiendo una nueva
sensación de vulnerabilidad por el accionar de las citadas fuerzas (virus; tecnologías; cambio
climático, entre otros). Fue precisamente en pleno auge del coronavirus que la bioética cobró
vida. No obstante, su accionar se centró casi exclusivamente en temas distributivos, como: (1)
los Protocolos de racionamiento de recursos (Ej. Protocolo de última cama) a nivel local; y (2)
la distribución de vacunas -a través de la COVAX- a nivel internacional. Sin embargo, en
ambos casos existieron sendas discriminaciones interseccionales. En el abordaje local, se
privilegiaron criterios de calidad de vida (DALYs y QALYs) que suponen prejuicios
Bioética interseccional en América Latina: Agenciamiento político, autonomía relacional y cuidados para la vida
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identitarios (calidad de vida inferior) para las personas discapacitadas (capacitismo) (Leani,
2021); excluyendo de las urgencias las problemáticas de salud colectiva (acceso al agua potable,
subsidio de emergencia, alimentación, entre otros) de los grupos con derechos históricamente
vulnerados (comunidades indígenas, migrantes, grupos LGTB, entre otros). En referencia al
segundo caso, existió un claro abuso de poder de las potencias en relación a nuestros países “no
desarrollados”, evidenciando intereses claramente especulativos de los “países desarrollados”
al acaparar en el mercado las vacunas destinadas a nuestros países (esto es, duplicando las
requeridas para su población), lo cual no sólo dejó “sin stock” a los Organismos Internacionales,
impidiendo su redistribución para los países menos aventajados, sino que también contribuyó
al aumento de precios en el mercado, profundizando las desigualdades que afectaron
directamente a los grupos históricamente marginados. La debilidad de los citados Organismos
Internacionales para intervenir y favorecer, en plena emergencia, la distribución de beneficios
y recursos esenciales para los países más necesitados, ha quedado al desnudo. Una vez más, el
predominio de los intereses de mercado a nivel global ha triunfado. Frente a esta situación, es
necesario repensar formas alternativas de diseño institucional, esto es replantear en el espacio
público internacional la representación de nuestros países para que su participación sea
efectiva (de Ortúzar, 2021).
Ahora bien, la atención de las desigualdades de nuestros pueblos excede el problema
social de justicia distributiva de bienes y/o recursos, mostrando una complejidad mayor dadas
las relaciones de poder estructurales. En otras palabras, las problemáticas de nuestra bioética
no se reducen sólo a problemas de racionamiento de recursos en centros asistenciales de alta
tecnología. Estas prioridades reflejan los valores de la sociedad norteamericana, y emanan de
la bioética principalista (Beauchamp; Childress, 1979). Dicha corriente, ampliamente difundida
a nivel mundial y convertida, a nivel hospitalario, en un “mantra mágico” consistente en el
recitado acrítico de principios abstractos que no poseen solución en caso de conflictos entre
los mismos (Gert, 1996). La citada concepción se centra en derechos individuales y, desatiende
la protección activa de derechos colectivos de grupos “vulnerables”, esto es, las ciudadanías
diferenciadas y marginales. Asimismo, se asocia a la tecnociencia, es decir, se encuentra
vinculada con cuestiones altamente comercialistas y no con necesidades de salud
colectiva.“Esta funcional asociación es una epistemología en misma, resultado de la
construcción de una hegemonía sostenida a través de diversos, injustos y dolorosos procesos de
subalternización cuyo borramiento hizo que nos miremos en un espejo equivocado” (Carrizo,
2024).
María Graciela ORTÚZAR y Cintia RODRÍGUEZ GARAT
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Por otra parte, el carácter universal y androcéntrico de la ciencia y de la misma bioética
fue denunciado por la bioética crítica, la cual contribuyó al estudio del poder y al análisis de la
opresión por injusticias basadas en el género (Wolf, 1996). Surge entonces una “bioética
feminista de la periferia”, la cual reivindica tener en cuenta las circunstancias, las asimetrías
de poder y abusos, y las necesidades específicas de mujeres desde su contexto histórico y
cultural.
Es en esta dirección crítica que consideramos importante avanzar, enlazando la justicia
interseccional y la ética del cuidado para la vida. Resulta oportuno recordar, en relación a los
estudios de cuidados, la propuesta precursora de Carole Gilligan (1982) como alternativa a las
concepciones de justicia liberal y a una ciencia pensada como imparcial y neutral, aun cuando
representa los intereses de un grupo privilegiado (hombre blanco heterosexual).
Es precisamente el acento en las diferencias, el sesgo y las múltiples exclusiones
generadas por la concepción universal de ciudadanía lo que llevó a Iris Young (2000) a
cuestionar la imparcialidad de la justicia social y a poner el acento en la ciudadanía diferenciada.
En esta disputa, Fraser (2014) recoge el guante y responde las críticas de Young, ampliando su
concepción bidimensional de justicia social (distribución y reconocimiento) a la representación
(distribución, reconocimiento y representación).
Éste foco en el problema de paridad participativa en democracia, con sus condiciones
materiales y simbólicas, constituye un problema aún no resuelto, dadas nuestras débiles
democracias y las profundas desigualdades que nos atraviesan. Surgen entonces, en el campo
de la bioética, una serie de corrientes alternativas (latinoamericana; narrativa, colonial,
decolonial, interseccional y pluralista) que pugnan por la ampliación de la representación en la
misma disciplina. Así, la bioética feminista de la periferia y la bioética decolonial y poscolonial
(Spivak, 1994) cuestionaron conceptos pretendidamente universales que esconden la exclusión
y el silenciamiento de esos otros, de sus voces.
La deconstrucción de la bioética permite mostrar cómo la colonización y la dominación
subyace también en nuestra disciplina, visibilizando las asimetrías de poder y abusos en la
representación de mujeres de carne y hueso desde nuestros territorios. La bioética del sur
plantea la importancia de incorporar en los discursos éticos la diversidad, la justicia epistémica
y la interseccionalidad crítica (Diniz; Guilhem, 2008). Todos los puntos de vista son
reconocidos como parciales. Entonces, el encuadre de los problemas no debe responder
exclusivamente al punto de vista de grupos sociales privilegiados, sino que debe incluir los
diferentes puntos de vistas de las comunidades, haciendo participar a esos otros marginados y
Bioética interseccional en América Latina: Agenciamiento político, autonomía relacional y cuidados para la vida
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara v. 24, n. esp. 2, e024014, 2024. e-ISSN: 2359-2419.
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escuchando la diversidad de sus voces y saberes. Estos puntos de vista, vividos por personas
provenientes de grupos sociales diferentes, han sido históricamente silenciados.
Se trata de ejercer la empatía para el reconocimiento del otro concreto, y garantizar su
participación en procesos de toma de decisiones, para que todos los puntos de vista sean
escuchados. Se trata de autorizar las voces otras, y no silenciar las mismas en nuestros esquemas
de producción del conocimiento, investigando cómo se limita en la práctica los mundos otros
desde el saber/poder del grupo privilegiado. Una diversidad y una diferencia que no basta con
asimilar y aglutinar desde los márgenes a un sistema céntrico que reproduce los mismos juegos
de poder al interior de las instituciones (educación, salud, poder judicial, otros). Se trata de
reconocer las múltiples singularidades y mundos posibles; y no asimilarlos, negarlos en su
especificidad, cosificarlos y someterlos (de Ortúzar, 2024). Comencemos así a detener el miedo,
desaprendiendo y recuperando nuestro cuerpo y nuestro territorio
Proponemos pensar lo propio, replanteando una bioética que responda a nuestras
necesidades regionales, atendiendo la diversidad de saberes y las problemáticas actuales de
riesgos de vidas humanas en nuestras comunidades y poblaciones del sur (migrantes,
comunidades indígenas, diversidad funcional y sexual, grupos afro, entre otros). El daño que
sufren estos grupos es un efecto local de intereses trasnacionales, que actúan con la complicidad
de grupos privilegiados locales (Ej. apropiación de litio y mal uso del agua; inundaciones y
sequías producto de daños ambientales, patentes y ausencia de medicamentos esenciales, entre
otros).
Los grupos afectados son los grupos más débiles de nuestra región, eso es los que
históricamente fueron discriminados y cuyos derechos han sido frecuentemente vulnerados,
evidenciando cómo el racismo subyace las relaciones de poder en nuestras sociedades
colonizadas. Resulta imprescindible preocuparnos y responder ante las emergencias actuales
colectivas (inundaciones, sequías, hambre, daño ambiental y sico social, solastalgia, guerras,
entre otros), atendiendo nuestras desigualdades sociales y violencias múltiples a través de
procesos complejos de cuidados para la vida, lo cual nos lleva a interpelar y repensar la bioética
desde y para nuestra región.
Nuestro punto de partida se basa en reconocer que los espacios de privilegio que ocupan
algunos sujetos en la estructura social tienen como reverso la exclusión de otros y son el efecto
de procesos de jerarquización racial, sexual, de clase y de género, entre otras formas de opresión
(Combahee River, 1974; Davis, 2008; hooks, 2020). En esta apuesta, hemos querido sumar los
aportes del feminismo crítico, pero también, y muy especialmente, los aportes del feminismo
María Graciela ORTÚZAR y Cintia RODRÍGUEZ GARAT
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negro de los años 70 y subsiguientes, por sus reflexiones sobre la interseccionalidad desde los
márgenes; y las contribuciones de pensadoras feministas latinoamericanas, centradas en
denunciar al sistema colonizador, capitalista y globalizado, que penetra todos los aspectos de la
vida, material e intersubjetiva. Esto es, tanto las mujeres blancas y ricas como las mujeres
pobres y negras son producidas por las relaciones de género, raza y clase; la dificultad para
asumirlo de esta manera reside en que las primeras, al gozar de privilegios de clase y color, no
perciben ni experimentan las relaciones imbricadas de clase, raza y sexo que las producen,
mientras que las segundas lo hacen (Anzaldúa, 2021; Lugones, 2010; Vigoya, 2016; Curiel,
2007).
El género y la raza se entrelazan de manera especial en nuestra región colonizada
(Lugones, 2010), mostrando -una vez más- cómo el racismo prevalece en nuestra región.
Asimismo, reconocemos que la interseccionalidad no es sólo un enfoque para visibilizar éstas
relaciones estructurales de poder; dado que es a través de la misma organización de estos
colectivos de los márgenes que logramos empoderarnos colectivamente y alcanzar el
agenciamiento político, al crear vínculos sociales fuertes de cuidados complejos, y proyectar
movimientos emancipatorios.
En estas coordenadas, invitamos al lector a sumarse al debate sobre las investigaciones
interseccionales aplicadas a bioética, investigaciones enraizadas en las luchas políticas
efectuadas desde los márgenes, reflexionando sobre una visión re-politizada de esta
interseccionalidad, para generar el doble movimiento: cuestionar la opresión hegemónica
excluyente (género, raza y clase, diversidad, factor geopolítico); y proponer transformaciones
y agenciamientos políticos desde la autonomía relacional, desde los cuidados colectivos, para
encarnizar la justicia interseccional emancipadora y el cuidado para la vida, teniendo en cuenta
el entramado relacional de la comunidad
Bajo el marco general planteado, el objetivo del presente número especial es interpelar
las corrientes tradicionales de la bioética partiendo del conocimiento situado y del
reconocimiento de la matriz de dominación interseccional vigente en América Latina;
avanzando hacia el entretejido de la autonomía relacional. Como ejes de reflexión, es un placer
compartir con ustedes la siguiente espina vertebral de nuestro Dossier titulado “Bioética
Interseccional, autonomía relacional y salud desde los márgenes”, compuesta por aportes de
seis destacadas autoras/autores regionales de diversas disciplinas, quienes nos ilustran sobre:
(I) cómo pensar la interseccionalidad en bioética para atender las desigualdades
múltiples, el agenciamiento político y la autonomía (Adriana María Arpini);
Bioética interseccional en América Latina: Agenciamiento político, autonomía relacional y cuidados para la vida
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(II) cómo visibilizar la parcialidad del enfoque de ciudadanía universal y ampliar la
representación en salud a partir de la paridad participativa de la ciudadanía
diferenciada (Jessica Marcela Kaufman);
(III) cómo crear en salud mental redes de apoyo y espacios de autocuidado para las
mujeres, fomentando una cultura de solidaridad y la necesaria resiliencia
comunitaria (Aridnaj de Oliveira Lima);
(IV) cómo promover performaciones éticas en la cura del vih entendiendo que el tx
de células madres no es un fenómeno dado, sino un proceso en constante
construcción, que trasciende la práctica clínica y está permeado por disputas
narrativas, políticas, afectivas y prácticas (Kris Herik de Oliveira);
(V) cómo visibilizar la discriminación interseccional que sufren mujeres migrantes
regionales discapacitadas por los estereotipos de “normalidad /anormalidad” de
la ideología dominante, y por el entrecruzamiento de raza, género, clase y factor
geopolítico sustentado en políticas y legislaciones racistas (Marina Sorgi);
(VI) cómo replantear las políticas sociales en materia de salud intercultural en la
atención de la salud de migrantes indígenas, tanto desde los conocimientos y las
prácticas de autocuidado, como desde los esfuerzos por valorizar la medicina
ancestral mapuche (Brígida Baeza y Pastor Cea Merino).
Los lectores podrán continuar leyendo más abajo sobre el resúmen ampliado de cada
uno de estos ricos trabajos Véase “Aportes interseccionales al Dossier”.
A modo de cierre, propongo enarbolar colaborativamente la bandera de una bioética
crítica interseccional, representativa y participativa, y plural; que incluya de manera no
subordinada las voces y saberes otros, aquellas que surgen desde los márgenes;
comprometiéndonos con la transformación de las estructuras sociales injustas y opresoras;
defendiendo una ciencia y una salud pública más inclusiva y enfocada en nuestras necesidades
regionales, promoviendo nuestra autonomía relacional y el cuidado para la vida, en y para
nuestros territorios, comunidades, y generaciones futuras.
Organizadora,
María Graciela de Ortúzar
***
María Graciela ORTÚZAR y Cintia RODRÍGUEZ GARAT
Rev. Cadernos de Campo, Araraquara v. 24, n. esp. 2, e024014, 2024. e-ISSN: 2359-2419.
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Aportes interseccionales al Dossier
Este dossier presenta una serie de estudios y reflexiones sobre la bioética desde una
perspectiva interseccional. La importancia de estos aportes radica en el abordaje de las
complejas marcas opresivas, que históricamente se han ido enquistando colonial, patriarcal y
clasistamente en los cuerpos femeninos y diversos de las comunidades subalternas, como una
patente expresión de las huellas corpo-políticas (Foucault, 2010; Mbembe, 2016; Mignolo,
2015; Rodríguez Garat, 2023). Por este motivo, este dossier ofrece la oportunidad de visibilizar
cómo los mecanismos de colonización actual siguen irrigando en nuestras geografías
(Rodríguez Garat, 2022; 2023). En esta línea, en primer lugar, destaco las contribuciones del
trabajo titulado “Bioética interseccional: Perspectiva latinoamericana, descolonial y feminista”
de Adriana María Arpini. El trabajo ofrece una revisión crítica y propositiva de la bioética,
explorando cómo el concepto de interseccionalidad puede ser una herramienta poderosa para
abordar las múltiples desigualdades y promover la inclusión participativa de grupos
marginados. Arpini examina la interrelación entre colonialidad y género, destacando cómo estas
categorías han sido históricamente fusionadas e inseparables en la experiencia de las mujeres
de color. Este enfoque subraya la necesidad de percibir género y raza como entrelazados
indisolublemente, aportando una perspectiva más compleja y realista de las opresiones y
resistencias en contextos latinoamericanos. Concretamente, propone una reconfiguración de la
justicia social que sea verdaderamente interseccional. Esto implica considerar las necesidades,
valoraciones y capacidades de las su(b)jetividades, alejándose de una lógica de identidad formal
hacia una más real y encarnada. Arpini critica la lógica categorial tradicional y sugiere una
justicia social más inclusiva y equitativa, que tenga en cuenta las diversas experiencias y
realidades de los individuos. Asimismo, enfatiza la importancia de la autonomía relacional y la
redistribución de bienes. Este enfoque busca transformar las estructuras sociales, económicas,
políticas y culturales para promover una mayor equidad y respeto a las identidades diversas. En
conjunto, como he señalado, estos aportes buscan reconfigurar la comprensión de la bioética y
la justicia social desde una perspectiva que integral e interseccional en el contexto de las
complejidades y diversidades de las experiencias humanas, especialmente en contextos
latinoamericanos y decoloniales, ofreciendo una visión transformadora que enriquecerá el
debate académico y práctico en el campo de la bioética.
En segundo lugar, avanzando hacia la constitución de una bioética comprometida con
las necesidades de nuestros pueblos, Jessica Marcela Kaufman, en su trabajo “El acceso
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diferenciado a la ciudadanía en la bioética feminista: una revisión de las críticas en torno a los
ideales de imparcialidad y autonomía absoluta en la bioética predominante”, pone en evidencia
la parcialidad del enfoque bioético hegemónico centrado en el ideal de una ciudadanía universal
abstracta que impone el punto de vista de sectores privilegiados (hombre blanco), e ignora la
diversidad de los marginados. De esta manera, Kaufman aporta un enfoque de bioética
feminista decolonial para promover una política igualitaria de la diferencia basada en la paridad
participativa de agentes entendidos como concretos e interrelacionados.
Seguidamente, el trabajo titulado “Desigualdad de cuidados y sus consecuencias en la
salud mental” de Aridnaj de Oliveira Lima ofrece contribuciones cruciales para comprender y
abordar estas problemáticas desde una perspectiva integral y crítica. En este sentido, su estudio
destaca la carga desproporcionada que asumen las mujeres en las tareas de cuidado, subrayando
cómo esta responsabilidad excesiva impacta significativamente su salud mental. Este
desequilibrio se agrava en contextos de pobreza y vulnerabilidad, exacerbando las condiciones
de estrés y ansiedad en las mujeres cuidadoras. Al visibilizar estas desigualdades, el trabajo
proporciona una comprensión profunda de cómo las dinámicas de cuidado no remunerado
afectan negativamente el bienestar psicológico de las mujeres. De allí que una de las principales
contribuciones del trabajo es la conexión directa que establece entre la desigualdad en la
distribución de los cuidados y los problemas de salud mental. Al analizar el desgaste físico y
emocional que sufren las mujeres debido a estas responsabilidades, el estudio ofrece una
perspectiva detallada sobre los efectos perjudiciales de estas dinámicas en su salud mental.
Además de describir el problema, de Oliveira Lima sugiere intervenciones necesarias a nivel
de políticas públicas y estructuras sociales. En esta línea, propone la necesidad de políticas que
reconozcan y redistribuyan equitativamente las responsabilidades de cuidado, así como
programas de apoyo a la salud mental de las cuidadoras. Estas recomendaciones buscan
transformar las estructuras que perpetúan la desigualdad y promover un mayor bienestar para
las mujeres. Sumado a lo dicho, el trabajo también aplica una perspectiva interseccional,
considerando cómo factores la clase social, la etnicidad y el nivel socioeconómico influyen en
las experiencias de cuidado y salud mental de las mujeres. El estudio de Aridnaj enfatiza la
importancia de la acción comunitaria y el apoyo mutuo. Promueve la creación de redes de apoyo
y espacios de autocuidado para las mujeres, fomentando una cultura de solidaridad y resiliencia
comunitaria. Estas iniciativas son fundamentales para construir un entorno más justo y
equitativo, donde las responsabilidades de cuidado sean compartidas y reconocidas
adecuadamente.
María Graciela ORTÚZAR y Cintia RODRÍGUEZ GARAT
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En cuarto lugar, nos encontramos con un original trabajo en el área de trasplantes,
titulado ““À boa ciência”: performações éticas em transplantes experimentais de células-tronco
para a cura do HIV” de Kris Herik de Oliveira, quien desde un punto de vista
socioantropológico, examina cinco casos de "cura" o "remisión de largo plazo" del VIH, con
trasplantes experimentales de células madre, sosteniendo que la ética de la cura del VIH no es
un fenómeno dado, sino un proceso en constante construcción, que trasciende la práctica clínica
y está permeado por disputas narrativas, políticas, afectivas y prácticas. En este sentido, el autor
realiza un interesante y original aporte sobre performaciones éticas, mostrando cómo las
mismas pueden contribuir a la ciencia y a la democracia.
Marina Sorgi, en quinto lugar, aborda en su trabajo “Desterrando estereotipos en
personas con “discapacidad” para su inclusión social y cultural: la triple discriminación de
mujeres migrantes con capacidades diferentes en la Argentina” el concepto de discriminación
interseccional aplicado a las mujeres migrantes con capacidades diversas en Argentina. Para
ello, se remonta a los estereotipos y significaciones imaginarias bajo la idea de “normalidad
/anormalidad”, desde los estereotipos fundacionales de la ideología dominante en su tiempo y
se construye por las luchas de poder, dando lugar a un “nosotros” contraponiéndolo con un
“otros”. Esta discriminación se reproduce a nivel legal y a nivel cultural diariamente en nuestro
país, produciéndose en los últimos años retrocesos en lo que hace a derechos de migrantes
regionales en Argentina.
Por último, Brígida Baeza y Pastor Cea Merino presentan el trabajo titulado “Salud e
interculturalidad en la Región de Aysén (Chile), itinerarios terapéuticos de mujeres migrantes”,
que ofrece importantes contribuciones al entendimiento y desarrollo de políticas en el ámbito
de la salud intercultural. En particular, este trabajo enriquece el campo de los estudios de salud
intercultural mediante la recuperación y valorización de los saberes vinculados a la medicina
mapuche, al mismo tiempo que aborda las experiencias de los grupos migrantes recientes en
Aysén. A través de un análisis detallado, se identifican las barreras sanitarias y las
representaciones racistas que afectan a ciertos colectivos, como las mujeres afrodescendientes,
destacando una problemática ya señalada en estudios previos realizados por la Universidad de
Aysén. Una de las principales aportaciones de este trabajo es la visualización del pluralismo
médico en la región, donde se intersectan las necesidades no cubiertas por el sistema de salud
oficial con los conocimientos de autocuidado empleados por las mujeres migrantes. Estas
prácticas de sanación, que a menudo no son reconocidas o adecuadamente interpretadas por el
sistema de salud formal, subrayan la importancia de integrar estos conocimientos en las
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políticas de salud intercultural. El estudio de Baeza y Cea-Merino sugiere que las políticas
sociales en materia de salud intercultural deben tener en cuenta tanto los conocimientos y
prácticas de autocuidado de los migrantes como los esfuerzos por valorizar la medicina
ancestral mapuche. Se enfatiza la necesidad de un diálogo continuo entre el campo de la salud
y otras esferas institucionales, como la educación y la justicia, con el objetivo de mejorar la
calidad de vida de las poblaciones migrantes, especialmente de las mujeres, quienes asumen
roles cruciales en el cuidado de sus familias en contextos migratorios a menudo hostiles. Basado
en un extenso trabajo de campo en Coyhaique y sus alrededores, este estudio ofrece una
perspectiva empírica valiosa que puede guiar la formulación de políticas y prácticas en salud
intercultural. Evidentemente, sus recomendaciones son fundamentales para avanzar en la
integración de saberes tradicionales y prácticas de salud intercultural, proporcionando un marco
para mejorar las políticas y prácticas de salud dirigidas a las poblaciones migrantes en la región
de Aysén.
Organizadora,
Cintia Rodríguez Garat
María Graciela ORTÚZAR y Cintia RODRÍGUEZ GARAT
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CRediT Author Statement
Reconhecimentos: Quisiera agradecer los especiales trabajos de las/los autoras/res
realizados en un clima social de gran dificultad en nuestra región sur. También quiero
agradecer y reconocer los trabajos recibidos que no hemos podido incluir en esta
oportunidad, y seguramente será posible hacerlo en futuras publicaciones. En lo que
respecta a la edición, quiero reconocer el trabajo de Cintia en la difusión, recopilación y
envío de los artículos para su evaluación por la revista, así como también su resumen final.
Muy especialmente, quiero agradecer a la Profa. Dra. Maria Teresa Miceli Kerbauy y a la
Profa. Me. Thaís Cristina Caetano de Souza, como así también al resto de su equipo, por
la seriedad de su trabajo de edición y por su cálido y respetuoso acompañamiento en este
proceso de compilación que lleva más de un año y medio de trabajo.
Financiamento: La presente publicación se enmarca bajo los siguientes proyectos grupales
financiados: 1-PICT-2021- GRF [1]TI-00786 I GRF-T1 ÉTICA Y DERECHO HUMANO
A LA SALUD DESDE UNA MIRADA INTERSECCIONAL (género, clase social,
migraciones, cambio climático, violencias múltiples, diversidad funcional,
ecodeterminantes, edad, diálogo intercultural, entre otros). 2.PICT “Análisis histórico del
concepto de salud y aportes teóricos interseccionales para la construcción de “una salud
inclusiva e integral (género, etnia, clase social, factor geopolítico, diálogo intercultural,
diversidad funcional y genérica, entre otros)”, Financiado por SECYT-UNLP, 2023-2027.
Directora: M. Graciela de Ortúzar, UNLP-CONICET
Conflitos de interesse: No existen conflictos de intereses.
Aprovação ética: No corresponde.
Disponibilidade de dados e material: No corresponde.
Contribuições dos autores: La contribución de los autores en el presente artículo está bien
delimitada por la división en dos partes de este y la firma en cada una de ellas de las
respectivas autoras.
Processamento e editoração: Editora Ibero-Americana de Educação.
Revisão, formatação, normalização e tradução.