image/svg+xmlEnsinar e aprender em contextos de privação de liberdade e isolamento social: Uma experiência com socioeducandos do CASE, Mossoró-RNDoxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 23, n. 00, e022014, 2022. e-ISSN: 2594-8385 DOI: https://doi.org/10.30715/doxa.v23i00.17462 1 ENSINAR E APRENDER EM CONTEXTOS DE PRIVAÇÃO DE LIBERDADE E ISOLAMENTO SOCIAL: UMA EXPERIÊNCIA COM SOCIOEDUCANDOS DO CASE, MOSSORÓ RN ENSEÑANZA Y APRENDIZAJE EN CONTEXTOS DE PRIVACIÓN DE LIBERTAD Y AISLAMIENTO SOCIAL: UNA EXPERIENCIA CON SOCIOEDUCANDOS DEL CASE, MOSSORÓ - RN TEACHING AND LEARNING IN CONTEXTS OF DEPRIVATION OF LIBERTY AND SOCIAL ISOLATION: AN EXPERIENCE WITH SOCIOEDUCATORS FROM CASE, MOSSORÓ - RN Areillen Ronney Rocha REGES1Emerson Augusto de MEDEIROS2RESUMO: Este texto tem como propósito apresentar reflexões acerca das ações educativas desenvolvidas por docentes do Centro de Educação de Jovens e Adultos (CEJA), que atuam no Centro de Atendimento Socioeducativo (CASE/Mossoró - RN), no período da Pandemia da COVID-19. Caracteriza-se como um relato de experiência que se apoia, em termos metodológicos, tanto na abordagem da experiência profissional docente, quanto na reflexão sobre a prática educativa com socioeducandos que cumprem medida de privação de liberdade na Unidade, com recorte temporal de março de 2020 a dezembro de 2021. Ressaltamos, positivamente, as diferentes práticas educativas arroladas, haja vista que, no decorrer das atividades desenvolvidas na escola, enfrentávamos uma das maiores crises sanitárias de todos os tempos. Diante disso, evidenciamos a importância do trabalho interdisciplinar no aprimoramento e na construção de diferentes saberes, práticas de ensino e conhecimentos acerca da realidade educacional frente ao momento. PALAVRAS-CHAVE: Socioeducação. Educação de Jovens e Adultos. Interdisciplinaridade. RESUMEN: Este texto tiene como objetivo presentar reflexiones sobre las acciones educativas desarrolladas por docentes del Centro de Educación de Jóvenes y Adultos (CEJA), que actúan en el Centro de Servicios Socioeducativos (CASE/Mossoró - RN), en el período de la Pandemia del COVID-19. Se caracteriza por ser un relato de experiencia que se fundamenta, en términos metodológicos, tanto en el abordaje de la experiencia profesional docente, como en la reflexión sobre la práctica educativa con socio-estudiantes que se encuentran cumpliendo una medida de privación de libertad en la Unidad. con un marco temporal de marzo de 2020 a diciembre de 2021. Destacamos positivamente las diferentes prácticas educativas enumeradas, dado que, 1Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), Mossoró RN Brasil. Especialista em Geografia do Nordeste e Especialista em Direito da Criança e do Adolescente. Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ensino (POSENSINO/UFERSA). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6136-3727. E-mail: areillen_ronney@hotmail.com 2Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), Mossoró RN Brasil. Professor Adjunto. Docente Permanente do Programa de Pós-Graduação em Ensino (POSENSINO/UFERSA). Doutorado em Educação. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3988-3915. E-mail: emerson.medeiros@ufersa.edu.br
image/svg+xmlAreillen Ronney Rocha REGES e Emerson Augusto de MEDEIROSDoxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 23, n. 00, e022014, 2022. e-ISSN: 2594-8385 DOI: https://doi.org/10.30715/doxa.v23i00.17462 2 durante las actividades realizadas en la escuela, enfrentamos una de las mayores crisis sanitarias de todos los tiempos. Ante ello, destacamos la importancia del trabajo interdisciplinario en el perfeccionamiento y construcción de diferentes saberes, prácticas docentes y saberes sobre la realidad educativa del momento. PALABRAS CLAVE: Socioeducación. Educación de Jóvenes y Adultos. Interdisciplinariedad. ABSTRACT: This text aims to present reflections on the educational actions developed by teachers of the Youth and Adult Education Center (CEJA), who work at the Socio-Educational Service Center (CASE / Mossoró - RN), in the period of the COVID-19 Pandemic. It is characterized as an experience report that is based, in methodological terms, both on the approach of the teaching professional experience, and on the reflection on the educational practice with socio-educated students who are serving a measure of deprivation of liberty in the Unit, with a time frame of March 2020 to December 2021. We positively emphasize the different educational practices listed, given that, during the activities carried out at the school, we faced one of the biggest health crises of all time. In view of this, we highlight the importance of interdisciplinary work in the improvement and construction of different knowledge, teaching practices and knowledge about the educational reality at the moment. KEYWORDS: Socioeducation. Youth and Adult Education. Interdisciplinarity. IntroduçãoNa contemporaneidade, é necessário pensar como o professor que trabalha com ensino na educação básica alinhada à medida socioeducativa, pois este lida com os desafios em sua prática docente, tentando considerar as especificidades educacionais, os contextos sócio-históricos dos alunos e as experiências que eles carregam a partir da sociedade e cultura em que estão inseridos. Com o surgimento da Pandemia causada pela COVID-19, as problemáticas já existentes se intensificaram e, além das incertezas quanto ao futuro da educação no país, ocasionaram diversas reflexões sobre as ações de ensino a serem trabalhadas. Este período pandêmico, o qual ainda estamos enfrentando, tem potencializado as desigualdades socioeconômicas e traz grande preocupação para a Educação Básica de todo o país, sobretudo, quando se trata da rede pública, segundo nota técnica publicada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (KUBOTA, 2020). O mundo parou e os professores precisaram se reinventar para manter a educação e não ocasionar mais prejuízos, sobretudo, para os alunos mais penalizados, como os que cumprem medida socioeducativa de internação. Mas quais estratégias educativas poderiam ser desenvolvidas para sanar momentaneamente a falta de ensino que estes jovens enfrentam?
image/svg+xmlEnsinar e aprender em contextos de privação de liberdade e isolamento social: Uma experiência com socioeducandos do CASE, Mossoró-RNDoxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 23, n. 00, e022014, 2022. e-ISSN: 2594-8385 DOI: https://doi.org/10.30715/doxa.v23i00.17462 3 As aulas remotas e a interdisciplinaridade surgiram como dispositivos de solução temporária e amenizadora do desafio educacional que se avistava. Com isso, foi necessário pensar em novas estratégias e ferramentas que pudessem suprir a ausência física do professor e/ou a diminuição do número de aulas. A tecnologia surge como imediata solução e grande aliada durante este tempo, ao mesmo tempo em que se tornou um problema de adaptação para professores que não “dominavam” as ferramentas tecnológicas propostas.Este texto, assim, configura-se como um relato de experiência, posto que surge para descrever a prática educativa que os docentes que atuam em um sistema de privação de liberdade, o Centro de Atendimento Socioeducativo (CASE/Mossoró Rio Grande do Norte, Brasil), enfrentaram durante a Pandemia, tendo como recorte temporal o período de março de 2020 a dezembro de 2021. Por conseguinte, é ilusório não trazer também a experiência na perspectiva dos discentes, tendo em vista a proporcional dimensão de dificuldades enfrentadas nas diferentes práticas educacionais e de ensino. Como bem destaca Paulo Freire (1993), não é possível que educadores pensem exclusivamente nos procedimentos didáticos e nos conteúdos a serem ensinados. Nesse ponto de vista, o autor apresenta uma reflexão de um olhar amplo e humanizado que os educadores devem conduzir no processo de ensino-aprendizagem. Além disso, os procedimentos didáticos e de conteúdos precisaram sofrer constantes mudanças até atingirem um nível razoavelmente aprendível, tendo em vista o atual momento. Nessa perspectiva, em virtude das especificidades e fragilidades que se configuram a Educação de Jovens e Adultos (EJA), modalidade de ensino que assiste esses educandos, é necessário emergir uma reflexão sobre as práticas formativas e como devem conjecturar-se na promoção de práticas pedagógicas e interdisciplinares eficientes, para que se possa primar pela qualidade do ensino e acreditar no crescimento profissional e pessoal desses sujeitos, enquanto mediadores de conhecimento e de experiências de vida. Ressaltamos que tomamos como recorte para o texto as experiências educacionais produzidas no CASE/Mossoró - RN, sustentado nas vivências construídas pelos docentes e discentes no período da Pandemia. Também é importante destacar que a experiência descrita neste relato foi vivenciada por um dos autores do texto. Com isso, conseguimos, assim, analisar por meio da observação, problematização e reflexão das práticas desenvolvidas na referida Unidade Socioeducativa. Traçada esta breve introdução, neste trabalho iremos, em um primeiro momento, abordar as características estruturais e educacionais da Fundação de Atendimento Socioeducativo (RIO GRANDE DO NORTE, 2019), assim como a parceria educativa com o
image/svg+xmlAreillen Ronney Rocha REGES e Emerson Augusto de MEDEIROSDoxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 23, n. 00, e022014, 2022. e-ISSN: 2594-8385 DOI: https://doi.org/10.30715/doxa.v23i00.17462 4 Centro de Educação de Jovens e Adultos (CEJA). Posteriormente, debateremos sobre o impacto inicial que a Pandemia trouxe para os educandos da Unidade, relatando a dificuldade de comunicação e acesso existente em unidades de privação de liberdade. Traremos também uma abordagem do primeiro contato, bem como as primeiras atividades desenvolvidas e quais as reflexões construídas para se dar sequência nas próximas ações pedagógicas. Por fim, analisamos e apresentamos reflexões sobre a abordagem interdisciplinar que os professores trabalharam, relacionando aos aspectos de conteúdos curriculares vivenciados. Educação com sujeitos privados de liberdade na perspectiva da EJA Algumas notas O acesso à educação de qualidade é um direito fundamental para o desenvolvimento da cidadania. A conquista do direito à educação, com a obrigatoriedade do Ensino Fundamental, expressa na Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988), no Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990) e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 1996), trouxe um considerável avanço para a educação brasileira. Tendo por base esses marcos legais, se instituiu, pela LDB 9.394/1996 (BRASIL, 1996), a Educação de Jovens e Adultos (EJA) como a modalidade de ensino que garante os direitos educativos da população com 15 anos ou mais, que não teve acesso ou interrompeu os estudos antes de concluir a Educação Básica. Ela surge como um importante meio de inserção social e de diminuição da taxa de analfabetismo. Além de oferecer flexibilidade, também disponibiliza um mundo de possibilidades de ensino e aprendizagem para aqueles que outrora abandonaram seus sonhos e metas educacionais/profissionais. As unidades de atendimento socioeducativo do Estado que recebem adolescentes em conflito com a lei, devem se responsabilizar tanto pelas medidas socioeducativas, quanto pela garantia da obrigatoriedade de atividades pedagógicas e do acesso à escola, por meio da EJA, em detrimento da configuração do perfil escolar que os socioeducandos se enquadram, uma vez que são de anos escolares diversos. Nesse contexto, a escola precisa estar presente de forma ativa e regular durante todo o tempo de cumprimento de medida de internação do educando, isso significa, que estes sujeitos precisam estar matriculados/assistidos e cumprir todas as propostas pedagógicas e de ensino que normatizam a instituição de Ensino do CEJA. A escola é um instrumento fundamental na construção de um cidadão, em especial dos adolescentes que cumprem medida de privação de liberdade. Neste processo, a escola tem um papel importante de que é necessário e principalmente possível mudar a realidade e o destino destes jovens marginalizados/invisibilizados, com intuito de trazê-los de volta à sociedade.
image/svg+xmlEnsinar e aprender em contextos de privação de liberdade e isolamento social: Uma experiência com socioeducandos do CASE, Mossoró-RNDoxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 23, n. 00, e022014, 2022. e-ISSN: 2594-8385 DOI: https://doi.org/10.30715/doxa.v23i00.17462 5 Com isso, há um carecimento e, portanto, a necessidade de desmistificar os paradigmas que perpassam nos sistemas de privação de liberdade, sendo necessário também um olhar mais humanizado para com estes espaços e os sujeitos que os ocupam. Desse modo, essa invisibilidade acaba por refletir e afetar não somente estes sujeitos, mas também os profissionais envolvidos nos espaços e processos, como os próprios docentes. Nesse sentido, o objetivo deste relato é, sobretudo, mostrar o que foi vivido em termos de ações educativas, na perspectiva educacional, para sanar a ausência física dos professores durante o período de Pandemia e, deste modo, também trazer visibilidade e conhecimento para a comunidade acadêmica e a sociedade em geral, acerca dos docentes que atuam nestes espaços com educandos privados de liberdade. Nessa perspectiva, podemos dizer que este relato se torna um instrumento de relevância social e educacional, na medida em que está para além de um determinado conhecimento sistemático que emerge da experiência. Sob outra perspectiva, a escolha por este relato pode ser baseada no que destaca Bondía (2002). Segundo o autor, a experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece ou nos toca. Nesse sentido, o autor explicita que as experiências e seus relatos devem afetar e atravessar os sujeitos envolvidos, caso contrário, não é uma experiência. Várias vivências acontecem, mas nem tudo nos atravessa. O que nos afeta e transforma é a experiência. Dessa forma, escrever sobre as experiências desse período pandêmico no CASE é mostrar o que nos afetou/atravessou e, sobretudo, o modo como essas vivências se transvertem em aprendizado. Mas este processo é singular, depende do olhar individual de cada sujeito. Exemplificando este fato, podemos dizer que uma mesma experiência envolvendo várias pessoas pode nos afetar, mas não a outro sujeito, por isso da singularidade que cada momento de experiência e em cada pessoa se manifesta. Ressaltamos que buscamos elencar as práticas pedagógicas e de ensino que foram desenvolvidas neste tempo para minimizar os prejuízos que a paralisação das aulas ocasionou, não cabendo produzirmos uma análise sobre as medidas socioeducativas do adolescente durante seu período de medida de internação na Fundase3, e sim das ações de ensino. Nesse sentido, fez-se necessário identificar, em termos metodológicos, os métodos e técnicas vivenciadas que conectaram os sujeitos da EJA do CASE com a escola e seus professores, considerando que as aulas presenciais não eram oportunas para o momento e que 3A fundação é responsável por assistir/acompanhar adolescentes que cometem ato infracional e cumprem medidas socioeducativas no RN, ao todo são 10 unidades que atendem aos adolescentes em conflito com a lei, sendo desde unidades de atendimento provisório, de internação até de semiliberdade.
image/svg+xmlAreillen Ronney Rocha REGES e Emerson Augusto de MEDEIROSDoxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 23, n. 00, e022014, 2022. e-ISSN: 2594-8385 DOI: https://doi.org/10.30715/doxa.v23i00.17462 6 os adolescentes que cumprem medida socioeducativa de internação não podem ter acesso a aparelhos tecnológicos que ofereçam comunicação. Este último informe é uma das especificidades, dentre tantas outras, encontradas em unidades de privação de liberdade para professores. Vale dizer que, para a construção de uma educação de qualidade, também é necessário o saber-fazer pedagógico, especialmente, diante das especificidades e problemáticas que possam ser encontradas no cotidiano escolar. Portanto, elencamos as ações educativas adotadas no período pandêmico pelo CASE/Mossoró RN. Ensinar e aprender no CASE, Mossoró RN, no contexto pandêmico uma experiênciaEste relato tem como lócus de vivência a unidade de atendimento socioeducativo de internação de Mossoró-RN. A referida cidade é a segunda mais importante do Estado e localiza-se no noroeste potiguar, entre duas regiões metropolitanas, Fortaleza (CE) e Natal (RN)4e distância cerca de 200 km de cada uma delas. A mencionada unidade de atendimento socioeducativo é o CASE/Mossoró, ela atende os adolescentes em conflito com a lei que cometeram ato infracional e que cumprem medida socioeducativa de internação. O mapa 1, destacado na sequência, diz respeito à localização da cidade de Mossoró-RN, do mesmo modo também evidencia a boa posição geográfica que detém entre as capitais. Mapa 1Localização da cidade de Mossoró Fonte: Elias e Pequeno (2010)4Essa localização específica é apontada por Elias e Pequeno (2010) como um dos fatores do crescimento e desenvolvimento da cidade, que vem acompanhado de um aumento significativo da criminalidade nos últimos anos, refletindo diretamente no crescimento da população privada de liberdade.
image/svg+xmlEnsinar e aprender em contextos de privação de liberdade e isolamento social: Uma experiência com socioeducandos do CASE, Mossoró-RNDoxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 23, n. 00, e022014, 2022. e-ISSN: 2594-8385 DOI: https://doi.org/10.30715/doxa.v23i00.17462 7 Em Mossoró-RN, dentre as várias instituições que trabalham com a EJA, temos o Centro de Educação de Jovens e Adultos (CEJA) Professor Alfredo Simonetti, que é uma escola estadual localizada no bairro Santo Antônio, que foi inaugurada em junho de 1978, mas só foi instituída oficialmente pelos Dec. 7.707 de 05 de outubro de 1979 (ensino de 1°grau) e Dec. 9.008 de 13 de julho de 1984 (ensino do 2°grau). Com a Missão de “Prestar relevante serviço, no âmbito educacional, oportunizando um ensino de qualidade aos jovens de Mossoró, zona rural e cidades vizinhas”, e que atende cerca de 1.100 alunos.O CEJA tem uma parceria educacional/escolar e é o responsável por assistir os adolescentes que cumprem medida socioeducativa no Centro de Atendimento Socioeducativo (CASE). O CEJA é responsável por enviar material didático e disponibilizar professores para a unidade socioeducativa. O CASE é uma das unidades de atendimento socioeducativo da FUNDASE no Rio Grande do Norte. O CASE é a única unidade de internação em Mossoró e é assistida pelo CEJA. A equipe da unidade é composta por Gestão, Equipe Técnica (pedagogos, psicólogos e assistentes sociais) e Agentes Socioeducativos. Os adolescentes desta unidade (apenas do sexo masculino) cumprem, no mínimo, medida de seis meses de internação (privação de liberdade), sendo reavaliados ao fim deste tempo, podendo ser prorrogada por igual período ou progredida para uma medida menos gravosa, como semiliberdade e liberdade assistida. Este último é de responsabilidade do poder Municipal, acompanhar a família e a medida socioeducativa do adolescente, através dos CRAS5e CREAS6. A escola dentro do sistema é obrigatória e deve ser prioridade durante o período de internação do socioeducando, como mencionado. Apesar de ser considerada um “sub-núcleo” do CEJA, a EJA no CASE possui uma estrutura escolar nas suas dependências, contando com salas de aula, auditório, secretaria e biblioteca. Embora seja uma estrutura escolar, o espaço traz também elementos de segurança tanto para os alunos, quanto para os servidores. Ainda que estes elementos não descaracterizem o ambiente escolar. A escola segue a mesma sistemática de ensino da CEJA, adequando-se apenas às particularidades de logística e funcionamento da Unidade. Devido à faixa etária de idade, o CEJA fornece professores apenas para o Ensino Fundamental, ofertando as disciplinas de Linguagem (Português e Inglês), Matemática, 5O Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) é a unidade pública responsável por oferecer serviços, programas e benefícios voltados a prevenir situações de risco e a fortalecer os vínculos familiares e comunitários. 6O Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) é uma unidade pública da Assistência Social que atende pessoas que vivenciam situações de violações de direitos ou de violências.
image/svg+xmlAreillen Ronney Rocha REGES e Emerson Augusto de MEDEIROSDoxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 23, n. 00, e022014, 2022. e-ISSN: 2594-8385 DOI: https://doi.org/10.30715/doxa.v23i00.17462 8 Ciências Humanas (Geografia, História e Ensino Religioso) e Ciências (Física, Química e Biologia), adotando o multisseriado como organização do ensino e buscando reconhecer os diferentes níveis de conhecimento. Nessa lógica, os professores da instituição lecionam através do conjunto de disciplinas, ou seja, o professor de Ciências Humanas detém as três disciplinas da área. Durante o período de pandemia, a escola do CEJA/CASE teve a suspensão total das aulas, bem como todas as escolas do Estado. Em meio a tantas incertezas, algo precisava ser feito para reduzir a ausência de aulas e não penalizar ainda mais jovens já tão penalizados socialmente. Com isso, houve a necessidade de pensar em novas estratégias e ferramentas que pudessem suprir esta ausência física do professor e/ou a diminuição do número de aulas. O CASE contava com quatro professores à época e cerca de 48 adolescentes na Unidade - capacidade máxima de internos - mas nem todos estavam matriculados no CEJA, devido à falta de professor. O défice de professores é um problema recorrente nos sistemas prisionais e socioeducativos. Apesar de não matriculados, os professores, juntamente com os profissionais da Unidade, resolveram assistir todos os internos naquele momento, tendo em vista o isolamento que enfrentavam e que o material produzido poderia ser usado com os demais. Observada as dificuldades de comunicação, sobretudo quando se tratam de sistemas de privação de liberdade, os professores foram desafiados pela Subcoordenadoria de Educação de Jovens e Adultos (SUEJA) a tentar se comunicar com os alunos através de cartas, levando em consideração o período de isolamento ocasionado pela Pandemia, além das particularidades do acesso à comunicação da própria Unidade. Esta primeira indicação é uma das mais impactantes neste processo. Como imaginar que um mundo globalizado, desenvolvido e tecnológico precisaria utilizar de um dos primeiros e mais antigos meios de comunicação. Contudo, foi através desse primeiro recurso que foi possível restabelecer contato com a Unidade e consequentemente com os alunos, e só a partir desta abertura, desenvolver formas e práticas de ensino que pudessem atender à necessidade educacional perante o momento. Antes de abordarmos as formas e práticas educacionais desenvolvidas posteriormente, é relevante enfatizar a importância que este primeiro momento com as cartas ocasionou em todo o processo. De fato, esse já é um dos possíveis meios de comunicação utilizado nos sistemas de privação de liberdade do país para contato mútuo entre os socioeducandos e os familiares7, 7O Regimento Interno da Fundase regulamenta o funcionamento das Unidades Socioeducativas do Estado, o Manual de Segurança destaca no Art. 15º. Todas as cartas ou qualquer outra forma de escrito confeccionados
image/svg+xmlEnsinar e aprender em contextos de privação de liberdade e isolamento social: Uma experiência com socioeducandos do CASE, Mossoró-RNDoxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 23, n. 00, e022014, 2022. e-ISSN: 2594-8385 DOI: https://doi.org/10.30715/doxa.v23i00.17462 9 mas diante do contexto antes pandêmico pouco se era utilizado, visto que as visitas presenciais e as ligações telefônicas, feitas semanalmente, eram suficientes para estabelecer o elo de sociabilidade com os familiares. No contexto pandêmico, o uso das cartas ocasionou estranhamento, dificuldade e curiosidade ao primeiro contato com os estudantes. Estas sensações podem ser explicadas pela falta de familiaridade, bem como pelo desconhecimento de estudos sobre tipos e classificação de cartas. Em vista disso, despertou-se nos professores uma maneira de trabalhar a referida temática, de forma interdisciplinar, em sala de aula. Seria essa a primeira aula planejada em conjunto para dar sequência nas aulas remotas. Vejamos a figura um. Figura 1Primeira aula remota (cartas) Fonte: Arquivo pessoal de um dos autores (2020) O registro fotográfico acima mostra as primeiras aulas, em sala, após o isolamento dos educandos na própria Unidade8. As cartas proporcionaram momentos insólitos e de muita emoção em um tempo tão delicado, receber e produzi-las despertou sentimentos de elo e aproximação que, mesmo em aulas presenciais, jamais foram vivenciados. Diante desses pensamentos, de fato, as aulas iniciaram com a temática de meios de comunicação e tipos de cartas. Posteriormente, veio a produção de cartas-resposta para os professores. Tivemos acesso a elas, desenvolvemos uma análise documental e destacamos que, apesar da pouca habilidade com a escrita, os relatos trazidos são impressionantes e revelam a pelos/as socioeducandos/as serão entregues à Equipe Técnica para providências cabíveis, efetuando-se registro no livro de ocorrências. 8Todas as figuras apresentadas no texto foram borradas. O intuito é preservar e resguardar a imagem e identidade dos adolescentes privados de liberdade, como prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Direitos estes personalíssimos, considerados fundamentais e arrolados em forma de cláusula pétrea na Constituição Federal de 1988.