Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 24, n. esp. 1, e023007, 2023. e-ISSN: 2594-8385
DOI: https://doi.org/10.30715/doxa.v24iesp.1.18175 1
ESTILHAÇOS: SOBRE MODOS (IM)POSSÍVEIS DE PENSAR POLÍTICAS QUEER
FRAGMENTOS: SOBRE (IM)POSIBLES FORMAS DE PENSAR LA POLÍTICA
QUEER
SHARDS: ON (IM)POSSIBLE WAYS OF THINKING ABOUT QUEER POLITICS
Como referenciar este artigo:
ROCHA, Késia dos Anjos. Estilhaços: Sobre modos
(im)possíveis de pensar políticas queer. Doxa: Rev. Bras.
Psico. e Educ., Araraquara, v. 24, n. esp. 1, e023007, 2023.
e-ISSN: 2594-8385. DOI:
https://doi.org/10.30715/doxa.v24iesp.1.18175
| Submetido em: 15/02/2023
| Revisões requeridas em: 22/04/2023
| Aprovado em: 11/06/2023
| Publicado em: 01/08/2023
Editor:
Prof. Dr. Paulo Rennes Marçal Ribeiro
Editor Adjunto Executivo:
Prof. Dr. José Anderson Santos Cruz
1
Universidade Federal de Sergipe (UFS), São Cristóvão SE Brasil. Doutoranda em Educação.
Estilhaços: Sobre modos (im)possíveis de pensar políticas queer
Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 24, n. esp. 1, e023007, 2023. e-ISSN: 2594-8385
DOI: https://doi.org/10.30715/doxa.v24iesp.1.18175 2
RESUMO: A partir da composição de pequenas cenas que rememoram episódios recentes que
retratam as disputas em torno das questões de gêneros e sexualidades no campo das políticas
públicas no Brasil, procuro refletir sobre as (im)possibilidades de falarmos em políticas queer.
Não seria utópico falarmos em políticas queer em uma sociedade ancorada em uma cultura
cisheteropatriarcal e colonial? Se, por um lado, as cenas nos mostram que houve uma
intensificação e fortalecimento de grupos e organizações antigênero, que vêm atuando dentro e
fora das instituições no intuito de impedir avanços relacionados às políticas de gênero, elas
também expõem o nível de (des)comprometimento de governos de esquerda com essas mesmas
pautas. Como espelhos quebrados, essas cenas no ajudam a compreender esse cenário e
imaginar, como nos sugere a pensadora Jota Mombaça, outros mundos possíveis a partir da
quebra, da politização das feridas.
PALAVRAS-CHAVE: Políticas queer. Políticas antigênero. Políticas educacionais.
RESUMEN: A partir de la composición de pequeñas escenas que recuerdan episodios
recientes que retratan las disputas en torno a cuestiones de género y sexualidad en el ámbito
de las políticas públicas en Brasil, intento reflexionar sobre las (im)posibilidades de hablar de
políticas queer. ¿No sería utópico hablar de políticas queer en una sociedad anclada en una
cultura cisheteropatriarcal y colonial? Si, por un lado, las escenas nos muestran que se ha
producido una intensificación y fortalecimiento de los grupos y organizaciones anti-género,
que vienen actuando dentro y fuera de las instituciones para impedir avances relacionados con
las políticas de género, también exponen el nivel de (des)compromiso de los gobiernos de
izquierda con estas mismas agendas. Como espejos rotos, estas escenas nos ayudan a entender
este escenario y imaginar, como sugiere la pensadora Jota Mombaça, otros mundos posibles
a partir de la ruptura, desde la politización de las heridas.
PALABRAS CLAVE: Política queer. Políticas antigénero. Políticas educativas.
ABSTRACT: From the composition of short scenes that recall recent episodes that portray
disputes around issues of gender and sexuality in public policies in Brazil, I try to reflect on the
(im)possibilities of talking about queer policies. Wouldn't it be utopian to talk about queer
policies in a society anchored in a cisgender-straight-patriarchal and colonial culture? If, on
the one hand, the scenes show us that there was an intensification and strengthening of anti-
gender groups and organizations, which have been acting inside and outside institutions in
order to prevent advances related to gender policies, they also expose the level of commitment
of left-wing governments to these same agendas. Like broken mirrors, these scenes help us
understand this scenario and imagine, as suggested by researcher Jota Mombaça, other
possible worlds from the breaking, the politicization of wounds.
KEYWORDS: Queer politics. Anti-gender policies. Educational policies.
Késia dos Anjos ROCHA
Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 18, n. esp. 1, e023007, 2023. e-ISSN: 2594-8385
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Estilhaços
Cinco pequenas cenas nos guiam no desenho do presente ensaio. Um diálogo sobre
políticas públicas e políticas de educação, mas, sobretudo, uma reflexão que nos convida a
imaginarmos outros cenários possíveis para nossas vidas e práticas cotidianas. Uma reflexão
provocativa sobre as (im)possibilidades das políticas e (micro)políticas queer (POCAHY,
2016) na Educação. Desenhos tortos, fora das linhas, rasurados, borrados. Indisciplinados. De
‘vetar kit gay’ a combater ‘ideologia de gênero’. As cenas se apresentam diante de nós como
acontecimentos-estilhaços (MOMBAÇA, 2021). Espelhos quebrados, pedaços que se
esparramam pelos ares até que se remontam numa espécie de realidade social distópica. Mistura
de ficção e realidade. Os cacos espelham fogueiras/chamas, monstros, bruxas, mamadeiras de
piroca, criancinhas rosas e azuis, crianças viadas, cambalhotas, chás de revelação, famílias,
bonecas-meninas, carrinhos-meninos, menines sereias. As cenas também expõem uma breve
síntese de episódios que rememoram as recentes disputas travadas por movimentos contrários
ao debate sobre gêneros e sexualidades na educação. Queimar a Bruxa. Saudar torturadores.
Vetar ‘kit gay’. Produzir notícias falsas. Inventar monstros. Proteger criancinhas. Combater os
monstros inventados. Ficções. Realidades. Estilhaços.
Queimar bruxas, vetar kit gay, inventar monstros e proteger criancinhas
Cena I. “Meu governo não faz propaganda de opções sexuais
“Não vai ser permitido a nenhum órgão do governo fazer propagandas de opções
sexuais; de nenhuma forma, nós não poderemos interferir na vida privada das pessoas” disse
a presidenta Dilma Rousseff quando indagada pela imprensa acerca do veto ao Kit Escola sem
Homofobia no ano de 2011. Indagada sobre possíveis abordagens futuras, ela se despedia
sorridente dizendo: - “O futuro? A Deus pertence”.
Cena II - “Pela memória do coronel Carlos Brilhante Ustra, o terror de Dilma Rousseff”
(Jair Bolsonaro, 31 de agosto de 2016)
Brasília. 2016. 31 de agosto. É Golpe! É Golpe? Não! É Impeachment. Mas é golpe.
Processo democrático em curso? Misoginia? Machismo? Votação. No país do futebol placar 61
a 20. Mas não se iludam, não era um bate-bola, pelada, campeonato. Deputado Jair Bolsonaro,
também chamado Messias no sobrenome, começa seu discurso: - “Perderam em 64, perderam
em 2016. Pela família e pela inocência das crianças em sala de aula (...) contra o comunismo,
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Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 24, n. esp. 1, e023007, 2023. e-ISSN: 2594-8385
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pela nossa liberdade, contra o Foro de São Paulo, pela memória do coronel Carlos Alberto
Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff (...) meu voto é sim”. E seguimos assim. ‘Brasil
acima de tudo’. ‘Deus acima de todos’. ‘Tá okay?
Cena III. Eleições 2018
Brasil. 2018. Ano eleitoral. Notícias falsas. Fake News. Combustível para as eleições.
Kit Gay. Mamadeiras de piroca. Jesus é travesti. Ideologia de gênero. Pânico Moral. O processo
eleitoral de 2018 teve gênero. Trouxe o gênero como algo a ser combatido. Uma ameaça.
WhatsApp. Memes. Figurinhas. Grupos de família. Brigas de família. Fim da amizade.
‘Qualquer coisa, menos o PT’. Qualquer coisa. Q u a l q u e r C O I S A.
Acontecimentos. Ou, poderíamos ousar dizer, feitos de uma política branco-colonial-
cisheteropatriarcal
2
. Ou ainda, como sugere Mombaça (2021, p. 18), [...] o uso branco e
cisgênero
3
das categorias justiça social para seguir replicando as condições de reprodução da
injustiça sistêmica”. A expressão ‘ideologia de gênero’ adentrava à cena brasileira, era o ano
de 2007 e, incialmente, ela circulava pelas instituições ligadas a Igreja Católica. Nesse mesmo
período, no ano de 2008, o livro ‘Agenda de Gênero’ de Dale O’Leary era traduzido no Brasil
pela editora católica da Canção Nova e marcava uma investida também no campo da literatura
especializada e da difusão das ideias. Pouco depois, também tivemos a tradução do livro do
argentino Jorge Scala ‘Ideologia de Gênero, neototalitarismo e morte da família’. O livro de
Scala se converteu em material importante para a fundamentação daquelas pessoas que se
colocavam à frente da difusão das políticas e discursos antigênero. Esse material bibliográfico
passou a ser difundido e compartilhado pelos meios digitais, passou a ser discutido e
popularizado por youtubers que contribuíram para inflar um movimento em prol de uma agenda
antigênero no Brasil.
Demarquei o ano de 2007, mas se olharmos para trás veremos que isso tudo não é novo.
Desde os finais do Estado Novo os eclesiásticos católicos questionavam artigos sobre o aborto
no código penal de 1940. Nos anos 1960, a Igreja Católica atuou no sentido de proibir o acesso
das mulheres aos anticoncepcionais. O incômodo com as homossexualidades ocupa a cena mais
a partir da década de 1980, após o advento do HIV-Aids. No contexto dos anos 1990, a pauta
antiaborto reuniu um grupo diverso de conservadores (católicos, protestantes, seculares,
2
Cisheteropatriarcado é o sistema sociopolítico no qual o sujeito cisgênero, heterossexual e do gênero masculino
detém a hegemonia e o poder de decisão sobre todas as demais pessoas.
3
O termo cisgênero é utilizado para denominar as pessoas que se identificam com o gênero que lhes foi atribuído
no momento do nascimento.
Késia dos Anjos ROCHA
Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 18, n. esp. 1, e023007, 2023. e-ISSN: 2594-8385
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kardecistas, etc.). As tentativas de conter a autonomia reprodutiva das mulheres e as liberdades
de exercícios das sexualidades e diferentes performances de gêneros fazem a base para o que
algumes
4
pesquisadores vêm denominando ‘cruzada antigênero’. Assim, gênero, sexualidades
e aborto se tornam elementos de disputas no âmbito das políticas públicas de educação, saúde
e direitos humanos (JUNQUEIRA, 2018; CORRÊA; KALIL, 2020).
Corrêa e Kalil (2020, p. 10, tradução minha), ao analisarem as ofensivas antigênero no
contexto brasileiro, compreendem-nas como “dispositivos de acumulação de poder político que
se nutrem de resistências às transformações das ordens de gênero e sexualidades”. As autoras
também nos apresentam as conferências da Organização das Nações Unidas - ONU, em especial
as Conferências do Cairo (1994) e Pequim (1995) como cenários nos quais ocorreram os
primeiros ataques ao gênero proferidos pelo Vaticano e outros aliados conservadores.
Rememoram alguns posicionamentos do Brasil no cenário das conferências internacionais
destacando que, em Durban (2000-2001) o país apresentava uma pauta em relação a direitos
humanos que era bastante inédita e sugeria avanços. Entre 2003 e 2016, momento que
compreende a gestão dos governos de esquerda, cabe destacar a grande participação dos
movimentos sociais no controle social das políticas públicas. Foi no contexto dessas gestões
que tivemos também a ocorrência das I Conferência Nacional LGBT
5
(2008), Conferência de
Políticas para as Mulheres (2004), criação da Secretaria de Educação Continuada,
Alfabetização e Diversidade - SECAD
6
(2004), lançamento do Programa Brasil sem
Homofobia (BRASIL, 2004) e aprovação da Lei Maria da Penha (BRASIL, 2006).
Paralelamente a isso, de 1998 a 2014, tivemos um crescimento da bancada evangélica
no poder de 44 para 90 membros - e um avanço da frente parlamentar pela vida e contra o
aborto. Atualmente a Bancada Evangélica conta com 132 deputados e 14 senadores eleitos na
última eleição de 2022. O veto do Kit Escola sem Homofobia (2011) e aquela fala quase
profética da presidenta: ‘o futuro a Deus pertence’, reverberam como nunca nos dias atuais. O
veto ao Kit sempre passeia pelas minhas memórias. Essa cena me ajuda a pensar sobre a relação
conflituosa entre políticas de gênero, sexualidades e educação, ou poderíamos sintetizar: sobre
gênero e políticas públicas. Naquela ocasião, a então presidenta da república Dilma Rousseff,
4
Ao longo do texto, utilizo algumas vogais outras, como e/u/i, no intuito de problematizar a hegemonia da
linguagem binária oficial. No entanto, linguagem binária ‘o/a’, será utilizada em algumas situações, em geral
quando me referir a cisheteronorma.
5
Aqui mantive a sigla como era utilizada na ocasião LGBT lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros.
6
A SECADI Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade Inclusão foi criada em 2004, foi a
partir de 2011 que o eixo Inclusão passou a integrar as competências da Secretaria. No ano de 2019, o Ministério
da Educação MEC, sob gestão de Ricardo Vélez Rodrigues, extinguiu a Secretaria. Em janeiro de 2023, com a
eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, a secretaria acaba de ser reativada.
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ao ser interpelada pela mídia num momento de bastante tensão e disputas em torno do
lançamento e veto do Kit, tentava se justificar, em meio aos desconfortos gerados por todas as
alianças políticas que envolviam seu governo, sobre o porquê do veto: ‘meu governo não faz
propaganda de opções sexuais’.
Os bastidores das eleições de 2010 foram marcados pelo crescimento de um “ativismo
conservador” reativo a alguns avanços de pautas feministas e LGBTI+
7
e, olhar mais de perto
para esse momento nos auxilia no entendimento do posicionamento da presidenta frente ao Kit.
Depois de dois ciclos de um governo mais progressista, houve, por parte desses atores
religiosos, um empenho no sentido de recuperar uma espécie de política institucional de base
cristã e conquistar o voto religioso se tornou algo decisivo para quem desejasse vencer as
eleições de 2010 (MACHADO, 2012, p. 26). Ainda no primeiro turno das eleições, Dilma
visitou templos, se reuniu com líderes religiosos e teceu alianças. A candidata publicou dois
documentos importantes nos períodos de campanha que antecederam o primeiro e segundo
turnos das eleições presidenciais: a Carta aberta ao Povo de Deus, no qual reconheceu o papel
social das igrejas evangélicas no país e, pouco antes do segundo turno, publicou A mensagem
de Dilma, no qual apresentava uma sequência de compromissos de seu governo, principalmente
no que se referia a temática do aborto, família e outros pontos centrais nessa disputa:
2. Sou pessoalmente contra o aborto e defendo a manutenção da legislação
atual sobre o assunto; 3. Eleita presidente da República, o tomarei a
iniciativa de propor alterações de pontos que tratem da legislação do aborto e
de outros temas concernentes à família e à livre expressão de qualquer religião
no país; 4. O PNDH é uma ampla carta de intenções, que incorporou itens do
programa anterior. Está sendo revisto e, se eleita, não pretendo promover
nenhuma iniciativa que afronte a família (ROUSSEFF, 2010, n.p.).
O entendimento dos movimentos políticos e alianças firmados pela gestão de Rousseff,
embora importante, não é capaz de justificar sozinho os impasses que envolvem as formulações
de políticas públicas LGBTI+ no Brasil. De modo geral, é possível dizer, em diálogo com a
pesquisadora Bruna Irineu (2021), que o poder legislativo das duas primeiras gestões de Lula e
Dilma (2003-2016) não absorveram as pautas LGBTI+, nem tampouco questões como a
descriminalização do aborto. Algumas garantias de acesso a direitos por parte dessa população
como a união estável e o casamento civil, por exemplo, vieram por meio de decisões do
Judiciário. Na análise da pesquisadora sobre as políticas públicas LGBTI+ nesse período, ela
aponta que uma espécie de paternalismo, próprio do modo de gestão ‘Lulista’, poderia ser
7
Lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, intersexo e outras dissidências.
Késia dos Anjos ROCHA
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responsável por essa baixa institucionalização das políticas. A ideia de ‘paternalismo’ aparece
na análise que a autora faz da relação entre as gestões de Lula (2003-2010) e movimento social
LGBT. Intensificando a crítica sobre o tema, Irineu (2021) caracteriza o modo como as políticas
LGBTI+ foram pautadas por esses governos como parte de um pacote de “cidadania de
consolação”, algo que, na concepção dela, estaria fundamentado em uma “homofobia cordial”
(IRINEU, 2021, p. 581). Essa ideia de homofobia cordial pode ser melhor compreendida
quando observamos que, embora o Brasil apareça na cena internacional como um país avançado
em termos de direitos LGBTI+, na prática, a pasta não possuía orçamento específico e as
políticas não tiveram continuidade após as transições de um governo para o outro; o veto ao Kit
é um ótimo exemplo disso.
Com esse veto, vai-se desenhando e se fortalecendo os traçados de uma ideia de ‘criança
sob ameaça’, de infância em perigo. Para os grupos conservadores, afirmarem-se contrários aos
direitos LGBTI+ e favoráveis à violência parecia complicado; mais fácil e estratégico foi se
apresentarem como defensores das crianças (BALIEIRO, 2018). Cria-se, portanto, um inimigo
comum, que estaria ameaçando a integridade de crianças inocentes, expondo-as aos perigos de
um empreendimento pela ‘morte da família’, como traz o título traduzido da obra de Jorge
Scala. A partir daí, um grande apelo público se intensifica na sociedade; pais, mães,
responsáveis pelas crianças, docentes de ensino básico e igrejas são convocados a se
posicionarem diante dessa ameaça e a consequência tem sido uma série de investidas no sentido
de barrar políticas públicas e/ou vetar e editar políticas que promovam o respeito à
diversidade/diferença e/ou a igualdade de gênero.
Existiram condições políticas que possibilitaram o desenho dessa ofensiva antigênero.
Em 2013, combater a ideologia de gênero era uma pauta consolidada dos movimentos mais
conservadores e se pulverizava pelo país. Para Miskolci (2018) foi em meio às discussões sobre
os planos de educação que essa cruzada moral se disseminou ainda mais. Uma política do medo
foi instaurada nos espaços escolares. Docentes e estudantes vigiades. A educação passa a ser
personagem central dos conflitos e no âmbito dos debates sobre o Plano Nacional de Educação
- PNE, desabrocha o encontro e sela-se a parceria ecumênica entre forças católicas, evangélicas
e movimentos seculares como o movimento Escola sem Partido - ESP.
Quando olhamos para a cena que oficializa o Golpe contra a presidenta Dilma Rousseff,
o momento da votação pelo impeachment, chama bastante atenção as narrativas dos
parlamentares durante seus votos. No fragmento que trouxe para este texto, destaco a saudação
e reverência de Jair Bolsonaro a um torturador, saudação e anunciação do seu modo de pensar
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e fazer política, pautado no autoritarismo e na instigação de um golpe militar. Gaudêncio
Frigotto (2017) nos lembra bem que, durante a votação pela instauração do processo de
impeachment, que o autor chama de “golpe jurídico, parlamentar, policial e midiático”, mais de
90% dos parlamentares ali presentes utilizaram como justificativa de seus votos a defesa da
tríade Deus, Pátria, Família. O autor também nos conduz a um flashback e nos relembra que,
nos idos de 1964, quando sofríamos um golpe civil-militar, essa era a base do pensamento que
o ancorava: Deus, Pátria, Família versus Comunismo.
A cena das prévias da eleição presidencial de 2018 mostrou o desfecho desse Golpe.
Anunciou o que estaria por vir: ‘qualquer coisa, menos o PT’ é uma expressão que traduz essa
investida promovida pelo ESP na qual partidos de esquerda passam a ser renomeados de
comunistas, gayzistas, abortistas, ameaçadores à família e às crianças. Há uma redução dos
espaços de diálogos dissonantes e a abertura de uma arena de aceite de violências: es
amamentando em público, pessoas negras, gays afeminadas, pessoas trans, pessoas não
binárias, sapatonas corpos sob ameaças cotidianas. Como disse Bolsonaro à época: ‘perderam
em 1964, perderam em 2016’, ‘Deus acima de todos’.
Eu mencionei o movimento Escola sem Partido, mas é importante contextualizar que o
movimento vinha atuando desde 2004 a partir da pauta de uma educação neutra ou, como eles
mesmos se apresentavam, contra o avanço de uma possível doutrinação comunista. Nos anos
mais recentes, eles abraçaram a pauta moral de combate à ideologia de gênero e passaram a
incentivar as denúncias contra docentes que viessem a abordar as questões de gêneros na sala
de aula. Foram disponibilizados modelos de notificações extrajudiciais, bem como modelos de
projetos de leis para proibição da abordagem de gêneros e sexualidades nas escolas. Para a
pesquisadora Elisabeth Macedo (2017, p. 519) [...] o ESP veio explicitar, pelo viés da
intolerância ao outro, a inadequação do político na escola”, o movimento se tornou um
empreendedor moral importante nessa cruzada antigênero e um dos principais agentes
responsáveis pela associação dos governos de esquerda à ideia de incentivo a desvios morais
(PENNA, 2017; BALIEIRO, 2018; MOURA; SALLES, 2018).
Corrêa e Kalil (2020, p. 70) acreditam que é nesse momento que “germina um consenso
ecumênico” que vai caracterizar essas ofensivas no contexto brasileiro. Conforme analisa
Almeida (2019, p. 209):
[...] o conservadorismo religioso oscila entre resistir às mudanças (só existem
famílias heterossexuais, por exemplo), provocar mudanças regressivas (o
aborto é criminalizado em qualquer situação, o que retroage à legislação de
Késia dos Anjos ROCHA
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1943) e aderir a certos valores deste mundo (ética empreendedora e o aumento
da violência de Estado).
A partir dessas parcerias, os grupos se dividem na missão de retirar a pauta de gênero
dos planos de educação nacional, estaduais e municipais. Começa uma caçada ao gênero.
Mais de 40 projetos apresentados em câmaras municipais, que mesmo inconstitucionais e não
aprovados, mexeram com a cultura escolar e com a sociedade. Ainda conforme destacam
Corrêa e Kalil (2020, p. 70) “As cruzadas antigênero vêm atacando as diretrizes pedagógicas
sobre gênero e sexualidades na educação básica, média-superior, superior, no Brasil, América
Latina e Europa”. Falamos, portanto, de um movimento transnacional que vêm atuando
estrategicamente na defesa da manutenção do modelo cisheteropatriarcal de sociedade.
Cena IV. “Queimem a Bruxa!”
São Paulo. 2017. Novembro. Manifestantes se reúnem em frente a uma das unidades do
Serviço Social do Comércio - SESC. Cruzes. Terços. Bíblias. Bandeiras do Brasil. Esses são os
principais estandartes utilizados pelas pessoas manifestantes. Fora isso: FOGO! “Pedofilia
Não”. “Não à zoofilia”. “Escola sem Partido já!”. “Menos Butler, mais família”. “Não à
ideologia de nero nas escolas”. “Não ensinem perversão às nossas crianças”. Fora
aberração de gênero go home!”. “Homem é homem, mulher é mulher, aqui no Brasil, você
não faz o que quer”. “Menos bruxas, mais príncipes e princesas”. “Viva às princesas do
Brasil”. QUEIMEM A BRUXA! E fogo! [Ao fundo é possível ouvir em coro suave: ‘pai nosso
que estais no céu, santificado seja o vosso nome...’]. QUEIMEM A BRUXA! E FOGO! Sim,
atearam fogo. A boneca Butler-bruxa era queimada ali mesmo, na rua. E isso não é a
apresentação de nenhum roteiro de filme medieval. Eu juro.
Nos anos de 2014 e 2015, a expressão ideologia de gênero estava na boca do povo.
Já estava posta uma cruzada moral contra a palavra gênero. E é um pouco depois disso, no ano
de 2017, que acontecem as manifestações contra a filósofa Judith Butler narrada na cena acima.
Temos um elemento novo, gênero e ideologia de gênero passam a ser relacionados, pelos
movimentos antigênero, à imagem e produção teórica de Butler (LUNA, 2017; MISKOLCI,
2018; CYFER, 2018). A tal ideologia estaria, portanto, ameaçando crianças e jovens e expondo-
as aos perigos de uma indução às expressões de gêneros e identidades de gêneros dissidentes,
à pedofilia, a zoofilia, a experienciação do sexo precocemente, a uma adesão ao comunismo,
dentre outras coisas e tudo junto e misturado.
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Cena V. “Meninos vestem azul e meninas vestem rosa”: uma verdade sacrossanta?
Brasil. Início de 2019. Nos bastidores da posse da nova ministra do Ministério da
Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, ouvimos seu brado festivo:
“Atenção, atenção! É uma nova era no Brasil: menino veste azul e menina veste rosa”. Os
apoiadores saúdam e vibram ao redor da ministra. Sua atuação no ministério divide espaço com
as ações que desempenha enquanto pastora evangélica. Defende, em seus discursos na internet,
que é o momento de a Igreja governar o país: “O Estado é laico, mas esta ministra é
terrivelmente cristã”.
Se tem uma coisa que me parece impossível é deixar as sexualidades e os gêneros
guardados em casa e irmos para a escola ou à missa, ou ao culto, ou ao terreiro, sem eles. O
máximo que se faz é tentar trancafiá-las num armário ou outro, mas sabemos que isso é
complexo. Assim, talvez pudéssemos partir de um ponto quase consensual de que gêneros e
sexualidades estão aqui, juntinhos da gente, por onde quer que caminhemos. Quando penso na
escola, especificamente, sempre me lembro que passei longos anos da minha infância e
juventude nela, foi que vivenciei muitas das experimentações afetivas, foi que passei a
tomar algum tipo de consciência sobre como me via/sentia enquanto menina/mulher,
atravessada também por outros eixos de poder como raça, classe, sexualidades, geração etc.
Pois é, é tempo demais num espaço para achar que a gente o ocupa sendo somente metade ou
parte daquilo que somos. A gente está lá inteira, com nossos medos, anseios, expectativas,
contradições e mutações.
Pensando no campo da educação que, como mencionei, está no centro das disputas
que envolvem as campanhas contra as discussões sobre gêneros e sexualidades nas escolas, é
possível dizer, provocada pelo diálogo com Chiaradia e Cassal (2019, p. 238) que tivemos uma
espécie de “virada conservadora das políticas públicas de educação”. Migramos da inclusão de
uma determinada perspectiva de gênero e sexualidade como temas transversais nos Parâmetros
Curriculares Nacionais PCN (BRASIL, 1998), que era datada de 1997, para a supressão total
no Plano Nacional de Educação - PNE em 2014 (BRASIL, 2014) e também na Base Nacional
Comum Curricular BNCC aprovada em 2017 (BRASIL, 2018). A versão aprovada do PNE
excluiu as menções a palavra gênero e apresentou, em sua versão final, apenas o genérico termo
‘combater às desigualdades educacionais’ (VIANNA; BORTOLINI, 2020) e a versão aprovada
da BNCC varreu de seu texto as menções a gênero e orientação sexual.
Retomando um pouco o episódio de Butler, nesse mesmo ano da sua passagem pelo
país, a Base Nacional Comum Curricular BNCC (BRASIL, 2018) teve sua terceira e última
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versão aprovada sem menções a gênero e orientação sexual, censuradas do documento. A
temática da sexualidade aparece apenas nas diretrizes para o ensino de ciências e indicadas
somente para os conteúdos do oitavo ano do ensino fundamental. A abordagem da sexualidade
centra-se ainda em uma perspectiva biologizante, ou seja, relacionada a conteúdos como
infecções sexualmente transmissíveis - IST, gravidez e reprodução (SILVA; BRANCALEONI;
OLIVEIRA, 2019). Para contextualizar um pouco a importância do presente documento,
retomo brevemente os finais dos anos 1990, momento bastante importante para as políticas de
educação, principalmente no que compreende a ampliação dos debates sobre direitos humanos
e respeito às diferenças. Datam deste momento a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional LDB (BRASIL, 1996) que viria a estabelecer a autonomia na organização
e gestão da educação por parte dos estados da federação. Na sequência, tivemos a instituição,
em 1997, dos PCN (BRASIL, 1997), que foi bastante analisado por muites pesquisadores
que reconhecem a sua importância para o campo das políticas de igualdade de gênero, uma vez
que foi o documento que oficializou a educação sexual como algo importante nos currículos e
nas escolas. Relembro que os PCN traziam a indicação de que docentes trabalhassem, de
maneira transversal, com o tema ‘orientação sexual’ (MACEDO, 2017; CARDOSO et al.,
2019; ROCHA, 2012; SILVA; BRANCALEONI; OLIVEIRA, 2019).
Os impactos dessa virada conservadora das políticas ressoam também nos currículos das
escolas. Paraíso (2016) entende o currículo como território, espaço de governo e de resistências,
que envolve múltiplas forças, atravessado por investidas normalizadoras e também criadoras de
possibilidades inventivas. Sobretudo, ela nos apresenta o currículo como cenário incontrolável,
conforme a autora [...] exatamente por ser incontrolável, o currículo é escolhido por grupos
reacionários para se fazer a coibição, o impedimento, a proibição e controle dos temas gênero
e sexualidades” (PARAÍSO, 2016, p. 390). Segundo a autora, são usadas estratégias de
“tradução, multiplicação, distorção e amedrontamento” (PARAÍSO, 2016, p. 390) como
recursos de controle dos currículos. Esse jogo de inclusão e exclusão de termos nos documentos
oficiais é traduzido pela autora como uma ciranda entre currículo, gênero, poder e resistência.
Falar sobre políticas públicas e sobre políticas de educação no presente texto se faz
importante porque os resultados dos conflitos apresentados reverberam justamente nas
políticas, nos currículos, no cotidiano dos espaços educativos. É no contexto das cenas e
espaços do cotidiano que observamos os impactos da existência ou não dessas políticas. Cada
momento histórico e político é permeado por diferentes relações e disputas de poder e isso
também se traduz na materialização das políticas. Questões como acesso e permanência à
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educação se apresentam como fundamentais nessa cena cotidiana e é um dos principais pontos
desse debate. Compreender um pouco melhor os caminhos e cruzamentos das normativas,
parâmetros, diretrizes que embasam as ações do dia a dia dos espaços educativos nos permite
repensar nossas práticas e compreender os retrocessos e possíveis avanços que poderíamos vir
a esperar.
Além dos pontos apresentados, é importante situarmos que as transformações no
campo das políticas públicas de educação, e não somente, se inserem num contexto político,
social e econômico maior. Biroli, Vaggione e Machado (2020) enfatizam em seu estudo sobre
a relação entre gênero, democracia e neoconservadorismo na América Latina que, para
compreendermos melhor esse fenômeno, precisamos identificar a relação entre as religiões, as
democracias atuais e o neoliberalismo. Os chamados fatores morais devem ser pensados
juntamente com os econômicos uma vez que um dos aspectos novos dessa onda é justamente a
aliança que se formou entre católicos conservadores, segmentos evangélicos conservadores e
neoliberalismo em torno do sentido de família. Para as autoras, o principal ponto dessa aliança
entre neoconservadorismo e neoliberalismo é que eles “[...] convergem ao posicionar a família
no centro de sua concepção mais ampla de sociedade”, sobretudo “na perspectiva da
responsabilização das famílias em meio a processos amplos de mercantilização e privatização”
(BIROLI; VAGGIONE; MACHADO, 2020, n.p.). As chamadas questões morais, portanto,
ocupam lugar central nas lógicas e dinâmicas das sociedades capitalistas e neoliberais, já que a
responsabilidade pelo sucesso ou pelo fracasso ‘individuais’ cairiam justamente sobre a família
(FASSIN, 2021).
De modo geral, essas primeiras reflexões apresentadas, me fazem sugerir que ainda o
chegamos próximos de uma abordagem das questões de gêneros e sexualidades que caminhe
para além do modelo cisheteropatriarcal binário, com raízes em concepções biologizantes de
corpo, sexualidades e desejos. Acompanhando o balanço reflexivo feito por Cardoso et al.
(2019) é possível dizer que transitamos de um conjunto de políticas que apontavam para a ideia
de tolerância e respeito à diversidade como estratégias de ampliação do acesso e permanência
na educação, para políticas que tinham como proposta minimizar desigualdades considerando
eixos de poder como nero, orientação sexual e raça. No cenário das políticas de educação,
pensar a desconstrução dos modos de amar, desejar, performar nossas sexualidades e expressões
de gênero ainda se apresenta como uma proposta por vir.
A ‘nova era’ de Damares, bem como todas as ações do governo de Jair Bolsonaro,
deixaram marcas bastante profundas nas instituições democráticas brasileiras. No âmbito das
Késia dos Anjos ROCHA
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políticas de educação, temos um cenário de estreitamento das políticas voltadas para as questões
de gêneros e sexualidades, direitos humanos, direitos sexuais e reprodutivos. O crescimento da
Bancada Evangélica e outros grupos de parlamentares conservadores, representam alguns dos
desafios que enfrentamos e teremos de enfrentar nos próximos anos. A ‘nova era’ na qual
tivemos o Presidente da República vetando a distribuição de absorventes higiênicos para
estudantes do ensino fundamental e médio e para pessoas em situação de vulnerabilidade social,
defendendo intervenção militar e saudando torturadores impactou profundamente a nossa
democracia.
Ameaça às subjetividades infantis. Política do medo e ameaça à liberdade direcionadas
a educadores (as) e artistas (MISKOLCI, 2018; BALIEIRO, 2018; CHIARADIA; CASSAL,
2019); associação das homossexualidades à pedofilia apresentada como argumento para
justificar movimentos de censuras a ativistas pelos direitos humanos e, em especial, pelos
direitos sexuais e reprodutivos; censura à livros de literatura, performances e obras de arte em
geral (LIONÇO et al., 2018). Esses foram alguns dos elementos centrais dessa ‘era’ sobre a
qual intencionei falar nesse tópico.
Das (im)possibilidades das políticas queer na Educação
A promessa de um novo mundo moderno que promoveria igualdade, liberdade e
fraternidade parece não ter se concretizado, ao menos naquilo que a ciência moderna vem
denominando universal. Esse ideal parece mais um monumento em ruínas. Ou, um monumento
cisheteropatriarcal colonial em ruínas. Mesmo que muites se recusem a compreender os porquês
desse ruir, não como ignorarmos o sangue, os corpos, as feridas, os gritos, o estrondo dos
tiros que alguns insistem em dizer, perdidos. Por mais distantes que pareçam estar, esses
‘outres’, esses estranhos, bizarros, dissidentes, somos nós, estamos bem aqui. Somos mutantes.
Se, para a elite política branca, cisgênera, heterossexual e colonial que arbitra sobre nossas
existências no Congresso, nas Câmaras, nas universidades, nas escolas, nas igrejas, nas
empresas, não somos a representação daquilo que se entende humano e, portanto, não somos
sujeites que inspiram um modelo de mundo possível, como dar vazão a qualquer força de
mobilização política que nos mova em sentidos diferentes dos que foram apresentados no tópico
anterior? Como deixarmos de imaginar o jogo de poder das políticas públicas como um cabo
de guerra com equipes desproporcionalmente organizadas a puxar? No âmbito da política
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pública institucional, muitas vezes, o desfecho do jogo somos nós com a cara na poeira; puxam
a corda com muita força e lá vamos nós, direto ao chão.
Jota Mombaça nos fala sobre a politização da ferida, sobre a criação de mundos
possíveis a partir da quebra, ou seja, a partir de tudo aquilo que nos fragiliza, que nos estilhaça.
Na tentativa de definir o que seria esse estar junta na quebra’, a autora sugere que “a quebra
não são os estilhaços, mas o movimento abrupto, errático e desordenado do estilhaçamento”
(MOMBAÇA, 2021, p. 24). Talvez seja aquele exato momento em que a corda é puxada e
sentimos o impulso que antecede a queda. Então, fico me indagando: que políticas nascem do
estilhaçamento? Dialogando com as reflexões de Pocahy (2016) sobre como pensar e produzir
(micro)políticas queer na academia e na pesquisa, fiquei imaginando quais políticas ou
micropolíticas temos produzido. Para esse autor, as (micro)políticas queer,
Com suas epistemologias de mundo profanadoras, inquietas, abusadas,
radicalmente promíscuas, gordas e transbordantes de impaciência diante dos
coronéis da nova ordem política nacional (esteja esta nova ordem na academia,
na igreja, nos legislativos e outros lugares-práticas de polícia social),
multitudes de corpos em fuga fazem a vida pulsar, instaurando outras formas
de organização e coletividade apaixonadas pela fluidez e pelo prazer como
invenção ético-estético-política da vida (POCAHY, 2016, p. 226-227, grifo
nosso).
Fiquemos com a frase corpos em fuga que fazem a vida pulsar’. E pensemos nas
inúmeras manifestações cotidianas de questionamentos ou fugas da norma. Aquelas que
presenciamos ou vivenciamos nas ruas, nas escolas, nos museus, nas universidades, nas
manifestações artísticas, ou até mesmo nas casas de alguns parentes. Aquelas que vivenciamos
com nossas corpas dissidentes adentrando aos espaços sem pedir licença. As que nos lembram
que desejar e pautar o desejo é matéria prima de constituição de vidas. E até aquelas que avivam
nossa memória pela via da dor a dor do apontamento na rua, da agressão física, da negação
do afeto, do abandono, do comentário-cortante-violento sussurrado baixinho quando passamos:
sapatonas, aberrações...’.
Viver apesar do Brasil e [...] viver apesar de tudo. Na radicalidade do impossível” é o
que nos grita, em contrapartida, Jota Mombaça (MOMBAÇA, 2021, p. 14). Fiquemos com ela.
De acordo com a autora “O Brasil, essa ficção colonizada e recolonial, submissa ao
imperialismo e imperialista, dominada e dominante, nunca serviu de fato ao propósito das lutas
contínuas por libertação do território e dos corpos subjugados em sua construção”
(MOMBAÇA, 2021, p. 16). Restar-nos-ia, portanto, investir no corpo em fuga trazido no
parágrafo anterior. Corpo, gesto, palavra em fuga. Sou muito atravessada pelo questionamento
Késia dos Anjos ROCHA
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sobre a materialidade das políticas queer, e quando falo materialidade, me refiro àquelas
políticas ditas institucionais e às ditas subjetivas, se for importante para alguém separá-las.
Prefiro trabalhar com a perspectiva de dizermos políticas dos corpos ou políticas das vidas.
Conversando com o pensamento artístico-filosófico da artista Linn da Quebrada
8
, ela nos
provoca: “vamos pegar nos nossos corpos como armas” e Mombaça (2016, p. 344) interage:
sejamos “monstruosas no espaço na norma, indisciplinada no lugar da disciplina”. Dicas
número um e dois para pensarmos políticas queer.
Voltando um pouco aos estilhaços que têm nos acompanhado nesse encontro, Linn da
Quebrada compõe o próprio nome a partir dessa mesma ideia, daqueles cacos de um espelho
que, segunda ela, antes refletia um homem feito à imagem e semelhança de Deus
9
. Ela também
nasce na/da quebra. Estamos juntas. Para a criação de políticas queer, precisaríamos, então, de
algum tipo de destruição daquilo que está posto, precisaríamos abdicar do ‘eu essência’, do ‘eu
fixo’, do jeito certo de lecionar, escrever, pensar, comer, amar, e até de estarmos sozinhas.
Pocahy (2016), na sua provocação à produção acadêmica normativa advinda da cisgeneridade,
aponta a formação em educação e saúde como possíveis espaços para a inter-invenção de
ferramentas democráticas. Corpo como arma. Corpo-bomba que explode os significados fixos
da existência e da ciência. Ruir a partir de dentro. Estamos dentro desse mesmo cenário e não
pra sair. Lembrem-se: estamos vivas apesar de.... Políticas queer são como passos
improvisados e dançados sem coordenação, sem forma, que mexem com a estética, com a
norma. No movimento de improviso, a vida se torna incontrolável, porque muda o tempo todo,
porque abdicamos do que seria certo, bonito, normal, esperado.
Halberstam (2020, p. 133), em suas elaborações teóricas sobre a arte queer do fracasso,
sugere que “Os estudos queer nos oferecem um método para imaginar, não algum tipo de
fantasia de um outro lugar, mas alternativas existentes para sistemas hegemônicos”. Repito: ruir
a partir de dentro. Precisamos impedir que queimem as bruxas ou, como poetiza Linn da
Quebrada: “Não queimem as bruxas/ Mas que amem as bixas/ Mas que amem/ Que amem/
Clamem/ Que amem/ Que amem as travas também”
10
. Em meio a movimentações da política
institucional que se move e legisla pautada em terços, bíblias e bandeiras do Brasil, políticas
queer acontecem nos corpos-políticos que insistem em não morrer. Para Halberstam:
8
Lina Pereira dos Santos, também conhecida como Linn da Quebrada, é uma multiartista e pensadora brasileira.
9
Bixa Travesty (2018), documentário autobiográfico que narra um pouco da história da artista Linn da Quebrada.
Disponível em: https://globoplay.globo.com/bixa-travesty/t/c5LxGg2M7f/. Acesso em: 10 jun. 2022.
10
Música Oração’ de Linn da Quebra. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=y5rY2N1XuLI.
Acesso em: 10 jun. 2022.
Estilhaços: Sobre modos (im)possíveis de pensar políticas queer
Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 24, n. esp. 1, e023007, 2023. e-ISSN: 2594-8385
DOI: https://doi.org/10.30715/doxa.v24iesp.1.18175 16
Enquanto histórias liberais constroem narrativas políticas triunfantes com
histórias progressistas de desenvolvimento e sucesso, histórias radicais devem
lidar com um passado menos organizado, um que transmite legados de
fracasso e solidão como consequências de homofobia, racismo e xenofobia
(HALBERSTAM, 2020, p. 146-147).
Linn da Quebrada nos diz: “serei o transtorno para suas teses, porque estou e continuarei
em obras”
11
. Políticas queer são corpos em obras, que vivem e dançam apesar do Brasil. Longe
de nos apegarmos às narrativas triunfantes das promessas de uma política institucional
progressista, estamos alertas buscando pelas histórias radicais, ansiosas para que, se tivermos
um futuro, que ele nos apresente problemas diferentes desses que abordamos nessa escrita, que
tenhamos outros problemas e, portanto, outras novas soluções para criarmos.
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11
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dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; altera
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Estilhaços: Sobre modos (im)possíveis de pensar políticas queer
Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 24, n. esp. 1, e023007, 2023. e-ISSN: 2594-8385
DOI: https://doi.org/10.30715/doxa.v24iesp.1.18175 20
CRediT Author Statement
Reconhecimentos: Agradecimentos à toda equipe organizadora do ConQueer/2022, em
especial ao Prof. Dr. Alfrancio Ferreira Dias.
Financiamento: O texto apresentado é parte da pesquisa de doutorado da autora
intitulada ManiFesta por uma Educação sem juízo: artivismos das dissidências sexuais e de
gêneros, censuras e educação”; a pesquisa recebeu apoio financeiro da FAPITEC e CAPES.
Conflitos de interesse: A autora declara não haver conflitos de interesse.
Aprovação ética: Não se aplica.
Disponibilidade de dados e material: Não se aplica.
Contribuições dos autores: A autora foi responsável por toda pesquisa e elaborações
das reflexões apresentadas no texto.
Processamento e editoração: Editora Ibero-Americana de Educação.
Revisão, formatação, normalização e tradução.
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DOI: https://doi.org/10.30715/doxa.v24iesp.1.18175 1
SHARDS: ON (IM)POSSIBLE WAYS OF THINKING ABOUT QUEER POLITICS
ESTILHAÇOS: SOBRE MODOS (IM)POSSÍVEIS DE PENSAR POLÍTICAS QUEER
FRAGMENTOS: SOBRE (IM)POSIBLES FORMAS DE PENSAR LA POLÍTICA
QUEER
How to reference this article:
ROCHA, Késia dos Anjos. Shards: On (im)possible ways of
thinking about queer politics. Doxa: Rev. Bras. Psico. e
Educ., Araraquara, v. 24, n. esp. 1, e023007, 2023. e-ISSN:
2594-8385. DOI:
https://doi.org/10.30715/doxa.v24iesp.1.18175
| Submitted: 15/02/2023
| Revisions required: 22/04/2023
| Approved: 11/06/2023
| Published: 01/08/2023
Editor:
Prof. Dr. Paulo Rennes Marçal Ribeiro
Deputy Executive Editor:
Prof. Dr. José Anderson Santos Cruz
1
Federal University of Sergipe (UFS), São Cristóvão SE Brazil. PhD student in Education.
Shards: On (im)possible ways of thinking about queer politics
Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 24, n. esp. 1, e023007, 2023. e-ISSN: 2594-8385
DOI: https://doi.org/10.30715/doxa.v24iesp.1.18175 2
ABSTRACT: From the composition of short scenes that recall recent episodes that portray
disputes around issues of gender and sexuality in public policies in Brazil, I try to reflect on the
(im)possibilities of talking about queer policies. Wouldn't it be utopian to talk about queer
policies in a society anchored in a cisgender-straight-patriarchal and colonial culture? If, on the
one hand, the scenes show us that there was an intensification and strengthening of anti-gender
groups and organizations, which have been acting inside and outside institutions in order to
prevent advances related to gender policies, they also expose the level of commitment of left-
wing governments to these same agendas. Like broken mirrors, these scenes help us understand
this scenario and imagine, as suggested by researcher Jota Mombaça, other possible worlds
from the breaking, the politicization of wounds.
KEYWORDS: Queer politics. Anti-gender policies. Educational policies.
RESUMO: A partir da composição de pequenas cenas que rememoram episódios recentes que
retratam as disputas em torno das questões de gêneros e sexualidades no campo das políticas
públicas no Brasil, procuro refletir sobre as (im)possibilidades de falarmos em políticas queer.
Não seria utópico falarmos em políticas queer em uma sociedade ancorada em uma cultura
cisheteropatriarcal e colonial? Se, por um lado, as cenas nos mostram que houve uma
intensificação e fortalecimento de grupos e organizações antigênero, que vêm atuando dentro
e fora das instituições no intuito de impedir avanços relacionados às políticas de gênero, elas
também expõem o nível de (des)comprometimento de governos de esquerda com essas mesmas
pautas. Como espelhos quebrados, essas cenas no ajudam a compreender esse cenário e
imaginar, como nos sugere a pensadora Jota Mombaça, outros mundos possíveis a partir da
quebra, da politização das feridas.
PALAVRAS-CHAVE: Políticas queer. Políticas antigênero. Políticas educacionais.
RESUMEN: A partir de la composición de pequeñas escenas que recuerdan episodios
recientes que retratan las disputas en torno a cuestiones de género y sexualidad en el ámbito
de las políticas públicas en Brasil, intento reflexionar sobre las (im)posibilidades de hablar de
políticas queer. ¿No sería utópico hablar de políticas queer en una sociedad anclada en una
cultura cisheteropatriarcal y colonial? Si, por un lado, las escenas nos muestran que se ha
producido una intensificación y fortalecimiento de los grupos y organizaciones anti-género,
que vienen actuando dentro y fuera de las instituciones para impedir avances relacionados con
las políticas de género, también exponen el nivel de (des)compromiso de los gobiernos de
izquierda con estas mismas agendas. Como espejos rotos, estas escenas nos ayudan a entender
este escenario y imaginar, como sugiere la pensadora Jota Mombaça, otros mundos posibles
a partir de la ruptura, desde la politización de las heridas.
PALABRAS CLAVE: Política queer. Políticas antigénero. Políticas educativas.
Késia dos Anjos ROCHA
Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 18, n. esp. 1, e023007, 2023. e-ISSN: 2594-8385
DOI: https://doi.org/10.30715/doxa.v24iesp.1.18175 3
Shards
Five small scenes guide us in the design of this essay. A dialogue about public policies
and education policies, but, above all, a reflection that invites us to imagine other possible
scenarios for our lives and daily practices. A provocative reflection on the (im) possibilities of
queer policies and (micro)politics (POCAHY, 2016) in Education. Crooked drawings, outside
the lines, erased, blurred. Undisciplined. From 'vetoing gay kit' to fighting 'gender ideology'.
The scenes present themselves before us as shatter-events (MOMBAÇA, 2021). Broken
mirrors, pieces that spread through the air until they are reassembled in a kind of dystopian
social reality. Mixture of fiction and reality. The shards mirror bonfires/flames, monsters,
witches, bottles of “dick”, pink and blue clothes, queer children, sex-reveal events, families,
girl-dolls, boy-carts, mermaid “girls”. The scenes also show a brief summary of episodes that
recall recent disputes fought by movements contrary to the debate on gender and sexualities in
education. Burn the Witch. Salute torturers. Vetoing 'gay kit'. Producing fake news. Inventing
monsters. “Protect little children”. Fight the invented monsters. Fictions. Realities. Shards.
Burn witches, veto gay kit, invent monsters and protect little children
Scene I. “My government does not advertise sexual options”
“No government agency will be allowed to advertise sexual options; under no
circumstances will we be able to interfere in people's private lives” said President Dilma
Rousseff when asked by the press about the veto of the School Kit without Homophobia in
2011. Asked about possible future approaches, she said goodbye smiling saying: - “The future?
To God it belongs.”
Scene II - “For the memory of Colonel Carlos Brilhante Ustra, the terror of Dilma
Rousseff” (Jair Bolsonaro, August 31, 2016).
Brasilia. 2016. August 31st. It's Coup! Is it Coup? No! It's Impeachment. But it's a coup
d’état. Democratic process in progress? Misogyny? Male chauvinism? Vote. In the country of
soccer, the score was 61 to 20. But make no mistake, it wasn't a soccer match, a soccer match,
a championship. Deputy Jair Bolsonaro, also called Messias in his last name, begins his speech:
- “They lost in 64, they lost in 2016. For the family and for the innocence of children in the
classroom (...) against communism, for our freedom, against Foro de São Paulo, for the
Shards: On (im)possible ways of thinking about queer politics
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memory of Colonel Carlos Alberto Brilhante Ustra, the fear of Dilma Rousseff (...) my vote is
yes”. And we continue like this. 'Brazil above all'. 'God above all'. 'Is it okay?'
Scene III. Elections 2018
Brazil. 2018. Election year. Fake news. Fuel for elections. Gay kit. “Dick bottles” fake
news. Jesus is a transvestite. Gender ideology. Moral Panic. The 2018 electoral process
discussed gender. It brought gender as something to be fought. A threat. WhatsApp. Memes.
Family groups. Family quarrels. End of friendships. 'Anything, except the PT (Workers’ Party)'.
Anything. ANYTHING.
Events. Or, we might dare say, the achievements of a white-colonial - cisgender -
heteropatriarchal policy
2
. Or, as Mombaça (2021, p. 18, our translation) suggests, “[...] the
white and cisgender use
3
of social justice categories to continue replicating the conditions of
reproduction of systemic injustice”. The expression 'gender ideology' entered the Brazilian
scene, it was the year 2007 and, initially, it circulated among institutions linked to the Catholic
Church. In the same period, in 2008, the book 'Agenda de Gênero' by Dale O'Leary was
translated in Brazil by the Catholic publisher of Canção Nova and also marked an investment
in the field of specialized literature and the dissemination of ideas. Shortly after, we also had
the translation of the book by Argentine Jorge Scala 'Gender Ideology, neo-totalitarianism and
death of the family'. Scala's book became important material for the foundation of those people
who were at the forefront of the dissemination of anti-gender policies and discourses. This
bibliographic material began to be disseminated and shared by digital means, it started to be
discussed and popularized by YouTubers who contributed to inflate a movement in favor of an
anti-gender agenda in Brazil.
I demarcated the year 2007, but if we look back, we will see that all this is not new.
Since the end of the Estado Novo, Catholic ecclesiastics questioned articles on abortion in the
penal code of 1940. In the 1960s, the Catholic Church acted to prohibit women's access to
contraceptives. Discomfort with homosexuality occupies the scene more from the 1980s, after
the advent of HIV-Aids. In the context of the 1990s, the anti-abortion agenda brought together
a diverse group of conservatives (Catholics, Protestants, secularists, Kardecists, etc.). Attempts
to contain women's reproductive autonomy and the freedom to exercise their sexualities and
2
Cisgender-heteropatriarchy is the sociopolitical system in which the cisgender, heterosexual and male subject
holds hegemony and decision-making power over all other people.
3
The term cisgender is used to describe people who identify with the gender assigned to them at birth.
Késia dos Anjos ROCHA
Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 18, n. esp. 1, e023007, 2023. e-ISSN: 2594-8385
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different gender performances form the basis for what some researchers have called the 'anti-
gender crusade'
4
. Thus, gender, sexualities and abortion become elements of disputes within the
scope of public policies on education, health and human rights (JUNQUEIRA, 2018;
CORRÊA; KALIL, 2020).
Corrêa and Kalil (2020, p. 10, my translation), when analyzing the anti-gender
offensives in the Brazilian context, understand them as devices for the accumulation of
political power that feed on resistance to the transformations of gender orders and sexualities”.
The authors also present us with the conferences of the United Nations - UN, in particular the
Conferences in Cairo (1994) and Beijing (1995) as scenarios in which the first attacks on gender
by the Vatican and other conservative allies took place. They recall some of Brazil's positions
in the scenario of international conferences, highlighting that, in Durban (2000-2001), the
country presented an agenda in relation to human rights that was quite unprecedented and
suggested advances. Between 2003 and 2016, a moment that includes the management of left-
wing governments, it is worth highlighting the great participation of social movements in the
social control of public policies. It was in the context of these measures that we also had the
occurrence of the 1st National LGBT Conference
5
(2008), Conference of Policies for Women
(2004), creation of the Secretariat for Continuing Education, Literacy and Diversity - SECAD
6
(2004), launch of the Brazil without Homophobia (BRASIL, 2004) and approval of the Maria
da Penha Law (BRASIL, 2006).
At the same time, from 1998 to 2014, we saw an increase in the Evangelical group in
power from 44 to 90 members and an advance in the parliamentary front for life and against
abortion. Currently, the Evangelical Group has 132 deputies and 14 senators elected in the last
election of 2022. The veto of Escola sem Homofobia Kit (2011) and that almost prophetic
speech by the president: 'the future belongs to God', reverberate like never before in the present
day. The veto to it always walks through my memories. This scene helps me to think about the
conflicting relationship between gender politics, sexualities and education, or we could
summarize: about gender and public policies. On that occasion, the then president of the
republic Dilma Rousseff, when questioned by the media at a time of great tension and disputes
4
Throughout the text, I use some other vowels, such as e/u/i, in order to problematize the hegemony of the official
binary language. However, 'o/a' binary language will be used in some situations, in general when referring to
cisgender-heteronormativity.
5
Here I kept the acronym as it was used at the time LGBT lesbians, gays, bisexuals, transgenders.
6
SECADI Secretariat for Continuing Education, Literacy, Diversity and Inclusion was created in 2004, it was
from 2011 that the Inclusion axis became part of the Secretariat's competences. In 2019, the Ministry of Education
- MEC, under the management of Ricardo Vélez Rodrigues, extinguished the Secretariat. In January 2023, with
the election of Luiz Inácio Lula da Silva, the secretariat has just been reactivated.
Shards: On (im)possible ways of thinking about queer politics
Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 24, n. esp. 1, e023007, 2023. e-ISSN: 2594-8385
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surrounding the launch and veto of the Kit, tried to justify herself, amidst the discomforts
generated by all the political alliances that involved her government, about the reason for the
veto: 'my government does not advertise sexual options'.
The backstage of the 2010 elections were marked by the growth of a “conservative
activism” reactive to some advances in feminist and LGBTI+ agendas
7
and, taking a closer look
at this moment helps us to understand the president’s position in relation to Kit. After two cycles
of a more progressive government, there was, on the part of these religious actors, a
commitment to recover a kind of Christian-based institutional policy and winning the religious
vote became something decisive for those who wanted to win the 2010 elections (MACHADO,
2012, p. 26). Still in the first round of elections, Dilma visited temples, met with religious
leaders and wove alliances. The candidate published two important documents in the campaign
periods that preceded the first and second rounds of the presidential elections: the Open Letter
to the People of God, in which she recognized the social role of the evangelical churches in the
country and, shortly before the second round, published The Dilma's message, in which she
presented a sequence of her government's commitments, mainly with regard to the issue of
abortion, family and other central points in this dispute:
2. I am personally against abortion and defend the maintenance of the current
legislation on the subject; 3. Elected President of the Republic, I will not take
the initiative to propose amendments to points dealing with abortion
legislation and other issues concerning the family and the free expression of
any religion in the country; 4. The PNDH is a broad letter of intent, which
incorporated items from the previous program. It is being reviewed and, if
elected, I do not intend to promote any initiative that affronts the family
(ROUSSEFF, 2010, n.p., our translation).
The understanding of the political movements and alliances established by Rousseff's
administration, although important, is not able to justify alone the impasses that involve the
formulation of LGBTI+ public policies in Brazil. In general, it is possible to say, in dialogue
with researcher Bruna Irineu (2021), that the legislative power of the first two administrations
of Lula and Dilma (2003-2016) did not absorb LGBTI+ guidelines, nor issues such as the
decriminalization of abortion. Some guarantees of access to rights by this population, such as
stable union and civil marriage, for example, came through decisions by the Judiciary. In the
researcher's analysis of LGBTI+ public policies in this period, she points out that a kind of
paternalism, typical of Lula’s management mode, could be responsible for this low
7
Lesbians, gays, bisexuals, transvestites, transsexuals, intersex and other dissidence.
Késia dos Anjos ROCHA
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institutionalization of policies. The idea of 'paternalism' appears in the author's analysis of the
relationship between Lula's administrations (2003-2010) and the LGBT social movement.
Intensifying the criticism on the subject, Irineu (2021) characterizes the way in which LGBTI+
policies were guided by these governments as part of a “consolation citizenship” package,
something that, in her conception, would be based on a “cordial homophobia”. (IRINEU, 2021,
p. 581, our translation). This idea of cordial homophobia can be better understood when we
observe that, although Brazil appears on the international scene as an advanced country in terms
of LGBTI+ rights, in practice, the portfolio did not have a specific budget and the policies did
not continue after the transitions from one government for the other; the Kit veto is a great
example of this.
With this veto, the outlines of an idea of a 'child under threat', of childhood in danger,
are being outlined and strengthened. For conservative groups, asserting themselves against
LGBTI+ rights and in favor of violence seemed complicated; easier and more strategic was to
present themselves as defenders of children (BALIEIRO, 2018). Therefore, a common enemy
is created, which would be threatening the integrity of innocent children, exposing them to the
dangers of an enterprise for the 'death of the family', as the translated title of Jorge Scala's work
brings. From there, a great public appeal intensifies in society; fathers, mothers, guardians of
children, primary school teachers and churches are called upon to take a stand in the face of this
threat and the consequence has been a series of attacks in the sense of barring public policies
and/or vetoing and editing policies that promote respect for diversity /difference and/or gender
equality.
There were political conditions that made the design of this anti-gender offensive
possible. In 2013, combating “gender ideology” was already a consolidated agenda of the most
conservative movements and was spreading across the country. For Miskolci (2018) it was amid
discussions about education plans that this moral crusade spread even further. A policy of fear
was established in school spaces to watch teachers and students. Education becomes the central
character of the conflicts and within the scope of the debates on the National Education Plan -
PNE, the meeting unfolds and an ecumenical partnership is sealed between Catholic,
evangelical forces and secular movements such as the Escola sem Partido (School without
party) - ESP movement.
When we look at the scene that makes the Coup against President Dilma Rousseff
official, the moment of the impeachment vote, the narratives of the parliamentarians during their
votes call a lot of attention. In the fragment I brought to this text, I highlight Jair Bolsonaro's
Shards: On (im)possible ways of thinking about queer politics
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salute and reverence to a torturer, salute and annunciation of his way of thinking and doing
politics, based on authoritarianism and the instigation of a military coup. Gaudêncio Frigotto
(2017) reminds us well that, during the vote to initiate the impeachment process, which the
author calls a “legal, parliamentary, police and media coup”, more than 90% of the
parliamentarians present there used it as justification for their votes. the defense of the triad
God, Homeland, Family. The author also takes us to a flashback and reminds us that, back in
1964, when we suffered a civil-military coup, this was the basis of the thought that anchored it:
God, Fatherland, Family versus Communism.
The scene of the 2018 presidential election previews showed the outcome of this coup.
He announced what was to come: 'anything but the PT' is an expression that translates this
onslaught promoted by the ESP in which leftist parties are renamed communists, gayzists,
abortionists, threatening families and children. There is a reduction in spaces for dissonant
dialogues and the opening of an arena for accepting violence: mothers breastfeeding in public,
black people, effeminate gays, trans people, non-binary people bodies under daily threats. As
Bolsonaro said at the time: 'they lost in 1964, they lost in 2016', 'God above all'.
I mentioned the Escola sem Partido movement, but it is important to contextualize that
the movement had been acting since 2004 from the agenda of a neutral education or, as they
themselves presented themselves, against the advance of a possible communist indoctrination.
In more recent years, they have embraced the moral agenda of combating gender ideology and
started to encourage complaints against teachers who would address gender issues in the
classroom. Models of extrajudicial notifications were made available, as well as models of bills
to prohibit the approach of genders and sexualities in schools. For researcher Elisabeth Macedo
(2017, p. 519, our translation) “[...] the ESP came to make explicit, through intolerance of the
other, the inadequacy of politics in school”, the movement became an important moral
entrepreneur in this anti-gender crusade and one of the main agents responsible for associating
leftist governments with the idea of encouraging moral deviations (PENNA, 2017; BALIEIRO,
2018; MOURA; SALLES, 2018).
Corrêa and Kalil (2020, p. 70) believe that it is at this moment that “an ecumenical
consensus germinates” that will characterize these offensives in the Brazilian context. As
Almeida analyzes (2019, p. 209, our translation):
[...] religious conservatism oscillates between resisting change (there are only
heterosexual families, for example), provoking regressive changes (abortion
is criminalized in any situation, which retroacts to the 1943 legislation) and
Késia dos Anjos ROCHA
Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 18, n. esp. 1, e023007, 2023. e-ISSN: 2594-8385
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adhering to certain values of this world (entrepreneurial ethics and the rise of
state violence).
Based on these partnerships, the groups share the mission of removing the gender
agenda from education plans national, state and municipal. A hunt for the genre begins. More
than 40 projects presented in city councils, which even though unconstitutional and not
approved, affected the school culture and society. Also, as highlighted by Corrêa and Kalil
(2020, p. 70, our translation) “The anti-gender crusades have been attacking the pedagogical
guidelines on gender and sexualities in basic, higher-middle and higher education in Brazil,
Latin America and Europe”. We are talking, therefore, about a transnational movement that has
been acting strategically in defense of the maintenance of the cisgender-heteropatriarchal model
of society.
Scene IV. “Burn the Witch!”
São Paulo. 2017. November. Protesters gather in front of one of the units of the Social
Service of Commerce - SESC. Crosses. Bibles. Flags of Brazil. These are the main banners
used by demonstrators. Other than that: FIRE! “No pedophilia”. “No to zoophilia”. “School
without a Party now!”. "Less Butler, more family". “No to gender ideology in schools”. “Do
not teach perversion to our children”. “Gender freaks go home!”. “A man is a man, a woman
is a woman, here in Brazil, you don't do what you want”. “Less witches, more princes and
princesses”. “Live to the princesses of Brazil”. BURN THE WITCH! And fire! [In the
background it is possible to hear a soft chorus: 'our father who art in heaven, hallowed be thy
name...']. BURN THE WITCH! AND FIRE! Yes, they set fire. The Butler-witch doll was
burned right there in the street. And this is not the presentation of any medieval movie script. I
swear.
In the years 2014 and 2015, the expression gender ideology was already on people's lips.
There was already a moral crusade against the word gender. And after that, in 2017, that the
demonstrations against the philosopher Judith Butler, narrated in the scene above, take place.
We have a new element, gender and gender ideology become related, by anti-gender
movements, to Butler's image and theoretical production (LUNA, 2017; MISKOLCI, 2018;
CYFER, 2018). Such an ideology would, therefore, be threatening children and young people
and exposing them to the dangers of inducing dissident gender expressions and gender
identities, pedophilia, zoophilia, experiencing sex at an early age, adherence to communism,
among others things and everything together and mixed.
Shards: On (im)possible ways of thinking about queer politics
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Scene V. “Boys wear blue and girls wear pink”: a sacrosanct truth?
Brazil. Beginning of 2019. Behind the scenes of the inauguration of the new minister of
the Ministry of Women, Family and Human Rights, Damares Alves, we heard her festive cry:
“Attention, attention! It is a new era in Brazil: boys wear blue and girls wear pink”. Supporters
salute and vibrate around the minister. Her performance in the ministry shares space with the
actions she performs as an evangelical pastor. He defends, in his speeches on the internet, that
it is time for the Church to govern the country: “The State is secular, but this minister is terribly
Christian”.
If there's one thing that seems impossible to me, it's leaving sexualities and genders at
home and going to school or mass, or worship, or the terreiro, without them. The most you can
do is try to lock them in a closet or another, but we know that this is complex. Thus, perhaps
we could start from an almost consensual point that genders and sexualities are here, together
with us, wherever we walk. When I think about school, specifically, I always remember that I
spent many years of my childhood and youth there, it was there that I experienced many of my
affective experiences, it was there that I started to become aware of how I saw/felt as a
girl/woman, also crossed by other axes of power such as race, class, sexualities, generation, etc.
Yeah, it's too long in a space to think that we occupy it being only half or part of what we are.
We are there in one piece, with our fears, anxieties, expectations, contradictions and mutations.
Thinking about the field of education which, as I have already mentioned, is at the center
of disputes involving campaigns against discussions about gender and sexuality in schools, it is
possible to say, provoked by the dialogue with Chiaradia and Cassal (2019, p. 238, our
translation) that we had a kind of “conservative turn in public education policies”. We migrated
from the inclusion of a certain perspective of gender and sexuality as cross-cutting themes in
the National Curricular Parameters - PCN (BRASIL, 1998), which was dated 1997, to the total
suppression in the National Education Plan - PNE in 2014 (BRASIL, 2014) and also in the
National Common Curricular Base BNCC approved in 2017 (BRASIL, 2018). The approved
version of the PNE excluded mentions of the word gender and presented, in its final version,
only the generic term 'fighting educational inequalities' (VIANNA; BORTOLINI, 2020) and
the approved version of the BNCC swept the mentions of gender from its text and sexual
orientation.
Going back a bit to Butler’s episode, in that same year of his passage through the
country, the National Common Curricular Base BNCC (BRASIL, 2018) had its third and final
version approved without mentions of gender and sexual orientation, censored from the
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document. The theme of sexuality appears only in the guidelines for teaching science and is
indicated only for content in the eighth year of elementary school. The approach to sexuality is
also centered on a biological perspective, that is, related to content such as sexually transmitted
infections - STIs, pregnancy and reproduction (SILVA; BRANCALEONI; OLIVEIRA, 2019).
To contextualize the importance of this document a little, I briefly return to the end of the 1990s,
a very important moment for education policies, mainly in terms of the expansion of debates
on human rights and respect for differences. The National Education Guidelines and Bases Law
LDB (BRASIL, 1996) was enacted from this moment, which would establish autonomy in
the organization and management of education by the states of the federation. Next, we had the
institution, in 1997, of the PCN (BRASIL, 1997), which has already been extensively analyzed
by many researchers who recognize its importance for the field of gender equality policies,
since it was the document that made official the sex education as something important in
curricula and schools. I remember that the PCN indicated that teachers should work, in a
transversal way, with the theme 'sexual orientation' (MACEDO, 2017; CARDOSO et al., 2019;
ROCHA, 2012; SILVA; BRANCALEONI; OLIVEIRA, 2019).
The impacts of this conservative turn in policies also resonate in school curricula.
Paraíso (2016) understands the curriculum as a territory, a space of government and resistance,
which involves multiple forces, crossed by normalizing attacks and also creators of inventive
possibilities. Above all, she presents us with the curriculum as an uncontrollable scenario,
according to the author “[...] precisely because it is uncontrollable, the curriculum is chosen by
reactionary groups to carry out the restraint, impediment, prohibition and control of gender and
sexuality’s themes” (PARAÍSO, 2016, p. 390, our translation). According to the author,
“translation, multiplication, distortion and frightening” strategies are used (PARAÍSO, 2016, p.
390, our translation) as curriculum control resources. This game of inclusion and exclusion of
terms in official documents is translated by the author as a ciranda between curriculum, gender,
power and resistance.
Talking about public policies and education policies in this text is important because the
results of the conflicts presented reverberate precisely in policies, in curricula, in the daily life
of educational spaces. It is in the context of everyday scenes and spaces that we observe the
impacts of the existence or not of these policies. Each historical and political moment is
permeated by different relationships and power disputes and this also translates into the
materialization of policies. Issues such as access to and permanence in education are
fundamental in this everyday scene and are one of the main points of this debate. Understanding
Shards: On (im)possible ways of thinking about queer politics
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a little better the paths and intersections of regulations, parameters, guidelines that underlie the
day-to-day actions of educational spaces allows us to rethink our practices and understand the
setbacks and possible advances that we could expect.
In addition to the points already presented, it is important to point out that the
transformations in the field of public education policies, and not only, are inserted in a larger
political, social and economic context. Biroli, Vaggione and Machado (2020) emphasize in their
study on the relationship between gender, democracy and neoconservatism in Latin America
that, in order to better understand this phenomenon, we need to identify the relationship between
religions, current democracies and neoliberalism. The so-called moral factors must be
considered together with the economic ones, since one of the new aspects of this wave is
precisely the alliance formed between conservative Catholics, conservative evangelical
segments and neoliberalism around the sense of family. For the authors, the main point of this
alliance between neoconservatism and neoliberalism is that they “[...] converge by placing the
family at the center of their broader conception of society”, especially “from the perspective of
making families responsible in the midst of processes commodification and privatization”
(BIROLI; VAGGIONE; MACHADO, 2020, n.p., our translation). The so-called moral
questions, therefore, occupy a central place in the logic and dynamics of capitalist and
neoliberal societies, since the responsibility for 'individual' success or failure would fall
precisely on the family (FASSIN, 2021).
In general, these first reflections presented make me suggest that we have not yet come
close to an approach to gender and sexualities that goes beyond the binary cisgender-
heteropatriarchal model, with roots in biologizing conceptions of the body, sexualities and
desires. Following the reflective balance made by Cardoso et al. (2019) it is possible to say that
we moved from a set of policies that pointed to the idea of tolerance and respect for diversity
as strategies to expand access and permanence in education, to policies that had the proposal to
minimize inequalities considering axes of power such as gender, sexual orientation and race. In
the scenario of education policies, thinking about the deconstruction of ways of loving, desiring,
performing our sexualities and gender expressions still presents itself as a proposal to come.
The 'new era' of Damares, as well as all the actions of the Jair Bolsonaro government,
left quite deep marks on Brazilian democratic institutions. Within the scope of education
policies, we have a scenario of narrowing policies focused on issues of gender and sexuality,
human rights, sexual and reproductive rights. The growth of Evangelical Group and other
groups of conservative parliamentarians represent some of the challenges we face and will have
Késia dos Anjos ROCHA
Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 18, n. esp. 1, e023007, 2023. e-ISSN: 2594-8385
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to face in the coming years. The 'new era' in which we had the President of the Republic vetoing
the distribution of sanitary napkins to elementary and high school students and to people in
situations of social vulnerability, defending military intervention and saluting torturers, had a
profound impact on our democracy.
Threat to children's subjectivities. Politics of fear and threat to freedom directed at
educators and artists (MISKOLCI, 2018; BALIEIRO, 2018; CHIARADIA; CASSAL, 2019);
association of homosexuality with pedophilia presented as an argument to justify censorship
movements against human rights activists, and in particular sexual and reproductive rights;
censorship of literature books, performances and works of art in general (LIONÇO et al., 2018).
These were some of the core elements of this 'era' I intended to talk about in this topic.
On the (im)possibilities of queer policies in Education
The promise of a new modern world that would promote equality, freedom and fraternity
seems not to have materialized, at least in what modern science has been calling universal. This
ideal looks more like a ruined monument. Or, a dilapidated colonial cisgender-heteropatriarchal
monument. Even if many refuse to understand the reasons for this collapse, there is no way we
can ignore the blood, the bodies, the wounds, the screams, the sound of the shots that some
insist on saying, lost. As far away as they seem to be, these 'others', these strange, bizarre,
dissidents, are us, we are right here. We are mutants. If, for the white, cisgender, heterosexual
and colonial political elite that arbitrates over our existences in Congress, in the Chambers, in
universities, in schools, in churches, in companies, we are not the representation of what is
understood to be human and, therefore, we are subjects who inspire a model of a possible world,
how can we give vent to any political mobilization force that moves us in different directions
than those presented in the previous topic? How can we stop imagining the power game of
public policies as a tug of war with disproportionately organized teams pulling the strings?
Within the scope of institutional public policy, the outcome of the game is often us with our
faces in the dust; they pull the rope really hard and off we go, straight to the ground.
Jota Mombaça tells us about the politicization of the wound, about the creation of
possible worlds from the break, that is, from everything that weakens us, that shatters us. In an
attempt to define what this 'being together in the breaking' would be like, the author suggests
that “the breaking is not the shrapnel, but the abrupt, erratic and disorderly movement of the
shattering” (MOMBAÇA, 2021, p. 24, our translation). Maybe it's that exact moment when the
Shards: On (im)possible ways of thinking about queer politics
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rope is pulled and we feel the momentum that precedes the fall. So, I keep asking myself: what
policies are born from shattering? Dialoguing with Pocahy 's (2016) reflections on how to think
and produce queer (micro)politics in academia and research, I wondered which policies or
micropolitics we have been producing. For this author, queer (micro)politics,
With their profane, restless, abused, radically promiscuous, fat and
overflowing impatience epistemologies of the world in the face of the colonels
of the new national political order (whether this new order is in the academy,
in the church, in the legislatures and other places-practices of social police),
multitudes of Fleeing bodies make life pulsate , establishing other forms of
organization and collectivity passionate about fluidity and pleasure as an
ethical-aesthetic-political invention of life (POCAHY, 2016, p. 226-227, our
emphasis, our translation).
Let's stick with the phrase 'bodies on the run that make life pulsate'. And let's think about
the countless daily manifestations of questioning or escaping from the norm. Those that we
witness or experience in the streets, in schools, in museums, universities, in artistic
manifestations, or even in the homes of some relatives. Those we experience with our dissident
bodies entering spaces without asking for permission. The ones that remind us that desiring and
guiding desire is raw material for the constitution of lives. And even those that revive our
memory through pain the pain of being pointed out on the street, of physical aggression, of
denial of affection, of abandonment, of the cutting-violent comment whispered softly as we
pass by: 'Sapatão, freaks ...’.
Living despite Brazil and “[...] living despite everything. In the radicalism of the
impossible” is what Jota Mombaça cries out to us (MOMBAÇA, 2021, p. 14, our translation).
Let's stay with her. According to the author, “Brazil, this colonized and (re)colonial fiction,
submissive to imperialism and imperialism, dominated and dominant, never actually served the
purpose of the continuous struggles for the liberation of the territory and subjugated bodies in
its construction” (MOMBAÇA, 2021, p. 16, our translation). It would therefore remain for us
to invest in the fleeing body mentioned in the previous paragraph. Body, gesture, word on the
run. I am very much crossed by questions about the materiality of queer policies, and when I
say materiality, I mean those so-called institutional policies and those so-called subjective ones,
if it is important for someone to separate them. I prefer to work with the perspective of saying
politics of bodies or politics of lives. Conversing with the artistic-philosophical thinking of
artist Linn da Quebrada
8
, she provokes us: “let's take our bodies as weapons” and Mombaça
8
Lina Pereira dos Santos, also known as Linn da Quebrada, is a Brazilian multi-artist and thinker.
Késia dos Anjos ROCHA
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(2016, p. 344, our translation) interacts: let us be “monstrous in space in the norm, undisciplined
in the place of discipline”. Tips number one and two for thinking about queer politics.
Going back a little to the pieces of shards that have accompanied us at this meeting,
Linn da Quebrada composes her name from that same idea, from those shards of a mirror that,
according to her, previously reflected a man made in the image and likeness of God
9
. It is also
born in/from the break. We are together. For the creation of queer politics, we would need,
then, some kind of destruction of what is established, we would need to abdicate the 'essence
self', the 'fixed self', the right way to teach, write, think, eat, love, and until we are alone. Pocahy
(2016), in his provocation to normative academic production arising from cisgenders, points to
training in education and health as possible spaces for the inter-invention of democratic tools.
Body as a weapon. Body bomb that explodes the fixed meanings of existence and science.
Rumble from within. We're in the same scenario and we can't get out. Remember: we are alive
"despite...". Queer politics are like improvised and danced steps without coordination, without
form, that mess with the aesthetic, with the norm. In the improvisational movement, life
becomes uncontrollable, because it changes all the time, because we abdicate what would be
right, beautiful, normal, expected.
Halberstam (2020, p. 133, our translation), in his theoretical elaborations on the queer
art of failure, suggests that “Queer studies offer us a method to imagine, not some kind of
fantasy of another place, but existing alternatives to hegemonic systems”. I repeat: collapse
from within. We need to prevent them from burning the witches or, as Linn da Quebrada
poetizes: “Don’t burn the witches / But let them love the faggots / But let them love / Let them
love / Cry out / Let them love / Let them love the locks too
10
. In the midst of institutional
policy movements that move and legislate based on rosaries, bibles and Brazilian flags, queer
politics happen in political bodies that insist on not dying. For Halberstam:
While liberal histories build triumphant political narratives with progressive
histories of development and success, radical histories must deal with a less
organized past, one that conveys legacies of failure and loneliness as
consequences of homophobia, racism and xenophobia (HALBERSTAM,
2020, p. 146- 147, our translation).
9
Bixa Travesty (2018), an autobiographical documentary that tells a bit of the story of artist Linn da Quebrada.
Available at: https://globoplay.globo.com/bixa-travesty/t/c5LxGg2M7f/. Access: 10 June 2023
10
Music 'Prayer' by Linn da Quebrada. Available at: https://www.youtube.com/watch?v=y5rY2N1XuLI . Access:
10 June 2023
Shards: On (im)possible ways of thinking about queer politics
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DOI: https://doi.org/10.30715/doxa.v24iesp.1.18175 16
Linn da Quebrada tells us: “I will be the inconvenience for your theses, because I am
and will continue to be in the works”
11
. Queer politics are bodies in the works, who live and
dance despite Brazil. Far from clinging to the triumphant narratives of the promises of a
progressive institutional policy, we are alert looking for radical stories, anxious that, if we have
a future, it will present us with problems different from those we address in this writing, that
we will have other problems and, therefore, other new solutions for us to create.
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da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e
da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher;
dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; altera
11
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10 Oct. 2022.
CRediT Author Statement
Acknowledgments: Thanks to the entire organizing team of ConQueer/2022, especially to
Prof. Dr. Alfrancio Ferreira Dias.
Funding: The text presented is part of the author's doctoral research entitled "ManiFesta
por uma Educação sem juízo: artivismos da dissidências sexual e de gêneros, censuras e
educação"; the research received financial support from FAPITEC and CAPES.
Conflicts of interest: The author declares no conflicts of interest.
Ethical approval: Not applicable.
Availability of data and material: Not applicable.
Authors' contributions: The author was responsible for all research and elaborations of
the reflections presented in the text.
Processing and editing: Editora Ibero-Americana de Educação.
Proofreading, formatting, standardization, and translation.