Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 24, n. esp. 1, e023015, 2023. e-ISSN: 2594-8385
DOI: https://doi.org/10.30715/doxa.v24iesp.1.18179 1
RUPTURAS GRITANTES URGENTES NO SILENCIAMENTO DE CORPOS
DISSIDENTES NA FORMAÇÃO MÉDICA DA UACV/CFP/UFCG
URGENTES RUPTURAS GRITANTES EN EL SILENCIO DE LOS CUERPOS
DISIDENTES EN LA FORMACIÓN MÉDICA DE LA UACV/CFP/UFCG
URGENT RUPTURES IN THE SILENCE OF DISSIDENT BODIES IN THE MEDICAL
TRAINING OF THE UACV/CFP/UFCG
Fabíola Jundurian BOLONHA1
e-mail: fabiola.jundurian@professor.ufcg.edu.br
Alfrancio Ferreira DIAS2
e-mail: diasalfrancio@academico.ufs.br
Como referenciar este artigo:
BOLONHA, Fabíola Jundurian; DIAS, Alfrancio Ferreira.
Rupturas gritantes urgentes no silenciamento de corpos
dissidentes na formação médica da UACV/CFP/UFCG.
Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 24, n. esp.
1, e023015, 2023. e-ISSN: 2594-8385. DOI:
https://doi.org/10.30715/doxa.v24iesp.1.18179
| Submetido em: 15/02/2023
| Revisões requeridas em: 22/04/2023
| Aprovado em: 11/06/2023
| Publicado em: 01/08/2023
Editor:
Prof. Dr. Paulo Rennes Marçal Ribeiro
Editor Adjunto Executivo:
Prof. Dr. José Anderson Santos Cruz
Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Cajazeiras PB Brasil. Professora Adjunta do Curso de
Graduação em Medicina da Unidade Acadêmica de Ciências da Vida. Doutorado em Educação (UFS).
Universidade Federal de Sergipe (UFS), São Cristóvão SE Brasil. Professor do Departamento de Educação e
da Pós-graduação em Educação. Doutorado em Sociologia (UFS). Pós-doutorado (University of Warwick, UK).
Rupturas gritantes urgentes no silenciamento de corpos dissidentes na formação médica da UACV/CFP/UFCG
Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 24, n. esp. 1, e023015, 2023. e-ISSN: 2594-8385
DOI: https://doi.org/10.30715/doxa.v24iesp.1.18179 2
RESUMO: As questões colocadas nos documentos oficiais que norteiam a formação médica
estão inseridas nas teorizações críticas de currículo, mas o currículo não é um artefato neutro e
de transmissão desinteressada. Portanto, o objetivo do presente estudo é analisar como as
questões de dissidências de corpos são acionadas no Projeto Pedagógico do Curso de Medicina
da Universidade Federal de Campina Grande, através de metodologia amparada nos
pressupostos pós-críticos de estudo em educação. Foi constatado que a construção do PPC se
deu de forma arbitrária e interessada, se orientando por DCN que não acolhem os conceitos de
corpo, sexualidade e saúde na diversidade. Refletir sobre o corpo, em todas as suas dimensões,
e sua correlação com as práticas de saúde e de ensino, é fundamental para se (re)pensar a
formação acadêmica, cuidado em saúde e, consequentemente, a construção de conhecimentos
numa lógica de justiça social e dos direitos humanos.
PALAVRAS-CHAVE: Currículo. Formação médica. Gênero. Sexualidade. LGBTQIA+.
RESUMEN: Las preguntas planteadas en documentos oficiales que orientan la formación
médica se incluyen en teorizaciones críticas del currículo, pero el currículo no es un artefacto
neutral con transmisión desinteresada. Por lo tanto, el objetivo de este estudio es analizar cómo
las cuestiones del disenso de los cuerpos se desencadenan en el Proyecto Pedagógico de la
Carrera de Medicina de la Universidad Federal de Campina Grande, a través de una
metodología sustentada en supuestos poscríticos de estudio en educación. Se constató que la
construcción del PPC se dio de manera arbitraria e interesada, guiada por DCN que no
abrazan los conceptos de cuerpo, sexualidad y salud en la diversidad. Reflexionar sobre el
cuerpo, en todas sus dimensiones, y su correlación con la salud y las prácticas docentes, es
fundamental para (re)pensar la formación académica, el cuidado de la salud y,
consecuentemente, la construcción del conocimiento en una lógica de justicia social y derechos
humanos.
PALABRAS CLAVE: Plan de estudios. Entrenamiento médico. Género. Sexualidad.
LGBTQIA+.
ABSTRACT: Questions posed in official documents that guide medical training are included
in critical curriculum theorizations, but the curriculum is not a neutral artifact with
disinterested transmission. Therefore, the objective of the present study is to analyze how the
issues of dissent from bodies are triggered in the Pedagogical Project of the Medical Course
at the Federal University of Campina Grande, through a methodology supported by post-
critical assumptions of study in education. It was found that the construction of the PPC took
place in an arbitrary and interested manner, guided by DCN that do not embrace the concepts
of body, sexuality and health in diversity. Reflecting on the body, in all its dimensions, and its
correlation with health and teaching practices, is essential to (re)think academic training,
health care and, consequently, the construction of knowledge in a logic of justice social and
human rights.
KEYWORDS: Curriculum. Medical training. Gender. Sexuality. LGBTQIA+.
Fabíola Jundurian BOLONHA e Afrancio Ferreira DIAS
Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 18, n. esp. 1, e023015, 2023. e-ISSN: 2594-8385
DOI: https://doi.org/10.30715/doxa.v24iesp.1.18179 3
Introdução
Este trabalho traz reflexões sobre a urgência em romper, através de gritos, o
silenciamento de corpos dissidentes durante a formação de estudantes do curso de medicina da
Unidade Acadêmica de Ciências da Vida (UACV) do Centro de Formação de Professores (CFP)
campus da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). Inspiramo-nos, inicialmente, na
música de Violeta Parra (1962) “Volver a los diecisiete”, que faz um convite a voltar no tempo
e entrar em contato com a potência de explorar, permitir-se a descobrir, territorializar, se
inquietar, transgredir e deixar territórios sem medo, sem apego, criar, desenhar, expandir e,
assim como faz a criança, permitir-se, inclusive, ao erro.
É, também, uma canção que fala de amor na sua potência inquietante El amor es
torbellino de pureza original [...] El amor con sus esmeros al viejo lo vuelve niño [...]” (PARRA,
1962, n.p.). Tudo transforma o momento, tal como um mágico que é permissivo e, ao mesmo
tempo, impositivo: assim é a vida e a experiência do vivível. O amor é o caos, o turbilhão, a
desordem que possibilita a criação do novo: realizações não reconhecidas, não valorizadas, não
toleradas pela ciência régia, pelo modo de conhecer dessa ciência, cujos valores são
exponencialmente contrários aos valores da “ciência” do amor. E para criar e manter uma
rachadura nessa ciência régia que pertence à um conservadorismo perigoso, abrimos caminho
com esta música gritadora.
O grito, na perspectiva de Deleuze (1994), é movido pelo afeto e, por isso, os gritos são
dotados da potência de criar. O grito então, simboliza a canção potente e, nesse sentido, Violeta
Parra é uma artista gritadora (TÓRTORA; LIMA; SILVA, 2018), símbolo de resistência, de
luta, capaz de possibilitar pelas suas letras e pela sua voz uma linha de fuga e uma frente de
batalha contra a realidade totalitária em que viveu. Trazemos como inspiração esta potência
Latino-Americana para descolonizar percepções e visões de corpos, através de gritos que
pretendemos cravar neste texto.
Para Goellner (2013), pensar o corpo como algo produzido na e pela cultura é,
simultaneamente, um desafio e uma necessidade. O desafio é porque ele rompe com o olhar
biológico - o do corpo observado como peças soltas, estruturas moleculares, genéticas, tecidos,
sistemas, seu funcionamento (fisiologia), seus “defeitos”, sua patologia, o corpo classificado,
tratado. E uma necessidade, porque essa ruptura de olhar é fundamental para que o corpo se
revele como histórico ou seja, ele é “[...] mutante, suscetível a inúmeras intervenções consoante
o desenvolvimento científico e tecnológico de cada cultura bem como suas leis, códigos morais,
representações sobre os corpos e discursos que sobre ele produz e reproduz” (GOELLNER,
Rupturas gritantes urgentes no silenciamento de corpos dissidentes na formação médica da UACV/CFP/UFCG
Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 24, n. esp. 1, e023015, 2023. e-ISSN: 2594-8385
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2013, p. 34). Tomamos a ideia de discurso a partir de Foucault (2017) para quem os discursos
não se referem apenas à linguagem, mas também a práticas práticas discursivas. Para Foucault
(2020), sobre os corpos que têm a sexualidade dissidente, foram elaboradas práticas discursivas
a fim de definir para eles, explicações e lugares no contexto da sociedade ocidental:
As práticas discursivas caracterizam-se pelo recorte de um campo de projetos,
pela definição de uma perspectiva legítima para o sujeito de reconhecimento,
pela fixação de normas para a elaboração de conceitos e teorias. Cada uma
delas supõe, então, um jogo de prescrições que determinam exclusões e teorias
(FOUCAULT, 2020, p. 18).
Estas práticas discursivas são interdisciplinares e elaboradas em “conjuntos técnicos,
em instituições, em esquemas de comportamento, em tipos de transmissão e de difusão, em
formas pedagógicas, que ao mesmo tempo impõe e as mantêm” (FOUCAULT, 2020, p. 19). A
sexualidade sempre foi e ainda é submetida a uma tecnologia discursiva na qual foram propostas
práticas de tratamento, como se esta fosse patologia. Como exemplos desta afirmação, a
Organização Mundial de Saúde (OMS), em 17 de maio de 1990, retira o termo
homossexualismo e adota o termo homossexualidade, passando a considerar esta como uma
orientação sexual e não como uma patologia; o Conselho Federal de Psicologia (CFP), somente
em 1999, decide não propor mais métodos de cura
; e a transexualidade que foi mantida como
transtorno mental por 28 anos através da Classificação Internacional de Doenças (CID),
atualmente está na categoria de transtornos da identidade sexual (incongruência de gênero)
.
Percebe-se que, no caso da transexualidade, houve uma migração de categoria, mas ainda se
inscreve como doença e oferta-se, assim, um tratamento específico multidisciplinar no SUS
para esses “pacientes”. Essa articulação traz à superfície que um poder que se veste de
“médico” e que atua sobre o corpo.
Dispositivos e tecnologias são “criados” para regulação dos corpos e somente a partir
desses se torna possível discutir quais indivíduos são normais, anormais, completos ou
incompletos. Foucault define dispositivo como “estratégias de relações de força sustentando
tipos de saber e sendo sustentadas por ele” por meio de elementos discursivos e não discursivos
e com uma função de dominação (FOUCAULT, 2017, p. 246). A partir do “dispositivo da
sexualidade”, o saber biomédico “convenciona” qual o tamanho “adequado do pênis e do
Disponível e: https://site.cfp.org.br/resolucao-01-99/historico/. Acesso em: 10 dez. 2022.
Disponível em:
https://www.medicinanet.com.br/cid10/1554/f64_transtornos_da_identidade_sexual.htm#:~:text=CID%2010%2
0F64%20Transtornos%20da%20identidade%20sexual%20%E2%80%93%20Doen%C3%A7as%20CID%2D10.
Acesso em: 10 dez. 2022.
Fabíola Jundurian BOLONHA e Afrancio Ferreira DIAS
Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 18, n. esp. 1, e023015, 2023. e-ISSN: 2594-8385
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clitóris, a quantidade de testosterona que uma “mulher” deve “naturalmente” ter no corpo, qual
a aparência “normal” das genitálias masculina/feminina etc., e decide, então, quais corpos
devem ser (des)(re)feitos (MÉLLO et al., 2009).
Os corpos que nascem com genitália ambígua, ou intersexuais, são destinados ao
(des)acolhimento do saber médico legislado pelo CFM através da Resolução CFM
1.664/2003 que “define as normas técnicas necessárias para o tratamento de pacientes
portadores de anomalias de diferenciação sexual”. Estes corpos deslizam nas representações do
que é considerado verdadeiramente humano, os colocando nos interstícios entre o que é normal
e o que é patológico. Esta “não-humanidade” ou “anormalidade” justificará as intervenções
médicas, com o intuito de adequá-lo ao ideal do dimorfismo sexual (PINO, 2007).
A articulação entre o poder judiciário e a medicina manifesta a ação das relações de
poder que estabelecem condutas, disciplinam os corpos e conformam as subjetividades. O
diagnóstico de intersexualidade é dado após avaliações clínico-cirúrgicas, anatômicas,
genéticas, endocrinológicas e por imagem. Cabe ao saber médico o papel não mais de
reconhecer a presença dos dois sexos juntos ou encontrar um dos dois que prevaleça, mas sim
de decifrar o “verdadeiro sexo” que se oculta em diferentes aspectos e aparências
Os espaços de acolhimento em saúde são, muitas vezes, espaços de desacolhimento de
corporeidades, gênero e sexualidades dissidentes, onde o preconceito e o despreparo dos
profissionais os tornam incapazes de atender às reais necessidades desses sujeitos
(FERNADES; SOLER; LEITE, 2018; SAADEH et al., 2018; LONGHI, 2018). Mulheres
lésbicas têm demandas diferenciadas de homens gays, e ambos de travestis e mulheres/homens
transexuais (CARDOSO; FERRO, 2012) e, todos estes quando possuem outros marcadores,
como por exemplo, Pessoas Com Deficiência (PCD) (MAIA, 2006).
O questionamento da ontologia do humano é trabalhado por Haraway (2009), por
intermédio da figura do ciborgue. A autora enfatiza a possibilidade de existência de um novo
lugar para o sujeito que é múltiplo, caracterizado por intensidades. A figura do ciborgue não é
apenas a representação de algo que é metade máquina e metade humano, mas é a tradução do
entrelaçamento entre aquilo que o homem produz e entre o que a máquina produz dentro do
humano. Ela nos ajuda a problematizar quem faz, quem é feito e quem passa a ser desfeito.
Corpos ambíguos são desfeitos na carne por meio dos aparatos médicos. Em termos de gênero
e sexo, o ciborgue se contrapõe à costura métrica dos corpos promovida pela medicina. Ele nos
ajuda a deixar de lado a pergunta sobre onde começa o masculino e onde começa o feminino, e
nos faz refletir sobre as práticas de extinção da ambiguidade.
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Esse cenário tenso, intenso, denso, de violência contra LGBTQIA+ é também
caracterizado no sistema de saúde. O preconceito nos estabelecimentos de saúde e o despreparo
dos profissionais fazem dos espaços de promoção de saúde lugares incapazes de atender às reais
necessidades da comunidade LGBTQIA+ (FERNADES; SOLER; LEITE, 2018; SAADEH et
al., 2018; GIANNA; MARTINS; SHIMMA, 2018; CALAZANS et al., 2018; LONGHI, 2018),
representando uma barreira à essa população para o acesso aos serviços de saúde e um
atendimento de forma integral (CARDOSO; FERRO, 2012; GIANNA; MARTINS; SHIMMA,
2018; CALAZANS et al., 2018; LONGHI, 2018).
uma dificuldade em acolher as demandas de saúde do segmento LGBTQIA+,
compreendendo esse grupo como diversificado em si, para que cada especificidade seja
atendida. Mulheres lésbicas têm demandas diferenciadas de homens gays, e ambos de travestis
e mulheres/homens transexuais (CARDOSO; FERRO, 2012). Segundo os autores, as demandas
de saúde das lésbicas estão relacionadas ao câncer de mama e de colo de útero, que são
agravadas devido à baixa utilização dos serviços de saúde por essas mulheres.
Consideramos importante ressaltar que o SUS, que tem, dentre os seus princípios, a
equidade, invisibilizou populações historicamente marcadas por desigualdades sociais, uma vez
que tais populações apenas começaram a serem contempladas por políticas públicas que
“atendessem” suas necessidades, a partir de 2007 quase duas cadas depois que foram
marcadas por lutas e tensionamentos sociais dessas então chamadas minorias sociais.
Exemplifica-se citando a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI,
2002); a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN, 2007); a Política
Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo e da Floresta (PNSIPCF, 2008) e a
Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais
(PNSI “LGBT”, 2011).
De modo a garantir profissionais de saúde capacitados, com amplo entendimento acerca
das demandas específicas em saúde da população LGBTQIA+, encontramos nos trabalhos
científicos o consenso de que necessidade de incluir na formação de profissionais médicos
aspectos não meramente biológicos acerca da sexualidade humana e do cuidado em saúde com
minorias sexuais, seja ainda na graduação ou no percurso profissional nos serviços de saúde
(SENA; SOUTO, 2017; CALAZANS et al., 2018; RUFINO; MADEIRO, 2017; NEGREIROS
et al., 2019). Ainda, o reconhecimento de diversidade de vidas vivíveis é refletido nas Diretrizes
Curriculares Nacionais (DCN) para o curso de Medicina de 2014 e deve estar refletido, em
consonância, nos documentos oficiais dos cursos de medicina a exemplo do Projeto
Fabíola Jundurian BOLONHA e Afrancio Ferreira DIAS
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Pedagógico de Curso (PPC), nas disciplinas teóricas e práticas durante todos os períodos do
curso de medicina, incluindo o internato (BOLONHA et al., 2022).
As questões colocadas nos documentos oficiais que norteiam a formação médica estão
inseridas nas teorizações críticas de currículo, mas o currículo não é um artefato neutro e de
transmissão desinteressada, pelo contrário, ele enfatiza relações de poder e prioriza alguns
conhecimentos em relação a outros.
Neste contexto, o objetivo do presente estudo é analisar como as questões de
dissidências de corpo, gênero e sexualidade constituem o Projeto Pedagógico do Curso (PPC)
de Medicina da Unidade Acadêmica de Ciências da Vida da Universidade Federal de Campina
Grande, campus de Cajazeiras, PB (UACV/CFP/UFCG).
Percurso metodológico
Nossa metodologia está amparada nos pressupostos pós-críticos de estudo em educação.
No seu campo epistemológico, buscam, através de seus paradigmas, estudar os sujeitos e suas
formas de subjetivações no processo de relações de poder que circunscrevem, ou seja, são
caracterizadas pelos questionamentos feitos ao conhecimento (e seus efeitos de verdade e de
poder); ao sujeito (e aos diferentes modos e processos de subjetivação); e aos textos
educacionais (e as diferentes práticas que estes produzem e instituem) (PARAÍSO, 2005).
A partir de uma licença poética, podemos tomar as teorias e metodologias de pesquisas
pós-críticas em educação como um grande rio, cuja vasta correnteza de linguagens recebe
afluentes (influências) da chamada "filosofia da diferença", do pós-estruturalismo, do pós-
modernismo, da teoria queer, dos estudos feministas e de gênero, dos estudos transfeministas,
dos estudos multiculturalistas, pós-colonialistas, étnicos, ecológicos etc., que fazem jorrar no
campo educacional brasileiro, substituições, rupturas e mudanças de ênfases em relação às
pesquisas críticas. “Suas produções e invenções têm pensado práticas educacionais, currículos
e pedagogias que apontam para a abertura, a transgressão, a subversão, a multiplicação de
sentidos e para a diferença” (PARAÍSO, 2004, p. 284).
No cenário educacional brasileiro, as pesquisas pós-críticas ganham expressividade,
sobretudo na ruptura de paradigmas. “Suas produções e invenções têm pensado práticas
educacionais, currículos e pedagogias que apontam para a abertura, a transgressão, a subversão,
a multiplicação de sentidos e para a diferença” (PARAÍSO, 2005, p. 284-285). A escolha da
metodologia deve conversar com o objeto em estudo, de tal maneira que as ferramentas teóricas
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mostrem e estabeleçam relações e funcionamento entre si. Paraíso (2014, p. 38) destaca que a
escolha de tais ferramentas “auxiliam a fazer perguntas, a interrogar nosso material, a
multiplicar sentidos e a mostrar as contingências dos acontecimentos e a proliferação da
diferença”. Nas pesquisas pós-críticas, acredita- se que “a metodologia deve ser construída no
processo de investigação de acordo com as necessidades colocadas pelo objeto de pesquisa e
pelas perguntas formuladas” (MEYER, 2014, p. 17).
Nesse sentido, o presente estudo pretende compreender, analisar e avaliar questões
subjetivas acerca de temas como currículo, corpo, gênero, sexualidade, e, para tanto, nos
inspiramos na abordagem de pesquisas pós-críticas. O pós-estruturalismo traz um pressuposto
de que a verdade é uma invenção, uma criação da razão, e não uma descoberta. É que não existe
a verdade, mas sim, regimes de verdade, isto é, discursos que a sociedade elege como
verdadeiros, e para Foucault, “a verdade está circularmente ligada a sistemas de poder, que
produzem e apoiam, e a efeitos de poder que a verdade induz e que a reproduzem”
(FOUCAULT, 2017, p. 54). O autor observa que:
[...] a verdade é centrada na forma do discurso científico e nas instituições que
o produzem; está submetida a uma constante incitação econômica e política;
é objeto, de várias formas, de uma imensa difusão e de um imenso consumo
(circula nos aparelhos de educação ou de informação); é produzida e
transmitida sob o controle, não exclusivo, mas dominante, de alguns grandes
aparelhos políticos ou econômicos (universidade, exército, escritura, meios de
comunicação); enfim, é objeto de debate político e de confronto social (as
lutas ‘ideológicas’) (FOUCAULT, 1996, p. 53).
Ou seja, os discursos são orientados, possuem alvo(s), tem objetivos claros, são
produtivos. As teorizações Foucaultianas mostram que todos os discursos são parte de uma luta
ou disputa para construir suas próprias versões de verdade e, ainda, que os discursos produzem
práticas que, ao articularem-se com o saber-poder, sinalizam discussões sobre a história, a
linguagem e a filosofia do sujeito. Isso só é possível tendo em vista que o poder “[...] apenas se
exercesse de um modo negativo, ele seria muito frágil. Se ele é forte, é porque produz efeitos
positivos [...] a nível do saber” (FOUCAULT, 2019, p. 148).
Segundo descrição elaborada por Fisher (2012, p. 77) acerca da análise de discurso na
perspectiva de Foucault, um enunciado possui quatro elementos básicos: 1- “Um referente. A
referência a algo que identificamos” [No caso deste estudo, a formação médica]. 2 – Um sujeito.
“O fato de ter um sujeito, alguém que pode efetivamente afirmar aquilo (o que identificamos)”
[Neste estudo, a elaboração das DCN e PPC]. 3 “Um campo associado. O fato de o enunciado
não existir isolado, mas sempre em associação e correlação com outros enunciados do mesmo
Fabíola Jundurian BOLONHA e Afrancio Ferreira DIAS
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discurso” [Neste estudo, o discurso médico educacional]. 4 “uma materialidade do enunciado,
as formas concretas com que ele aparece em textos” [Neste estudo, os textos/documentos das
DCN e PPC].
Deste modo, nos propomos à leitura exaustiva e intensa dos principais documentos que
compõem a esteira da trajetória da elaboração do PPC do curso de graduação em medicina do
CFP/UFCG e o próprio PPC, trabalhando com uma única formação discursiva os textos
regimentais, tendo como foco os pontos emblemáticos que propusemos nos debruçar. As
categorias de análise foram as seguintes: “corpo”, “sexualidade”, “saúde”, “SUS”.
Resultados e discussão
Foram realizadas as análises discursivas no PPC do curso de medicina da UACV/UFCG
e, a partir desta, foi constatado que a construção do documento se deu de forma arbitrária e
interessada, se orientando por DCN, que não acolhem os conceitos de corpo, sexualidade e
saúde na diversidade - uma das razões pelas quais estas foram reformuladas em 2014. Em
consonância com as DCN de 2001 (BRASIL, 2001), no PPC analisado não é encontrada
qualquer menção sobre a diversidade biológica, subjetiva, étnico-racial, de gênero e tampouco
sobre orientação sexual. Compreendemos que a ausência desses termos nas DCN (BRASIL,
2001) fortalece discursos que estruturam o PPC analisado e cuja base é formada por
masculinidades hegemônicas, que deixam claro o potencial generificado e heteronormativo das
condutas apresentadas.
O que é proposto no PPC é concretizado na matriz curricular e as disciplinas estão
alinhadas com as propostas de ensino em saúde, ainda que com uma forte preponderância de
disciplinas com enfoque biologista, priorizando alguns conhecimentos em relação a outros, com
predominância de conteúdos com a naturalização de discursos sobre corpos anatômicos e
fisiológicos, e de gêneros associados aos sexos masculino e feminino, bem como uma marcante
preocupação com a universalização da saúde de qualidade a todos, como sendo
responsabilidade dessas/es futuras/os profissionais da saúde.
Argumentamos, nesse sentido, que são múltiplas as formações discursivas das
normativas e diretrizes oficiais, científicas, biológicas/biomédicas, sociais, pedagógicas que
entram em disputa na composição curricular e que acionam saberes sobre corpo, gênero e
sexualidade na formação médica, produzindo determinadas verdades e certos sujeitos.
Rupturas gritantes urgentes no silenciamento de corpos dissidentes na formação médica da UACV/CFP/UFCG
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Representações de corpos e dissidências
Um corpo como estrutura, sem identidade, surge nas ementas das disciplinas, dotado de
uma visão biologicista, marcado por regulações morfofuncionais do corpo humano. Esse corpo
como estrutura é compartilhado com os estudantes durante o início do curso, através de
cadáveres, lâminas histológicas, descrições moleculares em bioquímica e biofísica.
Evidentemente, não é o mesmo corpo que os estudantes veem na rua, em casa, nas redes sociais,
em suas relações sociais. Trata-se de um corpo estrutura, objeto, que apenas existe nas aulas
práticas e teóricas dessas disciplinas e livros.
Sobre esse corpo objeto tomado como “único” e “verdadeiro” no início do curso, nos
deparamos com corpos que ocupam lugares que não pertencem a espaço algum. Foucault (2013)
chama de corpo utópico o corpo sem corpo, o corpo incorporal, exemplificado pelos corpos de
múmias, que persistem através do tempo, uma utopia dos mortos.
Consideramos as peças e dispositivos para simulações relacionadas ao exame físico do
laboratório de habilidades clínicas (UFCG, 2017, p. 17); as peças anatômicas sintéticas, os
cadáveres e suas partes mutiladas utilizados em aulas de anatomia (UFCG, 2017, p. 55), as
lâminas histológicas, corpos utópicos, defuntos cuja utopia dos corpos é oferecida para estudo
acadêmico. Tomamos o fato de que as utopias narram um lugar que não existe (o corpo do
defunto e seus membros esquartejados; as lâminas histológicas) e que desabrocham em um
espaço imaginário e, por isso, “situam-se na linha reta do discurso”, pois, a linguagem se
entrecruza com o espaço.
Tomamos por essencial que, concomitante ao estudo do corpo “incorporal”, seja
trabalhado o corpo nos seus aspectos histórico, social, cultural e com suas diversidades.
Ademais, é a totalidade desses aspectos que compõe os corpos que os estudantes encontrarão
na articulação teoria-prática do curso, pois, trabalhar corpos meramente biologizados e
generificados é remeter o uso de utopias nas quais se fazem surgir corpos e outras que fazem
anular corpos.
Posteriormente, os estudantes ingressarão nas disciplinas de clínica e passarão a lidar
com “corpos reais” nas aulas teóricas e práticas, jamais reencontrando esse corpo objetificado
com o qual eles aprenderam até o momento. Observamos, no PPC, a construção de um estigma
de “natural” / “normal” entre os corpos, implicando na atribuição de um corpo particular às
mulheres, nos remetendo para o fato de o corpo medicalizado ter-se tornado um referente
privilegiado para a construção de identidades pessoais generificadas. Neste ponto, inferimos
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sobre o silenciamento de corpos dissidentes provocado por alianças de poder pautadas em
estruturas hegemônicas.
Observamos no período do curso, na disciplina M4 Saúde da Mulher, que o corpo
da mulher é posto nas análises de “obstetrícia; parto; puerpério; ginecologia planejamento
familiar, infertilidade, corrimentos vaginais [...](UFCG, 2017, p. 90), levantando a suspeita
de que a própria definição de saúde da mulher parece distorcida. Nos objetivos dessa disciplina,
encontramos uma visão mecanicista do sistema reprodutor destinando o conhecimento para a
capacidade de reprodução, sem discutir órgãos sexuais e sexualidade, mas sim, órgãos/sistema
reprodutor. O estudante é conduzido por uma leitura de corpos destinados a servir como
matrizes reprodutoras, objetos do patriarcado instalado no Brasil desde o período colonial,
reduzidos às suas genitálias e mamas. É um conteúdo conservador e machista, que remete à
perspectiva médica do final do século 19 e início do século 20, em que os médicos
compreendiam o corpo da mulher como tendo uma conexão entre o útero e o sistema nervoso
central, e, portanto, as atividades intelectuais femininas poderiam gerar crianças doentes e
malformadas durante a gestação, ficando reservado apenas ao homem o desenvolvimento
intelectual, pois ele não corria este risco.
Mesmo em ginecologia, a saúde de mulheres lésbicas, assexuais e bissexuais poderia ser
tema em diversos conteúdos, mas fica evidente que a sexualidade da mulher em todas as suas
expressões é retirada de debate e reflexões.
Consideramos potente refletir com nossos estudantes de medicina os caminhos de
construção masculina das identidades das mulheres: frágeis, loucas, perigosas, degeneradas,
prostitutas ou fatais. Essas crenças atribuíram legitimidade à prática e ao discurso médico do
século XIX, quando as teorias médicas fundamentaram as interpretações relativas à diferença
sexual. Os estudantes do curso não são provocados a refletir e expandir a leitura sobre os corpos
femininos quando são excluídos, por exemplo, impotência feminina, orientação sexual,
métodos contraceptivos, mulheres transexuais e transgêneras.
Pode-se observar, também, uma pulverização da dimensão etária do corpo nos
componentes curriculares, não atentando para as especificidades do corpo idoso na relação com
os atravessamentos de gênero, sexualidade e saúde. Contraditoriamente, esses grupos excluídos
do currículo têm suas especificidades mascaradas a partir do conceito de saúde da família, que
funciona como instrumento biopolítico uma vez que se destina a um grupo normativo de
pessoas e não à especificidade de cada um de seus corpos.
Rupturas gritantes urgentes no silenciamento de corpos dissidentes na formação médica da UACV/CFP/UFCG
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Na disciplina Saúde da Criança e do Adolescente, ofertada no período do curso,
encontramos, em seus objetivos, propostas de discussões como Etiopatogenia das
enfermidades; Uma semiótica perfeita; Compreender a fisiologia e fisiopatologia Compreender
a fisiologia e fisiopatologia; Instituir a terapêutica adequada para resolução das comorbidades
[...]” (UFCG, 2017, p. 89). Os discursos observados são biologizantes e lidam com esses corpos
como reservatórios de doenças e comorbidades, corpos com urgência de tratamento e
normalização. Temas como transgenitalidade, intersexualidade, homossexualidade e
travestilidade, bissexualidade de um modo para além de faixa etária, surgem dentro de uma
taxonomia que hierarquiza, subalterniza, patologiza, medicaliza e mutila sujeitos,
automaticamente considerados anormais, destoantes, estranhos, abjetos e, por conseguinte,
tratáveis/corrigíveis pela Medicina.
Esta população coloca em xeque o determinismo biológico, fazendo de seu corpo uma
subversão da normatividade de gênero impregnada por uma lógica colonial, cisheteropatriarcal,
o que torna esses corpos verdadeiras fortalezas de resistência. Inferimos que um curso que tem
como objetivo geral proporcionar uma formação baseada “[...] também na sensibilidade
humanística e na responsabilidade social [...]” (UFCG, 2017, p. 258), não atinge esse objetivo
quando silencia esses corpos ao longo de todo o PPC analisado. É negar violentamente a
existência dessas pessoas e negar aos médicos em formação e egressos o conhecimento acerca
dessas existência, além de fragilizar a formação desses profissionais. Assim, sujeitos
LGBTQIA+ seguem invisibilizados nos temas e ações de saúde na nossa sociedade.
Corpos intersexuais são ausentes nos conteúdos de formação destes estudantes, cujo
currículo evidencia estar associado às teorias biológicas, que defendem não haver espaço para
alguém com os dois sexos/gêneros, apenas pessoas com um sexo e seu pressuposto gênero
correspondente. Deste modo, é no corpo das pessoas com algum tipo de ambiguidade sexual ou
que deixam margens para este tipo de dúvida que a medicina vai focar sua atenção apenas para
promover intervenção e criar uma nova maneira de interpretar os sexos, sem acolher a
diversidade de seus corpos e suas demandas específicas em saúde.
O estágio curricular supervisionado, ou internato, ocorre do 9º ao 12º período do curso.
Nesta etapa que finaliza o curso de graduação, o estudante de internato é o sujeito médico
preterido, que, em teoria, dialoga com o perfil do sujeito médico requerido pelo SUS e
determinado pelas DCN. O que observamos é que o sujeito médico que esse currículo de
formação produz foi normalizado e é normalizador, cujo olhar e ações foram e são direcionados
para corpos normalizados, tanto na sua biologia como na sua sexualidade. Ou seja, o curso
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analisado segue as normativas comprometidas em uma lógica na qual valorização da vida
biológica reprodutiva que promove a base dos cuidados em saúde as DCN (BRASIL, 2001).
Foi no biológico que os currículos se mantiveram por muito tempo e para o modelo
biopicossocial que se deseja deslocar. Porém, é evidente que ainda são carregados de discursos
biologizantes e masculinos, onde as relações de poder operam e se mantêm de forma fortalecida
abraçando um sistema que se comporta influenciando e influenciado. Um currículo de formação
médica que seleciona os corpos que acolherão no seu cuidado, é exemplo de violências
curriculares que reforça e perpetua o cistema
de relações assimétricas de poder.
E esses sujeitos produzidos nessa norma masculina, heterocisnormativa, constituem-se
como profissionais do cuidado fragmentado, pois seguem um modelo de formação em saúde
fortemente influenciada pelo modelo biomédico de ensino. Não é só com essa visão de mundo
biológico que facilmente normatiza e ditas as regras em currículo, mas pela forma de suas
relações com outros aspectos formativos, criando-se uma imagem do que está posto para as
relações sociais, o que observamos é uma base biológica que se coloca muitas vezes isolada e
ditando os caminhos.
Enquanto a normalização e normatização de corpos forem pautadas em um estereótipo
de músculos, virilidades sobre as demais identidades e corpos possíveis, ou seja, um padrão
hegemônico de representação de beleza, saúde, sucesso e inclusão baseado em corpos
heterocisnormativos, homens, brancos, corponormatizados, elitizados e jovens - sujeito dito
“não marcado”- , o corpo negro, o corpo das bichas, dos viados, dos/as velhos/as, das travestis,
dos transgêneros, das sapatões, dos/as deficientes físicos, dos/as gordos/as e outros tantos,
continuarão sendo invisibilizados. Corpos cuja própria humanidade é negada, cujas vidas não
são consideradas vidas e cuja materialidade é entendida como não importante. São vistos pela
medicina como corpos anormais, “monstros”, patologizados, necessitados de salvação e, para
estes corpos: ah, braços abertos! Uma gama de opções de resgate, todas oferecidas nas
dependências de suas instituições (hospitalar, clínica, psiquiátrica, farmacológica). Caso essas
instituições falhem, outras estão de braços abertos à espera por obliterar essas existências.
Aceitar essas vidas como espectros de existências humanas, possibilidades e vidas vivíveis, é
no mínimo uma necessidade que deve se tornar realidade.
Adoto essa forma de escrita para fazer um jogo de palavras com as questões de gênero e sistema de poder.
Cisgênero é a pessoa que se identifica com seu gênero imposto ao nascimento por condição da genitália. É uma
palavra antônima de/para transgênero/ transexual.
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Equipado com seu discurso científico hegemônico, é nas mãos dos médicos(as) que a
vida é confiada. Enquanto o olhar para os corpos for condicionado à reduzi-los à eficientes
matrizes reprodutoras, reservatórios e manifestantes em potencial de enfermidades e
comorbidades, esquadrinhados em estruturas e enfermidades, pulverizados etariamente e
singularmente e forem ocultadas as diversidades (todos os grupos de população são
representantes de vidas LGBTQIA+), essa medicina estará se colocando para o sistema
capitalista neoliberal, colonizado, rasgando corpos, atravessando vivências, aniquilando
essências, anulando (re)existências.
Considerações
O corpo dissidente é um grito, uma linha de fuga, uma brecha que se abre no sistema
para que corpos silenciados ganhem visibilidade, promovam desconstruções de concepções e
práticas.
Refletir sobre o corpo, em todas as suas dimensões, e sua correlação com as práticas de
saúde e de ensino, é fundamental para se (re)pensar a formação acadêmica, o cuidado em saúde
e, consequentemente, a construção de conhecimentos que considerem a individualidade do ser
e a integralidade do cuidado em saúde, numa lógica de justiça social e dos direitos humanos.
Sendo que, as Ciências Humanas e Sociais em Saúde, podem ser consideradas como um dos
veículos potencializadores desse processo ao promover a humanização das relações de cuidado
entre profissional-usuária/o, por meio de estratégias didático-pedagógicas que estimulem a
autorreflexão e a aquisição de valores e comportamentos pessoais inclusivos. Propiciando,
assim, um enriquecimento das reflexões sobre saúde e doença como fenômenos existenciais e
societários, individuais e coletivos. Promovendo, também, a cidadania, a justiça social, os
direitos humanos e a democracia nos processos de ensino-aprendizagem. Ou seja, busca-se
promover a Educação Inclusiva nas instituições de ensino.
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UFCG. Universidade Federal de Campina Grande. Projeto Pedagógico do Curso de
Medicina UFCG. Campina Grande, PB: UFCG, 2017.
CRediT Author Statement
Reconhecimentos: Ao programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal
de Sergipe (PPGED/UFS)
Financiamento: Não aplicável.
Conflitos de interesse: Não há conflitos de interesse.
Aprovação ética: O trabalho respeitou a ética durante a pesquisa. Não passou por Comi
de Ética em pesquisa por se tratar de análise documental sem envolvimento direto com seres
humanos.
Disponibilidade de dados e material: Os dados e materiais utilizados no trabalho estão
disponíveis para acesso no Repositório Institucional da Universidade Federal de Campina
Grande RI/UFS acessível pelo endereço: https://ri.ufs.br/handle/riufs/17488.
Contribuições dos autores: Fabíola Jundurian Bolonha: Desenvolvimento da pesquisa
e escrita do artigo. Alfrancio Ferreira Dias: Orientação na fundamentação teórica e
metodologia da pesquisa; orientação da escrita do texto.
Processamento e editoração: Editora Ibero-Americana de Educação.
Revisão, formatação, normalização e tradução.
Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 24, n. esp. 1, e023015, 2023. e-ISSN: 2594-8385
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URGENT RUPTURES IN THE SILENCE OF DISSIDENT BODIES IN THE
MEDICAL TRAINING OF THE UACV/CFP/UFCG
RUPTURAS GRITANTES URGENTES NO SILENCIAMENTO DE CORPOS
DISSIDENTES NA FORMAÇÃO MÉDICA DA UACV/CFP/UFCG
URGENTES RUPTURAS GRITANTES EN EL SILENCIO DE LOS CUERPOS
DISIDENTES EN LA FORMACIÓN MÉDICA DE LA UACV/CFP/UFCG
Fabíola Jundurian BOLONHA1
e-mail: fabiola.jundurian@professor.ufcg.edu.br
Alfrancio Ferreira DIAS2
e-mail: diasalfrancio@academico.ufs.br
How to reference this article:
BOLONHA, Fabíola Jundurian; DIAS, Alfrancio Ferreira.
Urgent ruptures in the silence of dissident bodies in the
medical training of the UACV/CFP/UFCG. Doxa: Rev.
Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 24, n. esp. 1, e023015,
2023. e-ISSN: 2594-8385. DOI:
https://doi.org/10.30715/doxa.v24iesp.1.18179
| Submitted: 15/02/2023
| Revisions required: 22/04/2023
| Approved: 11/06/2023
| Published: 01/08/2023
Editor:
Prof. Dr. Paulo Rennes Marçal Ribeiro
Deputy Executive Editor:
Prof. Dr. José Anderson Santos Cruz
Federal University of Campina Grande (UFCG), Cajazeiras PB Brazil. Adjunct Professor of the
Undergraduate Course in Medicine of the Academic Unit of Life Sciences. Doctorate in Education (UFS).
Federal University of Sergipe (UFS), São Cristóvão SE Brazil. Professor of the Department of Education and
of the Graduate Program in Education. PhD in Sociology (UFS). Post-doctorate (University of Warwick, UK).
Urgent ruptures in the silence of dissident bodies in the medical training of the UACV/CFP/UFCG
Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 24, n. esp. 1, e023015, 2023. e-ISSN: 2594-8385
DOI: https://doi.org/10.30715/doxa.v24iesp.1.18179 2
ABSTRACT: Questions posed in official documents that guide medical training are included
in critical curriculum theorizations, but the curriculum is not a neutral artifact with disinterested
transmission. Therefore, the objective of the present study is to analyze how the issues of dissent
from bodies are triggered in the Pedagogical Project of the Medical Course at the Federal
University of Campina Grande, through a methodology supported by post-critical assumptions
of study in education. It was found that the construction of the PPC took place in an arbitrary
and interested manner, guided by DCN that do not embrace the concepts of body, sexuality and
health in diversity. Reflecting on the body, in all its dimensions, and its correlation with health
and teaching practices, is essential to (re)think academic training, health care and, consequently,
the construction of knowledge in a logic of justice social and human rights.
KEYWORDS: Curriculum. Medical training. Gender. Sexuality. LGBTQIA+.
RESUMO: As questões colocadas nos documentos oficiais que norteiam a formação médica
estão inseridas nas teorizações críticas de currículo, mas o currículo não é um artefato neutro
e de transmissão desinteressada. Portanto, o objetivo do presente estudo é analisar como as
questões de dissidências de corpos são acionadas no Projeto Pedagógico do Curso de
Medicina da Universidade Federal de Campina Grande, através de metodologia amparada
nos pressupostos pós-críticos de estudo em educação. Foi constatado que a construção do PPC
se deu de forma arbitrária e interessada, se orientando por DCN que não acolhem os conceitos
de corpo, sexualidade e saúde na diversidade. Refletir sobre o corpo, em todas as suas
dimensões, e sua correlação com as práticas de saúde e de ensino, é fundamental para se
(re)pensar a formação acadêmica, cuidado em saúde e, consequentemente, a construção de
conhecimentos numa lógica de justiça social e dos direitos humanos.
PALAVRAS-CHAVE: Currículo. Formação médica. Gênero. Sexualidade. LGBTQIA+.
RESUMEN: Las preguntas planteadas en documentos oficiales que orientan la formación
médica se incluyen en teorizaciones críticas del currículo, pero el currículo no es un artefacto
neutral con transmisión desinteresada. Por lo tanto, el objetivo de este estudio es analizar cómo
las cuestiones del disenso de los cuerpos se desencadenan en el Proyecto Pedagógico de la
Carrera de Medicina de la Universidad Federal de Campina Grande, a través de una
metodología sustentada en supuestos poscríticos de estudio en educación. Se constató que la
construcción del PPC se dio de manera arbitraria e interesada, guiada por DCN que no
abrazan los conceptos de cuerpo, sexualidad y salud en la diversidad. Reflexionar sobre el
cuerpo, en todas sus dimensiones, y su correlación con la salud y las prácticas docentes, es
fundamental para (re)pensar la formación académica, el cuidado de la salud y,
consecuentemente, la construcción del conocimiento en una lógica de justicia social y derechos
humanos.
PALABRAS CLAVE: Plan de estudios. Entrenamiento médico. Género. Sexualidad.
LGBTQIA+.
Fabíola Jundurian BOLONHA and Afrancio Ferreira DIAS
Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 18, n. esp. 1, e023015, 2023. e-ISSN: 2594-8385
DOI: https://doi.org/10.30715/doxa.v24iesp.1.18179 3
Introduction
This work brings reflections on the urgency to break, through screams, the silencing of
dissident bodies during the training of medical students at the Academic Unit of Life Sciences
(UACV) of the Teacher Training Center (CFP) campus of the University Federal de Campina
Grande (UFCG). We were initially inspired by the song by Violeta Parra (1962) “Volver a los
diecisiete”, which invites you to go back in time and get in touch with the power to explore,
allow yourself to discover, territorialize, worry, transgress and leave territories without fear,
without attachment, create, design, expand and, thus, as a child does, even allowing himself to
make mistakes.
It is also a song that speaks of love in its disquieting potency El amor es torbellino de
pureza original [...] El amor con sus esmeros al viejo lo vuelve niño [...]” (PARRA, 1962, n.p.,
our translation). Everything transforms the moment, like a magician who is permissive and, at
the same time, imposing: this is life and the experience of the livable. Love is the chaos, the
turmoil, the disorder that makes the creation of the new possible: accomplishments that are not
recognized, not valued, not tolerated by royal science, by the way of knowing this science,
whose values are exponentially contrary to the values of the “scienceof the love. And to create
and maintain a crack in that science that belongs to a dangerous conservatism, we paved the
way with this screaming song.
The scream, from Deleuze's perspective (1994), is moved by affection and, therefore,
screams are endowed with the power to create. The scream, then, symbolizes the powerful song
and, in this sense, Violeta Parra is a screaming artist (TÓRTORA; LIMA; SILVA, 2018), a
symbol of resistance, of struggle, capable of making possible through her lyrics and her voice
a line of escape and a battle front against the totalitarian reality in which he lived. We bring
as inspiration this Latin American power to decolonize perceptions and visions of bodies,
through cries that we intend to engrave in this text.
For Goellner (2013), thinking of the body as something produced in and by culture is
both a challenge and a necessity. The challenge is because it breaks with the biological gaze -
that of the body seen as loose parts, molecular structures, genetics, tissues, systems, its
functioning (physiology), its “defects”, its pathology, the body classified, treated. It is a
necessity, because this rupture of perspective is essential for the body to reveal itself as
historical, that is, it is “[...] mutant, susceptible to numerous interventions depending on the
scientific and technological development of each culture as well as its laws, moral codes,
representations about the bodies and discourses that it produces and reproduces” (GOELLNER,
Urgent ruptures in the silence of dissident bodies in the medical training of the UACV/CFP/UFCG
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2013, p. 34, our translation). We take the idea of discourse from Foucault (2017) for whom
discourses do not only refer to language, but also to practices discursive practices. For
Foucault (2020), about bodies that have dissident sexuality, discursive practices were
elaborated in order to define explanations and places for them in the context of Western society:
The discursive practices are characterized by the selection of a field of
projects, by the definition of a legitimate perspective for the subject of
recognition, by the establishment of norms for the elaboration of concepts and
theories. Each of them, then, presupposes a set of prescriptions that determine
exclusions and theories (FOUCAULT, 2020, p. 18, our translation).
These discursive practices are interdisciplinary and elaborated in “technical sets, in
institutions, in behavior schemes, in types of transmission and diffusion, in pedagogical forms,
which at the same time impose and maintain them” (FOUCAULT, 2020, p. 19, our translation).
Sexuality has always been and still is subjected to a discursive technology in which treatment
practices were proposed, as if it were a pathology. As examples of this statement, the World
Health Organization (WHO), on May 17, 1990, removed the term homosexuality and adopted
the term homosexuality, starting to consider this as a sexual orientation and not as a pathology;
the Federal Council of Psychology (CFP), only in 1999, decided not to propose any more
healing methods
; and transsexuality which was maintained as a mental disorder for 28 years
through the International Classification of Diseases (ICD), is currently in the category of
disorders of sexual identity (gender incongruence)
. It is noticed that, in the case of
transsexuality, there was a migration of category, but it is still inscribed as a disease and thus a
specific multidisciplinary treatment is offered in the SUS for these “patients”. This articulation
brings to the surface that there is a power that dresses up as a “doctor” and that acts on the body.
Devices and technologies are “created” to regulate bodies and only from these it
becomes possible to discuss which individuals are normal, abnormal, complete or incomplete.
Foucault defines device as “strategies of power relations sustaining types of knowledge and
being supported by it” through discursive and non-discursive elements and with a function of
domination (FOUCAULT, 2017, p. 246, our translation). Based on the “device of sexuality”,
biomedical knowledge “convents” the “appropriate” size of the penis and clitoris, the amount
of testosterone a “woman” should “naturally” have in her body, what “normal” appearance of
Available at: https://site.cfp.org.br/resolucao-01-99/historico/ .Access: 10 Dec. 2022.
Available at:
https://www.medicinanet.com.br/cid10/1554/f64_transtornos_da_identidade_sexual.htm#:~:text=CID%2010%2
0F64%20Transtornos%20da%20identidade%20sexual%20%E2%80%93% 20Doen%C3%A7as%20CID%2D10
. Access: 10 Dec. 2022.
Fabíola Jundurian BOLONHA and Afrancio Ferreira DIAS
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the male/female genitalia, etc., and then decides which bodies should be (un)(re)made (MÉLLO
et al., 2009).
Bodies that are born with ambiguous or intersex genitalia are destined to (dis)accept the
medical knowledge legislated by the CFM through CFM Resolution No. 1.664/2003 which
"defines the technical standards necessary for the treatment of patients with anomalies of sexual
differentiation. These bodies slide into representations of what is considered truly human,
placing them in the interstices between what is normal and what is pathological. This “non-
humanity” or “abnormality” will justify medical interventions, with the aim of adapting it to
the ideal of sexual dimorphism (PINO, 2007).
The articulation between the judiciary and medicine manifests the action of power
relations that establish behaviors, discipline bodies and shape subjectivities. The diagnosis of
intersexuality is given after clinical-surgical, anatomical, genetic, endocrinological and imaging
evaluations. It is up to medical knowledge the role no longer of recognizing the presence of the
two sexes together or finding one of the two that prevails, but of deciphering the “true sex” that
is hidden in different aspects and appearances.
Health reception spaces are often spaces where dissident corporeality, gender and
sexualities are not welcomed, where prejudice and the unpreparedness of professionals make
them unable to meet the real needs of these subjects (FERNADES; SOLER; LEITE, 2018;
SAADEH et al.,2018; LONGHI, 2018). Lesbian women have different demands from gay men,
and both from transvestites and transgender women/men (CARDOSO; FERRO, 2012) and, all
of these when they have other markers, such as People with Disabilities (PCD) (MAIA, 2006).
The questioning of the ontology of the human is worked by Haraway (2009), through
the figure of the cyborg. The author emphasizes the possibility of the existence of a new place
for the subject that is multiple, characterized by intensities. The figure of the cyborg is not just
the representation of something that is half machine and half human, but it is the translation of
the interweaving between what man produces and what the machine produces within the
human. It helps us to problematize who does, who is done and who is undone. Ambiguous
bodies are undone in the flesh by means of medical devices. In terms of gender and sex, the
cyborg opposes the metric sewing of bodies promoted by medicine. It helps us to put aside the
question about where the masculine begins and where the feminine begins, and makes us reflect
on the practices of ambiguity extinction.
This tense, intense, dense scenario of violence against LGBTQIA+ is also characterized
in the health system. Prejudice in health establishments and the unpreparedness of professionals
Urgent ruptures in the silence of dissident bodies in the medical training of the UACV/CFP/UFCG
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make health promotion spaces incapable of meeting the real needs of the LGBTQIA+
community (FERNADES; SOLER; LEITE, 2018; SAADEH et al., 2018; GIANNA;
MARTINS; SHIMMA, 2018; CALAZANS et al., 2018; LONGHI, 2018), representing a
barrier for this population to access health services and comprehensive care (CARDOSO;
FERRO, 2012; GIANNA; MARTINS; SHIMMA, 2018; CALAZANS et al., 2018; LONGHI,
2018).
There is a difficulty in accepting the health demands of the LGBTQIA+ segment,
understanding this group as diverse in itself, so that each specificity is met. Lesbian women
have different demands from gay men, and both from transvestites and transgender women/men
(CARDOSO; FERRO, 2012). According to the authors, the health demands of lesbians are
related to breast and cervical cancer, which are aggravated due to the low use of health services
by these women.
We consider it important to emphasize that the SUS, which has, among its principles,
equity, made populations historically marked by social inequalities invisible, since such
populations only began to be contemplated by public policies that "meet" their needs, from
2007 onwards. almost two decades after they were marked by struggles and social tensions
of these so-called social minorities. This is exemplified by citing the National Policy for Health
Care for Indigenous Peoples (PNASPI, 2002); the National Policy for Comprehensive Health
of the Black Population (PNSIPN, 2007); the National Policy for the Comprehensive Health of
Rural and Forest Populations (PNSIPCF, 2008) and the National Policy for the Comprehensive
Health of Lesbians, Gays, Bisexuals, Transvestites and Transsexuals (PNSI “LGBT”, 2011).
In order to guarantee trained health professionals, with a broad understanding of the
specific health demands of the LGBTQIA+ population, we find in scientific works the
consensus that there is a need to include in the training of medical professionals’ aspects that
are not merely biological about human sexuality and care. in health with sexual minorities,
whether still in graduation or in the professional path in health services (SENA; SOUTO, 2017;
CALAZANS et al., 2018; RUFINO; MADEIRO, 2017; NEGREIROS et al., 2019).
Furthermore, the recognition of the diversity of livable lives is reflected in the National
Curriculum Guidelines (DCN) for the 2014 Medicine course and must be reflected, accordingly,
in the official documents of the medicine courses such as the Course Pedagogical Project
(PPC), in theoretical and practical disciplines during all periods of the medical course, including
internship (BOLONHA et al., 2022).
Fabíola Jundurian BOLONHA and Afrancio Ferreira DIAS
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The questions posed in the official documents that guide medical training are included
in critical curriculum theories, but the curriculum is not a neutral artifact of disinterested
transmission, on the contrary, it emphasizes power relations and prioritizes some knowledge
over others.
In this context, the objective of the present study is to analyze how the issues of
dissidence of body, gender and sexuality constitute the Pedagogical Project of the Course (PPC)
of Medicine of the Academic Unit of Life Sciences of the Federal University of Campina
Grande, campus of Cajazeiras, PB (UACV/CFP/UFCG).
Methodological path
Our methodology is supported by the post-critical assumptions of studies in education.
In their epistemological field, they seek, through their paradigms, to study the subjects and their
forms of subjectivations in the process of power relations that they circumscribe, that is, they
are characterized by the questionings made to knowledge (and its effects of truth and power);
to the subject (and to the different modes and processes of subjectivation); and educational texts
(and the different practices they produce and institute) (PARAÍSO, 2005).
From a poetic license, we can take the theories and methodologies of post-critical
research in education as a great river, whose vast current of languages receives tributaries
(influences) from the so-called "philosophy of difference", from post-structuralism, from post
-modernism, queer theory, feminist and gender studies, transfeminist studies, multiculturalist,
post-colonialist, ethnic, ecological, critical research. “Their productions and inventions have
thought about educational practices, curricula and pedagogies that point to openness,
transgression, subversion, the multiplication of meanings and difference” (PARAÍSO, 2004, p.
284, our translation).
In the Brazilian educational scenario, post-critical research gains expressiveness,
especially in the rupture of paradigms. “Their productions and inventions have thought about
educational practices, curricula and pedagogies that point to openness, transgression,
subversion, the multiplication of meanings and difference” (PARAÍSO, 2005, p. 284-285, our
translation). The choice of methodology should talk to the object under study, in such a way
that the theoretical tools show and establish relationships and functioning with each other.
Paraíso (2014, p. 38, our translation) highlights that the choice of such tools “help to ask
questions, to interrogate our material, to multiply meanings and to show the contingencies of
Urgent ruptures in the silence of dissident bodies in the medical training of the UACV/CFP/UFCG
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events and the proliferation of difference”. In post-critical research, it is believed that “the
methodology must be constructed in the investigation process according to the needs posed by
the research object and the questions asked” (MEYER, 2014, p. 17, our translation).
In this sense, the present study intends to understand, analyze and evaluate subjective
questions about themes such as curriculum, body, gender, sexuality, and, for that, we are
inspired by the approach of post-critical research. Post-structuralism brings an assumption that
truth is an invention, a creation of reason, and not a discovery. The truth is that there is no such
thing as truth, but regimes of truth, that is, discourses that society elects as true, and for
Foucault, “the truth is circularly linked to systems of power, which produce and support, and
to effects of power that truth induces and that reproduce it” (FOUCAULT, 2017, p. 54, our
translation). The author notes that:
[...] truth is centered on the form of scientific discourse and the institutions
that produce it; it is subject to constant economic and political incitement; it
is the object, in various ways, of immense diffusion and immense
consumption (it circulates in educational or information apparatuses); it is
produced and transmitted under the control, not exclusive, but dominant, of
some great political or economic apparatus (university, army, writing, means
of communication); finally, it is the object of political debate and social
confrontation (the 'ideological' struggles) (FOUCAULT, 1996, p. 53, our
translation).
That is, the speeches are oriented, have target(s), have clear objectives, are productive.
Foucauldian theorizations show that all discourses are part of a struggle or dispute to build their
own versions of truth and, furthermore, that discourses produce practices that, when articulated
with knowledge-power, signal discussions about history, language and the philosophy of the
subject. This is only possible considering that power “[...] if only exercised in a negative way,
it would be very fragile. If it is strong, it is because it produces positive effects [...] in terms of
knowledge” (FOUCAULT, 2019, p. 148, our translation).
According to a description prepared by Fisher (2012, p. 77, our translation) about
discourse analysis from Foucault's perspective, an utterance has four basic elements: 1- A
referent. The reference to something we identify” [In the case of this study, medical training].
2 A subject. “The fact of having a subject, someone who can effectively state what (what we
identified)” [In this study, the elaboration of the DCN and PPC]. 3 “An associated field. The
fact that the utterance does not exist in isolation, but always in association and correlation with
other utterances of the same discourse” [In this study, the educational medical discourse]. 4
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“a materiality of the utterance, the concrete ways in which it appears in texts” [In this study, the
texts/documents of the DCN and PPC].
In this way, we propose an exhaustive and intense reading of the main documents that
make up the trajectory of the elaboration of the PPC of the CFP/UFCG undergraduate medical
course and the PPC itself, working with a single discursive formation - the regimental texts,
having as a focus the emblematic points that we proposed to look into. The analysis categories
were as follows: “body”, “sexuality”, “health”, “SUS”.
Results and discussion
The analysis was carried out in the PPC of the UACV/UFCG medical course and, from
this, it was verified that the construction of the document took place in an arbitrary and
interested way, guided by DCN, which do not embrace the concepts of body, sexuality and
health in diversity - one of the reasons why these were reformulated in 2014. In line with the
DCN of 2001 (BRASIL, 2001), in the PPC analyzed there is no mention of the biological,
subjective, ethnic-racial diversity of gender or sexual orientation. We understand that the
absence of these terms in the DCN (BRASIL, 2001) strengthens discourses that structure the
PPC analyzed and whose base is formed by hegemonic masculinities, which make clear the
gendered and heteronormative potential of the behaviors presented.
What is proposed in the PPC is implemented in the curricular matrix and the disciplines
are aligned with the teaching proposals in health, although with a strong preponderance of
disciplines with a biologist focus, prioritizing some knowledge in relation to others, with a
predominance of contents with the naturalization of discourses about anatomical and
physiological bodies, and genders associated with males and females, as well as a marked
concern with the universalization of quality health to all, as being the responsibility of these
future health professionals.
We argue, in this sense, that there are multiple discursive formations from official
norms and guidelines, scientific, biological/biomedical, social, pedagogical that come into
dispute in the curricular composition and that trigger knowledge about body, gender and
sexuality in medical education, producing certain truths and certain subjects.
Urgent ruptures in the silence of dissident bodies in the medical training of the UACV/CFP/UFCG
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Representations of bodies
A body as a structure, without identity, appears in the syllabi of disciplines, endowed
with a biologicist vision, marked by morpho-functional regulations of the human body. This
body as a structure is shared with students during the beginning of the course, through cadavers,
histological slides, molecular descriptions in biochemistry and biophysics. Clearly, it is not the
same body that students see on the street, at home, on social media, in their social relationships.
It is a structured body, an object, which only exists in the practical and theoretical classes of
these disciplines and books.
About this body object taken as “unique” and “true” at the beginning of the course, we
are faced with bodies that occupy places that do not belong to any space. Foucault (2013) calls
the body without a body the utopian body, the incorporeal body, exemplified by the bodies of
mummies, which persist through time, a utopia of the dead.
We considered the parts and devices for simulations related to the clinical skills
laboratory physical examination (UFCG, 2017, p. 17); synthetic anatomical parts, corpses and
their mutilated parts used in anatomy classes (UFCG, 2017, p. 55), histological slides, utopian
bodies, dead bodies whose utopian bodies are offered for academic study. We take the fact that
utopias narrate a place that does not exist (the body of the deceased and its dismembered limbs;
the histological slides) and that they blossom in an imaginary space and, therefore, “are located
in the straight line of discourse”, therefore, language intersects with space.
We consider it essential that, concomitantly with the study of the “incorporeal” body,
the body be worked on in its historical, social, cultural aspects and with its diversities.
Moreover, it is the totality of these aspects that make up the bodies that students will find in the
course's theory-practice articulation, since working with merely biologized and gendered bodies
is referring to the use of utopias in which bodies emerge and others that make bodies annul.
Later, the students will enter the clinical disciplines and will start to deal with “real
bodies” in theoretical and practical classes, never finding that objectified body with which they
have learned so far. We observed, in the PPC, the construction of a “natural” / “normal” stigma
among bodies, implying the attribution of a particular body to women, referring us to the fact
that the medicalized body has become a privileged reference for the construction of gendered
personal identities. At this point, we infer about the silencing of dissident bodies caused by
power alliances based on hegemonic structures.
We observed in the 8th period of the course, in subject M4 Women's Health, that the
woman's body is included in the analyzes of “obstetrics; childbirth; puerperium; gynecology
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family planning, infertility, vaginal discharge [...]” (UFCG, 2017, p. 90, our translation), raising
the suspicion that the very definition of women's health seems distorted. In the objectives of
this discipline, we find a mechanistic view of the reproductive system, allocating knowledge to
the reproduction capacity, without discussing sexual organs and sexuality, but rather,
reproductive organs/system. The student is guided through a reading of bodies destined to serve
as reproductive matrices, objects of the patriarchy installed in Brazil since the colonial period,
reduced to their genitals and breasts. It is a conservative and sexist content, which refers to the
medical perspective of the late 19th and early 20th centuries, in which doctors understood the
woman's body as having a connection between the uterus and the central nervous system, and,
therefore, the Feminine intellectual activities could generate sick and malformed children
during pregnancy, with intellectual development reserved for men, as they did not run this risk.
Even in gynecology, the health of lesbian, asexual and bisexual women could be a theme
in different contents, but it is evident that women's sexuality in all its expressions is removed
from debate and reflections.
We consider it powerful to reflect with our medical students on the paths of masculine
construction of women's identities: fragile, crazy, dangerous, degenerate, prostitutes or fatal.
These beliefs gave legitimacy to the medical practice and discourse of the 19th century, when
medical theories underpinned interpretations related to sexual difference. Course students are
not provoked to reflect and expand their reading on female bodies when they are excluded, for
example, female impotence, sexual orientation, contraceptive methods, transsexual and
transgender women.
One can also observe a fragmentation of the age dimension of the body in the curricular
components, not paying attention to the specificities of the elderly body in relation to the
crossings of gender, sexuality and health. Contradictorily, these groups excluded from the
curriculum have their specificities masked from the concept of family health, which works as a
biopolitical instrument since it is intended for a normative group of people and not the
specificity of each of their bodies.
In the discipline Child and Adolescent Health, offered in the 8th period of the course,
we find, in its objectives, proposals for discussions such as Etiopathogenesis of diseases; A
perfect semiotics; Understand physiology and pathophysiology Understand physiology and
pathophysiology; Institute appropriate therapy to resolve comorbidities [...]” (UFCG, 2017, p.
89, our translation). The observed discourses are biologizing and deal with these bodies as
reservoirs of diseases and comorbidities, bodies in urgent need of treatment and normalization.
Urgent ruptures in the silence of dissident bodies in the medical training of the UACV/CFP/UFCG
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Themes such as transgenitality, intersexuality, homosexuality and transvestility, bisexuality in
a way that goes beyond age range, arise within a taxonomy that hierarchizes, subordinates,
pathologizes, medicalizes and mutilates subjects, automatically considered abnormal,
discordant, strange, abject and, therefore, treatable/correctable by Medicine.
This population puts biological determinism in check, making their bodies a subversion
of gender normativity impregnated by a colonial, cisgender-heteropatriarchal logic, which
makes these bodies true fortresses of resistance. We infer that a course whose general objective
is to provide training based “[...] also on humanistic sensitivity and social responsibility [...]”
(UFCG, 2017, p. 258, our translation), does not achieve this objective when it silences these
bodies throughout the analyzed PPC. It is to violently deny the existence of these people and to
deny knowledge about their existence to doctors in training and graduates, in addition to
weakening the training of these professionals. Thus, LGBTQIA+ subjects remain invisible in
health issues and actions in our society.
Intersex bodies are absent in the training content of these students, whose curriculum
shows that it is associated with biological theories, which argue that there is no room for
someone with both sexes/genders, only people with one sex and their assumed corresponding
gender. Thus, it is on the body of people with some type of sexual ambiguity or who leave room
for this type of doubt that medicine will focus its attention only to promote intervention and
create a new way of interpreting the sexes, without accepting the diversity of their bodies and
their specific health demands.
The supervised curricular internship, or internship, takes place from the 9th to the 12th
period of the course. In this stage that ends the graduation course, the internship student is the
neglected medical subject, which, in theory, dialogues with the profile of the medical subject
required by the SUS and determined by the DCN. What we observe is that the medical subject
that this training curriculum produces has been normalized and is a normalizer, whose look and
actions were and are directed towards normalized bodies, both in their biology and in their
sexuality. That is, the analyzed course follows the norms committed to a logic in which there is
appreciation of reproductive biological life that promotes the basis of health care - the DCN
(BRASIL, 2001).
It was in the biological field that the curricula remained for a long time and to the
biopsychosocial model that one wishes to shift. However, it is evident that they are still loaded
with biologizing and masculine discourses, where power relations operate and are maintained
in a strengthened way, embracing a system that behaves by influencing and being influenced.
Fabíola Jundurian BOLONHA and Afrancio Ferreira DIAS
Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 18, n. esp. 1, e023015, 2023. e-ISSN: 2594-8385
DOI: https://doi.org/10.30715/doxa.v24iesp.1.18179 13
A medical training curriculum
that selects the bodies that will receive their care is an example
of curricular violence that reinforces and perpetuates the schism of asymmetrical power
relations.
And these subjects produced in this masculine norm are constituted as professionals of
fragmented care, as they follow a health training model strongly influenced by the biomedical
teaching model. It is not only with this view of the biological world that easily normalizes and
dictates the rules in the curriculum, but by the form of its relations with other formative aspects,
creating an image of what is set for social relations, what we observe is a base which is often
isolated and dictating the paths.
As long as the normalization and standardization of bodies are based on a stereotype of
muscles, virility over other possible identities and bodies, that is, a hegemonic pattern of
representation of beauty, health, success and inclusion based on cisgender-heteronormative
bodies, men, whites , standardized bodies , elitist and young - so-called "unmarked" subject - ,
the black body, the body of queers, fags, old people , transvestites, transgenders, dykes, the
physically handicapped, the fat people and many others, will continue to be made invisible.
Bodies whose very humanity is denied, whose lives are not considered lives and whose
materiality is understood as unimportant. They are seen by medicine as abnormal bodies,
“monsters”, pathologized, in need of salvation and, for these bodies: ah, open arms! A range of
rescue options, all offered on the premises of their institutions (hospital, clinical, psychiatric,
pharmacological). If these institutions fail, others are waiting to obliterate these existences with
open arms. Accepting these lives as specters of human existences, possibilities and livable lives
is, at the very least, a necessity that must become a reality.
Equipped with its hegemonic scientific discourse, it is in the hands of doctors that life
is entrusted. As long as the look at bodies is conditioned to reduce them to efficient reproductive
matrices, reservoirs and potential manifestations of illnesses and comorbidities, scrutinized in
structures and illnesses, pulverized by age and singularly and diversities are hidden (all
population groups are representatives of LGBTQIA+ lives), this medicine will be positioning
itself for the neoliberal capitalist system, colonized, tearing up bodies, crossing experiences,
annihilating essences, annulling (re)existences.
I adopt this form of writing to play on words with issues of gender and the system of power. Cisgender is a person
who identifies with their gender imposed at birth by condition of the genitals. It is an antonym of/for
transgender/transsexual.
Urgent ruptures in the silence of dissident bodies in the medical training of the UACV/CFP/UFCG
Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 24, n. esp. 1, e023015, 2023. e-ISSN: 2594-8385
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Final remarks
The dissident body is a cry, a line of flight, a breach that opens up in the system so that
silenced bodies gain visibility, promote the deconstruction of concepts and practices.
Reflecting on the body, in all its dimensions, and its correlation with health and teaching
practices, is essential to (re)think academic training, health care and, consequently, the
construction of knowledge that considers the individuality of being and integrality of health
care, in a logic of social justice and human rights. Since the Human and Social Sciences in
Health can be considered as one of the vehicles that enhance this process by promoting the
humanization of care relationships between professional-user, through didactic-pedagogical
strategies that encourage self-reflection and the acquisition of inclusive personal values and
behaviors. Thus, providing an enrichment of reflections on health and illness as existential and
societal, individual and collective phenomena. Also promoting citizenship, social justice,
human rights and democracy in teaching-learning processes. That is, it seeks to promote
Inclusive Education in educational institutions.
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CRediT Author Statement
Acknowledgments: To the Graduate Program in Education of the Federal University of
Sergipe (PPGED/UFS)
Funding: Not applicable.
Conflicts of interest: There are no conflicts of interest.
Ethical approval: The work respected ethics during the research. It did not go through the
Research Ethics Committee because it is a documentary analysis without direct involvement
with human beings.
Availability of data and material: The data and materials used in the work are available
for access in the Institutional Repository of the Federal University of Campina Grande
RI/UFS accessible at the address: https://ri.ufs.br/handle/riufs/17488.
Authors' contributions: Fabíola Jundurian Bologna: Development of the research and
writing of the article. Alfrancio Ferreira Dias: Orientation in the theoretical foundation
and methodology of the research; orientation of the writing of the text.
Processing and publishing: Editora Iberoamericana de Educação.
Proofreading, formatting, standardization and translation.