José Anderson SANTOS CRUZ; Flávio Henrique Machado MOREIRA e Alexander Vinicius LEITE DA SILVA
Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 24, n. esp. 1, e023016, 2023. e-ISSN: 2594-8385
DOI: https://doi.org/10.30715/doxa.v24iesp.1.18314 3
Uma das experiências mais permeadas pela violência no Brasil é aquela que sofre com
a medicalização dos corpos e o binarismo entre gênero e sexo, imposta como uma pretensa
verdade científica que adquiriu caráter dogmático em uma realidade que distorce estudos e
ciência para seus próprios interesses e manutenção de um conforto estabelecido (status quo),
mesmo que esse conforto possa ser desconfortante. Agressividade e repulsa são dirigidas às
pessoas que não se conformam e tentam viver suas identidades sem se submeter a tal
dogmatismo dualista, sendo silenciadas até mesmo pela linguagem que permeia nossa
realidade, tornando-se um campo de opressão nessa “guerra” que a sociedade trava.
Esse caráter violento, tanto no Brasil como em diversas partes do planeta, é revitalizado
e renovado com facetas ainda mais cruéis e excludentes. Não mais ameaçando veladamente a
existência dessas pessoas, essas atitudes são anunciadas com fervor, negando a própria
existência da diferença, como pode ser observado no caso de leis recentes aprovadas nos
Estados Unidos (Revista Veja, 2023, online). Esse fenômeno não se limita ao exterior, pois o
Brasil também enfrenta um aumento dessa violência explícita nos últimos quatro anos, e é
incerto o tamanho da escalada que esses discursos veiculados por meio de palanques podem
alcançar em relação a esse fascismo genético.
Diante de tudo isso, torna-se ainda mais importante reafirmar a existência, a vida, a voz,
a arte e a poesia dessas pessoas, concedendo espaço também às manifestações que defendem
os direitos de todes, buscando negar a “ética colonial” que tanto as oprime. Nesse contexto, é
fundamental compreender que não existe:
uma relação necessária entre gênero e órgão. Ou seja, falo e mama, não
formam a base para a diferença sexual e a identidade não necessariamente
anda junta com as partes corporais [...] o corpo não forma a base sólida para a
identidade que levantou várias questões sobre relações entre identidade de
gênero e identidade subjetiva, estas são as questões que nortearam a terceira
vertente que teve inspirações das revisões pós-estruturalistas do sujeito e pela
teoria psicanalítica (MONTEIRO, 2018, p. 18).
Visando fomentar esse debate e destacar as vivências e resistências contra os dogmas
cisheteronormativos, apresentamos a arte, a poesia e o debate científico das vozes daqueles que
buscam compreender e fazer compreender que o direito à existência é universal. Buscamos
atravessar padrões linguísticos, imagéticos, brancos, coloniais, cisheteronormativos e sociais,
representando uma vivência e experiência multifacetada, plural e fluída que transcende
binarismos. Exemplo disso é a representação que abraça e ilustra esta edição, uma arte criada
por Saul Fonseca, um artista trans-homem de 31 anos, praticante do candomblé e filho de
Ogum.