A docência na pandemia: Tecnologia, isolamento e o sofrimento psíquico
Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 24, n. esp. 2, e023024, 2023. e-ISSN: 2594-8385
DOI: https://doi.org/10.30715/doxa.v24iesp.2.18649 6
metamorfose do sofrimento e destacam sua relação com as mudanças sociais, econômicas e
políticas. Pontuam que:
É possível dizer que cada época prescreve a maneira como devemos exprimir
ou esconder, narrar ou silenciar, reconhecer ou criticar modalidades
específicas de sofrimento. Isso explica a emergência e o declínio sazonal de
determinados quadros clínicos em detrimento de outros (SAFATLE; SILVA
JÚNIOR; DUNKER, 2021, p. 12).
No entanto, os grandes manuais classificatórios reduzem o sofrimento psicológico a
uma categoria nosológica, ou seja, diagnosticam uma condição própria da existência humana.
Dessa forma, o sofrimento deixa de ser apenas um fenômeno da vivência humana para se tornar
um sintoma presente em diversas patologias. O Manual Diagnóstico e Estatístico de
Transtornos Mentais (DSM-V) foi publicado pela primeira vez em 1952, pela Associação
Psiquiátrica Americana e está em sua quinta edição. No DSM-V, o sofrimento psicológico é
determinado como “uma variedade de sintomas e experiências da vida interna de uma pessoa
que são comumente perturbadores, confusos e fora do comum” (APA, 2014, p. 830).
Contudo, é problemático equiparar o sofrimento psíquico a uma patologia, visto que ele
se apresenta a partir das relações sociais do sujeito com seu meio, que vai se modificando
conforme é nomeado. Ao contrário, o que caracteriza a doença é a estabilidade de seu curso,
independentemente das relações sociais, ou seja, ela apresenta início, meio e fim. Dunker (2015,
p. 24) afirma que:
As doenças mentais não são nem doenças, no sentido de um processo mórbido
natural, que se infiltra no cérebro dos indivíduos, seguindo um curso
inexorável e previsível, nem mentais, no sentido de uma deformação da
personalidade. As doenças mentais, ou melhor, seus sintomas, realizam
possibilidades universais do sujeito, que se tornam coercitivamente
particulares ou privativamente necessárias. Em outras palavras, um sintoma é
um fragmento de liberdade perdida, imposto a si ou aos outros.
Ao compreender a dimensão social e subjetiva do sofrimento psíquico é impossível não
o relacionar à instância social do trabalho. O sujeito está inserido num sistema capitalista, que
lhe exige cada vez mais produção e eficiência. Pensando em sofrimento psíquico e trabalho,
através da ótica psicanalítica, Silveira, Feitosa e Palácio (2014, p. 3) comentam:
Compreendemos, a partir da clínica psicanalítica, que todas as experiências
do sujeito vão ser significadas a partir do lugar que esse sujeito ocupa em
relação à linguagem. Assim, o sofrimento psíquico do trabalhador não pode
ser pensado apenas como fator inerente aos estímulos externos (organização
do trabalho, infraestrutura, ritmo de produção), mas precisa ser abordado a
partir de como essa relação com o trabalho se insere na economia psíquica de