O protagonismo juvenil em livros didáticos de Projeto de Vida do Novo Ensino Médio
Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 25, n. 00, e024005, 2024. e-ISSN: 2594-8385
DOI: https://doi.org/10.30715/doxa.v25i00.19420 6
e proposição. Nessa relação, o enunciado se distingue da frase por não se assemelhar às formas
gramaticais e linguísticas, e, ainda, por não se restringir a uma verbalização sujeita a regras.
Dessarte, uma fotografia, um mapa e um gráfico podem ser enunciados “desde que sejam
tomados como manifestações de um saber e que, por isso, sejam aceitos, repetidos e
transmitidos” (Veiga-Neto, 2003, p. 94).
Sob essa ótica, ao discutir a noção de enunciado e ao diferenciá-lo de uma
materialização linguística, Foucault (2014) exemplifica que as letras dispostas no teclado de
uma máquina de datilografia não podem ser consideradas um enunciado, visto que, embora se
materializem linguisticamente, não atendem as propriedades que o caracterizam. Todavia, a
sequência de letras A, Z, E, R, T dispostas em um manual de datilografia, corresponde ao
enunciado da ordem alfabética adotada pelas máquinas de escrever da França, isto é, o
enunciado passa a ser definido pelas suas condições de existência, porque dentro de um sistema
de escrita, ele exerce determinada função enunciativa.
Assim, pode-se dizer, pois, que o enunciado extrapola os limites estruturais, tornando-
se, muito mais uma função, uma condição de existência do que um recurso meramente
linguístico, haja vista manter com o sujeito uma relação determinada. A partir disso, entende-
se que o discurso se apropria do enunciado enquanto acontecimento num jogo de relações que
se estabelecem entre “[...] instituições, processos econômicos e sociais, formas de
comportamento, sistemas de normas, técnicas, tipos de classificação, modos de caracterização”
(Foucault, 2014, p. 167). Conforme o autor,
Assim concebido, o discurso deixa de ser aquilo que é para atitude exegética
e passa a ser um bem que por conseguinte, a partir da sua própria existência
(e não simplesmente nas suas aplicações práticas), a questão do poder; um
bem que é, por natureza, objeto de uma luta, e de uma luta política” (Foucault,
2014, p. 168, grifos do autor).
O discurso, concebido como uma prática de saber social e histórica que mantém relação
com outros enunciados a partir de uma mesma formação discursiva, não é neutro. Essa não
neutralidade do discurso refere-se às relações de poder que são determinadas à medida que ele
é enunciado. Para o autor francês, o sujeito é mediador desse poder que transita nos mais
diferentes espaços. Contudo, mais do que isso, o sujeito é constituído por esse poder, ao mesmo
tempo, em que o exerce, sendo seu efeito primeiro. Dessa forma, tanto sujeito quanto poder não
são materialidades fixas, mas posições a serem ocupadas/exercidas. Em A Microfísica do Poder
(2012), Foucault se refere ao poder enquanto uma ação exercida, assim sendo, o poder só existe
a partir de práticas e relações que o manifestam.