
Arthur BRANDOLIN & José Francisco Miguel Henriques BAIRRÃO
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10.30715/doxa.v26i00.20576
DOXA: Revista Brasileira de Psicologia da Educação, Araraquara, v. 26, n. 00, e025014, 2025. e-ISSN: 2594-8385
O ritual connua e, por volta das 18:20 h, Abdin invoca outro grupo de divindades,
descritas por Obeyesekere como as sete irmãs (Kali, Pommari, Isvari, Issakeyi, Adiye, Nili e
Bhagava). Obeyesekere transcreve as palavras de Abdin:
Eu chamo Mãe Pommari, proteja todos os homens e mulheres. Eu saúdo as Sete Irmãs,
caranam [refúgio]; por favor, venha para a festa que eu tenho aqui e tenha piedade de
mim, Isvari, Amma [mãe] Isvari. Amma Isvari eu te chamo por este nome, e neste nome
[forma] você tem o poder de controle sobre nós, Amma. Eu agora te chamo Issakeyi,
Adiye, a muito má Nili, eu te chamo amma, eu te chamo o fogo ardente, aquela que fez
coisas terríveis no cemitério... que controla o cemitério e realiza magia de vingança negra
[pali]. Om Kali, eu te chamo sangrenta [uthirai] Maha Kali, eu te chamo mãe, amma, que
faz um sacricio sangrento. (Obeyesekere, 1981, p. 151-152)
A parr desse momento do ritual, Obeyesekere apresenta algumas caracteríscas espe-
cícas de Abdin, como a gagueira e os tremores no corpo quando começa a mencionar Kali.
Enquanto o assistente toca o tambor, Abdin encara a imagem de Kali, tremendo e gaguejando,
e começa a mimezar, colocando a língua para fora e cortando-a, fazendo o sangue escorrer,
de modo que a coloração vermelha na boca, no queixo e no peito de Abdin se assemelha à da
imagem de Kali. Em seguida, pressiona a tocha acesa contra o próprio peito e se dá tapas no
rosto (Obeyesekere, 1981, p. 152).
Nesse momento, já passava das 18:45 h, e a descrição do ritual enfaza os cortes na
língua e o sangue que escorre da boca de Abdin, caracterísca que o aproxima da deusa Kali,
representada com a língua vermelha para fora da boca. Esse ato de Abdin será, posteriormente,
tratado com ênfase nas interpretações de Obeyesekere. Ao longo de todo o ritual, Obeyesekere
relata que Abdin declara algumas profecias para seu contratante, mas apenas no nal da pri-
meira parte ele revela uma delas, transcrevendo diretamente os ditos de Abdin: “se você não
acha que eu sou Kali, pense que é alguém que come um cadáver … ouça, ali, caranam … Amma,
amma, me bata e me controle, caranam amma, amma” (Obeyesekere, 1981, p. 153).
Após um intervalo de aproximadamente meia hora, em que Abdin volta do transe, bebe
água e conversa com Obeyesekere, o ritual reinicia e dura mais alguns minutos. Durante esse
tempo, Abdin volta a entrar em transe e, com um pouco de diculdade para respirar, faz mais
algumas profecias para outros membros da família, abençoa-os e, por m, “os tambores param,
e Abdin se esparrama no chão desmaiado” (Obeyesekere, 1981, p. 154).
O relevante aqui são alguns fatos especícos, como as ações de Abdin quando em transe
e recebendo as divindades: por exemplo, Kali, ele precisa ofendê-la e, ao mesmo tempo, sempre