image/svg+xmlEntre a legitimação e a crítica do líder no polo naval e offshore de Rio Grande-RSEstud. sociol., Araraquara,v. 27, n. 00, e022012, jan./dez. 2022e-ISSN: 1982-4718DOI:https://doi.org/10.52780/res.v27i00.141281ENTRE A LEGITIMAÇÃO E A CRÍTICA DO LÍDER NO POLO NAVAL E OFFSHOREDE RIO GRANDE-RSENTRE LA LEGITIMACIÓN Y LA CRÍTICA DEL LÍDER EN EL POLO NAVAL Y OFFSHORE DE RIO GRANDE-RSBETWEEN THE LEGITIMATION AND THE CRITICISM OF LEADER IN THE NAVAL AND OFFSHORE POLO OF RIO GRANDE-RSAna Paula F. D’AVILA1RESUMO: O objetivo deste artigo écompreender as razões apresentadas para a ascensão de um trabalhador a um cargo fictício dentro de uma hierarquia formal, bem como as tensões envolvidasnessa questão.Pretende-secom isso desvelar as estratégias utilizadas por trabalhadores que assumiram responsabilidades para além do previsto em sua carteira de trabalho. A metodologia envolveu a realização de treze entrevistasno ano de 2016,com os trabalhadores e seurepresentante sindical, assim como a revisão bibliográfica atinenteao problema empírico. Os trabalhadoresobjetivavamobtera promoção para o cargo de encarregado,enquanto líderesacumulavam funçõese colaboravam para sua autoexploração, dissimulada por um viés duplamente simbólico: seja pelo cargo fictício,seja pelo verniz modernizante em torno da palavra “líder”.PALAVRAS-CHAVE:Líder de equipe.Polo naval.Autoexploração.RESUMEN: El objetivo de este artículo es comprender las razones que se aducen para el ascenso de un trabajador a un puesto ficticio dentro de una jerarquía formal, así como las tensiones que conlleva esta cuestión. El propósito es dilucidar las estrategias utilizadas por los trabajadores que asumieron responsabilidades más allá de lo previsto en su informe de trabajo. La metodología implicó la realización de trece entrevistas en 2016, con los trabajadores y su representante sindical, así como la revisión bibliográfica relacionada con el problema empírico. El liderazgo de los equipos requiere características específicas, como las "habilidades comunicativas". Los trabajadores aspiraban a obtener el ascenso al puesto de capataz, mientras que los "líderes" acumulaban funciones y colaboraban a su autoexplotación, encubierta por un sesgo doblemente simbólico: ya sea por el cargo ficticio, ya sea por el barniz modernizador en torno a la palabra "líder".PALABRAS CLAVE: Líder de equipo. Polo Naval. Autoexplotación.ABSTRACT: The purpose of this paper is to have an understanding of the reasons provided for taking on a fictive position within a formal hierarchy, as well as its entailed tensions. This paper aims to unravel the strategies employed by employees who undertook responsibilities 1Universidade Federal de Pelotas(UFPEL), Pelotas RS Brasil. Pós-Doutoranda em Sociologia. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2139-0947. E-mail: anapaulasocio10@gmail.com
image/svg+xmlAna Paula F. D’AVILAEstud. sociol., Araraquara,v. 27, n. 00, e022012, jan./dez. 2022e-ISSN: 1982-4718DOI:https://doi.org/10.52780/res.v27i00.141282other than those stipulated in their work record booklet. The methodology comprised the execution of thirteen interviews, in 2016, with employees and a labor union official, as well as a literature review as regards the empirical question. Team leadership requires specific features, such as having "communicative skills". The employees sought to be promoted to the position of supervisor; however, in the meantime, as "leaders", they were not only accumulating functions but were also cooperating to their self-exploitation disguised by a twofold symbolic perspective: either by the fictive position or by the modernizing varnish of the word "leader".KEYWORDS: Team leader. Naval polo. Self-exploitation.Introdução2A desregulamentação da economia para liberar os fluxos de capitais, em curso desde a década de 1990, e oresultantefortalecimento do mercado ocorreram mediante a diminuição do papel do Estado e a adoção de políticas que desprotegeram os trabalhadores ao retirar-lhes direitos sob o rótulo da flexibilização.Nessa esteira de transformações,a localização das empresas também mudou,passandopara o Sul Global (em países com força de trabalho qualificada e barata cujos governos oferecem incentivos fiscais), permanecendo nos países considerados centrais apenas seu centro de poder,que administra e controla toda a cadeia de produção.Além disso,a organização interna da divisão do trabalho se transformou.A globalização do capital,propiciada pelo desenvolvimento e pela disseminação das tecnologias de informação (TICs), da internet e da automação,desestabilizou o modelo de organização vigente até então;por exemplo, os gerentesperderam parte significativa de seu poder e status para os investidores e acionistas(SENNETT, 2006).Contudo, por meioda reestruturação produtiva, da subcontratação e da terceirização de serviços, as empresaspassaram de uma organização piramidal, inspirada no modelo militar com delimitação de cargos e funções paraa eliminação decamadas intermediárias,e aorganização tornou-sehorizontale em rede.Aorganização da empresa em rede(CASTELLS,1999)surge, portanto,da crise do modelo fordista marcada pela “transição da produção em massa para a produção flexível” (CASTELLS, 1999,p.211-212)e,comodeclínio da empresa verticalmente integrada,novos métodos de gestão surgiram, especificamente o toyotismo:2O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior -BRASIL (CAPES) -Código de Financiamento 001.
image/svg+xmlEntre a legitimação e a crítica do líder no polo naval e offshore de Rio Grande-RSEstud. sociol., Araraquara,v. 27, n. 00, e022012, jan./dez. 2022e-ISSN: 1982-4718DOI:https://doi.org/10.52780/res.v27i00.141283a verdadeira natureza distintiva do toyotismo em relação ao fordismo não diz respeito às relações entre as empresas, mas entre os gerentes e os trabalhadores. Conforme afirmou Coriat(1994)[...] a característica central e diferenciadora do método japonês foi abolir a função de trabalhadores profissionais especializados para torná-los especialistas multifuncionais (CASTELLS, 1999, p.216).Além da multifunção que passou a ser exigidado trabalhador, o tipo de contrato predominante entre os empregados diretos é o temporário. Segundo Sennett (2006),esse tipo de organização evita a formação de vínculo e, pela própria multifuncionalidade imputada aos trabalhadores, oblitera a identificação da autoridade una. De modo geral, as transformações em curso desde a década de 1990,visam ao não pagamento de garantias aos trabalhadores, mediante a retirada de direitoscom o aumento da exploração,sob o rótulo da flexibilização.Nessa esteira de modificaçõesque resultam no empobrecimento dos trabalhadores,via solapamento de seus direitos, individualização da relação de trabalho, pioradas condições de trabalhoe de fiscalizaçãoe implantação de jornada e remuneração flexíveis, surgiu um léxico que justifica e reveste a exploração.Assim, termos como funcionáriofoisubstituído por colaborador;gerente,por líder;motivação,por engajamento, entre outros, que vêm surgindopaulatinamente. Segundo Gaulejac (2007),o trabalhador está entregue a si mesmo e se tornou imperativasua reinvenção constante,sem a teladeproteção proporcionadapelo Estado.As mudanças objetivas na organização da produção e do processo de trabalho também têm uma baselexical.Odiscurso gerencial engendra umethosda promessa, isto é, a realização volta-se para a projeção da mimese, isto é, de sercomo determinada pessoa ou possuir algo.Para Gaulejac (2007), a partir do momento em que o capitalismo se dissociou doethosprotestante, que o legitimava, a ideologia gerencial veio a preencher esse vazio ético, substituindo seu conteúdo pelo ethos do empreendedorinspirado na figura do Chief Executive Officer(CEO) ou diretor executivo, que por mimese é o modelo a ser seguido,assim dizendo,a projeção imputada aostrabalhadores.As estudiosas e os estudiosos da Sociologia do Trabalho têm se dedicado a compreendero impacto da retirada dos direitos dos trabalhadores3,bem como às formas de resistênciae organização.Os temas pesquisados, de maneira geral, sãoa flexibilização, assim como a crescente individualização das relações de trabalho e a precarização das condições de trabalho;a perda do poder de compra do salário;aterceirização;a informalidade;a crítica ao3Processo em expansão no Brasil desde a década de 1990, asseverado pela Reforma Trabalhista e pela legalização da terceirização ampla e irrestrita no ano de 2017.
image/svg+xmlAna Paula F. D’AVILAEstud. sociol., Araraquara,v. 27, n. 00, e022012, jan./dez. 2022e-ISSN: 1982-4718DOI:https://doi.org/10.52780/res.v27i00.141284empreendedorismo, ao uberismo4e àgamificaçãono desmonte dos sindicatos e das instituições de salvaguarda dos direitos, entre outros.Nesse panorama, os estudos empíricos que se debruçam sobre a associação entre as relações de trabalho precárias e a forma como é naturalizadae, no limite,legitimadapelos trabalhadores,são incipientes e relegadosa outras áreas do conhecimento. Contudo,consideramos que o examedas razões pelas quais os trabalhadores se engajammais ou menosem um discurso e, mais ainda, as explicações que apresentam para tanto,fazem parte do processo mais amplode aumento da exploração,discutido pela Sociologia do Trabalho. É nessa lacuna que o presente texto se insere,intentando articular alguns temas debatidos e vividos pelos trabalhadores com a dimensão que ora legitima, ora questiona e até desvela o véu da exploração.Cardoso (2019),em seuestudo A construção da sociedade do trabalho,evidencia que a percepção sobre a desigualdade é importante na legitimação e na permanência dela. Seguindo essa linha analítica, considera-seque a percepção da liderança e as justificativas para permanência no cargo fictício sustentavam a própria existência da figura fictícia dolíder e, ao mesmo tempo, expunham as formas de autoexploração e as estratégias envolvidas para promoção ao cargo de encarregado. O objeto desteestudo foram os trabalhadores de cada setor de construção de plataformas de petróleo do Polo Naval e Offshore de Rio Grande-RS.O referido polo foifruto da estratégia de reativação da indústria naval, em curso de 2003 até 2015, por meioda descentralização dos estaleiros localizadosno Rio de Janeiro-RJpara outros estados da federaçãoseguindo a mesma linha adotada, por exemplo, na política educacional. O Polo Navalpropriamente dito teve iníciocom a instalação de dois estaleiros, voltados para a construção de navios de grande e pequeno porte, assim como a reforma e a construção de navios para a Transpetro subsidiária da Petrobras (FABRES; SPOLLE, 2014). Entretanto, com a reestruturação da indústria naval brasileira devido ao anúncio da descoberta do pré-sal5, a Petrobras modificou seus investimentos e ampliou o objetivo da indústria no município ao construir o dique seco para o reparo e a construção de plataformas 4Termo proposto pela sociólogaAna Claudia Moreira Cardoso(2020)na entrevista “Uberismoe gamificação: transformações do mundo do trabalho reveladas na greve dos entregadores”. IHU online. 21 jul. 2020. Disponível em:http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/601125-uberismo-e-gamificacao-transformacoes-do-mundo-do-trabalho-reveladas-na-greve-dos-entregadores-entrevista-especial-com-ana-claudia-moreira-cardoso.Acesso em: 22 jul.2020.5O pré-sal é uma camada de petróleo localizada em grandes profundidades, sob as águas oceânicas, abaixo de uma espessa camada de sal. No final de 2007, foi encontrada uma extensa reserva de petróleo e gás natural nessa camada, em uma faixa que se estende por 800km entre o Espírito Santo e Santa Catarina”(SATO, 2009).
image/svg+xmlEntre a legitimação e a crítica do líder no polo naval e offshore de Rio Grande-RSEstud. sociol., Araraquara,v. 27, n. 00, e022012, jan./dez. 2022e-ISSN: 1982-4718DOI:https://doi.org/10.52780/res.v27i00.141285offshoredestinadas à indústria de petróleo e gás (CARVALHO; CARVALHO; DOMINGUES, 2012, p. 18-19). O Polo Naval e Offshoreesteve em atividade de meados de 2006 até março de 2019. Oficialmente,elefoi inaugurado em outubro de 2010 e chegou a empregar, nos anos de ápice de suas atividades (2013-2014),cerca de vinte mil trabalhadores. O referido empreendimento estava estruturado em dois estaleiros: Rio Grande e Honório Bicalho, os quais fabricavam plataformas de petróleo destinadas ao campo do pré-sal,situado na Bacia de Campos entre a costa norte do Rio de Janeiro e o sul do Espírito Santo.A construção de uma plataforma de petróleo envolve diferentes setores que se articulam na montagem de cada bloco, por issoesses processostêmalgumas especificidades. Entretanto, os trabalhadores entrevistados,ao descreveremo processo de trabalho e a hierarquia de cada setor,apontaram para a existência do líder de equipe. Tal dado chamou atenção porque os entrevistados apresentaram um trabalhador que, paradoxalmente, não constava na divisão formal das atividades, mas estava em todas as equipes de trabalho dos diversos setores (construção dos blocos, montagem dos blocos e acabamento, entre outros). Depreendeu-se, com basedo relato dos entrevistados, queos trabalhadores que se dedicavam a essa função fictícia assumiam responsabilidades para além do previsto emsua carteira de trabalho e eram denominados líderesde equipeou “frente”. Aascensãode um trabalhador àliderança de uma equipe requeria atributos específicos, tais como: “saber se comunicar”e “saber se relacionar”. Esses atributos presentes no trabalho em equipe no Estaleiro levaram a problematizar a permanência do líder, questionando como essa figura fictícia era mantida. Diante do exposto, este artigo visa entender por que os trabalhadores assumiam tais “cargos” de liderança, bem como as razões apresentadas para a ascensão de um cargo fictício dentro de uma hierarquia formaleas tensões envolvidasnessa questão.Empesquisa empírica efetuada de julho de 2014 até agosto de 2016 foram realizadas três entrevistas com dirigentes sindicais para o presente artigo foi usadasomente uma e umaobservação juntoao Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Metalúrgicas e deMaterial Elétrico de Rio Grande-RSe São José do Norte-RS(Stimmmerg),para obtenção de materiais produzidos pelo mesmo e atualização das pautas em discussão.Além disso,foram realizadastreze entrevistas semiestruturadas com trabalhadores.O contexto de pesquisa foi impactado pelo avanço da “Operação Lava-Jato”, pois vários entrevistados declinaram em conceder uma entrevista e até conversar informalmente, em alguns casos. A realização dessas entrevistas ocorreu mediante a técnica de snowball (bola
image/svg+xmlAna Paula F. D’AVILAEstud. sociol., Araraquara,v. 27, n. 00, e022012, jan./dez. 2022e-ISSN: 1982-4718DOI:https://doi.org/10.52780/res.v27i00.141286de neve),na qual cada trabalhador indicava outro colega de um dos setores de construção da plataforma,constituindo, portanto, uma amostra mediante “cadeias de referência” (BIERNACKI; WALDORF, 1981). Por fim, cumpre ressaltar que foram consultadosjornais, assim como o sitee os Cenários da construção navalproduzidos pelo sindicato patronal,nomeado Sindicato Nacional de Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval), e bibliografia pertinente ao tema e ao objeto de estudo.Além dessa breve introdução, o texto está dividido em duas seções. Na primeira,apresenta-seo referencial teórico que auxiliou a refletir sobre as transformações em nível macro do “mundo do trabalho” e algumas de suas implicações.Na segunda seção,são apresentados os dados da pesquisa em correlação com o aporte teórico, bem como a