image/svg+xmlAlimentação saudável: Um olhar com base na sociologia econômica, nas práticas deconsumo de elites e deempráticas bifurcacionais de influencers francesasEstud. sociol., Araraquara,v.27, n.00, e022010, jan./dez. 2022e-ISSN: 1982-4718DOI:https://doi.org/10.52780/res.v27i00.152441ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL: UM OLHAR COM BASE NA SOCIOLOGIA ECONÔMICA, NAS PRÁTICAS DE CONSUMO DE ELITES E DE EM PRÁTICAS BIFURCACIONAIS DE INFLUENCERSFRANCESAS ALIMENTACIÓN SALUDABLE: UNA VISIÓN BASADA EN LA SOCIOLOGÍA ECONÓMICA, LAS PRÁCTICAS DE CONSUMO DE LAS ÉLITE Y LAS PRÁCTICAS BIFURCACIONALES DE LOS INFLUENCERS FRANCESESHEALTHY EATING: A VIEW BASED ON ECONOMIC SOCIOLOGY, ELITES CONSUMPTION PRACTICES AND FRENCH INFLUENCERS BIFURCATIONAL PRACTICESThais JOI MARTINS1RESUMO:O artigo apresentado conta com inspiração da Sociologia Econômica e buscará analisar o tema da alimentação saudável na França. Para isso, analisaremos discursos de blogueiras e influencers francesas adeptas deste tipo de alimentação na rede social do Instagram. Nossoobjetivo é trabalhar com três proposições teóricas: desvendar algumas estratégias representacionais e simbólicas das agentes estudadas para além do homo economicus; verificar propriedades elitizadas veiculadas com base em um mercado de luxo; averiguar a evidência dos gostos e disposições dos agentes, bem como, de fragmentos de trajetórias e motivações eventuais e ocasionais para direcionar esse tipo de consumo. O método utilizado será a análise dos conteúdos da rede social de forma qualitativa. Nossa análise evidencia a averiguação e a afirmação das três proposições de pesquisa supracitadas.PALAVRAS-CHAVE:Sociologia econômica. Elites. Alimentação saudável. Influencers digitais.RESUMEN:El artículo presentado está inspirado en la Sociología Económica ybuscará analizar el tema de la alimentación saludable en Francia. Para ello analizaremos los discursos de blogueros e influencers franceses adeptos a este tipo de comida en la red social de Instagram. Nuestro objetivo es trabajar con tres proposiciones teóricas: develar algunas estrategias representativas y simbólicas de los agentes estudiados más allá del homo economicus; verificar las propiedades de élite atendidas en base a un mercado de lujo; investigar la evidencia de los gustos y disposiciones de losagentes, así como fragmentos de trayectorias y motivaciones ocasionales y ocasionales para orientar este tipo de consumos. El método utilizado será el análisis de los contenidos de la red social de forma cualitativa. Nuestro análisis evidencia la investigación y afirmación de las tres propuestas de investigación mencionadas anteriormente.PALABRASCLAVE:Sociología económica. Élites. Alimentación saludable. Influencers digitales.1Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Cruz das Almas BA Brasil.Professora Adjunta. Pós-Doutorado na Université de la Sorbonne. Doutorado em Ciência Política(UFSCAR). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1929-2440. E-mail:thaisjoi@ufrb.edu.br
image/svg+xmlThais JOI MARTINSEstud. sociol., Araraquara,v.27, n.00, e022010, jan./dez. 2022.e-ISSN: 1982-4718DOI: https://doi.org/10.52780/res.v27i00.152442ABSTRACT:The presented paper relies on inspiration from Economic Sociology and will seek to analyze the theme of healthy eating in France. For this, we will analyze the discourses of French bloggers and influencers adept at this type of food on the social network Instagram. Our goal is to work with three theoretical propositions: to unveil some representational and symbolic strategies of the studied agents beyond homo economicus; to verify elitized properties conveyed based on a luxury market; to ascertain the evidence of the agents' tastes and dispositions, as well as, of fragments of trajectories and eventual and occasional motivations to direct this type of consumption. The method used will be the analysis of the social network contents in a qualitative way. Our analysis evidences the verification and affirmation of the three aforementioned research propositions.KEYWORDS:Economic sociology. Elites. Healthy eating. Digital influencers.IntroduçãoUm dos papéis fundamentais da Sociologia Econômica é buscar compreender como os agentes tem influência sobre a configuração e reconfiguração dos mercados, ou visualizar como as instituições no presente caso, instituições invisíveis, a partir das difusoras ou delegadas do mercado on-linereproduzem estratégias de controle de comoagentesdominantes, por meio de um espaço de interações que é econômico, mas também político e social. Observa-se que essas agentes “militantes da alimentação saudável” podem utilizar-se de instrumentos, tais como, movimentos sociais, construções sociais extremamente precisas como as do direito, da jurisprudência, da ética, e da justiça social (STEINER; VATIN, 2009). Portanto, nosso primeiro movimento será o de invocar a Sociologia Econômica para o presente artigo e ultrapassar a batalha entre homo rationalisversus homo culturalis. Ou seja, é preciso enxergar as múltiplas racionalidades e entender o interesse como um dado arbitrário, ou seja, visualizar a possibilidade da existência de múltiplos interesses sempre determinados pela construção social, no tempo e espaço específico, como assinalam Wacquant e Calhoun (1989).Evidenciamos, portanto, a emergência de um grupo de playerse influencers digitais, que mobilizam as redes sociais, intermediando e influenciando a ampliação deste tipo de nicho ou mercado e observamos etnograficamente que a maior parte dessas “delegadas” são mulheres de classes médias e altas, orientadas por um eco-habituse por um estilo de vida saudável. Por esta razão, o segundo movimento do presente artigo se dará em direção da análise desses estilos de vida distintosapartir de suas postagens no Instagram.Num terceiro momento do artigo verificaremos com base em reflexões teóricas e análises do campo que essas práticas não estariam somente atreladas a mecanismos
image/svg+xmlAlimentação saudável: Um olhar com base na sociologia econômica, nas práticas deconsumo de elites e deempráticas bifurcacionais de influencers francesasEstud. sociol., Araraquara,v.27, n.00, e022010, jan./dez. 2022e-ISSN: 1982-4718DOI:https://doi.org/10.52780/res.v27i00.152443disposicionais de distinção, antes, essas atitudes, açõesou escolhas se formatariam com base em eventos, processos, acontecimentos e momentos bifurcacionais na trajetória das mesmas. Fatos esses, que nos mostram como o mercado e as mudanças históricas no capitalismo financeiro poderiam também intervir, mobilizando transformações dos gostos e estilos de vida. Portanto, trabalharemos no presente texto com elaborações e reflexões com base nesses três momentos supracitados.A sociologia econômica\financeira e a alimentaçãoObserva-se que alguns autores compartilham de uma lógica racionalizadora e calculadora do homo economicus para explicar o funcionamento das escolhas alimentares.Marvin Harris (1986) com sua obra Good to eat: riddels of food and culturequestiona a análisede Lévi-Strauss sobre a existência de uma carga simbólica, do pensamento e da crença por traz das escolhas e ações sociais. Seguindo a postura funcionalista de Merton, procede pensando que as ações se dão em função das condições materiais e ecológicas, e não simbólicas. A saber, as motivações que incidem na dieta para que judeus não comam porco, e os indianos vacas são compreendidas por razões materiais, sanitárias, ecológicas e não religioso-simbólicas2. Nesse sentido, o autor nos ajuda a pensar em nossotema de pesquisa, na medida em que indagamos a partir da reflexão da interdição e dos tabus, do que deve ou não ser comido com auspícios da instrumentalização da alimentação saudável, sobre quais seriam as reais motivações dos comedores daalimentaçãosaudável, justa, sustentável, ética e ecológicae, como esse tipo de mercado se desenvolve intensamente após os anos 2010 na França?32Para o autor a motivação dos indianos não comerem carne de vaca está ligada ao fato de que as vacas são mais úteis na Índia para usar a sua força motriz do que para serem usadas como alimento. No caso da proibição de comer carne de porco para os Judeus, oautor a justifica pelas condições ecológicas do Oriente médio não permitirem que se execute a criação de porcos. A criação também custaria tempo, energia e uma alimentação onívora, e além disso, o fato do porco precisar ser criado num ambiente longe do sol (para conservar a temperatura corpórea) aumenta as despesas de criação, já que esta deve ser realizada em locais fechados. O autor ainda cita o caso do canibalismo dos astecas, afirmando queele também ocorre por razões “econômico-nutricionais”, já que esse povo não era acostumado a criar grandes animais herbívoros e tinham pouco acesso à carne, à exceção do peru e do cachorro, que, no entanto, dispunham de pouca carne (FISCHLER, 1990).3A partir de 2010, o produto do terroir na França passa a ser visto como sustentável, devido principalmente aos debates ocorridos na conferência sobre sustentabilidade no Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, a origem, a questão da segurança do consumidor com relação aos produtos, e as crises alimentares, se transformam e abrem espaço para a conotação do produto “local”. Ou seja, a mercadoria valorizada não será mais a exótica, o excepcional, mas sim a cotidiana, a banal. A partir deste momento abre-se a possibilidade de se pensar o produto local, regional, do campo, que não passa por processos intensos de industrialização, como produto bom para saúde.
image/svg+xmlThais JOI MARTINSEstud. sociol., Araraquara,v.27, n.00, e022010, jan./dez. 2022.e-ISSN: 1982-4718DOI: https://doi.org/10.52780/res.v27i00.152444Morin(1973)irá nos ajudar a construir a nossa proposição que se alicerça sobre as ações sociais representadas por símbolos e valores dentro de um constructosocial. Nesse sentido, o movimento que Morin (1973) faz nos anos 1970 vai nos permitir refletir sobre uma sociologia do comedor, já que nossas atividades biológicas como, comer, defecar, beber, são estreitamente ligadas a interditos, a valores, símbolos, mitos, ritos, ou seja, o que há de mais especificamente cultural. Em 1985, a obra Antropo-sociologie de la cuisine et des manières de tables dirigida por Morin inaugura uma série herdeira do estruturalismo de Lévi-Strauss e da antropologia do imaginário, que nos traz aparatos teóricos para veicular nossas proposições (DURAND, 1960).Apesar das explicações materialistas de Harris (1986) o processo de transformar objetos naturais em alimentos e nutrientes não se reduz a lógicas utilitárias ou de disponibilidade (SALHINS, 1976), antes, se inscreve dentro do sistema de classificação (DOUGLAS, 1971)4. A alimentação apresenta uma lógica de racionalidade que se registra por meio das representações, do imaginário e da cultura, ou seja, a necessidade biológica de comer também se insere dentro de um sistema de valores que se articulariam sobre lógicas totêmicas, (LÉVI-STRAUSS,1962) sacrificiais, (GRODZYNSKI; DÉTIENNE; VERNANT, 1980), higienistas, racionalistas, estéticas, ou combinando várias formas de racionalidades, que classificam os alimentos em vegetais e animais, consumíveis e não consumíveis (lógicas classificatórias).Para além da discussão sobre a lógica utilitária de disponibilidade ou simbólica dos alimentos, podemos citar uma tese sociológica que tem sido seguida por estudiosos que se aliaa reflexão sobre consumo e gosto. Autores como Moulin (1975), Elias(1973) e Lambert(1987) vão advogar pela tese de que o mundo está se “aburguesando”, no que diz respeito ao consumode alimentos. Ou seja, isso quer dizer que, o gosto e o estilo de vida burguês tem se alastrado pelo mundo, contaminando outras classes sociais e se tornando legítimo. Quando pensamos sobre a alimentação de tipo saudável ou ecologicamente viável, podemos nos perguntar se este não seria o caso, já que, vemos que este tipo de alimentação, tipicamente valorizada pelas classes mais altas ou de elite, tem começado a se alastrar por todos os supermercados, feiras, lojas, restaurantes, bistrôs, tanto franceses como brasileiros. A 4A explicação simbólica que Douglas (1971) encaminha para a proibição da ingestão de carne de porco para os judeus é bastante ilustrativa: os interditos hebraicos se explicam devido uma “anomalia taxonômica”, ou seja, o porco não encontra espaço dentro das categorias usadas pelos hebreus para explicar o mundo. As proibições se conectam ao Gênesis quando se remetem a céu, terra e água. Logo, a cada uma dessas categorias, existem animais que lhes são próprios. No caso do porco, ele não é um animal consumível como os descritos no texto de levítico XI “Todas as bestas que tem os pés com unhas, unhas fendidas e que ruminam vocês comerão”. Ora o porco tem unha, unhas fendidas, mas não rumina. Portanto ele consiste numa anomalia taxonômica para os judeus antigos.
image/svg+xmlAlimentação saudável: Um olhar com base na sociologia econômica, nas práticas deconsumo de elites e deempráticas bifurcacionais de influencers francesasEstud. sociol., Araraquara,v.27, n.00, e022010, jan./dez. 2022e-ISSN: 1982-4718DOI:https://doi.org/10.52780/res.v27i00.152445percepção que temos é a da ocorrência de um processo de massificação dos produtos saudáveis ou isomorfização (orgânico5, terroir6, slow food, produtos locais, sustentáveis, circuito curto) (DIMAGGIO; POWELL, 1991). A questão que se coloca referente a sociologia dos gostos e o estudo das classes é se esse tipo de consumo se espraia para todas as classes sociais e clivagens, ou se fica restrito à uma minoria elitizada?7Outro trabalho de destaque sobre o tema é o de Séverine Gojard, Sophie Dubbuisson-Quellier eBérangère Veron (2016) denominado Logiques de consommation autour de l’alimentation durable, que por sua vez,nos traz informações importantes sobre o gosto e consumo de alimentos sustentáveis e saudáveis na França Os autores trabalham com a hipótese sobre a trajetória biográfica, (classe social e gosto), ou melhor, com as propriedades como os capitais abordados Pierre Bourdieu, que direcionariam as condutas para um consumo de produtos mais sadios e equilibrados, por parte das classes sociais mais altas. Ou seja, “o consumo responsável pode ser visto como expressão de um “eco-habitusespecífico para consumidores com alto capital cultural” (CARFAGNA et al., 2014 apud GOJARD et al., 2016, p.26, tradução nossa).No entanto, os autores percebem que para além das propriedades inscritas dentro das trajetórias dos indivíduos, existem outros elementos que devem ser levados em conta em todo o processo de consumo, a saber, as mudanças sociais que ocorrem ao redor dos indivíduos e dos estilos de vida. Ou seja, a pista dos autores circunscreve-se por traz das ações cotidianas diárias, ou das práticas alimentares diárias e de como elas se alteram com as circunstâncias e os imprevistos, modificando a rotina alimentar, mesmo dentro de uma trajetória biográfica prescrita e marcada por determinadas propriedades e capitais. Logo, os autores refletem sobre uma redefinição da ideia de “disposição” ou disposições sociais, pois a sociologia dos gostos reflete sobre as disposições construídas pela família, amigos e não conta com o fato de que as disposições podem ser modificadas de acordo com os mecanismos de mediação do mercado, ou outros fatores sociais que se inscrevem com base em processos interacionais mais 5Sobre o processo de padronização dos produtos orgânicos na Françaler Garcia Parget, Lerouxe Jas (2017), La agriculture biologique et ses produits: entre institucionnalisation marchande et repositionnements éthiques.6Sobre o Terroir e produtos locais ver: La france et ses terroirs: Un siècle de débats sur les produits et leurs liens à l’espace, Delfosse (2012); sobre slow food ver: Patrimonialização de produtos alimentícios na França: construções simbólicas e reinvenção do passado, Garcia Parget (2016); sobre o circuito curto ver os trabalhos de Claire Lamine e Yuna Chiffoleau(2012).7Acreditamos que outras análises precisam ser feitas para esta verificação. No Entanto, seguimos a pista de que diferentes grupos e estratos têm incorporado esse tipo de alimentação saudável na França, à sua maneira. Muitas vezes não conseguem ter acesso aos produtos de lojas mais caras, no entanto, encontram outros meios de acessar esses alimentos em grandes plataformas de supermercados, através do circuito curto e de associações de bairro. Não acreditamos que esta lógica esteja disseminada entre os grupos populares, mas ela começa a ser valorizada por esses grupos aos poucos. Essas afirmações se dão a partir do estudo etnográfico que realizamos na cidade de Paris no ano de 2019 e 2020 em nosso pós-doutorado.
image/svg+xmlThais JOI MARTINSEstud. sociol., Araraquara,v.27, n.00, e022010, jan./dez. 2022.e-ISSN: 1982-4718DOI: https://doi.org/10.52780/res.v27i00.152446específicos, ou do que podemos indicar como paradigma interpretativista, discutido por Burrelle Morgan(1979).Problemática e proposições analisadasApós realizarmos a reflexão teórica supracitada elencamos três proposições que poderão ser analisadas a partir dos perfis de blogueiras e influenciadoras digitais francesas. Tais quais: Proposição 1:não há somente uma busca de interesse egocentrada pelo melhor custo benefício pela compra do alimento saudável, antes, existem estratégias simbólicas e representacionais direcionadas pelos agentes; Proposição 2:uma possível inovação social na alimentação saudável advém dos grupos de elites que evocam narrativas (tradicionais, rurais, de retorno a natureza); Proposição 3:as motivações de consumo para alimentação saudável podem ser múltiplas e não somente disposicionais (a saber, motivos de saúde, bem-estar, preocupação com corpo, reivindicações coletivas e ecológicas).As blogueiras e influencersdigitais dentro da economia de plataformas e da economia financeirizadaAntes de discutirmos os dados sobre a atuação das blogueiras e influencers francesas nas redes sociais é importante que as situemos contextualmente frente as mudanças do atual capitalismo e suas novas formas de atuação. Um dos elementos importantes que marcam a performance dessas agentes hodiernamente é a entrada na denominada economia de plataformas, que marca a passagem de uma nova economia dos anos 1990 para uma economia digital a partir dos anos 2000. Logo, a plataforma pode se formatar como uma nova forma de organização empresarial que se apresenta como novo modelo de negócio.Nesse sentido, no caso do mundo digital, diferente de uma feira da idade média, os market makersfazem a coordenação e gerenciam o mercado através de plataformas digitais tais como, Airbnb, Uber, iFood, Gympass, Arco Educação, 99, Nubank dentre outras. Cabe mencionar que algumas plataformas se manifestam como rede social (como é o caso do facebook) e outras se articulam através das mídias sociais (SILVA NETO;BONACELLI;PACHECO, 2019).No caso da intervenção dasblogueiras e influencers, as visualizamos através de uma espécie de ação intermediária do processo de mercado, na medida em que essas agentes econômicas recebem incentivos para movimentar algum tipo de mercado. Acreditamos que a ideia de inovação distribuída (YOO et al., 2012) cabe ao presente caso, na medida em que
image/svg+xmlAlimentação saudável: Um olhar com base na sociologia econômica, nas práticas deconsumo de elites e deempráticas bifurcacionais de influencers francesasEstud. sociol., Araraquara,v.27, n.00, e022010, jan./dez. 2022e-ISSN: 1982-4718DOI:https://doi.org/10.52780/res.v27i00.152447essas agentes cooperam para a dinâmica dos mercados e criam sistemas de confiança em relação aos consumidores (PARKER et al., 2016).Outro aspecto importante é o que se relaciona ao processo de financeirização trazendo à tona uma mudança em relação aos mercados tradicionais que se dá através da alocação de recursos ociosos, da redução dos custos de transação (através da aproximação da oferta e demanda) e da redução de custos diretos, a saber, pesquisa, negociação e implementação de custos indiretos, tais como, a manifestação das assimetriasinformacionais (TRINDADE, 2020). Podemos citar outras transformações mobilizadas pela financeirização da economia, a saber, a metamorfose de produtos em serviços; o processo de reintermediação, ou substituição de agentes ociosos pelas plataformas digitaise a maior liquidez dos mercados. (SILVA NETO; BONACELI; PACHECO, 2019).Descrição e análise dos dadosA escolha das perfiladas se deu a partir da busca por hashtags tais como, healthy food;equilibrealimentaire; veganfood; foodblogger; bienêtre; wellness; reequilibragealimentaire entre outros e que se alinhavam a temática da alimentação saudável. O segundo elemento importante para a escolha das agentes foi o rastreio de perfiladas que morassem na cidade de Paris.Começamos a analisar as postagens de perfis franceses do Instagramlogo que chegamosa Paris. Passamos, portanto, três meses observando postagens e fotos de perfis de lojas francesas de produtos saudáveis, perfis pessoais de franceses que se alimentavam de forma saudável, de blogueirase influencersde alimentação saudável, nutricionistas, especialistas em dieta e naturopatas. Observamos que a maioria desses perfis se encontravam abertos e que quase nenhum deles tinha restrição para acesso, portando pudemos seguir todos os perfis para analisar as postagens e tomar notas. Decidimos trabalhar somente com a análise de alguns perfis que foram observados durante três meses por meio de etnografia digital. Analisamos, portanto, nove perfis. Segue abaixo um quadro que conta com a descrição de cada uma das influencers:
image/svg+xmlThais JOI MARTINSEstud. sociol., Araraquara,v.27, n.00, e022010, jan./dez. 2022.e-ISSN: 1982-4718DOI: https://doi.org/10.52780/res.v27i00.152448Quadro 1Perfis dasinfluncersno Instagram8Fonte: Dados coletados pela autora no InstagramAnálise da proposição 1: Não há somente uma busca de interesse egocentrada pelo melhor custo benefíciopela compra do alimento saudável, antes, existem estratégias simbólicas e representacionais direcionadas pelos agentesIncorremos primeiramente em analisar as primeiras dez postagens e fotos do perfil de cada uma das escolhidas. Percebemos que nas análises realizadas com perfis do Instagram existe um jogo complexo entre as representações simbólicas, axiológicas e morais dos atores e as ações racionalizadas com base em uma representação do homo economicus.Ou seja, conseguimos ora perceber a representação racional e calculadora, ora a que representaria um homo culturalis. Conseguimos visualizar a seguir, esses dois tipos de comportamentos dentro de um mesmo perfil, a depender do momento ou da circunstância, uma representação social diferente pode ser acionada. A saber, em outra postagem e foto de uma salada com massa 8Cabe observar que a maioria das influenciadoras analisadas são nano e micro influenciadoras. Quando observamos menos de 10 mil seguidores influenciadores são denominados nano influenciadores, já os que possuem acima de 10 mil seguidores são micro influenciadores (em grupo podem alcançar audiência significativa). Após esses números hierarquicamente temos o influenciador intermediário. (100 a 500 mil seguidores) o macro influenciador (500 a 1 milhão de seguidores) e que tem influência em segmentos específicos, e por fim, o mega influenciador (mais de um milhão), cujas estrelas e celebridades são destaques. É importante complementar que os gestores de marketing não se baseiam somente no número de seguidores para averiguar se um influenciador tem legitimidade (marketing de influência) e delegação dentro de um grupo, antes são analisados outros pilares, tais como, alcance, relevância e ressonância. (POLITI, 2013).PseudônimoPerfilImpacto na rede socialLaraNão usa açúcar, trigo e leite e se interessa por alimentos com baixo índice glicêmico. Lara é autora, possui um blog e se interessa por fotografias. Ao mesmo tempo é mãe e está em período de amamentação.31,3 mil seguidoresLaureLaure que é mãe, se preocupa com alimentação saudável, posta receitas simples e também é blogueira. Mostra que sua preocupação com a alimentação saudável muda quando se torna mãe.69,2 mil seguidoresAnaïsComida saudável; vida holística; esportiva3.130 mil seguidoresAnabelleMãe de duas crianças; reequilíbrio alimentar; reforço muscular; corrida.3.800 mil seguidoresElisaGosta da boa cozinha e preza pelo zero desperdício das sobras; blogueira.20, 4 mil seguidoresAlexia e AliceA primeira marca de doces a base de legumes. (Natural e local)4.390 mil seguidoresArmelleBlogueira: comida saudável; beleza verde.9.684 mil seguidoresCharlotteBlogueira: bowlssaudáveis e coloridos; fáceis de fazer; vegetarianos; adepta de corrida.3.156 mil seguidoresIsabelAmante de comida, criadora de conteúdos culinários, freelancer, mãe de duas crianças.10,6 mil seguidores
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