image/svg+xmlRumo a uma abordagem dinâmica para reconversõesEstud. sociol., Araraquara,v. 27, n. 00, e022009, jan./dez. 2022e-ISSN: 1982-4718DOI:https://doi.org/10.52780/res.v27i00.167631RUMO A UMA ABORDAGEM DINÂMICA PARA RECONVERSÕES1CAMINO A UN ABORDAJE DINÁMICO PARA LAS RECONVERSIONESTOWARDS A DYNAMIC APPROACH TO RECONVERSIONSMonique de SAINT MARTIN2RESUMO: Apesar de serem muitas vezes analisadas como formas de reprodução, as reconversões têm sidocaracterizadas como formas de mobilidade em várias obras. Ambas opções não são estritamentecontraditórias e podemserigualmente justificadas. No entanto, parece absolutamente necessário tentarcircunscrever melhor esta noção. Embora não pretenda oferecer uma definição, aautorase apoia principalmente em pesquisas sobre aselitesconduzidasem diferentescontextos geográficos (França, Hungria, Rússia) e históricos, e propõe uma abordagem mais fundamentada e heurística para reconversões que também lhes permitiriaser claramente distinguidasdas conversões.PALAVRAS-CHAVE: Conversão. Desconversão. Mobilidade. Reconversão. Reprodução. Rupturas.RESUMEM:A pesar de que a menudo se analizan como formas de reproducción, las reconversiones se han caracterizado como formas de movilidad en varios trabajos. Ambas opciones no son estrictamente contradictorias y pueden ser igualmente justificadas. Sin embargo, parece absolutamente necesario tratar de circunscribir más esta noción. Sin pretender ofrecer una definición, la autora se basa principalmente en investigaciones sobre las élites realizadas en diferentes contextos geográficos (Francia, Hungría, Rusia) e históricos, y propone un enfoque más fundamentado y heurístico de las reconversiones, que también permitiría distinguirlas claramente de las conversiones.PALABRAS CLAVE: Conversión. Desconversión. Movilidad. Reconversión. Reproducción. Rupturas.ABSTRACT: Although they are often analyzed as forms of reproduction, reconversions have been characterized as forms of mobility in a number of works. Both options are not strictly contradictory and can equally be justified. However, trying to better circumscribe this notion seems utterly necessary today. Although not pretending to offer a precise definition, the author 1Esse artigo foi publicado inicialmente na revista Social Science Information, v. 50, n.34,p.429441, 2011com o título Towards a dynamic approach to reconversions, a quem agradecemos por autorizar a publicaçãode uma versão em portuguêsna Revista Estudos de Sociologia (licença número 5301991174218).O texto foi traduzido para o Inglês por Kristin Coupere para o português por Jussara Úngaro.2École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), Paris França. Diretora de Estudos. Membro doInstitut de Recherche Interdisciplinaire sur les Enjeux Sociaux (IRIS). Doutorado em Sociologia. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0316-6703.E-mail: stmartin@ehess.fr
image/svg+xmlMonique de SAINT MARTINEstud. sociol., Araraquara,v. 27, n. 00, e022009, jan./dez. 2022e-ISSN: 1982-4718DOI:https://doi.org/10.52780/res.v27i00.167632mainly leans on research on the élite conducted in different geographical (France, Hungary, Russia) and historical contexts, and proposes a better grounded and more heuristic approach to reconversions that would also permit them to be clearly distinguished from conversions.KEYWORDS:Conversion. Deconversion. Mobility. Reconversion. Reproduction. Ruptures.IntroduçãoO conceito de reconversão, às vezes confundido com o de conversão, tem muitas formas e significados; no momento é usado em estudos de ciências sociais e pesquisasem uma variedade de contextos e com significados muito diferentes. Portanto,os pesquisadoresusamo termo para descrever a conversão ou reconversão de uma sociedade, uma instituição, uma profissão, um grupo, uma família, um indivíduo, uma “vocação” ou uma identidade. Comoexemplo,essa abordagem tem sido usada para analisar a transição de umtipo de sociedade comunista para capitalista, a “conversão improvável” da École Nationale d’Administrationpara a Europa, a entrada de militares profissionais para a vida civil, a conversão de ex-campeões desportivos em empresários, militantes sindicais para o trabalho humanitário ouposiçõescomo consultores, estudantes revolucionários a administradores dóceis, para citar apenas algunsexemplos. Há um risco considerável dever e analisar como tal reconversõesem todas as circunstâncias, em todos os momentos e em todos os níveis e do termo se tornar um conceito abrangente.Não é nossa intenção aqui traçar a genealogia, por mais necessária que seja, do conceito dereconversãoou apresentar a área de investigação conduzidaneste domínio. Entretantodeve-se ter em mente que estudos e pesquisas sobre a conversão e reconversão devários grupos, que começaram em particular na Françadurante a década de 1970, ganharam impulsoapós a queda do Muro de Berlim, especialmente na Europa Oriental e que o conceitose tornourelativamente comum. Desde então, o interesse diminuiu,mas aspesquisascontinuam.As reconversões muitas vezes tendem a ser analisadas como formas de reprodução, ou emoutros estudos como formas de mobilidade. Além disso, essas duas alternativas não são diametralmenteopostas(SZELENYI; SZELENYI, 1995) e podemser justificadas. Entretanto,atualmente é preciso tentar circunscrever melhor o conceito.Sem pretender dar uma definição precisa, a intenção neste artigo é fazer algumas sugestões baseadas principalmenteem pesquisasempíricas desenvolvidassobre elites em diferentes contextos (principalmente na França,
image/svg+xmlRumo a uma abordagem dinâmica para reconversõesEstud. sociol., Araraquara,v. 27, n. 00, e022009, jan./dez. 2022e-ISSN: 1982-4718DOI:https://doi.org/10.52780/res.v27i00.167633Hungria eRússia) e em diferentesperíodos históricos3sendo uma abordagemde reconversões bem fundamentadaque é mais heurística, permitindo-nos distinguir entre conversões e reconversões.As reconversões são formas de reprodução?Para os membros de uma fração de classe, implementar uma reconversão significa conduzir umamudança na estratégia e nos instrumentos de reprodução destinados a reproduzir ou elevar suaposição abandonandosua situação, como escrevemos em Social Science Information(BOURDIEU; BOLTANSKI; SAINT MARTIN, 1973, p.101). Portanto, as estratégias de reconversão foramparte integrante do conjunto de estratégias de reprodução, mas não eram estratégias de reprodução enquanto tais, na medida em que sua origem era a mudança de estratégias. Pouco depoisdeste artigo,Pierre Bourdieu(1984)especificou que essas estratégias constituíam:[]um aspecto das ações e reações permanentes pelas quais cada grupo se empenhapara manter oumudar sua posição na estrutura social, ou, mais precisamente em um estágio na evolução das sociedades de classe no qualsó se pode conservar mudando mudar para conservar(p.157).Era pois, uma questão paracada grupo envolvido manter a sua posição e nãopermitirqualqueralteração, a menos que isso habilitasseo grupoagarantir sua reprodução.Poresta abordagem, as reconversões dependem em grande parte do estado das leis de herança, do mercado de trabalho,do sistema educacional, etc., e do estado de diferentes tipos de capital ou recursos econômicos, culturais, sociais e simbólicos à disposição dos diversos grupos e indivíduos eos quais desejam reproduzir.As reconversõestambém dependem da avaliaçãofeita das probabilidades de lucro, damanutenção da posição que ocupam ou daperda de status,e têm um impacto considerável nasatitudes em relação ao futuro. As reconversões recorrem frequentemente à escolarização;assim, na França dos anos 1970, o capital ou os recursos econômicos dos fabricantes/industriais, atacadistas, artesãos, lojistas locais e fazendeiros eram muitas vezes convertidos em capital ou recursos educacionais43É claro que as reconversões não são específicas das elites e são, sem dúvida, menos frequentes entre elites do que em outros grupos sociais. Pode-se até questionar se elites firmemente estabelecidas ou de longa data são capazes de se reconverter, uma vez que muitas vezes parecem pouco inclinadas ou abertas à mudança.4O artigo é centrado primeiramente nos processos de reconversão do capital econômico em capital cultural qualificado ou capital educacional, subsequentes em particular, a transformações na esfera dos negócios e do mundo rural.
image/svg+xmlMonique de SAINT MARTINEstud. sociol., Araraquara,v. 27, n. 00, e022009, jan./dez. 2022e-ISSN: 1982-4718DOI:https://doi.org/10.52780/res.v27i00.167634O uso do recursoà reconversão para facilitar a reprodução de um grupo é particularmente visível entre os membros ou as famíliasdas elites econômicas e patronais. ErnestAntoine Seillière é um exemplo notável; nascido em 1937 em Neuilly-sur-Seine, em 1997tornou-se presidente do Conseil national du patronat français(CNPF, ConselhoNacional do Patronato Francês que pouco depois se tornou o Mouvement desEntreprises de France(MEDEF) Movimento das Empresas daFrança).Sua história de vida e trajetória podem ser interpretadas como a história de suas tentativas de reconversão dos váriosrecursos que possuía,com graus variados de sucesso/realização (SAINT MARTIN,1999). Descendente por parte de mãe de uma família importantede siderúrgicos, e por parte do pai, de uma família de banqueiros e empreendedores,enobrecida no começo do século 20,Ernest Antoine Seillière começou se empenhando em reconverter recursos econômicos e sociais em recursos educacionais.Ele estudou Direito, formou-seno Institut d’études Politiquesem Parise depois na ENA (Ecole Nationale d’Administration),investindo em estudos e acumulando diplomas.Testemunhamos,então,que como graduado da ENA, tornou-se membro de vários gabinetes ministeriais, um alto funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros (Ministry of Foreign Affairs) e,após nove anos no serviço público superior e gabinetes ministeriais, desistiu da carreira de diplomata para se tornar diretor de um grupo financeiro familiar, o CGIP (Compagnie générale d’industrie et de participations), que estava em dificuldade na época; na ocasião, ele tornou-sepresidente e diretor administrativo desse mesmo grupo. Por fim, houve ou uma diversificação de investimentos ou uma tentativa de reconversão de recursos econômicosem recursos políticos; como presidente e diretor administrativo deuma importante instituição financeira, tornou-se presidente da CNPF e se propôs a desempenhar um papel político em um momento em queesta organização estava passando por um período de crise e divisão5.Embora seja possível analisar a trajetória de Ernest-Antoine Seillière revelandosuas várias tentativas de reconversão de recursos sociais, educacionais ou econômicos, precisamos admitir que é realmente uma forma sutil e disfarçada de reprodução de sua posição, e da de sua família e de seu grupo, mas que não se apresenta como tal.Além disso, observamos que essas reconversões não foram de fato concluídas;Seillière nuncaabdicou dos investimentos feitos ou recursos anteriormente acumulados.Uma reconversão completa teria, por exemplo, pressupostoque ele renunciasse à herança simbólica e familiar para se tornar um funcionário 5O que chama a atenção no caso de Ernest-Antoine Seillière é a acumulação e a gestão sensata de um capital considerável ou rede de relações diversificadas.
image/svg+xmlRumo a uma abordagem dinâmica para reconversõesEstud. sociol., Araraquara,v. 27, n. 00, e022009, jan./dez. 2022e-ISSN: 1982-4718DOI:https://doi.org/10.52780/res.v27i00.167635público de alto nível, um servidor do Estado, ou que desistisse da CGIP para se tornar presidente doCNPF.Pelo contrário,o que vemosé umasérie do que propomos chamar de reconversõesincompletas, ou uma forma reconvertida deconservadorismo que lhe permite ampliar seu campo de ação,enquanto evita rupturas claras e grandes riscos.Algumas formas ou modos de deixar o serviço público para trabalhar no setor privado (umaprática conhecida como ‘pantouflage’ em francês) que é mais lucrativoque o serviço público especialmenteno caso de funcionários públicos de alto nível, engenheiros de minas, funcionários da Inspeção Geral de Finanças e outros membros degrandescorporaçõesadministrativas de Estado (grands corps de l’Etat), que se beneficiam dos váriosarranjos que permitem que servidores saiam do serviço público,podem ser analisados como tentativas incompletas de reconversão de um capital de um determinadatipoeducacional e administrativapara um capitaleconômico. Mudardo funcionalismo público para o privado nomeio da carreira é,indubitavelmente,a forma que melhor se presta a essas análises (CHARLE, 1987), particularmentequando se trata de um movimento final, ocasionando uma demissão doserviço civil (no entanto, tais casos são extremamente raros). Tais movimentos implicamumare-orientação de carreira e uma forma de rejeição dasperspectivas profissionais oferecidas peloserviço civil, e não são um fenômeno simples ou de mão única. O significado temmudado atravésdos anos, dependendo, em particular, de se tratar de uma fração dogrupo ou de estar se tornandoa norma, como tem sido o caso dosquaseúltimos 20 anos, para os funcionários da Inspeção Geral de Finanças e do Corps desMines, os dois grupos mais envolvidos(JOLY, 2010). Na grande maioria dos movimentos do setor público para o privado (“pantouflage”) por servidores públicos de alto nível, trata-se, sem dúvida, de caminhos bem trilhados, reconversão incompleta e uma forma de reprodução. Os servidores públicos de alto nível que ingressam na administração de grandes empresas privadas nãodesistem dos recursos administrativos que acumularam e nem sempre jogamestritamente pelas regras das empresas privadas. Além disso, na maioria das vezes, as elites econômicase administrativas envolvidas em reconversões param no meio do caminho, por assim dizer, e preferemassumir várias posições ou poderir e vir entre o ponto de partida e a linha de chegada.No entanto,duranteperíodos de importantes mudanças políticas, sociais ou econômicas, o incentivo à reconversão torna-se mais forte,inclusive para membros das elites, que podemtentar garantir a reprodução de sua própria posição em primeira instância, a menos queprefiram
image/svg+xmlMonique de SAINT MARTINEstud. sociol., Araraquara,v. 27, n. 00, e022009, jan./dez. 2022e-ISSN: 1982-4718DOI:https://doi.org/10.52780/res.v27i00.167636distanciar-se do processo de reprodução e assim lucrar por seremdiferentesde seus pares e de seguir caminhos menosbem-trilhados.Após a perestroika e a Queda do Muro de Berlim,muitoscasos de reconversão derecursoseducacionais em recursos econômicos ou de recursos burocráticos em recursos econômicos foram observados por exemplo,na Rússia, com a mudança, envolvendograus de riscovariáveis, de ex-membros da nomenklatura a grandesempresasem processo deprivatização. Algumas dessas reconversões de ex-membros da nomenklatura emempreendedores privados têm sido analisados como uma forma de reprodução. A política de reformas econômicas e o modelo de privatização implementado durante o primeiro estágio nas reformas facilitaram efetivamente um processo que tem certas semelhanças com formas dereprodução da nomenklatura. Na Rússia, foi dada prioridade à reconversão deex-membros da nomenklatura que se tornaram novos empreendedores e de seusrecursos burocráticosem recursos econômicos, colocando em desvantagema maioria dos “recém-chegados”ao campo econômico. Isso é demonstrado na pesquisa conduzida em 1991 com base em uma pesquisa exploratória usando entrevistas em profundidade com empresários (CHMATKO; SAINT MARTIN, 1997).Apesar domercado de trabalho russo tersido drasticamente perturbadodepoisde 1989, não houve nenhuma mudança revolucionária concomitante na distribuição de cargos entre os dominantese os dominados. Pôde-se observarna épocaum processo de reconstrução das ex-elites e sua auto-reconversão em novas elites pós-soviéticas. Muitas das ex-elites entraram nos negócios e privatizaram empresas, mas também entraram na política. Essasreconversões de ex-membros da nomenklatura eram frequentemente acompanhadas dodesenvolvimento do comércio intra-Estatal,que tomou a forma de uma corrupção quase aberta(RADAEV, 1995).Após1989, foram realizados numerosos estudose pesquisas de ex-elites em diferentes países outrora comunistas, com base em grandes amostras deelites políticas,econômicas e culturais. Estes, frequentementetinham uma dimensão comparativa e concentravam-se nas origens enos destinos dessas elites, revelando diferentes formas de reprodução oumobilidade e permitindo-nos compreender as várias formas e modos de reconversões ea lógica para tomadas de decisões.Mink e Szurek(1999), com base numagrande compilaçãode histórias de vida de membros das elites, analisaram as “conversõesdecomunistas na Europa Oriental. Eles fazem uma distinção entre as razões de livre escolha (a situação polaca e húngara), necessidade (situação checa) ousituaçõesintermediárias “entre escolha, necessidade e oportunidade” (o caso de alguns empresários poloneses) (MINK; SZUREK, 1999). No entanto, uma avaliação
image/svg+xmlRumo a uma abordagem dinâmica para reconversõesEstud. sociol., Araraquara,v. 27, n. 00, e022009, jan./dez. 2022e-ISSN: 1982-4718DOI:https://doi.org/10.52780/res.v27i00.167637