Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 28, n. 00, e023022, 2023. e-ISSN: 1982-4718
DOI: https://doi.org/10.52780/res.v28i00.16910 1
REFLEXÕES SOBRE A LINGUAGEM DA INCIVILIDADE NA PANDEMIA: O
NEGACIONISMO NAS FALAS PRESIDENCIAIS
REFLEXIONES SOBRE EL LENGUAJE DE LA INCIVILIDAD EN LA PANDEMIA:
NEGACIONISMO EN DISCURSO PRESIDENCIAL
REFLECTIONS ON THE LANGUAGE OF INCIVILITY IN THE PANDEMIC:
NEGATIONISM IN PRESIDENTIAL SPEECH
Eduardo Moura OLIVEIRA1
e-mail: eduardomoura@gmail.com
Como referenciar este artigo:
OLIVEIRA, E. M. Reflexões sobre a linguagem da incivilidade na
pandemia: O negacionismo nas falas presidenciais. Estudos de
Sociologia, Araraquara, v. 28, n. 00, e023022, 2023. e-ISSN: 1982-
4718. DOI: https://doi.org/10.52780/res.v28i00.16910
| Submetido em: 06/07/2022
| Revisões requeridas em: 26/12/2022
| Aprovado em: 16/08/2023
| Publicado em: 29/12/2023
Editora:
Profa. Dra. Maria Chaves Jardim
Editor Adjunto Executivo:
Prof. Dr. José Anderson Santos Cruz
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro RJ Brasil. Doutor em Ciências Sociais.
Pesquisador do Instituto de Ciências Sociais.
Reflexões sobre a linguagem da incivilidade na pandemia: O negacionismo nas falas presidenciais
Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 28, n. 00, e023022, 2023. e-ISSN: 1982-4718
DOI: https://doi.org/10.52780/res.v28i00.16910 2
RESUMO: Este artigo analisa as relações entre as declarações do então presidente da
República Jair Bolsonaro no primeiro ano da pandemia e uma linguagem da incivilidade,
baseado nos pressupostos de Norbert Elias. Durante a pandemia de Covid-19, um conjunto de
recomendações da Organização Mundial de Saúde, referendadas por epidemiologistas e
virologistas, prescrevia o isolamento social como fundamental para a contenção da curva de
infectados. Na contramarcha das diretrizes científicas, o ex-presidente Jair Bolsonaro manteve
um discurso crítico ao isolamento social e voltado para a concentração dos esforços na
manutenção da atividade econômica. No contexto de crise provocada pela pandemia, o
descumprimento e desautorização de certas normas é reexaminado à luz da hipótese de uma
linguagem da incivilidade, o que sugere a importância em revisitar o trabalho de Elias com
atenção especial ao rendimento analítico da teoria dos processos civilizadores para pensar a
adesão às normas sanitárias ao longo da pandemia.
PALAVRAS-CHAVE: Norbert Elias. Política. Incivilidade. Governo. Pandemia.
RESUMEN: En este artículo se analiza las relaciones entre las declaraciones del entonces
presidente de la República Jair Bolsonaro en el primer año de la pandemia y un lenguaje de
incivilidad, a partir de las tesis de Norbert Elias. Durante la pandemia de la Covid-19, un
conjunto de recomendaciones de la Organización Mundial de la Salud, avaladas por
epidemiólogos y virólogos, prescribieron el aislamiento social como fundamental para
contener la curva de infectados. Contra los lineamientos científicos, Jair Bolsonaro mantuvo
un discurso crítico sobre el aislamiento social y se centró en concentrar esfuerzos en mantener
la actividad económica. En el contexto de la crisis provocada por la pandemia, se reexamina
el incumplimiento y desconocimiento de normas a partir de la hipótesis de un lenguaje de
incivilidad, lo que sugiere la importancia de revisitar la obra de Elias con especial atención a
la actuación analítica de la teoría de los procesos civilizatorios para pensar la adherencia a
las normas sanitarias a lo largo de la pandemia.
PALABRAS CLAVE: Norbert Elias. Política. Incivilidad. Gobierno. Pandemia.
ABSTRACT: This paper analyzes the relations between the statements of the former President
Jair Bolsonaro during the pandemic and a language of incivility, based on the assumptions of
Norbert Elias. During the Covid-19 pandemic, a set of recommendations from the World Health
Organization, endorsed by epidemiologists and virologists, prescribed social isolation as
fundamental to contain the infected curve. Against the backdrop of scientific guidelines, former
President Jair Bolsonaro maintained a critical discourse on social isolation and focused on
concentrating efforts on maintaining economic activity. In the context of a crisis caused by the
pandemic, non-compliance and disallowance of certain norms are re-examined in the light of
the hypothesis of a language of incivility, which suggests the importance of revisiting Elias's
work with special attention to the analytical performance of the theory of civilizing processes
for think about adherence to health standards throughout the pandemic.
KEYWORDS: Norbert Elias. Politic. Incivility. Government. Pandemic.
Eduardo Moura OLIVEIRA
Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 28, n. 00, e023022, 2023. e-ISSN: 1982-4718
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Introdução
No primeiro semestre de 2020, a crise de saúde pública instaurada pela pandemia de
Covid-19 exigiu respostas imediatas dos governantes e chefes de Estado, dada a velocidade de
propagação do vírus pelo mundo. A determinação das medidas de restrição ao contato aparecia
como o principal recurso de contenção, momento em que um debate público ganhou destaque
no Brasil a partir da crítica ao distanciamento social. O debate assumiu contornos políticos,
polarizado entre grupos que se acusavam reciprocamente. Em síntese, de um lado aqueles que
priorizavam a economia e do outro lado aqueles que defendiam a preservação da saúde pública
pelo isolamento social. Tal dissenso alimentou rusgas e desentendimentos entre os poderes, o
que afetou profundamente a capacidade de oferecer reações do ponto de vista das decisões dos
gestores públicos. O então presidente da República, Jair Bolsonaro, defensor do isolamento
vertical, se desentendeu com governadores, com o Ministro da Saúde, com o legislativo e com
o Supremo Tribunal Federal ao longo da pandemia
.
Tomando como objeto de análise os pronunciamentos presidenciais no ano de 2020
documentados em jornais periódicos, o presente trabalho busca refletir sobre relação entre o
tema da incivilidade e a negação do cumprimento das regras sanitárias e redução da gravidade
da pandemia. A partir da teoria dos processos civilizadores de Norbert Elias, procuro explorar
a hipótese da relação entre a incivilidade e o desprezo pelas recomendações de virologistas e
epidemiologistas no momento crucial para o controle do avanço da doença. Após uma
apresentação de seu projeto teórico, exploro analiticamente o discurso do ex-presidente durante
a pandemia, tomando como referência os registros de sua negação às recomendações
especializadas. Como procedimento metodológico, considero a análise crítica como processo
de significação que considera o contexto social e a produção de efeitos políticos. Nesse estudo,
o pressuposto é o da articulação entre linguagem e sociedade, atravessada por práticas,
discursos e situações, de acordo com as teses de Norman Fairclough (2016). No Brasil,
trabalhos recentes voltaram suas análises a esse sentido, como o discurso de posse presidencial
Bolsonaro declarou inúmeras vezes que o Brasil estaria em guerra não com o vírus, mas com aqueles que
pretendem “quebrar a economia para atingir o governo”. Em sua defesa da reabertura do comércio e da circulação
normal das pessoas enquanto a pandemia avançava, atacou decisões do Supremo Tribunal Federal, de
governadores e do então presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Mais informações sobre tema em:
https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2020/05/17/interna_politica,1148039/como-a-guerra-entre-
bolsonaro-e-governadores-pode-ferir-o-brasil.shtml; https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/04/ataques-
entre-bolsonaro-e-maia-tem-de-velha-politica-a-socorro-a-pandemia-relembre-os-embates.shtml;
https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2020/04/16/interna_politica,1139286/relembre-o-historico-de-
confrontos-entre-bolsonaro-e-mandetta.shtml; https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/06/entenda-a-recente-
tensao-entre-o-governo-bolsonaro-e-o-supremo-tribunal-federal.shtml. Acesso em: 19 abr. 2021.
Reflexões sobre a linguagem da incivilidade na pandemia: O negacionismo nas falas presidenciais
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(GUIRADO, 2019), a análise crítica no contexto econômico e social no período da pandemia
(AKAMINE et al., 2022) e a construção do discurso sobre direitos humanos a partir da extrema
direita (CAVALCANTI; FERREIRA, 2020). Assim como nessas pesquisas, a proposta aqui é
a de explorar as pontes entre os discursos e a dinâmica de práticas sociais em rede e interação,
nos termos de Fairclough (2016). Não obstante, a proposta aqui consiste em uma análise crítica
à luz da categoria incivilidade, no registro da obra de Elias, de modo a verificar o rendimento
teórico de estudos voltados ao conteúdo das falas presidenciais.
O artigo está organizado em três partes. Inicialmente, apresento a discussão teórica
envolvendo os processos civilizadores à luz do objeto proposto. Em seguida, é realizado um
esforço de exploração conceitual a respeito da incivilidade, tomando como pano de fundo o
ambiente de tensões e disputas políticas. Finalmente, as falas de Jair Bolsonaro serão analisadas
sob a ótica do desacatamento das normas sanitárias e das recomendações científicas, o que
indicaria a incidência de uma linguagem incivilizada, nos termos de Elias.
Da renovação nos quadros às promessas de transformação na política
Nos últimos anos, a intensificação de discursos marcados pelo desprezo a certas
formalidades na cultura política das democracias ocidentais representou uma tendência através
da qual surgiram incontáveis episódios envolvendo radicalismos. No Brasil, as prévias das
eleições presidenciais de 2018 apontavam a expressividade dos índices do candidato Jair
Bolsonaro, parlamentar que ganhou notoriedade através de comentários “racistas, homofóbicos,
sexistas”
e pela simpatia demonstrada em relação ao período da ditadura militar. Ex-militar da
reserva, Bolsonaro se tornou uma figura controversa em função de propagar um discurso de
ódio. No ano de 2020, período de análise dessa pesquisa, Bolsonaro, como Presidente da
República, reafirmou suas posições, tais como o ataque aos outros poderes e o negacionismo
científico, sob a forma de uma linguagem truculenta.
A eleição de Bolsonaro se inscreve em um movimento de renovação dos quadros no
executivo guiado por uma retórica de reconstrução temperada com nacionalismos e promessas
de purificação. Suas falas são contundentes e predispostas à acusação. Em posicionamentos
A matéria do Libération de 15 de agosto de 2018 traz o seguinte texto: “Jair Bolsonaro é agora um estranho na
eleição presidencial cuja campanha oficial será aberta na quinta-feira. Racista, homofóbico e sexista, este capitão
nostálgico da ditadura tira proveito do descrédito que pesa sobre a classe política brasileira” (tradução minha). Au
Brésil, un ex-militaire pour liquider la démocratie. Libération, São Paulo, 15 de ago. de 2018. Disponível em:
http://www.liberation.fr/planete/2018/08/15/au-bresil-un-ex-militaire-pour-liquider-la-democratie_1672816.
Acesso em: 24 maio 2021.
Eduardo Moura OLIVEIRA
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oficiais, a defesa de uma ética substancialmente fundada em princípios, noção que Weber
(1982) advertia como prejudicial para a política. Em suas clássicas conferências sobre a
ciência e sobre a política, Weber adverte que o político toma as suas decisões levando em conta
uma série de condicionamentos que muitas vezes se afastam dos juízos ou preferências pessoais.
Aqui reside a chave do argumento: se o compromisso da ciência é com a verdade e o
compromisso da política é com as consequências dos atos, em que medida o distanciamento de
Bolsonaro se inscreve em uma linguagem da incivilidade, ao se distanciar das recomendações
científicas e assumir posições cujos resultados dramáticos, do ponto de vista da saúde pública?
Diante dessa variável e do conjunto de falas do presidente ao longo da pandemia, cabe avançar
na pergunta: como a teoria dos processos civilizadores se relaciona com a linguagem
incivilizada em momentos de crise, tal como o contexto da pandemia de Covid-19, em 2020?
O Processo civilizador e o acatamento das normas
A teoria de Norbert Elias está voltada para uma crítica das teorias sociológicas baseadas
na imagem do indivíduo como ser autônomo e autossuficiente, mas também para seu oposto,
ou seja, aqueles que consideram a totalidade social como alvo de análise que independe da ação
individual. Para o autor, a sociedade é formada por uma teia de relações inscritas dentro de um
processo histórico, considerando a relação de interdependência entre as pessoas. Nesse sentido,
o alvo de sua investigação se concentra nos processos de longa duração não-planejados, mas
que apontam para transformações nas regras de convívio social.
Principal obra de Elias, O processo civilizador investiga um refinamento das normas de
agressividade a partir de uma história dos costumes, tomando como referência as
transformações nos manuais de etiqueta e, consequentemente, nas regras de convivência em
sociedade ao longo dos últimos cinco séculos. Na obra, as estruturas de personalidade e suas
relações de interdependência são tomadas como categorias sociológicas através das quais Elias
traça as passagens que vão da agressividade ao modelo de comportamento socialmente aceito,
tendo como parâmetro a sociedade de corte
. Entre o conjunto de pessoas dotadas de títulos
nobiliárquicos que circulavam em torno do soberano, as cenas da vida cotidiana eram
representadas a partir de um conjunto de formalidades seguidas liturgicamente e entendidas
Vale mencionar aqui o contexto do Século XV, no qual os duques de Borgonha, que desejavam ascender
socialmente na escala da hierarquia monárquica, construíam cerimoniais absolutamente requintados e inspirados
na Bíblia, com a representação de cenários divinos no mundo.
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como modos de se comportar mais próximos de Deus, uma vez próximos do rei. Aqui se
estabelece a relação entre os padrões de comportamento e as posições de poder, segundo Elias.
O processo civilizador é uma mudança no padrão de conduta provocada por mecanismos
que se instalam no aparelho psíquico produzindo uma autocontenção dos ímpetos de
agressividade. Acompanhado pelo sentimento de preservação de sua posição na rede social, o
indivíduo sente-se impelido a agir conforme tal padrão, internalizando as normas e exercendo
um autocontrole. Uma marcha de longa duração que vai para uma direção específica: a do
refinamento das normas de agir e sentir.
O percurso do processo civilizador se inicia em pequenas economias onde os papéis são
bem definidos e as famílias produzem o suficiente para o próprio sustento. Nesse ponto, o grau
de interdependência é pequeno, mas com a especialização da produção aumenta o compromisso
com o outro e com a própria produção. A especialização do trabalho permite a troca, viabilizada
sob a condição do compromisso e da regularidade naquilo que o indivíduo cultiva, na medida
em que a competição exige um controle cada vez mais rigoroso. Elias explica que o crescimento
da produtividade é um fator fundamental para a “elevação dos padrões de vida”, que em um
estágio muito avançado culminaria na “formação de monopólios mais estáveis de força”,
especificamente o Estado, que passa a figurar também como a garantia de segurança do
indivíduo (ELIAS, 2011, p. 256). Tal formato assume grandes proporções e passa a estruturar
toda a vida social, sempre exigindo maior rigor e estabelecendo um padrão de conduta que
prima pela disciplina. O comportamento regular e disciplinado passa a ser visto como um valor,
um bem que o sujeito deve conservar dentro de uma estrutura econômica. Passa por um
processo de socialização de longa duração que resulta em autocontrole da conduta. No exemplo
do comportamento à mesa, Elias fala da expansão e difusão de patamares de vergonha, o
aumento da capacidade de sentir-se constrangido diante de determinadas maneiras.
Esta delicadeza, esta sensibilidade, e um sentimento altamente desenvolvido
de embaraço, são no início aspectos característicos de pequenos círculos da
corte e, depois, da sociedade da corte como um todo. Não se diz nem se
pergunta em que se baseia essa delicadeza e porque ela exige que se faça isso
ou aquilo. (...) Juntamente com uma situação social muito específica, os
sentimentos e emoções começam a ser transformados na classe alta, e a
estrutura da sociedade como um todo permite que as emoções assim
modificadas se difundam lentamente pela sociedade. Nada indica que a
condição afetiva, o grau de sensibilidade seja mudado pelo que descrevemos
como “evidentemente racional”, isto é pela compreensão demonstrável de
dadas conexões causais. (...) Em primeiro lugar, ao longo de um período
extenso e em conjunto com uma mudança específica nas relações humanas,
isto é, na sociedade, é elevado o patamar de embaraço. A estrutura das
emoções, a sensibilidade, e o comportamento das pessoas mudam, a despeito
Eduardo Moura OLIVEIRA
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de variações, em uma direção bem clara. Então, num dado momento, esta
conduta é reconhecida como higienicamente correta (ELIAS, 1994, p.119).
De acordo com Elias, ocorre um gradual movimento de transformação histórico cuja
direção aponta para um refinamento nos modos de se comportar e se expressar, tendência
observável inicialmente nas classes superiores, contudo, tal modelo se espraia por toda a
sociedade. Um dos caminhos através dos quais é possível compreender o autocontrole do
indivíduo é pelo entrelace da psicogênese com a sociogênese, que corresponde a uma conjunção
de perspectivas micro e macrossociológicas que devem ser pensadas dentro de um modo
relacional e dentro de uma dinâmica (WAIZBORT, 2001).
Foram as cortes europeias que criaram e estabeleceram os padrões de comportamento
social e suas ligações com o poder e o posicionamento na sociedade. Trata-se de um mecanismo
de distinção entre nobres e rudes na sua origem, uma gramática que hoje assume sua forma
moderna em um conjunto de protocolos que comumente cercam figuras do poder público. Basta
considerarmos o conjunto de prerrogativas reconhecidas pelo direito inclusive pelo direito
internacional com o objetivo de garantir o pleno desempenho das funções de chefes de Estado.
Por essa razão, é comum observar, nas imagens de coberturas jornalísticas de acordos
internacionais, missões diplomáticas e encontros de interesse público, um conjunto de
formalidades que inclui desde as vestimentas, passando pelos esquemas de segurança, até os
discursos brandos e conciliativos. Tais modelos de comportamento aparecem como a expressão
da condição de racionalidade, de cortesia e de equilíbrio. Estabelecem patamares de
constrangimento que passam a ser absorvidos pelo indivíduo desde a infância, segundo Elias.
A preocupação constante dos pais com o fato de os filhos se pautarem ou não
pelo padrão de conduta de sua classe ou da classe mais alta, se manterão ou
aumentarão o prestígio das famílias, se defenderão sua posição dentro de sua
própria classe, medos desse tipo cercam a criança desde os primeiros anos (...)
desempenham um papel considerável no controle ao qual a criança é
submetida desde o começo, nas proibições que lhe o impostas (ELIAS,
2011, p. 271).
A pressão exercida no indivíduo gera tensões e cisões internas, um aspecto importante
no modelo de Elias: as diferenças entre classes despertava o sentimento de medo dos grupos
em ascensão. Tais grupos absorvem o código de conduta das classes superiores e passam a
assimilá-lo, de maneira que a construção do superego é feita a partir do senso de inferioridade.
O ponto que gostaria de assinalar é o do controle da agressividade como aquilo que
estabilidade às interações sociais. Na modernidade, a domesticação da agressividade acontece
desde a infância, de modo que quanto mais bem-sucedido é o processo civilizador, menos tempo
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será necessário para preparar a criança para as funções adultas (ELIAS, 1994). Não se trata aqui
de apresentar diretrizes normativas como indícios do que poderia ser classificado como boa ou
como má conduta. Para além da esfera dos valores, o esforço se concentra na identificação do
descompasso entre um momento dramático para a população, por conta dos efeitos da
pandemia, e os tom desrespeitoso e pouco acolhedor do presidente da República. No contexto
do avanço da pandemia, o tom solidário e responsável com as consequências por parte do
político é mais que uma mera normatividade; do ponto de vista analítico, define a própria
atividade política
.
A agressividade admitida e a incivilidade mortífera
Nas linhas de Elias, o domínio das boas maneiras e da polidez estaria relacionado a
certas hierarquias e posições na sociedade. Quando observamos a incivilidade na política de
hoje, sob a forma de discursos e ações, podemos identificar a incidência da relação entre poder
e grau de civilidade. O artigo de Bernard Harcourt (2012) parte da teoria dos processos
civilizadores para pensar como a linguagem da incivilidade está ligada a posicionamentos nas
relações de poder. A linguagem do bom costume, polida e não agressiva, corresponde a uma
ideia de civilidade como padrão de atos verbais que qualifica a política, um tipo de organização
baseado originalmente na noção de sociedade civil. “Promoveu-se a ideia de que nos faz bem
ser parte de uma comunidade política, principalmente uma comunidade política marcada pela
ordem, pela paz doméstica e pela tranquilidade” (HARCOURT, 2012, p. 304). De acordo com
tal registro, o grau de civilidade do representante seria proporcional aos graus de conformidade
com os ânimos da sociedade civil, pelo menos em tese.
No entanto, o autor fala do esvaziamento desse vínculo semântico entre a política e a
civilidade, pois na medida em que as competições políticas se acirram no campo agonístico, a
política se resume no benefício de uns em prejuízo de outros (HARCOURT, 2012). Na trama
das complexas disputas de poder, em ambientes plurais, os resultados das decisões políticas, de
fato, não são “civilizados”, uma vez que produzem insatisfação e frustração. Sendo assim, se a
política não é civilizada, por que a linguagem da política deveria ser?
Iris Young (2014) apontou a polarização nas democracias através de dois atores
imaginados: a) participantes da democracia deliberativa, baseado em normas e processos de
Em A política como vocação, Weber argumenta que a simples paixão não basta, uma vez que o político necessita
de outras duas qualidades: a responsabilidade e o senso de proporção. Um firme controle da alma capaz de de
distinguir da figura do apaixonado (WEBER, 1982).
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deliberação pública, e b) o ativismo, que baseado em um modelo de virtude cidadã, reclama
que os processos deliberativos são excludentes. A separação entre esses dois atores aumentaria
as desigualdades estruturais, arranjo no qual o ativista se torna o personagem da democracia
que por vezes se encontra “frustrado”, “furioso” com as injustiças que a democracia deliberativa
perpetua ou categoricamente nega, “racionalizando como se fossem benéficas suas decisões”
(YOUNG, 2014, p. 191). Nesse ponto, Young demarca atores excluídos dos processos
decisórios e que se julgam prejudicados a partir das decisões tomadas por seus representantes.
A partir de tal arranjo, é possível supor que as reações daqueles que se julgam injustiçados ou
excluídos tendam a ser mais incivilizadas.
Em uma sociedade plural e atravessada por injustiças, cabe considerar a constante
situação de conflito que marca o político, para utilizar a noção de Chantal Mouffe (2014).
Inspirada na compreensão do político de Carl Schmitt, tal linha considera o elemento de
hostilidade como central para a movimentação das disputas, arranjo no qual a relação assumiria
a forma amigo-inimigo
. Nessa direção, a agressividade seria considerada como constituinte
das lutas políticas, na medida em que se inscreve em lutas infindáveis por direitos.
A partir de outro ângulo e diante da questão aqui proposta, cabe considerar as
especificidades a respeito da distinção entre agressividade e incivilidade. Quando Elias trata do
processo civilizador, considera um retraimento dos impulsos, um autocontrole capaz de frear a
força psíquica que conduz à ação. Embora o tema da agressividade do Presidente da República
se apresente como importante às análises da conjuntura, atenho-me ao ponto da atitude
incivilizada no contexto da pandemia. Em comum, agressividade e incivilidade caracterizam-
se pela inobservância ou violação dos códigos sociais de conduta. No entanto, a incivilidade
remete a um compromisso cívico - nesse ponto reside o descompasso entre o chefe de Estado e
a conduta prescrita pelo cargo. Significa dizer que, apesar de Bolsonaro guardar episódios de
agressividade em sua trajetória como político, o ponto a ser analisado é o da discrepância entre
a postura incivilizada durante a pandemia de Covid-19 e a pessoa pública que oficialmente
representa a unidade nacional.
A incivilidade do Presidente da República reside na negação das normas específicas ao
objeto que se pretende observar: as diretrizes científicas a respeito das medidas de contenção
Nesse ponto, Mouffe faz uma crítica da relação antagonística amigo-inimigo, de Carl Schmitt, na medida em que
busca uma política democrática na qual a relação nós-eles, ou seja, as partes conflitantes, reconheçam que, embora
não exista nenhuma solução racional para os conflitos, a legitimidade dos oponentes deve ser preservada. Na
democracia, as partes conflitantes deveriam ser adversárias, não inimigas, como explica: “o modelo adversarial
tem que ser considerado constitutivo da democracia porque ele permite que a política democrática transforme o
antagonismo em agonismo” (MOUFFE, 2015, p. 19).
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do avanço do coronavírus. Identifica-se, nesse ponto, uma incivilidade que vai além de um
conjunto de formalidades. Uma vez que a regra de conduta prescrita cientificamente é negada,
a consequência imediata é o avanço do número de contaminados e de mortos pela ação do vírus.
Trata-se aqui de uma incivilidade em função da relação entre a inobservância dessas
formalidades e o risco de ameaça à vida dos cidadãos.
Em A psicologia de grupo e análise do ego (1974), Freud apresenta uma dinâmica
através da qual o grupo dissolve a identidade individual na medida em que identifica
horizontalmente seus integrantes e verticalmente o líder. Dissolvido no grupo e com parte de
sua individualidade subtraída, o integrante tende a ser regido mais pelas decisões do grupo ou
de seu líder e menos pelos critérios que caracterizam sua individualidade. “O indivíduo
abandona seu ideal do ego e o substitui pelo ideal do grupo, tal como é corporificado no líder”,
explica Freud (1974). Essa relativa isenção de responsabilidade, enquanto fato psicológico do
comportamento grupal, é a que eventualmente pode liberar certos impulsos em pessoas que não
se comportariam da mesma maneira se estivessem sozinhas. Nesse ponto, fundamenta-se a
compreensão da ideia de incivilidade e sua aplicação na observação da postura de um chefe de
Estado dentro de um contexto de pandemia: ao desestimular as regras de isolamento social e
reduzir a letalidade da doença, Bolsonaro contribuiu para o avanço dos índices de
contaminados.
Nesse cenário, seria o negacionismo científico e a defesa das próprias convicções
durante a pandemia o indício de uma linguagem incivilizada, por parte de Bolsonaro? Vejamos
algumas posições do ex-presidente e, em seguida, voltemos ao hipotético efeito reverso nos
processos civilizadores.
Discursos de Bolsonaro sobre a pandemia
A primeira declaração de Jair Bolsonaro sobre a pandemia de Covid-19 aconteceu em
Miami em evento no dia 09 de março de 2020, quando o Brasil já registrava os primeiros casos
da doença. Em suas palavras, o poder do vírus “estava superdimensionado”
. Na ocasião,
Bolsonaro falou para uma plateia de empresários que o coronavírus é como uma “fantasia”,
dias antes de mais de 20 pessoas de sua comitiva voltarem infectadas dos Estados Unidos.
Nos EUA, Bolsonaro diz a plateia de empresários que coronavírus 'não é isso tudo, muito é fantasia. O Globo,
Rio de Janeiro, 10 de mar. de 2020. Disponível em: https://oglobo.globo.com/economia/nos-eua-bolsonaro-diz-
plateia-de-empresarios-que-coronavirus-nao-isso-tudo-muito-fantasia-1-24296379. Acesso em: 16 ago. 2021.
Eduardo Moura OLIVEIRA
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Em 24 de março de 2020, o mundo acompanhava a velocidade com a qual a Itália
chegava aos 67 mil casos e os Estados Unidos chegava aos 50 mil. Na ocasião, O Brasil contava
com aproximadamente 2270 casos e 47 mortos, segundo dados oficiais das secretarias de
saúde
. Nesse dia, em seu primeiro pronunciamento em rede nacional após a chegada de fato
da Covid-19 ao Brasil, o então presidente da República abriu sua fala apresentando a ação
conjunta dos Ministérios da Defesa e das Relações Exteriores, no plano de resgate dos
brasileiros na China. Em seguida, indicou um planejamento de combate ao avanço do vírus,
liderado pelo então ministro da saúde Henrique Mandetta em sincronia com os secretários de
saúde. Sugeriu uma espécie de desequilíbrio entre uma afirmada preparação do SUS para o
atendimento às vítimas e uma atmosfera de “pânico” e “histeria” instaurada pela mídia. A
seguir, um trecho do pronunciamento.
Grande parte dos meios de comunicação foram na contramão. Espalharam
exatamente a sensação de pavor, tendo como carro chefe o anúncio de um
grande número de vítimas na Itália, um país com grande número de idosos e
com um clima totalmente diferente do nosso. Um cenário perfeito,
potencializado pela mídia, para que uma verdadeira histeria se espalha pelo
nosso país (BOLSONARO, Jair. Pronunciamento oficial em rede nacional
Brasília, 24 de mar. de 2020).
Bolsonaro defendia a continuidade do funcionamento normal das atividades comerciais
em nome da preservação do “sustento das famílias”. Justificava-se alegando um suposto risco
restrito a pessoas acima dos 60 anos. E alertava que a preocupação da população deveria se
concentrar na proteção aos “queridos pais e avós”, uma vez que as pessoas com menos de 40
anos não apresentariam sequer manifestações do vírus, em caso de contaminação.
No curso de sua fala, o ex-presidente ilustra seu argumento através de um exemplo
especulativo, o “seu caso particular”. Imagina-se contaminado pelo vírus e conjectura uma
experiência isenta de grandes preocupações com a saúde: “pelo meu histórico de atleta (...) nada
sentiria, ou sentiria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho”.
Em seu primeiro pronunciamento sobre a pandemia, o então presidente da República
apresentava a Cloroquina
como possível solução de combate ao coronavírus, hipótese, segundo
Casos de coronavírus no Brasil em 24 de março. G1, Rio de Janeiro, 24 de mar. de 2020. Disponível em:
https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/03/24/casos-de-coronavirus-no-brasil-em-24-de-
marco.ghtml. Acesso em: 24 maio 2021.
Medicamento usado principalmente no tratamento da malária, ocasionalmente recomendado no tratamento da
amebíase, artrite reumatoide e pus eritematoso. Em 2004, O Instituto Rega de Pesquisa Científica identificou um
efeito inibidor das complicações respiratórias da SARS. Em 2020, estudos comprovaram que a cloroquina e a sua
variante, a hidroxicloroquina, não possuem eficácia no tratamento da Covid-19, além de causar outras
complicações de modo a piorar o quadro do paciente.
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Bolsonaro, em vias de ser comprovada pelo Hospital Albert Einstein e pela Food and Drug
Administration, a agência federal do departamento de saúde norte-americano. Esse aspecto
daria início a uma série de defesas e recomendações da cloroquina como solução para a doença,
por parte do ex-presidente.
Poucos dias depois, Bolsonaro anunciou linhas de crédito a empresas e auxílio a
autônomos
. Destacou a necessidade em “manter os empregos”, advertindo que a economia
caminha ao lado da pandemia. No pronunciamento seguinte, identificado como um dos
poucos chefes de Estados que defendiam a retomada das atividades econômicas, ao lado de
Donald Trump, Bolsonaro assumia a missão de “salvar vidas sem deixar para trás os empregos”.
Justificava-se demonstrando “preocupação com os mais vulneráveis”, devidamente
explicitados: o “camelô”, o “ambulante”, o “vendedor de churrasquinho”, o “ajudante de
pedreiro” e o “caminhoneiro”. Na ocasião, buscou tranquilizar a população defendendo o
medicamento cloroquina: “os laboratórios químico-farmacêuticos militares entraram com força
total. E, em 12 dias, serão produzidos 1 milhão de comprimidos de cloroquina (...)”
.
Entre passeios públicos e contatos físicos nos meses de abril e maio, Bolsonaro
cumprimentou simpatizantes e visitou estabelecimentos comerciais, em oposição ao
isolamento. Mantinha comunicação quase diária através de um cercado onde apoiadores se
aglomeravam em apoio. Foi também através desse local que jornalistas faziam perguntas sobre
o plano de combate ao coronavírus, de onde Bolsonaro deu a seguinte declaração, no dia 29 de
março:
Essa é uma realidade, o vírus 'tá aí. Vamos ter que enfrentá-lo, mas enfrentar
como homem, porra. Não como um moleque. Vamos enfrentar o vírus com a
realidade. É a vida. Tomos nós iremos morrer um dia. Queremos poupar a
vida? Queremos. Na parte da economia, o Paulo Guedes 'tá gastando dezenas
de bilhões de reais, que é do Orçamento, que é dinheiro do povo, se bem que
nem dinheiro é. Pegamos autorização do Congresso para estourar o teto, que
vai ser paga essa conta na frente (BOLSONARO, J. In: Após provocar
aglomeração durante passeio em Brasília, Bolsonaro volta a se posicionar
contra o isolamento social. G1, Brasília, 29 de mar. de 2020).
Ao longo do mês de abril, a população acompanhava pela TV as aglomerações
provocadas pelo então presidente em função de suas aparições públicas, ocasiões em que
Governo anuncia linha de crédito a pequenas e médias empresas. Agência Brasil, Brasília, 27 de mar. de 2020.
Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2020-03/ao-vivo-bolsonaro-faz-pronunciamento-
sobre-combate-covid-19. Acesso em: 05 jul. 2021.
Em pronunciamento na TV, Bolsonaro muda o tom e não critica o isolamento social. G1, Brasília, 31 de mar.
de 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/03/31/em-pronunciamento-na-tv-bolsonaro-
muda-o-tom-e-nao-critica-o-isolamento-social.ghtml. Acesso em: 19 abr. 2021.
Eduardo Moura OLIVEIRA
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apertava as mãos de apoiadores e inúmeras vezes deixava de usar a máscara de proteção do
rosto. O Brasil já tinha a maior taxa de contágio do mundo ao final de abril
, momento em que
a imprensa registrava imagens de corpos ensacados e covas enfileiradas. Na terça-feira, 28 de
abril, dia em que o Brasil ultrapassava a China em número de óbitos, o presidente da República,
quando questionado sobre a gravidade da situação da curva de infectados no país, respondeu:
“e daí? Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagres!”
.
No Dia do Trabalhador, quando o Brasil somava 85 mil casos e 5900 óbitos, o presidente
Jair Bolsonaro declarou: “gostaria que todos voltassem a trabalhar”. Disse que, no entanto, essa
não era mais uma decisão sua, antes de sugerir a ineficiência dos métodos de contenção do
aumento do número de casos. “Governadores e prefeitos que tomaram medidas bastante rígidas,
não achataram a curva”, afirmou
. No dia 07 de maio de 2020, o presidente Jair Bolsonaro
realizou um pronunciamento no qual destacava suas conversas com empresários e com
representantes da indústria, justificando a importância em retornar às atividades normais
. E
em 10 de maio, a partir da pergunta de uma mulher sobre o número de mortos no país pela
pandemia, Jair Bolsonaro, em linguagem característica, mandou a mulher “ir cobrar do seu
governador”
.
Diante dos acontecimentos, documentados através da imprensa nacional e internacional,
é possível enumerar um conjunto de posicionamentos do presidente da República nos quais
Bolsonaro minimiza a importância da pandemia e ignora a crise na saúde pública. Enquanto na
primeira etapa o presidente defendia o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina, quando o
debate público se voltou para os avanços em relação à vacina, Bolsonaro se posicionou contra.
Declarou que ninguém é obrigado a tomar a vacina. Em novembro, comemorou a suspensão
dos testes da Coronavac, da farmacêutica chinesa Sinovac. Na ocasião, se justificou: “Da China,
não compraremos. Decisão minha”. E quando os testes foram interrompidos para investigação
Brasil tem a maior taxa de contágio do coronavírus do mundo. O Globo, Rio de Janeiro, 30 de abr. de 2020.
Disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/coronavirus/brasil-tem-maior-taxa-de-contagio-do-
coronavirus-no-mundo-24403534. Acesso em: 06 set. 2021.
“E daí? Eu sou Messias, mas não faço milagres”. Isto É, São Paulo, 01 de mai. de 2020. Disponível em:
https://istoe.com.br/e-dai-eu-sou-messiasmas-nao-faco-milagres/. Acesso em: 19 abr. 2021.
“Gostaria que todos voltassem a trabalhar”. Folha de São Paulo, São Paulo, 01 de mai. de 2020. Disponível em:
https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/05/gostaria-que-todos-voltassem-a-trabalhar-diz-bolsonaro-sobre-
1o-de-maio.shtml. Acesso em: 06 set. 2021.
Leia a íntegra da live feita por Bolsonaro em 07 de maio. UOL, São Paulo, 07 de mai. de 2020. Disponível em:
https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/05/07/veja-e-leia-na-integra-o-pronunciamento-de-jair-
bolsonaro.htm. Acesso em: 05 jul. 2021.
'Cobre do seu governador': qual a responsabilidade do governo federal no combate à pandemia? BBC Brasil,
São Paulo, 06 de jul. de 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53244465. Acesso em: 19
abr. 2021.
Reflexões sobre a linguagem da incivilidade na pandemia: O negacionismo nas falas presidenciais
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da relação do imunizante com a morte de um voluntário que a recebeu, Bolsonaro comemorou
em suas redes sociais: "Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Doria (governador de
São Paulo) queria obrigar todos os paulistanos a tomá-la. O presidente disse que a vacina jamais
poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha"
.
Em 10 de novembro, Bolsonaro novamente minimizou a gravidade da crise em
linguagem explicitamente machista. Referindo-se à pandemia, disse que o Brasil “tem que
deixar de ser um país de maricas” e enfrentar de peito aberto” a situação
. “Maricas”, de
acordo com o dicionário Houaiss (2001), refere-se ao “indivíduo do sexo masculino que se
comporta com modos femininos”. Em outro registro, no contexto regionalista, aponta para um
sentido de “homossexualidade” ou de “covardia”. De fato, “maricas” é um termo rude e
preconceituoso, definitivamente incompatível com a compostura e com a decência formal
característica de um representante dos brasileiros. Duplamente rude, pois além de fazer
referência à sexualidade, ignora a situação dramática da pandemia de Covid-19.
Processos descivilizadores ou linguagem incivilizada?
No processo civilizador, Elias analisa os nexos entre racionalização, violência e
civilização. Através de séculos, explica como a racionalização implica em maior previsibilidade
e calculabilidade, uma tendência que tem início na sociedade de corte, passa pela nobreza, e
gradualmente inclui a burguesia, depois as massas, além de outros povos ocidentais (MANZO,
2013). Ocorre que, ao contrário de Weber, em Elias os processos de racionalização não são
irreversíveis, podendo incluir retrocessos.
Uma das dificuldades de abordar os processos descivilizadores na obra de Elias reside
na principal crítica ao seu trabalho: se a história se desdobra através de processos de
racionalização que vão da barbárie à civilização, como explicar as barbáries do culo XX,
particularmente o Holocausto? É nesse terreno que Bauman (1998) lança a sua crítica em
Modernidade e Holocausto, o qual chega a se referir à civilização como um mito. Nesse sentido,
como o processo civilizador daria conta de explicar a truculência e a negação do que é
racionalmente admitido, de acordo com as pesquisas científicas? Ocorre que, uma linha crítica
Bolsonaro comemora suspensão de testes da Coronavac. Deutsche Welle, São Paulo, 10 de nov. de 2020.
Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/bolsonaro-comemora-suspens%C3%A3o-de-testes-da-coronavac/a-
55558007. Acesso em: 06 set. 2021.
“Brasil tem de deixar de ser 'país de maricas' e enfrentar pandemia 'de peito aberto'”, diz Bolsonaro. G1, Brasília,
10 de nov. de 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/11/10/bolsonaro-diz-que-brasil-
tem-de-deixar-de-ser-pais-de-maricas-e-enfrentar-pandemia-de-peito-aberto.ghtml. Acesso em: 06 set. 2021.
Eduardo Moura OLIVEIRA
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oposta a esse questionamento reconhece em Elias um tom crítico a certo entusiasmo europeu
em relação à marcha civilizacional. Mennell (1992) propõe, por exemplo, que uma análise
voltada para as explosões de violência deve se concentrar na questão dos processos
descivilizadores, que Elias considerou seus retrocessos. Na mesma linha, Fletcher argumenta
que o esforço de aplicação do conceito de descivilização em pesquisas empíricas tende a
ampliar a compreensão dos padrões de comportamento capazes de inspirar medo. Fletcher
(1995) compreende a descivilização a partir de um desequilíbrio na autocontenção e nos
padrões de relacionamentos, o que geraria sentimentos menos estáveis e uniformes. Esses sinais
podem se tornar um processo social dominante, no qual as relações sociais são caracterizadas
pelo medo (1995, p. 289).
Em estudos realizados com o sociólogo Eric Dunning (1992), sobre a autocontenção da
violência nos esportes, e mesmo em Os Alemães (1997), Elias faz reflexões sobre a permanência
da agressividade no século XX. “A civilização a que me refiro nunca está completa, e está
sempre ameaçada”, adverte (ELIAS, 1997, p. 161). Cabe situar que o processo civilizador de
Elias vive em tenso equilíbrio, de maneira que nada garante a sua permanência no tempo.
Os processos descivilizadores guardariam momentos de irrupção da violência e da
agressividade no tecido social. Assim como o fato de urinar e escarrar foi devidamente
dissimulado nas cenas da vida cotidiana pelos manuais de etiqueta, a agressividade e a violência
não deixaram de existir, mas foram inibidas por um conjunto de regras sociais introjetadas.
Nesse sentido Elias vai dizer que “a pacificação de uma sociedade está sempre correndo perigo,
seja por conflitos pessoais ou por conflitos sociais (1997, p. 163). No entanto, na escala dos
processos históricos de longa duração, onde entraria uma análise do discurso do Presidente da
República, que, em última instância, seria um indivíduo?
De fato, o Presidente da República não é um indivíduo qualquer, mas o chefe de Estado.
Sua figura representa a vocalização dos interesses de parte da população, uma vez eleito em
votação majoritária. Oriundo da carreira militar, Bolsonaro ao longo de sua trajetória como
político abriu mão de certo recato no comportamento em favor da contundência no discurso. O
déficit de civilidade nos modos de se comportar converge com seu reconhecido tom de
acusações, ofensas e negacionismo. Em relação à pandemia, é possível afirmar que a falta de
decoro e respeito em seus discursos converge no sentido de liberação dos ímpetos de
agressividade, de acordo com a reversão dos processos civilizadores identificada por Elias.
Por outro lado, justifica-se o cuidado em referir-se ao objeto analisado como linguagem
da incivilidade: optou-se por utilizar esse termo, uma vez que o pressuposto de Elias seria ponto
Reflexões sobre a linguagem da incivilidade na pandemia: O negacionismo nas falas presidenciais
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de partida para uma análise dos conteúdos presidenciais durante a pandemia. Nesse trabalho,
os pronunciamentos de Bolsonaro na pandemia aparecem como ponto de fuga a partir do qual
linhas de projeção são capazes de fornecer um quadro mais amplo do cenário, a saber, o da
incivilidade na sociedade. Como chave analítica, o pensamento de Norbert Elias é tomado como
“caixa de ferramentas”, para tomar como referência as palavras de Gilles Deleuze
(FOUCAULT, 2004, p. 71). A teoria “deve funcionar”, ou ser acionada em seu potencial
capacitador, nos termos de Ann Swidler (1986). Considerando as práticas sociais em sua
dinâmica de ressignificações contínuas, a qual entrelaça discursos a crenças e ações que
desaguam em transformações sociais (FAIRCLOUGH, 2016; VAN DIJK, 2012), é possível
verificar a incidência da linguagem da incivilidade nas falas de Bolsonaro, ao longo da
pandemia de Covid-19.
A partir da obra de Elias, é possível pensar a hipótese não de um retorno da
agressividade, mas de uma redistribuição das tensões calcada no não-reconhecimento de certos
parâmetros fundamentais à preservação da vida, a saber, as recomendações sanitárias. Elias
talvez nunca tenha considerado os processos descivilizadores como um retorno, mas como uma
prevalência do “lado oculto” da civilização, talvez esse lado que tenda a reaparecer em
momentos de crise, tal como uma pandemia. A partir desse ponto que a análise das falas de
Bolsonaro, particularmente de sua crítica às normas sanitárias, se abre à luz da hipótese da
linguagem incivilizada expressa através de seu negacionismo científico.
Considerações finais
Diante dos dados levantados, realizo o esforço analítico de organização das falas do ex-
presidente de República, tomando como pressuposto sua oposição às normas sanitárias,
defendidas por epidemiologistas, médicos e fundamentada na ciência. Nesse esquema, temos o
recorte de um conjunto de falas e registros das ações de Jair Bolsonaro, o que permite verificar
o quanto tais posicionamentos podem ser pensados do ponto de vista da incivilidade.
A postura do ex-presidente girou em torno de quatro eixos, ao longo da pandemia: 1)
redução: “fantasia”, “histeria”, “gripezinha”; 2) priorização: “preocupação com a economia”,
“linhas de crédito”, “auxílios financeiros”; 3) ridicularização sexista: “enfrentar o vírus como
homem, não como moleque”, “deixar de ser país de maricas” e; 4) desresponsabilização:
“pergunta pro seu governador”, “não faço milagres”. Observa-se, nesse particular, o
descompasso entre suas posições e a compreensão da atividade do político de acordo com
Eduardo Moura OLIVEIRA
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Weber: “é a qualidade psicológica decisiva do político: sua capacidade de deixar que as
realidades atuem sobre ele com uma concentração e uma calma íntimas” (WEBER, 1982, p.
138).
Os quatro registros tendem a criar uma oposição em seus discursos. Na lógica das falas
de Bolsonaro, a pandemia é reduzida em relação ao: 1) grau: brandura x severidade 2) esforços:
economia x saúde pública; 3) força: homem x maricas e moleques e 4) responsabilidade:
presidente x governadores. Tais oposições inspiraram debates públicos pelo país ao longo do
ano de 2020, estabelecendo oposições cujo resultado foi o esvaziamento da gravidade da
pandemia. Para além de uma concepção formalista do discurso e de uma perspectiva
transdisciplinar (VAN DIJK, 2012), o saldo desses depoimentos presidenciais negacionistas,
na prática, foi observado pelo descumprimento das normas sanitárias de isolamento e de
negação da vacina, o que agravou o quadro de saúde pública no país.
A partir dos dados levantados em pesquisa ao longo dos últimos dez meses de suas
principais falas públicas, é possível afirmar que o ex-presidente da República, Jair Bolsonaro,
nega a proporção da realidade da pandemia que se impõe no país e no mundo. E, ao fazê-la,
falta ao cumprimento de suas responsabilidades enquanto chefe de Estado, o que tende a causar
prejuízos incalculáveis, do ponto de vista do combate à pandemia. O saldo de sua
desautorização das normas sanitárias pode ser pensado do ponto de vista do aumento da curva
de contágio e de suas consequências, contabilizada em vidas perdidas.
Assim como para Weber, Elias entende o racionalismo ocidental como o racionalismo
do controle das emoções e dos ímpetos de agressividade. Nesse processo, os sentimentos
humanos mais primários, como as paixões, convicções e vaidades pessoais dão lugar a um
comportamento disciplinado, baseado na racionalidade. Quando o então presidente Jair
Bolsonaro despreza os códigos de conduta inscritos em medidas sanitárias de contenção da
pandemia, tensiona os limites daquilo que Elias compreendeu como civilizado. E quando
confronta parâmetros de racionalidade científica em nome de convicções próprias, no registro
de uma pandemia, tende a produzir consequências dramáticas, do ponto de vista da
contaminação.
Em 2021, é possível concluir que a incivilidade na política brasileira ocorreu pela recusa
em reconhecer a dimensão do drama dos cidadãos por parte do presidente. Na contramão das
recomendações da OMS e de pareceres médico-científicos, Bolsonaro fez mais que reduzir a
importância da pandemia: como líder, encorajou pessoas a quebrarem o isolamento social,
aumentando o risco de contaminação. Divulgava pronunciamentos em linguagem jocosa e
Reflexões sobre a linguagem da incivilidade na pandemia: O negacionismo nas falas presidenciais
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provocadora, em evidente ausência de sensibilidade, mesmo de respeito, em relação ao que
acontecia com seus cidadãos. Portanto, a falta de decoro em seus discursos converge no sentido
de liberação dos ímpetos de incivilidade, na contramão do cumprimento de certas normas
fundamentais à contenção da curva de contágio, o que indica uma inversão dos sentidos
civilizadores, expressos na figura de um político orientado fundamentalmente pelas convicções
pessoais e pela própria vaidade.
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Reflexões sobre a linguagem da incivilidade na pandemia: O negacionismo nas falas presidenciais
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CRediT Author Statement
Reconhecimentos: Não se aplica.
Financiamento: Não se aplica.
Conflitos de interesse: Não há conflitos de interesse.
Aprovação ética: Não se aplica.
Disponibilidade de dados e material: Não se aplica.
Contribuições dos autores: Autor único.
Processamento e editoração: Editora Ibero-Americana de Educação.
Revisão, formatação, normalização e tradução.
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REFLECTIONS ON THE LANGUAGE OF INCIVILITY IN THE PANDEMIC:
NEGATIONISM IN PRESIDENTIAL SPEECH
REFLEXÕES SOBRE A LINGUAGEM DA INCIVILIDADE NA PANDEMIA: O
NEGACIONISMO NAS FALAS PRESIDENCIAIS
REFLEXIONES SOBRE EL LENGUAJE DE LA INCIVILIDAD EN LA PANDEMIA:
NEGACIONISMO EN DISCURSO PRESIDENCIAL
Eduardo Moura OLIVEIRA1
e-mail: eduardomoura@gmail.com
How to reference this article:
OLIVEIRA, E. M. Reflections on the language of incivility in the
pandemic: Negationism in presidential speech. Estudos de
Sociologia, Araraquara, v. 28, n. 00, e023022, 2023. e-ISSN: 1982-
4718. DOI: https://doi.org/10.52780/res.v28i00.16910
| Submitted: 06/07/2022
| Required revisions: 26/12/2022
| Approved: 16/08/2023
| Published: 29/12/2023
Editor:
Profa. Dra. Maria Chaves Jardim
Deputy Executive Editor:
Prof. Dr. José Anderson Santos Cruz
Rio de Janeiro State University (UERJ), Rio de Janeiro RJ Brazil. PhD in Social Sciences. Researcher at the
Institute of Social Sciences.
Reflections on the language of incivility in the pandemic: Negationism in presidential speech
Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 28, n. 00, e023022, 2023. e-ISSN: 1982-4718
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ABSTRACT: This paper analyzes the relations between the statements of former President Jair
Bolsonaro during the pandemic and a language of incivility, based on the assumptions of
Norbert Elias. During the Covid-19 pandemic, a set of recommendations from the World Health
Organization, endorsed by epidemiologists and virologists, prescribed social isolation as
fundamental to contain the infected curve. Against the backdrop of scientific guidelines, former
President Jair Bolsonaro maintained a critical discourse on social isolation and focused on
concentrating efforts on maintaining economic activity. In the context of a crisis caused by the
pandemic, non-compliance and disallowance of certain norms are re-examined in the light of
the hypothesis of a language of incivility, which suggests the importance of revisiting Elias's
work with special attention to the analytical performance of the theory of civilizing processes
for think about adherence to health standards throughout the pandemic.
KEYWORDS: Norbert Elias. Politic. Incivility. Government. Pandemic.
RESUMO: Este artigo analisa as relações entre as declarações do então presidente da
República Jair Bolsonaro no primeiro ano da pandemia e uma linguagem da incivilidade,
baseado nos pressupostos de Norbert Elias. Durante a pandemia de Covid-19, um conjunto de
recomendações da Organização Mundial de Saúde, referendadas por epidemiologistas e
virologistas, prescrevia o isolamento social como fundamental para a contenção da curva de
infectados. Na contramarcha das diretrizes científicas, o ex-presidente Jair Bolsonaro manteve
um discurso crítico ao isolamento social e voltado para a concentração dos esforços na
manutenção da atividade econômica. No contexto de crise provocada pela pandemia, o
descumprimento e desautorização de certas normas é reexaminado à luz da hipótese de uma
linguagem da incivilidade, o que sugere a importância em revisitar o trabalho de Elias com
atenção especial ao rendimento analítico da teoria dos processos civilizadores para pensar a
adesão às normas sanitárias ao longo da pandemia.
PALAVRAS-CHAVE: Norbert Elias. Política. Incivilidade. Governo. Pandemia.
RESUMEN: En este artículo se analiza las relaciones entre las declaraciones del entonces
presidente de la República Jair Bolsonaro en el primer año de la pandemia y un lenguaje de
incivilidad, a partir de las tesis de Norbert Elias. Durante la pandemia de la Covid-19, un
conjunto de recomendaciones de la Organización Mundial de la Salud, avaladas por
epidemiólogos y virólogos, prescribieron el aislamiento social como fundamental para
contener la curva de infectados. Contra los lineamientos científicos, Jair Bolsonaro mantuvo
un discurso crítico sobre el aislamiento social y se centró en concentrar esfuerzos en mantener
la actividad económica. En el contexto de la crisis provocada por la pandemia, se reexamina
el incumplimiento y desconocimiento de normas a partir de la hipótesis de un lenguaje de
incivilidad, lo que sugiere la importancia de revisitar la obra de Elias con especial atención a
la actuación analítica de la teoría de los procesos civilizatorios para pensar la adherencia a
las normas sanitarias a lo largo de la pandemia.
PALABRAS CLAVE: Norbert Elias. Política. Incivilidad. Gobierno. Pandemia
Eduardo Moura OLIVEIRA
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Introduction
In the first half of 2020, the public health crisis caused by the Covid-19 pandemic
demanded immediate responses from governments and heads of state, given the speed at which
the virus spread around the world. The determination of contact restriction measures appeared
to be the main containment resource, at which point a public debate gained prominence in Brazil
based on criticism of social distancing. The debate took on political contours, polarized between
groups that accused each other. In short, those who prioritized the economy on one side and
those who defended the preservation of public health through social isolation on the other. This
dissent fueled fights and disagreements between the branches of government, which profoundly
affected public managers' ability to react to decisions. The then President of the Republic, Jair
Bolsonaro, an advocate of vertical isolation, has clashed with governors, the Minister of Health,
the legislature and the Supreme Court throughout the pandemic
.
Taking as an object of analysis the presidential pronouncements in 2020 documented in
periodical newspapers, this paper seeks to reflect on the relationship between the theme of
incivility and the denial of compliance with sanitary rules and reduction of the severity of the
pandemic. Based on Norbert Elias' theory of civilizing processes, I seek to explore the
hypothesis of the relationship between incivility and disregard for the recommendations of
virologists and epidemiologists at a crucial moment for controlling the spread of the disease.
After a presentation of his theoretical project, I analytically explore the ex-president's speech
during the pandemic, taking as a reference the records of his denial of specialized
recommendations. As a methodological procedure, I consider critical analysis as a process of
signification that considers the social context and the production of political effects. In this
study, the assumption is that of the articulation between language and society, crossed by
practices, discourses and situations, according to the theses of Norman Fairclough (2016). In
Brazil, recent works have turned their analysis in this direction, such as the presidential
inauguration speech (GUIRADO, 2019), the critical analysis of the economic and social context
Bolsonaro declared numerous times that Brazil would be at war not with the virus, but with those who intend to
"break the economy to hit the government". In his defense of the reopening of commerce and the normal movement
of people as the pandemic progressed, he attacked decisions by the Supreme Court, governors and the then
president of the Chamber of Deputies, Rodrigo Maia. More information on the topic at:
https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2020/05/17/interna_politica,1148039/como-a-guerra-entre-
bolsonaro-e-governadores-pode-ferir-o-brasil.shtml; https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/04/ataques-
entre-bolsonaro-e-maia-tem-de-velha-politica-a-socorro-a-pandemia-relembre-os-embates.shtml;
https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2020/04/16/interna_politica,1139286/relembre-o-historico-de-
confrontos-entre-bolsonaro-e-mandetta.shtml; https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/06/entenda-a-recente-
tensao-entre-o-governo-bolsonaro-e-o-supremo-tribunal-federal.shtml. Access: 19 Abr. 2021.
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during the pandemic (AKAMINE et al., 2022) and the construction of the discourse on human
rights from the extreme right (CAVALCANTI; FERREIRA, 2020). As with these studies, the
proposal here is to explore the bridges between discourses and the dynamics of social practices
in networks and interaction, in the terms of Fairclough (2016). Nevertheless, the proposal here
consists of a critical analysis in the light of the category of incivility, in the register of Elias'
work, in order to verify the theoretical yield of studies focused on the content of presidential
speeches.
The article is organized into three parts. Initially, I present the theoretical discussion
involving civilizing processes in the light of the proposed object. This is followed by a
conceptual exploration of incivility, taking the environment of political tensions and disputes
as a backdrop. Finally, Jair Bolsonaro's speeches will be analyzed from the perspective of
disregard for health standards and scientific recommendations, which would indicate the
incidence of uncivilized language, in Elias' terms.
From staff renewal to promises of political transformation
In recent years, the intensification of discourses marked by contempt for certain
formalities in the political culture of Western democracies has represented a trend through
which countless episodes involving radicalism have emerged. In Brazil, the pre-election polls
for the 2018 presidential elections already pointed to the expressive ratings of candidate Jair
Bolsonaro, a parliamentarian who gained notoriety through his "racist, homophobic, sexist"
comments and his sympathy for the period of the military dictatorship. A former military
reservist, Bolsonaro has become a controversial figure due to his hate speech. In 2020, the
period of analysis of this research, Bolsonaro, already President of the Republic, reaffirmed his
positions, such as the attack on other powers and scientific negationism, in the form of truculent
language.
Bolsonaro's election is part of a movement to renew the executive, guided by a rhetoric
of reconstruction seasoned with nationalism and promises of purification. His speeches are
blunt and predisposed to accusation. In official positions, the defense of an ethic substantially
The Libération article of 15 August 2018 reads as follows: "Jair Bolsonaro is now an outsider in the presidential
election whose official campaign will open on Thursday. Racist, homophobic and sexist, this captain nostalgic for
the dictatorship is taking advantage of the discredit weighing on the Brazilian political class." (our translation). Au
Brésil, un ex-militaire pour liquider la démocratie. Libération, São Paulo, 15 de ago. de 2018. Available:
http://www.liberation.fr/planete/2018/08/15/au-bresil-un-ex-militaire-pour-liquider-la-democratie_1672816.
Access: 24 May 2021.
Eduardo Moura OLIVEIRA
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based on principles, a notion that Weber (1982) already warned was harmful to politics. In his
classic lectures on science and politics, Weber warns that politicians make their decisions based
on a series of conditions that are often far removed from personal judgments or preferences.
Herein lies the key to the argument: if the commitment of science is to the truth and the
commitment of politics is to the consequences of actions, to what extent is Bolsonaro's
distancing himself from scientific recommendations and taking positions with dramatic results
from the point of view of public health part of a language of incivility? Given this variable and
the set of speeches made by the president throughout the pandemic, it is worth asking: how does
the theory of civilizing processes relate to uncivilized language in moments of crisis, such as
the context of the Covid-19 pandemic in 2020?
The civilizing process and compliance with norms
Norbert Elias' theory is geared towards a critique of sociological theories based on the
image of the individual as an autonomous and self-sufficient being, but also towards its
opposite, i.e. those that consider the social totality as a target for analysis that is independent of
individual action. For the author, society is made up of a web of relationships inscribed within
a historical process, considering the interdependent relationship between people. In this sense,
the focus of his research is on unplanned long-term processes that point to transformations in
the rules of social coexistence.
Elias' main work, O Processo Civilizador (The Civilizing Process), investigates a
refinement in the norms of aggression based on a history of customs, taking as a reference the
transformations in etiquette manuals and, consequently, in the rules of coexistence in society
over the last five centuries. In the book, personality structures and their interdependent
relationships are taken as sociological categories through which Elias traces the passages that
go from aggression to the socially accepted model of behavior, taking the court society
as a
parameter. Among the group of people with noble titles who circulated around the sovereign,
the scenes of daily life were represented from a set of formalities followed liturgically and
understood as ways of behaving closer to God, once close to the king. This is where the
relationship between patterns of behavior and positions of power is established, according to
Elias.
It is worth mentioning here the context of the 15th century, in which the Dukes of Burgundy, who wanted to
ascend socially in the monarchical hierarchy, built absolutely exquisite ceremonials inspired by the Bible, with the
representation of divine scenes in the world.
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The civilizing process is a change in the pattern of conduct caused by mechanisms that
are installed in the psychic apparatus, producing self-restraint of aggressive impulses.
Accompanied by the feeling of preserving their position in the social network, the individual
feels impelled to act according to this pattern, internalizing the norms and exercising self-
control. This is a long-term march in a specific direction: the refinement of the norms of acting
and feeling.
The civilizing process begins in small economies where roles are well defined and
families produce enough to support themselves. At this point, the degree of interdependence is
small, but with the specialization of production, the commitment to each other and to production
itself increases. The specialization of work allows for exchange, made possible under the
condition of commitment and regularity in what the individual cultivates, to the extent that
competition demands ever stricter control. Elias explains that the growth in productivity is a
fundamental factor in "raising standards of living", which at a very advanced stage culminates
in the "formation of more stable monopolies of force", specifically the state, which also
becomes the individual's guarantee of security (ELIAS, 2011, p. 256, our translation). This
format takes on great proportions and starts to structure all of social life, always demanding
greater rigor and establishing a standard of conduct that strives for discipline. Regular,
disciplined behavior comes to be seen as a value, an asset that the subject must preserve within
an economic structure. It goes through a process of long-term socialization that results in self-
control of conduct. In the example of table behavior, Elias talks about the expansion and
diffusion of levels of shame, the increase in the capacity to feel embarrassed in the face of
certain manners.
This delicacy, this sensitivity, and a highly developed feeling of
embarrassment, are, at first, characteristic aspects of small circles at court, and
then of court society as a whole. (...) Together with a very specific social
situation, feelings and emotions begin to be transformed in the upper class,
and the structure of society as a whole allows the emotions thus modified to
spread slowly through society. There is nothing to suggest that the affective
condition, the degree of sensitivity, is changed by what we describe as
"evidently rational", i.e. by a demonstrable understanding of given causal
connections. (...) Firstly, over an extended period and in conjunction with a
specific change in human relations, i.e. in society, the level of embarrassment
is raised. The structure of people's emotions, sensitivity and behavior change,
despite variations, in a very clear direction. Then, at a given moment, this
conduct is recognized as hygienically correct (ELIAS, 1994, p.119, our
translation).
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According to Elias, there is a gradual movement of historical transformation towards a
refinement in ways of behaving and expressing oneself, a tendency that can initially be observed
in the upper classes, but which spreads throughout society. One of the ways in which it is
possible to understand the individual's self-control is through the intertwining of psychogenesis
and sociogenesis, which corresponds to a conjunction of micro and macro-sociological
perspectives that must be thought of in a relational and dynamic way (WAIZBORT, 2001).
It was the European courts that created and established the standards of social behavior
and their links to power and position in society. It was a mechanism for distinguishing between
the noble and the rude in its origins, a grammar that today takes on its modern form in a set of
protocols that commonly surround figures of public power. We need only consider the set of
prerogatives recognized by law - including international law - with the aim of guaranteeing the
full performance of the functions of heads of state. For this reason, it is common to see, in news
coverage of international agreements, diplomatic missions and meetings of public interest, a set
of formalities that includes everything from dress to security arrangements to soft and
conciliatory speeches. These models of behavior appear to express the condition of rationality,
courtesy and balance. They establish levels of constraint that are absorbed by the individual
from childhood onwards, according to Elias.
Parents' constant worry about whether or not their children will conform to
the standards of conduct of their class or of the upper class, whether they will
maintain or increase the prestige of their families, whether they will defend
their position within their own class - fears of this kind surround children from
their earliest years (...) they play a considerable role in the control to which
children are subjected from the outset, in the prohibitions imposed on them
(ELIAS, 2011, p. 271, our translation).
The pressure exerted on the individual generates internal tensions and splits, an
important aspect in Elias' model: the differences between classes aroused a sense of fear in the
rising groups. These groups absorb the code of conduct of the upper classes and assimilate it,
so that the superego is built on a sense of inferiority.
The point I would like to make is that controlling aggression is what gives stability to
social interactions. In modern times, the domestication of aggression takes place from
childhood, so that the more successful the civilizing process is, the less time is needed to prepare
the child for adult functions (ELIAS, 1994). This is not about presenting normative guidelines
as indications of what could be classified as good or bad behavior. Beyond the sphere of values,
the effort is focused on identifying the mismatch between a dramatic moment for the
population, due to the effects of the pandemic, and the disrespectful and unwelcoming tone of
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the President of the Republic. In the context of the advance of the pandemic, the politician's
tone of solidarity and responsibility for the consequences is more than mere normativity; from
an analytical point of view, it defines political activity itself
.
Admitted aggressiveness and deadly incivility
According to Elias, good manners and politeness are related to certain hierarchies and
positions in society. When we observe incivility in today's politics, in the form of speeches and
actions, we can identify the incidence of the relationship between power and degree of civility.
Bernard Harcourt's article (2012) uses the theory of civilizing processes to think about how the
language of incivility is linked to positions in power relations. The language of good custom,
polite and non-aggressive, corresponds to an idea of civility as a standard of verbal acts that
qualifies politics, a type of organization originally based on the notion of civil society. "The
idea was promoted that it was good to be part of a political community, especially a political
community marked by order, domestic peace and tranquility" (HARCOURT, 2012, p. 304, our
translation). According to this record, the degree of civility of the representative would be
proportional to the degrees of conformity with the moods of civil society, at least in theory.
However, the author talks about the emptying of this semantic link between politics and
civility, because as political competitions intensify in the agonistic field, politics is summarized
as the benefit of some to the detriment of others (HARCOURT, 2012). In the web of complex
power struggles, in pluralistic environments, the results of political decisions are in fact not
"civilized", since they produce dissatisfaction and frustration. So, if politics is not civilized,
why should the language of politics be?
Iris Young (2014) pointed out the polarization in democracies through two imagined
actors: a) participants in deliberative democracy, based on norms and processes of public
deliberation, and b) activism, which, based on a model of citizen virtue, complains that
deliberative processes are exclusionary. The separation between these two actors would
increase structural inequalities, an arrangement in which the activist becomes the character of
democracy who is sometimes "frustrated", "furious" with the injustices that deliberative
democracy perpetuates or categorically denies, "rationalizing as if their decisions were
beneficial" (YOUNG, 2014, p. 191, our translation). At this point, Young demarcates actors
In Politics as a vocation, Weber argues that mere passion is not enough, since politicians need two other qualities:
responsibility and a sense of proportion. A firm control of the soul capable of distinguishing from the figure of the
passionate (WEBER, 1982).
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who are excluded from decision-making processes and who believe they are harmed by the
decisions made by their representatives. Based on this arrangement, it is possible to assume that
the reactions of those who feel wronged or excluded tend to be more uncivilized.
In a society that is plural and crossed by injustices, it is worth considering the constant
situation of conflict that marks the political, to use the notion of Chantal Mouffe (2014).
Inspired by Carl Schmitt's understanding of the political, this line considers the element of
hostility to be central to the movement of disputes, an arrangement in which the relationship
takes the form of friend-enemy
. In this sense, aggression would be considered a constituent of
political struggles, insofar as it is part of endless struggles for rights.
From another angle and in view of the question proposed here, it is worth considering
the specifics of the distinction between aggression and incivility. When Elias deals with the
civilizing process, he considers a retraction of impulses, a self-control capable of curbing the
psychic force that leads to action. Although the issue of the former President of the Republic's
aggressiveness is important to the analysis of the situation, I will focus on the uncivilized
attitude in the context of the pandemic. In common, aggression and incivility are characterized
by the failure to observe or violation of social codes of conduct. However, incivility refers to a
civic commitment - therein lies the mismatch between the head of state and the conduct
prescribed by the office. This means that, although Bolsonaro has episodes of aggression in his
career as a politician, the point to be analyzed is the discrepancy between his uncivilized stance
during the Covid-19 pandemic and the public persona that officially represents national unity.
The incivility of the former President of the Republic lies in the denial of specific rules
for the object that is intended to be observed: the scientific guidelines on measures to contain
the spread of the coronavirus. At this point, the incivility goes beyond a set of formalities. Once
the scientifically prescribed rule of conduct is denied, the immediate consequence is an increase
in the number of people infected and killed by the virus. This is incivility because of the
relationship between failure to comply with these formalities and the risk of threat to citizens'
lives.
In Group Psychology and the Analysis of the Ego (1974), Freud presents a dynamic
through which the group dissolves individual identity insofar as it identifies its members
At this point, Mouffe criticizes Carl Schmitt's antagonistic friend-enemy relationship, insofar as he seeks a
democratic politics in which the us-them relationship, that is, the conflicting parties, recognize that, although there
is no rational solution to conflicts, the legitimacy of the opponents must be preserved. In democracy, the conflicting
parties should be adversaries, not enemies, as he explains: "the adversarial model has to be considered constitutive
of democracy because it allows democratic politics to transform antagonism into agonism" (MOUFFE, 2015, p.
19, our translation).
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horizontally and the leader vertically. Dissolved in the group and with part of his individuality
taken away, the member tends to be governed more by the decisions of the group or its leader
and less by the criteria that characterize his individuality. "The individual abandons his ego
ideal and replaces it with the ideal of the group, as embodied in the leader", explains Freud
(1974). This relative exemption from responsibility, as a psychological fact of group behavior,
is what can eventually release certain impulses in people who would not behave in the same
way if they were alone. This is the basis for understanding the idea of incivility and its
application when observing the stance of a head of state in the context of a pandemic: by
discouraging the rules of social isolation and reducing the lethality of the disease, Bolsonaro
has contributed to the rise in the number of people infected.
In this scenario, could Bolsonaro's scientific negationism and defense of his own
convictions during the pandemic be indicative of uncivilized language? We will look at some
of the ex-president's positions and then return to the hypothetical reverse effect on civilizing
processes.
Bolsonaro's speeches about the pandemic
Former President Jair Bolsonaro's first statement on the Covid-19 pandemic took place
in Miami at an event on 9 March 2020, when Brazil was already registering the first cases of
the disease. In his words, the power of the virus "was exaggerated"
. On that occasion,
Bolsonaro told an audience of businesspeople that the coronavirus is like a "fantasy", days
before more than 20 people from his entourage returned infected from the United States.
On 24 March 2020, the world followed the speed with which Italy reached 67,000 cases
and the United States reached 50,000. At the time, Brazil had approximately 2,270 cases and
47 deaths, according to official data from the health departments
. That day, in his first national
address after Covid-19 actually arrived in Brazil, the then President of the Republic opened his
speech by presenting the joint action of the Ministries of Defense and Foreign Affairs in the
plan to rescue Brazilians in China. He then indicated a plan to combat the spread of the virus,
led by the then Minister of Health Henrique Mandetta in sync with the health secretaries. He
Nos EUA, Bolsonaro diz a plateia de empresários que coronavírus 'não é isso tudo, muito é fantasia. O Globo,
Rio de Janeiro, 10 de mar. de 2020. Available: https://oglobo.globo.com/economia/nos-eua-bolsonaro-diz-plateia-
de-empresarios-que-coronavirus-nao-isso-tudo-muito-fantasia-1-24296379. Access: 16 Aug. 2021.
Casos de coronavírus no Brasil em 24 de março. G1, Rio de Janeiro, 24 de mar. de 2020. Available:
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suggested a kind of imbalance between the SUS's stated preparedness to care for the victims
and the atmosphere of "panic" and "hysteria" created by the media. Below is an excerpt from
the speech.
Much of the media went against the grain. They spread a sense of dread, with
the main story being the announcement of a large number of victims in Italy,
a country with a large number of elderly people and a totally different climate
to ours. A perfect scenario, enhanced by the media, for a real hysteria to spread
throughout our country (BOLSONARO. Official statement on national
television. Brasília, 24 Mar. 2020, our translation).
Bolsonaro defended the continued normal operation of commercial activities in the
name of preserving the "livelihood of families". He justified this by claiming that the risk was
restricted to people over 60. And he warned that the population's concern should be focused on
protecting "dear parents and grandparents", since people under 40 would not even show signs
of the virus in the event of contamination.
In the course of his speech, the president illustrates his argument through a speculative
example, "his particular case". He imagines himself contaminated by the virus and conjectures
an experience free of major health concerns: "given my history as an athlete (...) I would not
feel anything, or at most I would feel a little cold or flu" (our translation).
In his first pronouncement on the pandemic, the President of the Republic already
presented Chloroquine
as a possible solution to combat the coronavirus, a hypothesis,
according to Bolsonaro, that was in the process of being proven by the Albert Einstein Hospital
and the Food and Drug Administration, the federal agency of the US Department of Health.
This would start a series of defenses and recommendations of chloroquine as a solution to the
disease by the president.
A few days later, Bolsonaro announced credit lines for companies and aid for the self-
employed
. He emphasized the need to "keep jobs", warning that the economy is going hand
in hand with the pandemic. In the following statement, already identified as one of the few
heads of state who defended the resumption of economic activity, alongside Donald Trump,
Bolsonaro took on the mission of "saving lives without leaving jobs behind". He justified
A drug mainly used in the treatment of malaria, occasionally recommended in the treatment of amoebiasis,
rheumatoid arthritis and lupus erythematosus. In 2004, the Rega Institute for Scientific Research identified an
inhibitory effect on the respiratory complications of SARS. In 2020, studies proved that chloroquine and its variant,
hydroxychloroquine, are not effective in treating Covid-19 and cause other complications that worsen the patient's
condition.
Governo anuncia linha de crédito a pequenas e médias empresas. Agência Brasil, Brasília, 27 de mar. de 2020.
Available: https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2020-03/ao-vivo-bolsonaro-faz-pronunciamento-
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Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 28, n. 00, e023022, 2023. e-ISSN: 1982-4718
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himself by showing "concern for the most vulnerable", duly explained: the "street vendor", the
"peddler", the "barbecue seller", the "bricklayer's helper" and the "truck driver". At the time, he
tried to reassure the population by defending the drug chloroquine: "the military chemical-
pharmaceutical laboratories have entered in full force. And in 12 days, 1 million chloroquine
tablets will be produced (...)"
.
Between public outings and physical contact in April and May, Bolsonaro greeted
supporters and visited businesses, in opposition to isolation. He maintained almost daily
communication through a fence where supporters gathered in numbers. It was also through this
place that journalists asked questions about the plan to combat the coronavirus, from where
Bolsonaro gave the following statement on 29 March:
This is a reality, the virus is there. We have to face it but face it like a fucking
man. Not like a kid. Let's face the virus with reality. It's life. We will all die
one day. Do we want to preserve lives? Yes. As far as the economy is
concerned, Paulo Guedes is spending tens of billions of reais, which is from
the budget, which is the people's money, although it's not even money. We got
authorization from Congress to go over the ceiling, and that bill will be paid
down the road (BOLSONARO, In: Após provocar aglomeração durante
passeio em Brasília, Bolsonaro volta a se posicionar contra o isolamento
social. G1, Brasília, 29 Mar. 2020, our translation).
Throughout the month of April, the population watched on TV the crowds caused by
the ex-president during his public appearances, when he shook hands with supporters and often
stopped wearing his face mask. By the end of April
, Brazil already had the highest contagion
rate in the world, at which point the press recorded images of bagged bodies and lined-up
graves. On Tuesday, 28 April, the day that Brazil overtook China in the number of deaths, the
President of the Republic, when asked about the seriousness of the infected curve in the country,
replied: "So what? What do you want me to do? I'm Messiah, but I don't work miracles!"
.
On Labor Day, when Brazil had 85,000 cases and 5,900 deaths, President Jair Bolsonaro
declared: "I would like everyone to go back to work". He said, however, that this was no longer
his decision, before suggesting the inefficiency of methods to contain the increase in the number
of cases. "Governors and mayors who have taken very strict measures have not flattened the
Em pronunciamento na TV, Bolsonaro muda o tom e não critica o isolamento social. G1, Brasília, 31 de mar.
de 2020. Available: https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/03/31/em-pronunciamento-na-tv-bolsonaro-muda-
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Eduardo Moura OLIVEIRA
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curve," he said
. On 7 May 2020, President Jair Bolsonaro made a statement in which he
highlighted his conversations with businessmen and industry representatives, justifying the
importance of returning to normal activities
. And on 10 May, following a woman's question
about the number of deaths in the country due to the pandemic, Jair Bolsonaro, in characteristic
language, ordered the woman to "go demand it from your governor" (our translation)
.
In light of the events, documented by the national and international press, it is possible
to list a series of positions by the President of the Republic in which Bolsonaro minimizes the
importance of the pandemic and ignores the public health crisis. While in the first stage the
president defended the use of chloroquine and hydroxychloroquine, when the public debate
turned to advances in relation to the vaccine, Bolsonaro took a stand against it. He declared that
no one is obliged to take the vaccine. In November, he celebrated the suspension of tests on
Coronavac, from the Chinese pharmaceutical company Sinovac. At the time, he justified
himself: "We will not buy from China. That is my decision". And when the tests were
interrupted to investigate the relationship between the immunizer and the death of a volunteer
who received it, Bolsonaro celebrated on his social networks: "Death, disability, anomaly. This
is the vaccine that Doria (governor of São Paulo) wanted to force all São Paulo residents to
take. The president said the vaccine could never be mandatory. Another one that Jair Bolsonaro
wins" (our translation)
.
On 10 November, Bolsonaro again downplayed the seriousness of the crisis in explicitly
sexist language. Referring to the pandemic, he said that Brazil "has to stop being a country of
sissies" and "face the situation with an open heart"
. "Sissy", according to the Houaiss
dictionary (2001), refers to "an individual of the male sex who behaves in a feminine manner".
In another register, in the regionalist context, it points to a sense of "homosexuality" or
"cowardice". In fact, "sissy" is a rude and prejudiced term, definitely incompatible with the
“Gostaria que todos voltassem a trabalhar”. Folha de São Paulo, São Paulo, 01 de mai. de 2020. Available:
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Leia a íntegra da live feita por Bolsonaro em 07 de maio. UOL, São Paulo, 07 de mai. de 2020. Available:
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Reflections on the language of incivility in the pandemic: Negationism in presidential speech
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composure and formal decency characteristic of a representative of Brazilians. It is doubly rude
because, as well as referring to sexuality, it ignores the dramatic situation of the Covid-19
pandemic.
Decivilizing processes or uncivilized language?
In The Civilizing Process, Elias analyses the links between rationalization, violence and
civilization. Over the centuries, he explains how rationalization implies greater predictability
and calculability, a trend that begins in court society, passes through the nobility, and gradually
includes the bourgeoisie, then the masses, as well as other Western peoples (MANZO, 2013).
Unlike Weber, Elias believes that the processes of rationalization are not irreversible and can
include setbacks.
One of the difficulties in approaching the decivilizing processes in Elias' work lies in
the main criticism of his work: if history unfolds through processes of rationalization that go
from barbarism to civilization, how can we explain the barbarisms of the 20th century,
particularly the Holocaust? It is on this terrain that Bauman (1998) launches his critique in
Modernity and the Holocaust, referring to civilization as a myth. In this sense, how could the
civilizing process explain the truculence and denial of what is rationally admitted, according to
scientific research? However, a critical line opposed to this questioning recognizes in Elias a
critical tone towards a certain European enthusiasm in relation to the march of civilization.
Mennell (1992) proposes, for example, that an analysis of outbreaks of violence should focus
on the question of decivilizing processes, as Elias considered their setbacks. In the same vein,
Fletcher argues that the effort to apply the concept of decivilization in empirical research tends
to broaden the understanding of patterns of behaviour capable of inspiring fear. Fletcher (1995)
understands decivilization from an imbalance in self-restraint and relationship patterns, which
would generate less stable and uniform feelings. These signs can become a dominant social
process, in which social relations are characterized by fear (1995, p. 289).
In studies carried out with sociologist Eric Dunning (1992), on the self-restraint of
violence in sports, and even in The Germans (1997), Elias reflects on the permanence of
aggression in the 20th century. "The civilization to which I refer is never complete, and is
always threatened", he warns (ELIAS, 1997, p. 161, our translation). It is worth noting that
Elias's civilizing process lives in a tense equilibrium, so that nothing guarantees its permanence
over time.
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Decivilizing processes would keep moments of violence and aggression in the social
fabric. Just as urinating and spitting were duly concealed in the scenes of everyday life by
etiquette manuals, aggression and violence did not cease to exist, but were inhibited by a set of
introjected social rules. In this sense, Elias goes on to say that "the pacification of a society is
always at risk, whether due to personal conflicts or social conflicts" (1997, p. 163, our
translation). However, on the scale of long-term historical processes, where would an analysis
of the speech of the former President of the Republic, who is ultimately an individual, come in?
In fact, the President of the Republic is not just any individual, but the head of state. His
figure represents the vocalization of the interests of part of the population, once elected in a
majority vote. Coming from a military background, throughout his career as a politician
Bolsonaro has given up a certain modesty in his behavior in favor of forcefulness in his speech.
The lack of civility in his behavior converges with his well-known tone of accusations, offenses
and negationism. In relation to the pandemic, it is possible to say that the lack of decorum and
respect in his speeches converges in the sense of releasing the impulses of aggression, according
to the reversal of civilizing processes identified by Elias.
On the other hand, the caution in referring to the object analyzed as the language of
incivility is justified: we chose to use this term since Elias' assumption would be the starting
point for an analysis of presidential content during the pandemic. In this work, Bolsonaro's
pronouncements during the pandemic appear as a vanishing point from which lines of
projection are able to provide a broader picture of the scenario, namely that of incivility in
society. As an analytical key, the thought of Norbert Elias is taken as a "toolbox", to take Gilles
Deleuze's words as a reference (FOUCAULT, 2004, p. 71, our translation). Theory "must
work", or be activated in its enabling potential, in the terms of Ann Swidler (1986). Considering
social practices in their dynamic of continuous re-significations, which intertwines discourses
with beliefs and actions that lead to social transformations (FAIRCLOUGH, 2016; VAN DIJK,
2012), it is possible to verify the incidence of the language of incivility in Bolsonaro's speeches
throughout the Covid-19 pandemic.
Based on Elias' work, it is possible to think of the hypothesis not of a return of
aggression, but of a redistribution of tensions based on the non-recognition of certain
fundamental parameters for the preservation of life, namely sanitary recommendations. Elias
may never have considered decivilizing processes as a return, but as a prevalence of the "hidden
side" of civilization, perhaps the side that tends to reappear in moments of crisis, such as a
pandemic. It is from this point that the analysis of Bolsonaro's speeches, particularly his
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criticism of health standards, opens to the hypothesis of uncivilized language expressed through
his scientific denialism.
Final considerations
Given the data collected, I made an analytical effort to organize the ex-president's
speeches, based on his opposition to health standards, defended by epidemiologists, doctors and
based on science. In this scheme, we have a cross-section of a set of speeches and records of
Jair Bolsonaro's actions, which allows us to see how much these positions can be thought of
from the point of view of incivility.
The ex-president's stance revolved around four axes throughout the pandemic: 1)
reduction: "fantasy", "hysteria", "little flu"; 2) prioritization: "concern for the economy", "credit
lines", "financial aid"; 3) sexist ridicule: "face the virus like a man, not like a kid", "stop being
a country of sissies" and; 4) lack of responsibility: "ask your governor", "I don't work miracles".
In this respect, there is a mismatch between their positions and the understanding of the
politician's activity according to Weber: "it is the decisive psychological quality of the
politician: his ability to let realities act on him with intimate concentration and calm" (WEBER,
1982, p. 138, our translation).
The four records tend to create an opposition in their speeches. In the logic of
Bolsonaro's speeches, the pandemic is reduced in relation to: 1) degree: mildness vs. severity
2) efforts: economy vs. public health; 3) strength: man vs. sissies and brats and 4) responsibility:
president vs. governors. These oppositions inspired public debates across the country
throughout 2020, establishing oppositions whose result was to deflate the seriousness of the
pandemic. Beyond a formalist conception of discourse and a transdisciplinary perspective
(VAN DIJK, 2012), the balance of these negationist presidential statements, in practice, was
observed by non-compliance with the health rules of isolation and denial of the vaccine, which
aggravated the public health situation in the country.
Based on the data collected in a survey of his main public speeches over the last ten
months, it is possible to say that the former President of the Republic, Jair Bolsonaro, is denying
the reality of the pandemic that is taking hold in the country and around the world. In doing so,
he is failing to fulfill his responsibilities as head of state, which tends to cause incalculable
damage from the point of view of combating the pandemic. The balance of his disregard for
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health regulations can be seen in the increase in the contagion curve and its consequences, in
terms of lives lost.
Like Weber, Elias understands Western rationalism as the rationalism of controlling
emotions and aggressive impulses. In this process, the most primal human feelings, such as
passions, convictions and personal vanities, give way to disciplined behavior based on
rationality. When President Jair Bolsonaro flouts the codes of conduct enshrined in sanitary
measures to contain the pandemic, he strains the limits of what Elias understood as civilized.
And when he confronts the parameters of scientific rationality in the name of his own
convictions during a pandemic, he tends to produce dramatic consequences from the point of
view of contamination.
In 2021, it is possible to conclude that the incivility in Brazilian politics was due to the
president's refusal to recognize the scale of the citizens' drama. Contrary to WHO
recommendations and medical-scientific opinions, Bolsonaro did more than reduce the
importance of the pandemic: as a leader, he encouraged people to break social isolation,
increasing the risk of contamination. He released statements in mocking and provocative
language, in a clear lack of sensitivity, even respect, for what was happening to his citizens.
Therefore, the lack of decorum in his speeches converges in the sense of unleashing impulses
of incivility, contrary to compliance with certain fundamental norms to contain the contagion
curve, which indicates an inversion of the civilizing senses, expressed in the figure of a
politician fundamentally guided by personal convictions and his own vanity.
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