Reflexões sobre a linguagem da incivilidade na pandemia: O negacionismo nas falas presidenciais
Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 28, n. 00, e023022, 2023. e-ISSN: 1982-4718
DOI: https://doi.org/10.52780/res.v28i00.16910 6
como modos de se comportar mais próximos de Deus, uma vez próximos do rei. Aqui se
estabelece a relação entre os padrões de comportamento e as posições de poder, segundo Elias.
O processo civilizador é uma mudança no padrão de conduta provocada por mecanismos
que se instalam no aparelho psíquico produzindo uma autocontenção dos ímpetos de
agressividade. Acompanhado pelo sentimento de preservação de sua posição na rede social, o
indivíduo sente-se impelido a agir conforme tal padrão, internalizando as normas e exercendo
um autocontrole. Uma marcha de longa duração que vai para uma direção específica: a do
refinamento das normas de agir e sentir.
O percurso do processo civilizador se inicia em pequenas economias onde os papéis são
bem definidos e as famílias produzem o suficiente para o próprio sustento. Nesse ponto, o grau
de interdependência é pequeno, mas com a especialização da produção aumenta o compromisso
com o outro e com a própria produção. A especialização do trabalho permite a troca, viabilizada
sob a condição do compromisso e da regularidade naquilo que o indivíduo cultiva, na medida
em que a competição exige um controle cada vez mais rigoroso. Elias explica que o crescimento
da produtividade é um fator fundamental para a “elevação dos padrões de vida”, que em um
estágio muito avançado culminaria na “formação de monopólios mais estáveis de força”,
especificamente o Estado, que passa a figurar também como a garantia de segurança do
indivíduo (ELIAS, 2011, p. 256). Tal formato assume grandes proporções e passa a estruturar
toda a vida social, sempre exigindo maior rigor e estabelecendo um padrão de conduta que
prima pela disciplina. O comportamento regular e disciplinado passa a ser visto como um valor,
um bem que o sujeito deve conservar dentro de uma estrutura econômica. Passa por um
processo de socialização de longa duração que resulta em autocontrole da conduta. No exemplo
do comportamento à mesa, Elias fala da expansão e difusão de patamares de vergonha, o
aumento da capacidade de sentir-se constrangido diante de determinadas maneiras.
Esta delicadeza, esta sensibilidade, e um sentimento altamente desenvolvido
de embaraço, são no início aspectos característicos de pequenos círculos da
corte e, depois, da sociedade da corte como um todo. Não se diz nem se
pergunta em que se baseia essa delicadeza e porque ela exige que se faça isso
ou aquilo. (...) Juntamente com uma situação social muito específica, os
sentimentos e emoções começam a ser transformados na classe alta, e a
estrutura da sociedade como um todo permite que as emoções assim
modificadas se difundam lentamente pela sociedade. Nada indica que a
condição afetiva, o grau de sensibilidade seja mudado pelo que descrevemos
como “evidentemente racional”, isto é pela compreensão demonstrável de
dadas conexões causais. (...) Em primeiro lugar, ao longo de um período
extenso e em conjunto com uma mudança específica nas relações humanas,
isto é, na sociedade, é elevado o patamar de embaraço. A estrutura das
emoções, a sensibilidade, e o comportamento das pessoas mudam, a despeito