O espaço social da dúvida: Negacionismo, ceticismo e a construção do conhecimento
Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 28, n. esp. 1, e023005, 2023. e-ISSN: 1982-4718
DOI: https://doi.org/10.52780/res.v28iesp.1.17300 8
Esta tese é, de saída, pouco plausível diante da multiplicidade de efeitos associados ao
aquecimento global, como o aumento do nível dos oceanos, afetando, em particular, nações
insulares, ou mudanças na vegetação da tundra, fenômenos que não ocorrem em áreas urbanas.
No entanto, esta explicação foi proposta por dois cientistas, Ross McKitrick e Patrick Michaels,
e foi refutada (SKEPTICAL SCIENCE, 2015). Os autores do estudo em questão pertencem ao
Fraser Institute e ao Cato Institute, instituições conservadoras e libertarianas financiadas, entre
outros, pelos irmãos Koch e pela ExxonMobil (ORESKES; CONWAY, 2010).
Este tipo de abordagem é a forma mesma da pseudociência: ela é apresentada na forma
de um artigo científico, por cientistas que sabem mimetizar a produção científica, mas que não
são especialistas na área e não seguem uma motivação epistêmica. Uma hipótese científica
refutada deve ser abandonada, em particular quando ela é pouco plausível à luz de outras teses
aceitas. No entanto, esta explicação continua disponível para aqueles que querem defender uma
determinada posição política. De fato, Ernesto Araújo (de novo ele!) usou precisamente este
argumento a favor de políticas baseadas no negacionismo (RIBEIRO, 2019). Este é um exemplo
claro da motivação política do negacionismo em relação ao AGA.
Gordin (2021) pensa que ‘pseudociência’ não é uma boa etiqueta: sem um critério claro
de demarcação entre o que é o que não é ciência, esta categoria perde seu conteúdo, diz ele, e
há boas razões para se duvidar da existência de um tal critério. De fato, não é certo que haja
uma solução para o chamado “problema da demarcação”, isto é, um critério de separação entre
ciência e não ciência, sobretudo se se exigir um critério único, como pretendeu, em particular,
Karl Popper. No entanto, passar da ausência de um critério único, claro e distinto para uma
distinção à inexistência desta distinção não é um bom argumento. Além disto, uma motivação,
senão a motivação central para o abandono do projeto popperiano de demarcação é a
diversidade metodológica das ciências (DUPRÉ, 2008), não a tese de que todas as teorias são
equivalentes, e menos ainda a aceitação de diferentes formas de negacionismos científicos. A
pluralidade metodológica é ilustrada num debate que diz diretamente respeito a nosso tema:
Coady e Corry (2013) mostram como, pelos critérios popperianos, a climatologia não é uma
ciência. Esta é uma razão para se colocar em dúvida a abordagem de Popper, não a climatologia.
Uma vez que se abandona a busca por um critério único de demarcação, a distinção
entre a ciência e o negacionismo científico se torna mais difícil. Há uma resposta indireta a este
problema quando nos perguntamos por que devemos confiar nas ciências. Segundo Oreskes
(2019b), devemos confiar nas ciências porque elas são práticas sociais dedicadas ao
conhecimento do mundo que envolvem mecanismos de autocorreção. A partir desta resposta,