Ismail ERTÜRK
Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 28, n. esp. 2, e023018, 2023. e-ISSN: 1982-4718
DOI: https://doi.org/10.52780/res.v28iesp.2.18156 13
[...] pressupõe que nós, humanos, estamos no centro de um sistema da natureza
[...] A Terra existiu sem nossos inimagináveis ancestrais, poderia muito bem
existir hoje sem nós, existirá amanhã ou mais tarde ainda, sem nenhum de
nossos possíveis descendentes, enquanto nós não podemos existir sem ela.
Portanto, devemos de fato colocar as coisas no centro e nós na periferia […]
(SERRES, 1995, p. 33, tradução nossa).
O cientista James Lovelock, cujo livro Gaia, publicado pela primeira vez em 1979, teve
um grande impacto na conscientização ambiental, também chama a atenção para a importância
do enquadramento conceitual das relações de poder entre a Terra, como um sistema vivo
complexo, e os seres humanos como uma espécie animal dominante. "Se Gaia existe, a relação
entre ela e o homem, uma espécie animal dominante no sistema vivo complexo, e o equilíbrio
de poder possivelmente mutável entre eles, são questões de importância óbvia" (LOVELOCK,
2016, p. 11).
Alguns acadêmicos da área financeira com perspectivas críticas sobre suas disciplinas
não estão muito distantes dos filósofos e cientistas ao proporem uma reconsideração radical do
papel da teoria e da prática financeira no tratamento das questões ambientais. "Em sua forma
atual, as finanças acadêmicas impedem o surgimento de práticas sustentáveis ao legitimar as
decisões egoístas dos gerentes corporativos, desacreditar representações alternativas da
organização e alinhar as decisões políticas aos interesses e representações do mercado
financeiro" (LAGOARDE-SEGOT; PARANQUE, 2017, p. 657, tradução nossa). Um possível
caminho a seguir pode ser discutir as implicações da seguinte proposição para a pesquisa sobre
dinheiro e meio ambiente:
Por meio de contratos exclusivamente sociais, abandonamos o vínculo que
nos conecta ao mundo, aquele que liga o tempo que passa e flui ao clima lá
fora, o vínculo que relaciona as ciências sociais às ciências do universo, a
história à geografia, o direito à natureza, a política à física, o vínculo que
permite que nossa linguagem se comunique com coisas mudas, passivas,
obscuras - coisas que, por causa de nossos excessos, estão recuperando voz,
presença, atividade, luz. Não podemos mais negligenciar esse vínculo
(SERRES, 1995, p. 48, tradução nossa).
A maior parte da literatura crítica sobre a financeirização do meio ambiente está
preocupada com o equilíbrio de poder entre os mercados e a sociedade por meio das lentes
adotadas do trabalho de Polanyi (POLANYI, 2002). A crise ambiental ameaça tanto os
mercados quanto a sociedade. A intrusão dos bancos centrais na agenda ambiental é uma
manifestação dessa consciência em uma linguagem com a qual eles se sentem confortáveis - o
risco sistêmico. O simulacro de ESG, por outro lado, tem o potencial de inclinar ainda mais o
equilíbrio de poder entre os mercados e a sociedade em favor dos mercados, com consequências