Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 31, n. esp. 1, e026008, 2026. e-ISSN: 1982-4718
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TRABALHADORES DA INDÚSTRIA AUTOMOTIVA E SINDICATOS DIANTE
DAS POLÍTICAS DE DESINDUSTRIALIZAÇÃO DO GOVERNO MILEI
TRABAJADORES AUTOMOTRICES Y SINDICATOS FRENTE A LAS POLÍTICAS DE
DESINDUSTRIALIZACIÓN DEL GOBIERNO DE MILEI
AUTOMOTIVE WORKERS AND UNIONS FACING THE DEINDUSTRIALIZATION
POLICIES OF THE MILEI GOVERNMENT
Juan MONTES CATÓ
1
e-mail: jmon[email protected]
Lucas SPINOSA
2
e-mail: lucas.spino[email protected]
Walter BOSISIO
3
e-mail: walbosisio@gmail.com
Como referenciar este artigo:
CATO, Juan Montes; SPINOSA, Lucas; BOSISIO, Walter.
Trabalhadores da indústria automotiva e sindicatos diante das
políticas de desindustrialização do governo Milei. Estudos de
Sociologia, Araraquara, v. 31, n. esp. 1, e026008, 2026. e-ISSN:
1982-4718. DOI: 10.52780/res.v31iesp.1.21017.
| Enviado em: 20/03/2026
| Revisões necessárias em: 15/04/2026
| Aprovado em: 10/06/2026
| Publicado em: 27/07/2026
Editora:
Profa. Dra. Maria Chaves Jardim
1
Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica (CONICET) e Universidade de Buenos Aires (UBA),
Buenos Aires Buenos Aires (CABA) Argentina. Doutor em Ciências Sociais, Mestre em Ciências Sociais do
Trabalho. Pesquisador do CONICET. Professor da UBA.
2
Universidade de Buenos Aires (UBA) e Universidade Nacional Arturo Jauretche (UNAJ). Buenos Aires - Buenos
Aires (CABA) Argentina. Mestre em Ciências Sociais do Trabalho; doutorando em cotutela em Ciências Sociais
pela Universidade de Buenos Aires e pela Universidade Livre de Bruxelas. Professor - pesquisador UBA e UNAJ.
3
Universidade de Buenos Aires (UBA) e Universidade Nacional Arturo Jauretche (UNAJ). Buenos Aires Buenos
Aires (BA) Argentina. Doutorando em Ciências Sociais, Universidade de Buenos Aires; Bacharel em Sociologia;
Professor e Pesquisador da UBA-UNAJ. Diretor do Programa de Direitos Humanos (UNAJ).
Trabalhadores da indústria automotiva e sindicatos diante das políticas de desindustrialização do governo Milei
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RESUMO: As políticas de ajuste e desindustrialização do governo Milei afetam o emprego, a
qualidade do trabalho e as relações laborais. Embora a cadeia automotiva, em especial as
montadoras, conte com benefícios especiais para garantir sua rentabilidade, ela não ficou isenta
do impacto negativo dessas políticas, que estimulam a especulação financeira em detrimento
da produção industrial. Para analisar quais aspectos foram erodidos nas relações laborais a partir
da posse do novo governo, interessa observar as reformas que incidem direta ou indiretamente
no setor automotivo e em que medida elas reforçam um processo de disciplinamento da força
de trabalho e dos sindicatos. Interessa, também, analisar as reformas que incidem no
desenvolvimento do ator sindical.
PALAVRAS-CHAVE: Setor automotivo. Argentina. Políticas de ajuste. Sindicatos.
RESUMEN: Las políticas de ajuste y desindustrialización del gobierno de Milei afectan el
empleo, la calidad del trabajo y las relaciones laborales. Si bien el entramado automotriz, en
especial las montadoras, cuentan con beneficios especiales para garantizar su rentabilidad, no
han quedado exentas del impacto negativo de estas políticas que estimulan la especulación
financiera por sobre la producción industrial. Para analizar qué aspectos se vieron
erosionados en las relaciones laborales a partir de la asunción del nuevo gobierno interesa
observar aquellas reformas que inciden directa o indirectamente en el sector automotriz y en
qué medida refuerzan un proceso de disciplinamiento de la fuerza de trabajo y de los sindicatos.
Interesa también analizar aquellas que inciden en el desarrollo del actor sindical.
PALABRAS CLAVE: Sector automotriz. Argentina. Políticas de ajuste. Sindicatos.
ABSTRACT: The adjustment and deindustrialization policies of the Milei government are
affecting employment, job quality, and labor relations. While the automotive sector, especially
assembly plants, enjoys special benefits to guarantee its profitability, it has not been exempt
from the negative impact of these policies, which prioritize financial speculation over industrial
production. To analyze which aspects of labor relations have been eroded since the new
government took office, it is important to examine the reforms that directly or indirectly affect
the automotive sector and to what extent they reinforce a process of disciplining the workforce
and unions. It is also important to analyze those reforms that affect the development of the labor
movement.
KEYWORDS: Automotive sector. Argentina. Austerity policies. Unions.
Juan Montes CATÓ, Lucas SPINOSA e Walter BOSISO
Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 31, n. esp. 1, e026008, 2026. e-ISSN: 1982-4718
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Introdução
Historicamente, a indústria automotiva tem sido um pilar do desenvolvimento industrial
e do crescimento econômico global. Sua capacidade de gerar encadeamentos produtivos tanto
a montante (aço, borracha, alumínio) quanto a jusante (serviços, logística, comercialização) a
posiciona como um barômetro da atividade macroeconômica. No entanto, o setor enfrenta
atualmente uma transformação disruptiva ligada à transição energética. Esse processo envolve
não apenas uma mudança nos sistemas de propulsão dos veículos, mas também uma
reconfiguração das cadeias de valor globais e das estratégias nacionais de desenvolvimento.
Globalmente, o setor automotivo é um dos mais globalizados e tecnologicamente
intensivos. Representa uma parcela significativa do Produto Interno Bruto (PIB) das principais
economias e é responsável por uma vasta rede de empregos qualificados. A importância do
setor transcende os aspectos puramente comerciais, pois atua como motor de inovação em áreas
como robótica, inteligência artificial e, mais recentemente, eletroquímica para o
desenvolvimento de baterias.
Na Argentina, a indústria automotiva possui uma história que se estende por mais de um
século e constitui um núcleo socioprodutivo estratégico. Sua importância é evidente em três
dimensões principais: a) impacto no emprego: é um dos setores com maior geração de empregos
formais, qualificados e assalariados; b) especialização produtiva: a Argentina se consolidou
como um centro de produção regional, especializando-se particularmente em veículos utilitários
(picapes). Seu principal parceiro comercial é o Brasil; c) déficit e balança comercial: o desafio
persistente reside no setor de autopeças. Embora a produção de unidades acabadas seja
competitiva, a alta dependência de componentes importados gera pressão constante sobre a
balança cambial, um problema estrutural para a indústria nacional.
Apesar dos regimes especiais que incentivaram seu desenvolvimento, as recentes
políticas de desindustrialização, abertura indiscriminada e retração do mercado interno,
implementadas pelo governo de Javier Milei desde 10 de dezembro de 2023, estão tendo um
impacto significativo no setor. O objetivo deste artigo é descrever os elementos estruturais do
setor e analisar quais políticas governamentais da atual administração nacional afetam
especificamente o mercado de trabalho, as relações trabalhistas e a atividade sindical.
Metodologicamente, este artigo baseia-se no projeto de pesquisa coletivo financiado
pela Universidade de Buenos Aires, intitulado Transformaciones en la división internacional
del trabajo e impacto en los territorios productivos y las relaciones laborales: el corredor norte
del GBA-Rosario (UBACYT 20020220100090BA). Um dos estudos de caso centra-se no
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complexo industrial automotivo localizado nos municípios de General Pacheco, Campana e
Zárate, na zona norte da Grande Buenos Aires. Este complexo industrial engloba fábricas de
montagem e fabricantes de autopeças distribuídas por toda a área. O artigo também se baseia
na dissertação de mestrado A Relação Capital-Trabalho-Território em Espaços Industriais:
Reestruturação de Empresas Multinacionais no Complexo Campana (Spinosa, 2024)
4
. Estes
projetos utilizam dados secundários quantitativos e empregam principalmente uma abordagem
qualitativa baseada em entrevistas, análise de fontes secundárias e observação não participante.
O artigo está organizado em quatro seções. A primeira, intitulada Políticas de Ajuste e
Desindustrialização do Governo Milei, analisa o contexto atual de atuação das empresas
automotivas, especialmente à luz das profundas reformas que afetam o mercado de trabalho e
as relações trabalhistas, visando ampliar o poder discricionário das empresas. A segunda,
Características do Setor Automotivo Argentino, aborda alguns dos aspectos mais marcantes
do setor, como as características de sua estrutura produtiva, seu potencial e suas limitações
históricas, o que permite compreender como ele enfrenta o momento atual. Aqui, o objetivo é
vincular essa caracterização a um debate mais amplo relacionado aos modelos de
desenvolvimento e sua conexão com o grau de autonomia das economias com trajetórias de
desenvolvimento dependentes. Na terceira seção, Disciplina da Força de Trabalho e Restrições
à Atividade Sindical, analisamos uma série de profundas reformas no âmbito das normas
trabalhistas que nos permitem visualizar a ideologia que inspira o atual governo, bem como a
forma como essas reformas se materializam em regulamentações que afetam a relação entre
capital e trabalho no setor automotivo. Finalmente, nas conclusões, testamos hipóteses sobre a
capacidade de respostas coletivas em um processo que ainda está em aberto.
Políticas de Ajuste e Desindustrialização do Governo Milei
As primeiras décadas do século XXI testemunharam a ascensão global de diversas
narrativas de direita que se deslocaram para um extremismo direcionado à ordem social
democrática e à justiça social. Isso levou à consolidação de movimentos sociais e experiências
políticas que abraçam essa narrativa, colocando-a em prática. Esses novos movimentos de
extrema-direita se apresentam como uma alternativa política para uma cidadania desiludida,
que muito sofre os efeitos do capitalismo contemporâneo, exacerbados pela pandemia de
4
Dissertação de Mestrado de Lucas Spinosa, Mestrado em Ciências Sociais do Trabalho pela UBA. Defendida em
dezembro de 2024 sob a orientação de Juan Montes Cató.
Juan Montes CATÓ, Lucas SPINOSA e Walter BOSISO
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COVID-19. O Sul Global não está isento desses processos, e a experiência argentina se destaca
como um dos exemplos mais recentes e radicais do que passou a ser conhecido como
anarcocapitalismo. Dois processos principais são colocados em tensão pelo surgimento desse
movimento: primeiro, que tipo de sociedade ele produz em termos de acesso a direitos sociais
e econômicos e, segundo, em que medida os acordos democráticos alcançados após a ditadura
que prevaleceu entre 1976 e 1983 são fragilizados? Para tanto, propomos algumas chaves
analíticas para caracterizar as políticas do governo atual. Em seguida, como elas impactam uma
área fundamental para os processos de integração social, como o mundo do trabalho; e,
finalmente, em que medida são observadas ações de resistência que podem constituir uma
alternativa política e social.
As eleições presidenciais de 2023 marcaram um fenômeno sem precedentes na história
argentina: a vitória eleitoral de uma força política com apenas dois anos de existência, com um
candidato que surgiu no cenário político por meio de suas aparições na televisão e nas redes
sociais. Essa força político-eleitoral, liderada por Javier Milei, construiu uma plataforma
baseada em quatro pilares:
a) O primeiro ativa o conhecido plano econômico neoliberal dos países latino-
americanos (privatizações, ajuste fiscal, liberalização comercial, endividamento indiscriminado
e primarização da matriz produtiva). Esse modelo conecta diferentes etapas da história recente
da Argentina, iniciadas sistematicamente com a ditadura de 1976. Aqui, é importante revisitar
a noção de uma ditadura cívico-militar corporativa concentrada (Napoli; Perosino; Bosisio,
2014) para compreender a participação ativa de grupos econômicos concentrados que
conceberam o plano de transferência de riqueza das classes média e trabalhadora para as elites
econômicas, com um processo concomitante de concentração e centralização de capital.
Posteriormente, as políticas de Menem e De La Rúa, entre 1989 e 2001, combinaram a
privatização de empresas com o plano macroeconômico da Conversibilidade, baseado em
imenso endividamento para manter o regime de câmbio fixo, além da destruição do tecido
produtivo, especialmente das pequenas e médias empresas. Por fim, o precedente recente para
as políticas de Milei foi o governo Macri, que implementou um ajuste muito significativo no
mercado de trabalho, ao mesmo tempo que procurava promulgar leis trabalhistas para reverter
décadas de conquistas trabalhistas.
b) O segundo evoca um imaginário social e um mito de um passado glorioso
supostamente situado entre 1880 e 1930, no qual o país figurava entre os países mais
desenvolvidos do mundo. É o que alguns autores denominam retro-utopias (Gatto, 2019), e,
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neste caso, trata-se da implementação da utopia anarcocapitalista. Esta é uma filosofia política
e teoria econômica inspirada pelos pensadores ultraliberais Friedrich Hayek, Milton Friedman,
Ludwig von Mises e Murray Rothbard, que defende a intervenção nima do Estado e a criação
de uma sociedade baseada na propriedade privada, onde a proteção dos direitos e a resolução
de conflitos são geridas por entidades privadas.
c) O terceiro consiste na implementação do aceleracionismo de direita
5
por grandes
conglomerados tecnológicos que buscam intensificar esses processos, concentrados em poucas
mãos e com significativos efeitos biopolíticos. Mas o aceleracionismo tem uma variante em seu
debate, como indica Llao (2024, p. 5): a mudança proposta por essa versão, essa nova ordem,
tem pretensões refundadoras , buscando reinstaurar certas estruturas sociais que foram
dissolvidas ou limitadas na tensão com as forças transformadoras progressistas e feministas.
Para a extrema direita aderente a esse movimento refundador, o caos é uma condição necessária.
Portanto, seus agentes não apenas promovem a aceleração dos processos de produção capitalista
sem transformá-los (negando suas contradições inerentes), mas também esperam gerar o caos;
eles o induzem. Eles esperam que tudo exploda. Esse caos expectante é gradualmente
estabelecido por meio da promoção da libertação das forças capitalistas, eliminando toda
regulação ou mediação. O objetivo é dar rédea solta ao fluxo de movimentos como a
concentração de riqueza, a devastação da natureza, a destruição de bens comuns e, sobretudo,
destruir qualquer tentativa de regular esse fluxo, tensionando assim os acordos democráticos.
d) tudo isso projeta uma espécie de tecno-darwinismo social no qual a sobrevivência
remete ao sentido mais estrito de individualismo. Isso se articula com um sofisticado sistema
de inteligência aliado à intimidação de toda manifestação opositora e à repressão a
manifestações coletivas no espaço público (aposentados, demitidos de entidades públicas,
setores que sofrem cortes e a retirada do Estado). Essas ações de disciplinamento são
acompanhadas por um punitivismo neutralizador, isto é, o uso sobrecriminalizador do sistema
penal direcionado a suprimir a agência política de qualquer pessoa que apresente uma posição
contrária àqueles que detêm o poder do Estado seja de forma organizada ou espontânea,
coletiva ou individual com o intuito de garantir a governabilidade em um determinado
território, às custas de direitos constitucionais e do diálogo democrático. Em maiores detalhes:
volta-se principalmente contra dirigentes de partidos políticos, bem como líderes e membros de
setores organizados em agrupamentos sociais, políticos e sindicais alinhados a uma agenda de
5
Existe todo um debate sobre este conceito, que teve origem no campo ideológico da esquerda e foi reapropriado
pela direita. Ver Avanessian e Reis (2017) e Llao (2024).
Juan Montes CATÓ, Lucas SPINOSA e Walter BOSISO
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justiça social, mas também contra indivíduos isolados que aderem a essa agenda política, e
inclusive contra pessoas sem militância ou ativismo político que expressam alguma opinião
dissidente em relação ao poder. A aplicação do poder punitivo sobre essa ampla gama de atores
produz, ao mesmo tempo, um efeito dissuasório em toda a cidadania que, por medo de ser
sobrecriminalizada, silencia qualquer crítica (Gómez Alcorta; Vegh Weis, 2025, p. 19). Essa
tendência se articula com um aumento indiscriminado de dotações orçamentárias destinadas a
aumentar a vigilância, bem como o punitivismo neutralizador, o qual também se nutre da ação
dos grandes meios de comunicação e das redes sociais que difundem versões legitimadoras das
práticas de perseguição para que sejam ouvidas, vistas e lidas por todos os cidadãos,
multiplicando o fluxo de temor voltado a paralisar e esvaziar o poder de ação.
Nesse contexto, a política de abertura indiscriminada adotada pelo governo de Javier
Milei está alimentando um processo de desindustrialização semelhante ao das fases anteriores,
que foram extremamente prejudiciais à geração de empregos. O primeiro caso ocorreu durante
a ditadura de 1976, que aplicou a mesma abordagem, e o segundo, a partir de 1990, sob as
políticas neoliberais do governo de Saúl Menem. O resultado provável é o desmantelamento do
tecido industrial, impactando o setor automotivo. Dois anos após o início dessa abertura, o
resultado é o fechamento de turnos ou a antecipação de férias em fábricas de automóveis devido
à baixa produção.
Características do setor automotivo argentino
O setor automotivo argentino é um dos complexos produtivos mais dinâmicos do país.
Com 13 fábricas que produzem automóveis, veículos comerciais leves e veículos pesados, o
setor responde por aproximadamente 10% do PIB industrial e gera cerca de 35% das
exportações de bens manufaturados.
Tabela 1 Características
Empresa
FCA Automóveis
(Stellantis):
PSA Peugeot Citroën
(Stellantis):
Ford Argentina:
General Motors:
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Toyota Argentina:
Volkswagen
Argentina:
Renault Argentina:
Nissan Argentina:
Mercedes-Benz
Argentina (Prestige Auto):
Mercedes-Benz
Caminhões e Ônibus:
Iveco Argentina:
Scania Argentina:
Honda Motor de
Argentina:
Fonte: Elaborado pelo autor com base em dados da ADEFA, ACARA e sites das empresas.
Em outro texto (Spinosa; Pereyra; Montes Cató, 2020, p. 186), apontamos que os fluxos
de capital globalizado respondem a lógicas de deslocamento territorial organizadas por
corporações multinacionais. Essas tendências produzem o declínio e o desenvolvimento de
territórios com enorme impacto na dinâmica do trabalho e das relações trabalhistas. O setor
automotivo na Argentina iniciou um processo de transformação produtiva que se cristalizou na
década de 1990 e continua até hoje. Semelhante a outras experiências latino-americanas, esse
processo foi orientado para a incorporação de mudanças no processo de trabalho, tornando a
força de trabalho mais flexível e terceirizando a fabricação de autopeças dentro do que se
conhece como cadeias globais de valor. Diversos estudos fornecem referências a esse processo
em nível local em termos de localização e relocalização (Guevara, 2012; Delfini, 2010; Delfini;
Roitter; Erbes; Yoguel, 2008; Pinazo, 2013).
Após o colapso do Plano de Convertibilidade em 2002, que havia sido um pilar
macroeconômico fundamental das políticas neoliberais da década de 1990, o setor automotivo
liderou o crescimento industrial do país, demonstrando um rápido aumento no emprego, na
produção, nas exportações e na produtividade (Barletta, Katashi e Yoguel, 2013). No entanto,
segundo Pérez Almansi (2022), após a mudança de governo em 2016, a Argentina passou a
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abrir e liberalizar sua economia, o que levou a uma contração do seu mercado interno. No setor
automotivo, essas políticas, somadas à crise no Brasil, tiveram um impacto negativo na
indústria, criando déficits comerciais maiores e resultando em um declínio significativo na
produção entre 2018 e 2019.
Contudo, os altos e baixos e os problemas enfrentados pela indústria automobilística
argentina nas últimas décadas não se devem apenas a dificuldades locais ou cíclicas. Este setor
sofre com os dilemas inerentes à produção em um país semiperiférico, inserido em cadeias de
valor globais. Nesse sentido, podem ser destacadas algumas limitações comuns a esses países,
incluindo: i) a propriedade estrangeira integral da linha de montagem final (dominada por um
pequeno número de multinacionais em todo o mundo); ii) a especialização em atividades de
menor valor agregado na cadeia; iii) a dependência de tecnologia estrangeira; e iv) as
dificuldades enfrentadas pelas empresas locais de autopeças para competir internacionalmente.
Soma-se a esse cenário a acelerada transição tecnológica e produtiva pela qual o setor passa
globalmente, em função da digitalização, eletrificação e automação de veículos (Pérez Almansi,
2022: 210).
A trajetória do setor tem sido marcada por ciclos de alta volatilidade. Em 2014, a
produção atingiu 617.389 unidades, iniciando um declínio que atingiu seu ponto mais baixo em
2020 (durante a pandemia), com apenas 257.187 unidades. Após essa queda acentuada,
observou-se uma recuperação: em 2023, a produção aumentou para 610.715 unidades; em 2024,
caiu novamente para 506.571 unidades, e essa tendência se aprofundou em 2025, com 490.876
unidades
6
. A projeção para 2026, utilizando os dois primeiros meses de 2026 como referência,
mostra uma queda anual de 30,1% (50.630 unidades), refletindo uma fase de ajuste estrutural e
transição de modelo.
Atualmente, o setor gera 75.000 empregos diretos e mais de 150.000 indiretos. De
acordo com pesquisa de Pinazo e Piqué (2011), o emprego na indústria automotiva argentina
apresenta uma estrutura dual:
Segmento de montadoras: Empregos altamente qualificados, salários acima da média do
setor e forte representação sindical (SMATA e UOM). A estabilidade é maior neste
segmento devido ao investimento em treinamento realizado pelas empresas matrizes.
Segmento de autopeças: Mais fragmentado e vulnerável. Este subsetor é diretamente
afetado pelas flutuações de produção e pela concorrência de peças importadas.
6
Fonte: ADEFA e ACARA.
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Estudos da CEPAL (2022) indicam que para cada emprego em uma fábrica de
montagem, são gerados de quatro a cinco empregos na cadeia de valor, demonstrando seu
enorme efeito multiplicador.
O desenvolvimento do setor automotivo na Argentina enfrenta desafios estruturais
significativos, enraizados em sua dependência de empresas transnacionais, na falta de
integração nacional e em uma inserção global que nem sempre se traduz em desenvolvimento
industrial sustentável.
A indústria automotiva é um motor fundamental para qualquer economia, reconhecida
por suas vastas cadeias produtivas e sua capacidade de gerar efeitos multiplicadores em outros
setores, como emprego e inovação tecnológica. Para a Argentina, essa indústria representa uma
parte crucial de seu PIB industrial e de suas exportações. No entanto, apesar de sua importância,
o setor tem apresentado uma série de fragilidades crônicas ao longo das décadas, que limitam
seu pleno desenvolvimento. Germán Pinazo e Pablo Toledo (2022) analisaram criticamente
esses problemas, argumentando que muitas abordagens anteriores, como o desenvolvimentismo
do passado, não conseguiram estabelecer as bases para uma indústria verdadeiramente robusta
e autônoma.
Embora tenham sido observados períodos de crescimento e investimento, estes não
implicam necessariamente um genuíno processo de desenvolvimento industrial. A questão
crucial reside na natureza da integração da Argentina na cadeia de valor global da indústria
automotiva, que tem sido caracterizada por uma integração subordinada às estratégias das
grandes corporações transnacionais (as montadoras).
Um dos principais obstáculos identificados por Pinazo (2020) é o controle quase total
que as empresas transnacionais (ETNs) exercem sobre a produção local. Essas empresas
definem estratégias de investimento, modelos de produção, fornecedores e mercados de
exportação. A dinâmica global da indústria, caracterizada por plataformas de produção
integradas regionalmente, especialmente com o Brasil, influencia fortemente as operações das
subsidiárias argentinas. Essa dependência significa que as decisões estratégicas não são
tomadas com base nas necessidades de desenvolvimento interno da Argentina, mas sim na
rentabilidade global ou regional da matriz. Isso cria uma vulnerabilidade significativa: diante
de mudanças nas condições econômicas regionais, flutuações cambiais ou redefinições de
estratégias corporativas, a produção argentina pode ser rapidamente afetada, como ocorreu em
diversas crises.
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Uma questão crucial é o nível persistentemente baixo de integração de componentes de
origem nacional nos veículos produzidos no país. Apesar dos programas de incentivo à indústria
e das tentativas de fomentar fabricantes locais de autopeças, uma parcela substancial de insumos
e peças é importada. Isso limita severamente os efeitos multiplicadores da indústria na
economia argentina. A consequência direta é que grande parte do valor gerado na produção de
um carro argentino beneficia, na verdade, as cadeias de suprimentos globais de corporações
multinacionais. As subsidiárias locais, em muitos casos, tornam-se meras montadoras. Ao longo
do tempo, esse nível de integração nacional evoluiu de forma insuficiente, um fator crítico que
impede um desenvolvimento industrial mais profundo.
A relação comercial com o Brasil é outro ponto crucial de análise. O comércio bilateral
de automóveis, regulamentado por acordos específicos, busca equilibrar os fluxos e incentivar
a especialização. No entanto, essa dinâmica também gerou vulnerabilidades. A produção de
modelos duplicados com o Brasil e as flutuações cíclicas da economia argentina têm um
impacto direto e, muitas vezes, desestabilizador na produção local.
Por sua vez, o modelo de integração global da indústria argentina tem sido sujeito a
restrições cambiais recorrentes. A necessidade constante de importar insumos e bens de capital
gera uma demanda por moeda estrangeira que, em um contexto de escassez crônica de divisas
na Argentina, torna-se um gargalo para a expansão produtiva.
Disciplinamento da força de trabalho e restrições à atividade sindical
A ideologia que inspira a política trabalhista do governo Milei, ancorada em um forte
ajuste ao campo do trabalho orientado para a flexibilidade, heterogeneização setorial e
precariedade generalizada, começa a se materializar com a sanção do Decreto 70/23, que deu
início a uma série de instrumentos legais que visam sitiar, judicializar e, em grau extremo,
criminalizar as relações de trabalho, com base no desmantelamento do direito à greve e ao
protesto social.
Departamentos inteiros do aparelho estatal foram desmantelados, gerando demissões
em massa que reduziram o emprego no setor público, tanto temporário quanto permanente, em
até 20%, criando mais de 50.000 desempregados nesse setor. Essa situação de emprego é
agravada pelo impacto do desmantelamento dos setores nacionais de produção e serviços, que
perderam mais de 150.000 empregos, além do fechamento de milhares de empresas
(especialmente pequenas e médias empresas, sem contar a significativa saída de multinacionais
focadas no mercado interno). Por fim, cabe ressaltar que, além do exposto, o governo nacional
Trabalhadores da indústria automotiva e sindicatos diante das políticas de desindustrialização do governo Milei
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aplica um controle hiper-restritivo ou trava às relações de articulação da paridade salarial dos
diversos setores produtivos, negando a possibilidade de indicadores que excedam ou mesmo
igualem as taxas de inflação mensais, legalizando apenas aumentos mínimos (até 1%) para os
acordos salariais entre capital e trabalho no setor privado (enquanto o setor público estatal, sob
o controle do próprio governo, apresenta distribuições ainda mais desiguais, com a negação
total de aumentos setoriais [como é o caso do setor de ensino superior nacional e de alguns
setores da saúde]).
Após mais de dois anos de gestão governamental, o mundo do trabalho vivencia cortes
de renda, disciplina legal e intimidação, em um cenário de fragmentação do tecido produtivo e
laboral, marcado pela heterogeneização e fragmentação setorial, aumento da desigualdade e
perda da capacidade produtiva nacional (diante do impacto contínuo da produção estrangeira
por meio da desregulamentação e da abertura indiscriminada das importações de todos os tipos
de bens, com um aumento projetado de mais de 35% até meados de 2025). Esse equilíbrio entre
reformas trabalhistas e crescente incerteza estrutural se manifesta no aumento dos indicadores
de precariedade e heterogeneização das forças produtivas (com reorganização e crescimento do
setor informal de trabalho autônomo) e no aumento do desemprego (associado a cenários de
múltiplos empregos e informalidade, compensando os baixos salários), o que exacerba as
fraturas sociais e a desigualdade.
Essa situação delicada é agravada pela recente promulgação da Lei nº 27.802, de
modernização trabalhista. Por um lado, o termo modernização na lei é um eufemismo para
se referir a uma lei de precarização do trabalho e restrição sindical; por outro, trata-se de uma
retomada da mesma noção utilizada na década de 1990 com as leis de flexibilização do trabalho.
As mudanças na nova lei abrangem uma ampla gama de reformas. Em 6 de março de
2026, o governo de Javier Milei promulgou uma nova Lei de Modernização do Trabalho, cujo
principal objetivo é aumentar o poder das empresas e, consequentemente, sua capacidade de
controlar a força de trabalho, ao mesmo tempo que reduz custos e aumenta a flexibilidade
trabalhista. Alguns dos principais pontos da nova legislação trabalhista incluem:
a) Custos e Cálculo da Indenização
Redução dos custos de demissão: propõe-se um lculo da indenização por rescisão
contratual que exclui itens como o 13º salário (SAC - Sueldo Anual Complementario), dias
de rias não utilizados, bônus ou gorjetas. Isso torna a rescisão do contrato de trabalho mais
barata para as empresas.
Juan Montes CATÓ, Lucas SPINOSA e Walter BOSISO
Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 31, n. esp. 1, e026008, 2026. e-ISSN: 1982-4718
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Fundo de Assistência Trabalhista (FAL): um fundo é criado para cobrir a remuneração,
financiado por uma porcentagem das contribuições existentes do empregador, sem
aumentar os custos diretos para o empregador.
Pagamento parcelado: o pagamento da indenização é permitido em até 12 parcelas, medida
que se aplica inclusive a processos que já estavam em andamento no momento da sanção.
b) Flexibilidade nos horários de trabalho e nos contratos.
Banco de horas: a reorganização da jornada de trabalho e a criação de um banco de horas
são permitidas, facilitando acordos diretos entre empregado e empregador sobre o horário
de trabalho.
Fim da ultratividade: quando um acordo coletivo expira, os benefícios variáveis ou bônus
deixam de ser mantidos automaticamente, a menos que sejam renegociados.
Simplificação do registro: os novos contratos são registrados através de um procedimento
eletrónico simples e imediato, com o objetivo de promover o emprego formalizado (com
carteira assinada).
Incentivos de Contratação
Benefícios fiscais: Durante o primeiro ano de validade, as empresas que contratarem novos
funcionários pagarão contribuições patronais menores.
Período de teste: embora o projeto original buscasse estendê-lo, a lei aprovada enfatiza a
simplificação do registro para reduzir a informalidade, que atingiu 43,2% em meados de
2025.
c) Controvérsias e Segurança Jurídica
Risco de ações judiciais: diferentes grupos e setores (como a CGT, a CTA e outras
associações) questionam a constitucionalidade da lei por considerá-la regressiva em termos
de direitos.
Âmbito: a reforma afeta tanto as novas contratações quanto os vínculos empregatícios
preexistentes.
Implementação gradual: embora a maioria dos artigos entre em vigor a partir da sua
publicação, alguns pontos específicos terão a sua entrada em vigor adiada para janeiro de
2027 e 2028.
Essa regulamentação aprofunda a disciplina e o controle observados no setor
automotivo, que se aproveita das políticas governamentais para aumentar o grau de autonomia
em suas estratégias corporativas. Como observa um funcionário da fábrica da VW:
Trabalhadores da indústria automotiva e sindicatos diante das políticas de desindustrialização do governo Milei
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Antes, quando havia demissões, eles avisavam com antecedência. Agora, todo
dia, quando você passa pela catraca na entrada da empresa, não sabe se vai
marcar em vermelho. É um medo constante porque você descobre que vai ser
demitido sem nem mesmo receber um e-mail ou notificação pelo WhatsApp,
como acontece em outras empresas. Aqui, é uma luz vermelha que todos nós
sabemos o que significa. eles mandam você falar com o pessoal do RH,
mas você sabe do que se trata… Aconteceu comigo, e é incrivelmente
estressante e devastador. Operário de fábrica, 52 anos.
Como qualquer mecanismo de controle e disciplina, o objetivo não é apenas atingir o
trabalhador afetado, mas também enviar uma mensagem intimidatória para toda a força de
trabalho. Isso se baseia em dois princípios: a ideia de estar sob constante avaliação e a
impossibilidade de prever o resultado.
Um antigo representante sindical da fábrica da Toyota também descreve essa
metodologia, referindo-se a uma certa perversidade ou vingança de classe
7
:
Os trabalhadores descobrem que foram demitidos ao passar o cartão no leitor
de acesso. Isso, somado à angústia imediata de perder o emprego em um
mercado onde encontrar trabalho é difícil, é incrivelmente perverso e
desumanizante, para não mencionar o flagrante desrespeito às normas. Mas
está em consonância com o que o governo diz sempre que uma empresa fecha,
funcionários públicos o demitidos ou quando oferece aumentos salariais
irrisórios em parcelas muito abaixo da inflação. Para mim, a novidade não es
tanto na retórica sobre a necessidade de as empresas implementarem uma
política de racionalização copiada dos anos 90, mas sim nessa completa falta
de respeito pela decência humana básica diante do sofrimento do trabalhador
(Ex-representante sindical, 40 anos).
Os relatos esclarecem como as empresas procuram impor um regime laboral baseado na
vulnerabilidade da relação de emprego, apoiado por uma política governamental que legitima
esses abusos em termos discursivos e com toda uma série de novas regulamentações.
A ofensiva contra os direitos dos trabalhadores não se limita às condições de trabalho e
aos salários; busca também minar a própria capacidade dos sindicatos de responder à erosão
7
A referência ao tema da perversidade ou do prazer no sofrimento é uma característica que muitos analistas
do discurso têm apontado no próprio discurso do governo, referindo-se ao sofrimento dos trabalhadores de forma
depreciativa ou estigmatizante, mas também a qualquer pessoa que o governo identifique como opositora. Como
indicam Aimé Aminahuel e Malvina Eugenia Rodríguez (2026) , essas técnicas se enquadram no âmbito do
discurso de ódio, onde prevalecem narrativas desqualificadoras baseadas em raça, gênero, ideologia, religião,
orientação sexual, filiação política, origem social, etnia, aparência física ou características mistas. Uma das
conclusões da análise mencionada é que ela reforça a hipótese de uma arquitetura de comunicação coordenada,
voltada para a manutenção da polarização e da mobilização afetiva no espaço digital ( Aminahuel ; Rodríguez,
2026, p. 21). A legitimação do discurso de ódio e de práticas eficazes é reforçada para alcançar o poder dominante
que as empresas buscam em seus locais de trabalho.
Juan Montes CATÓ, Lucas SPINOSA e Walter BOSISO
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das conquistas históricas. Isso explica os esforços dos empregadores para restringir a livre
expressão de protesto.
Nesse sentido, a nova lei busca limitar as prerrogativas dos sindicatos, dificultando sua
capacidade de organização, negociação e protesto. Essa abordagem responde a uma estratégia
mais ampla de despolitização do trabalho e fortalecimento do capital (del Bono, 2025). Isso se
reflete nos seguintes pontos da lei:
1) Restrição do Direito de Greve: O conceito de Serviços Essenciais é ampliado,
exigindo um nível mínimo de 75% de pessoal em setores como saúde, transporte, educação e
telecomunicações. Além disso, é criada a categoria de Atividades de Importância
Transcendental, que inclui a indústria de exportação, bancos, alimentação e mídia, exigindo
um nível mínimo de 50% de pessoal. Na prática, isso neutraliza a eficácia de uma greve geral,
uma vez que a obrigação de manter 50-75% da atividade em setores-chave impede uma
paralisação econômica. Segundo o Instituto de Estudos e Formação da Conadu, a confluência
das normas estabelecidas no artigo significa que o direito à greve perde a sua força e o seu
exercício é quase completamente impedido. Da interação das disposições deste artigo com os
artigos subsequentes, decorre também que o incumprimento destas limitações ao direito à greve
constitui práticas desleais por parte dos trabalhadores e dos sindicatos, acarretando uma série
de consequências que podem levar à revogação do estatuto jurídico do sindicato (Conadu,
2026, p. 12).
2) Desfinanciamento e Controle Sindical: A nova lei visa desmantelar as estruturas
sindicais e atinge diretamente as fontes de financiamento dos sindicatos. Para tanto, limitou as
contribuições para cotas de solidariedade a 2% e exige o consentimento explícito e individual
do trabalhador para quaisquer deduções subsequentes. Isso afeta os grandes sindicatos que
financiavam sua estrutura por meio de contribuições obrigatórias de não-membros, acordadas
em convenções coletivas. Além disso, bloqueios e ocupações de estabelecimentos são
classificados como infrações graves e motivos objetivos para demissão, dando às empresas uma
ferramenta rápida para sufocar protestos que impedem as operações logísticas.
3) Assembleias: O artigo 20 bis da Lei 23.551 é alterado, limitando a realização de
assembleias e congressos (poder também eliminado para os sindicatos por meio da alteração do
artigo 20 ter). Fica estabelecido que estes podem ser realizados desde que não afetem o
desenvolvimento normal das atividades da empresa nem causem prejuízo a terceiros. Para
realizá-los no local de trabalho, é necessária autorização prévia do empregador, e os
trabalhadores não receberão salário durante o período da assembleia (artigo 139).
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4) Extensão do controle para além do local de trabalho: Este ponto refere-se a outro eixo
conceitual fundamental promovido pelo governo, que vem sendo proposto algum tempo, e
que afirma que as pessoas devem estar trabalhando ou em condições de fazê-lo 100% do
tempo; e, caso contrário, podem ser responsabilizadas por doenças ou acidentes que as impeçam
de trabalhar, reduzindo, consequentemente, seus salários. O fato de a versão do projeto de lei
aprovada pela Câmara dos Deputados ter excluído o artigo controverso que estabelece essa
medida não deve ser interpretado como uma mudança profunda na posição do governo. Não
houve erros ou excessos na inclusão do artigo em questão. Pelo contrário, foi perfeitamente
coerente com a concepção de que o capital deve estender seu domínio não apenas sobre o tempo
de trabalho, mas também sobre o tempo de descanso e lazer, exigindo que esse tempo não seja
verdadeiramente livre, mas sim sempre definido em termos de produtividade do trabalho. De
forma um pouco mais sutil, mas na mesma linha, está a ideia de Banco de horas, que permite
que a jornada de trabalho exceda o máximo de horas estabelecido por lei, sem reconhecê-las
como horas extras, mas como horas às custas do trabalhador, que o empregador eventualmente
deduzirá de dias de trabalho futuros. O avanço do capital sobre o tempo livre é particularmente
grave no caso das trabalhadoras, que dedicam uma proporção maior do seu tempo do que os
homens às tarefas de cuidado, produzindo assim uma desorganização do tempo familiar
(Conadu, 2026).
Conclusões: testando hipóteses sobre a capacidade de respostas coletivas
Apesar da ofensiva do capital contra os instrumentos históricos de luta, liderada por
setores liberais e conservadores, surgem diversos conflitos de pequena e média escala,
especialmente numa primeira fase em setores pouco organizados ou formados a partir da
demanda emergente; numa segunda fase, com impacto mais direto nas empresas, com
encerramentos e suspensões, emergem organizações sindicais nos locais de trabalho.
Na primeira etapa, esse fenômeno ocorre por diversas razões, entre as quais podemos
destacar duas dimensões: a) a crise de representatividade de grupos tradicionais como sindicatos
e partidos políticos. Após décadas de processos democráticos relativamente estáveis que não
conseguiram atenuar a crise social gerada pelo sistema capitalista, a sociedade argentina
deslocou o foco de sua participação das estruturas organizacionais tradicionais; b) relacionado
ao exposto acima, esse deslocamento possibilita o surgimento de espaços de organização
territorial associados não tanto a uma base ideológica, mas sim a uma experiência ou identidade
compartilhada: um clube de bairro, reivindicações por melhorias na infraestrutura comunitária,
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uma profissão, uma condição social. Essas novas formas de organização do conflito deram
origem a novos coletivos e grupos que lideram a resistência contra as medidas regressivas
impostas pelo governo. Professores, educadores e estudantes, aposentados, cuidadores e
pessoas com deficiência, e profissionais da saúde são os principais opositores de um governo
que, sem escrúpulos, parece empenhado em desmantelar o Estado e seu sistema de proteção
social.
Paradoxalmente, e talvez como uma continuação dos problemas evidenciados pela
pandemia global, esses setores estão intimamente ligados às atividades de cuidado,
demonstrando que o capitalismo contemporâneo se caracteriza por um aumento exponencial do
fator tecnológico, mas ao custo de uma desumanização igualmente extrema das relações sociais.
Na segunda etapa, diante do impacto direto do fechamento de toda uma rede de
indústrias com histórico de ativismo sindical, surgem expressões de resistência onde o
sindicato, especialmente na base, ganha destaque. No setor automotivo, a redução da força de
trabalho ainda não levou a mobilizações em larga escala capazes de deter a ofensiva das
empresas. Resta saber em que medida a piora das condições de trabalho (salários, mercado de
trabalho e relações trabalhistas) unirá as diversas formas de resistência emergentes em
diferentes setores que sofrem as consequências das políticas atuais.
Trabalhadores da indústria automotiva e sindicatos diante das políticas de desindustrialização do governo Milei
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D OI: 1 0. 5 2 7 8 0/r es. v 3 1i es p. 1. 2 1 0 1 7 2 1
C R e dit A ut h or St at e m e nt
A g r a d e ci m e nt os : A r e vist a p or d ar a o p ort u ni d a d e d e p u bli c ar m os .
Fi n a n ci a m e nt o : N ã o h o u v e fi n a n ci a m e nt o.
C o nflit os d e i nt e r ess e : N ã o h o u v e c o nflit os d e i nt er ess e .
A p r o v a ç ã o éti c a : N ã o pr e cis o u .
Dis p o ni bili d a d e d e d a d os e m at e ri al : Nã o .
C o nt ri b ui ç õ es d os a ut o r es : Os a ut or es p arti ci p ar e m i g u alm e nt e d a pr o d u ç ã o d o arti g o .
P r o c ess a m e nt o e e dit o r a ç ã o: E dit o r a I b e r o -A m e ric a n a d e E d u c a ç ã o
R e vis ã o, f or m at a ç ã o, n or m ali z a ç ã o e tr a d u ç ã o
Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 31, n. esp. 1, e026008, 2026. e-ISSN: 1982-4718
DOI: 10.52780/res.v31iesp.1.21017 1
TRABAJADORES AUTOMOTRICES Y SINDICATOS FRENTE A LAS POLÍTICAS
DE DESINDUSTRIALIZACIÓN DEL GOBIERNO DE MILEI
TRABALHADORES DA INDÚSTRIA AUTOMOTIVA E SINDICATOS DIANTE DAS
POLÍTICAS DE DESINDUSTRIALIZAÇÃO DO GOVERNO MILEI
AUTOMOTIVE WORKERS AND UNIONS FACING THE DEINDUSTRIALIZATION
POLICIES OF THE MILEI GOVERNMENT
Juan MONTES CATÓ
1
e-mail: jmontescato@gmail.com
Lucas SPINOSA
2
e-mail: lucas.spinosa@gmail.com
Walter BOSISIO
3
Cómo citar este artículo:
CATO, Juan Montes; SPINOSA, Lucas; BOSISIO, Walter.
Trabajadores automotrices y sindicatos frente a las políticas de
desindustrialización del gobierno de Milei. Estudos de Sociologia,
Araraquara, v. 31, n. esp. 1, e026008, 2026. e-ISSN: 1982-4718.
DOI: 10.52780/res.v31iesp.1.21017.
| Enviado: 20/03/2026
| Modificaciones requeridas: 15/04/2026
| Aprobado: 10/06/2026
| Publicado: 27/07/2026
Editora:
Profa. Dra. Maria Chaves Jardim
1
Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (CONICET) y Universidad de Buenos Aires (UBA),
Buenos Aires Buenos Aires (CABA) Argentina. Doctor en Ciencias Sociales. Magíster en Ciencias Sociales
del Trabajo. Investigador del CONICET. Profesor de la Universidad de Buenos Aires (UBA).
2
Universidad de Buenos Aires (UBA) y Universidad Nacional Arturo Jauretche (UNAJ), Buenos Aires Buenos
Aires (CABA) Argentina. Magíster en Ciencias Sociales del Trabajo. Doctorando en cotutela en Ciencias
Sociales por la Universidad de Buenos Aires (UBA) y la Universidad Libre de Bruselas. Profesor e investigador
de la UBA y de la UNAJ.
3
Universidad de Buenos Aires (UBA) y Universidad Nacional Arturo Jauretche (UNAJ), Buenos Aires Buenos
Aires (BA) Argentina. Doctorando en Ciencias Sociales por la Universidad de Buenos Aires (UBA). Licenciado
en Sociología. Profesor e investigador de la UBA y de la UNAJ. Director del Programa de Derechos Humanos de
la UNAJ.
Trabajadores automotrices y sindicatos frente a las políticas de desindustrialización del gobierno de Milei
Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 31, n. esp. 1, e026008, 2026. e-ISSN: 1982-4718
DOI: 10.52780/res.v31iesp.1.21017 2
RESUMEN: Las políticas de ajuste y desindustrialización del gobierno de Milei afectan el
empleo, la calidad del trabajo y las relaciones laborales. Si bien el entramado automotriz, en
especial las montadoras, cuentan con beneficios especiales para garantizar su rentabilidad, no
han quedado exentas del impacto negativo de estas políticas que estimulan la especulación
financiera por sobre la producción industrial. Para analizar qué aspectos se vieron erosionados
en las relaciones laborales a partir de la asunción del nuevo gobierno interesa observar aquellas
reformas que inciden directa o indirectamente en el sector automotriz y en qué medida refuerzan
un proceso de disciplinamiento de la fuerza de trabajo y de los sindicatos. Interesa también
analizar aquellas que inciden en el desarrollo del actor sindical.
PALABRAS CLAVE: Sector automotriz. Argentina. Políticas de ajuste. Sindicatos.
RESUMO: As políticas de ajuste e desindustrialização do governo Milei afetam o emprego, a
qualidade do trabalho e as relações laborais. Embora a cadeia automotiva, em especial as
montadoras, conte com benefícios especiais para garantir sua rentabilidade, ela não ficou
isenta do impacto negativo dessas políticas, que estimulam a especulação financeira em
detrimento da produção industrial. Para analisar quais aspectos foram erodidos nas relações
laborais a partir da posse do novo governo, interessa observar as reformas que incidem direta
ou indiretamente no setor automotivo e em que medida elas reforçam um processo de
disciplinamento da força de trabalho e dos sindicatos. Interessa, também, analisar as reformas
que incidem no desenvolvimento do ator sindical.
PALAVRAS-CHAVE: Setor automotivo. Argentina. Políticas de ajuste. Sindicatos.
ABSTRACT: The adjustment and deindustrialization policies of the Milei government are
affecting employment, job quality, and labor relations. While the automotive sector, especially
assembly plants, enjoys special benefits to guarantee its profitability, it has not been exempt
from the negative impact of these policies, which prioritize financial speculation over industrial
production. To analyze which aspects of labor relations have been eroded since the new
government took office, it is important to examine the reforms that directly or indirectly affect
the automotive sector and to what extent they reinforce a process of disciplining the workforce
and unions. It is also important to analyze those reforms that affect the development of the labor
movement.
KEYWORDS: Automotive sector. Argentina. Austerity policies. Unions.
Juan Montes CATÓ, Lucas SPINOSA y Walter BOSISO
Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 31, n. esp. 1, e026008, 2026. e-ISSN: 1982-4718
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Introducción
La industria automotriz fue históricamente uno de los pilares fundamentales del
desarrollo industrial y el crecimiento económico global. Su capacidad para generar
encadenamientos productivos tanto hacia atrás (siderurgia, caucho, aluminio) como hacia
adelante (servicios, logística, comercialización) la posiciona como un termómetro de la
actividad macroeconómica. No obstante, en la actualidad, el sector se enfrenta a una
transformación disruptiva ligada a la transición energética. Este proceso no solo implica un
cambio en la matriz de propulsión de los vehículos, sino una reconfiguración de las cadenas
globales de valor y de las estrategias nacionales de desarrollo.
A escala mundial, el sector automotriz es uno de los más globalizados y
tecnológicamente intensivos. Representa una porción significativa del Producto Interno Bruto
(PIB) de las principales potencias y es responsable de una vasta red de empleo calificado. La
importancia del sector trasciende lo estrictamente comercial, pues actúa como un motor de
innovación en áreas como la robótica, la inteligencia artificial y, más recientemente, la
electroquímica para el desarrollo de baterías.
En Argentina, la industria automotriz posee una trayectoria de más de un siglo y
constituye un núcleo socioproductivo estratégico. Su relevancia se manifiesta en tres
dimensiones clave: a) impacto en el empleo: es uno de los sectores con mayor generación de
empleo asalariado formal y calificado; b) especialización productiva: Argentina se ha
consolidado como un centro regional de producción, especializado particularmente en
vehículos utilitarios (pick-ups). Su principal socio comercial es Brasil; c) déficit y balanza
comercial: el desafío persistente reside en el sector autopartista. Mientras que la producción de
unidades terminadas es competitiva, la alta dependencia de componentes importados genera
una presión constante sobre la balanza de divisas, un problema estructural de la industria
nacional.
A pesar de los regímenes especiales que incentivaron su desarrollo, las políticas
recientes de desindustrialización, apertura indiscriminada y achicamiento del mercado interno
del gobierno de Javier Milei desde el 10 de diciembre del 2023 están impactando de manera
pronunciada en el sector. El objetivo del artículo es dar cuenta de los elementos estructurales
del sector, analizar qué políticas gubernamentales de la actual administración nacional afectan
de manera específica sobre el mercado laboral, las relaciones laborales y el accionar sindical.
En términos metodológicos el artículo se basa en el proyecto de investigación colectivo
financiado por la Universidad de Buenos Aires denominado “Transformaciones en la división
Trabajadores automotrices y sindicatos frente a las políticas de desindustrialización del gobierno de Milei
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internacional del trabajo e impacto en los territorios productivos y las relaciones laborales: el
corredor norte del GBA-Rosario”, UBACYT 20020220100090BA, donde uno de los casos de
estudio está centrado en el complejo industrial automotriz ubicado en las localidades de General
Pacheco, Campana y rate en la zona norte del Gran Buenos Aires. Este complejo industrial
abarca terminales y autopartistas distribuidas en el territorio. Por su parte el artículo retoma la
tesis de maestría “La relación capital-trabajo-territorio en espacios industriales
Reestructuración de las empresas multinacionales en el complejo de Campana” (Spinosa,
2024)
4
. En estos proyectos se recuperan datos secundarios cuantitativos y fundamentalmente se
parte de una aproximación cualitativa basada en entrevistas, análisis de fuentes secundarias y
observaciones no participantes.
El artículo está organizado en cuatro apartados. En el primero, denominado “Políticas
de ajuste y desindustrialización del gobierno de Milei”, interesa analizar el contexto actual en
que operan las empresas automotrices, en especial a partir de profundas reformas que afectan
el mercado laboral y las relaciones laborales orientadas a ampliar el margen discrecional de las
empresas. En el segundo, “Características del sector automotriz argentino”, se abordan algunos
elementos sobresalientes del sector en cuanto a los rasgos del entramado productivo,
potencialidades y limitaciones históricas del sector que permitirán comprender cómo se
enfrenta la etapa actual. Aquí interesa enlazar esta caracterización con un debate más amplio
vinculado a los modelos de desarrollo y su relación con los grados de autonomía de las
economías con vías de desarrollo dependientes. En el tercero, “Disciplinamiento de la fuerza
de trabajo y restricciones al ejercicio sindical, analizamos una serie de reformas profundas en
el marco de reglamentación de las relaciones laborales que permiten visualizar el ideario en que
se inspira el actual gobierno como así también el modo en que se materializan en normas que
afectan la relación entre capital y trabajo en el sector automotriz. Finalmente, en las
conclusiones ensayamos hipótesis sobre la capacidad de respuestas colectivas en un proceso
que se encuentra abierto.
Políticas de ajuste y desindustrialización del gobierno de Milei
Las primeras décadas del siglo XXI muestran a nivel global el ascenso de diversas
narrativas de derecha que se han ido desplazando hacia un extremismo que apunta al orden
4
Tesis de Maestría de Lucas Spinosa, Maestría en Ciencias Sociales del Trabajo de la UBA. Defendida en
diciembre del 2024 bajo la dirección de Juan Montes Cató.
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social democrático y la justicia social. Con ello, se han ido consolidando movimientos sociales
y experiencias de políticas que hacen propia esa narrativa, llevándola a la praxis. Estas nuevas
extremas derechas se presentan como alternativa política frente a una ciudadanía desencantada,
que sufre desde hace tiempo los efectos del capitalismo contemporáneo, profundizados luego
de la pandemia mundial de la COVID-19. El Sur global no queda exento de estos procesos,
donde la experiencia de Argentina resulta una de las últimas y de las más radicales de lo que se
ha dado a llamar anarcocapitalismo. Hay dos grandes procesos que se ponen en tensión con la
emergencia de esta experiencia; por un lado, qué tipo de sociedad produce en términos de
acceso a derechos sociales y económicos y por otro, en qué medida se tensionan los acuerdos
democráticos alcanzados luego de la dictadura que prevaleció entre 1976-1983. Para ello
proponemos algunas claves analíticas para caracterizar las políticas del gobierno actual; luego
cómo impactan en un ámbito clave para los procesos de integración social como es el mundo
del trabajo y finalmente en qué medida se observan acciones de resistencia que puedan
constituir una alternativa política y social.
Las elecciones presidenciales de 2023 abrieron paso a un fenómeno inédito en la historia
argentina: el triunfo por vía electoral de una fuerza política con apenas dos años de existencia,
con un candidato que irrumpe en la sociedad a partir de su participación en canales de televisión
y redes sociales. Esta fuerza política-electoral encabezada por Javier Milei despliega un
programa basado en cuatro vectores:
a) el primero activa el conocido plan neoliberal en materia económica en los países
latinoamericanos (privatizaciones, ajuste fiscal, apertura comercial, endeudamiento
indiscriminado y primarización de la matriz productiva). Se trata de un modelo que conecta
distintas etapas de la historia reciente argentina iniciada de manera sistemática con la dictadura
del ’76. Aquí es importante recuperar la noción de dictadura cívico-militar corporativa
concentrada (Napoli; Perosino; Bosisio, 2014) para comprender la participación activa de los
grupos económicos concentrados que diseñaron el plan de transferencia de riqueza desde los
sectores medios y populares hacia las elites económicas con un concomitante proceso de
concentración y centralización del capital. Luego las políticas de Menem y De La Rúa entre
1989-2001 combinaron la privatización de empresas junto con el plan macroeconómico de la
Convertibilidad basado en un inmenso endeudamiento para sostener esa paridad cambiaria
además de destrucción del entramado productivo, sobre todo de pequeñas y medianas empresas.
Finalmente, el antecedente reciente a las políticas de Milei estuvo de la mano del gobierno de
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Macri que aplicó un ajuste muy importante en el mercado laboral a la par que buscó sancionar
leyes laborales para dar por tierra con décadas de conquistas laborales.
b) convoca un imaginario social y mito de un pasado glorioso supuestamente ubicado
entre 1880-1930 en el que el país se encontraba entre los “países más desarrollados del mundo”.
Es lo que algunos autores han llamado retroutopías (Gatto, 2019), y en este caso es el de llevar
adelante la utopía anarcocapitalista. Se trata de una filosofía política y teoría económica
inspirada en los ultraliberales Friedrich Hayek, Milton Friedman, Ludwig von Mises y Murray
Rothbard que propugna la mínima intervención del Estado y la creación de una sociedad basada
en la propiedad privada, donde la protección de derechos y la resolución de conflictos se
gestionan a través de agencias privadas.
c) implementación del “aceleracionismo de derecha
5
de la mano de los grandes
conglomerados tecnológicos que buscan intensificar estos procesos concentrados en pocas
manos y con grandes efectos bio-políticos. Pero el aceleracionismo tiene una variante en su
debate, como indica Llao (2024, p. 5) el cambio que propone esta versión, este nuevo orden,
tiene “pretensiones refundantes, que busca reinstalar algunos ordenadores sociales que fueron
disueltos o limitados en la tensión con las fuerzas transformadoras progresistas y feministas. El
caos, para la ultraderecha adherente a esa moción refundante, es una condición necesaria. Por
ello sus agentes no solo promueven acelerar los procesos de producción del capitalismo, sin
transformarlos (negando las contradicciones inherentes a estos) sino también esperan generar
el caos, lo inducen. Esperan que “explote todo”. Ese caos expectante se instala paulatinamente
con la promoción de la liberación de las fuerzas capitalistas, eliminando toda regulación o
mediación. Se pretende darle curso libre al flujo de movimientos como la concentración de la
riqueza, la devastación de la naturaleza, la destrucción de los bienes comunes y especialmente
destruir cualquier pretensión de regulación de este flujo” tensionando de este modo los acuerdos
democráticos.
y d) todo ello proyecta una suerte de tecno-darwinismo social en el que la supervivencia
remite al sentido más estrecho del individualismo. Lo cual es articulado con un sofisticado
sistema de inteligencia junto con el amedrentamiento a toda manifestación opositora y represión
a manifestaciones colectivas en el espacio público (jubilados, despedidos de entidades públicas,
sectores que sufren recortes y retirada del Estado). Estas acciones de disciplinamiento son
acompañadas por un punitivismo neutralizador, es decir, “el uso sobrecriminalizador del
5
Existe todo un debate sobre este concepto, nacido en el campo ideológico de la izquierda fue reapropiado por la
derecha. Ver Avanessian y Reis (2017) y Llao (2024).
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sistema penal dirigido a suprimir la agencia política de cualquier persona que presente una
posición contraria a quienes detentan el poder del Estado ya sea en forma organizada o
espontánea, colectiva o individual a los efectos de garantizar la gobernabilidad en un
determinado territorio, a expensas de derechos constitucionales y del diálogo democrático. En
mayor detalle: apunta principalmente contra dirigentes de partidos políticos, así como líderes y
miembros de sectores organizados en agrupaciones sociales, políticas y sindicales alineados
con una agenda de justicia social, pero también contra individuos aislados que adhieren a esta
agenda política, e incluso contra personas sin militancia o activismo político que expresan
alguna opinión disidente respecto del poder. La aplicación del poder punitivo sobre este amplio
rango de actores produce, a la vez, un efecto disuasivo en toda la ciudadanía que, por miedo a
ser sobrecriminalizada, acalla cualquier crítica (Gómez Alcorta; Vegh Weis, 2025, p. 19). Esta
tendencia se articula con un aumento indiscriminado de partidas presupuestarias destinadas a
aumentar la vigilancia, pero también el punitivismo neutralizador, que también se nutre del
accionar de los grandes medios de comunicación y las redes sociales que difunden versiones
legitimantes de las prácticas de persecución para que sean oídas, vistas y leídas por toda la
ciudadanía, multiplicando el caudal de temor orientado a paralizar y vaciar de poder actuante.
En este cuadro de situación la política de apertura indiscriminada llevada adelante por
el gobierno de Javier Milei apalanca un proceso de desindustrialización que se emparenta con
el llevado adelante en fases anteriores y que fueron sumamente perjudiciales para el desarrollo
del empleo; el primero con la dictadura que aplicó este mismo recetario, pero en 1976 y luego
a partir de 1990 de la mano de las políticas neoliberales del gobierno de Saúl Menem.
Difícilmente, el resultado no sea otro que el desarme del entramado industrial que impacte en
el sector automotriz. A dos años de gestión aperturista el saldo es el de terminales automotrices
que cierran turnos o adelantan vacaciones dada la baja producción.
Características del sector automotriz argentino
El sector automotriz argentino representa uno de los complejos productivos más
dinámicos del país. Con 13 terminales instaladas que producen automóviles, utilitarios y
vehículos pesados, el sector es responsable de aproximadamente el 10% del PBI industrial y
genera cerca del 35% de las exportaciones de Manufacturas de Origen Industrial (MOI).
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Cuadro 1 Características
Empresa
Ubicación territorial
FCA Automobiles
(Stellantis):
Planta en Ferreyra, Córdoba. Produce el Fiat Cronos.
PSA Peugeot Citroën
(Stellantis):
Planta en El Palomar, Buenos Aires. Produce modelos como el
Peugeot 208 y los utilitarios Partner/Berlingo.
Ford Argentina:
Planta en General Pacheco, Buenos Aires. Especializada en la
pick-up Ranger (incluyendo la nueva versión Tremor anunciada para
finales de 2026).
General Motors:
Planta en Alvear, Santa Fe. Produce el Chevrolet Tracker (tras el
cese del Cruze).
Toyota Argentina:
Planta en Zárate, Buenos Aires. Produce la pick-up Hilux y la
SUV SW4. Es la terminal con mayor volumen de producción y
exportación del país.
Volkswagen
Argentina:
Planta en General Pacheco, Buenos Aires. Produce la pick-up
Amarok y el SUV Taos. También posee una planta de transmisiones en
Córdoba.
Renault Argentina:
Planta en Santa Isabel, Córdoba. Produce modelos como
Sandero, Stepway, Logan, Kangoo y la pick-up Alaskan
Nissan Argentina:
Comparte línea de producción en la planta de Renault (Santa
Isabel, Córdoba) para la fabricación de la pick-up Frontier.
Mercedes-Benz
Argentina (Prestige Auto):
Planta en Virrey del Pino, Buenos Aires. Produce el utilitario
Sprinter
Mercedes-Benz
Camiones y Buses:
Opera de forma independiente para la producción de vehículos
pesados y chasis de buses (modelos Accelo y Atego).
Iveco Argentina:
Planta en Ferreyra, Córdoba. Única terminal que produce
camiones pesados y chasis de buses de manera integral en el país (Línea
Tector, Cursor, Stralis).
Scania Argentina:
Planta en Colombres, Tucumán. Se especializa en la producción
de componentes de transmisión (cajas de cambio y diferenciales) para
exportación global, aunque integra elcleo de terminales.
Honda Motor de
Argentina:
Si bien cesó la producción de autos (HR-V) en 2020 para
enfocarse en motocicletas en su planta de Campana, mantiene su estatus y
participación institucional en la cadena de valor automotriz
Fuente: Elaboración propia en base a ADEFA, ACARA y páginas de las empresas.
En otro texto (Spinosa; Pereyra; Montes Cató, 2020, p. 186) hemos señalado que los
flujos del capital globalizado responden a lógicas de desplazamiento territorial organizadas por
las empresas multinacionales. Estas tendencias producen el declive y el desarrollo de territorios
con un impacto enorme en la dinámica del trabajo y de las relaciones laborales. “El sector
automotriz, en Argentina, inició un proceso de transformación productiva que se cristalizó en
la década de 1990 y se extiende hasta la actualidad. Semejante a otras experiencias
latinoamericanas, ese proceso estuvo orientado a la incorporación de cambios en el proceso de
trabajo, flexibilización de la fuerza de trabajo y tercerización en la fabricación de autopartes en
lo que se conoce como cadenas globales de valor”. Varias investigaciones aportan referencias
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de este proceso a nivel local en cuanto a localización y relocalización (Guevara, 2012; Delfini,
2010; Delfini; Roitter; Erbes; Yoguel, 2008; Pinazo, 2013).
Luego de la caída en el año 2002 del Régimen de Convertibilidad, que constituyó uno
de los principales soportes macroeconómicos de las políticas neoliberales de la década de los
noventa, la rama automotriz lideró el crecimiento industrial del país al mostrar un intenso ritmo
de incremento del empleo, la producción, las exportaciones y la productividad (Barletta,
Katashi y Yoguel, 2013). Sin embargo, y siguiendo a Pérez Almansi (2022) “a partir del cambio
de gobierno en 2016, la Argentina experimentó un giro hacia la apertura y la liberalización de
su economía, que provocó la contracción de su mercado interno. En el sector automotor, estas
políticas, sumadas a la crisis de Brasil, produjeron un impacto negativo en la industria, pues
crearon mayores déficits comerciales y derivaron en una importante retracción de la producción
entre 2018 y 2019.
Sin embargo, los vaivenes y problemas que enfrentó el complejo automotor argentino
en las últimas décadas no se debieron únicamente a dificultades locales o coyunturales. Este
sector sufre los dilemas propios de la manufactura en un país semiperiférico bajo la articulación
de cadenas globales de valor. Al respecto, se pueden destacar ciertas limitaciones compartidas
por estos países, entre las que se encuentran: i) la extranjerización total de la rama terminal
(dominada por un puñado de empresas multinacionales a nivel mundial); ii) la especialización
en las actividades de menor valor agregado de la cadena; iii) la dependencia de la tecnología
extranjera, y iv) las dificultades de las empresas autopartistas locales para competir a nivel
internacional. A este cuadro también se le suma la acelerada transición tecnoproductiva que
atraviesa el sector a nivel mundial debido a la digitalización, electrificación y automatización
de los vehículos” (Pérez Almansi, 2022: 210).
La trayectoria del sector ha estado marcada por ciclos de alta volatilidad. En 2014, la
producción alcanzó las 617.389 unidades, iniciando un declive que to fondo en 2020
(pandemia) con apenas 257.187 unidades. Luego de esa caída profunda se observó una
recuperación: en el año 2023 aumenta a 610.715; luego en el 2024 vuelve a bajar a 506.571 y
se profundiza esta tendencia en el 2025 con 490.876
6
. La Proyección 2026 tomando como
referencia el primer bimestre de 2026 muestra una caída del 30,1% interanual (50.630
unidades), reflejando una fase de ajuste estructural y transición de modelos.
6
Fuente: ADEFA y ACARA.
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Actualmente, el sector sostiene 75.000 puestos directos y más de 150.000 indirectos.
Según investigaciones de Pinazo y Piqué (2011) el empleo automotriz argentino se divide en
una estructura dual:
Segmento de Terminales: Empleo de alta calificación, salarios por encima de la media
industrial y fuerte representación sindical (SMATA y UOM). Aquí, la estabilidad es mayor
debido a la inversión en capacitación que realizan las casas matrices.
Segmento Autopartista: Más atomizado y vulnerable. Este subsector sufre de forma directa
las fluctuaciones de la producción y la competencia de piezas importadas.
Estudios de la CEPAL (2022) indican que por cada empleo en una terminal, se activan
entre 4 y 5 empleos en la cadena de valor, lo que demuestra su enorme poder multiplicador.
El desarrollo del sector automotriz en Argentina enfrenta desafíos estructurales
significativos, arraigados en su dependencia de las empresas transnacionales, la falta de
integración nacional y una inserción global que no siempre se traduce en un desarrollo industrial
sostenible.
La industria automotriz es un motor fundamental para cualquier economía, reconocida
por sus vastos encadenamientos productivos y su capacidad para generar efectos
multiplicadores sobre otros sectores, como el empleo y la innovación tecnológica. Para
Argentina, esta industria representa una parte crucial de su PIB industrial y exportaciones. No
obstante, a pesar de su relevancia, el sector ha mostrado a lo largo de las décadas una serie de
debilidades crónicas que limitan su pleno desarrollo. Germán Pinazo y Pablo Toledo (2022),
han analizado críticamente estas problemáticas, argumentando que muchos de los enfoques
previos, como el desarrollismo de antaño, no han logrado sentar las bases para una industria
verdaderamente robusta y autónoma.
Si bien se han observado momentos de crecimiento e inversión, estos no necesariamente
implican un proceso de desarrollo industrial genuino. La clave está en la naturaleza de la
inserción argentina en la cadena global de valor automotriz, que ha estado marcada por una
integración subordinada a las estrategias de las grandes corporaciones transnacionales (las
terminales automotrices).
Uno de los principales obstáculos identificados por Pinazo (2020) es el control casi total
que ejercen las empresas transnacionales (EMN) sobre la producción local. Estas corporaciones
definen las estrategias de inversión, los modelos a producir, los proveedores y los mercados de
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exportación. La dinámica global de la industria, caracterizada por plataformas productivas
integradas regionalmente, especialmente con Brasil, condiciona fuertemente la operación de las
filiales argentinas. Esta dependencia implica que las decisiones estratégicas no se toman en
función de las necesidades de desarrollo interno de Argentina, sino en función de la rentabilidad
global o regional de la casa matriz. Esto genera una vulnerabilidad significativa: ante cambios
en las condiciones económicas regionales, fluctuaciones del tipo de cambio o redefiniciones de
estrategias corporativas, la producción argentina puede verse rápidamente afectada, como ha
ocurrido en diversas crisis.
Un elemento central es el persistente bajo nivel de integración de componentes de origen
nacional en los vehículos producidos en el país. A pesar de los regímenes de promoción
industrial y los intentos por fomentar autopartistas locales, una parte sustancial de los insumos
y piezas son importados. Esto limita severamente los efectos multiplicadores de la industria en
la economía argentina. La consecuencia directa es que gran parte del valor generado en la
producción de un automóvil argentino en realidad beneficia a las cadenas de suministro
globales de las EMN. Las filiales locales se convierten, en muchos casos, en meras
ensambladoras. A lo largo del tiempo, este grado de integración nacional ha evolucionado de
forma insuficiente, un factor crítico que impide un desarrollo industrial más profundo.
La relación comercial con Brasil es otro punto de análisis crucial. El comercio bilateral
automotriz, regulado por acuerdos específicos, ha buscado equilibrar flujos y fomentar la
especialización. Sin embargo, esta dinámica también ha generado vulnerabilidades. La
producción de modelos duplicados con Brasil y las fluctuaciones cíclicas de la economía
argentina, tienen un impacto directo y a menudo desestabilizador en la producción local.
Por su parte, el modelo de inserción global de la industria argentina ha estado sujeto a
restricciones cambiarias recurrentes. La necesidad constante de importar insumos y bienes de
capital genera una demanda de divisas que, en un contexto de escasez crónica de moneda
extranjera en Argentina, se convierte en un cuello de botella para la expansión productiva.
Disciplinamiento de la fuerza de trabajo y restricciones al ejercicio sindical
El ideario en el que se inspira la política laboral del gobierno de Milei anclado en un
fuerte ajuste al campo laboral orientado a la flexibilización, heterogeneización sectorial y
precarización generalizada comienza a materializarse con la sanción del Decreto 70/23 que puso
en marcha un despliegue de herramientas jurídicas que han procurado sitiar, judicializar y,
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también en grado extremo, criminalizar relaciones laborales en base al desmantelamiento del
derecho a la huelga y la protesta social.
Se han desarmado áreas enteras de aparatos del Estado, generando un despido masivo
que ha reducido la planta de empleo transitorio y también estable hasta en un 20% del total del
empleo público estatal, generando más de 50 mil desempleados de este sector. Este panorama
del trabajo solo se agrava cuando se observa el impacto del desmantelamiento del aparato
productivo y de servicios a nivel nacional que ha perdido más de 150 mil empleos junto al cierre
de miles de empresas (sobre todo medianas y pymes, a las que se suma el sugestivo retiro del
país de firmas transnacionales dedicadas al mercado interno). Por último, cabe destacar que
además de lo planteado, el gobierno nacional aplica un control hiperrestrictivo o “cepo” a las
relaciones de articulación paritaria salarial de los diversos sectores productivos, negando la
posibilidad de indicadores que superen y hasta que equiparen los índices inflacionarios
mensuales, legalizando solo incrementos nimos (de hasta 1%) para los acuerdos salariales
entre capital y trabajo del sector privado (mientras el sector público estatal en manos del propio
gobierno presenta distribuciones aún más desiguales con la negación plena de aumentos
sectoriales [como es el caso del sector educativo universitario nacional y algunos sectores de
salud]).
Luego de más de dos años de gestión gubernamental, el mundo del trabajo registra
recortes de ingresos, disciplinamiento y amedrentamiento jurídico mientras produce un
escenario de fragmentación del tejido productivo y laboral, con marcas de heterogeneización y
fragmentación sectorial, aumento de la desigualdad y pérdida de capacidades productivas
nacionales (frente al impacto continuo de producciones extranjeras vía desregulación y apertura
indiscriminada de importaciones de todo tipo de bienes (con un registro de más del 35% a
mediados del 2025). Un balance de reformas laborales y de incertidumbre estructural creciente
que se manifiestan en el aumento tanto de indicadores de precarización y heterogeneización de
las fuerzas productivas (con reorganización e incremento del sector cuentapropista informal),
aumento de la desocupación (unida a escenarios de pluriempleo e informalidad, compensatorios
de bajos salarios) que incrementan escenarios sociales de fractura y desigualdad social.
Este cuadro de situación de por delicado se agrava con la reciente sanción de la Ley
de “modernización laboral” N.º 27.802. Por un lado, la idea de modernización nominativa de la
ley es una forma eufemística de referirse a una ley de precarización laboral y restricción
sindical; segundo, es un revival recargado de la misma noción utilizada durante los noventa con
las leyes de flexibilidad laboral.
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Los cambios en la nueva ley abarcan un abanico amplio de cambios. El 6 de marzo de
2026, el gobierno de Javier Milei sanciona una nueva Ley de Modernización Laboral que está
mayormente orientada a aumentar la arbitrariedad de la empresa y, de ese modo, aumentar su
capacidad de disciplinar la fuerza de trabajo en paralelo con baja de costos y aumentos de la
flexibilidad laboral. Entre algunos puntos sobresalientes de la nueva normativa laboral cabe
citar los siguientes:
a) Costos y Cálculo de Indemnizaciones
Reducción del costo de despido: se plantea un cálculo indemnizatorio que excluye
conceptos como el aguinaldo (SAC), vacaciones no gozadas, premios o propinas. Esto
abarata el cese de la relación laboral para las empresas.
Fondo de Asistencia Laboral (FAL): se crea un fondo para cubrir las indemnizaciones,
financiado por un porcentaje de los aportes patronales ya existentes, sin incrementar los
costos directos para el empleador.
Pago en cuotas: se permite el pago de indemnizaciones en hasta 12 cuotas, siendo ésta una
medida que se aplica incluso a juicios que ya estaban en curso al momento de la sanción.
b) Flexibilización de la Jornada y Contratos
Banco de horas: se permite la reorganización de la jornada laboral y la creación de un banco
de horas, facilitando acuerdos directos entre empleado y empleador sobre el tiempo de
trabajo.
Fin de la ultraactividad: al vencer un convenio colectivo, ya no se mantienen
automáticamente los beneficios variables o bonos si no se renegocian.
Simplificación registral: los nuevos contratos se registran mediante un procedimiento
electrónico simple e inmediato bajo el supuesto del fomento de empleo formalizado (en
blanco).
Incentivos a la Contratación
Beneficios impositivos: durante el primer año de vigencia, las empresas que contraten
nuevos empleados pagarán menores contribuciones patronales.
Periodo de prueba: aunque el proyecto original buscaba prorrogarlo, la ley aprobada pone
énfasis en la simplificación del registro para reducir la informalidad, que alcanzó un 43,2%
a mediados de 2025.
c) Controversias y Seguridad Jurídica
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Riesgo de judicialización: diferentes espacios y sectores (como la CGT, CTA y otras
agremiaciones) cuestionan la constitucionalidad de la ley por considerarla regresiva en
materia de derechos.
Alcance: la reforma afecta tanto a las nuevas contrataciones como a las relaciones laborales
preexistentes.
Vigencia gradual: si bien la mayoría de los artículos rigen desde su publicación, algunos
puntos específicos tendrán su entrada en vigencia diferida a enero de 2027 y 2028.
Esta normativa profundiza el disciplinamiento y control que se viene observando en el
sector automotriz que aprovecha las políticas del gobierno para aumentar el grado de
discrecionalidad en sus estrategias corporativas. Como observa un trabajador de la terminal de
VW:
Antes cuando había despidos te avisaban con anticipación, ahora todos los
días cuando pasamos el molinete de entrada a la empresa no sabés si te va a
marcar en rojo. Es un temor permanente porque te enterás que estás despedido
ni siquiera por un aviso por mail o WhatsApp como comentan en otras
empresas, acá es una luz roja que todos sabemos qué significa, después te
hacen pasar a hablar con los responsables del sector de recursos humanos, pero
vos ya sabés de qué se trata… a me pasó y es tremendamente estresante y
desolador (Operario de 52 años).
Como todo dispositivo de control y disciplina el objetivo no está orientado solo al propio
trabajador damnificado sino enviar un mensaje intimidador a todo el colectivo. Por un lado la
idea de estar en permanente evaluación y por otra, la imposibilidad de predecir el desenlace.
Un exdelegado sindical de la planta Toyota también relata esta metodología haciendo
referencia a cierta perversidad o revancha de clase
7
:
Los laburantes se enteran que están despedidos cuando apoyan la tarjeta en el
dispositivo de entrada, todo esto además de la angustia del momento, de la
pérdida de laburo en un mercado donde no es fácil conseguir trabajo, es de un
nivel de perversidad enorme, de deshumanización increíble además de no
respetar las normas. Pero está en línea con lo que baja el gobierno cada vez
que se cierra una empresa, se despiden empleados públicos o cuando te tiran
pequeños aumentos salariales en cuotas muy por debajo de la inflación… para
7
La referencia al tema “perversidad” o “goce por el sufrimiento” es un rasgo que muchos analistas del discurso
vienen señalando en el propio de discurso del gobierno refiriéndose a los padecimientos de los trabajadores de
manera despectiva o estigmatizante, pero también a todo aquel que el gobierno señale como opositor. Como
indican Aimé Aminahuel y Malvina Eugenia Rodríguez (2026) estas técnicas se encuadran en los discursos de
odio donde prevalecen narrativas descalificadoras por raza, género, ideología, religión, orientación sexual, partido,
origen social, etnia, físico o mixto. Una de las conclusiones del análisis referido es que se refuerza la hipótesis de
una arquitectura comunicacional coordinada, orientada a sostener la polarización y la movilización afectiva en el
espacio digital” (Aminahuel; Rodríguez 2026, p. 21). Discursos legitimadores del odio y prácticas efectivas se
refuerzan para lograr la eficacia de dominación que pretenden las empresas en sus espacios de trabajo.
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lo novedoso no son tanto el discurso de que la empresa necesita llevar una
política de racionalización copiado de los noventa sino ese cero respeto por
un nimo de humanidad frente al sufrimiento del trabajado (Operario
exdelegado 40 años).
Los relatos son clarificadores de cómo las empresas buscan imponer un régimen laboral
basado en la vulnerabilidad del vínculo de trabajo avalado por una política gubernamental que
legitima en términos discursivos y con toda una batería de nuevas normas estos abusos.
La ofensiva sobre conquistas laborales no se restringe al campo de las condiciones de
empleo y salarial sino que también buscan avanzar en la propia capacidad sindical de dar
respuestas a la erosión de conquistas históricas. Por ello la búsqueda empresarial por restringir
la libre expresión de la protesta.
En este sentido la nueva ley busca limitar las prerrogativas de los sindicatos,
dificultando su capacidad de organización, negociación y protesta. Este enfoque responde a una
estrategia más amplia de despolitización del trabajo y fortalecimiento del capital (del Bono,
2025). Esto se ve reflejado en los siguientes puntos de la norma:
1) Restricción del Derecho a huelga: se amplía el concepto de Servicios Esenciales,
exigiendo una guardia mínima del 75% en sectores como salud, transporte, educación y
telecomunicaciones. Adicionalmente, se crea la categoría de “Actividades de Importancia
Trascendental”, que incluye la industria exportadora, bancos, alimentación y medios, exigiendo
una prestación mínima del 50%. En la práctica, esto neutraliza la eficacia de un paro general,
ya que la obligación de mantener operativo el 50-75% de la actividad en sectores clave impide
la paralización económica. Para el Instituto de estudios y capacitaciones de la Conadu “la
confluencia de las normas establecidas en el artículo, el derecho a huelga pierde su fortaleza y
se impide casi por completo su ejercicio. De la interacción de lo dispuesto en este artículo con
artículos siguientes, además, se desprende que los incumplimientos de estas limitaciones del
derecho a huelga constituyen “prácticas desleales” por parte de los trabajadores y los sindicatos,
acarreando una serie de consecuencias que pueden derivar en la revocación de la personería
gremial” (Conadu, 2026, p. 12).
2) Desfinanciamiento y control gremial-sindical: la nueva ley apunta a desarmar las
estructuras sindicales y se dirige de modo directo contra las fuentes de financiamiento gremial.
Para ello ha generado topes de aportes a las cuotas solidarias en un 2% y se le suma la exigencia
del consentimiento expreso e individual del trabajador para su consecuente descuento. “Esto
golpea a los grandes sindicatos que financiaban su estructura mediante aportes compulsivos de
los no afiliados, pactados en convenios colectivos. Asimismo, se tipifican los bloqueos y tomas
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de establecimientos como infracciones graves y causal objetiva de despido, otorgando a las
empresas una herramienta rápida para desactivar protestas que impidan la operatividad
logística”.
3) Asambleas: se modifica el artículo 20 bis de la Ley 23.551, limitando la realización
de asambleas y congresos (facultad que además es eliminada para las asociaciones sindicales a
través de la modificación del art. 20 ter.). Se establece que los mismos podrán realizarse siempre
que no afecten el normal desarrollo de las actividades de la empresa ni causen perjuicio a
terceros. Para realizarlas dentro del establecimiento de trabajo, deberá contar con la
autorización previa del empleador y los trabajadores no devengarán salarios durante el tiempo
de la misma (Art. 139).
4) Extensión del control por fuera del ámbito de trabajo: aquí se alude a otro eje
conceptual clave promovido por el gobierno que hace tiempo viene planteando y que refiere a
que “las personas deberían estar el 100% de su tiempo ya sea trabajando, ya sea en condiciones
de hacerlo; y, en caso de no estarlo, podrían resultar culpabilizadas por aquellas enfermedades
o accidentes que les impidieran trabajar, reduciéndose, en consecuencia, sus salarios. El hecho
de que la versión del proyecto aprobada por la cámara de diputados haya excluido el polémico
artículo que establecía esta medida no debe ser interpretado como un cambio profundo en la
posición del gobierno. No hubo “errores” ni “excesos” en la inclusión del artículo en cuestión.
Por el contrario, éste resultaba perfectamente coherente con la concepción de que el capital
debe extender su dominio no sólo sobre el tiempo de trabajo, sino también sobre el tiempo de
descanso y de esparcimiento, exigiendo que éste no sea verdaderamente “libre”, sino que se
defina siempre en función de la productividad laboral. De manera algo s solapada, pero en
la misma línea, se sitúa la idea del “banco de horas”, que permite exceder la jornada laboral
más allá del máximo de horas establecido por la ley, sin reconocerlas como horas extra, sino
como horas a cuenta del/de la trabajador/a, que el/la empleador/a eventualmente descontará de
futuras jornadas. El avance del capital sobre el tiempo libre resulta particularmente grave en el
caso de las trabajadoras mujeres, quienes lo dedican en mayor proporción que los varones a las
tareas de cuidado, produciéndose así una desorganización de los tiempos familiares” (Conadu,
2026).
Conclusiones: ensayando hipótesis sobre la capacidad de respuestas colectivas
A pesar de la ofensiva sobre las herramientas históricas de lucha por parte del capital
liderado por sectores liberal-conservadores se abren distintos focos de conflicto de pequeña y
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mediana escala, especialmente en una primera etapa de sectores poco organizados o reunidos a
partir del emergente de demanda; en segunda etapa con el impacto más directo en las empresas
con cierres y suspensiones, emergen las organizaciones sindicales en los lugares de trabajo.
En la primera etapa, este fenómeno se da por diversas razones, donde podemos destacar
dos dimensiones: a) la crisis de representación de colectivos tradicionales como sindicatos y
partidos políticos. Tras décadas de procesos democráticos relativamente estables pero que no
logran mejorar la crisis social generada por el sistema capitalista, la sociedad argentina ha ido
desplazando el eje de su participación en ámbitos de organización tradicional; b) vinculado con
lo anterior, ese desplazamiento posibilita el surgimiento de espacios de organización territorial
asociados no tanto a una base ideológica, sino más bien a una vivencia o identidad común: un
club de barrio, el reclamo por la mejora de una infraestructura comunitaria, una profesión, una
condición social. Estas nuevas formas de organización del conflicto dieron lugar a la aparición
de nuevos colectivos y agrupamientos que protagonizan la resistencia frente a las medidas
regresivas impuestas por el gobierno. Docentes, educadores y estudiantes, jubilados, cuidadores
y personas con discapacidad, profesionales de la salud, son los principales oponentes a un
gobierno que sin escrúpulos parece querer barrer con el Estado y su sistema de protección
social.
Paradójicamente, y quizás como continuidad de los problemas que evidenció la
pandemia global, estos sectores se encuentran muy vinculados a las actividades de cuidados,
demostrando que el capitalismo contemporáneo se caracteriza por un incremento exponencial
del factor tecnológico, pero a costa de una igualmente extrema deshumanización de las
relaciones sociales.
En la segunda etapa, y frente al impacto directo sobre el cierre de todo un entramado de
industrias con tradiciones sindicales de lucha, aparecen expresiones donde el actor sindical
sobre todo de base adquiere más predominancia. En el sector automotriz, la disminución en su
plantilla no ha protagonizado hasta el momento grandes movilizaciones que puedan detener la
ofensiva de las empresas. Resta observar en qué medida el agravamiento de las condiciones de
trabajo (salario, mercado de trabajo y relaciones laborales) podrá aunar diversos emergentes de
resistencia entre distintos sectores que están sufriendo las consecuencias de las políticas
actuales.
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este artí c ul o.
P r o c es a mi e nt o y e di ci ó n: E dit o r a I b e r o-A m e ri c a n a d e E d u c a ç ã o
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