Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 31, n. esp. 1, e026004, 2026. e-ISSN: 1982-4718
DOI: 10.52780/res.v31iesp.1.21105 1
UMA CATEGORIA EM TRANSFORMAÇÃO: MUDANÇAS E PERMANÊNCIAS
ENTRE GERAÇÕES DE METALÚRGICOS DO ABC
UNA CATEGORÍA EN TRANSFORMACIÓN: CAMBIOS Y PERMANENCIAS ENTRE
GENERACIONES DE TRABAJADORES METALÚRGICOS DEL ABC
A CATEGORY IN TRANSFORMATION: CHANGES AND CONTINUITIES ACROSS
GENERATIONS OF METALWORKERS IN THE ABC REGION
Aline Suelen PIRES
1
e-mail: alinep[email protected]
Carla Regina Mota Alonso DIÉGUEZ
2
e-mail: carladieg[email protected]
Como referenciar este artigo:
PIRES, Aline Suelen; DIÉGUEZ, Carla Regina Mota Alonso.
Uma categoria em transformação: mudanças e permanências
entre gerações de metalúrgicos do ABC. Estudos de Sociologia,
Araraquara, v. 31, n. esp. 1, e026004, 2026. e-ISSN: 1982-4718.
DOI: 10.52780/res.v31iesp.1.21105.
| Submetido em: 16/04/2026
| Revisões requeridas em: 28/04/2026
| Aprovado em: 15/05/2026
| Publicado em: 27/07/2026
Editora:
Profa. Dra. Maria Chaves Jardim
1
Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), São Carlos São Paulo (SP) Brasil. Docente do Departamento
de Sociologia e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) da UFSCar. Docente Departamento de
Sociologia e PPGS UFSCar.
2
Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), São Paulo São Paulo (SP) Brasil. Docente
convidada na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Docente convidada FESPSP.
Uma categoria em transformação: mudanças e permanências entre gerações de metalúrgicos do ABC
Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 31, n. esp. 1, e026004, 2026. e-ISSN: 1982-4718
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RESUMO: O artigo analisa as transformações geracionais entre trabalhadores metalúrgicos do
ABC Paulista, a partir de entrevistas, survey e observação em montadoras automotivas.
Inspirado na literatura clássica sobre o tema, identifica quatro gerações fundadora, das
greves, da reestruturação produtiva e “4.0” , delimitadas por experiências históricas e
trajetórias de socialização no trabalho. O foco de análise recai sobre a geração da reestruturação
produtiva, cerne da pesquisa qualitativa, marcada por tensões entre heranças do modelo fordista
e mudanças recentes na cultura do trabalho. A análise evidencia a coexistência de permanências
e rupturas, com destaque para a perda de centralidade simbólica da condição operária, a
crescente individualização e as dificuldades de engajamento coletivo. Ao mesmo tempo, o
emprego industrial mantém relevância relativa em um contexto de precarização mais ampla.
Por fim, problematiza-se a noção de uma “geração 4.0”, ressaltando sua heterogeneidade e
apontando desafios para a ação sindical e futuras pesquisas.
PALAVRAS-CHAVE: Gerações. Trabalho industrial. Metalúrgicos do ABC. Reestruturação
produtiva. Cultura do trabalho.
RESUMEN: El artículo analiza las transformaciones generacionales entre los trabajadores
metalúrgicos del ABC paulista, a partir de entrevistas, encuestas y observación en plantas
automotrices. Inspirado en la literatura clásica sobre el tema, identifica cuatro generaciones
—fundadora, de las huelgas, de la reestructuración productiva y “4.0”, delimitadas por
experiencias históricas y trayectorias de socialización en el trabajo. El foco del análisis recae
en la generación de la reestructuración productiva, núcleo de la investigación cualitativa,
marcada por tensiones entre las herencias del modelo fordista y los cambios recientes en la
cultura del trabajo. El análisis evidencia la coexistencia de permanencias y rupturas,
destacando la pérdida de centralidad simbólica de la condición obrera, la creciente
individualización y las dificultades de involucramiento colectivo. Al mismo tiempo, el empleo
industrial mantiene relevancia relativa en un contexto de precarización más amplio. Por
último, se problematiza la noción de una “generación 4.0”, resaltando su heterogeneidad y
señalando desafíos para la acción sindical y futuras investigaciones.
PALABRAS CLAVE: Generaciones. Trabajo industrial. Trabajadores metalúrgicos del ABC
Paulista. Reestructuración productiva. Cultura del trabajo.
ABSTRACT: The article analyses generational transformations among metalworkers in the
ABC region of São Paulo, based on interviews, survey data, and observations conducted in
automotive factories. Drawing on the classical literature on the subject, the article identifies
four generationsfoundational, strike-era, productive restructuring, and “4.0”which are
defined by their distinct historical experiences and workplace socialization trajectories. The
analysis focuses on the productive restructuring generation, which constitutes the core of the
qualitative research and is characterized by tensions between the legacies of the Fordist model
and recent changes in work culture. The findings emphasize the coexistence of both continuities
and ruptures, notably the loss of the symbolic centrality of the working-class condition, growing
individualization, and challenges in promoting collective engagement. At the same time,
industrial employment remains relatively relevant within a broader context of precarization.
Finally, the article problematizes the notion of a “4.0 generation,” emphasizing its
heterogeneity and highlighting the challenges for trade union action and future research.
KEYWORDS: Generations. Industrial work. Metalworkers in the ABC Paulista region.
Productive restructuring. Culture of work.
Aline Suelen PIRES e Carla Regina Mota Alonso DIÉGUEZ
Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 31, n. esp. 1, e026004, 2026. e-ISSN: 1982-4718
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Introdução
A pesquisa realizada por Beaud e Pialoux na fábrica da Peugeot na França, entre os anos
1980 e 1990, e que deu origem ao famoso livro Retorno à condição operária (Beaud e Pialoux,
2009), inspirou diversos estudos posteriores interessados em analisar as dinâmicas geracionais
no trabalho em cenários de transformação. Em particular, a obra se tornou uma referência
necessária para pesquisadores e pesquisadoras que, no Brasil, buscavam compreender, entre o
final dos anos 1990 e o início dos anos 2000, os impactos da reestruturação produtiva e das
políticas neoliberais sobre o trabalho industrial. No país, algumas análises se voltaram aos
trabalhadores metalúrgicos do ABC Paulista, por seu protagonismo, seu histórico combativo e
sua centralidade para reflexões sobre uma “condição operária” e como referência máxima de
trabalho formal, protegido e com direitos.
Aquelas pesquisas sobre o ABC abordavam, ao menos, duas gerações: uma primeira
formada por “veteranos” ou trabalhadores mais experientes, forjados nas lutas e greves da
passagem dos anos 1970 para os anos 1980, que culminaram na criação da CUT (Central Única
dos Trabalhadores) e do PT (Partido dos Trabalhadores); a segunda, pelos então “jovens”, que
ingressavam nas fábricas no contexto dos anos 1990 e início dos anos 2000, fortemente
impactada pela reestruturação produtiva. Hoje, cerca de 25 anos depois de algumas dessas
pesquisas, retornamos ao ABC e nos deparamos com outra realidade: aqueles jovens de então
constituíram uma geração de trabalhadores experientes, que atravessou turbulências provocadas
por transformações drásticas em termos tecnológicos, de gestão e nos modos de atuação
sindical. Contudo, novos trabalhadores continuam chegando, inserindo-se no trabalho na
indústria 4.0 e em um contexto de crise ainda mais aguda do trabalho formal e saturado de
apologias ao empreendedorismo e de apelos ao individualismo, configurando uma possível
nova geração
3
.
A proposta deste artigo é discutir as mudanças geracionais percebidas no trabalho
industrial no contexto atual. Buscaremos abordar as transformações nas condutas, práticas e
valores de trabalhadores de diferentes gerações, considerando as transformações em curso na
cultura do trabalho (Lima, 2024). Nosso foco serão trabalhadores metalúrgicos, em especial
aqueles das três grandes montadoras do setor automotivo do ABC Paulista, situadas em São
Bernardo do Campo (SP) Mercedes-Benz, Volkswagen e Scania. No interior do setor
metalúrgico local, os trabalhadores das montadoras formaram o que podemos considerar uma
3
Consultar artigo de Rodrigues e Lima (2026), que compõe esse dossiê, para uma caracterização mais detalhada
desse conjunto de trabalhadores.
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espécie de “primeiro escalão” dentre aqueles atuantes no ABC Paulista, considerados, de forma
geral, como a elite operária da classe trabalhadora brasileira.
Os dados aqui analisados resultaram, em primeiro lugar, de cerca de 30 entrevistas em
profundidade realizadas com dirigentes sindicais e lideranças metalúrgicas das três montadoras
remanescentes no ABC, notadamente sindicalistas e representantes dos CSEs (Comitês
Sindicais de Empresas), além de informações obtidas a partir de um questionário (survey)
aplicado em 906 trabalhadores da base
4
e observações realizadas nessas fábricas
5
. A proposta
é dialogar de forma direta com estudos anteriores, como Tomizaki (2005), Rodrigues (2009a,
2009b) Rodrigues e Martins (2005), Martins (2001), Corrochano (2001), Santos (2008) e
Araújo (2015).
Na próxima seção, buscaremos mapear as distintas gerações, situando-as nos diferentes
momentos históricos em que se estabeleceram, e elucidar em que termos abordaremos a noção
de “geração” neste artigo. Na seção seguinte, analisaremos aquela que nomeamos geração da
reestruturação produtiva, abordando seu perfil atual, bem como mudanças e permanências em
relação à sua caracterização nas pesquisas anteriores, nas quais figuravam como jovens
operários”. A última seção, que antecede as considerações finais, será dedicada às percepções
dessa geração em relação aos trabalhadores que chegaram e chegam às fábricas em um contexto
mais recente. Também analisaremos alguns atributos dessa nova geração 4.0.
As gerações no setor metalúrgico do ABC
Os estudos sociológicos envolvendo a questão geracional encontram em Karl
Mannheim uma referência fundamental. Ao apresentar uma proposta de superação da oposição
entre objetivismo e subjetivismo (Weller, 2010), o autor reitera que geração não é um grupo
concreto. O fato de um conjunto de pessoas ter nascido em um mesmo período não implica,
necessariamente, a adoção de comportamentos semelhantes, ainda que possam compartilhar
determinadas experiências ou presenciar acontecimentos comuns. O autor desdobra a noção de
geração em outras categorias posição, conexão e unidade geracional , evidenciando as
diferentes possibilidades que emergem quando se considera, de um lado, o pertencimento a uma
mesma faixa etária e a vivência em um determinado contexto histórico e social e, de outro, o
4
Entre os respondentes, quase 98% são sindicalizados. Embora não tenha havido uma preferência por
sindicalizados, o survey foi divulgado pelos meios sindicais, o que, certamente, impacta nos resultados.
5
Os dados resultam, sobretudo, da pesquisa “A condição operária revisitada: os trabalhadores da indústria
automotiva paulista no início do século XXI", coordenada pelo Prof. Iram Jácome Rodrigues e financiada pelo
CNPq (processo 407953/2021-3).
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surgimento de orientações e comportamentos semelhantes ou de vínculos efetivos (Mannheim,
1982).
Partindo dessa concepção mais abrangente, é importante destacar que não pretendemos,
no escopo deste artigo, desenvolver uma reflexão aprofundada sobre a questão geracional, mas
mobilizar a noção de geração como categoria operacional para compreendermos as mudanças
observadas na realidade analisada. Entendemos que a faixa etária ajuda a delimitar uma
geração, mas, ao mesmo tempo, este conceito não se resume apenas ao fator biológico, e,
portanto, utilizamos outras variáveis para caracterizar as gerações aqui apresentadas. Os dados
obtidos por meio do questionário aplicado (survey) indicam que a variável “tempo de empresa”
pode ser um marcador importante para a delimitação das gerações. A análise feita em pesquisas
anteriores com esses agentes (Rodrigues, 2009a; Rodrigues, 2009b; Rodrigues e Martins, 2005;
Tomizaki, 2007) mostra que as trajetórias similares dos trabalhadores, em conjunto com as
experiências coletivas vividas no cotidiano do trabalho, podem conformar uma geração que
independe da faixa etária, pois o que a caracteriza são as vivências e os entendimentos que os
contextos de trabalho, econômico e social informam a esses trabalhadores e que condicionam
de forma significativa suas escolhas individuais (Morel; Pessanha, 1991; Mannheim, 1982;
Tomizaki, 2007). Ainda é importante considerar que outros marcadores sociais como classe,
raça, gênero e território também se combinam na configuração das experiências e
percepções.
Para as finalidades aqui explicitadas, foram identificadas quatro gerações entre os
metalúrgicos do ABC, que foram delimitadas tendo por base dados das pesquisas anteriores e
evidências obtidas em nossa própria pesquisa. Para cada uma das gerações atribuímos uma
nomenclatura baseada nas “experiências que podem ser consideradas fundadoras da formação
de suas identidades como trabalhadores” (Tomizaki, 2007, p. 42).
A primeira foi identificada como geração fundadora, formada por trabalhadores que
ingressaram na categoria a partir de 1956 ano em que novas indústrias automobilísticas
chegaram à região do ABC
6
e caracterizada por Leôncio Martins Rodrigues em
Industrialização e Atitudes Operárias (2009a). Essa geração era formada, predominantemente,
por trabalhadores migrantes do interior de São Paulo muitos com experiência prévia na
agricultura , com baixa escolaridade, sem formação técnica, cujo aprendizado do ofício
6
Bicev (2019) aponta que a General Motors já estava presente no ABC desde 1927, mas os incentivos dados por
Juscelino Kubitschek à nacionalização da produção automobilística trouxeram novas fábricas para a região:
Mercedes-Benz (1956), Volkswagen Anchieta (1957), Scania (1962), Toyota (1962), Ford (1967).
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ocorria no cotidiano do trabalho. Marcada por baixa sindicalização e baixa politização, essa
geração quase não consumia bens culturais (rádio, televisão, cinema, jornais). Para Rodrigues
(2009a), esses trabalhadores ainda não estavam incorporados à sociedade urbana capitalista,
com comportamentos próximos de grupos comunitários. Sua vida girava em torno da casa, da
família e do bairro. Em relação às esposas, preferiam que não trabalhassem, ficando em casa
para cuidar dos filhos, não apenas para reduzir despesas, mas por entenderem que “lugar de
mulher é em casa”. Conforme o autor, apesar destes trabalhadores ainda não estarem
incorporados à dinâmica urbana, representariam o início daquilo que, a partir da segunda
geração, se configuraria como “metalúrgicos do ABC”. A perspectiva de ascensão social
aparece como um elemento estruturante de suas trajetórias, motivando a migração e a inserção
no trabalho industrial.
A segunda geração foi nomeada geração das greves, muito associada ao Novo
Sindicalismo. Os trabalhadores que a compõem ingressaram nas fábricas na metade da década
de 1970 e vivenciaram o período de greves, iniciado em 1978, possuindo uma escolaridade
superior em relação aos trabalhadores da geração fundadora.
Porém, ao lado desses trabalhadores de baixa escolaridade, surgiu uma
camada de operários fabris com nível educacional relativamente alto, com
oito ou mais anos de educação formal. Esse foi um dos aspectos em que se
deu uma das mais importantes mudanças no interior das classes trabalhadoras
brasileiras: a existência de parcelas do proletariado fabril com níveis de
instrução baixíssimos (que, em países mais desenvolvidos, tornariam
praticamente inexequível sua absorção no parque industrial) ao lado de
trabalhadores com oito ou doze anos de escolaridade (Rodrigues, 2009b, p.
103, grifos do autor).
Foi nesta geração que se conformou a imagem dos metalúrgicos do ABC como categoria
altamente sindicalizada e politizada, que viria a liderar as lutas sindicais e políticas a partir da
década de 1980, contribuindo para a formação do PT, da CUT e para a construção do principal
líder sindical do Brasil, que, anos depois, se tornaria Presidente da República. Trata-se,
sobretudo, de trabalhadores migrantes, de origem rural, que constituíram a primeira geração de
operários em suas famílias, com trajetórias marcadas pelo trabalho desde a infância. Eram
trabalhadores com qualificação média ou semiespecializada, tendo ocupado, principalmente,
postos manuais de trabalho, com passagens por outros setores e por empresas metalúrgicas de
menor porte antes de ingressarem nas montadoras. A inserção no setor automobilístico
representou uma melhoria das condições de vida, associada ao acesso a direitos trabalhistas e a
salários relativamente elevados, considerando-se a média da indústria nacional.
Aline Suelen PIRES e Carla Regina Mota Alonso DIÉGUEZ
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Esse grupo, contudo, também vivenciou alta rotatividade no emprego, além de violência
e humilhações por parte dos superiores, elementos mobilizadores da ação política. A identidade
operária dessa geração foi fortemente associada a valores como disciplina, responsabilidade,
esforço e orgulho do trabalho, atravessados por referências de masculinidade e virilidade
ligadas à valorização da força física. Suas formas de sociabilidade extrapolavam o espaço fabril
e se estruturavam também nos bairros operários do ABC, nas igrejas, no sindicato e em práticas
cotidianas como o futebol, o consumo de bebidas alcoólicas e cigarro (Tomizaki, 2005).
A terceira geração é identificada como geração da reestruturação produtiva, e está
presente nos estudos de Tomizaki (2007) e Rodrigues e Martins (2005), compondo o segmento
mais jovem pesquisado pelos autores. Formada predominantemente por nascidos no estado de
São Paulo, entrou em cena, sobretudo, na década de 1990, no contexto da reestruturação
produtiva, marcada pelo enxugamento da produção, redução do contingente de mão de obra,
implantação de novos processos de trabalho e aumento da automação. A escolaridade dos
trabalhadores desta geração é superior à da geração anterior, com, no mínimo, ensino médio
completo. “Estudar, portanto, faz parte de uma estratégia definida pelos jovens e seus pais com
vistas ao futuro, afirmando a crença na educação como um instrumento de mobilidade social”
(Rodrigues; Martins, 2005, p. 238).
É um grupo que possui qualificação técnica, com formação, sobretudo, pelo SENAI
(Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) (Rodrigues; Martins, 2005). A chegada desse
grupo considerado mais escolarizado e preparado produziu uma sensação de envelhecimento
no trabalho para os membros da geração anterior, que reivindicavam o reconhecimento de seus
saberes práticos e de suas conquistas materiais e simbólicas (Tomizaki, 2005). Segundo
Rodrigues e Martins (2005), apesar de reconhecerem a importância do sindicato para a
identidade operária, não havia, no contexto daquela pesquisa, uma identificação tão estreita
dessa geração (da reestruturação produtiva) com a militância como a que marcou a geração que
se envolveu nas lutas do final dos anos 1970 e parte dos anos 1980.
Suas trajetórias foram marcadas por maior instabilidade e por expectativas diferenciadas
em relação ao trabalho nas montadoras. Nesse contexto, a inserção no setor deixou de
representar, de forma tão evidente quanto para a geração anterior, uma promessa de estabilidade
e ascensão social. Contudo, as pesquisas realizadas por Rodrigues e Martins (2005) e Tomizaki
(2007), bem como os dados obtidos em nossa pesquisa, evidenciam que um certo valor
simbólico relacionado ao trabalho nas montadoras do ABC que está presente em todas as
gerações.
Uma categoria em transformação: mudanças e permanências entre gerações de metalúrgicos do ABC
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Por fim, temos a geração 4.0, identificada por meio dos dados de nossa pesquisa. Os
trabalhadores que a compõem ingressaram nas montadoras a partir da década de 2010, em um
contexto em que o processo de automação das linhas de produção tornou-se irreversível. É
marcada pela incorporação de novas tecnologias no ambiente produtivo em especial aquelas
associadas à chamada indústria 4.0
7
. É uma geração conectada, em que a comunicação é
realizada predominantemente de forma digital, de modo que as redes sociais virtuais constituem
importante espaço de socialização desse grupo. É ainda a geração que enfrentou de forma mais
concreta os impactos da pandemia de covid-19. É composta de trabalhadores escolarizados,
porém, nesse aspecto, sem modificações significativas em relação à geração anterior.
Após essas delimitações iniciais, voltamo-nos à análise das características e
experiências da chamada geração da reestruturação produtiva, “núcleo duro” de nossas
entrevistas em profundidade.
A geração da reestruturação produtiva
É possível dizer que o conjunto de trabalhadores que participou da etapa das entrevistas
qualitativas de nossa pesquisa corresponde, de forma aproximada, à geração da reestruturação
produtiva. São trabalhadores que possuem mais de 15 anos de empresa e se concentram na faixa
dos 40 aos 55 anos de idade, embora, como ressaltamos, as gerações não sejam aqui definidas
meramente com base em critérios etários
8
.
Este grupo corresponderia, também de maneira aproximada, ao segmento mais jovem
identificado por Tomizaki (2005) em estudo realizado na Mercedes-Benz no início dos anos
2000 e aos trabalhadores jovens perfilados por Rodrigues e Martins (2005) em pesquisa
realizada nas quatro principais montadoras do ABC em 2003. Como apontamos, esse grupo
ingressou no mercado de trabalho quando as transformações produzidas pela reestruturação
produtiva estavam em curso, isto é, a partir de meados da década de 1990. Em 2003, esses
jovens operários eram predominantemente do sexo masculino (96%), se autoidentificavam
majoritariamente como brancos (79%) pretos e pardos correspondendo aos 21% restantes
, eram, em maioria, católicos (66%), sendo 13% sem religião (Rodrigues; Martins, 2005).
7
A chamada “indústria 4.0” refere-se à incorporação de tecnologias digitais avançadas nos processos produtivos,
incluindo diversos recursos relacionados à internet das coisas, big data, robótica, inteligência artificial, entre outros
(Schwab, 2016).
8
Inclusive, parte significativa daqueles que têm menos de 15 anos de empresa também estão compreendidos nessa
mesma faixa etária.
Aline Suelen PIRES e Carla Regina Mota Alonso DIÉGUEZ
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Essa geração é composta majoritariamente por indivíduos nascidos na capital ou na
própria região do ABC, em grande parte filhos de migrantes e de metalúrgicos, cujas trajetórias
familiares foram marcadas por processos de mobilidade social ascendente. , contudo, entre
nossos entrevistados, migrantes que são os primeiros metalúrgicos em suas famílias. Trata-se,
em geral, de um grupo que sofreu forte influência familiar para a entrada na fábrica, com
percursos escolares mais regulares e prolongados, sendo regra geral a passagem pelo SENAI,
como exemplifica o trecho abaixo:
[...] nascido aqui no ABC, moro em Santo André. Quando você nasce no ABC,
geralmente, os pais falam assim: “Você vai fazer SENAI para entrar em
alguma empresa, em alguma indústria”. E foi. Quando eu fiz 14 anos, prestei
o SENAI de Santo André (Mauro
9
, 49 anos).
Se pesquisas anteriores (Rodrigues; Martins, 2005; Tomizaki, 2005) já apontavam uma
forte tendência de que esses (então) jovens estivessem acessando o ensino superior, tal
movimento se confirma nas trajetórias dos entrevistados desta pesquisa, muitos dos quais têm
diplomas universitários. Esse nível relativamente elevado de escolarização não impediu,
contudo, que a maioria iniciasse sua vida laboral ainda na adolescência. Antes de ingressarem
no setor metalúrgico, muitos desses trabalhadores exerceram outras atividades ou realizaram
diferentes “bicos”, com destaque para ocupações informais ou de subsistência como venda
ambulante, trabalho em feiras, oficinas mecânicas, além de funções como office-boy ou
ajudantes na construção civil. Passagens por outras empresas do setor metalúrgico na região,
antes das montadoras, marcam várias das trajetórias. Esse grupo de entrevistados apresenta um
conjunto de características marcadas por continuidades e tensões em relação ao padrão
sociocultural herdado. No que se refere aos projetos de vida, carreira e família, observam-se
trajetórias ainda relativamente lineares, fortemente ancoradas no modelo de família nuclear e
em valores associados à cultura fordista, o que é ilustrado pela fala a seguir:
Porque [...] a criação daquela época, você pensava em entrar em uma empresa,
né? Ter um trabalho, ter um salário, construir ali uma família, adquirir uma
casinha para morar, ter um carrinho para passear, para ir à praia. Esse era o
desejo daquela época, o sonho. Eu acho que o desejo da juventude de hoje
não é mais esse (Álvaro, 49 anos, 32 anos de empresa).
Entre nossos entrevistados, contudo, chamou a atenção um considerável número de
divórcios e pessoas em segunda ou terceira união e, nesse aspecto bem como em outros a
serem analisados , é preciso considerar que o grupo é composto, essencialmente, por
9
Os nomes reais dos entrevistados foram substituídos por nomes fictícios neste artigo.
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interlocutores militantes, atuantes sindical e politicamente
10
, o que, em geral, representa
impactos para as organizações familiares. A despeito desse fato, a configuração observada
indica a persistência de um horizonte normativo estável, ainda que tensionado por
transformações contemporâneas. A identidade operária desse grupo ainda é profundamente
marcada por uma transmissão intergeracional ou projeto de vida herdado, que vincula o destino
profissional à trajetória familiar, como podemos observar no relato a seguir:
Meu pai trabalhou por 21 anos na Mercedes-Benz. Ele saiu em 1987, ele se
aposentou e saiu da fábrica, mas, antes que ele saísse, ele conseguiu arrumar
uma vaga para mim [...] tem 38 anos que eu sou um trabalhador na
Mercedes-Benz. [...] Então, eu sou filho de operário, meu pai não foi um
militante sindical ou partidário. Algumas recordações que eu tenho do meu
pai, na época do final dos anos 70, 80 [...] quando ele chegava, por vezes, ele
trazia um jornalzinho no bolso, que era a Tribuna Metalúrgica do sindicato, e,
na hora da janta, ele sentava os filhos e lia a Tribuna (Milton, 58 anos, 38 anos
de empresa).
As instâncias clássicas de socialização operária notadamente a fábrica, a igreja (ainda
que com menor importância do que para as gerações anteriores) e o bairro ou comunidade
permanecem relevantes na conformação das experiências e visões de mundo desses sujeitos.
No campo religioso, predomina a herança católica familiar, mas atravessada por
questionamentos e processos de secularização, ao lado de uma presença minoritária, porém
crescente, de filiações evangélicas, que, segundo os relatos, são cada vez mais expressivas no
“chão de fábrica” (representando cerca de 24% do total dos respondentes do questionário). No
âmbito do lazer, práticas tradicionais como o futebol e o consumo de bebidas alcoólicas seguem
presentes para esse grupo, ainda que, aparentemente, com menor centralidade que nas gerações
pregressas, abrindo espaço para uma diversificação dos hábitos. Trata-se de uma geração
situada em uma condição intermediária entre o analógico e o digital, o que implica dificuldades
específicas de adaptação e pertencimento a esse espaço no que se refere aos aspectos
tecnológico e comunicacional, com importantes implicações na relação com os mais jovens,
como veremos adiante.
No plano das disposições culturais e políticas, destaca-se o esforço dessa geração em
incorporar agendas identitárias e promover rupturas com padrões historicamente enraizados de
machismo, racismo, homofobia e xenofobia, tanto em suas trajetórias individuais quanto nas
pautas de militância. Esse movimento, contudo, convive com a percepção do envelhecimento
10
Para uma discussão mais ampla sobre as lideranças sindicais, consultar o artigo de Martins e Melo que compõe
este dossiê.
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do próprio movimento social, de suas agendas e de suas formas de comunicação, sugerindo um
descompasso entre repertórios herdados e novas dinâmicas socioculturais.
Apesar de ainda avaliarem o trabalho na fábrica como um bom emprego, especialmente
ao se considerar o salário, os direitos e as garantias, os entrevistados reconhecem perdas
concretas e simbólicas associadas à condição operária, ocorridas nos últimos anos, tornando
o emprego no setor metalúrgico menos atrativo do que foi no passado. Em termos simbólicos,
trabalhar em grandes montadoras conferia a esses trabalhadores um status social em seu meio,
como salienta um de nossos interlocutores: “O cara trabalhava na Volks, o vizinho apontava
‘aquele fulano ali trabalha na Volks e não sei o que’” (Laércio, 55 anos, 40 anos de empresa).
Essa dimensão também se faz sentir quando questionamos esses trabalhadores sobre o
desejo de que seus filhos trabalhem na fábrica. Se, por um lado, boa parte dos interlocutores
defendem essa ideia, reforçando a importância da transmissão de um legado e as positividades
desse emprego o que é reforçado pelos dados quantitativos que indicam que quase 72% desse
grupo recomendaria esse trabalho a um filho, parente ou conhecido , outra parte destaca as
dificuldades do trabalho, as incertezas em relação ao futuro da indústria, bem como as
possibilidades concretas de que os filhos acessem outras oportunidades no mercado de trabalho.
Voltaremos a isso na próxima seção.
As perdas em termos da sociabilidade e da dimensão coletiva do trabalho e da vida na
fábrica também são particularmente sentidas e verbalizadas. Enquanto as gerações anteriores
construíam união a partir das opressões vivenciadas e das necessidades comuns, a realidade
atual é descrita como mais individualizada, distanciada e competitiva. Nesse aspecto, as
mudanças nos espaços e práticas de lazer e sociabilidade compartilhados, bem como a ascensão
dos celulares e redes sociais virtuais, teriam resultado na fragilização dos vínculos coletivos,
como demonstram os relatos abaixo, que se complementam:
No passado, eu acho que a fábrica, por necessidade, era mais unida. Por conta
da pressão que tinha, da cobrança que existia, das condições de trabalho, da
necessidade de avançar, tanto na questão salarial quanto fora da fábrica
também, questão de moradia e tudo (Reginaldo, 46 anos, 31 anos de empresa).
Eu vejo que a relação era melhor no passado. [...] Tinha muitas atividades,
muitos eventos que envolviam os trabalhadores. [...] Não sei se pelas tarefas
do dia a dia das pessoas ou pela questão da virtualidade, hoje as coisas são um
pouco distintas. Mas essa relação interpessoal eu vi que mudou muito, ela é
uma relação mais distanciada, vamos dizer assim. [...] E eu vejo muito a
questão da competitividade também (Cristian, 42 anos, 28 anos de empresa).
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É interessante notar, a partir da pesquisa de Tomizaki (2005), que, com o
envelhecimento dos trabalhadores, muitos dos discursos da geração da reestruturação
produtiva passam a convergir com os discursos, ideias e preocupações da geração das greves.
Em outras palavras, esse grupo passou a atribuir, de forma crítica aos trabalhadores mais jovens,
características semelhantes àquelas que, no passado, lhes eram imputadas. Destacam-se, nesse
sentido, acusações relativas à falta de comprometimento e de engajamento, bem como ao
desconhecimento e consequente não reconhecimento da história da categoria metalúrgica
no ABC, da qual esses trabalhadores seriam herdeiros e beneficiários. Assim, a fixação dos
trabalhadores mais jovens nos postos de trabalho e, sobretudo, a renovação das lideranças
operárias aparecem como alguns dos principais desafios e preocupações para essa geração.
Por fim, antes de examinar propriamente as percepções que essa geração elabora sobre
os trabalhadores que vêm ingressando nas fábricas nos últimos anos, é importante assinalar a
existência de diferenças significativas nos discursos e nas representações no interior desse
próprio grupo. Tais diferenças se manifestam especialmente entre os entrevistados mais jovens
(na casa dos 30 anos ou no início dos 40) e aqueles que se aproximam ou ultrapassaram os
cinquenta anos, evidenciando clivagens internas relevantes. Nos discursos dos mais jovens
desse conjunto, observam-se alinhamentos em termos de valores fundamentais com a geração
anterior, mas também maior empatia e proximidade em relação a traços associados à geração
subsequente. Entre os elementos que expressam essa clivagem, destaca-se a maior familiaridade
e capacidade de utilização dos meios virtuais de comunicação, inclusive como ferramenta de
atuação sindical.
Uma geração 4.0?
No caso dos metalúrgicos do ABC, [...] torna-se difícil saber qual será o
comportamento dos jovens como herdeiros quando esses, de fato, assumirem
o lugar de seus pais, seja na fábrica, no sindicato ou em suas famílias. Na
realidade, a primeira questão que se coloca é se eles assumirão esses espaços,
visto que até esse momento, a maioria deles considera estar "de passagem"
pela condição de operário (Tomizaki, 2005, p. 264).
No trecho que adotamos como epígrafe desta seção, Tomizaki (2005) se refere à geração
da reestruturação produtiva (como aqui classificamos), composta pelo segmento mais jovem de
operários na ocasião de sua pesquisa. A seção anterior buscou, em alguma medida, responder
aos questionamentos ali suscitados. Contudo, chama a atenção o fato de que aqueles jovens
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se percebiam como estando “de passagem” pela condição operária percepção que também
se manifesta de forma recorrente entre aqueles que aqui denominamos geração 4.0, segundo
relatos de nossos entrevistados. Tal recorrência sugere que elementos frequentemente
identificados como “novos” ou característicos da juventude contemporânea podem, na
realidade, não constituir propriamente uma novidade.
O título desta seção é acompanhado por um ponto de interrogação porque, ao
analisarmos os dados, levantamos o questionamento sobre, primeiramente, em que medida é
possível falarmos em uma geração 4.0 e, principalmente, como delimitá-la. Mesmo reafirmando
que apenas critérios etários não são capazes de definir esse grupo, sendo necessário combinar
esse marcador com o tempo de empresa, há certa heterogeneidade percebida através dos dados
que deve ser problematizada. Ao considerar outros marcos, estamos falando de um conjunto de
trabalhadores que se inseriu nesse trabalho em um contexto pós-crise de 2008 e, portanto, de
declínio econômico e queda na produção automotiva, e que tem vivenciado fortemente a
incorporação de novas tecnologias no âmbito da indústria 4.0.
Buscaremos colocar em contraste, de um lado, os dados obtidos a partir da pesquisa
qualitativa, que são os discursos da geração da reestruturação produtiva foco de nossas
entrevistas em profundidade sobre essa geração mais recente e, de outro, os dados do survey,
através dos quais podemos acessar, em alguma medida, o que os trabalhadores da geração 4.0
dizem sobre si. Sem desconsiderar que estamos mobilizando dados de diferentes naturezas,
esboçamos algumas análises que poderão ser aprofundadas em futuras pesquisas.
Um primeiro elemento a ser considerado é a percepção de que o conjunto de
trabalhadores que ingressam na fábrica no contexto mais recente, sobretudo aqueles mais
jovens, não têm perspectiva de permanência no trabalho industrial, o qual se configuraria como
um “trampolim” para outras atividades ou experiências. Ou seja, esse trabalho seria visto como
situação transitória ou meio para alcançar outros objetivos ou projetos.
Vocês perceberão que o trabalhador hoje na montadora, ele já não tem mais a
perspectiva de aposentadoria. O trabalho em uma montadora que no passado
era o ápice do trabalho que você podia ter, era o melhor dos trabalhos, né?
Hoje, o trabalho em montadora também é um trabalho de trampolim. [...] É ali
onde o cara vai se estruturar para ter um outro tipo de carreira, normalmente
em TI, alguma coisa do gênero. Então ele não sonha mais em permanecer na
montadora como na minha época (Laércio, 55 anos, 40 anos de empresa).
Com toda certeza! Eles estão de passagem! Tanto é que, nas últimas
contratações que foram feitas na Volkswagen, foram feitas 100 contratações,
50 foram embora. Aí você vai, olha o público, 20 anos, 19 anos... 20 anos, 23
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anos, 24 anos, que nunca trabalhou na indústria, que não conhece qual é a
importância da indústria, porque a existência da indústria, né? E tivemos que
repor essas áreas. [...] Mesmo com os benefícios, com o transporte,
alimentação, plano médico e tudo mais, eles preferem outra área... (César, 46
anos, 28 anos de empresa).
Os relatos acima são muito ilustrativos daquilo que ouvimos nas entrevistas. Segundo
os interlocutores, é muito comum que os mais jovens optem por deixar a fábrica com pouco
tempo de casa, após terem feito um “pé-de-meia” e, sobretudo, quando surge a oportunidade de
obter uma indenização financeira como parte de um PDV (Programa de Demissão Voluntária),
como demonstra a fala de Reginaldo (46 anos, 31 anos de empresa): “alguns nem fazem o
estágio, acabou o curso [do SENAI] e eles vão embora; outros ainda fazem o estágio, efetiva,
depois de um tempo pega o PDV e vai embora”.
Os dados quantitativos apontam, contudo, que essa percepção geral deve ser nuançada.
Entre os respondentes do questionário, chama a atenção o fato de que parte significativa dos
mais jovens tem como perspectiva permanecer. Quando perguntados sobre o que pensam do
trabalho no futuro, entre aqueles com até 15 anos de empresa, 75% pretendem se aposentar na
fábrica, inclusive aqueles que possuem até 30 anos de idade. Claro que, quando observadas as
faixas de tempo na empresa, quanto mais tempo estes trabalhadores estão na fábrica, maior é a
tendência quererem permanecer nela. Nesse sentido, também parece plausível afirmar que as
falas referentes à efemeridade dos trabalhadores nos postos de trabalho remetem a processos,
de fato, mais recentes e a trabalhadores muito jovens, os quais, inclusive, são muito minoritários
no survey, sugerindo a necessidade de compreender melhor qual é o perfil dos jovens que, de
fato, permanecem e qual o perfil dos jovens que deixam rapidamente essas empresas.
O fato de mais de 40% dos trabalhadores respondentes do survey estarem nas
montadoras mais de 16 anos e metade deles terem iniciado os seus processos de socialização
no trabalho no setor industrial sugere que a fábrica é vista, por conta da própria transmissão
geracional (Tomizaki, 2010), como o espaço natural para o início da vida laboral e, talvez, o
único possível. Rodrigues; Martins (2005, p. 239) já apontavam essa tendência. Em análise dos
dados produzidos por sua pesquisa e por outras pesquisas com jovens trabalhadores
(Corrochano, 2001; Martins, 2001), os autores percebem que os jovens daquela geração
entendiam o trabalho na fábrica como “[...] provisório, como algo pelo qual devem passar nessa
fase da vida, enquanto adquirem habilidades e competências, na escola e no emprego, que lhes
permitam ascender profissional e socialmente” (Rodrigues; Martins, 2005, p. 239). No entanto,
há 20 anos, os autores também já reconheciam que “[…] esse provisório parece se transformar
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em definitivo e poucos são os que conseguem escapar da condição operária” (Rodrigues;
Martins, 2005, p. 239).
Quando analisamos os dados obtidos a partir do survey, observamos uma predominância
de trabalhadores que corresponderiam à geração da reestruturação produtiva. Entre os
respondentes, mais de 50% estão acima dos 41 anos (62%), e quase 30% estão na faixa de 31 a
40 anos, sendo que cerca de 60% do conjunto total ingressou nas fábricas a partir de 2010 (15
anos na empresa ou menos). Os dados apontam que um processo de envelhecimento, com
elevação da faixa etária dos trabalhadores nas fábricas, intensificando uma tendência já notada
em pesquisas do início dos anos 2000 (Tomizaki, 2005; Rodrigues; Martins, 2005). Chama a
atenção o fato de que, entre os respondentes do questionário, apenas 8% têm até 30 anos de
idade, embora o percentual com até 10 anos de empresa corresponda a cerca de 28%. Esse dado
pode indicar uma menor permanência dos trabalhadores mais jovens nesse tipo de ocupação,
hipótese que encontra respaldo nas entrevistas qualitativas com membros da geração da
reestruturação produtiva, nas quais a dificuldade de retenção dos mais jovens foi mencionada
de forma recorrente.
Além da dimensão da permanência nos postos de trabalho, há uma percepção clara, nas
entrevistas com as lideranças, de que, apesar dos esforços do sindicato, os mais jovens não se
engajam nas pautas sindicais e na luta por melhores condições de trabalho a despeito da
elevada taxa de sindicalização observada no survey , entre outras razões, porque não têm
expectativas de longa permanência. Nossos interlocutores, apesar de considerarem as condições
de trabalho, remuneração e benefícios nessas empresas muito satisfatórias, reconhecem a
degradação da condição operária nos últimos anos, resultante de mudanças organizacionais,
tecnológicas, contratuais, salariais etc. Contudo, para além da dimensão objetiva, há uma perda
do valor simbólico de ser um metalúrgico do ABC e de todas as representações associadas a
essa condição segurança, estabilidade, direitos. Isso é evidente na fala de Galvão (56 anos,
37 anos de empresa): Antigamente, a gente botava um crachazinho da empresa olha, eu sou
metalúrgico; pô, o cara é metalúrgico, desse jeito, e hoje você não vê mais essa empolgação.
Os desafios são enormes, porque há uma mudança cultural da sociedade”.
A impermanência percebida estaria muito relacionada a transformações mais amplas em
termos de valores e visão de mundo. Nesse sentido, os valores individuais tendem a se sobrepor
aos interesses e preocupações relacionados ao coletivo, ou, em outras palavras, ao
pertencimento de classe. Como parece sintetizar Elton (48 anos, 28 anos de empresa), “nosso
projeto de sociedade não encanta mais”. Consequentemente, uma avaliação consensual de
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que uma grande dificuldade de se comunicar com os mais jovens e de encontrar uma
linguagem que atinja e mobilize esse grupo em particular. É nesse sentido que um dos
entrevistados elabora alguns questionamentos:
Será que nós, lideranças, estamos atentos aos movimentos da nossa cadeia
produtiva, atentos aos novos jovens que chegam no mercado de trabalho? Será
que a indústria hoje é atrativa como era na década de 1980 para os
trabalhadores jovens? Para os jovens que ali começavam como o office boy,
né? E que iam se formando e viravam o encarregado, o supervisor, o gerente,
o diretor da fábrica? Será que hoje a indústria proporciona isso? Essa
estabilidade para esses jovens? Porque hoje tem os aplicativos, e os aplicativos
são muito mais atrativos para o jovem, que não quer ter nenhum tipo de
amarração ou comprometimento com o seu horário, porque hoje não é
simplesmente 8h de jornada. Dependendo da localização que você está, no
ABC, em São Paulo, em Sorocaba, você demora 2h no trânsito para ir, para se
locomover até a fábrica, depois mais 2h para voltar até a sua casa. Estamos
falando de 12h de jornada, não são 8h de jornada, são 12h de jornada. Será
que o jovem hoje vislumbra a liberdade ou vislumbra ter uma condição de
vida melhor, mais saudável, inclusive, de formação, de qualificação, de
preocupação, inclusive com a sua saúde, de praticar um esporte, de frequentar
um teatro? (Leonardo, 40 anos).
Os relatos reconhecem que o trabalho na indústria já não é mais tão atrativo quanto foi
no passado, mas, para além dessa constatação, indicam que anseios em termos de
liberdade/autonomia e realização pessoal não vêm sendo supridos pelas formas mais
tradicionais e formais de trabalho, que, ainda que ofereçam benefícios e certa segurança, são
rígidas em termos de horários, procedimentos e hierarquias. Nesse contexto, atividades que
possibilitariam, em tese, maior liberdade ainda que com poucos ou nenhum direito são
capazes de exercer atração, sobretudo sobre os mais jovens. O trabalho plataformizado ou
mesmo outras formas de “ganhar a vida” formas diversas de empreendedorismo, comércio
digital, investimento na bolsa e em criptomoedas e mesmo apostas online têm ganhado
destaque, fortemente orientadas por influenciadores digitais (Pires; Perin, 2024; Pires; Rizek;
Oliveira, 2026). Essas transformações na cultura do trabalho (Lima, 2024) são captadas pelos
entrevistados:
E hoje em dia você vê que é uma opção das pessoas, elas escolhem... Hoje, o
trabalhador, o jovem, ele escolhe não estar mais dentro de uma fábrica 8h por
dia em uma linha de produção, em um ritmo alucinante. Ele escolhe: “Eu não
quero isso para mim”. Então, a relação é outra. Ele opta por trabalhar na
informalidade como um Uber, por exemplo, onde ele fala: “Eu administro meu
tempo. Eu sou meu patrão. Eu não tenho ninguém no meu pé.” Então, é isso.
Então, essa relação mudou, de fato. Eu até falei, antes as pessoas sonhavam
em entrar em uma montadora. Hoje nós temos dentro da montadora o SENAI,
que forma a meninada do SENAI, os filhos de trabalhadores, e esses meninos,
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quando eles se formam, dependendo da nota que eles atingem, a fábrica é
obrigada a contratá-los. Então, eles são contratados, que quando eles
chegam na produção, a primeira coisa que eles perguntavam para os dirigentes
sindicais é: “Quando é que tem PDV?”, porque ele queria pegar o PDV e fazer
outra coisa. Ele não se ali. Então, isso mudou, tá? Essa relação mudou
bastante, esse interesse do trabalhador hoje pela indústria já não atrai muito
se for muito bem remunerado. O que a gente não encontra por aí. Então,
para ganhar R$ 2-3 mil, eu vou ganhar R$ 2-3 mil sendo Uber ou fazendo
outra coisa qualquer, entendeu? (Ricardo, 56 anos).
As mudanças em termos de valores se refletem na dificuldade de comunicação. Embora
a comunicação entre gerações distintas sempre encontre desafios, o uso constante de
smartphones e o engajamento nas redes sociais produzem obstáculos importantes para a
dimensão coletiva, a socialização dos trabalhadores no meio e a abertura a diálogos e discursos
que possibilitariam a transmissão da cultura operária, como podemos observar no trecho abaixo:
A gente ainda não entendeu como lidar com o trabalhador pelas nossas redes,
de alguma maneira a gente não é atrativo. Na verdade, o jovem quer olhar um
vídeo de 30 segundos aqui no celular que é engraçado ou que fala de alguma
coisa que ele gosta: coisa de academia, ciclismo, pescaria, tudo. E a gente
ainda não sabe como furar essa bolha, a gente ainda não aprendeu a furar essa
bolha (Alexandre, 42 anos, 15 anos de empresa).
Como mencionamos, a geração da reestruturação produtiva ainda foi, em grande parte,
socializada em ambientes fábrica, igreja católica progressista, bairro operário que
favoreceram a incorporação de valores mais coletivos e pautados na segurança e na estabilidade.
Na visão dos entrevistados, o meio digital adquiriu tal influência e protagonismo que tornam a
disputa por corações e mentes significativamente mais desafiadora. Nesse aspecto, o
crescimento das religiões neopentecostais também representa outro desafio significativo (que
não abordaremos aqui em maior profundidade). A fala abaixo é ilustrativa:
Tenho um time de futebol e tem muita molecada que eu tenho contato, em
nenhum momento eu vejo alguém falar assim: “Eu quero entrar em uma
metalúrgica, entrar em uma fábrica.” Não vejo. Hoje eles querem ser youtuber,
eles querem trabalhar em rede social, mas eu não... Mesmo a minha filha, eu
tenho uma filha de 26 anos, 27, ela nunca falou, nunca cogitou falar assim:
“Nossa, bem que você podia arrumar um emprego para mim em alguma
empresa.” [...] Hoje o jovem entra na empresa, quando entra, aquilo ali é
para ele... isso quando não é para comprar uma moto para ser entregador, isso
é demais. Eles entram, juntam dinheiro, compram uma moto e vira entregador,
porque não tem horário, não tem nada, eles fazem... então infelizmente…
(Mauro, 49 anos).
Apesar dos relatos reconhecerem essas tendências, os dados do questionário mostram
que pouco mais de dois terços dos trabalhadores consideram as condições de trabalho boas ou
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ótimas, e mais da metade se sente segura na empresa inclusive entre aqueles com até 15 anos
de casa. Ainda assim, preocupação com a perda do emprego: nesse grupo, cerca de 27%
estão muito preocupados e 49%, parcialmente.
Apesar da hierarquia, da dificuldade de acesso a postos mais qualificados, da
intensificação do trabalho (Bicev, 2019) e da perda simbólica da categoria metalúrgica, os
trabalhadores reconhecem que suas condições ainda são melhores em um mercado marcado
pela pejotização e pela precarização. O emprego industrial segue majoritariamente formal, com
salários e benefícios superiores à média: estudo da CNI (2025), com base na PNAD Contínua
de 2024, indica rendimento 15% maior que nos setores agropecuário e de serviços.
Mesmo com a precarização recente associada às mudanças nas leis trabalhistas, à
automação e à redução do emprego nas montadoras , o trabalho nas empresas automotivas
do ABC Paulista ainda garante renda estável e melhores condições relativas. Apesar da crise
sindical (Santana; Rodrigues; Diéguez, 2023), o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC segue
relevante na manutenção dessas condições.
A transição para outros setores, especialmente o de serviços, exige maior escolaridade
e qualificações específicas, sobretudo em áreas como finanças e tecnologia (IBGE, 2025). Isso
contrasta com a trajetória da maioria: entre os trabalhadores com até 15 anos de empresa, pouco
mais de 55% têm apenas o ensino médio. Além disso, a socialização no trabalho industrial e a
própria experiência prévia dificultam a inserção em outros setores, sobretudo quando
associadas à idade.
Nesse contexto de crise econômica, instabilidade política e avanço tecnológico,
permanecer na condição operária pode parecer menos arriscado para este grupo que segue nas
fábricas: garante emprego, salário e sobrevivência. Não se trata de falta de ambição, mas do
reconhecimento de um cenário mais duro e incerto. Apesar das dificuldades, a fábrica segue
sendo um espaço conhecido, no qual esses trabalhadores se orientam com maior segurança.
Por fim, e refletindo sobre as possibilidades de transmissão geracional, observa-se que
os entrevistados da geração da reestruturação produtiva atribuem elevado valor às suas próprias
trajetórias nas fábricas, bem como ao histórico dos trabalhadores metalúrgicos do ABC. Nesse
sentido, expressam o desejo de que seus filhos conheçam e, de alguma forma, deem
continuidade a esse legado, contudo, não necessariamente no interior das fábricas e, tampouco,
por longos períodos na produção, ainda reconhecida como um “trabalho duro”:
Porque eu acho que hoje para um jovem chegar e entrar em uma metalúrgica
e se estagnar ali no chão de fábrica, é difícil. É difícil constituir uma família,
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pagar aluguel. Mas, eu ficaria muito feliz se ele [o filho] ingressasse, mas não
ficasse parado, estudasse e seguisse carreira. Mas, eu ficaria muito feliz,
sim! E converso muito com ele. E ele tem essa expectativa de fazer 18 anos e
entrar em uma fábrica. Tomara que ele consiga ou, de repente, consiga algo
melhor também” (João, 45 anos, 22 anos de empresa).
Não [deseja que a filha tivesse o mesmo trabalho que ele]. Eu acredito que nós
vivemos um outro momento. Ela não vai viver o momento que eu vivi. Hoje,
as condições de trabalho são bem melhores, na minha opinião, mas eu quero
dar para ela o que eu não tive condições de ter, que hoje eu tenho condições
de ter. Hoje, eu tenho um salário mais ou menos, minha esposa também
trabalha, então eu vou fazer o máximo. Eu posso ser egoísta, mas é isso que
eu penso, se minha filha puder ser médica, ela vai ser médica, se minha filha
puder estudar, o quanto que eu puder dar de educação para ela, de formação,
de educação, de custear, eu vou custear, para ela ter uma vida melhor do que
eu tive. [...] uma profissão que vai dar mais conforto para ela” (Manoel, 53
anos, 25 anos de empresa).
Alguns dos relatos revelaram um esforço ativo de muitos dos entrevistados em
incentivar e criar meios para que os filhos ingressassem nas fábricas. Contudo, o
reconhecimento das dificuldades desse trabalho inclusive na dimensão física e das
mudanças no mundo industrial. O grupo de entrevistados teve acesso a uma escolarização mais
prolongada e a posições com maiores remunerações e prestígio, além da formação na militância
política, tendo conseguido possibilitar para os filhos boas condições de formação e,
consequentemente, que vislumbrassem uma carreira fora da fábrica ou uma inserção mais
qualificada no meio fabril, com pretensões de rápida ascensão hierárquica, ou, de alguma forma
seguir no setor, mas em ocupações que não passam diretamente pelo chão de fábrica, como nas
áreas de Tecnologia da Informação, Engenharia, Administração, Direito etc.
Considerações finais
As análises desenvolvidas ao longo do artigo permitem afirmar que as transformações
observadas entre os metalúrgicos do ABC não podem ser compreendidas como uma simples
ruptura geracional, mas antes como um processo de reconfiguração contínua da condição
operária, no qual permanências e deslocamentos se entrelaçam.
A noção de geração, mobilizada aqui como ferramenta analítica, evidenciou que as
diferenças entre os grupos não se esgotam em critérios etários, mas se estruturam a partir de
experiências históricas compartilhadas, trajetórias de socialização e condições materiais
específicas. Nesse sentido, a chamada geração da reestruturação produtiva ocupa uma posição
particularmente reveladora ao condensar tanto heranças do modelo fordista quanto tensões
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próprias de um contexto marcado pela flexibilização, pela intensificação do trabalho e pela
perda de centralidade simbólica da indústria.
Ao mesmo tempo, os dados indicam que as percepções construídas por essa geração
sobre os trabalhadores mais jovens frequentemente associadas à provisoriedade, ao
individualismo e ao distanciamento em relação à ação coletiva devem ser analisadas com
cautela. Por um lado, tais leituras atualizam um padrão recorrente de interpretação
intergeracional, no qual novos ingressantes o vistos como menos comprometidos ou
engajados; por outro, refletem transformações mais amplas na cultura do trabalho, atravessada
pela difusão de valores associados à autonomia, à flexibilidade e à realização individual. A
aparente tensão entre os achados qualitativos e quantitativos sugere, assim, a necessidade de
complexificar a ideia de uma “geração 4.0”, reconhecendo sua heterogeneidade interna e
evitando interpretações homogêneas ou normativas sobre suas disposições e expectativas.
Nesse quadro, um dos achados centrais do estudo reside justamente na coexistência de
processos aparentemente contraditórios: enquanto se observa a erosão do valor simbólico da
condição operária e a fragilização de formas tradicionais de sociabilidade e organização
coletiva, o trabalho nas montadoras do ABC segue sendo percebido como uma referência
relativamente positiva em um mercado de trabalho marcado pela precarização. A permanência
de trajetórias relativamente longas, mesmo entre aqueles que inicialmente se percebem “de
passagem”, revela os limites concretos das alternativas disponíveis e aponta para a persistência
da fábrica como espaço estruturante de inserção laboral e reprodução social para segmentos da
classe trabalhadora.
Por fim, os resultados aqui apresentados abrem um conjunto de questões para
investigações futuras. Destaca-se, em particular, a necessidade de aprofundar a compreensão
sobre os diferentes perfis de jovens que ingressam e permanecem (ou não) no trabalho
industrial, bem como sobre os modos pelos quais novas tecnologias, formas de comunicação e
dinâmicas culturais reconfiguram as possibilidades de construção de identidades coletivas e de
ação política. Ademais, torna-se fundamental investigar em que medida os repertórios sindicais
e organizativos serão capazes de se reinventar frente a esse novo cenário, marcado por
transformações nas esferas produtiva, simbólica e subjetiva, e quais serão os efeitos dessas
mudanças para o futuro da ação coletiva e do mundo do trabalho.
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REFERÊNCIAS
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adulto do ABC Paulista: revisitando as contribuições de E. P. Thompson. Tempos Históricos,
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Ali n e S u ele n PI R E S e C arl a R e gi n a M ot a Al o ns o D I É G U E Z
Est u d os d e S o ci ol o gi a , Ar ara q u ar a, v. 3 1 , n. es p. 1 , e 0 2 6 0 0 4 , 2 0 2 6 . e -I S S N: 1 9 8 2 -4 7 1 8
D OI: 1 0. 5 2 7 8 0/r es. v 3 1i es p. 1. 2 1 1 0 5 2 3
C R e di T A ut h or St at e m e nt
R e c o n h e ci m e nt os : A gr a d e c e m os a o C N P q C o ns el h o Na ci o n al d e D es e n v ol vi m e nt o
Cie ntífi c o e T e c n ol ó gi c o p el o a p oi o fi n a n c eir o à r e ali z a ç ã o d ess a p es q uis a ( pr o c ess os:
4 0 7 9 5 3/ 2 0 2 1 -3 e 3 0 4 8 9 3/ 2 0 2 5 -0).
Fi n a n ci a m e nt o : C N P q C o ns el h o N a ci o n al d e D es e n v ol vi m e nt o Ci e ntífi c o e T e c n ol ó gi c o
( pr o c ess os: 4 0 7 9 5 3/ 2 0 2 1-3 e 3 0 4 8 9 3/ 2 0 2 5 -0).
C o nflit os d e i nt e r ess e : N ã o h o u v e c o nflit os d e i nt er ess e .
A p r o v a ç ã o éti c a : N ã o pr e cis o u .
Dis p o ni bili d a d e d e d a d os e m at e ri al : Nã o .
C o nt ri b ui ç õ es d os a ut o r es : Utili z a ç ã o d e f erra m e ntas d e I A a p e n as p ar a tr a d u ç ã o d e t ul o,
r es u m o e p al a vr as-c h a v e e p ar a r e vis õ es p o nt u ais d e r e d a ç ã o e c orr e ç ã o li n g sti c a. A
c o n c e p ç ã o d o t e xt o, a a n ális e e a r e d a ç ã o d o c o nt e ú d o s ã o i nt e gr al m e nt e d e a ut ori a d as
a ut or as.
P r o c ess a m e nt o e e dit o r a ç ã o: E dit o r a I b e r o -A m e ri c a n a d e E d u c a ç ã o
R e vis ã o, f or m at a ç ã o, n or m ali z a ç ã o e tr a d u ç ã o
Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 31, n. esp. 1, e026004, 2026. e-ISSN: 1982-4718
DOI: 10.52780/res.v31iesp.1.21105 1
A CATEGORY IN TRANSFORMATION: CHANGES AND CONTINUITIES
ACROSS GENERATIONS OF METALWORKERS IN THE ABC REGION
UMA CATEGORIA EM TRANSFORMAÇÃO: MUDANÇAS E PERMANÊNCIAS
ENTRE GERAÇÕES DE METALÚRGICOS DO ABC
UNA CATEGORÍA EN TRANSFORMACIÓN: CAMBIOS Y PERMANENCIAS ENTRE
GENERACIONES DE TRABAJADORES METALÚRGICOS DEL ABC
Aline Suelen PIRES
1
e-mail: alinep[email protected]
Carla Regina Mota Alonso DIÉGUEZ
2
e-mail: carladieg[email protected]
How to reference this paper:
PIRES, Aline Suelen; DIÉGUEZ, Carla Regina Mota Alonso. A
category in transformation: changes and continuities across
generations of metalworkers in the ABC region. Estudos de
Sociologia, Araraquara, v. 31, n. esp. 1, e026004, 2026. e-ISSN:
1982-4718. DOI: 10.52780/res.v31iesp.1.21105.
| Submitted: 16/04/2026
| Revisions required: 28/04/2026
| Approved: 15/05/2026
| Published: 27/07/2026
Editor:
Profa. Dr. Maria Chaves Jardim
1
Federal University of São Carlos (UFSCar), São Carlos São Paulo (SP) Brazil. Faculty Member in the
Department of Sociology and the Graduate Program in Sociology (PPGS) at UFSCar. Faculty Member,
Department of Sociology and Graduate Program in Sociology (PPGS), UFSCar.
2
Foundation School of Sociology and Politics of São Paulo (FESPSP), São Paulo São Paulo (SP) Brazil.
Visiting Faculty Member at the São Paulo School of Sociology and Politics Foundation (FESPSP). Visiting Faculty
Member, FESPSP.
A category in transformation: changes and continuities across generations of metalworkers in the ABC region
Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 31, n. esp. 1, e026004, 2026. e-ISSN: 1982-4718
DOI: 10.52780/res.v31iesp.1.21105 2
ABSTRACT: The article analyses generational transformations among metalworkers in the
ABC region of São Paulo, based on interviews, survey data, and observations conducted in
automotive factories. Drawing on the classical literature on the subject, the article identifies
four generationsfoundational, strike-era, productive restructuring, and 4.0”—which are
defined by their distinct historical experiences and workplace socialization trajectories. The
analysis focuses on the productive restructuring generation, which constitutes the core of the
qualitative research and is characterized by tensions between the legacies of the Fordist model
and recent changes in work culture. The findings emphasize the coexistence of both continuities
and ruptures, notably the loss of the symbolic centrality of the working-class condition, growing
individualization, and challenges in promoting collective engagement. At the same time,
industrial employment remains relatively relevant within a broader context of precarization.
Finally, the article problematizes the notion of a 4.0 generation, emphasizing its heterogeneity
and highlighting the challenges for trade union action and future research.
KEYWORDS: Generations. Industrial work. Metalworkers in the ABC Paulista region.
Productive restructuring. Culture of work.
RESUMO: O artigo analisa as transformações geracionais entre trabalhadores metalúrgicos
do ABC Paulista, a partir de entrevistas, survey e observação em montadoras automotivas.
Inspirado na literatura clássica sobre o tema, identifica quatro geraçõesfundadora, das
greves, da reestruturação produtiva e 4.0 , delimitadas por experiências históricas e
trajetórias de socialização no trabalho. O foco de análise recai sobre a geração da
reestruturação produtiva, cerne da pesquisa qualitativa, marcada por tensões entre heranças
do modelo fordista e mudanças recentes na cultura do trabalho. A análise evidencia a
coexistência de permanências e rupturas, com destaque para a perda de centralidade simbólica
da condição operária, a crescente individualização e as dificuldades de engajamento coletivo.
Ao mesmo tempo, o emprego industrial mantém relevância relativa em um contexto de
precarização mais ampla. Por fim, problematiza-se a noção de uma geração 4.0,
ressaltando sua heterogeneidade e apontando desafios para a ação sindical e futuras
pesquisas.
PALAVRAS-CHAVE: Gerações. Trabalho industrial. Metalúrgicos do ABC. Reestruturação
produtiva. Cultura do trabalho.
RESUMEN: El artículo analiza las transformaciones generacionales entre los trabajadores
metalúrgicos del ABC paulista, a partir de entrevistas, encuestas y observación en plantas
automotrices. Inspirado en la literatura clásica sobre el tema, identifica cuatro generaciones
fundadora, de las huelgas, de la reestructuración productiva y 4.0”—, delimitadas por
experiencias históricas y trayectorias de socialización en el trabajo. El foco del análisis recae
en la generación de la reestructuración productiva, núcleo de la investigación cualitativa,
marcada por tensiones entre las herencias del modelo fordista y los cambios recientes en la
cultura del trabajo. El análisis evidencia la coexistencia de permanencias y rupturas,
destacando la pérdida de centralidad simbólica de la condición obrera, la creciente
individualización y las dificultades de involucramiento colectivo. Al mismo tiempo, el empleo
industrial mantiene relevancia relativa en un contexto de precarización más amplio. Por
último, se problematiza la noción de una generación 4.0, resaltando su heterogeneidad y
señalando desafíos para la acción sindical y futuras investigaciones.
PALABRAS CLAVE: Generaciones. Trabajo industrial. Trabajadores metalúrgicos del ABC
Paulista. Reestructuración productiva. Cultura del trabajo.
Aline Suelen PIRES and Carla Regina Mota Alonso DIÉGUEZ
Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 31, n. esp. 1, e026004, 2026. e-ISSN: 1982-4718
DOI: 10.52780/res.v31iesp.1.21105 3
Introduction
The research conducted by Beaud and Pialoux at the Peugeot factory in France between
the 1980s and 1990s, which gave rise to the well-known book Retorno à condição operária
[Return to the Working-Class Condition] (Beaud; Pialoux, 2009), inspired several subsequent
studies interested in analyzing generational dynamics at work in contexts of transformation. In
particular, the work became a necessary reference for researchers in Brazil seeking to
understand, between the late 1990s and the early 2000s, the impacts of productive restructuring
and neoliberal policies on industrial labor. In the country, some analyses focused on
metalworkers in the ABC Paulista region, given their prominence, their combative history, and
their centrality to reflections on a working-class condition and as the ultimate reference for
formal, protected employment with rights.
Those studies on the ABC addressed at least two generations: a first one composed of
veterans or more experienced workers, forged in the struggles and strikes that took place
between the late 1970s and the early 1980s, culminating in the creation of the CUT (Central
Única dos Trabalhadores) [Unified Workers Central] and the PT (Partido dos Trabalhadores)
[Workers Party]; and a second one made up of the then young workers, who entered the
factories in the context of the 1990s and early 2000s, strongly affected by productive
restructuring. Today, about 25 years after some of those studies, we return to the ABC and
encounter another reality: those young workers of that period have become a generation of
experienced workers who went through turbulence caused by drastic technological and
managerial transformations, as well as changes in modes of trade union action. However, new
workers continue to arrive, entering work in Industry 4.0 and in a context of an even more acute
crisis of formal labor, saturated with praise for entrepreneurship and appeals to individualism,
configuring a possible new generation
3
.
The purpose of this article is to discuss the generational changes perceived in industrial
work in the current context. We seek to address transformations in the conduct, practices, and
values of workers from different generations, considering the ongoing transformations in the
culture of work (Lima, 2024). Our focus is on metalworkers, especially those employed by the
three major automotive assembly plants in the ABC Paulista region, located in São Bernardo
do Campo, São PauloMercedes-Benz, Volkswagen, and Scania. Within the local
metalworking sector, workers in these assembly plants formed what may be considered a kind
3
See the article by Rodrigues and Lima (2026) in this dossier for a more detailed characterization of this group
of workers.
A category in transformation: changes and continuities across generations of metalworkers in the ABC region
Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 31, n. esp. 1, e026004, 2026. e-ISSN: 1982-4718
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of first tier among those active in the ABC Paulista region, generally regarded as the working-
class elite of the Brazilian working class.
The data analyzed here resulted, first, from approximately 30 in-depth interviews
conducted with trade union leaders and metalworking leaders from the three remaining
assembly plants in the ABC, notably unionists and representatives of the CSEs (Comitês
Sindicais de Empresas) [Company Trade Union Committees], in addition to information
obtained from a survey administered to 906 rank-and-file workers
4
and observations carried out
in those factories
5
. The proposal is to engage directly with previous studies, such as Tomizaki
(2005), Rodrigues (2009a, 2009b), Rodrigues; Martins (2005), Martins (2001), Corrochano
(2001), Santos (2008), and Araújo (2015).
In the next section, we seek to map the different generations, situating them within the
distinct historical moments in which they were established, and to clarify the terms in which
we approach the notion of generation in this article. In the following section, we analyze what
we call the productive restructuring generation, addressing its current profile, as well as
changes and continuities in relation to its characterization in previous studies, in which its
members appeared as young workers. The final section, preceding the final considerations,
is devoted to this generations perceptions of workers who arrived and continue to arrive at
factories in a more recent context. We also analyze some attributes of this new 4.0 generation.
Generations in the ABC metalworking sector
Sociological studies involving the generational question find in Karl Mannheim a
fundamental reference. In presenting a proposal to overcome the opposition between
objectivism and subjectivism (Weller, 2010), the author reiterates that a generation is not a
concrete group. The fact that a set of people was born in the same period does not necessarily
imply the adoption of similar behaviors, although they may share certain experiences or witness
common events. The author unfolds the notion of generation into other categorieslocation,
connection, and generational unithighlighting the different possibilities that emerge when
one considers, on the one hand, belonging to the same age group and living in a given historical
4
Among the respondents, nearly 98% are unionized. Although there was no selective preference for union
members, the survey was distributed through union channels, which certainly impacts the results.
5
The data stem primarily from the research project A condição operária revisitada: os trabalhadores da indústria
automotiva paulista no início do século XXI [The Working-Class Condition Reconsidered: Automotive Industry
Workers in São Paulo at the Beginning of the 21st Century], coordinated by Prof. Iram Jácome Rodrigues and
funded by CNPq (grant number 407953/2021-3).
Aline Suelen PIRES and Carla Regina Mota Alonso DIÉGUEZ
Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 31, n. esp. 1, e026004, 2026. e-ISSN: 1982-4718
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and social context and, on the other, the emergence of similar orientations and behaviors or
effective bonds (Mannheim, 1982).
Starting from this broader conception, it is important to emphasize that, within the scope
of this article, we do not intend to develop an in-depth reflection on the generational question,
but rather to mobilize the notion of generation as an operational category for understanding the
changes observed in the reality under analysis. We understand that age helps delimit a
generation, but at the same time this concept is not restricted to the biological factor alone;
therefore, we use other variables to characterize the generations presented here. The data
obtained through the survey indicate that the variable time with the company may be an
important marker for delimiting generations. Analyses conducted in previous studies with these
agents (Rodrigues, 2009a; Rodrigues, 2009b; Rodrigues; Martins, 2005; Tomizaki, 2007) show
that workers similar trajectories, together with collective experiences lived in everyday work,
may shape a generation independently of age group, since what characterizes it are the
experiences and understandings that the work, economic, and social contexts convey to these
workers and that significantly condition their individual choices (Morel; Pessanha, 1991;
Mannheim, 1982; Tomizaki, 2007). It is also important to consider that other social markers
such as class, race, gender, and territoryalso combine in shaping experiences and perceptions.
For the purposes stated here, four generations were identified among the ABC
metalworkers, delimited on the basis of data from previous studies and evidence obtained in
our own research. For each generation, we assigned a nomenclature based on the experiences
that may be considered foundational in the formation of their identities as workers (Tomizaki,
2007, p. 42).
The first was identified as the foundational generation, formed by workers who entered
the category beginning in 1956the year in which new automobile industries arrived in the
ABC region
6
and characterized by Leôncio Martins Rodrigues in Industrialização e Atitudes
Operárias [Industrialization and Working-Class Attitudes] (2009a). This generation was
composed predominantly of migrant workers from the interior of São Paulomany with
previous experience in agriculturewith low levels of schooling, no technical training, and
whose learning of the trade occurred in everyday work. Marked by low unionization and low
politicization, this generation consumed almost no cultural goods (radio, television, cinema,
6
Bicev (2019) points out that General Motors had already been present in the ABC region since 1927, but the
incentives provided by Juscelino Kubitschek for the nationalization of automotive production brought new
factories to the region: Mercedes-Benz (1956), Volkswagen Anchieta (1957), Scania (1962), Toyota (1962), and
Ford (1967).
A category in transformation: changes and continuities across generations of metalworkers in the ABC region
Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 31, n. esp. 1, e026004, 2026. e-ISSN: 1982-4718
DOI: 10.52780/res.v31iesp.1.21105 6
newspapers). For Rodrigues (2009a), these workers had not yet been incorporated into capitalist
urban society, with behaviors close to those of community groups. Their lives revolved around
the home, the family, and the neighborhood. With regard to their wives, they preferred that they
not work, remaining at home to care for the children, not only to reduce expenses but because
they understood that a womans place is at home. According to the author, although these
workers had not yet been incorporated into urban dynamics, they would represent the beginning
of what, from the second generation onward, would take shape as ABC metalworkers. The
prospect of upward social mobility appears as a structuring element of their trajectories,
motivating migration and insertion into industrial work.
The second generation was named the strike generation, closely associated with New
Unionism. The workers who compose it entered factories in the mid-1970s and experienced the
period of strikes that began in 1978, having higher levels of schooling than workers in the
foundational generation.
However, alongside these workers with low levels of schooling, a layer of
factory workers emerged with a relatively high educational level, with eight
or more years of formal education. This was one of the aspects in which one
of the most important changes occurred within the Brazilian working classes:
the existence of segments of the factory proletariat with extremely low levels
of education (which, in more developed countries, would make their
absorption into the industrial sector practically unfeasible) alongside workers
with eight or twelve years of schooling (Rodrigues, 2009b, p. 103, authors
emphasis, our translation).
It was in this generation that the image of ABC metalworkers was formed as a highly
unionized and politicized category, which would come to lead trade union and political
struggles from the 1980s onward, contributing to the formation of the PT, the CUT, and to the
construction of Brazils main union leader, who, years later, would become President of the
Republic. These were, above all, migrant workers of rural origin, who constituted the first
generation of industrial workers in their families, with trajectories marked by work since
childhood. They were workers with medium or semi-specialized qualifications, who mainly
occupied manual jobs, with experience in other sectors and in smaller metalworking companies
before entering the assembly plants. Entry into the automotive sector represented an
improvement in living conditions, associated with access to labor rights and relatively high
wages, considering the national industrial average.
This group, however, also experienced high job turnover, as well as violence and
humiliation by superiors, elements that mobilized political action. The working-class identity
Aline Suelen PIRES and Carla Regina Mota Alonso DIÉGUEZ
Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 31, n. esp. 1, e026004, 2026. e-ISSN: 1982-4718
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of this generation was strongly associated with values such as discipline, responsibility, effort,
and pride in work, traversed by references to masculinity and virility linked to the valorization
of physical strength. Their forms of sociability extended beyond the factory space and were
also structured in the working-class neighborhoods of the ABC, in churches, in the union, and
in everyday practices such as soccer, the consumption of alcoholic beverages, and smoking
(Tomizaki, 2005).
The third generation is identified as the productive restructuring generation and appears
in the studies by Tomizaki (2007) and Rodrigues and Martins (2005), comprising the youngest
segment investigated by those authors. Formed predominantly by individuals born in the state
of São Paulo, it came onto the scene mainly in the 1990s, in the context of productive
restructuring, marked by production downsizing, workforce reduction, the implementation of
new work processes, and increased automation. The schooling level of workers in this
generation is higher than that of the previous generation, with at least complete secondary
education. Studying, therefore, is part of a strategy defined by young people and their parents
with a view to the future, affirming belief in education as an instrument of social mobility
(Rodrigues; Martins, 2005, p. 238).
This is a group with technical qualifications, trained mainly through SENAI (Serviço
Nacional de Aprendizagem Industrial) [National Industrial Training Service] (Rodrigues;
Martins, 2005). The arrival of this group, considered more educated and better prepared,
produced a sense of aging at work among members of the previous generation, who claimed
recognition for their practical knowledge and for their material and symbolic achievements
(Tomizaki, 2005). According to Rodrigues and Martins (2005), although they recognized the
importance of the union for working-class identity, in the context of that research this
generation (the productive restructuring generation) did not identify as closely with militancy
as the generation that had been involved in the struggles of the late 1970s and part of the 1980s.
Their trajectories were marked by greater instability and by different expectations
regarding work in the automakers plants. In this context, entry into the sector ceased to
represent, as clearly as it had for the previous generation, a promise of stability and upward
social mobility. However, the studies conducted by Rodrigues and Martins (2005) and
Tomizaki (2007), as well as the data obtained in our research, show that there is a certain
symbolic value related to work in the ABC assembly plants that is present across all generations.
Finally, there is the 4.0 generation, identified through the data from our research. The
workers who compose it entered the assembly plants beginning in the 2010s, in a context in
A category in transformation: changes and continuities across generations of metalworkers in the ABC region
Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 31, n. esp. 1, e026004, 2026. e-ISSN: 1982-4718
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which the automation of production lines became irreversible. It is marked by the incorporation
of new technologies into the productive environment, especially those associated with the so-
called Industry 4.0
7
. It is a connected generation, in which communication takes place
predominantly in digital form, so that virtual social networks constitute an important space of
socialization for this group. It is also the generation that most concretely faced the impacts of
the covid-19 pandemic. It is composed of educated workers, although, in this respect, without
significant changes in relation to the previous generation.
After these initial delimitations, we turn to the analysis of the characteristics and
experiences of the so-called productive restructuring generation, the core group of our in-
depth interviews.
The productive restructuring generation
It is possible to say that the group of workers who participated in the qualitative
interview stage of our research corresponds, approximately, to the productive restructuring
generation. These are workers who have more than 15 years with the company and are
concentrated in the 40-to-55 age range, although, as we have emphasized, generations are not
defined here merely based on age criteria
8
.
This group would also correspond, approximately, to the youngest segment identified
by Tomizaki (2005) in a study conducted at Mercedes-Benz in the early 2000s and to the young
workers profiled by Rodrigues and Martins (2005) in research carried out in the four main
assembly plants in the ABC in 2003. As noted, this group entered the labor market when the
transformations produced by productive restructuring were already underway, that is, from the
mid-1990s onward. In 2003, these young workers were predominantly male (96%), mostly self-
identified as white (79%)Black and brown workers corresponding to the remaining 21%
and were mostly Catholic (66%), while 13% had no religion (Rodrigues; Martins, 2005).
This generation is composed mostly of individuals born in the capital or in the ABC
region itself, largely children of migrants and metalworkers, whose family trajectories were
marked by processes of upward social mobility. Among our interviewees, however, there are
7
The so-called Industry 4.0 refers to the incorporation of advanced digital technologies into production
processes, including various resources related to the Internet of Things, big data, robotics, and artificial
intelligence, among others (Schwab, 2016).
8
In fact, a significant portion of those with less than 15 years of tenure at the company are also included within
this same age group.
Aline Suelen PIRES and Carla Regina Mota Alonso DIÉGUEZ
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migrants who are the first metalworkers in their families. In general, this is a group that
experienced strong family influence toward entering the factory, with more regular and
prolonged educational paths, and passage through SENAI as a rule, as illustrated in the excerpt
below:
[...] born here in the ABC, I live in Santo André. When you are born in the
ABC, parents usually say: Youre going to attend SENAI to get into some
company, some industry. And thats what happened. When I turned 14, I took
the entrance exam for SENAI in Santo André (Mauro
9
, 49 years old, our
translation).
If previous studies (Rodrigues; Martins, 2005; Tomizaki, 2005) had already pointed to
a strong tendency for these then young workers to access higher education, this movement is
confirmed in the trajectories of the interviewees in this research, many of whom hold university
degrees. This relatively high level of schooling did not prevent most of them, however, from
beginning their working lives while still in adolescence. Before entering the metalworking
sector, many of these workers performed other activities or different odd jobs, especially
informal or subsistence occupationssuch as street vending, work at open-air markets,
mechanical workshops, as well as jobs such as office boy or helpers in construction. Several
trajectories were also marked by passages through other companies in the metalworking sector
in the region before entering the assembly plants. This group of interviewees presents a set of
characteristics marked by continuities and tensions in relation to the inherited sociocultural
pattern. Regarding life, career, and family projects, their trajectories remain relatively linear,
strongly anchored in the nuclear family model and in values associated with Fordist culture, as
illustrated by the following statement:
Because [...] the upbringing at that time, you thought about getting into a
company, right? Having a job, having a salary, building a family, buying a
little house to live in, having a little car to go out, going to the beach. That was
the desire of that time, the dream. I think todays youth no longer have that
same desire (Álvaro, 49 years old, 32 years with the company, our translation).
Among our interviewees, however, a considerable number of divorces and people in
second or third unions drew attention. In this respectas well as in others to be analyzedit
is necessary to consider that the group is composed essentially of politically and union-active
militant interlocutors
10
, which generally has impacts on family arrangements. Despite this fact,
9
The interviewees real names have been replaced with pseudonyms in this article.
10
For a broader discussion on trade union leadership, see the article by Martins and Melo in this dossier.
A category in transformation: changes and continuities across generations of metalworkers in the ABC region
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the configuration observed indicates the persistence of a stable normative horizon, even though
it is strained by contemporary transformations. The working-class identity of this group is still
deeply marked by intergenerational transmission or by an inherited life project, which links
professional destiny to family trajectory, as can be seen in the following account:
My father worked for 21 years at Mercedes-Benz. He left in 1987; he retired
and left the factory, but before he left, he managed to find an opening for me
[...] I have been a worker at Mercedes-Benz for 38 years now. [...] So, I am
the son of a worker; my father was not a union or party militant. Some
memories I have of my father, in the late 1970s and 1980s [...] when he came
home, sometimes he would bring a small newspaper in his pocket, which was
the unions Tribuna Metalúrgica [Metalworkers Tribune], and at dinner time
he would sit the children down and read the Tribuna (Milton, 58 years old, 38
years with the company, our translation).
The classic instances of working-class socializationnotably the factory, the church
(although less important than for previous generations), and the neighborhood or community
remain relevant in shaping these subjects experiences and worldviews. In the religious sphere,
the family Catholic heritage predominates, but it is crossed by questioning and processes of
secularization, alongside a minority, though growing, presence of evangelical affiliations,
which, according to the accounts, are increasingly expressive on the shop floor (representing
about 24% of all survey respondents). In the realm of leisure, traditional practices such as soccer
and the consumption of alcoholic beverages remain present for this group, although apparently
with less centrality than in previous generations, making room for a diversification of habits.
This is a generation situated in an intermediate condition between the analog and the digital,
which implies specific difficulties of adaptation and belonging in this space with regard to
technological and communicational aspects, with important implications for its relationship
with younger workers, as we will see below.
At the level of cultural and political dispositions, what stands out is this generations
effort to incorporate identity-based agendas and to break with historically rooted patterns of
sexism, racism, homophobia, and xenophobia, both in their individual trajectories and in their
activist agendas. This movement, however, coexists with the perception that the social
movement itself, its agendas, and its forms of communication are aging, suggesting a mismatch
between inherited repertoires and new sociocultural dynamics.
Although they still assess factory work as a good job, especially when considering
wages, rights, and guarantees, the interviewees recognize lossesboth concrete and
symbolicassociated with the working-class conditions that have occurred in recent years,
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making employment in the metalworking sector less attractive than it was in the past. In
symbolic terms, working in large assembly plants conferred social status on these workers in
their milieu, as one of our interlocutors points out: The guy worked at Volks, the neighbor
would point and say, that guy over there works at Volks and so on’” (Laércio, 55 years old, 40
years with the company).
This dimension is also felt when we ask these workers whether they would like their
children to work in the factory. If, on the one hand, many of the interlocutors defend this idea,
reinforcing the importance of transmitting a legacy and the positive aspects of this
employmentwhich is reinforced by quantitative data indicating that almost 72% of this group
would recommend this work to a child, relative, or acquaintanceanother part emphasizes the
difficulties of the work, uncertainties regarding the future of industry, as well as the concrete
possibilities that their children may access other opportunities in the labor market. We will
return to this in the next section.
Losses in terms of sociability and the collective dimension of work and factory life are
also particularly felt and verbalized. Whereas previous generations built unity out of the
oppression they experienced and their common needs, the current reality is described as more
individualized, distant, and competitive. In this respect, changes in shared leisure and sociability
spaces and practices, as well as the rise of mobile phones and virtual social networks, are said
to have weakened collective bonds, as shown in the complementary accounts below:
In the past, I think the factory, out of necessity, was more united. Because of
the pressure there was, the demands that existed, the working conditions, the
need to move forward, both in terms of wages and outside the factory as well,
housing issues and everything (Reginaldo, 46 years old, 31 years with the
company, our translation).
I see that relationships were better in the past. [...] There were many activities,
many events involving workers. [...] I dont know whether because of peoples
day-to-day tasks or because of virtuality, today things are somewhat different.
But this interpersonal relationship, I saw that it changed a lot; it is a more
distant relationship, lets put it that way. [...] And I also see a lot of
competitiveness (Cristian, 42 years old, 28 years with the company, our
translation).
It is interesting to note, based on Tomizakis research (2005), that, as workers age, many
of the discourses of the productive restructuring generation begin to converge with the
discourses, ideas, and concerns of the strike generation. In other words, this group began to
critically attribute to younger workers characteristics similar to those that had been imputed to
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them in the past. In this regard, accusations concerning lack of commitment and engagement
stand out, as well as ignoranceand consequent non-recognitionof the history of the
metalworking category in the ABC, of which these workers would be heirs and beneficiaries.
Thus, retaining younger workers in their jobs and, above all, renewing working-class leadership
appear as some of the main challenges and concerns for this generation.
Finally, before properly examining the perceptions that this generation develops about
workers who have been entering factories in recent years, it is important to point out the
existence of significant differences in discourses and representations within this group itself.
Such differences are manifested especially between the younger interviewees (in their thirties
or early forties) and those who are approaching or have already passed the age of fifty, revealing
relevant internal cleavages. In the discourses of the younger members of this set, alignments in
terms of fundamental values with the previous generation are observed, but also greater
empathy and proximity toward traits associated with the subsequent generation. Among the
elements that express this cleavage, greater familiarity with and ability to use virtual means of
communication stands out, including as a tool for union action.
A 4.0 generation?
In the case of ABC metalworkers, it becomes difficult to know what the behavior of
young people as heirs will be when they, in fact, take the place of their parents, whether in the
factory, in the union, or in their families. The first question that arises is whether they will
occupy these spaces, since up to this point most of them consider themselves to be passing
through the working-class condition (Tomizaki, 2005, p. 264).
In the excerpt we adopt as the epigraph to this section, Tomizaki (2005) refers to the
productive restructuring generation (as we classify it here), composed of the youngest segment
of workers at the time of her research. The previous section sought, to some extent, to answer
the questions raised there. However, it is striking that those young workers already perceived
themselves as passing through the working-class conditiona perception that also appears
recurrently among those we call the 4.0 generation, according to our interviewees accounts.
This recurrence suggests that elements often identified as new or characteristic of
contemporary youth may not, in fact, constitute something properly new.
The title of this section is followed by a question mark because, when analyzing the
data, we raised the question of, first, to what extent it is possible to speak of a 4.0 generation
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and, above all, how to delimit it. Even while reaffirming that age criteria alone are not sufficient
to define this group, and that this marker must be combined with time with the company, there
is a certain heterogeneity perceived in the data that must be problematized. Considering other
markers, we are referring to a set of workers who entered this work in a post-2008 crisis context
and, therefore, in a period of economic decline and falling automotive production, and who
have strongly experienced the incorporation of new technologies within the scope of Industry
4.0.
We will seek to contrast, on the one hand, the data obtained from the qualitative
research, namely the discourses of the productive restructuring generationthe focus of our in-
depth interviewsabout this more recent generation and, on the other, the survey data, through
which we can access, to some extent, what workers of the 4.0 generation say about themselves.
Without disregarding the fact that we are mobilizing data of different kinds, we outline some
analyses that may be further developed in future research.
A first element to be considered is the perception that the set of workers entering the
factory in the most recent context, especially the younger ones, do not have a perspective of
remaining in industrial work, which would function as a springboard to other activities or
experiences. In other words, this work would be seen as a transitional situation or as a means
to achieve other objectives or projects.
You will notice that todays worker in an assembly plant no longer has the
prospect of retirement. Work in an assembly plant, which in the past was the
peak of the job you could have, was the best job, right? Today, work in an
assembly plant is also a springboard job. [...] It is there that the guy will
structure himself to pursue another type of career, usually in IT, something
like that. So he no longer dreams of staying in the assembly plant as in my
time (Laércio, 55 years old, 40 years with the company).
Absolutely! They are passing through! So much so that, in the latest hires
made at Volkswagen, 100 people were hired and 50 left. Then you look at the
group: 20 years old, 19 years old... 20 years old, 23 years old, 24 years old,
who have never worked in industry, who do not know the importance of
industry, why industry exists, right? And we had to replace those areas. [...]
Even with benefits, transportation, meals, health insurance, and everything
else, they prefer another field... (César, 46 years old, 28 years with the
company, our translation).
The accounts above are highly illustrative of what we heard in the interviews. According
to the interlocutors, it is very common for younger workers to choose to leave the factory after
only a short time with the company, after having saved some money and, above all, when the
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opportunity arises to obtain financial compensation as part of a PDV (Programa de Demissão
Voluntária) [Voluntary Dismissal Program], as shown in Reginaldos statement (46 years old,
31 years with the company): some do not even do the internship; once the SENAI course is
over, they leave; others still do the internship, are hired, and after a while take the PDV and
leave.
The quantitative data indicate, however, that this general perception must be nuanced.
Among the questionnaire respondents, it is noteworthy that a significant share of the younger
workers expects to remain. When asked what they think about work in the future, among those
with up to 15 years with the company, 75% intend to retire from the factory, including those up
to 30 years old. Of course, when time-with-the-company ranges are observed, the longer these
workers have been in the factory, the greater the tendency for them to want to remain there. In
this sense, it also seems plausible to state that the statements referring to the ephemerality of
workers in their jobs refer to processes that are, in fact, more recent and to very young workers,
who are also a very small minority in the survey, suggesting the need to better understand the
profile of young people who actually remain and the profile of those who quickly leave these
companies.
The fact that more than 40% of the workers who responded to the survey have been in
assembly plants for more than 16 years and that half of them began their processes of work
socialization in the industrial sector suggests that the factory is seen, because of generational
transmission itself (Tomizaki, 2010), as the natural space for the beginning of working life and
perhaps the only possible one. Rodrigues and Martins (2005, p. 239) had already pointed to this
tendency. In analyzing the data produced by their research and by other studies with young
workers (Corrochano, 2001; Martins, 2001), the authors observe that young people of that
generation understood factory work as [...] provisional, as something they should go through
at that stage of life, while acquiring skills and competencies, at school and on the job, that would
allow them to rise professionally and socially. (Rodrigues; Martins, 2005, p. 239, our
translation). However, 20 years ago, the authors also already recognized that [...] this
provisional condition seems to become definitive, and few are those who manage to escape the
working-class condition (Rodrigues; Martins, 2005, p. 239, our translation).
When we analyze the data obtained from the survey, we observe a predominance of
workers who would correspond to the productive restructuring generation. Among respondents,
more than 50% are over 41 years old (62%), and almost 30% are in the 31-to-40 age range,
while about 60% of the total entered the factories from 2010 onward (15 years with the company
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or less). The data indicate a process of aging, with an increase in the age range of workers in
factories, intensifying a trend already noted in research from the early 2000s (Tomizaki, 2005;
Rodrigues; Martins, 2005). It is striking that, among questionnaire respondents, only 8% are up
to 30 years old, although the percentage with up to 10 years with the company corresponds to
about 28%. This datum may indicate lower permanence among younger workers in this type of
occupation, a hypothesis supported by the qualitative interviews with members of the
productive restructuring generation, in which the difficulty of retaining younger workers was
mentioned recurrently.
In addition to the dimension of permanence in jobs, there is a clear perception in the
interviews with leaders that, despite the unions efforts, younger workers do not engage with
union agendas or in the struggle for better working conditionsdespite the high unionization
rate observed in the surveyamong other reasons because they do not expect to remain for
long. Although our interlocutors consider working conditions, pay, and benefits in these
companies to be very satisfactory, they recognize the degradation of the working-class
condition in recent years, resulting from organizational, technological, contractual, and wage-
related changes, among others. Beyond the objective dimension, however, there is a loss of the
symbolic value of being an ABC metalworker and of all the representations associated with this
conditionsecurity, stability, and rights. This is evident in Galvãos statement (56 years old,
37 years with the company): In the past, we would put on a little company badge—’look, Im
a metalworker; wow, the guy is a metalworker’—like that, and today you no longer see that
enthusiasm. The challenges are enormous, because there is a cultural change in society.
The perceived impermanence would be closely related to broader transformations in
values and worldview. In this sense, individual values tend to prevail over interests and
concerns related to the collective or, in other words, to class belonging. As Elton (48 years old,
28 years with the company) seems to summarize, our project of society no longer inspires.
Consequently, there is a consensual assessment that it is very difficult to communicate with
younger workers and to find a language that reaches and mobilizes this group in particular. It
is in this sense that one of the interviewees formulates some questions:
Are we, as leaders, attentive to the movements in our production chain,
attentive to the new young people entering the labor market? Is industry today
as attractive to young workers as it was in the 1980s? To the young people
who started there as office boys, right? And who were trained and became
foremen, supervisors, managers, factory directors? Does industry provide that
today? That stability for these young people? Because today there are apps,
and apps are much more attractive to young people, who do not want any kind
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of constraint or commitment to their schedule, because today it is not simply
an eight-hour workday. Depending on where you are located, in the ABC, in
São Paulo, in Sorocaba, it takes two hours in traffic to get to the factory, then
another two hours to get back home. We are talking about a twelve-hour
workday, not an eight-hour workday, but a twelve-hour workday. Does
todays young people envision freedom or envisions having a better, healthier
life, including training, qualification, concern for their health, practicing a
sport, going to the theater? (Leonardo, 40 years old, our translation).
The accounts recognize that work in industry is no longer as attractive as it was in the
past, but beyond this observation, they indicate that aspirations in terms of freedom/autonomy
and personal fulfillment have not been met by more traditional and formal forms of work,
which, although they offer benefits and a certain degree of security, are rigid in terms of
schedules, procedures, and hierarchies. In this context, activities that would, in theory, allow
greater freedom, even with few or no rights, can exert attraction, especially among younger
people. Platform work or even other ways of making a living”—various forms of
entrepreneurship, digital commerce, investment in the stock market and cryptocurrencies, and
even online bettinghave gained prominence, strongly guided by digital influencers (Pires;
Perin, 2024; Pires; Rizek; Oliveira, 2026). These transformations in the culture of work (Lima,
2024) are captured by the interviewees:
And nowadays you see that it is peoples choice, they choose... Today, the
worker, the young person, chooses not to be inside a factory eight hours a day
on a production line, at a frantic pace. They choose: I dont want that for
myself. So, the relationship is different. They choose to work informally as
an Uber driver, for example, where they say: I manage my time. I am my
own boss. I dont have anyone breathing down my neck. So that is it. This
relationship has indeed changed. I even said that, in the past, people dreamed
of getting into an assembly plant. Today we have SENAI inside the assembly
plant, which trains the SENAI kids and workers children, and when these
kids graduate, depending on the grade they achieve, the factory is required to
hire them. So, they are hired, but when they arrive in production, the first thing
they ask the union leaders is: When will there be a PDV? because they want
to take the PDV and do something else. They do not see themselves there. So,
this has changed, okay? This relationship has changed a lot; workers interest
in industry today is no longer very strongunless it is very well paid. Which
is not something we find out there. So, to earn R$ 2,000 or R$ 3,000, Ill earn
R$ 2,000 or R$ 3,000 as an Uber driver or doing anything else, you know?
(Ricardo, 56 years old, our translation).
Changes in values are reflected in the difficulty of communication. Although
communication between different generations always poses challenges, the constant use of
smartphones and engagement with social networks create important obstacles to the collective
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dimension, to workers socialization in the workplace, and to openness to dialogues and
discourses that would enable the transmission of working-class culture, as can be observed in
the excerpt below:
We still have not understood how to deal with workers through our networks;
somehow, we are not attractive. In fact, young people want to watch a 30-
second video on their phones that is funny or talk about something they like:
gym stuff, cycling, fishing, everything. And we still do not know how to pierce
that bubble; we have not yet learned how to pierce that bubble (Alexandre, 42
years old, 15 years with the company, our translation).
As mentioned, the productive restructuring generation was still largely socialized in
environmentsthe factory, the progressive Catholic church, the working-class
neighborhoodthat favored the incorporation of more collective values oriented toward
security and stability. In the interviewees view, the digital sphere has acquired such influence
and prominence that the struggle for hearts and minds has become significantly more
challenging. In this respect, the growth of neo-Pentecostal religions also represents another
significant challenge (which we will not address here in greater depth). The statement below is
illustrative:
I have a soccer team, and I am in contact with many young guys; at no point
do I see anyone saying: I want to get into a metalworking company, get into
a factory. I do not see that. Today they want to be YouTubers, they want to
work with social media, but I do not... Even my daughterI have a daughter
who is 26, 27she has never said, never considered saying: Wow, maybe
you could get me a job at some company. [...] Today, when young people
enter a company, when they do, it is only for them... that is, when it is not to
buy a motorcycle to become a delivery worker, which happens a lot. They
enter, save money, buy a motorcycle, and become delivery workers, because
then there are no schedules, nothing; they do it... so unfortunately... (Mauro,
49 years old, our translation).
Although the accounts recognize these trends, the questionnaire data show that just over
two-thirds of workers consider working conditions to be good or excellent, and more than half
feel secure in the companyincluding those with up to 15 years with the company. Even so,
there is concern about job loss: in this group, about 27% are very concerned and 49% are
partially concerned.
Despite hierarchy, difficulty accessing more qualified positions, work intensification
(Bicev, 2019), and the symbolic loss of the metalworking category, workers recognize that their
conditions are still better in a market marked by pejotização and precarization. Industrial
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employment remains mostly formal, with wages and benefits above the average: a study by
Confederação Nacional da Indústria (CNI) [National Confederation of Industry] (2025), based
on the PNAD Contínua [Continuous National Household Sample Survey] of 2024, indicates
earnings 15% higher than in the agricultural and service sectors.
Even with recent precarizationassociated with changes in labor laws, automation, and
the reduction of employment in assembly plantswork in automotive companies in the ABC
Paulista region still guarantees stable income and relatively better conditions. Despite the union
crisis (Santana; Rodrigues; Diéguez, 2023), the Sindicato dos Metalúrgicos do ABC [ABC
Metalworkers Union] remains relevant in maintaining these conditions.
The transition to other sectors, especially services, requires higher levels of schooling
and specific qualifications, particularly in areas such as finance and technology (IBGE, 2025).
This contrasts with the trajectory of the majority: among workers with up to 15 years with the
company, just over 55% have only completed secondary education. In addition, socialization
in industrial work and previous experience themselves make insertion into other sectors more
difficult, especially when associated with age.
In this context of economic crisis, political instability, and technological advancement,
remaining in the working-class condition may seem less risky for this group that continues in
the factories: it guarantees employment, wages, and survival. This is not a matter of lack of
ambition, but rather the recognition of a harsher and more uncertain scenario. Despite the
difficulties, the factory remains a familiar space, in which these workers orient themselves with
greater security.
Finally, reflecting on the possibilities of generational transmission, it is observed that
the interviewees from the productive restructuring generation attribute high value to their own
trajectories in the factories, as well as to the history of metalworkers in the ABC. In this sense,
they express the desire that their children know and, in some way, continue this legacy;
however, not necessarily inside factories and not for long periods in production, still recognized
as hard work:
Because I think that today, for a young person to arrive and enter a
metalworking company and become stagnant there on the shop floor is
difficult. It is difficult to build a family, pay rent. But I would be very happy
if he [his son] joined, but did not remain stuck there, if he studied and pursued
a career. But I would be very happy, yes! And I talk to him a lot. And he has
this expectation of turning 18 and entering a factory. Hopefully he will
manage to do so or, perhaps, find something better as well (João, 45 years
old, 22 years with the company, our translation).
Aline Suelen PIRES and Carla Regina Mota Alonso DIÉGUEZ
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No [he does not wish his daughter had the same job as him]. I believe we are
living in a different moment. She will not experience the moment I
experienced. Today, working conditions are much better, in my opinion, but I
want to give her what I could not have and what I am able to provide today.
Today, I have a decent salary, my wife also works, so I will do my utmost. I
may be selfish, but that is what I think: if my daughter can be a doctor, she
will be a doctor; if my daughter can study, as much education, training,
schooling, and support as I can give her, I will provide it, so that she can have
a better life than I had. [...] a profession that will give her more comfort
(Manoel, 53 years old, 25 years with the company, our translation).
Some of the accounts revealed an active effort by many interviewees to encourage and
create means for their children to enter factories. However, there is recognition of the
difficulties of this workincluding its physical dimensionand of changes in the industrial
world. The group of interviewees had access to more prolonged schooling and to positions with
higher pay and prestige, in addition to training through political activism, which enabled them
to provide their children with good educational conditions and, consequently, to envision a
career outside the factory or a more qualified insertion into the factory environment, with
aspirations for rapid hierarchical advancement, or, in some way, to remain in the sector, but in
occupations that do not directly involve the shop floor, such as Information Technology,
Engineering, Administration, Law, and so on.
Final considerations
The analyses developed throughout the article allow us to state that the transformations
observed among metalworkers in the ABC region cannot be understood as a simple generational
rupture, but rather as a process of continuous reconfiguration of the working-class condition, in
which continuities and shifts are intertwined.
The notion of generation, mobilized here as an analytical tool, has shown that
differences among groups are not exhausted by age-based criteria, but are structured through
shared historical experiences, trajectories of socialization, and specific material conditions. In
this sense, the so-called productive restructuring generation occupies a particularly revealing
position, as it condenses both legacies of the Fordist model and tensions specific to a context
marked by flexibilization, work intensification, and the loss of the symbolic centrality of
industry.
At the same time, the data indicate that the perceptions constructed by this generation
regarding younger workersoften associated with temporariness, individualism, and
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distancing from collective actionmust be analyzed with caution. On the one hand, such
readings update a recurring pattern of intergenerational interpretation, in which new entrants
are seen as less committed or engaged; on the other, they reflect broader transformations in the
culture of work, traversed by the diffusion of values associated with autonomy, flexibility, and
individual fulfillment. The apparent tension between the qualitative and quantitative findings
thus suggests the need to complexify the idea of a 4.0 generation, recognizing its internal
heterogeneity and avoiding homogeneous or normative interpretations of its dispositions and
expectations.
Within this framework, one of the studys central findings lies precisely in the
coexistence of seemingly contradictory processes: while the erosion of the symbolic value of
the working-class condition and the weakening of traditional forms of sociability and collective
organization can be observed, work in the assembly plants of the ABC region continues to be
perceived as a relatively positive reference in a labor market marked by precarization. The
persistence of relatively long trajectories, even among those who initially perceive themselves
as passing through, reveals the concrete limits of the available alternatives and points to the
persistence of the factory as a structuring space for labor-market insertion and social
reproduction for segments of the working class.
Finally, the results presented here open a set of questions for future research. There is a
need to deepen understanding of the different profiles of young people who enter and remain
or do not remainin industrial work, as well as of the ways in which new technologies, forms
of communication, and cultural dynamics reconfigure the possibilities for constructing
collective identities and political action. Moreover, it becomes essential to investigate the extent
to which union and organizational repertoires will be able to reinvent themselves in the face of
this new scenario, marked by transformations in the productive, symbolic, and subjective
spheres, and what the effects of these changes will be for the future of collective action and the
world of work.
Aline Suelen PIRES and Carla Regina Mota Alonso DIÉGUEZ
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Est u d os d e S o ci ol o gi a , Ar ara q u ar a, v. 3 1 , n. es p. 1 , e 0 2 6 0 0 4 , 2 0 2 6. e -I S S N: 1 9 8 2 -4 7 1 8
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F u n di n g : C N P q Nati o n al C o u n cil f or S ci e ntifi c a n d T e c h n ol o gi c al D e v el o p m e nt ( Gr a nt
N os. 4 0 7 9 5 3/ 2 0 2 1 -3 a n d 3 0 4 8 9 3 / 2 0 2 5-0).
C o nfli cts of i nt e r est : T h e a ut h ors d e cl ar e n o c o nfli cts of i nt er est .
Et hi c al a p p r o v al : N ot a p pli c a bl e .
D at a a n d m at e ri al a v ail a bilit y : N ot a p pli c a bl e .
A ut h o rs c o nt ri b uti o ns : Artifi ci al i nt elli g e n c e ( AI) t o ols w er e us e d s ol el y f or t h e
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c o nt e nt w e r e c arri e d o ut e ntir el y b y t h e a ut h ors.
P r o c essi n g a n d e diti n g: E dit o r a I b e r o -A m e ri c a n a d e E d u c a ç ã o
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