image/svg+xmlAs atividades do estágio em letras/libras no museu nacional por meio da educação não formal em ciências: Relato de experiência e busca da memória afetivaRIAEERevista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 17, n. 3, p. 1677-1694, jul./set. 2022. e-ISSN: 1982-5587 DOI: https://doi.org/10.21723/riaee.v17i3.159421677 AS ATIVIDADES DO ESTÁGIO EM LETRAS/LIBRAS NO MUSEU NACIONAL POR MEIO DA EDUCAÇÃO NÃO FORMAL EM CIÊNCIAS: RELATO DE EXPERIÊNCIA E BUSCA DA MEMÓRIA AFETIVA LAS ACTIVIDADES DE LA PASANTÍA EN LETRAS /LIBRAS EN EL MUSEO NACIONAL A TRAVÉS DE LA EDUCACIÓN NO FORMAL EN CIENCIAS: INFORME DE EXPERIENCIAS Y BÚSQUEDA DE MEMORIA AFECTIVA THE ACTIVITIES OF THE INTERNSHIP IN LETTERS /LIBRAS IN THE NATIONAL MUSEUM THROUGH NON-FORMAL EDUCATION IN SCIENCES: EXPERIENCE REPORT AND SEARCH FOR AFFECTIVE MEMORY Renata Cardoso de Sá Ribeiro RAZUCK1Fernando Barcellos RAZUCK2RESUMO: A educação não formal é de grande relevância para o ensino de ciências, pois propicia condições para a inclusão social. Neste sentido, este artigo tem por objetivo fazer um relato de experiência sobre um programa de Estágio Supervisionado do curso de Licenciatura em Letras/Libras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) no Museu Nacional (MN). Assim, foram realizadas em parceria com a Equipe da Seção de Assistência ao Ensino do MN (SAE) 2 (duas) atividades para os funcionários do MN: uma Oficina de Introdução à Libras e uma participação no Curso de Mediadores do MN. Além de um relato de experiência, este trabalho também acabou por auxiliar na construção da memória afetiva do MN após trágico incêndio de 2018. Ao final observou-se que as aulas oferecidas contribuíram para o processo de formação de popularizadores, o que muito colabora para favorecer a acessibilidade dos surdos. PALAVRAS-CHAVE: Estágio supervisionado em letras/libras. Museu nacional. Educação não formal. Ensino de ciências. Memória. RESUMEN: La educación no formal es de gran importancia para la enseñanza de las ciencias, ya que proporciona condiciones para la inclusión social. En ese sentido, este artículo tiene como objetivo hacer un relato de experiencia en un programa de Pasantía Supervisada del curso de Licenciatura en Letras/Libras de la Universidad Federal de Río de Janeiro (UFRJ) en el Museo Nacional (MN). Así, se realizaron dos (2) actividades para los empleados del MN en alianza con el Equipo de la Sección de Asistencia Docente (SAE) del MN: Taller de Introducción a Libras y participación en el Curso de Mediadores del MN. Además de un relato de experiencia, este trabajo también terminó ayudando a construir la memoria afectiva del MN después del trágico incendio de 2018. Al final, se observó que las clases impartidas 1Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro RJ Brasil. Professor Associado da Faculdade de Educação. Doutorado em Educação (UnB). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7841-3014. E-mail: razuckrenata@gmail.com 2Ministério da Ciência, tecnologia e Inovações (MCTI), Rio de Janeiro RJ Brasil. Analista em Ciência e Tecnologia do Instituto de Radioproteção e Dosimetria. Doutorado em Educação (UnB). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8416-4242. E-mail: fernandor@ird.gov.br
image/svg+xmlRenata Cardoso de Sá Ribeiro RAZUCK e Fernando Barcellos RAZUCKRIAEERevista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 17, n. 3, p. 1677-1694, jul./set. 2022. e-ISSN: 1982-5587 DOI: https://doi.org/10.21723/riaee.v17i3.159421678 contribuyeron al proceso de formación de divulgadores, lo que colabora mucho para favorecer la accesibilidad de las personas sordas. PALABRAS CLAVE:Pasantía supervisada en letras/libras. Museo nacional. Educación no formal. Enseñanza de las ciencias. Memoria. ABSTRACT: Non-formal education is of great importance for science teaching, as it provides conditions for social inclusion. In this sense, this article aims to make an experience report on a Supervised Internship program of the Licentiate in Letters/Libras course at the Federal University of Rio de Janeiro (UFRJ) at the National Museum (MN). Thus, two (2) activities for MN employees were carried out in partnership with the MN Teaching Assistance Section Team (SAE): an Introduction to Libras Workshop and participation in the MN Mediators Course. In addition to an experience report, this work also ended up helping to build the affective memory of the MN after the tragic fire of 2018. In the end, it was observed that the classes offered contributed to the process of training popularizers, which greatly collaborates to favor accessibility for the deaf. KEYWORDS:Supervised internship in letters/libras. National museum. Non-formal education. Science teaching. Memory. O ensino de Libras no BrasilDe acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE (BRASIL, 2000), o Brasil tem mais de 5.750.809 pessoas com problemas relacionados à surdez. Apesar destes altos números, poucos brasileiros dominam a Língua Brasileira de Sinais (Libras), reconhecida como língua oficial pela Lei nº. 10.436, promulgada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso em 24/04/2002 (BRASIL, 2002). De acordo com a Lei nº. 10.436/2002 (BRASIL, 2002, p. 1), a Libras: Art. 1º É reconhecida como meio legal de comunicação e expressão a Língua Brasileira de Sinais - Libras e outros recursos de expressão a ela associados. Parágrafo único. Entende-se como Língua Brasileira de Sinais - Libras a forma de comunicação e expressão, em que o sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constitui um sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil. A Lei nº. 10.436/2002 (BRASIL, 2002, p. 1) também determina que serviços públicos devam garantir atendimento e tratamento adequado às pessoas surdas, de acordo com os artigos 2º, 3º e 4º: Art. 2º Deve ser garantido, por parte do poder público em geral e empresas concessionárias de serviços públicos, formas institucionalizadas de apoiar o uso e difusão da Língua Brasileira de Sinais - Libras como meio de
image/svg+xmlAs atividades do estágio em letras/libras no museu nacional por meio da educação não formal em ciências: Relato de experiência e busca da memória afetivaRIAEERevista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 17, n. 3, p. 1677-1694, jul./set. 2022. e-ISSN: 1982-5587 DOI: https://doi.org/10.21723/riaee.v17i3.159421679 comunicação objetiva e de utilização corrente das comunidades surdas do Brasil. Art. 3º As instituições públicas e empresas concessionárias de serviços públicos de assistência à saúde devem garantir atendimento e tratamento adequado aos portadores de deficiência auditiva, de acordo com as normas legais em vigor. Art. 4º O sistema educacional federal e os sistemas educacionais estaduais, municipais e do Distrito Federal devem garantir a inclusão nos cursos de formação de Educação Especial, de Fonoaudiologia e de Magistério, em seus níveis médio e superior, do ensino da Língua Brasileira de Sinais - Libras, como parte integrante dos Parâmetros Curriculares Nacionais - PCNs, conforme legislação vigente. Apesar disso, passados vinte anos da promulgação da lei, ainda hoje poucos locais públicos apresentam funcionários fluentes em Libras. Dessa maneira, como desdobramento das lutas pelos direitos dos surdos e usuários de Libras e com o intuito de oferecer uma formação básica mínima em Libras, foi promulgado pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva o Decreto nº. 5626 em 22/12/2005 (BRASIL, 2005). O referido Decreto determinou o ensino de Libras como disciplina curricular obrigatória nos cursos de formação de professores, em todas as licenciaturas, cursos de formação de professores de nível médio, normal superior, de Pedagogia e de Educação Especial. Assim, o Decreto nº. 5626/2005 (BRASIL, 2005, p. 1) determina que: Art. 3º A LIBRAS deve ser inserida como disciplina curricular obrigatória nos cursos de formação de professores para o exercício do magistério, em nível médio e superior, e nos cursos de Fonoaudiologia, de instituições de ensino, públicas e privadas, do sistema federal de ensino e dos sistemas de ensino dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. § 1º Todos os cursos de licenciatura, nas diferentes áreas do conhecimento, o curso normal de nível médio, o curso normal superior, o curso de Pedagogia e o curso de Educação Especial são considerados cursos de formação de professores e profissionais da educação para o exercício do magistério. § 2º A LIBRAS constituir-se-á em disciplina curricular optativa nos demais cursos de educação superior e na educação profissional, a partir de um ano da publicação deste Decreto. Neste sentido, com o intuito de atender à crescente demanda de professores de Libras e o desejo de formação acadêmica na área, diversos cursos foram criados, como o Curso Bilíngue de Pedagogia do Instituto Nacional de Educação de surdos (INES), o curso a distância em Letras/Libras pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com 9 polos distribuídos pelo país, e o curso de licenciatura e bacharelado em Letras/Libras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Logo, muito mais do que constituir objeto de exigência e de regulamentação legal, a implantação dos cursos de graduação licenciatura em Letras/Libras tem como objetivo:
image/svg+xmlRenata Cardoso de Sá Ribeiro RAZUCK e Fernando Barcellos RAZUCKRIAEERevista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 17, n. 3, p. 1677-1694, jul./set. 2022. e-ISSN: 1982-5587 DOI: https://doi.org/10.21723/riaee.v17i3.159421680 [...] garantir a inclusão social de surdos na sociedade por meio da formação acadêmica, abrindo espaços para a sua inserção no mercado de trabalho. Os professores licenciados irão atuar na formação de professores em nível universitário, na formação de fonoaudiólogos e na formação básica de alunos surdos e ouvintes (CERNY; QUADROS; BARBOSA, 2009, p. 3). Tais cursos almejam a formação de um cidadão crítico, comprometido com as transformações sociais e com seu desenvolvimento intelectual, que tome ciência dos problemas da educação de surdos e que possa estabelecer mecanismos para o acesso da comunidade surda ao ensino superior. Educação não formal, educação científica e inclusão de surdosPode-se afirmar que a educação não formal, como a realizada em museus, é de grande relevância para o ensino de ciências. Além disso, de acordo com a estrutura do museu, pode propiciar condições para a inclusão social. Pesquisas sobre educação em espaços não formais têm explorado as especificidades dos processos educativos que acontecem nesses ambientes, a fim de fortalecer o processo de letramento científico e entender a ciência como parte da cultura (RAZUCK; SANTOS, 2017; RAZUCK; RAZUCK, 2020a). Embora não haja consenso com relação à definição do que vem a ser um espaço não formal de educação, adota-se aqui a definição segundo a qual tal espaço pode ser qualquer local, diferente do ambiente escolar, institucional ou não, onde se podem exercer atividades educativas organizadas fora do sistema escolar oficial, de forma que a aprendizagem relaciona-se a aspectos afetivos, motores, lúdicos e sociais, sendo influenciada pela percepção, consciência, emoção e memória do visitante (OLIVEIRA et al., 2014; RAZUCK; RAZUCK, 2020b). Assim, a correlação existente entre os processos inclusivos em museus se apresenta como uma grande possibilidade, conforme destacado pelo próprio Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), segundo o qual, dentre as características e funções de um museu, cita no seu item III “a utilização do patrimônio cultural como recurso educacional, turístico e de inclusão social” (IBRAM, 2021, p. 1), mostrando assim a preocupação com a questão. Especificamente com relação a alunos surdos, a sua aprendizagem é diferenciada quando comparada aos alunos ouvintes, devido a que as possibilidades interativas de surdos acabam sendo menores, uma vez que não conseguem participar de eventos escolares discursivos fundamentais para a constituição plena do sujeito, já que estes eventos discursivos
image/svg+xmlAs atividades do estágio em letras/libras no museu nacional por meio da educação não formal em ciências: Relato de experiência e busca da memória afetivaRIAEERevista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 17, n. 3, p. 1677-1694, jul./set. 2022. e-ISSN: 1982-5587 DOI: https://doi.org/10.21723/riaee.v17i3.159421681 proporcionam o desenvolvimento de aspectos linguísticos, sociais, afetivos, de identidade, entre outros (LACERDA, 2006). Assim, uma das possibilidades apresentadas para minimizar esse problema, com relação à educação científica, por exemplo, seria por meio da visitação aos espaços não formais, pois possibilita a apropriação do discurso científico pelo cidadão, levando-o a se constituir como sujeito ao adquirir um domínio dos temas de Ciência e Tecnologia (C&T). Dessa maneira, museus de ciências podem ser espaços com elevado potencial educativo e, em especial, podem ser locais propícios no que se refere à inclusão, em especial, à inclusão de pessoas com necessidades especiais (RAZUCK; RAZUCK, 2020b). No entanto, muitos museus ainda não estão preparados para atender visitantes surdos. Essa ação é um incentivo para que os surdos participem mais desses espaços e sintam satisfação ao visitar museus, uma vez que encontre usuários de Libras. Idealmente, os surdos deveriam se deparar com profissionais fluentes em Libras em todos os locais; entretanto, como isso, infelizmente, ainda não é uma realidade, entendemos que a participação de usuários de Libras desde o planejamento e organização até a execução das exposições pode tornar o ambiente mais atrativo e acolhedor para os surdos (RAZUCK; RAZUCK, 2020b). De acordo com Costa, Lameirão e Villas Boas (2017), uma pesquisa feita pelo IBRAM em 2010 já indicava que somente metade dos museus cadastrados (50,7%) possuía instalações adequadas para o público com deficiência. Nessa pesquisa, a presença de conteúdos em Libras não foi sequer mencionada, revelando a invisibilidade do público surdo. Neste sentido, entende-se o Museu Nacional (MN), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), como um espaço propício de educação não formal e científica, conforme demonstrado por Oliveira et al.(2014). Segundo os autores, ao realizarem uma atividade de educação não formal no MN, a aprendizagem científica é um processo cumulativo de aquisição e consolidação de significados, onde as experiências que ocorrem após as visitas são igualmente importantes, pois o visitante tem acesso a conhecimentos adicionais que podem reforçar sua compreensão dos eventos que ocorrem na natureza, no mundo ou na sociedade em geral, facilitando a aprendizagem. Para Oliveira et al.(2014), a visita ao MN, por meio de forma lúdica, acabou por desenvolver uma inter-relação amigável mediador/visitante, em um ambiente agradável, reconhecidamente facilitador da aprendizagem, uma vez que assuntos e peças em exposição de algumas salas do museu evidenciavam as relações com a química, bem como os aspectos históricos, artísticos e culturais que foram abordados durante as visitas. Tendo em vista os resultados apresentados, os autores chegaram à conclusão de que os procedimentos
image/svg+xmlRenata Cardoso de Sá Ribeiro RAZUCK e Fernando Barcellos RAZUCKRIAEERevista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 17, n. 3, p. 1677-1694, jul./set. 2022. e-ISSN: 1982-5587 DOI: https://doi.org/10.21723/riaee.v17i3.159421682 desenvolvidos durante as visitas foram capazes de proporcionar ganhos afetivos e cognitivos aos alunos visitantes e de que o MN, como um espaço não formal para ensino de química, revela-se uma opção promissora, uma vez que o contexto físico do MN acaba favorecendo a elaboração de aulas não formais de química (OLIVEIRA et al., 2014). A relevância do MN é indiscutível: foi criado por D. João VI em 06 de junho de 1818, é a mais antiga instituição científica do Brasil e o maior museu de história natural da América Latina, com um acervo de cerca de 20 milhões de itens, média de visitação mensal em torno de 10.000 pessoas, com picos de 20.000 pessoas em um único mês (COSTA; LAMEIRÃO; VILLAS BOAS, 2017). Para Vieira e Bianconi (2007), o MN abriga as coleções científicas que constituem a maior parte da memória nacional no campo da História Natural, prestando serviços como um centro de atividades culturais, científicas e de formação. Assim, para as autoras, o MN oferece oportunidades de realização de aulas não formais, uma vez que com o seu acervo podem realizar atividades estimulantes para o ensino (VIEIRA; BIANCONI, 2007). Segundo Costa, Lameirão e Villas Boas (2017), 75% de seu público é composto pelo público de visitação espontânea (principalmente famílias), 38% dos adultos que o visitam são acompanhados de crianças de 0 a 6 anos, porém com apenas 2% de pessoas acima de 60 anos (o que reflete a falta de acessibilidade), o que reforça a importância de um ambiente acessível, incluindo não só as pessoas com deficiência, mas também a população de uma maneira em geral. O estágio curricular supervisionado do curso de Licenciatura em Letras/Libras da UFRJO Curso de Licenciatura em Letras/Libras da Faculdade de Letras da UFRJ possui o objetivo específico de formar professores com sólidos conhecimentos em Libras com formação pedagógica e conhecimento de metodologias de ensino de Libras como primeira (L1) e segunda língua (L2), além de vasto conhecimento de teorias linguísticas e literárias. A disciplina Prática de Ensino de Libras (Estágio Supervisionado) envolve basicamente três áreas de ensino - Ensino de Literatura Surda (LS), Ensino de Língua de Sinais Brasileira como primeira língua (L1), Ensino de Língua de Sinais Brasileira como segunda língua (L2). Nesta disciplina são trabalhadas situações que auxiliem na construção de conhecimento por meio da reflexão, análise e problematização da prática pedagógica e iniciação à docência. Vivenciam-se experiências a partir dos conhecimentos adquiridos ao longo da formação
image/svg+xmlAs atividades do estágio em letras/libras no museu nacional por meio da educação não formal em ciências: Relato de experiência e busca da memória afetivaRIAEERevista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 17, n. 3, p. 1677-1694, jul./set. 2022. e-ISSN: 1982-5587 DOI: https://doi.org/10.21723/riaee.v17i3.159421683 acadêmica e, principalmente, possibilita-se a reflexão que perpassa os estudos teóricos e as vivências compartilhadas no ensino de LS, L1 e L2. O estágio curricular supervisionado do curso de Licenciatura em Letras/Libras da UFRJ ocorre ao longo da disciplina de Prática de Ensino de Libras, a qual contempla 400h. Esse quantitativo de horas é totalizado ao longo de três semestres (100h + 150h + 150h). Assim como todos os demais cursos de Licenciatura da UFRJ, os estágios são orientados pela Faculdade de Educação (FE). Para que o licenciando tenha uma visão ampla de diversas possibilidades de trabalho, os estágios são divididos em espaço não formal de ensino (100h primeiro semestre de estágio) e espaço formal (300h segundo e terceiro semestres de estágio). O estágio em espaços de ensino não formal ocorre principalmente em centros culturais, museus, parques e outros locais acessíveis ao público. Nesses espaços, o objetivo do estágio é promover um curso de Introdução à Libras, ministrado pelos licenciandos, aos funcionários do local, objetivando um melhor atendimento ao público surdo. O estágio em local de ensino formal ocorre prioritariamente em espaços educacionais conveniados à UFRJ. Como exemplos dessa última modalidade, podem ser citadas as escolas da Prefeitura do Rio de Janeiro, as escolas do estado do Rio de Janeiro, os Institutos Federais, a Fundação de Apoio à Escola Técnica (FAETEC) e o próprio Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). Fundamentação teóricaPode-se afirmar que o estágio supervisionado é um momento especial no decorrer da formação profissional, pois possibilita ao estudante, sob a orientação de um professor, vivenciar a prática profissional (OLIVEIRA; MOURÃO, 2012). Assim, acaba enriquecendo e atualizando a formação acadêmica, permitindo a vivência de experiências, de resolução de problemas, avaliando e sugerindo mudanças nas organizações escolares, com base nas referências teóricas obtidas e estudadas durante a graduação (DONATONI, 1991). O intuito da vivência do estágio é promover o desenvolvimento do olhar crítico sobre o exercício da práxis a partir da realidade do trabalho educativo, de modo que essa prática se torne constante por ocasião do seu exercício profissional (LIMA, 1995).
image/svg+xmlRenata Cardoso de Sá Ribeiro RAZUCK e Fernando Barcellos RAZUCKRIAEERevista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 17, n. 3, p. 1677-1694, jul./set. 2022. e-ISSN: 1982-5587 DOI: https://doi.org/10.21723/riaee.v17i3.159421684 Isso significa que conjuntamente ao conhecimento teórico, o estágio também é responsável pela construção de conhecimentos e possibilidades de contribuir com o fazer profissional do futuro professor (FREIRE, 2001). Carvalho (1985) explica que a aprendizagem se constrói à medida que as experiências vivenciadas nos estágios sejam discutidas em um momento destinado a essa finalidade na tentativa de interagir na realidade profissional com os elementos estudados no curso. Ao pensar na formação inicial dos professores, “se tornaram, irremediavelmente, necessários na construção de um professor reflexivo: a pesquisa como um dos principais condicionantes para a reflexão” (MACIEL; BOMURA, 2004, p. 17).Pensando no foco do curso e na especificidade da Libras, o estágio em forma de pesquisa propicia novos olhares para a formação dos futuros professores na área do ensino de Libras, tanto como primeira Língua (L1) quanto como segunda Língua (L2), possibilitando um campo de investigação na construção de conhecimentos observar, registrar, analisar e socializar pesquisas. Também apresentam a possibilidade dos futuros professores de Libras de: “desenvolverem postura e habilidades de pesquisador a partir das situações de estágio, elaborando os projetos que lhe permitam ao mesmo tempo compreender e problematizar as situações” de ensino (PIMENTA; LIMA, 2004, p. 41).O estágio, então, deixa de ser considerado apenas como um dos componentes e mesmo um apêndice do currículo, passando a integrar o corpo de conhecimentos do curso de formação de professores. Deverá permear todas as disciplinas, além do seu espaço específico de análise e síntese ao final do curso. Cabe-lhe desenvolver atividades que possibilitem o conhecimento, a análise, a reflexão do trabalho docente, das ações docentes, nas instituições, de modo a compreendê-las em sua historicidade, identificar seus resultados, os impasses que apresenta e as dificuldades. Assim, à luz dos saberes disciplinares, é possível apontar as transformações necessárias no trabalho docente. Esse conhecimento envolve o estudo, a análise, a problematização, a reflexão e a proposição de soluções às situações de ensinar e aprender. Deve abranger o ato de experimentar situações de ensinar, aprender a elaborar, executar e avaliar projetos de ensino não apenas nas salas de aula, mas também nos diferentes espaços. Por isso, é importante desenvolver nos alunos, futuros professores, habilidades para o conhecimento e a análise das escolas, espaço institucional onde ocorre o ensino e a aprendizagem, bem como das comunidades onde se insere. O estágio também deve envolver conhecimento, a utilização e a avaliação de técnicas, métodos e estratégias de ensinar em situações diversas. Aborda a habilidade de leitura e
image/svg+xmlAs atividades do estágio em letras/libras no museu nacional por meio da educação não formal em ciências: Relato de experiência e busca da memória afetivaRIAEERevista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 17, n. 3, p. 1677-1694, jul./set. 2022. e-ISSN: 1982-5587 DOI: https://doi.org/10.21723/riaee.v17i3.159421685 reconhecimento das teorias presentes nas práticas pedagógicas das instituições escolares (PIMENTA; LIMA, 2004). Ou seja, o estágio assim realizado permite que se traga a contribuição de pesquisas e o desenvolvimento das habilidades de pesquisar. Essa postura investigativa favorece a construção de projetos de pesquisa a partir do estágio (PIMENTA; LIMA, 2004). MetodologiaEste artigo trata-se de um relato de experiência, uma vez que tem aproximação com os estudos descritivos, visto que descreve fenômenos a partir de possíveis estabelecimentos de relações da ação (GIL, 2008). Dada a relevância do estágio supervisionado obrigatório, este trabalho busca relatar a experiência de estágio vivida no segundo semestre de 2016 pela primeira turma do curso de Licenciatura em Letras/Libras da UFRJ. Neste sentido, tendo em vista o processo de inclusão de surdos e formação de professores de Libras, elaborou-se um programa de Estágio Supervisionado do curso de Licenciatura em Letras/Libras da UFRJ no MN, também vinculado à UFRJ. Foram então realizadas pelos estagiários e professores, em parceria com a Equipe da Seção de Assistência ao Ensino do MN (SAE), 2 (duas) atividades para os funcionários do MN: uma Oficina de Introdução à Libras e uma participação no Curso de Mediadores do MN, a qual é realizada anualmente pelo MN. Participaram das atividades funcionários, mediadores, servidores da bilheteria e seguranças do MN. As aulas de Libras produzidas pelos estagiários ocorreram por meio de 6 (seis) encontros, com duração de 4 horas por encontro. As aulas foram divididas nas temáticas: o que é Libras; Fundamentos da Cultura Surda; Alfabeto Manual; Números; Saudações; Características/adjetivos; Calendário; Família; Cores; Animais; Verbos; Diálogo; Vocabulário específico do local. Anteriormente ao início das atividades, para se trabalhar com o vocabulário específico, a equipe da UFRJ foi recebida pela equipe do SAE para uma visita guiada especialmente destinada ao grupo do curso de Licenciatura em Letras/Libras da UFRJ.
image/svg+xmlRenata Cardoso de Sá Ribeiro RAZUCK e Fernando Barcellos RAZUCKRIAEERevista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 17, n. 3, p. 1677-1694, jul./set. 2022. e-ISSN: 1982-5587 DOI: https://doi.org/10.21723/riaee.v17i3.159421686 Resultados e discussãoO grupo da UFRJ foi constituído pela pesquisadora (professora regente da disciplina de Prática de Ensino de Libras), 3 estagiários ouvintes e 6 estagiários surdos (todos alunos do sexto semestre do curso de Licenciatura em Letras/Libras da UFRJ). Após a apresentação aos alunos da proposta de estágio em um espaço de educação não formal e contato com a seção de ensino do MN, uma visita guiada foi agendada. Essa visitação visava favorecer o reconhecimento do espaço físico do museu e de seu acervo para que o grupo de alunos pudesse efetuar pesquisas em busca dos diversos sinais necessários para o espaço museológico em questão. A visita foi acompanhada por intérprete para favorecer o diálogo entre os alunos e os profissionais da seção de ensino que apresentaram os diferentes espaços do museu. Os nove estagiários realizaram um profundo trabalho de pesquisa para dominar os sinais referentes às particularidades das obras expostas (divididas basicamente em: antropologia biológica, arqueologia, etnologia, geologia, paleontologia, zoologia e Império brasileiro). Paralelamente ao trabalho de pesquisa de sinais específicos, os alunos passaram a planejar e elaborar o curso de Introdução à Libras destinado à equipe do MN. Oficina de Introdução à Libras Com intuito de cumprir a disciplina Prática de Ensino de Libras (Estágio Supervisionado), os discentes planejaram e programaram aulas oferecidas ao grupo do MN. Além de ser um importante momento de aprendizagem para os futuros professores na construção de saberes, articulação entre teoria e prática e formação de uma identidade profissional, eles ainda conseguiram experimentar outra maneira de produzir conhecimento fora das tradicionais salas de aula: a educação científica em museus (Figura 1). A oficina ocorreu principalmente no auditório do MN, embora toda a parte de vocabulário específico tenha sido trabalhada in loco, juntamente ao acervo em questão, com o objetivo de facilitar o processo de aprendizado dos sinais devido à observação e contato com as obras. O curso destinado ao grupo do MN foi programado para ocorrer em seis encontros, onde já no primeiro encontro os discentes foram recepcionados pelas profissionais da SAE e puderam conhecer o MN, para melhor planejarem o curso. Os seis encontros ocorreram às segundas-feiras (dia em que o museu não abre ao público, apenas seus funcionários realizam trabalhos internos) e aos sábados (com início duas horas antes da abertura do museu ao público). Cada
image/svg+xmlAs atividades do estágio em letras/libras no museu nacional por meio da educação não formal em ciências: Relato de experiência e busca da memória afetivaRIAEERevista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 17, n. 3, p. 1677-1694, jul./set. 2022. e-ISSN: 1982-5587 DOI: https://doi.org/10.21723/riaee.v17i3.159421687 encontro durava aproximadamente 4 (quatro) horas, nos quais foram abordados conteúdos como: O que é Libras?; Fundamentos da Cultura Surda; Alfabeto Manual; Números; Saudações; Características/adjetivos; Calendário; Família; Cores; Animais; Verbos; Diálogo; Vocabulário específico do local. A presença média de participantes foi de 27 pessoas por dia, com grupos formados por alunos da Faculdade de Letras, servidores e mediadores do SAE. Como os professores da oficina/curso eram majoritariamente surdos, os alunos que participaram puderam voltar o olhar sob a perspectiva dos surdos e perceber suas necessidades comunicativas. A atividade também chamou a atenção de alguns visitantes como um casal que, ao ver a movimentação no auditório, pediu para participar e retornou ao MN para assistir às aulas restantes. No último encontro, esse mesmo casal trouxe também a filha pré-adolescente que era surda para participar. Após cada ensinamento, pequenos grupos eram formados para a prática de diálogos conduzidos pelos licenciandos. Além de todos os instantes de conteúdo programado, a oficina também foi um espaço de muita descontração, leveza e aprendizagens. Os participantes aprenderam e contaram piadas, riram e se divertiram. A aula sobre alimentos foi realizada com um lanche coletivo para confraternização e aproximação dos participantes. Momentos de trocas como esses são fundamentais para formação de profissionais melhores. As aulas não contribuíram somente para os estudantes em processo de estágio supervisionado, mas também para toda equipe da SAE/MN que pode fazer parte dessa atividade. Do total de nove estagiários, seis nunca haviam visitado o MN, localizado na Quinta da Boa Vista, no município do Rio de Janeiro. Esse fato chama a atenção, pois apesar da maior parte destes estudantes afirmar não conhecer previamente o MN, todos disseram conhecer bem a Quinta da Boa Vista, um parque que possui diversas atrações, dentre elas, o próprio MN, o Zoológico e atividades recreativas ao ar livre. Possivelmente, o fato de não conhecerem previamente o MN pode estar ligado ao sentimento de não terem acesso às informações ali disponíveis devido à barreira da comunicação, já que os surdos do grupo se comunicam prioritariamente em Libras. Entende-se que a visitação ao MN promovida antes do início do curso foi de suma importância para todo o processo. Após a visitação, os estagiários demonstraram grande admiração pelo MN e sua equipe, o que muito os estimulou para a elaboração de aulas de Libras adequada ao grupo local. Por iniciativa do grupo, houve o interesse em organizar um pequeno glossário com os sinais pesquisados. Tanto o grupo de estagiários como a equipe de
image/svg+xmlRenata Cardoso de Sá Ribeiro RAZUCK e Fernando Barcellos RAZUCKRIAEERevista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 17, n. 3, p. 1677-1694, jul./set. 2022. e-ISSN: 1982-5587 DOI: https://doi.org/10.21723/riaee.v17i3.159421688 funcionários do MN estiveram presentes em praticamente todos os momentos do curso, demonstrando grande interesse na atividade em questão. Ao fim do curso, novas ideias de trabalhos em parceria surgiram, como a abertura de vagas de iniciação científica para os licenciandos de Letras-Libras, assistência quanto à acessibilidade do local e convite para participação em atividades diversas realizadas no MN. Logo após a realização do curso de Introdução à Libras, a equipe da SAE convidou a pesquisadora e os estagiários para proferir uma oficina de Libras aos participantes do VI e VII Curso de Formação de Mediadores do Museu Nacional, realizados em 2017 e 2018, respectivamente. Tal curso é gratuito e participam estudantes de graduação, guias de turismo e professores dos diferentes segmentos das redes pública e privada. Figura 1 Atividades realizadas durante a Oficina de Estágio Fonte: Elaborado pelos autores Podem ser observados na Figura 1, além das atividades realizadas no auditório, alguns objetos do museu, tais como ossadas de dinossauros, meteoro Bendegó, além da própria arquitetura do museu. VII Curso de Formação de Mediadores do Museu Nacional O curso em questão visava à formação de mediadores almejando aprimorar a sua atuação em museus de ciência, especialmente no MN. O curso de Formação de Mediadores era