Chamada para artigos

21/11/2022

Revista Itinerários. N. 56

Tema: NATURALISMO/NATURALISMOS, DO SÉCULO XIX AO XXI – Questões de forma, classe, raça e gênero na literatura

Este dossiê propõe debater sobre os princípios da estética naturalista e suas principais manifestações literárias, de qualquer nacionalidade, tanto no século XIX, quanto nos séculos XX e XXI. Movimento estético democrático, audacioso e inovador, o naturalismo rapidamente se difundiu pelo mundo (BECKER & DUFIEF, 2018), atraindo escritores de diversos países que o adotaram como forma de se alinhar à modernidade industrial, numa geografia que ultrapassa as fronteiras das literaturas nacionais. Tal força de representação ultrapassou seu tempo histórico e permanece viva, mostrando que a temporalidade literária obedece a regras específicas dos campos literários (CASANOVA, 1999). Tendo como fundamento retratar “a vida como ela é”, o naturalismo estuda personagens em seus cotidianos, mesmo quando desprezíveis ou abjetos. Tal método de criação deu origem a críticas à brutalidade e à imoralidade do naturalismo, assim como à pretensão ingênua de representar fielmente a realidade. Entretanto, em vários textos-chave da estética, como o ensaio “O romance experimental” (1880), Zola declara que se tratava de criar uma “ilusão” da realidade, pois se o naturalismo adotava procedimentos científicos como reação a um romantismo gasto, o ato de criação cabia ao artista e seu “temperamento” individual. Daí que não se deva falar em “escola naturalista” ou em “mestres” e “discípulos”, já que os escritores executaram os princípios da estética de várias maneiras – o que nos permite hoje falar de “naturalismos” (BECKER & DUFIEF, 2017). Estudos recentes vêm desvendando um quadro capaz de acomodar uma gama variada de vertentes naturalistas, em suas relações com o gótico, a prosa decadente, o impressionismo, o romance popular e a literatura licenciosa, privilegiando ora uma visão trágica da existência, ora uma perspectiva “cômica” e desiludida (BAGULEY, 1995). A voga naturalista do século XIX deu origem a métodos de pesquisa e criação, bem como a formas de expressão que foram retomadas por escritores nos séculos XX e XXI. A forma de abordar a realidade como elemento constitutivo da obra servirá a fotógrafos, cineastas e autores de telenovela. Flora Süssekind se refere às vogas naturalistas nos anos 1930 e 1970, e aponta, nos anos 2000, nos temas tratados na obra de Ferréz, Dráuzio Varella e Paulo Lins, para uma retomada dos postulados centrais do naturalismo. O desejo de expressar dimensões desagradáveis da realidade, a primazia da descrição de conflitos sociais, os temas do preconceito racial e da diversidade sexual, assim como o desejo de documentar situações de opressão e exclusão de sujeitos subalternizados, incluindo as mulheres, constituem elementos do pacto naturalista de leitura que se renova e se reproduz na contemporaneidade. São obras que dialogam com o tempo imediato e se posicionam como “retratos do real”, sugerindo posicionamentos sobre situações cotidianas de opressão e violência. O elemento extraliterário é um componente central da obra, e a busca por verossimilhança decorre tanto do discurso da experiência pessoal quanto da pesquisa científica ou jornalística. Para Rancière (2009), ao abolir hierarquias e criar obras que não respeitavam a organização realista clássica, o naturalismo criou, por meio do “efeito de realidade”, um “efeito de igualdade”, que está diretamente ligado à possibilidade de associação livre de imagens. Rancière dirá ainda que a literatura que privilegia o descrever sobre o narrar permite que o “aristocrático emprego da ação” seja “bloqueado pela democrática coleção desordenada de imagens”. Com a perspectiva renovada de um naturalismo libertário, múltiplo e desordenado, reconhecível nos séculos XIX, XX e XXI, convidamos pesquisadores a enviar propostas de trabalhos que incorporem novas questões de pesquisa e estudos de caso ao debate sobre o naturalismo.

Organizadores do volume: Haroldo Ceravolo Sereza (UFSCar); Leonardo Pinto Mendes (UERJ); Claudia Barbieri (UFRRJ) e Renata Soares Junqueira (FCLAr/UNESP).

Envio de originais até: 21/02/2023