Chamadas Abertas

Nº 52, 2021.

Dossiê “Literaturas pós-coloniais e as formas do contemporâneo”

Segundo Stuart Hall (2013, p.118), o termo pós-colonial chama nossa atenção “para o fato de que a colonização nunca foi algo externo às sociedades das metrópoles imperiais. Sempre esteve profundamente inscrita nelas – da mesma forma como se tornou indelevelmente inscrita nas culturas dos colonizados”. Nesse sentido, o conceito traz à tona uma inscrição múltipla de processos históricos na qual o binarismo cede espaço a uma reescrita descentrada das grandes narrativas, recusando uma perspectiva de um “antes” e um “agora”, de um “aqui” e um “lá”, em favor, como diz Homi K. Bhabha (1998, p. 46), “[d]o hibridismo cultural e histórico [....] como lugar paradigmático de partida”. Aliás, como famosamente ressalta Gayatri Chakravorty Spivak (2010), os estudos pós-coloniais procuram sempre interrogar os limites de categorias como sujeito, agência e voz para pensar em diversos setores sociais que estão precariamente ancorados nas grandes narrativas históricas, políticas e econômicas da modernidade e suas diversas periferias.

Assim, longe de se circunscrever em uma periodização histórica fixa – ou naquilo que Ella Shohat (1992) nomeia de “temporalidade problemática” –, os estudos pós-coloniais procuram reorganizar períodos históricos, geografias hegemônicas e dispositivos de poder de modo a questionar a supremacia de certos paradigmas epistemológicos. Portanto, como todo pensamento crítico sobre os tempos, os espaços e os imaginários que co-habitamos, as formas do contemporâneo também fazem parte do material que o olhar pós-colonial busca revisar e teorizar. É o que, de fato, propõe Dipesh Chakrabarty (2012, p. 1) com relação ao debate sobre o antropoceno quando diz que “a conjuntura atual da globalização e o aquecimento global apresenta-nos o desafio de ter que pensar a agência humana simultaneamente segundo escalas múltiplas e incomensuráveis”.

O número 52 da Itinerários - Revista de Literatura acolherá artigos que tratem das relações entre a literatura e o pensamento pós-colonial, tendo em vista suas formas de transculturação, de heterogeneidade, de tradução cultural e de deslocamentos, tentando sempre elaborar novas formas de teorizar as nossas temporalidades preferencialmente a partir daquilo que constitui as diferenças de raça, de classe, de gênero, de orientação sexual.

Prazo de submissão de artigos: 26 de fevereiro de 2021

Organizadores do volume:
Mónica González García (Pontificia Universidad Católica de Valparaíso, Chile)
Natali Fabiana da Costa e Silva (Universidade Federal do Amapá – UNIFAP, Brasil)
Paulo César Andrade da Silva (Universidade Estadual Paulista – UNESP, Brasil)

Referências

BHABHA, Homi K. O local da cultura. Tradução de Myriam Ávilla, Eliana Lourenço de Lima Reis, Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.

CHAKRABARTY, Dipesh. Postcolonial Studies and the Challenge of Climate Change. New Literary Historyv. 43, n. 1, p. 1-18, 2012.

HALL, Stuart. Quando foi o pós-colonial?: pensando no limite. In: HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Identidades e mediações culturais. Tradução de Cláudia Álvares, Sayonaram Amaral, Ana Carolina Escosteguy, Adelaine La Guardia Resende, Francisco Rudiger. Belo Horizonte: UFMG, 2013. p. 110-140.

SHOHAT, Ella. Notes on the "Post-Colonial". Social Text, v. 31/32, p. 98-113, 1992.

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Tradução de Sandra Regina Almeida, Marcos Pereira Feitosa, André Pereira Feitosa. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.