image/svg+xmlA temática da convivência ética em contextos escolaresRPGERevista on linede Política e Gestão Educacional, Araraquara, v. 26, n. esp. 3,e022089,jul. 2022.e-ISSN: 1519-9029DOI:https://doi.org/10.22633/rpge.v26iesp.3.169491A TEMÁTICA DA CONVIVÊNCIA ÉTICA EM CONTEXTOS ESCOLARESEL TEMA DE LA CONVIVENCIA ÉTICA EN CONTEXTOS ESCOLARESTHE TOPIC OF ETHICAL COEXISTENCE IN SCHOOL CONTEXTSLuciene Regina Paulino TOGNETTA1Organizadora“A única arma para melhorar o planeta é a Educação com ética.Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor da pele, por suaorigem, ou ainda por sua religião.Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”.Nelson MandelaA escola sempre foi, por excelência, um espaço de aprendizagem da convivência entre as pessoas, onde se manifestam as indisciplinas, as transgressões às regras e diferentes formas de violência que reverberam a urgência de considerarmos a temática da convivência como foco de investigações que orientem a formulação de documentos e Leis, apontando metodologias e ações eficazes para a prevenção de tais problemas, sobretudo, daqueles que permanecem escondidos nas relações entre pares. Estes, embora menos frequentes em comparação com os demais, são mais difíceis de resolver e mais cruéis para quem os vivencia: as intimidações sistemáticas características do bullying e sua extensão em ambientes virtuais, o cyberbullying. Ao mesmo tempo, a escola configura-se como um espaço de formação e de preservação das conquistas humanas construídas historicamente. Portanto, educar meninos e meninas para que a convivência, dentro e fora da escola, tenha uma qualidade éticaé sua função primordial. É sobre essas questões tão presentes e urgentes que esse dossiê trata. Ele surgiu das urgências e necessidades de pequenas e pequenos humanos em formação por encontrarem, em suas escolas, um espaço de bem estar que contemple o que têm garantido por Lei: o direito à aprendizagem da convivência. Trata-se de uma coletânea de pesquisas realizadas durante os anos de 2019 a 2022 junto a escolas públicas estaduais paulistas em um projeto financiado por duas fundações -a Fundação Carlos Chagas e a Fundação Itaú Social,visando suprir a urgente tarefa de conduzir investigações científicas que pudessem construir políticas públicas para a 1Universidade Estadual Paulista (UNESP), Araraquara-SP Brasil.Professora do Departamento de Psicologia da Educação (FCLAr/UNESP).Doutorado em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0929-4925.E-mail:luciene.tognetta@unesp.br
image/svg+xmlLuciene Regina Paulino TOGNETTARPGERevista on line de Política e Gestão Educacional, Araraquara, v. 26, n. esp. 3,e022089, jul. 2022.e-ISSN: 1519-9029DOI:https://doi.org/10.22633/rpge.v26iesp.3.169492melhoria da qualidade dos anos finais do Ensino Fundamental no Brasil. São oito artigos resultantes desse percurso investigativo somado a um nono artigofruto de uma investigação anterior a essas, cuja boniteza (para lembrar Paulo Freire) é a clareza de que o mais importante na implementação de um programa de convivência é seu processo, e não a chegadasão as pessoas que se transformam e não os resultados daperformance. O que o leitor lerá aqui são investigações conduzidas por um grupo de gigantes que transformaram seus tempos e espaços de luta diária para fazer a ciência ter voz e vez em um país tão descrente de seu potencial humano. Certamente, já não era tarefa fácil fazê-lo antes da pandemia que assolou o mundo. Neste tempo, em meio a muitas angústias, pesquisadoras e pesquisadores, alunos, alunas, escolas, Secretarias de Educação,educadores e educadoras tiveram que se reinventar diante das possibilidades do trabalho remoto por meio das plataformas digitais, tornando evidente a transformação mundial das instituições de ensino em “escolas sem paredes”. Fomos e ainda estamos sendo impactados pelos efeitos dos problemas mais urgentes que temos vivido,para além da saúde física: como nos sentimos hoje diante do inesperado, diante de uma situação que não temos domínio e nem controle? Frutos dessas novas condições, sentimentos de medo, tristeza, nostalgia, angústias, preocupação, frustração e desânimo fizeram morada em cada um de nós, humanos, de qualquer idade! E como esses sentimentos têm se manifestado no nosso cotidiano? Não é difícil entender o que está por trás do número de crianças e adolescentes, além dos adultos diagnosticados com sintomas de depressão, ansiedade, machucados autoprovocados e mesmo aqueles pensamentos mais preocupantes de que a vida não vale a pena ser vivida (as ideações suicidas). Tanto os fatos como as pesquisas que aqui apresentamos nos mostram que as pessoas que passam pelo impacto de uma crise precisarão se reconstruir com a ajuda de alguém e, no caso de nossas crianças e adolescentes, contando com aqueles e aquelas com quem mais convivem no seu cotidiano. Com efeito, essa reconstrução é progressiva e não se dará de um dia para outro. Diante disso, como equacionar as exigências trazidas pela complexidade do extenso período de afastamento do contexto presencial da escola com a urgente necessidade de prevenção às violências e a aprendizagem de uma convivência positiva em nossas escolas?Algumas das respostas -e são muitas -a essa indagação serão dadas neste dossiê. Nossas pesquisas identificaram a urgência de políticas públicas estruturadas para a formação de professores que superem as práticas de projetos pontuais para tratamento de temas e demandas emergentes.
image/svg+xmlA temática da convivência ética em contextos escolaresRPGERevista on linede Política e Gestão Educacional, Araraquara, v. 26, n. esp. 3,e022089,jul. 2022.e-ISSN: 1519-9029DOI:https://doi.org/10.22633/rpge.v26iesp.3.169493Também mostraram a necessidade de escuta do que pensam e vivem os profissionais de ensino para a construção de programas de formação de professores (tempos, temas e espaços). Apontaram a urgência de novas temáticas incorporadas ao cotidiano da escola (cyberconvivência e sofrimento emocional) e de ações proativas para uma convivência social respeitosa e empática além da necessidade de integração, conhecimento e pactos de atuação conjunta da escola e do restante da rede de proteção para atendimento às demandas sociais e emocionais dos alunos e alunas, principalmente pós-pandemia. As pesquisas e reflexões trazidas neste dossiê foram feitas por muitas mãos. Gente comprometida em fazer valer a função da universidade pública: que o conhecimento possa gerar reconhecimento de sua importância e finalmente, a ação e a reação. Elas geraram também um conjunto de recomendações a todos e todas aqueles e aquelas cuja preocupação é conosco compartilhada sobre os rumos das políticaseducacionais neste país. Quando chegamos ao final dos trabalhos realizados neste biênio tão enlouquecedor que vivemos, conseguimos perceber, concretamente, ter sido possível condensar em dezrecomendações os resultados mais importantes encontrados. Por essa razão resolvemos destinar este espaço que seria apenas uma apresentação, para a difícil, mas emancipadora tarefa de anunciar o que produzimos até aqui. Começamos, assim, pelo fim, não como final, mas como o sentido para tudo o que aqui apresentamos: são dezrecomendações que representam o sinal de resistência de todos e todas aqueles e aquelas que, como nós, almejam ver o tema da convivência e qualidade ética como política educacional para todos os brasileirinhos e brasileirinhas (TOGNETTA, 2022). Passemos, assim, às recomendações decorrentes dos trabalhos realizados que foram base para as pesquisas apresentadas neste dossiê. Primeira recomendação: Um diagnóstico do clima e da convivência escolar: conhecer, enfrentar e transformar Entre as recomendações que a experiência das investigações conduzidas tem a propor, evidenciamos a primeira grande lição aprendida: conhecer como percebem o que vivem e sentem, em determinado período, aqueles que convivem e como deve ser condição para qualquer trabalho que proponha a melhoria do clima e da própria convivência na escola.Avaliar a qualidade do clima escolar possibilita um olhar de reconhecimento das dificuldades que se tem para favorecer o desenvolvimento pessoal e da comunidade educativa (MILICIC, 2001), mas, sobretudo, reitera o valor que o tema da convivência tem dentro de
image/svg+xmlLuciene Regina Paulino TOGNETTARPGERevista on line de Política e Gestão Educacional, Araraquara, v. 26, n. esp. 3,e022089, jul. 2022.e-ISSN: 1519-9029DOI:https://doi.org/10.22633/rpge.v26iesp.3.169494instituições que, muitas vezes, focam seus processos educativos sobretudo nos resultados acadêmicos (PASCUAL, 1995; JARES, 2006; URUÑELA, 2013, 2018).As ações de avaliação do clima relacional implementadas na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) tornaram possível a concretização dessas duas importantes constatações. Sobre a primeira delas, em nossa pesquisa sobre o clima relacional junto às escolas paulistas, os resultados indicaram aspectos bastante interessantes para quem desejava estabelecer uma política para a melhoria da convivência. Vimos,por exemplo, que as alunas e os alunos dessas escolas, mesmo antes da pandemia, já indicavam o que não há mais como negar, visto o caráter virtual cada vez mais presente no cenário das relações entre as pessoas no mundo em que vivemos as cyberagressões.Da mesma forma, vimos que outras manifestações de caráter perturbador estavam presentes nas escolas paulistas: docentes e membros das equipes gestoras queixando-se das transgressões e a desobediência às regras. Contudo, são as alunas e os alunos que destacam as situações de humilhação vividas frequentemente nas relações com suas professoras, professores e gestores, da mesma forma que o corpo discente é o que mais concebe como negativas as formas pelas quais a escola se utiliza para resolver conflitos. Os dados indicaram a vulnerabilidade do entorno social onde as escolas estão inseridas, revelando o quanto tais apontamentos poderiam contribuir para políticas sociais implementadas com a articulação da rede de proteção nesses espaços mais vulneráveis. Os resultados também mostraram o quanto as questões de bullying tão presentes no cotidiano e, certamente, no tenso imaginário vivido naquela Secretaria que teve suas mais de 5 mil escolas impactadas com o massacre de Suzano estão presentes e precisam, mais do que ações pontuais, de um programa planejado, organizado e intencional de ações que permitam a prevenção a uma violência que, quando acontece, dificilmente se consegue destituir todas as suas irremediáveis consequências (TOGNETTA; FODRA; BONI, 2020). Esses dados provaram a importância do caminho que a secretaria de Estado de Educação de São Paulo estava trilhando: havia uma sensação de medo experimentado pelos estudantes nas relações com seus pares, o que poderia sinalizar que a condição maior para a aprendizagem acadêmica, moral e social que é o bem-estar nas relações de confiança e de cooperação, estabelecidos com a autoridade e com os pares, respectivamente precisava ser considerada. Esse era o investimento a ser feito. Os dados do clima escolar, por outro lado, também evidenciaram o quanto a violência dura existe, ainda que com frequência bastante reduzida nas escolas, sendo muito mais
image/svg+xmlA temática da convivência ética em contextos escolaresRPGERevista on linede Política e Gestão Educacional, Araraquara, v. 26, n. esp. 3,e022089,jul. 2022.e-ISSN: 1519-9029DOI:https://doi.org/10.22633/rpge.v26iesp.3.169495reconhecida ainda entre os estudantes do que pelos professores. Esse é um fato que explica a necessidade de uma política de proteção, mas, mais do que isso, evidencia a urgência de que os pares possam ser formados para o diagnóstico (porque são eles quem mais sabem sobre seus pares), intervenção e transformação do “espírito” para o qual a comunidade educativa converge. Todos esses benefícios gerados com o diagnóstico do clima relacional em parte considerados na mudança do Sistema de Proteção Escolar e Comunitária (Spec) para o Programa de Melhoria da Convivência e Proteção Escolar (Conviva SP) seriam preditores das necessidades de quem vive na escola (TOGNETTA, 2022). Contudo, de nada servem nas mãos de quem os toma como dados políticos porque falta, necessariamente, o enfrentamento. Segunda recomendação: A construção de um plano para a convivência Essa é a segunda recomendação das pesquisas aqui apresentadas: conhecer para transformar só é possível quando se estabelece um plano contínuo de ações, ou se implementa, como já o dissemos, algo planejado, estruturado, intencional. Não se faz política sem o enfrentamento das mazelas vividas e apontadas por aqueles que nelas estão inseridas (CASASSUS, 2001). Isso posto, é preciso lembrar que implementar um acordo com fundações que trabalham temáticas como as competências socioemocionaisseria satisfatório se fossem considerados os aspectos que pior percebem os jovens nas relações com suas professoras e professores, por exemplo: a falta de intimidade, de acolhida, de afeto, como provaram os dados encontrados. Nessa lógica, rechaçar um plano de convivência em prol da adoção de propostas justapostas sobre temas convergentes, exceto em sua aplicabilidade, mas que divergem em sua fundamentação teórica, é trazer à tona mais um problema, e não a solução para o que já é problemático na escola. Mas, foi, exatamente, oque vivenciamos durante a realização das pesquisas aqui destacadas. A eleição de pacotes de trabalhos sobre saúde mental e competências socioemocionais são, em nossa visão, escolhas políticas que não entenderam que a melhoria da dimensão acadêmica denotada nas notas das avaliações governamentais e internacionais, buscada com apreço por governantes, depende da melhoria do conjunto de percepções sobre as relações humanas, sobre a convivência escolar, que por si abarca tanto o que se chama de saúde mental (com as ressalvas destacadas nos artigos sobre sofrimento emocional que aqui abordamos) quanto de competências socioemocionais.
image/svg+xmlLuciene Regina Paulino TOGNETTARPGERevista on line de Política e Gestão Educacional, Araraquara, v. 26, n. esp. 3,e022089, jul. 2022.e-ISSN: 1519-9029DOI:https://doi.org/10.22633/rpge.v26iesp.3.169496Certamente, para as alunas e alunos a quem se destinam essas políticas, sentir que suas capacidades intelectuais e de aprendizagem são valorizadas por seus professores e por eles mesmos quando têm espaços de discussão dos problemas, quando participam de assembleias, quando aprendem com docentes uma linguagem que acolhe e não que acusa, que busca consenso e não que pune, afeta diretamente suas notas e, consequentemente, sua aprendizagem (ARÓN; MILICIC, 1999). Por certo, a implementação de uma política educacional que queira resolver os problemas de violência na escola aqueles que já existiam e os que estão por vir, como indicam as pesquisas deste dossiê requer a escuta daqueles que convivem e um olhar focado em uma mesma direção, com uma fundamentação teórica que substantive ações com docentes, gestores e discentes, de modo a construírem, juntos, um programa de convivência. Requertambém a consideração de aspectos que, longe de serem novos, foram potencializados durante a pandemia de Covid-19. Passemos a eles.Terceira recomendação: Novas dimensões do clima relacional e da convivênciaComo elucidado no decorrer deste dossiê, a utilização de um instrumento para um diagnóstico do clima relacional na escola era um dos pontos de partida dos trabalhos de implementação de um Sistema de Apoio entre Iguais (SAI) dentro de um Programa de Convivência Ética. Foi o que fizemos. Contudo, com a pandemia instaurada e as relações tornadas distantes, para além do depreciativo trabalho da Secretaria com a qual trabalhamos, não valorizando os achados do questionário do clima, não faria o menor sentido mantermos as dimensões avaliadas em um possível retorno às aulas presenciais após dois anos de afastamento social, pois outras se tornam imprescindíveis de serem consideradas.Foi por essa razão e por conhecermos os resultados de diferentes investigações que já alertavam para as questões relativas ao sofrimento emocional e à experiência da convivência remota no mundo digital, trazendo novos problemas, que propusemos um novo questionário a crianças e adolescentes.Quando analisamos os dados que retratam a frequência de situações em que há indícios de sofrimento emocional, deparamo-nos com situações bastante desafiadoras para nossa sociedade no mundo atual, e para a escola no retorno presencial: crianças e adolescentes foram impactados pela situação vivida e precisarão de uma escola que considere suas emoções e sentimentos.
image/svg+xmlA temática da convivência ética em contextos escolaresRPGERevista on linede Política e Gestão Educacional, Araraquara, v. 26, n. esp. 3,e022089,jul. 2022.e-ISSN: 1519-9029DOI:https://doi.org/10.22633/rpge.v26iesp.3.169497Os dados encontrados nos indicam que o sofrimento emocional está evidenciado tanto no que sentem como também são explicitados por meio de comportamentos que colocam em risco sua própria vida. Mesmo que os percentuais encontrados referentes à tristeza, ao choro, ao medo, aos sintomas de ansiedade possam parecer baixos, precisam ser compreendidos como sinais claros de que parte das crianças e dos adolescentes está em sofrimento, dados que corroboram as demais investigações realizadas neste período. Os resultados de nossas investigações apontam para uma atenção especial ao grupo de crianças que já apresentam sintomas de sofrimento. São claros os sinais de que precisam de ajuda, principalmente, quando se mostram abertas aos desafios propostos na internet à própria vida e à vida de outros. Também mostram um dado sensível apontado pela quantidade de alunas e alunos, crianças e adolescentes, que têm se automutilado, e ainda uma especial necessidade de atenção às questões de gênero: meninas adolescentes apresentam maiores escores de sofrimento emocional e esta é uma questão importante, principalmente em tempos cujos marcos civilizatórios como a equidade das relações têm sido, diariamente, destituídos (JARES, 2006; LAHR;TOGNETTA, 2021).Tudo isso para endossar nossa terceira recomendação: não há mais como pensar as relações interpessoais na escola sem pensar nas cyber relações e nas chamadas relações intrapessoais; ou ainda as questões emocionais ou afetivas que permeiam a experiência humana eque, portanto, apontam para a urgência de um plano intencional de trabalho com as questões emocionais.Quarta recomendação: Plano intencional de trabalho com as questões emocionaisOs achados de nossas investigações apontam para uma necessária reorganização do currículo educacional, tendo em vista a urgente intervenção aos problemas de sofrimento emocional que assolam nossas crianças e jovens. Mais do que nunca, esse currículo deve passar a incluir, de maneira intencional, o trabalho com tais questões ecom outras a essas relacionadas. Crianças e adolescentes sofreram as consequências do isolamento social. A não socialização e a ausência dos espaços de escuta que, por mais simplistas que fossem, eram encontrados na escola, trouxeram consequências importantes a serem consideradas. As propostas de atividades realizadas no projeto (descrito neste dossiê) para atender a crianças e adolescentes com base em livros de literatura, jogos, dinâmicas de representação oral e escrita, trocas entre jovens, apontam-nos a necessidade da continuidade deste trabalho urgente e importante. Isso posto, é
image/svg+xmlLuciene Regina Paulino TOGNETTARPGERevista on line de Política e Gestão Educacional, Araraquara, v. 26, n. esp. 3,e022089, jul. 2022.e-ISSN: 1519-9029DOI:https://doi.org/10.22633/rpge.v26iesp.3.169498preciso lembrar que parte deste trabalho intencional, como temos defendido, apresenta-se no cotidiano das relações.Segundo a proposta construtivista que sustenta nossas ações, não se ensina “competências socioemocionais” por livros, mas sim, pelo estabelecimento de relações de confiança e de respeito mútuo, presentes nos trabalhos em pequenos grupos, nas discussões sobre as regras de convivência, na cooperação entre os pares ena aplicação de sanções por reciprocidade e formas de resolução de conflitos que permitam a reparação e a tomada de consciência por parte de quem age mal. Será preciso, também, espaços e estratégias pedagógicas intencionalmente planejados, de modo a promover conversas, trocas de ideias, relatos sobre seus medos, tristezas, angústias e alegrias, sentindo-se assim escutado, acolhido, compreendido, por si e pelo outro, reconhecido e, finalmente, valorizado (TOGNETTA, 2003; TOGNETTA, 2009).Enquanto acreditarmos que estratégias de trabalho em grupo só se fazem necessárias para sanar dificuldades pedagógicas; enquanto houver crenças de que se educa moralmente por meio da obediência e da educação militar (VINHA et al., 2021), o cenário observado nestas pesquisas não se mostrará diferente, nem entre os estudantes, nem entre suas futuras famílias. Em uma palavra: é recomendado que a escola seja continuamente e não somente na primeira semana de aulas espaço de acolhida, de escuta e de partilha, onde crianças e adolescentes tenham oportunidades de escolher e de falar o que sentem.Como nossas escolas darão conta de tantas recomendações? Qual o caminho? As respostas a tais indagações constituem as próximas recomendações destas pesquisas.Quinta recomendação: A promoção de uma cyberconvivência respeitosaQuando se pensa no isolamento social em que vivemos, outra dimensão já necessária mesmo antes da pandemia de Covid-19 torna-se uma condição em novos tempos: a cyberconvivência. Mais do queuma extensão da convivência presencial, conviver no espaço digital tornou-se uma necessidade cuja importância de novas discussões e novas pesquisas mostram o que é fato: crianças foram e serão expostas às telas e às redes cada vez mais precocemente. É fato que, para além dos benefícios gerados pela conectividade propiciada pela internet em um momento em que pais, crianças, avós e amigos foram separados, a relação humana conflituosa passou a ser evidenciada nesses espaços digitais.Chamamos de cyberagressãoou agressão virtual situações que são marcadas pela violência, exposição e práticas de humilhação, utilizando-se, para isso, celulares, internet e
image/svg+xmlA temática da convivência ética em contextos escolaresRPGERevista on linede Política e Gestão Educacional, Araraquara, v. 26, n. esp. 3,e022089,jul. 2022.e-ISSN: 1519-9029DOI:https://doi.org/10.22633/rpge.v26iesp.3.169499redes sociais. Compreendemos que as situações de cyberagressão são ameaçadoras para a saúde mental e para o bem-estar psicológico de crianças e adolescentes, acarretando danos e sofrimentos (ABRAMOVAY et al., 2016; AVILÉS MARTÍNEZ, 2009; FARHAT; LAN, 2010; SELMAN; WEINSTEIN, 2015; SIBILIA, 2016; SMITH, 2012; UNICEF, 2019). Assim, mais do que um trabalho em que se conheçam os problemas enfrentados no mundo virtual como cancelamentos, linchamentos, sexting, shaming, discursos de ódio, Fake Newsnossas investigações têm mostrado a necessidade de promovermos oportunidades de convivência saudável e respeitosavirtualmente a crianças e adolescentes. Como veremos nos artigos que seguem, as experiências vivenciadas por estudantes em escolas que implementaram as Equipes de Ajuda (EA) nos mostram que meninas e meninos continuam sendo os principais protagonistas doapoio aos que necessitam da acolhida, da escuta, da ajuda também no espaço virtual. Colocar-se no lugar do outro, perceber os sentimentos de outrem pode propiciar a construção de espaços de convivência virtuais mais respeitosos. Os discursos que, saudosamente, muitos utilizavam sobre a necessidade de os pais controlarem o acesso de seus filhos em seus celulares vai por água abaixo quando percebemos, com base nos dados de nossas investigações, que o fato de não ter celular não faz com que adolescentes sejammenos autores de cyberagressão. Da mesma forma, quando comparamos adolescentes que têm e não têm computador ou notebook em suas casas com suas ações como autores de cyberagressões, o estudo que apresentaremos neste dossiê mostra exatamente esse mesmo fato: não é de casa que saem a maioria dos ataques. Nossas pesquisas novamente revelaram uma questão prioritária quando pensamos as relações no mundo digital: as meninas são mais impactadas pelos problemas nessas relações e precisam muito mais de nossa ajuda para que possam se fortalecer em busca de uma identidade positiva, cujo ideal de moda, de beleza seja desconstruído para que possam superar os prejuízos tanto de tempo gasto, como de acesso e tipo de relações estabelecidas na web. Como se faz isso? Com propostas intencionais que permitam a discussão, o compartilhamento de experiências e a própria busca coletiva pelo reconhecimento dos problemas vivenciados pela comunidade escolar. Não é mais possível que problemas emergentes como as questões de convivência virtual sejam deixados “do lado de fora” das escolas2. Um currículo que promova uma convivência respeitosa para o futuro que nos aguarda é aquele que, no presente, meninas 2Um dos grandes problemas presentes nas escolas antes da pandemia era, exatamente, o uso do celular em sala de aula e, ainda maior, os problemas decorrentes das relações interpessoais entre os alunos em redes sociais ou em grupos de WhatsApp, como pudemos notar, por exemplo, nos dados dos Registros de Ocorrências Escolares (ROEs) destacados ao longo da pesquisa.
image/svg+xmlLuciene Regina Paulino TOGNETTARPGERevista on line de Política e Gestão Educacional, Araraquara, v. 26, n. esp. 3,e022089, jul. 2022.e-ISSN: 1519-9029DOI:https://doi.org/10.22633/rpge.v26iesp.3.1694910e meninos têm em suas aulas, a experiência de pensar sobre essa temática (BOZZA, 2016; FARHAT;BOZZA, 2020). Isso posto, experimentar relações virtuais justas e pensar sobre elas, refletir sobre como se sentem aqueles que são humilhados, esquecidos, cancelados e desrespeitados é condição para uma escola que “não tem mais paredes” (TOGNETTA, 2020a).Sexta recomendação: Onde nossas crianças e adolescentes procurarão abrigo? A escola, a família e a rede de proteçãoNa escola está presente um conjunto de profissionais que devem saber ou devem procurar saber como se preparar para os novos problemas, como veremos mais à frente em nova recomendação. Por ora, o que queremos apontar é que será tarefa também da escola a orientação e a acolhida às famílias que pouco ou nada sabem sobre como lidar com os comportamentos de suas filhas e filhos, impactados pelo isolamento social e o consequente aumento das relações virtuais, bem como pelos problemas de sofrimento emocional potencializados pela Covid-19. Será preciso ajudar os pais a compreender que, como os adultos, as crianças e adolescentes também se sentem com medo, ansiosos, tristes, preocupados, entre outras emoções e sentimentos; auxiliar as famílias a oportunizarem espaçosde escuta e de diálogo em que crianças e adolescentes possam expressar o que sentem; e finalmente orientá-las na construção de laços que protejam as crianças quando não se pode controlar totalmente a nova experiência de convivência digital. Essas parecem ser ações necessárias, com base nos dados das pesquisas que conduzimos e das inúmeras propostas de cuidado, proteção e manifestação de sentimentos e emoções que foram compartilhadas com os educadores no momento em que a escola passou a ser a sala de estar,a cozinha, o quarto das casas das alunas e alunos. Certamente, houve o aumento da violência doméstica, sem que meninos e meninas tivessem “com quem contar”, já que a escola representa um grande espaço protetivo (FIOCRUZ, 2020; REZERA;D’ALEXANDRE, 2020).O olhar da escola às famílias, por certo, nunca foi uma condição de generosidade, e sim, uma necessidade de justiça, sobretudo se consideramos que na escola há profissionais cuja especialidade é o “desenvolvimento humano” (VINHA; TOGNETTA, 2013). Contudo, tal premissa não significa criar uma demanda às escolas fadadas ao insucesso pelas tantas ações que devem dar conta, e sim, compreender que os espaços de educação das gerações mais jovens, quanto mais articulados e coordenados, mais fortalecem os vínculos humanos necessários à vida em sociedade. Por essa razão, a escola não está sozinha na sua missão de proteger e de formar (LAHR, 2022).
image/svg+xmlA temática da convivência ética em contextos escolaresRPGERevista on linede Política e Gestão Educacional, Araraquara, v. 26, n. esp. 3,e022089,jul. 2022.e-ISSN: 1519-9029DOI:https://doi.org/10.22633/rpge.v26iesp.3.1694911Nossas investigações mostraram o quão importante se faz a articulação entre os diversos serviços de atendimento às novasgerações. Os dados sobre a percepção de atores da rede de proteção e de profissionais que atuam na escola frente aos problemas de convivência e seus encaminhamentos permitem-nos constatar mais uma importante preocupação ao pensar políticas públicas destinadas à melhoria da qualidade da convivência escolar: a necessidade de formação continuada para os educadores e gestores sobre os papéis desses diferentes órgãos, os serviços desenvolvidos no atendimento de crianças, adolescentes e suas famílias, bem como sobre os encaminhamentos necessários aos diferentes problemas de convivência escolar.Como veremos nos artigos que seguem, nossas pesquisas apontaram o pouco conhecimento sobre o que devemos fazer em situações que envolvem indisciplina, incivilidade e problemas de comportamento em geral, gerando encaminhamentos inadequados e expectativas não atendidas, principalmente aos gestores escolares, como no caso da sensação de que haverá responsabilização dos adolescentes pelo Conselho Tutelar, sendo que tal ação não condiz com a atribuição desse órgão.Certamente, participar de reuniões intersetoriais que envolvam a rede de proteção para alinhamento da atuação e dos fluxos de atendimento frente aos problemas dos e das adolescentes que aparecem nasescolas é uma recomendação fruto de nossas investigações; outra seria o contato da instituição com os demais serviços da rede de proteção que atuam no território. Isso porque, ao se aproximar das demais políticas públicas existentes no mesmo local, a escola pode se fortalecer enquanto instituição, conquistando maior respaldo para aquelas situações que, de fato, necessitam do trabalho conjunto com a rede. Para tanto, é possível realizar contatos telefônicos, reuniões periódicas organizadas pela própria escola ou por outros serviços, e participação em espaços de discussão do município, como os Conselhos Municipais de Direitos da Criança e do Adolescente.Assim, é condição sine qua nonque educadores conheçam e participem desses conselhos. A escola é um lugar de formação humana, sendo seu papel assegurar o respeito e a dignidade de crianças e adolescentes, seja dentro ou fora da instituição educativa (LAHR;TOGNETTA, 2021; OLIVEIRA et al., 2020; SILVA; ALBERTO, 2019; VIEIRA, 2009). Nossa experiência nos mostrouque muitos educadores não sabem sequer da existência desse conselho…Já em relação às ações ou políticas voltadas à gestão pública, nossos dados apontaram a necessidade de uma atuação conjunta desses diferentes setores. Isso significa que deve haver um alinhamento entre as diferentes políticas públicas com a participação e atuação efetiva da
image/svg+xmlLuciene Regina Paulino TOGNETTARPGERevista on line de Política e Gestão Educacional, Araraquara, v. 26, n. esp. 3,e022089, jul. 2022.e-ISSN: 1519-9029DOI:https://doi.org/10.22633/rpge.v26iesp.3.1694912Política de Educação no atendimento e na elaboração de fluxos municipais (CAIDEN; WILDAVSKY, 1980; LINDBLOM, 1979; WILDAVSKY, 1992).Mesmo com os avanços nas legislações que asseguram os direitos de crianças e adolescentes, vemos em nosso país que as políticas públicas ainda atuam de forma separada, “em caixinhas”, em uma sobreposição de projetos, sem que haja conexão entre eles, o que dificulta a atuação dos profissionais que lidam diretamente com os usuários dos serviços e com as demandas de grande complexidade que, inclusive, foram intensificadas no período de pandemia. Em tempos pós-pandêmicos, mais do que nunca essa rede de proteção precisará funcionar! Portanto, conclui-se que, enquanto tema emergente para a agenda de nossas escolas, encontram<