image/svg+xmlCrianças também sofrem: O sofrimento emocional em crianças durante a pandemia Covid 19RPGERevista on line de Política e Gestão Educacional, Araraquara, v. 26, n. esp. 3, e022096, jul. 2022.e-ISSN: 1519-9029DOI: https://doi.org/10.22633/rpge.v26iesp.3.169561CRIANÇAS TAMBÉM SOFREM: O SOFRIMENTO EMOCIONAL EM CRIANÇAS DURANTE A PANDEMIA COVID-19LOS NIÑOS TAMBIÉN SUFREN: ANGUSTIA EMOCIONAL EN LOS NIÑOS DURANTE LA PANDEMIA COVID-19CHILDREN SUFFER TOO: EMOTIONAL SUFFERING IN CHILDREN DURING THE COVID-19 PANDEMICLuciene Regina Paulino TOGNETTA1David Jorge CUADRA-MARTÍNEZ2Deise Maciel de QUEIROZ3Sanderli Aparecida Bicudo BOMFIM4RESUMO: O problema desta pesquisa foi investigar como os estudantes dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental apontam se sentirem no contexto pandêmico. Os objetivos foram identificar a frequência de situações em que há indícios de sofrimento emocional em crianças e verificar se há relação significativa de sofrimento emocional com aspectos sociodemográficos (raça, gênero, celular próprio). Participaram da pesquisa 1041 crianças dos 4o e 5o anos do Ensino Fundamental. O instrumento utilizado para tal verificação foi um questionário, contendo aspectos sociodemográficos (origem étnico-racial, gênero, perfil econômico e acesso a recursos comunicacionais) e situações relacionadas ao sofrimento emocional. Os dados encontrados demonstram que as crianças têm apresentado tanto sentimentos quanto comportamentos que indicam sofrimento emocional (medo, ansiedade, solidão, automutilação) e também que há diferenças significativas nos scores de sofrimento emocional relacionados ao gênero e à origem étnico-racial.PALAVRAS-CHAVE: Pandemia. Sofrimento emocional. Crianças.RESUMEN: El problema de esta investigación fue indagar cómo los estudiantes de los dos primeros años de Enseñanza Fundamental -Años Iniciales, apuntaron sentirse en el contexto de la pandemia. Los objetivos específicos fueron identificar la frecuencia de situaciones en las que se presentan signos de malestar emocional en los niños y verificar si existe una relación significativa entre el malestar emocional y aspectos sociodemográficos (raza, género, celular propio). Participaron de la investigación un total de 1041 estudiantes de los grados 4º y 5º de 1Universidade Estadual Paulista (UNESP), Araraquara-SP Brasil. Professora do Departamento de Psicologia da Educação (FCLAr/UNESP). Doutorado em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0929-4925. E-mail: luciene.tognetta@unesp.br2Universidad de Atacama (UDA), Copiapó Chile. Professor do Departamento de Psicologia. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0810-2795. E-mail: david.cuadra@uda.cl3Universidade Estadual Paulista (UNESP), Araraquara-SP Brasil. Doutoranda em Educação Escolar. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3138-2748. E-mail: dm.queiroz@unesp.br4Universidade Estadual Paulista (UNESP), Araraquara-SP Brasil. Doutoranda em Educação Escolar. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7371-5184. E-mail: sanderli.bicudo@unesp.br
image/svg+xmlLuciene Regina Paulino TOGNETTA et al.RPGERevista on line de Política e Gestão Educacional, Araraquara, v. 26, n. esp. 3, e022096, jul. 2022.e-ISSN: 1519-9029DOI: https://doi.org/10.22633/rpge.v26iesp.3.169562Enseñanza Fundamental -Años Iniciales. El instrumento utilizado para esta verificación fue un cuestionario, que contenía aspectos sociodemográficos (origen étnico-racial, género, perfiles económicos y acceso a recursos de comunicación) y situaciones relacionadas con el malestar emocional. Los datos encontrados muestran que los niños tanto sentimientos como conductas indicativas de malestar emocional (miedo, ansiedad, solidaridad, automutilación) y también que existen diferencias significativas en las puntuaciones de malestar emocional relacionadas con el género y el origen étnico-racial.PALABRAS-CLAVE: Pandemia. Sufrimiento emocional. Niños.ABSTRACT: This research aimed to investigate how students in the Initial Years of Ensino Fundamental feel in the pandemic context. The objectives were to identify the frequency of situations in which there are signs of emotional distress in children and to verify whether there is a significant relationship between emotional distress and sociodemographic aspects (race, gender, own cell phone). A total of 1041 children from the 4th and 5th grades of Ensino Fundamental participated in the research. The instrument used for this verification was a questionnaire, containing sociodemographic aspects (ethnic-racial origin, gender, economic profile and access to communication resources) and situations related to emotional distress. The data found show that children have shown both feelings and behaviors that indicate emotional distress (fear, anxiety, loneliness, self-mutilation) and also that there are significant differences in emotional distress scores related to gender and ethnic-racial origin.KEYWORDS: Pandemic. Emotional suffering. Children.IntroduçãoA pandemia de Covid-19, provocada pelo Coronavírus, que assolou o mundo nos anos de 2020 e 2021, trouxe à tona uma questão bastante presente no cotidiano: o sofrimento humano.Primeiramente, é preciso justificar o porquê optamos por utilizar o termo “sofrimento emocional” e não apresentar a terminologia “saúde mental” que, atualmente, tem sido tão utilizada. A escola não pode assumir para si a responsabilidade sobre o tratamento no que se refere à saúde mental. Porém, se não há saúde mental, há a manifestação de tal falta por meio da dor ou a sensação consciente ou inconsciente de sofrimento. Portanto, entendemos “sofrimento emocional” como toda dor psíquica que expressa esgotamento, desesperança manifestados sob a forma de emoções ou sentimentos de medo, tristeza, angústia, irritabilidade, ansiedade, depressão e quegera displicência com o autocuidado, mudanças de humor, afastamento e comportamentos de risco como a automutilação, as ideações suicidas entre outros
image/svg+xmlCrianças também sofrem: O sofrimento emocional em crianças durante a pandemia Covid 19RPGERevista on line de Política e Gestão Educacional, Araraquara, v. 26, n. esp. 3, e022096, jul. 2022.e-ISSN: 1519-9029DOI: https://doi.org/10.22633/rpge.v26iesp.3.169563(TOGNETTA, 2022). A utilização do termo “sofrimento emocional” deseja expressar a tarefa da escola que é o trabalho com as emoções e sentimentos de seus alunos e alunas, uma vez que seus sofrimentos são comumente compreendidos de forma equivocada, em âmbito escolar, como uma espécie de desqualificação das crianças como “não querem”, “sem vontade”, “preguiçosas”, “desatentas” (CALDERARO; CARVALHO, 2005).O sofrimento advindo da pandemia atingiu a todos, inclusive as crianças. Jiao et al.(2020) em sua pesquisa apontou dados referentes às crianças durante a pandemia, sendo que 36% delas apresentaram dependência dos pais, 32% desatenção, 29% preocupação, 21% problemas do sono, 18% falta de apetite, 14% pesadelos e 13% desconforto e agitação. Mas muito embora o contexto pandêmico apresente algumas situações que criem ou intensifiquem sofrimentos em crianças e adultos, há que se considerar que a sociedade atual, sob o olhar de alguns filósofos e sociólogos, têm características peculiares que podem ou não gerar sofrimentos.Bauman (2007), ao utilizar o conceito de “Modernidade Líquida” para referir-se à sociedade atual, aponta a liquefação de formas sociais, antes bastante sólidas, como a família, o amor, a amizade, o trabalho e, também, a própria identidade. Segundo o autor, essa situação produz angústia, ansiedade constante e o medo líquido, como o temor do desemprego, da violência e de não se “encaixar” nesse mundo que se transforma num ritmo veloz. Por outro lado, Lipovetsky, em um livropublicado na década de 1980, intitulado “A era do vazio” (LIPOVETSKY, 1983/2005), já apontava como resultante da transição da Modernidade para a Pós-Modernidade, o vazio. Interessantemente, é como se o autor antecipasse questões bastante atuais, como o impacto da tecnologia, do individualismo e da sociedade do consumo. Segundo o autor, é como se as instituições tradicionais estivessem esvaziadas de sentido, não oferecendo mais possibilidade de conexão entre as pessoas, mas sim certa liberdade de escolha sem restrição alguma. Em outra obra, ele apresenta o termo “hipermoderno” como aquele que se sobrepõe à Modernidade. Para ele, a sociedade hipermoderna centra-se no presente e no individualismo, no narcisismo contemporâneo, numa eterna busca pelo novo, impulsionada pela Internet e globalização. Esse indivíduo tem à sua frente um futuro incerto que provoca certa inquietação e medo, além de apresentar-lhe um caminho paradoxal: a valorização de princípios de saúde e vida, ao mesmo tempo em que o leva pela lógicado “hiper”, do excesso, que se materializa em diversas decisões e ações. Segundo ele, esse princípio de “hiper”, inclusive do hiperconsumo, fica bastante evidente na
image/svg+xmlLuciene Regina Paulino TOGNETTA et al.RPGERevista on line de Política e Gestão Educacional, Araraquara, v. 26, n. esp. 3, e022096, jul. 2022.e-ISSN: 1519-9029DOI: https://doi.org/10.22633/rpge.v26iesp.3.169564superficialidade encontrada na expressão das emoções e afetos, nas relações sociais e de trabalho que se pautam em necessidades utilitaristas e no hedonismo. Se, portanto, na sociedade atual, as relações ocorrem através de laços não mais duradouros e de identificação, mas por laços momentâneos, poucos seguros e superficiais (BAUMAN, 2001), ouentão, a certeza de que esta modernidade líquida substitui a coletividade e a solidariedade pelo individualismo (BAUMAN, 2001) e pelo hiperconsumismo (LIPOVETSKY, 2004), como estarão as relações vividas junto às crianças e as experiências proporcionadas aelas? Esse contexto, junto à pandemia, gerou dúvidas, incertezas e sofrimentos às nossas crianças? Haverá diferenças significativas quanto ao índice de sofrimento emocional entre meninos e meninas? E quanto à origem étnico racial, serão diferentes os índices de sofrimento emocional entre crianças que se autopercebem como pretos, brancos, amarelos, indígenas? O fato de terem um aparelho celular próprio pode ser uma variável importante para maior ou menor sofrimento emocional dessas crianças? Vamos à investigação.Material e métodoTivemos como problema de pesquisa investigar como os estudantes do Ensino Fundamental (anos iniciais) relatam se sentir no contexto pandêmico e, por objetivos, identificar a frequência de situações em que há indícios de sofrimento emocional em crianças e verificar se há relação significativa de sofrimento emocional com aspectos sociodemográficos (raça, gênero, celular próprio).O questionário utilizado foi elaborado por membros do Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Moral (GEPEM), juntamente com a pesquisa de mestrado “A relação entre bullying, empatia e pró-sociabilidade de estudantes pertencentes a escolas públicas da rede estadual de São Paulo”, registrada no CAEE 42330421.6.0000.5400. É formado por 38 questões, sendo oito questões fechadas sobre os aspectos sociodemográficos (origem étnico-racial, gênero, perfil econômico e acesso a recursos comunicacionais), oito questões fechadas relacionadas aos aspectos de empatia (como, por exemplo, “Quando vejo alguém chorar, também tenho vontade de chorar?”), oito questões fechadas relacionadas aos aspectos de pró-sociabilidade (como, por exemplo: “Eu me ofereço para ajudar os colegas que precisam de alguma ajuda?”)5e 14 situações relacionadas ao sofrimento emocional durantea pandemia 5Os itens relacionados à empatia e pró socialidade entre crianças fazem parte de outra investigação conduzida por membros do GEPEM.
image/svg+xmlCrianças também sofrem: O sofrimento emocional em crianças durante a pandemia Covid 19RPGERevista on line de Política e Gestão Educacional, Araraquara, v. 26, n. esp. 3, e022096, jul. 2022.e-ISSN: 1519-9029DOI: https://doi.org/10.22633/rpge.v26iesp.3.169565(conforme Quadro Categorias de Sentimento e Comportamento de sofrimento emocional). Para atingir nosso objetivo utilizamos somente esta última parte, que se referiu ao aspecto do sofrimento emocional, relacionado às variáveis do aspecto sociodemográfico.Foram 1041 crianças dos anos iniciais -4o e 5o anos -que participaram como respondentes, sendo 502 meninos e 539 meninas, entre nove e dez anos, dos quais 538 são estudantes do quarto ano e 503 estudantes do quinto ano.O instrumento permitiu que as situações fossem classificadas em duas categorias, que foram organizadas depois de analisar as respostas, sendo a Categoria 1: Comportamento de sofrimento emocional; e a Categoria 2: Sentimento de sofrimento emocional. Esta última apontou situações nas quais os alunos e alunas poderiam se autoperceber quanto aos seus sofrimentos, enquanto a primeira trouxe situações com atitudes que indicariam o sofrimento emocional. Ou seja, 6enquanto algumas questões verificavam as percepções sobre o sofrimento, outras investigaram ações, reações e práticas que indicavam o sofrimento, conforme o quadro abaixo. Quadro 1Categorias de questionário: Sentimento e Comportamento de sofrimento emocionalCategoria 1 Comportamento de Sofrimento EmocionalCategoria 2 Sentimento de Sofrimento EmocionalSituação 4 -sintomas de falta de arSituação 1 tristezaSituação 6 -vontade de chorarSituação 2 -fazer as coisas de forma erradaSituação 7 -gostar de estar com a famíliaSituação 3 -perceber diversão nas situaçõesSituação 10 -rendimento escolarSituação 5 -imaginação sobre coisas ruins no futuroSituação 11 -automutilaçãoSituação 8 -sentir-se sozinhoSituação 14 -participação em desafios da internetSituação 9 -ter amigosSituação 12 -percepção sobre familiaresSituação 13 -sentir-se importanteFonte: Elaborado pelos autoresPara analisar os dados do primeiro objetivo, verificamos a frequência das respostas e, para analisar os dados referentes ao segundo objetivo, foi proposto um modelo de regressão quantílica (KOENKER, 2005), uma vez que ele permite a comparação de K medianasentre os diferentes grupos de interesse sem que haja pressuposto de normalidade. Para todas as análises 6Vale lembrar que, neste presente artigo, utilizamos a palavra “sentimentos” nos referindo a certo conjunto de estados afetivos. Nossa escolha pela palavra sentimentos foi no intuito de tornar mais clara a evidência do “sentir” e do “fazer” (este último verbo relacionado aos comportamentos). Temos clareza de que numa discussão mais aprofundada da Psicologia, termos como emoções e sentimentos são distintos, inclusive, sendo esses últimos considerados categorias mais evoluídas.
image/svg+xmlLuciene Regina Paulino TOGNETTA et al.RPGERevista on line de Política e Gestão Educacional, Araraquara, v. 26, n. esp. 3, e022096, jul. 2022.e-ISSN: 1519-9029DOI: https://doi.org/10.22633/rpge.v26iesp.3.169566adotou-se um nível de significância de 5%. Todas as análises foram realizadas através do software SAS 9.4.Resultados e discussõesEste estudo buscou investigar como alunos do Ensino Fundamental (anos iniciais) relatam sentir-se no contexto da pandemia. Os resultados apresentados e discutidos a seguir representam uma importante contribuição para a psicologia da pandemia em uma faixa etária pouco estudada e cujos resultados advêm principalmente das percepções dos adultos, cuidadores e educadores (MATIZ et al., 2022). Este trabalho buscou superar essa limitação, obtendo os dados na perspectiva das próprias crianças e adolescentes.Objetivo Primeiro: identificar a frequência de situações em que há indícios de sofrimento emocional em crianças Analisando as situações que englobam a Categoria 2, que refere-se à percepção do sofrimento emocional, verificamos indicativos de sofrimento quanto ao sentimento de tristeza. Nota-se pelos dados que 18,6% das crianças declararam se sentir tristes sempre e muitas vezes. Resultados semelhantes foram encontrados no estudo de Saurabh e Ranjan (2020), sendo o sentimento de tristeza um dos mais frequentes em crianças e adolescentes durante a pandemia, principalmente no contexto de quarentena como medida de proteção contra a Covid-19.Certamente, essa tristeza sentida pode trazer indicativos de afastamentos e exclusão como veremos mais à frente. As crianças apontaram também questões relacionadas com o erro. Nota-se que 19% dizem que não fazem bem as coisas ou as fazem de forma errada, o que evidencia a hipótese de sofrimento emocional ao se sentirem incapazes de fazer bem todas as coisas. Esse achado pouco explorado em contexto pandêmico, principalmente na infância e adolescência, é fundamental, pois pode dar indícios de um baixo senso de autoeficácia, capacidade que tem sido apontada como chave para o enfrentamento das adversidades em contexto pandêmico (THARTORI et al., 2021).Ao responderem o questionário, as crianças trouxeram dados também sobre como têm se divertido em tempos de pandemia: 44,1% apontam que elas não se divertem com muitas coisas e 2,5 % declararam não se divertir com nada. Resultados semelhantes foram relatados em outros estudos (LOURENÇO et al., 2021): as crianças reduziram as atividades de jogo na pandemia. Isso, sem dúvida, impõe o desafio de educar os cuidadores para desenvolver
image/svg+xmlCrianças também sofrem: O sofrimento emocional em crianças durante a pandemia Covid 19RPGERevista on line de Política e Gestão Educacional, Araraquara, v. 26, n. esp. 3, e022096, jul. 2022.e-ISSN: 1519-9029DOI: https://doi.org/10.22633/rpge.v26iesp.3.169567estratégias que estimulem a atividade lúdica e a diversão para os bebês em uma pandemia, principalmente pela estreita relação entre brincadeira, saúde e bem-estar.Os dados também demonstram a relação de um sentimento comum entre as pessoas -o medo -esteve presente em 54% das respostas das crianças. O medo também se revela como um sentimento entre elas, não os medos relacionados às fantasias próprias da infância, mas os medos reais que assolaram a humanidade durante o contexto pandêmico. No estudo de Matiz et al.(2022), realizado em crianças italianas, o medo da Covid-19 foi comparado antes e depois da primeira onda de infecções, não encontrando diferenças nos níveis, o que sugere que essa emoção pode mudar durante a fase de emergência, desenvolvendo resiliência quando o apoio familiar e escolar adequado é recebido.Quando perguntamos sobre a questão da solidão, 22,5% das crianças dizem se sentirem sozinhas, se somadas as respostas “sempre” (4,0%) e “muitas vezes” (18,5%). Essa solidão se concretiza quando esses meninos e meninas se referem aos amigos (item 9) em que 44,3% apontaram não ter muitos amigos e que gostariam de ter mais e 3,5% afirmam não ter amigos. Em um contexto de pandemia, o isolamento como medida de proteção e sentimentos de solidão aumentam o risco de desenvolver ansiedade e depressão em crianças. Sobre isso, algunsestudos mostram o número alarmante de um terço dos adolescentes que relatam altos níveis de ansiedade em uma pandemia (LOADES et al., 2020).Um dado que nos parece positivo é que para essas crianças entrevistadas a convivência em casa não parece ser tão problemática diante da situação que temos vivido. Foi constatado em diferentes investigações (LAHR; TOGNETTA, 2021) um aumento de situações de violências (como a agressão doméstica) que se fizeram presentes no contexto em que o instrumento foi aplicado. No entanto, somente 2,7% das crianças disseram vivenciar situações em que as pessoas da casa sempre estão nervosas e brigam com elas. Um dado positivo, apesar das 28 crianças em que tal frequência de respostas representa que sofrem no lugar em que mais deveriam se sentir acolhidas. Outro ponto que nos parece positivo é que “apenas” 20,9% se percebem importantes para poucas pessoas. Será que as crianças estariam se referindo às relações familiares? Contudo, continuamos a ter crianças que não se sentem importantes para ninguém. Se passarmos para números absolutos, temos 20 crianças com o sentimento de não se sentirem valiosas e importantes para ninguém. Esse baixo valor pessoal poderia ser explicado pela interrupção de papéis e funções em períodos de pandemia. Nesse sentido, Cuadra et al.(2020) aponta que as emergências pandêmicas não apenas exigem a instalação de medidas de atenção à saúde física,
image/svg+xmlLuciene Regina Paulino TOGNETTA et al.RPGERevista on line de Política e Gestão Educacional, Araraquara, v. 26, n. esp. 3, e022096, jul. 2022.e-ISSN: 1519-9029DOI: https://doi.org/10.22633/rpge.v26iesp.3.169568mas também implicam novas formas psicossociais de convivência, que desorganizam as rotinas de vida.Até agora, analisamos as situações que apontavam emoções e sentimentos como indicativos de sofrimento emocional. Passemos, agora, às situações que compõem a categoria relacionada ao Comportamento de Sofrimento Emocional.Na Situação 4, as crianças tinham que responder sobre sensações de ansiedade. Embora 72,9% dos respondentes tenham indicado que não sentem falta de ar, faz-se necessário considerar que 22,8% responderam que às vezes sentem e que 4,4% apontaram que sempre ocoração dispara e sentem falta de ar. Somando esses dois últimos percentuais, são 27,2% de crianças que têm tido sintomas de ansiedade. Tais dados coincidem com os dados encontrados por Duan et al. (2020) e Zhous et al. (2020) que apontam sintomas depressivos e de ansiedade em estudantes.Outro dado que nos chama a atenção é sobre o sofrimento que se expressa em choro. Mais uma vez, embora a grande maioria -88,6% -tenha respondido que sente vontade de chorar apenas de vez em quando, 11,4% sentem vontade de chorar frequentemente (7,0%) ou todos os dias (4,4%). Ainda que os percentuais possam parecer-nos baixos, se a análise for feita em números absolutos são 120 crianças com vontade de chorar numa frequência alta, o que pode indicar sofrimento além da normalidade. Banati, Jones e Youssef (2020) explicam que o aumento do choro ou do desejo de chorar nos jovens em contexto pandêmico pode estar relacionado à dificuldade em ter suportes adequados, como econômicos e de saúde, para enfrentar a pandemia. Dessa forma, provavelmente os jovens que percebem menos recursos para enfrentar a emergência, expressam seu sofrimento com mais lágrimas.Quando verificamos o prazer das crianças em conviverem e/ou estarem com a família, os dados endossaram resultados já apontados anteriormente (situação 12) que, aparentemente, nos parece indicar que a convivência familiar não apresenta tantos problemas para as crianças desta investigação: 93,6% das crianças responderam que gostam de estar com seus familiares, enquanto 0,6% apontaram nunca gostar de estar com eles e 5,8% muitas vezes não gostam de estar em família. Um resultado interessante que pode explicar o exposto é encontrado no estudo de Markowska-Manista e Zakrzewska-Olędzka (2020) com pais da Polônia, em que um aspecto positivo da pandemia é que a emergência de saúde permitiu que as famílias passassem mais tempo em casa, terem a oportunidade de partilhar muitas atividades com os seus filhos, o que poderá ser um elemento associado à geração de emoções positivas nas crianças e jovens durante a pandemia.
image/svg+xmlCrianças também sofrem: O sofrimento emocional em crianças durante a pandemia Covid 19RPGERevista on line de Política e Gestão Educacional, Araraquara, v. 26, n. esp. 3, e022096, jul. 2022.e-ISSN: 1519-9029DOI: https://doi.org/10.22633/rpge.v26iesp.3.169569Algumas situações acendem-nos um alerta. Na Situação 11, as crianças foram questionadas sobre automutilação e, embora 88,6% tenham apontado que nunca pensaram em se machucar de forma intencional, 11,4% das crianças às vezes já sentiram vontade de machucarem a si mesmos (10,2%) ou, então, sempre pensaram nisso (1,2%). Embora este percentual seja pequeno apenas do ponto de vista estatístico, mas ao se considerar tais respostas em números absolutos, são 120 crianças com pensamentos deautomutilação. Uma organização não governamental do Reino Unido, a Youngminds7, em 2020,também encontrou em seus dados o aumento da ansiedade, problemas para dormir, ataques de pânico e, como em nossa pesquisa maior, desejo de se automutilar.Outro itemque nos apontou um alerta foi o de número 14, que verificou a participação das crianças em desafios que veem na Internet: 16,9% das crianças apontaram sempre participar de tais desafios. Tal resultado nos parece bastante sério, uma vez que pode indicar o quanto os adultos responsáveis pelas crianças têm dificuldades para monitorar e acompanhar as crianças que navegam em ambientes virtuais. Há que se considerar também, para além dos que “sempre” participam desses desafios, que mais 25,1% responderam raramente participar, o que nos aponta ao menos uma experiência já vivenciada e, em se tratando de ambiente virtual, mesmo um único desafio pode ser perigoso ou fatal. Segundo Cyrulnik (2014), os jogos propostos na internet precisam ser considerados como um perigo para suicídios de crianças. Segundo o autor, muitas vezes são compreendidos como acidentes. As causas, no entanto, são o desespero, a angústia, a carência de diálogo com os adultos. Tais situações geram nas crianças condutas perigosas e arriscadas como os jogos e desafios propostos no ambiente virtual. Perguntamos também, nesta investigação, diante desses indicadores de sofrimento: Como esses meninos e meninas percebem suas aprendizagens ou a falta delas no isolamento social? Os resultados encontrados apontam que elas e eles percebem que tiveram perdas no aprendizado durante este período e, também, que não atingiram os níveis anteriores experimentados. Entre os participantes, 9,5% das crianças apontaram terem ido mal em matérias que anteriormente iam bem e 26,4% apontaram que seus trabalhos na escola não são tão bons quanto antes. Se somados tais percentuais, são 35,9% das crianças que verificam uma queda em seu rendimento. Costin e Coutinho (2022) apontam que o Brasil é um dos países com maior dificuldadeno enfrentamento da emergência da Covid-19, e a educação em especial tem sido duramente atingida, fruto do baixo apoio governamental para lidar com a crise.7https://www.youngminds.org.uk/professional/resources/?resourceType=for-school-staff#main-content. Acesso em: 20 dez. 2021.
image/svg+xmlLuciene Regina Paulino TOGNETTA et al.RPGERevista on line de Política e Gestão Educacional, Araraquara, v. 26, n. esp. 3, e022096, jul. 2022.e-ISSN: 1519-9029DOI: https://doi.org/10.22633/rpge.v26iesp.3.1695610Objetivo Segundo: verificar se há relação significativa de sofrimento emocional com aspectos sociodemográficos (raça, gênero, celular próprio).Nesta pesquisa descritiva foram apresentados 14 itens para que as crianças respondessem sobre situações de sofrimento emocional com quatro pontos de resposta: nunca, poucas vezes, muitas vezes e sempre. Os dados foram analisados a partir de um escore total somando as respostas aos itens, considerando a seguinte pontuação: nunca equivale a um ponto, poucas vezes equivale a dois pontos, muitas vezes equivale a três pontos e sempre equivale a quatro pontos. Assim, o escore atingido nas respostas de cada sujeito poderá ir de 14 a 42 pontos, de forma que quanto maior a pontuação, maior o sofrimento emocional. Como estarão nossas crianças a partir dessas análises? Para responder a essas questões passemos a apresentar o que encontramos em nossa investigação. Ao observarmos os resultados encontrados, vemos que se considerarmos o escore de sofrimento emocional, variando de 14 a 42 pontos, percebemos que a média atingida pelos participantes do sexo masculino é de 18,46 eentre as do sexo feminino, 18,95. As meninas chegaram a escores mais altos atingindo 38 pontos enquanto os meninos atingem 30. Outros trabalhos (WANG et al., 2021) confirmam que as mulheres apresentam níveis mais elevados de estresse, preocupação e medo durante a pandemia de Covid-19, associados ao seu processo educacional e status familiar. O exposto alerta para o maior risco psicossocial das mulheres durante uma pandemia e a necessidade de considerar essas diferenças ao planejar as medidas de apoio psicossocial.A figura a seguir pode contribuir para melhor visualização de tais diferenças ao se observar o desenho que se forma ao redor da dispersão dos dados: os escores dos meninos são mais distribuídos e atingem escores mais baixos se comparados às meninas.
image/svg+xmlCrianças também sofrem: O sofrimento emocional em crianças durante a pandemia Covid 19RPGERevista on line de Política e Gestão Educacional, Araraquara, v. 26, n. esp. 3, e022096, jul. 2022.e-ISSN: 1519-9029DOI: https://doi.org/10.22633/rpge.v26iesp.3.1695611Figura 1 Dispersão dos dados de sofrimento emocional em crianças por gêneroFonte: Elaborado pelos autoresInvestigando a variável raça, os dados apontaram que a menor média de sofrimento emocional foi encontrada naquele grupo de crianças que se autodeclarou branco (18,42 pontos), seguida pelos pardos autodeclarados (18,59 pontos), indígenas (18,75 pontos) e, por fim, pelos dois grupos que apresentaram médias acima de 19 pontos, sendo os amarelos de origem oriental com 19,25 pontose os autodeclarados pretos atingindo 19,93 pontos de média referente ao sofrimento emocional.Apesar dessa pontuação média, a tabela a seguir ajuda a verificar se as diferenças encontradas são significativas.Tabela 1 Análises do sofrimento emocional em crianças por declaração de origem étnico-racialFonte: Elaborado pelos autores