Revista on line de Política e Gestão Educacional (RPGE),
Araraquara, v. 29, n. 00, e025113, 2025.
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e-ISSN: 1519-9029
Revista on line de Política e Gestão Educacional
Online Journal of Policy and Educational Management
10.22633/rpge.v29i00.20814
VIOLÊNCIA PARENTAL, TRAUMA E O IMPACTO
NA CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE ADULTA
VIOLENCIA PARENTAL, TRAUMA Y EL IMPACTO EN LA
CONSTRUCCIÓN DE LA IDENTIDAD ADULTA
PARENTAL VIOLENCE, TRAUMA, AND ITS IMPACT ON THE
CONSTRUCTION OF ADULT IDENTITY
Luciana FERREIRA¹
luciana@lfpsico.com.br
João Laurenno dos SANTOS
2
joao_laurenno@uol.com.br
Como referenciar este argo:
Ferreira, L., & Santos, J. L. (2025). Violência parental, trauma e o impacto na
construção da idendade adulta. Revista on line de Políca e Gestão Educacional,
29, e025113. hps://doi.org/10.22633/rpge.v29i00.20814
Submedo em: 20/10/2025
Revisões requeridas em: 05/11/2025
Aprovado em: 08/12/2025
Publicado em: 22/12/2025
¹ Poncia Universidade Católica de
São Paulo (PUC-SP) SP – Brasil. Dou-
toranda/Pesquisadora Violência Intra-
familiar do Programa de pós-gradua-
ção em Psicologia Clínica: Psicologia
Clínica.
² Poncia Universidade Católica de São
Paulo (PUC-SP) SP Brasil. Professor
Dr. do Programa de Pós-graduação Lato
Sensu PUC/SP. Especialização em Terapia
Familiar e de Casal - SP Departamento/
Cogeae.
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e-ISSN: 1519-9029
RESUMO: A família, enquanto lócus central de transmissão de costumes e valores,
é paradoxalmente o principal cenário onde se manifestam as prácas de violên-
cia contra crianças. Esta pesquisa, de abordagem qualitava, objevou invesgar
o impacto da violência parental vivenciada na infância e sua inuência direta no
processo de construção identária de adultos sobreviventes. O estudo ulizou a
estratégia de casos múlplos, com dados coletados por meio de entrevistas se-
miestruturadas e analisados por categorização de conteúdo que culminou na de-
nição de seis modalidades de violência parental. Os resultados revelam que o
trauma, em seus efeitos, não desinveste o indivíduo que o viveu, mas se manifesta
com impacto claro na construção da idendade. Conclui-se que o trauma pode
ser administrado, reprocessado e ressignicado, indicando que a permanência dos
seus sinais coexiste com a capacidade de o indivíduo construir novos propósitos e
signicados.
PALAVRAS-CHAVE: Violência Parental. Violência Infanl. Trauma. Idendade.
RESUMEN: La familia, como locus central de transmisión de costumbres y valores,
es paradójicamente el principal escenario donde se maniestan las práccas de
violencia contra la infancia. Esta invesgación, de abordaje cualitavo, tuvo como
objevo indagar el impacto de la violencia parental experimentada en la niñez y su
inuencia directa en el proceso de construcción identaria de adultos sobrevivien-
tes. El estudio empleó la estrategia de casos múlples, con datos recolectados por
medio de entrevistas semiestructuradas y analizados mediante la categorización
de contenido, lo que culminó en la denición de seis modalidades de violencia pa-
rental. Los resultados revelan que el trauma, en sus efectos, no desinviste al indivi-
duo que lo ha vivido, sino que se maniesta con un impacto claro en la construcción
de la idendad. Se concluye que el trauma puede ser administrado, reprocesado y
resignicado, indicando que la permanencia de sus señales coexiste con la capaci-
dad del individuo de construir nuevos propósitos y signicados.
PALABRAS CLAVE: Violencia Parental. Violencia Infanl. Trauma. Idendad.
ABSTRACT: The family, while being the central locus for the transmission of cus-
toms and values, is paradoxically the main seng where pracces of violence
against children manifest. This research, ulizing a qualitave approach, aimed to
invesgate the impact of parental violence experienced in childhood and its direct
inuence on the process of identy construcon among adult survivors. The study
employed a mulple case study strategy, with data collected through semi-struc-
tured interviews and analyzed via content categorizaon, which culminated in the
denion of six modalies of parental violence. The results reveal that trauma, in
its eects, does not “disinvest” the individual who lived it, but manifests with a cle-
ar impact on identy construcon. It is concluded that trauma can be administered,
reprocessed, and re-signied (or not), indicang that the permanence of its signs
coexists with the individual’s capacity to construct new purposes and meanings.
KEYWORDS: Parental Violence. Child Violence. Trauma. Identy.
Argo submedo ao sistema de similaridade
Editor: Prof. Dr. Sebasão de Souza Lemes
Editor Adjunto Execuvo: Prof. Dr. José Anderson Santos Cruz
.
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INTRODUÇÃO
O foco desta pesquisa tem sua gênese na experiência clínica, a parr da presença em
nossos consultórios de lhos adultos em sofrimento, com marcas em seus corpos, alma e com-
portamentos advindos de relações familiares violentas nas suas diversas modalidades.
Trabalhamos em nossos consultórios com homens e mulheres que apresentam eslos
de apego inseguros evitavos, ansiogênicos e desorganizados que foram construídos nas
relações iniciais com seus parentais e/ou cuidadores (Bowlby, 2023; Haack et al., 2023; Santos
& Camargo, 2024). Essa dinâmica produz, por vezes, violência em suas famílias, projetando
nos lhos inseguranças e incertezas e até trocas de papéis —, e gerando lhos parentali-
zados
1
(Bowen, 1991); essas são marcas emocionais, as quais são impressas nos cérebros e
nas almas desses indivíduos. A isso adiciona-se a procura por nossa ajuda de lhos que foram
violentados sexual e sicamente por seus parentais e/ou cuidadores.
Sabemos que por meio de estudos sobre violência intrafamiliar, as caracteríscas da
violência e conitos intrafamiliares impactam no processo de diferenciação
2
do indivíduo na
vida adulta e que a violência parental aplicada na infância pode produzir trauma nessa fase
da vida (Ferreira, 2022; Brodski, 2021; Lewis et al., 2019; Van der Kolk, 2020; Levine & Frank,
2022; Maté & Maté, 2023).
Outra questão que nos permeia, tanto como terapeutas quanto como pesquisadores
é a forma como manifestam-se os traumas na vida do adulto víma de violência parental.
Nos quesonamos: existem traumas especícos, tais como ansiedade nas relações sociais,
agressividade nas interações afevas e sociais, esquiva ou hipervigilância? Ou seriam respos-
tas singulares, moduladas pela história, pelo contexto e pelas narravas identárias que cada
sujeito construiu para sobreviver? Como exemplo, observamos no consultório que algumas
pessoas desenvolvem mecanismos de defesa rígidos e automácos, enquanto outras exibem
uma sensibilidade exacerbada ao ambiente, como se vivessem permanentemente em alerta.
Há ainda quem internalize a violência, tornando-se excessivamente autocríco e aqueles que
a externalizam, reproduzindo padrões relacionais disfuncionais.
Essas respostas — embora diferentes na forma — comparlham um denominador co-
mum: o trauma parental reorganiza o modo como o sujeito percebe a si mesmo, os outros e
o mundo, afetando sua capacidade de conar, se vincular e acessar uma sensação interna de
segurança (Van der Kolk, 2020; Levine & Frank, 2022; Maté & Maté, 2023). Assim, não falamos
de um único “po de trauma”, mas de um campo de experiências que se desdobra —segundo
1 Filhos que ocupam o lugar dos pais; tornando-se maduros antes do tempo.
2 O conceito de Diferenciação do Self, introduzido por Murray Bowen no contexto da Teoria dos Sistemas Fami-
liares (Psicologia Sistêmica), é fundamental para entender a saúde emocional e a dinâmica dos relacionamentos.
A diferenciação do self dene a capacidade de um indivíduo de manter um senso de self disnto e autônomo
(idendade própria) enquanto está emocionalmente conectado aos outros, especialmente dentro da família.
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Violência parental, trauma e o impacto na construção da identidade adulta
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a história — a fase do desenvolvimento em que ocorreu a violência, a qualidade das relações
subsequentes e os recursos subjevos disponíveis para ressignicação.
Observamos em nossa práca clínica, adultos que apresentam crises de ansiedade, ata-
ques de pânico, depressão, transtornos de afevidade e de personalidade como primeiro
diagnósco realizado por psiquiatras —, diculdades relacionais, terrores noturnos, insônia,
repeção da violência em suas famílias nucleares e comorbidades diversas como marcas do
estresse prolongado do trauma —, assim como nos colocam importantes pesquisadores como
Levine e Frederick (2022), Maté e Maté (2023) e Van der Kolk (2020) sobre o trauma e espe-
cialmente, os traumas do desenvolvimento da infância provenientes da violência parental.
As perguntas supramencionadas são o alvo deste trabalho que conta com a pesquisa
qualitava, na qual os indivíduos atribuem signicados às suas histórias, sejam eles pesqui-
sados ou pesquisadores (Denzin & Lincoln, 2006). A coleta de dados foi realizada por meio
de entrevistas semiestruturadas. Para a análise desse conteúdo, foi ulizado o método de Yin
para Estudo de Caso (Yin, 2016). Nesse contexto, a decomposição de dados é a organização
estruturada do material qualitavo, permindo que o pesquisador parta dos dados brutos à
categorização, que é a base para rar as conclusões do estudo de casos múlplos. Foi nesse
processo que gerou a categorização subsequente, resultando na denição e na organizão
das modalidades de violência vivenciadas pelas parcipantes.
A construção da compreensão dos signicados está fundamentada no referencial te-
órico do novo paradigma de pensamento, que reconhece a complexidade, a instabilidade e a
intersubjevidade da vida (Vasconcellos, 2018). Também se apoia em abordagens pós-moder-
nas, como o construvismo (Spink, 2010) e o construcionismo social (Rasera & Japur, 2005),
que consideram o ser humano em suas relações, contexto, cultura e trajetória de vida.
O objevo central desta pesquisa foi invesgar o impacto dos traumas complexos de
desenvolvimento em dois indivíduos na idade adulta, os quais foram instaurados durante a
infância em decorrência da exposição às modalidades de violência parental.
Especicamente, buscamos idencar e analisar quais aspectos da violência paren-
tal foram vivenciados pelos parcipantes na infância, como essas experiências são atualmen-
te percebidas por eles e de que forma inuenciaram a compreensão desses eventos na fase
adulta.
TRAUMA
Como apontam Kering (2023) e Knight e Miller (2024), os traumas estão relaciona-
dos aos vários pos de violências, abusos e negligências que afetam o desenvolvimento da
infância tema foco desta pesquisa. Van der Kolk (2020) em seu empenhado estudo sobre
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a amplitude do trauma, nos conta que uma criança que viveu violência em seu ambiente fa-
miliar, defrontar-se-á com diculdades para estabelecer relacionamentos estáveis e baseados
na conança, quando do angimento da vida adulta. As pesquisas — considerando uma visão
integrada e muldisciplinar do ser humano mostram que o trauma causa mudanças sio-
lógicas reais que impactam no sistema de reorganização do cérebro, elevando a avidade
dos hormônios do estresse e produzindo alterações no sistema que separa as informações
signicavas das insignicantes. Pessoas traumazadas tornam-se hipervigilantes, enfrentam
altos níveis de ansiedade, lidam de forma estressada com ronas diárias e, vale destacar, que
normalmente passam diversas vezes por situações problemácas e não aprendem com a ex-
periência, além da perda da inmidade consigo (Van der Kolk, 2020; Levine & Frank, 2022;
Maté & Maté, 2023).
O Transtorno de Estresse Pós-Traumáco (TEPT), caracteriscamente, manifesta-se
como resultado de repedos traumas com aspectos de gravidade. Nos estudos do impacto
do trauma em saúde mental, essas experiências estão associadas aos aspectos mulfatoriais,
incluindo caracteríscas como po, proximidade, frequência, bem como aspectos individuais
e sociais.
Uma peculiaridade do trauma é o trauma complexo, que se encarrega do número de
eventos traumácos aos quais uma pessoa foi submeda ao longo de sua biograa, especial-
mente, as violências interpessoais (Serpeloni et al., 2023). Os estudos têm mostrado de forma
contundente que a exposição aos disntos pos de acontecimentos traumácos eleva a possi-
bilidade de desenvolver TEPT, o que é reputado como efeito cumulavo do trauma ou também
conhecido como building block (Serpeloni et al., 2023).
Pessoas vímas de TEPT apresentam memórias recorrentes e intrusivas, pesadelos
constantes, ashbacks de cenas de sofrimento ou de ataque; demonstram diculdade de con-
centração e apresentam comportamentos evitantes em relação às pessoas, lugares ou ocasi-
ões associadas ao trauma. Esses indivíduos narram senmentos de raiva, culpa, vergonha e di-
cilmente permitem-se viver momentos posivos ou de relaxamento, pois estão em constante
vigilância, o que desencadeia alto estresse em relação às tarefas codianas, de trabalho ou
até mesmo das relacionais. Isso acontece devido às emoções intensas que angem o sistema
límbico e as amígdalas (Van der Kolk, 2020).
Nosso hemisfério esquerdo do cérebro é responsável por organizar nossas experiên-
cias e o direito armazena nossas lembranças. Em condições normais, ambos os lados do cé-
rebro atuam juntos em relava harmonia; o hemisfério esquerdo dos traumazados não
tem sua função ocorrendo na plenitude, que se manifesta como um curto-circuito” causado
pelo evento traumáco, ou seja, o cérebro emocional invade o cérebro racional (Van der Kolk,
2020; Serpeloni et al., 2023).
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Pessoas que sofrem de traumas permanecem presas e paralisadas no desenvolvimen-
to geral. Após o trauma, o indivíduo passa a vivenciar o mundo com um sistema nervoso
disnto em relação a quem não viveu situações traumácas. A potência de um sobrevivente
de recorrentes eventos traumácos cam focada em suprimir o caos interno em detrimento
da espontaneidade em sua vivência codiana (Van der Kolk, 2020; Levine & Frederick, 2022;
Maté & Maté, 2023); sabemos que indivíduos marcados pelo trauma carregam consigo sinais
em suas almas.
MENTE INFANTIL E OS TRAUMAS DO DESENVOLVIMENTO DA INFÂNCIA
Durante o transcurso do século XX, vários estudiosos do comportamento humano se
averam em observar, analisar, discur e produzir conhecimento acerca do desenvolvimento
da criança, e cada um com sua perspecva, linha de abordagem e pedagogia mas todos
convergiam em algum nível — para a conclusão de que a criança é formada também pelo seu
entorno e pelas primeiras experiências por elas vividas, atribuindo signicância aos pais e cui-
dadores presentes nos primeiros anos de vida.
Autores clássicos como Vygotsky (1896-1934), Piaget (1896-1980), Freud (1856-1939)
e Bowlby (1907-1990) abordaram, por diferentes perspecvas teóricas, a importância das in-
terações iniciais entre a criança e suas guras cuidadoras. Embora partam de pressupostos
disntos, há entre eles a convergência de que a qualidade dessas relações precoces inuencia
a constuição subjeva e o desenvolvimento emocional ao longo da vida (Bowlby, 2023).
O Trauma do Desenvolvimento (TD), conforme denido por Knight e Miller (2024) e
Kerig (2023), refere-se à exposição a experiências traumácas crônicas e repevas que ocor-
rem durante os períodos crícos da infância e adolescência. Esse trauma é predominantemen-
te interpessoal e manifesta-se dentro do sistema de cuidados primário a família —, onde
a criança depende do agressor, o que impede o desenvolvimento da capacidade de autorre-
gulação emocional. O TD vai além dos sintomas do Transtorno de Estresse Pós-Traumáco
(TEPT), pois causa décits generalizados no desenvolvimento neurobiológico e na construção
da idendade e do self. Knight e Miller (2024) ressaltam que essa exposição crônica a relações
falhas exige uma expansão do modelo diagnósco para o Trauma Complexo (TEPT-C), focando
em intervenções que priorizem a regulação e a reconstrução das relações de conança.
No amplo estudo com crianças realizado por Van der Kolk (2020) e sua equipe na clínica
infanl do Trauma Center do CSMM, mostrou-se que para crianças vímas de violências a res-
posta ao mundo e às relações vinham sempre recheados de traumas, ameaças, comorbidades,
diagnóscos especialmente os diagnóscos de transtorno de humor, conduta e de perso-
nalidade. Van der Kolk (2020) que conviveu com Bowlby quando de suas visitas a Harvard
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nos conta que Bowlby concluiu em sua tese que os transtornos de conduta de algumas
crianças eram uma resposta a experiências vividas por elas, tais como negligência, violência,
separação e, a parr de então, construiu a teoria do apego (Bowlby, 2023).
Bowlby (2023) arma que a arte da autorregulação está relacionada com a harmonia
nas primeiras vivências com nossos pais e cuidadores; logo, a criança que foi exposta a violên-
cia em suas mais diversas formas terá diculdade de se autorregular na vida adulta.
Maté e Ma(2023) apresentam seu conceito de trauma, que corresponde com nossas
vivências clínicas junto a caminhada de nossos clientes feridos internamente:
trauma é uma ferida interna, uma ruptura ou uma clivagem duradoura do ego devido a acontecimentos
diceis ou dolorosos ... trauma é principalmente o que acontece dentro da pessoa como resultado de
acontecimentos diceis ou dolorosos que acometem; não são os acontecimentos em si. “Trauma não é
o que acontece com você, mas sim, o que acontece dentro de você”. (Maté & Maté, 2023, p. 27)
Um estudo longitudinal sobre epidemiologia do trauma e TPET na Inglaterra mostra
que a prevalência do transtorno de estresse pós-traumáco ao longo da vida está mais eviden-
te em jovens que sofreram ataques interpessoais diretos ou ameaças — principalmente aque-
les que foram acomedos de ataques sexuais (Lewis et al., 2019). Ou seja, indivíduos marca-
dos internamente, afrontados em sua dignidade, espaço individual e caracteríscas pessoais.
Identidade, trauma e a crise do self na contemporaneidade
A questão da idendade é um tema central nos estudos humanos desde autores clássi-
cos que abordam o desenvolvimento da moral e das formas de vínculo — como Freud (1923),
Erikson (1976) e Bowlby (2023) até autores contemporâneos, como Hall (2019), Goman
(2014) e Foucault (2010) —, que abordam a idendade como exível e mutável. Segundo
Erikson (1976), a construção da idendade é um processo psicossocial que se dá em parceria
com o meio, amparando e mantendo traços essenciais no sujeito ao longo de toda a vida. A
idendade é co-construída de signicados (Spink, 2010; Rasera & Japur, 2005), não exprimin-
do um sistema interno acabado, mas sim, um processo intrinsecamente dependente da cultu-
ra e da sociedade (Erikson, 1976).
Entretanto, essa construção depara-se com a desorganização imposta pela violência.
A exposição a situações de violência abarcada como por exemplo, pelo ciclo da violên-
cia (Walker, 1979) pode levar à perda da base segura, resultando na idencação com o
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próprio agressor e prejuízos à capacidade de autoproteção. Essa dinâmica viabiliza padrões de
repeção transgeracional da violência em relações afevas (Informação Verbal, 2021
3
).
O impacto rígido do trauma na identidade flexível
O trauma especialmente o trauma complexo, caracterizado por adversidades vi-
venciadas por crianças em diversas fases de seu desenvolvimento e geralmente relacionadas
a relacionamentos violentos produz um impacto que contrasta com a natureza uida da
idendade pós-moderna. Pesquisas demonstram que impacto na construção da idendade
desses indivíduos, manifestado por dissociação, compromementos mentais, transtornos de
personalidade e emocionais (Van der Kolk, 2020).
Nas narravas de sobreviventes, as perdas e vulnerabilidades advindas de situações
adversas trazem consigo perturbações na idendade e comprometem a autoimagem, con-
tribuindo para a construção de uma idendade “pós-trauma”. Situações traumácas e seus
sintomas (TEPT) modulam idendades, trajetórias, relacionamentos e autopercepção, deslo-
cando a certeza sobre si mesmo (Li & Liang, 2023; Hyland et al., 2023).
Crise de identidade na pós-modernidade
A crise potencializa-se quando cruzada com o cenário sociológico. As angas iden-
dades consolidadas — de classe, gênero e etnia — estão em decadência devido às mudanças
estruturais do nal do século XX, fracionando o sujeito moderno unicado. A idendade é
vista como descentrada, deslocada e/ou fragmentada (Hall, 2019). Hall (2019) projeta a perda
do “sendo de si estável”, culminando na crise de idendade do indivíduo contemporâneo.
Considerando que o sujeito traz disntas idendades em diferentes contextos e que
a diversidade de eus” coabita o indivíduo (Hall, 2019; Schwartz, 2023), o desao manifesta-
-se: a violência em suas diversas formas — impede o sujeito de conectar-se com seu “aqui
e agora”, aprisionando-o em experiências traumácas. Esse aprisionamento contrasta com a
uidez do mundo e compromete a possibilidade de ser um sujeito livre, espontâneo, potente
e capaz de construir uma história ressignicada.
MÉTODO
O estudo ancora-se no pensamento sistêmico, que compreende a vida como um teci-
do de múlplas inuências; sempre em movimento. Para Vasconcellos (2018), os fenômenos
3 Informação oral: Profa. Dra. Rosa Maria Stefanini de Macedo - qualicação de mestrado PUC-SP, em 10 nov.
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humanos podem ser entendidos dentro dessa trama complexa, onde instabilidade, interde-
pendência e intersubjevidade não são desvios, mas a própria natureza do real. Nada existe
isolado: cada ação reverbera no sistema e cada sujeito constui-se na relação com o outro, no
tempo e na história comparlhada. Assim, compreender o trauma e suas marcas exige
olhar para essas redes vividas e para os modos como elas moldam signicados, vínculos e
possibilidades de mudança.
Arcula-se às abordagens pós-modernas da terapia narrava (White, 2012), que bus-
cam ressignicar histórias saturadas de problemas, ao pensamento construvista (Arendt,
2003) e construcionista (Gergen, 1985), segundo os quais a realidade é construída nas tramas
da comunicação, da cultura, da história e na capacidade de cada sujeito de agência sobre sua
própria biograa.
Esta pesquisa foi congurada como uma pesquisa qualitava, sendo esta àquela em
que construímos signicados e atribuímos sendo a esses resultados, considerando nesse
contexto a implicação tanto do pesquisador como do pesquisado (Guerra et al., 2024). Essa
invesgação qualitava considera nesse contexto a implicação tanto do pesquisador
como do pesquisado (Denzin & Lincoln, 2006). Constatamos em Yin (2016) que a pesquisa
qualitava (PQ) implica, antes de tudo, compreender o signicado das histórias dos sujeitos,
considerando os contextos em que estão inseridos. Essa modalidade de pesquisa investe
por meio da diversidade de lentes — na contribuição para com o acréscimo da compreensão
de fenômenos culturalmente contextualizados e no desao das práxis culturais, que descre-
vem e representam tanto o indivíduo quanto a cultura, promovendo também o esmulo para
mudanças sociais (Kublikowski, 2021).
Participantes
As entrevistas foram realizadas com dois parcipantes: uma mulher, Taana (nome
ccio), com idade de 58 anos, hétero, cisgênero, casada, sem lhos, pedagoga, estudante
de psicologia, gestalt terapeuta, possui duas pós-graduações em desenvolvimento humano,
natural da cidade de São Paulo e pertencente a camada populacional urbana de classe C, de
acordo com o IBGE; e, um homem, José (nome ccio), com 74 anos, tero, cisgênero, viúvo,
com quatro lhos, engenheiro, administrador, aposentado, natural do interior do estado de
São Paulo, no planalto central paulista e faz parte da camada populacional urbana de classe B.
O critério de inclusão foi ter vivido a violência parental e que atenda algum dos crité-
rios de violência intrafamiliar.
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Instrumentos
Lançamos mão da entrevista semiestruturada, que é considerada por Kvale e Brinkmann
(2009) como uma ferramenta intersubjeva de duas pessoas discorrendo sobre temas ans
—, com o objevo de adquirir informações sobre o mundo experienciado pelo entrevistado;
focados no tema em voga. Essa ferramenta apreende um diálogo não direvo, que não requer
a ulização de perguntas padronizadas; porém, tem em sua base, um roteiro com temácas
preliminarmente elaboradas.
Procedimento
Para alcançar os objevos da pesquisa, adotou-se o Estudo de Casos Múlplos, moda-
lidade que, segundo Yin (2014), produz análises mais consistentes ao permir a comparação
entre diferentes trajetórias. As entrevistas semiestruturadas estruturaram o campo empírico,
oferecendo ao invesgador um espaço de reexão sobre suas próprias concepções e escolhas
metodológicas — aspecto destacado por Kublikowski (2018) ao situar o Estudo de Caso como
uma estratégia anada com a práca clínica e com a complexidade subjeva dos fenômenos
humanos. Como lembra D’Allonnes (2004), sua potência está na capacidade de integrar mate-
riais provenientes de múlplas fontes, compondo uma leitura de histórias de vida singulares
que se organizam em camadas e exigem análise em vários níveis.
Foram realizadas as entrevistas na modalidade online momento em que foi lido o
Termo de Consenmento Livre Esclarecido (TCLE) —, com o aceite documentado, gravado e,
posteriormente, transcrito.
As análises deram-se em forma de idencação de categorias e alinhamento entre
experiência e corroboração da teoria. A análise de um caso, segundo Stake (2006), implica
atribuir sendo tanto às impressões iniciais quanto às compreensões nais por meio de dois
caminhos possíveis: a codicação dos dados que nos direcionou para a construção de ca-
tegorias ou a interpretação direta. Cabe ao pesquisador decidir qual estratégia melhor se
ajusta ao modo como apreende o fenômeno. A narrava nal que emerge — sempre singular
é moldada pelo olhar do invesgador, que arcula temas, constrói categorias e sendos e
conecta a história estudada às outras experiências humanas.
A codicação, entendida por Kublikowski (2018) como um processo de transformação
dos dados, no qual informações são condensadas, organizadas e agrupadas até que padrões
revelem categorias analícas; trata-se de um movimento que parte da descrição e avança para
a compreensão, saindo do concreto para o abstrato. O percurso seguiu as cinco fases propos-
tas por Yin (2016): (1) compilar os dados e formar uma base organizada; (2) decompor, frag-
mentando as informações para análise minuciosa; (3) recompor, rearranjando e integrando
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elementos em novas congurações; (4) interpretar, construindo sendos e arculações ana-
lícas e categorias; e (5) concluir, sintezando achados e produzindo compreensão integrada
do caso.
Considerações éticas
Em acordo com a Resolução 466/2012, complementada pela Resolução 510/2016 do
Conselho Nacional de Saúde, o sigilo em torno da idendade dos parcipantes foi mando.
Esta pesquisa está devidamente registrada sob o número de parecer 7.932.952 e CAE, número
78308223.4.0000.5482
Trata-se de pesquisa que apresenta risco baixo possibilitando a geração benecios aos
parcipantes pela reexão, insights, ampliação de consciência sobre si e sua história gerada
em torno do tema, assim como seus resultados poderão beneciar a população que vivencia
as diculdades mencionadas, prossionais de saúde e áreas ans que queiram ampliar seus
conhecimentos acerca do tema.
Oferecemos apoio, orientação e acolhimento uma vez que a pesquisadora apresenta
experiência clínica com manejo de TEPT e violência intrafamiliar —, além de encaminhamento
para terapia e/ou ajuda prossional em caso de desconforto.
ANÁLISE E DISCUSSÃO
Ao analisarmos o conteúdo das transcrições das duas entrevistas realizadas, iden-
camos seis categorias de violência parental e dentre elas, sintomas de transtorno de estresse
pós-traumáco (TEPT) e impacto na construção da idendade e autoimagem. Na primeira
categoria, temos a violência sexual comeda pelo pai de Taana.
Concordamos com Sanches et al. (2019) quando se posicionam em relação à diferença
entre o termo abuso e violência sexual. Os autores armam que a denição de abuso supõe
que em alguma medida pode-se fazer certas coisas, como se houvesse critério de permissão
para tal e neste caso da brutalidade da violência sexual, em qualquer fase da vida, mas espe-
cialmente, na infância. Trata-se de um problema social com impacto na vida, na saúde sica e
psíquica do indivíduo violado na sua inmidade e sexualidade, tornando-se então, uma situa-
ção adversa e trauma complexa.
Podemos constatar em nossa experiência clínica bem como em pesquisas que
uma pessoa violentada sexualmente pode apresentar transtornos mentais, abuso de subs-
tâncias químicas, compromemento de sua autoimagem, comorbidades diversas, bem como,
TEPT (Chaves & Prado, 2024; Van der Kolk, 2020). Sabemos que toda criança víma de violência
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sexual está em posição assimétrica e desvantajosa em relação ao adulto, que uliza de seu
poder que vai desde a simples estatura e força sica até o lugar psíquico de pertencimento e
importância na relação com a criança violentada (Cunha, 2021).
No caso de Taana, ela relata ter uma relação inicial de amor e admiração pelo pai.
Assim como Foucault (1987) nos aponta, a violência de todos os gêneros é advinda de relações
de poder, e especicamente, nesse caso, um adulto diante de uma criança tem uma posição
de poder e relevância, considerando a natureza do ciclo do desenvolvimento da vida.
No Brasil, a violência sexual infanl intrafamiliar cresce de forma entristecedora. Entre
2021 e 2024, os dados dos Anuários Brasileiros de Segurança Pública revelam uma escalada
alarmante no número de vímas de estupro. Em 2021, o total de casos foi de 66.020, um
número que subiu para 74.930 em 2022, representando um aumento de aproximadamente
13,5% (Fórum Brasileiro de Segurança Pública [FBSP], 2023, 2024). A tendência de crescimen-
to connuou em 2023 quando o total de casos chegou a 83.988 — um acréscimo de 12,1% em
relação ao ano anterior (Fundo das Nações Unidas para a Infância [UNICEF], 2023). O aumento
mais recente, conrmado pelo 19º Anuário, aponta para 87.545 casos em 2024 um salto
de 4,2% em relação a 2023 (FBSP, 2025). Em relação aos dados do úlmo anuário, os casos
de estupro contabilizam como maioria das vímas (87,7%) as crianças do gênero feminino. A
pesquisa destaca que meninas negras representam 55,6% das vímas. Crianças menores de
14 anos vímas de “estupro de vulnerável”, somam 76,8% do total, com a maioria dos crimes
(59,5%) sendo comeda por familiares e ocorrendo dentro de casa (69,1%). Os agressores são,
em sua maioria, homens em papéis de cuidado, o que agrava a ruptura de conança e segu-
rança. Vemos essa triste realidade brasileira explicitada na história de Taana, desde algumas
décadas passadas.
Relato de Taana:
que meu pai sempre querendo puxar sardinha para o meu lado, sempre me chamando
para fazer carinho. Foi aí que houve um abuso. E também é uma fase que acho que a criança
sente prazer, né? E eu gostava. Só que eu não sabia que eu estava sendo abusada. Até que um
dia eu conversando com as minhas irmãs e eu achava que era comigo. Ele tentou isso
com todas as lhas então assim, meu pai sempre me chamava para car com ele na cama,
eu ia, eu gostava. Muitas vezes ele gozou em mim, não dentro de mim, mas no meu bumbum,
né? E eu sen aquele negócio molhado, mas também, o que que era aquilo? Quando a minha
ele percebia algum movimento da minha mãe, ele logo me punha para fora e tchau, tchau.
(Depoimento concedido a autora, 2025)
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Como segunda categoria, levantamos a violência sica paterna. Observamos na histó-
ria de violência de Taana um processo de agressão parental e intrafamiliar, no que tange à
violência sica. Esta foi perpetrada pelo pai como rona e regra na forma de educar e corrigir
os lhos. Nos perguntamos se, a violência sica como hábito na correção dos lhos, pode levar
a normalização da violência por parte dos membros da família.
De acordo com os estudos de Araújo et al. (2023), há uma evidente associação entre a
práca educava violenta e o aumento e riscos de transtornos mentais, fundamentando que a
hoslidade e a punição na forma de educar os lhos gera desordens e instabilidade emocional
nos indivíduos perpetrados. O contrário também cou evidente: crianças que são criadas por
prácas educavas posivas apresentam menos compromemento da saúde mental.
Relato de Taana: “Meu pai baa na gente, violentamente, com cinta e a gente cava
tudo marcado ele baa muito violentamente na gente. Os cinco apanhavam de uma vez.
Então todo mundo cava esperando a sua vez de apanhar. Eu era a quinta” (Depoimento con-
cedido a autora, 2025).
Relato de José:
Ué, eu que fazia as coisas erradas Ele era diretor de escola numa cidade pequena. Ué, apa-
nhou, fez errado? Então era assim que era tratado. Não podia fazer nada errado mesmo. Quer
dizer que não é que apanhava todo dia, quando você fazia uma coisa que a coisa cava feia, né?
Porque o normal — que hoje eles não acham normal — para nós era normal, tá? (Depoimento
concedido a autora, 2025)
José sobre quando bateu em um de seus lhos: “é? Baa com a mão mesmo, né? Esse
úlmo que um dia ele cou bêbado, bêbado, bêbado e eu ve que largar o que eu estava
fazendo em outra cidade para vim aqui (agrediu o lho)” (Depoimento concedido a autora,
2025).
Na história de José, podemos destacar ainda a normalização da violência, juntamente
com a práca desta em forma de educação e correção de comportamentos não tolerados
para a família. Vemos a práca educacional violenta, aprendida de forma transgeracional em
concordância com os achados de Santos e Moré (2011) e aplicada de maneira normava e
padronizada na história desse pai, que também foi um lho perpetrado pela agressão como
via de educação.
Atualmente, contamos com um complemento ao Estatuto da Criança e do Adolescente
- ECA: a Lei 13.010, de 26 de junho de 2014 (Brasil, 2014) conhecida como a Lei da
Palmada —, que estabelece que:
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Art. 18-A. A criança e o adolescente têm o direito de ser educados e cuidados sem o uso de casgo
sico ou de tratamento cruel ou degradante, como formas de correção, disciplina, educação ou qual-
quer outro pretexto, pelos pais, pelos integrantes da família ampliada, pelos responsáveis, pelos agentes
públicos executores de medidas socioeducavas ou por qualquer pessoa encarregada de cuidar deles,
tratá-los, educá-los ou protegê-los. (Brasil, 2014)
Sabemos que tanto os pais de Taana quanto os de José, nos dias de hoje, estariam
sujeitos às penalidades abaixo, apresentadas na Lei supracitada:
Art. 18-B. Os pais, os integrantes da família ampliada, os responsáveis, os agentes públicos executores
de medidas socioeducavas ou qualquer pessoa encarregada de cuidar de crianças e de adolescentes,
tratá-los, educá-los ou protegê-los que ulizarem casgo sico ou tratamento cruel ou degradante como
formas de correção, disciplina, educação ou qualquer outro pretexto estarão sujeitos, sem prejuízo de
outras sanções cabíveis, às seguintes medidas, que serão aplicadas de acordo com a gravidade do caso:
I - encaminhamento a programa ocial ou comunitário de proteção à família;
II - encaminhamento a tratamento psicológico ou psiquiátrico;
III - encaminhamento a cursos ou programas de orientação;
IV - obrigação de encaminhar a criança a tratamento especializado;
V – advertência. (Brasil, 2014)
Normalização e negação dos resultados da violência é a terceira categoria. José norma-
liza a educação por meio da violência e nega os possíveis efeitos em sua vida e na vida de seus
lhos. Na família nossa primeira vivência com o meio externo —, experienciamos nosso
primeiro laboratório social, onde absorvemos os padrões, a cultura, as crenças e os hábitos
que nos preparam para a vida em sociedade (Erikson, 1976; Carter & McGoldrick, 1995). Essa
microssociedade familiar serve como a base para nossa interão com a macrossociedade,
que se estende além do ambiente domésco e engloba o convívio social mais amplo, além de
representar socialmente, segurança e proteção — não nos casos deste estudo (Cardoso et al.,
2020). Seria essa vivência inicial como marco de desenvolvimento de quem somos, que leva o
indivíduo a normalizar tudo o que se passa dentro do sistema familiar, assim como a agressão,
a negligência, o desamor e o abuso — seja psicológico, sico ou sexual? Seria a crença so-
cial pautada no crisanismo ocidental que nos leva a acreditar na sacralidade parental, como
modelo da sagrada família e, com isso, tudo é permido no seio familiar?
Santos (2011) ressalta que no transcorrer do processo de educação dos lhos, os pa-
rentais revivem por um olhar mais experiente — ou ao menos poderia ser assim suas expe-
riências passadas como lhos e suas diculdades nesse papel, o que poderia dar a estes pais a
oportunidade de ressignicar seus conceitos e valores em termos de educação.
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Nos perguntamos: seria a negação da violência uma atude psíquica de autoproteção
e autopreservação?
Relato de José:
apanhar? Ficava quienho, né? Não, não atrapalhou em nada a minha vida. Isso pra mim foi
normal. Não, não ve nenhum trauma, nem tenho até hoje, para mim sobre esse assunto não
tem nada a ver … é, se eu fazia a coisa errada, apanhava … para mim estava tudo certo. É, era
o justo. Acho que meus irmãos também não, porque tudo eles estão formados, trabalhando
… vai pegar você pela mão, dava umas boas cintadas. (Depoimento concedido a autora, 2025)
Na quarta categoria, encontramos a educação parental por meio da violência. Sabemos
que a práca educava familiar espautada nos valores culturais e transgeracionais. Esses
valores morais familiares são internalizados e desdobrados, muitas vezes, como repeção de
padrões não reprocessados na esfera racional ou mesmo, como frutos produvos de uma
análise da história emocional vivida por aqueles que foram lhos e tonaram-se pais —, viabili-
zando o que Santos e Moré (2011) denominam com transgeracionalidade da violência.
Podemos idencar, nos relatos de Taana, que sua mãe entregava os lhos para serem
educados e corrigidos pelo marido, que a perpetrava semanalmente pela violência domésca.
No caso de José, lho de um líder educador — diretor de escola —, que se ulizava da
forma violenta de educar os lhos, observamos a crença que agredir é um meio de correção e
ajuste do comportamento dos lhos, o que ilustra a transgeracionalidade da violência (Santos
& Moré, 2011). José desdobrou a práca educava pautada na violência para seus quatro lhos
do gênero masculino e podemos idencar em seus relatos que o lho que menos apanhou
não se sena reconhecido pelos pais. Vejamos relatos da entrevista com os dois pesquisados.
Relato de Taana sobre a mãe:
E quando o meu pai chegava, ela entregava a gente como se ele fosse ser aquela pessoa que
fosse ser aquele ser humano amoroso. Não. Meu pai baa na gente, violentamente com cinta,
e a gente cava tudo marcado, depois que ela via essa cena. Minha mãe sempre nos expôs.
Depois ela vinha lamber a gente, né? Cuidar dos machucados e cava falando, tá vendo? Você
deveria ter feito isso. Vocês não zeram isso. (Depoimento concedido a autora, 2025)
Relato de José:
E todo mundo nha medo, ninguém fazia nada errado. Ué, apanhou, fez errado, apanhou.
Então era assim que era tratado. Diálogo com o lho caçula: “você cou traumazado porque
não apanhou, porque eu não ligava pra você”. Ele falou assim: “vocês não ligam pra mim, vocês
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não batem em mim, que nem vocês baam nos meus irmãos”. (Depoimento concedido a au-
tora, 2025)
Transtorno de estresse pós-traumáco (TEPT) dos acomementos do desenvolvimento
da infância é a quinta categoria. Concordamos com as pesquisas e com os autores que anco-
ram este estudo no que se refere aos resultados impressos no corpo sico e na alma de cada
um de nossos clientes, criados à ancora de uma educação violenta e que fere a dignidade da
individualidade humana (Araújo et al. 2023).
Podemos observar, tanto em nossos estudos e pesquisas quanto na práca clínica de
escuta e observação, o quanto pessoas que vivenciaram diferentes formas de violência apre-
sentam sintomas sicos e psíquicos, tais como: baixa autoesma, falta de conança em si
mesmas, desconhecimento de suas capacidades e potências, descrença e desesperança nas
relações, além de diculdades com o senso de pertencimento e o agenciamento de si. Esses
fatores impactam diretamente a construção de uma idendade saudável e de uma autoima-
gem posiva (Li & Liang, 2023; Hyland et al., 2023).
Podemos observar nos relatos de Taana, que lida com a insônia, pensamentos consi-
derados por ela como ruins, impulsividade, alterões de humor, suas questões com a relação
sexual com seu parceiro, além do sofrimento ao revisitar sua história.
Em José, temos a negação em relação a violência como danosa para formação do indi-
víduo — muito embora admita ao nal seus “repentes” de explosão na relação conjugal , seus
remorsos em relação às suas tratavas e exigências familiares, e por úlmo, podemos ressaltar
a admissão da relação da violência do pai com “seu jeito duro de ser.
Estudos realizados por Van der Kolk (2020) durante décadas, desaam o que diz o
American Psychiatric Associaon (APA) (2014) sobre “um não conhecimento da siopatologia
do trauma”. Este e outros pesquisadores como Maté e Maté (2023) e Levine e Frederick (2022)
apontam que uma alterão no que Van der Kolk (2020) chama de cérebro emocional, onde
reside o sistema límbico e repeliano.
Quando do momento vivido por meio do trauma, o cérebro secreta corsol em altas
quandades e esse transcurso acontece como o exemplo de uma tatuagem no cérebro
emocional, que faz com que ele atravesse o cérebro racional e, dessa forma, o indivíduo se
mantém em um estado ansiogênico e de alerta constantes quando em situações que causam
galhos e em contextos adversos, podendo apresentar três pos de reações diferentes de
respostas: uns lutam, outros fogem e outros ainda congelam. Tudo isso aciona o nervo vago
(Porges, 2023) que se torna uma forma de processamento das emoções, a biologia do trau-
ma —, que de forma geral não ajuda o indivíduo traumazado a processar a vida por uma via
mais racional e com menos emoções impulsivas e sofridas.
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Se pensarmos em termos de categorização dos sintomas de TEPT, podemos caminhar
pelo APA (2014) e encontrarmos os seguintes sintomas: intrusão, esquiva, alterações negavas
de cognição e de humor, alterações de excitação e de reavidade. São comuns pesadelos fre-
quentes e memórias não desejadas que reproduzem o evento desencadeante. Alguns pacien-
tes revivem a situação traumáca como lembranças vívidas, levando a pessoa a reagir como
se esvesse no ato do acontecimento.
Relato de Taana:
Um pouco de insônia. Pensamentos ruins. Hoje, total… total (Sobre alteração no humor). Por
mais que eu sei que eu posso e que eu não estou sozinha. Eu comigo mesma, sabe, eu tenho
muita consciência disso, sim. Não para sustentar o tempo todo. Então, mais pra atude
impulsiva é, mas não tão impulsiva, não a ponto de chegar vias de fato, eu não vou deixar
quieto, né? Então, dei mais de uma atude, mais de uma atude impulsiva, de uma iniciava
do que fuga. Eu fugi muito porque esse poema... esse poema do brasileiro que agora esqueci
o nome dele é, ele me orientou por muito tempo, “ca quieta, não fala nada. Vamos pra frente,
você já perdeu tanto”.
Teve um momento que a minha chama virou fósforo. E eu, eu acho que nesse momento, eu
quei muito, muito triste na minha história. Não, não tenho mais relações sexuais. Mas tenho
relação sexual comigo. Ninguém mais me toca, não que eu proibi o C. pode me tocar então a
gente também já não dorme junto, que também isso para mim é muito violento, né? Você vê,
eu connuo na violência, né? E me aliso, me acarinho, não é? Então a minha relação comigo
mesma. Mas sempre vem uma lembrancinha, né? Eu, eu, eu tenho hoje uma consciência de
que eu não perdi minha sexualidade apesar de tantas agressões. (Depoimento concedido a
autora, 2025)
Relato de José:
Coisas que eu z errado e eu achei que hoje, eu penso, né, não devia. Podia não ter feito, né? E
eu digo assim, já fez, né? Fiquei muito chateado que minha esposa faleceu de câncer em 2021
eu co muito ressendo, porque ela queria que eu mudasse algumas coisas. Eu não consegui
mudar. Ela cou ressenda, bastante ressenda pelo meu jeito mas, aí, como é que chama?
Explosão, né? Ah, tava bravo e tal. É não pra bater, nunca pus a mão na L., mas só que eu, ma-
chão, duro, duro, né? Então tudo era duro. Fazer uma coisinha errada, dava aquele chilique,
né? Mas ela reclamava de um comportamento mais bravo, né? Essas coisas foram, aconte-
ceram, mas o meu comportamento explosivo. Eu não tenho assim nenhum trauma, para mim
estava legal e a única coisa que eu co assim é, eu podia ter ido mais na casa da minha mãe
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quando eu não ia tanto. Sobre a violência dos pais: é isso, com certeza. Pode ter me moldado,
por exemplo, car mais bravo, car mais duro, sei lá, mas no começo não era assim, né?
A violência parental e o impacto na idendade é a sexta e úlma categoria. A violência
parental e o impacto na idendade dos lhos agredidos é uma das mais importantes perguntas
desta pesquisa. O quanto uma infância regada pela agressão, pela negligência, pelos abusos
em suas variadas maneiras, o quanto o desamor, o não reconhecimento da individualidade e
da liberdade de um lho desde a primeira infância, podem impactar no desenvolvimento e/ou
reconhecimento (no caso de José) da própria idendade na maturidade? (Hyland et al., 2023;
Levine & Frederick,2022; Li & Liang, 2023; Maté & Maté, 2023; Van der Kolk, 2020).
Vemos a busca de Taana em seu processo de desenvolvimento na terapia na ayahuas-
ca
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como recurso nos processos de autoanálise, em que por um lado o quanto ela carrega
consigo a imagem de alguém violenta na comunicação, nas atudes; e, por outro, encontra
em si um espaço de amor e carinho consigo. Taana nos traz episódios de resiliência e força,
suas posições de liderança na carreira, assim como uma busca constante pela independência
para se livrar do julgamento da violência familiar. A vivência na maturidade com superação e
memórias marcam quem Taana tornou-se de forma mais exível. Em José, vemos certa rigi-
dez em sua forma de ser, uma vez que ele não repensou, reeu e reprocessou sua vivência
com a violência e a desdobrou na paternidade, na educação de seus lhos, bem como na rou-
pagem de um pai, marido e homem duro”, que entendeu a violência como via de idendade
educadora.
A idendade na pós-modernidade tornou-se uida, mutável, exível, descentrada e
fragmentada, como nos conta Hall (2019) e podemos ver mais uidez e transformação em
Taana do que em José.
Aqui podemos observar Taana repensando sua forma violenta de ser no mundo, en-
quanto José possui a autoimagem de um ser duro”, explosivo e exigente caracteríscas
colocadas de forma determinada e sem muita possibilidade de reexão e transformação.
Morin (2012, p. 82) fala de nossa idendade polimorfa: cada indivíduo é uno, singular,
irreduvel. Contudo, é, ao mesmo tempo, duplo, plural, incontável e diverso. Ainda que en-
contramos o problema da unidade múlpla”.
Torna-se interessante pensar em Taana como um ser que atende as caracteríscas de
uno e múlplo, da uidez, da exibilidade e da idendade discuda neste trabalho, por meio
da perspecva da pós-modernidade (Hall, 2019; Goman 2014). Ao idencarmos em seus
relatos um papel considerado por ela como violento até certo ponto de uma fase do ciclo de
sua biograa, e, na atualidade, sua autoimagem de alguém amorosa e acolhedora, em sua
4 Ayahuasca é uma bebida psicoava, tradicionalmente ulizada por diversos povos indígenas da Amazônia e
frequentemente ulizada para rituais de cura em todo o país.
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prossão como terapeuta; alguém disponível para o fazer, com energia e coragem para seguir
em frente, e em evidente busca por superação de seus traumas — marcados na memória, no
corpo e na mente.
Relato de Taana:
Eu acho que depois dos vinte e um, vinte e dois até uns trinta, trinta e cinco anos, eu fui uma
pessoa muito dura com as pessoas, né? E dura, muito dura comigo mesmo. Era uma ansiedade,
acho que era uma vontade imensa de ter essa independência e falar, meu, estou fora eu que-
ria sair de casa para parar de ser agredida. Mas eu não parava de agredir. Né? Eu quei nessa
roda por muitos anos, né? De ter sido agredida e de ter agredido, de falar duro com as pessoas,
de não ser uma pessoa, nha que ser do meu jeito, né? Então, assim, eu era uma ditadora. Eu
era um trator. Eu sempre ve uma oposição assim, de presença misturada aí com um pouco
de autoridade. Na hora que eu chego, a Taana chegou porque além de tudo, eu passava medo
para as pessoas, né? Eu não nha assim essa consciência lá atrás de: “nossa, quem sou eu, que
ser violento que eu sou”, né?
Eu atribuo essa força da Independência. Eu não podia depender de ninguém. A minha palavra
é produvidade, né? Então eu sempre fui uma pessoa muito proava, muito. Hoje, uma pes-
soa de uma escuta empáca ava, né? Sou uma pessoa muito amorosa, carinhosa. Sou muito
educada, né? Sou uma pessoa que pau para toda a obra. Hoje eu sei dizer não. E digo não com
muita tranquilidade e trabalho o tempo todo com a comunicação não violenta. O Marshall
na minha mente (sobre a comunicação não violenta). Eu ainda sou uma pessoa violenta. Eu
sinto muito por isso. Não dá, nós não somos de ferro, nós somos seres humanos, ainda mais
seres humanos marcados com tanta dor, tanta falta, tanta violência. Mas hoje eu sou uma pes-
soa muito diferente daquela pessoa, sim, de muitos anos atrás. E uma sobrevivente do bem!
Em nome do amor, porque se eu não esver em nome do amor aqui, agora eu estou em nome
do amor.
Eu sou muito grata a minha raiva. Eu nha raiva, o meu condutor de movimento. Eu sou uma
pessoa muito estratégica. Eu fui preto no branco, sim. Muito rígida, muito dura comigo e com
os outros. Depois fui amolecendo com os outros, mas eu me manve dura comigo, inexível
comigo. (Depoimento concedido a autora, 2025)
Relato de José:
E é, eu sempre fui um pai dicil, né? Bravo, vim desse sistema … porque ela queria que eu mu-
dasse algumas coisas. Eu não consegui mudar. Ela (esposa falecida) cou ressenda, bastante
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ressenda pelo meu jeito mais, aí, como é que chama? Explosão, né? Sobre a violência dos
pais: é isso, com certeza. Pode ter me moldado, por exemplo, car mais bravo, car mais duro,
sei lá, mas no começo não era assim, né? (Depoimento concedido a autora, 2025)
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Entendemos que como pesquisadores, seguimos nosso chamado aquele que nos
impele a olhar não somente para dentro de nossos consultórios, mas para fora dele por
meio da pesquisa. Com isso, realizamos o percurso metodológico e, por meio dele, cumpri-
mos com nossa missão neste estudo, ao cercarmos que a violência parental na infância e
juventude tem impacto na construção da idendade, traumaza e circunscreve clara impli-
cação na vida adulta.
No quesito violência sica, observamos e tomamos como fato que tanto a agressão
sica quanto a violência sexual, deixam fortes marcas na biograa do indivíduo acomedo,
contabilizando em sua história, memórias, lembranças e o quanto a dimensão da violência
atua em sua forma de ser, pensar e agir na maturidade.
Obvemos nesta pesquisa duas polaridades destacáveis entre os parcipantes en-
trevistados. Por um lado, Taana, que mostra compreensão, signicado e manejo de sua
história, a qual trabalhou e segue a trabalhar para ressignicá-la de forma resiliente, porém
com marcas que consideramos em nossas análises como traumácas. Acreditamos que
o trauma não desabita” o indivíduo marcado por ele, mas pode ser administrado e repro-
cessado de forma a usar as ressonâncias dos encontros com as repeções traumazantes,
como uma ferramenta de resiliência para seguir construindo propósito e signicado à vida
apesar da existência imanente dos sinais que ele deixa, ressaltando que cada indivíduo
vai manejá-lo de acordo com seus disposivos de enfrentamento.
Na outra polaridade, encontramos José, marcado com padrões de violência internali-
zados, atuando em sua forma de enxergar o mundo, sua educação, comunicação e autoima-
gem. Em José, podemos constatar a negação da violência parental recebida e aplicada trans-
geracionalmente, sem grandes quesonamentos ou mesmo reexões; sobre como foi ser
um indivíduo perpetrado embora em um rápido recorte, reconheça que seus episódios
de “destempero” nas relações possam advir de sua experiência com as surras de seu pai.
Essas vozes corroboraram com nossas vivências clínicas com os resultados e achados
de pesquisadores assíduos na busca por compreensão sobre os traumas do desenvolvimen-
to da infância, que culminam em transtorno de estresse pós-traumácos durante os trans-
cursos dessas biograas.
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Diante destes resultados, concluímos que a agressividade parental impacta profun-
damente a vida das parcipantes de forma a deixar marcas persistentes que são permeadas
pelas cicatrizes da violência intrafamiliar.
Sabemos que um longo caminho a percorrer, pois tanto a ciência quanto nossos
consultórios, estão sedentos de compreensão para construção de diversas formas de lidar
com almas tão aviltadas pela violência intrafamiliar.
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Processamento e editoração: Editora Ibero-Americana de Educação
Revisão, formatação, normalização e tradução
CRediT Author Statement
Reconhecimentos: Poncia Universidade Católica De São Paulo, ao COGEAE-
Especialização Lato Sensu PUC - SP, ao Prof. Dr. João Laurenno dos Santos, a Profa.
Dra. Claudia Bruscagin, que permiram que eu realizasse esta pesquisa acadêmica,
como pré-projeto para o Doutorado, dentro de um curso Latu Sensu.
Financiamento: próprio.
Conitos de interesse: não há.
Aprovação éca: Número do Parecer: 7.932.952. Situação do Parecer: Aprovado;
Necessita Apreciação da CONEP: Não
Disponibilidade de dados e material: com Luciana Ferreira, doutoranda PUC - SP.
Contribuições dos autores: Prof. Dr. João Laurenno dos Santos, orientação do projeto
e contribuição com texto.
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Online Journal of Policy and Educational Management
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PARENTAL VIOLENCE, TRAUMA, AND ITS
IMPACT ON THE CONSTRUCTION OF ADULT
IDENTITY
VIOLÊNCIA PARENTAL, TRAUMA E O IMPACTO NA
CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE ADULTA
VIOLENCIA PARENTAL, TRAUMA Y EL IMPACTO EN LA
CONSTRUCCIÓN DE LA IDENTIDAD ADULTA
Luciana FERREIRA¹
luciana@lfpsico.com.br
João Laurenno dos SANTOS
2
joao_laurenno@uol.com.br
How to reference this paper:
Ferreira, L., & Santos, J. L. (2025). Parental violence, trauma, and its impact on the
construcon of adult identy. Revista on line de Políca e Gestão Educacional, 29,
e025113. hps://doi.org/10.22633/rpge.v29i00.20814
Submied: 20/10/2025
Revisions required: 05/11/2025
Approved: 08/12/2025
Published: 22/12/2025
¹ Poncal Catholic University of São
Paulo (PUC-SP) SP Brazil. Ph.D.
Candidate/Researcher in Intrafamilial
Violence, Graduate Program in Clinical
Psychology.
² Poncal Catholic University of São Pau-
lo (PUC-SP) SP – Brazil. Professor, Ph.D.,
Lato Sensu Graduate Program at PUC-SP.
Specializaon in Family and Couple The-
rapy Department/Cogeae.
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ABSTRACT: The family, while being the central locus for the transmission of cus-
toms and values, is paradoxically the main seng where pracces of violence
against children manifest. This research, ulizing a qualitave approach, aimed to
invesgate the impact of parental violence experienced in childhood and its direct
inuence on the process of identy construcon among adult survivors. The study
employed a mulple case study strategy, with data collected through semi-struc-
tured interviews and analyzed via content categorizaon, which culminated in the
denion of six modalies of parental violence. The results reveal that trauma,
in its eects, does not disinvest” the individual who lived it, but manifests with
a clear impact on identy construcon. It is concluded that trauma can be admi-
nistered, reprocessed, and re-signied (or not), indicang that the permanence
of its signs coexists with the individual’s capacity to construct new purposes and
meanings.
KEYWORDS: Parental Violence. Child Violence. Trauma. Identy.
RESUMO: A família, enquanto lócus central de transmissão de costumes e valores,
é paradoxalmente o principal cenário onde se manifestam as prácas de violên-
cia contra crianças. Esta pesquisa, de abordagem qualitava, objevou invesgar
o impacto da violência parental vivenciada na infância e sua inuência direta no
processo de construção identária de adultos sobreviventes. O estudo ulizou a es-
tratégia de casos múlplos, com dados coletados por meio de entrevistas semies-
truturadas e analisados por categorização de conteúdo que culminou na denição
de seis modalidades de violência parental. Os resultados revelam que o trauma, em
seus efeitos, não desinveste o indivíduo que o viveu, mas se manifesta com impacto
claro na construção da idendade. Conclui-se que o trauma pode ser administra-
do, reprocessado e ressignicado, indicando que a permanência dos seus sinais
coexiste com a capacidade de o indivíduo construir novos propósitos e signicados.
PALAVRAS-CHAVE: Violência Parental. Violência Infanl. Trauma. Idendade.
RESUMEN: La familia, como locus central de transmisión de costumbres y valores,
es paradójicamente el principal escenario donde se maniestan las práccas de
violencia contra la infancia. Esta invesgación, de abordaje cualitavo, tuvo como
objevo indagar el impacto de la violencia parental experimentada en la niñez y su
inuencia directa en el proceso de construcción identaria de adultos sobrevivien-
tes. El estudio empleó la estrategia de casos múlples, con datos recolectados por
medio de entrevistas semiestructuradas y analizados mediante la categorización
de contenido, lo que culminó en la denición de seis modalidades de violencia pa-
rental.Los resultados revelan que el trauma, en sus efectos, no desinviste al indivi-
duo que lo ha vivido, sino que se maniesta con un impacto claro en la construcción
de la idendad. Se concluye que el trauma puede ser administrado, reprocesado y
resignicado, indicando que la permanencia de sus señales coexiste con la capaci-
dad del individuo de construir nuevos propósitos y signicados.
PALABRAS CLAVE: Violencia Parental. Violencia Infanl. Trauma. Idendad.
Arcle submied to the similarity system
Editor: Prof. Dr. Sebasão de Souza Lemes
Deputy Execuve Editor: Prof. Dr. José Anderson Santos Cruz
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INTRODUCTION
The focus of this research originates in clinical experience, grounded in the presence, in
our pracces, of adult children in distress who bear marks on their bodies, psyche, and beha-
viors resulng from violent family relaonships in their various forms.
In our clinical work, we aend men and women who present insecure aachment
styles—avoidant, anxious, and disorganized—constructed in early relaonships with parents
and/or caregivers
1
(Bowlby, 2023; Haack et al., 2023; Santos & Camargo, 2024). This dynamic
somemes generates violence within families, projecng insecuries and uncertaines onto
children—and even role reversals—resulng in parened children (Bowen, 1991). These are
emoonal imprints that become embedded in the brains and inner lives of these individuals.
Added to this is the demand for care from individuals who were sexually and physically abused
by their parents and/or caregivers.
Studies on intrafamilial violence indicate that the characteriscs of family violence and
conict aect the individual’s dierenaon
2
process in adulthood, and that parental violence
during childhood can produce trauma at this stage of life (Ferreira, 2022; Brodski, 2021; Lewis
et al., 2019; Van der Kolk, 2020; Levine & Frank, 2022; Maté & Maté, 2023).
Another issue that concerns us, both as therapists and researchers, is how trauma ma-
nifests in the adult life of individuals who were vicms of parental violence. We ask: are there
specic traumas, such as anxiety in social relaonships, aggressiveness in aecve and social
interacons, avoidance, or hypervigilance? Or are these singular responses, shaped by perso-
nal history, context, and the identy narraves each individual constructed to survive? In clini-
cal pracce, we observe that some individuals develop rigid and automac defense mechanis-
ms, while others display heightened environmental sensivity, as if living in a constant state of
alert. Some internalize violence, becoming excessively self-crical, while others externalize it
by reproducing dysfunconal relaonal paerns.
Although these responses dier in form, they share a common denominator: paren-
tal trauma reorganizes how individuals perceive themselves, others, and the world, aecng
their capacity to trust, bond, and access an internal sense of safety (Van der Kolk, 2020; Levine
& Frank, 2022; Maté & Maté, 2023). Thus, this is not a single “type of trauma,but a eld of
experiences that unfolds according to personal history, the developmental stage at which the
violence occurred, the quality of subsequent relaonships, and the subjecve resources avai-
lable for meaning-making.
1 Children who take the place of their parents; becoming mature before their me.
2 The concept of Self Dierenaon, introduced by Murray Bowen in the context of Family Systems Theory
(Systemic Psychology), is fundamental to understanding emoonal health and relaonship dynamics. Self die-
renaon denes an individual’s ability to maintain a disnct and autonomous sense of self (their own identy)
while being emoonally connected to others, especially within the family.
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Parental violence, trauma, and its impact on the construction of adult identity
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In our clinical pracce, we observe adults who present anxiety crises, panic aacks,
depression, aecve and personality disorders—oen as inial diagnoses made by psychia-
trists—relaonal dicules, night terrors, insomnia, repeon of violence in their nuclear fa-
milies, and various comorbidies as marks of prolonged traumac stress. These observaons
are consistent with the work of key scholars such as Levine and Frederick (2022), Maté and
Maté (2023), and Van der Kolk (2020), parcularly regarding developmental trauma in chil-
dhood resulng from parental violence.
The quesons outlined above constute the core of this study, which adopts a quali-
tave research approach in which individuals aribute meaning to their histories, whether as
parcipants or researchers (Denzin & Lincoln, 2006). Data were collected through semi-struc-
tured interviews. For data analysis, Yin’s Case Study method was employed (Yin, 2016). In
this context, data decomposion refers to the structured organizaon of qualitave material,
allowing the researcher to move from raw data to categorizaon, which forms the basis for
drawing conclusions in mulple case studies. This process generated the subsequent categori-
zaon that resulted in the denion and organizaon of the types of violence experienced by
the parcipants.
The construcon of meaning is grounded in the theorecal framework of the new pa-
radigm of thought, which recognizes the complexity, instability, and intersubjecvity of life
(Vasconcellos, 2018). It is also supported by postmodern approaches such as construcvism
(Spink, 2010) and social construconism (Rasera & Japur, 2005), which consider human beings
within their relaonships, context, culture, and life trajectories.
The central objecve of this research was to invesgate the impact of complex develo-
pmental trauma in two adults, established during childhood as a result of exposure to parental
violence. Specically, the study sought to idenfy and analyze which aspects of parental vio-
lence were experienced during childhood, how these experiences are currently perceived, and
how they have inuenced parcipants’ understanding of these events in adulthood.
TRAUMA
As noted by Kering (2023) and Knight and Miller (2024), trauma is associated with va-
rious forms of violence, abuse, and neglect that aect childhood development—the central
focus of this research. In his comprehensive work on trauma, Van der Kolk (2020) explains
that a child who experiences violence within the family environment is likely to encounter
dicules in establishing stable, trust-based relaonships in adulthood. Research adopng an
integrated and muldisciplinary view of the human being demonstrates that trauma causes
real physiological changes that aect brain reorganizaon systems, increasing stress hormone
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acvity and altering mechanisms that disnguish signicant from insignicant informaon.
Traumazed individuals become hypervigilant, experience high levels of anxiety, cope with
daily rounes under stress, and oen repeat problemac situaons without learning from
experience, alongside a loss of inmacy with themselves (Van der Kolk, 2020; Levine & Frank,
2022; Maté & Maté, 2023).
Post-Traumac Stress Disorder (PTSD) typically manifests as a result of repeated and
severe traumac events. In studies on the impact of trauma on mental health, these expe-
riences are associated with mulfactorial aspects, including type, proximity, and frequency of
trauma, as well as individual and social factors.
A specic feature of trauma is complex trauma, which refers to the accumulaon of
traumac events experienced throughout an individual’s life, parcularly interpersonal violen-
ce (Serpeloni et al., 2023). Research has consistently shown that exposure to mulple types of
traumac events increases the likelihood of developing PTSD, a phenomenon described as the
cumulave eect of trauma or the “building block” eect (Serpeloni et al., 2023).
Individuals with PTSD experience recurrent and intrusive memories, persistent night-
mares, and ashbacks of distressing or threatening scenes; they show diculty concentrang
and engage in avoidance behaviors related to people, places, or situaons associated with the
trauma. They report feelings of anger, guilt, and shame and rarely allow themselves to expe-
rience posive or relaxed moments, as they remain in a constant state of vigilance. This leads
to high stress in daily, occupaonal, and relaonal tasks, due to intense emoons aecng the
limbic system and amygdalae (Van der Kolk, 2020).
The le hemisphere of the brain is responsible for organizing experiences, while the
right hemisphere stores memories. Under normal condions, both hemispheres funcon to-
gether in relave harmony. In traumazed individuals, however, le-hemisphere funconing
is compromised, manifesng as a short circuitcaused by the traumac event—that is, the
emoonal brain overrides the raonal brain (Van der Kolk, 2020; Serpeloni et al., 2023).
Individuals who suer trauma remain stuck and paralyzed in their overall development.
Aer trauma, they experience the world with a nervous system fundamentally dierent from
that of non-traumazed individuals. The energy of survivors of recurrent traumac events be-
comes focused on suppressing internal chaos at the expense of spontaneity in daily life (Van
der Kolk, 2020; Levine & Frederick, 2022; Maté & Maté, 2023). Individuals marked by trauma
carry enduring imprints within their inner lives.
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THE CHILD’S MIND AND DEVELOPMENTAL CHILDHOOD TRAUMA
Throughout the tweneth century, numerous scholars of human behavior dedicated
themselves to observing, analyzing, debang, and producing knowledge about child develop-
ment. Although each worked from disnct perspecves, theorecal approaches, and pedago-
gical frameworks, they converged—at least to some degree—on the conclusion that the child
is shaped by their environment and by their earliest experiences, aribung central importan-
ce to parents and caregivers present during the rst years of life.
Classical authors such as Vygotsky (1896–1934), Piaget (1896–1980), Freud (1856–
1939), and Bowlby (1907–1990) addressed, from dierent theorecal standpoints, the im-
portance of early interacons between children and their caregivers. Despite their disnct
assumpons, they converge on the understanding that the quality of these early relaonships
inuences subjecve constuon and emoonal development across the lifespan (Bowlby,
2023).
Developmental Trauma (DT), as dened by Knight and Miller (2024) and Kerig (2023),
refers to exposure to chronic and repeve traumac experiences occurring during crical pe-
riods of childhood and adolescence. This form of trauma is predominantly interpersonal and
manifests within the primary caregiving system—the family—where the child depends on the
perpetrator, which compromises the development of emoonal self-regulaon. DT extends
beyond the symptoms of Post-Traumac Stress Disorder (PTSD), as it produces widespread
decits in neurobiological development and in the construcon of identy and the self. Knight
and Miller (2024) emphasize that chronic exposure to dysfunconal relaonships requires an
expansion of the diagnosc model toward Complex Trauma (C-PTSD), priorizing interven-
ons focused on regulaon and the reconstrucon of trust-based relaonships.
In a comprehensive study with children conducted by Van der Kolk (2020) and his team
at the Trauma Centers child clinic (CSMM), ndings showed that children exposed to violence
responded to the world and to relaonships through lenses saturated with trauma, threat,
comorbidies, and diagnoses—parcularly mood, conduct, and personality disorders. Van der
Kolk (2020), who interacted with Bowlby during his visits to Harvard, recounts that Bowlby
concluded in his thesis that conduct disorders in some children were responses to lived expe-
riences such as neglect, violence, and separaon, which led him to develop aachment theory
(Bowlby, 2023).
Bowlby (2023) asserts that the capacity for self-regulaon is directly related to har-
mony in early experiences with parents and caregivers; therefore, children exposed to violen-
ce in its various forms will experience dicules in self-regulaon in adulthood.
Maté and Maté (2023) present a concept of trauma that aligns closely with our clinical
experience alongside clients who carry deep internal wounds:
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trauma is an internal wound, a lasng rupture or split in the ego due to dicult or painful events
trauma is primarily what happens inside the person as a result of dicult or painful experiences; it is
not the events themselves. Trauma is not what happens to you, but what happens inside you”. (Maté
& Maté, 2023, p. 27)
A longitudinal study on the epidemiology of trauma and PTSD in England indicates
that lifeme prevalence of PTSD is parcularly evident among young people who experienced
direct interpersonal assaults or threats—especially those subjected to sexual violence (Lewis
et al., 2019). These ndings point to individuals who are internally marked, whose dignity, per-
sonal boundaries, and individual characteriscs were violated.
Identity, Trauma, and the Crisis of the Self in Contemporary Society
The issue of identy has been central to human studies, from classical authors con-
cerned with moral development and aachment—such as Freud (1923), Erikson (1976), and
Bowlby (2023)—to contemporary thinkers like Hall (2019), Goman (2014), and Foucault
(2010), who conceptualize identy as exible and mutable. According to Erikson (1976), iden-
ty formaon is a psychosocial process co-constructed with the environment, sustaining es-
senal traits throughout the individual’s life. Identy is built through shared meanings (Spink,
2010; Rasera & Japur, 2005), not as a nished internal system, but as a process intrinsically
dependent on culture and society (Erikson, 1976).
However, this construcon is disrupted by the disorganizing eects of violence. Exposure
to violent situaons—such as those described in the cycle of violence (Walker, 1979)—can
lead to the loss of a secure base, resulng in idencaon with the aggressor and impairments
in self-protecon capacies. This dynamic facilitates transgeneraonal paerns of violence
repeon within aecve relaonships (Verbal Informaon, 2021
3
).
The Rigid Impact of Trauma on a Flexible Identity
Trauma—especially complex trauma, characterized by adversies experienced during
mulple stages of childhood development and typically associated with violent relaonships—
produces an impact that contrasts sharply with the uid nature of postmodern identy.
Research demonstrates signicant eects on identy construcon, manifested through dis-
sociaon, mental impairments, and emoonal and personality disorders (Van der Kolk, 2020).
In survivors’ narraves, losses and vulnerabilies resulng from adverse experiences
generate disturbances in identy and compromise self-image, contribung to the formaon of
3 Oral informaon: Prof. Dr. Rosa Maria Stefanini de Macedo - masters degree qualicaon from PUC-SP, on
November 10, 2021.
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a “post-trauma” identy. Traumac experiences and their symptoms (PTSD) shape idenes,
life trajectories, relaonships, and self-percepon, displacing certainty about the self (Li &
Liang, 2023; Hyland et al., 2023).
Identity Crisis in Postmodernity
This crisis is intensied when intersecng with the sociological context. Formerly con-
solidated idenes—based on class, gender, and ethnicity—have declined due to structural
changes at the end of the tweneth century, fragmenng the unied modern subject. Identy
is thus understood as decentered, displaced, and/or fragmented (Hall, 2019). Hall (2019) an-
cipates the loss of a stable “sense of self,” culminang in the identy crisis of the contempo-
rary individual.
Considering that individuals embody mulple idenes across dierent contexts and
that diverse “selves” coexist within the same person (Hall, 2019; Schwartz, 2023), a crical
challenge emerges: violence, in its many forms, prevents individuals from connecng with the
“here and now,” trapping them in traumac experiences. This entrapment contrasts with the
uidity of the world and undermines the possibility of becoming a free, spontaneous, empo-
wered subject capable of construcng a re-signied life narrave.
METHOD
This study is grounded in systems thinking, which understands life as a fabric of mulple
inuences in constant moon. According to Vasconcellos (2018), human phenomena can only
be understood within this complex web, where instability, interdependence, and intersubjec-
vity are not deviaons, but the very nature of reality. Nothing exists in isolaon: every acon
reverberates within the system, and each subject is constuted through relaonships, me,
and shared history. Thus, understanding trauma—and its marks—requires aenon to these
lived networks and to the ways they shape meanings, bonds, and possibilies for change.
This perspecve is arculated with postmodern approaches such as narrave therapy
(White, 2012), which seeks to re-signify problem-saturated stories, as well as construcvist
(Arendt, 2003) and construconist (Gergen, 1985) frameworks, according to which reality is
constructed through communicaon, culture, history, and each subjects capacity for agency
over their own biography.
This research was designed as a qualitave study, understood as an approach in whi-
ch meanings are constructed and sense is aributed to results, considering the involvement
of both researcher and parcipant (Guerra et al., 2024). Qualitave inquiry, in this context,
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explicitly acknowledges the implicaon of both the researcher and the researched (Denzin
& Lincoln, 2006). As highlighted by Yin (2016), qualitave research fundamentally seeks to
understand the meanings of individuals’ stories within their contextual sengs. This resear-
ch modality invests—through mulple analycal lenses—in expanding the understanding of
culturally situated phenomena and in engaging with the challenges of cultural praxis, which
describe and represent both individuals and cultures, while also fostering pathways for social
change (Kublikowski, 2021).
Participants
The interviews were conducted with two parcipants: a woman, Taana (pseudonym),
aged 58, heterosexual, cisgender, married, childless, pedagogue, psychology student, Gestalt
therapist, holding two postgraduate degrees in human development, born in the city of São
Paulo, and belonging to the urban populaon classied as socioeconomic class C according to
the Brazilian Instute of Geography and Stascs (IBGE); and a man, José (pseudonym), aged
74, heterosexual, cisgender, widowed, father of four children, engineer and administrator, re-
red, born in the interior of the state of São Paulo, in the central plateau region of São Paulo,
and belonging to the urban populaon classied as socioeconomic class B.
The inclusion criterion was having experienced parental violence and meeng at least
one criterion of intrafamilial violence.
Instruments
Semi-structured interviews were employed, which Kvale and Brinkmann (2009) consi-
der an intersubjecve tool—two individuals engaging in dialogue on shared themes—aimed
at obtaining informaon about the interviewee’s lived world, with a focus on the phenomenon
under invesgaon. This instrument enables a non-direcve dialogue that does not require
standardized quesons; however, it is guided by a framework of previously dened themac
axes.
Procedure
To achieve the research objecves, a Mulple Case Study design was adopted.
According to Yin (2014), this approach produces more robust analyses by allowing compa-
risons across dierent life trajectories. Semi-structured interviews structured the empirical
eld, providing the researcher with a reecve space regarding their own assumpons and
methodological choices—an aspect emphasized by Kublikowski (2018), who situates the Case
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Study as a strategy aligned with clinical pracce and the subjecve complexity of human phe-
nomena. As noted by D’Allonnes (2004), its strength lies in the ability to integrate materials
from mulple sources, composing layered readings of singular life histories that require mul-
-level analysis.
The interviews were conducted online, at which me the Informed Consent Form (ICF)
was read aloud, formally accepted, recorded, and subsequently transcribed.
Data analysis consisted of idenfying categories and aligning lived experience with the-
orecal corroboraon. According to Stake (2006), case analysis involves aribung meaning to
both inial impressions and nal understandings through two possible pathways: data coding—
which guided the construcon of categories—or direct interpretaon. It is the researchers
role to determine which strategy best aligns with their way of apprehending the phenomenon.
The nal narrave that emerges—always singular—is shaped by the invesgators perspecve,
who arculates themes, constructs categories and meanings, and connects the case under
study to broader human experiences.
Coding, understood by Kublikowski (2018) as a process of data transformaon in which
informaon is condensed, organized, and grouped unl paerns reveal analycal categories,
represents a movement from descripon to understanding, from the concrete to the abstract.
The analycal trajectory followed the ve phases proposed by Yin (2016): (1) compiling data
and forming an organized database; (2) decomposing data by fragmenng informaon for de-
tailed analysis; (3) recomposing data by rearranging and integrang elements into new con-
guraons; (4) interpreng data through the construcon of meanings, analycal arculaons,
and categories; and (5) concluding by synthesizing ndings and producing an integrated un-
derstanding of the cases.
Ethical Considerations
In accordance with Resoluon 466/2012, complemented by Resoluon 510/2016 of
the Brazilian Naonal Health Council, the condenality of parcipants’ idenes was ensu-
red. This research is duly registered under ethics approval number 7.932.952 and CAE number
78308223.4.0000.5482.
This study is classied as low risk and oers potenal benets to parcipants through
reecon, insights, and expanded self-awareness regarding their personal histories related to
the research topic. Its ndings may also benet populaons experiencing similar dicules,
as well as health professionals and related elds seeking to expand their knowledge on the
subject.
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Support, guidance, and emoonal containment were provided, given that the resear-
cher has clinical experience in managing PTSD and intrafamilial violence, along with referrals
for therapy and/or professional assistance in cases of discomfort.
ANALYSIS AND DISCUSSION
Analysis of the transcribed content of the two interviews led to the idencaon of six
categories of parental violence, including symptoms of Post-Traumac Stress Disorder (PTSD)
and impacts on identy construcon and self-image. The rst category concerns sexual violen-
ce perpetrated by Taana’s father.
We concur with Sanches et al. (2019) regarding the disncon between the terms abu-
se and sexual violence. The authors argue that the concept of abuse implies, to some extent,
that certain acts might be permissible, as if there were criteria for consent—an assumpon
incompable with the brutality of sexual violence at any stage of life, especially during chil-
dhood. Sexual violence constutes a social problem with profound impacts on life, physical
health, and psychological well-being, violang inmacy and sexuality and thus constung an
adverse experience and a form of complex trauma.
Clinical experience and empirical research demonstrate that individuals subjected to
sexual violence may develop mental disorders, substance abuse, compromised self-image,
mulple comorbidies, and PTSD (Chaves & Prado, 2024; Van der Kolk, 2020). Every child who
is a vicm of sexual violence occupies an asymmetrical and disadvantaged posion in relaon
to the adult, who exercises power ranging from physical stature and strength to the symbolic
and psychological posion of importance and belonging in the child’s relaonal world (Cunha,
2021).
In Taana’s case, she reports an inial relaonship of love and admiraon toward her
father. As Foucault (1987) emphasizes, violence of all kinds arises from power relaons; speci-
cally, an adult in relaon to a child occupies a posion of authority and relevance, given the
nature of the life development cycle.
In Brazil, intrafamilial child sexual violence has increased at an alarming rate. Between
2021 and 2024, data from the Brazilian Public Security Yearbooks reveal a troubling escalaon
in rape cases. In 2021, there were 66,020 reported cases, increasing to 74,930 in 2022—an
approximate rise of 13.5% (Brazilian Public Security Forum [FBSP], 2023, 2024). This upward
trend connued in 2023, reaching 83,988 cases—an increase of 12.1% compared to the pre-
vious year (United Naons Children’s Fund [UNICEF], 2023). The most recent increase, con-
rmed by the 19th Yearbook, indicates 87,545 cases in 2024—a 4.2% rise compared to 2023
(FBSP, 2025). According to the latest data, children constute the majority of vicms (87.7%),
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predominantly female. The research highlights that Black girls represent 55.6% of vicms.
Children under the age of 14, classied as vicms of “rape of a vulnerable person,account for
76.8% of cases, with most crimes (59.5%) commied by family members and occurring within
the home (69.1%). Perpetrators are predominantly men in caregiving roles, intensifying the
rupture of trust and safety. This distressing Brazilian reality is reected in Taana’s life history,
dang back several decades.
Taana’s account:
But then my father always wanted to favor me, always calling me over to cuddle. Thats when
the abuse happened. And its also a phase that I think children enjoy, right? And I liked it. But I
didn’t know I was being abused. Unl one day I was talking to my sisters … and I thought it was
just me. He tried it with all his daughters so my father always called me to stay with him in
bed, I went, I liked it. Many mes he came on me, not inside me, but on my bu, right? And I
felt that wet stu, but also, what was that? When my … he noced some movement from my
mother, he would quickly put me out and bye, bye. (Tesmony given to the author, 2025)
As the second category, we idened paternal physical violence. In Taana’s history of
violence, we observed a process of parental and intrafamilial aggression in terms of physical
violence. This violence was perpetrated by the father as a roune and as a rule in the way he
educated and corrected his children. We therefore queson whether physical violence, when
used habitually as a correcve pracce, may lead to the normalizaon of violence among fa-
mily members.
According to studies by Araújo et al. (2023), there is a clear associaon between vio-
lent educaonal pracces and increased risk of mental disorders. These studies demonstrate
that hoslity and punishment as child-rearing strategies generate emoonal instability and
psychological distress in those subjected to them. Conversely, children raised through posive
educaonal pracces exhibit fewer impairments to mental health.
Taana’s account: “My father used to beat us violently with a belt, and we were all le
bruised he beat us very violently. All ve of us were beaten at the same me. So everyone
waited for their turn to be beaten. I was the h” (Tesmony given to the author, 2025).
José’s account:
Well, I was the one who did things wrong He was a school principal in a small town. Well,
you got beaten because you did something wrong? Thats how it was handled. You really
couldn’t do anything wrong. I mean, it’s not that you were beaten every day, but when you did
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something really bad, you know? Because what was normal—which today they don’t think is
normal—for us was normal, okay? (Tesmony given to the author, 2025)
José on when he hit one of his sons: Yeah? I hit him with my hand, right? That last one
there, one day he got drunk, really drunk, and I had to drop what I was doing in another city to
come here (he assaulted his son)” (Tesmony given to the author, 2025).
In José’s life history, we can further highlight the normalizaon of violence, alongside
its use as a means of educaon and correcon of behaviors deemed unacceptable by the fami-
ly. We observe a violent educaonal pracce learned transgeneraonally, consistent with the
ndings of Santos and Moré (2011), and applied in a normave and standardized manner in
this fathers life, who himself was also a child subjected to aggression as a form of educaon.
Currently, Brazilian legislaon includes a supplement to the Statute of the Child and
the Adolescent (ECA): Law No. 13,010 of June 26, 2014 (Brazil, 2014), known as the “Spanking
Law,” which establishes that:
Art. 18-A. Children and adolescents have the right to be educated and cared for without the use of phy-
sical punishment or cruel or degrading treatment as forms of correcon, discipline, educaon, or under
any other pretext, by parents, members of the extended family, guardians, public agents responsible for
implemenng socio-educaonal measures, or any person responsible for caring for, treang, educang,
or protecng them. (Brazil, 2014)
We know that, under current legislaon, both Taana’s parents and José’s parents
would be subject to the penales set forth in the aforemenoned law:
Art. 18-B. Parents, members of the extended family, guardians, public agents responsible for implemen-
ng socio-educaonal measures, or any person responsible for caring for, treang, educang, or protec-
ng children and adolescents who use physical punishment or cruel or degrading treatment as forms of
correcon, discipline, educaon, or under any other pretext shall be subject, without prejudice to other
applicable sancons, to the following measures, applied according to the severity of the case:
I – referral to an ocial or community-based family protecon program;
II – referral to psychological or psychiatric treatment;
III – referral to guidance courses or programs;
IV – obligaon to refer the child to specialized treatment;
V – warning. (Brazil, 2014)
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Normalizaon and denial of the consequences of violence constute the third cate-
gory. José normalizes educaon through violence and denies its possible eects on his own
life and on the lives of his children. Within the family—our rst experience with the external
world—we encounter our inial social laboratory, where we absorb paerns, culture, beliefs,
and habits that prepare us for life in society (Erikson, 1976; Carter & McGoldrick, 1995). This
family microsociety serves as the foundaon for interacon with the macrosociety, extending
beyond the domesc environment to broader social coexistence, and socially represenng
safety and protecon—though not in the cases examined in this study (Cardoso et al., 2020).
Could this early experience, as a developmental marker of who we become, lead in-
dividuals to normalize everything that occurs within the family system, including aggression,
neglect, lack of aecon, and abuse—whether psychological, physical, or sexual? Could the
social belief rooted in Western Chrisanity, which promotes parental sacralizaon through the
model of the sacred family, contribute to the noon that anything is permissible within the
family sphere?
Santos (2011) emphasizes that, throughout the child-rearing process, parents relive—
through a more experienced perspecve, or at least potenally so—their own past experien-
ces as children and their dicules in that role. This process could oer parents an opportuni-
ty to reframe their concepts and values regarding educaon.
We therefore ask: could the denial of violence be a psychic strategy of self-protecon
and self-preservaon?
José’s account:
Being beaten? You just stayed quiet, right? No, it didn’t aect my life at all. For me, it was
normal. No, I didn’t have any trauma, and I don’t have any to this day; for me, this subject has
nothing to do with that … yeah, if I did something wrong, I got beaten for me, everything was
ne. Yeah, it was fair. I think my siblings didn’t either, because theyre all educated, working …
he would grab you by the hand and give you some good belt lashes. (Tesmony given to the
author, 2025)
In the fourth category, we idened parental educaon through violence. Family edu-
caonal pracces are grounded in cultural and transgeneraonal values. These family moral
values are internalized and oen reproduced as repeons of paerns not cognively repro-
cessed—or, in some cases, as construcve outcomes of an analysis of the emoonal history
experienced by those who were once children and later became parents—thus enabling what
Santos and Moré (2011) dene as the transgeneraonal transmission of violence.
In Taana’s accounts, we can idenfy that her mother entrusted the children to the
husband for educaon and correcon, which he carried out through weekly domesc violence.
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In José’s case, as the son of an educaonal leader—a school principal—who employed
violent methods to educate his children, we observe the belief that aggression is a means of
correcng and adjusng children’s behavior, clearly illustrang the transgeneraonal nature of
violence (Santos & Moré, 2011). José extended this violence-based educaonal pracce to his
four male children. His accounts indicate that the son who was beaten the least felt unrecog-
nized by his parents. Below are excerpts from the interviews with both parcipants.
Taana’s account about her mother:
And when my father arrived, she handed us over to him as if he were going to be that loving
human being. No. My father beat us violently with a belt, and we were all le bruised, aer
she witnessed that scene. My mother always exposed us. Later she would come and tend to
us, right? Take care of the wounds, and she kept saying, “See? You should have done this. You
didn’t do that. (Tesmony given to the author, 2025)
José’s account:
And everyone was afraid; nobody did anything wrong. Well, you got beaten because you did
something wrong. Thats how it was treated. Dialogue with the youngest son: ‘You’re trauma-
zed because you weren’t beaten, because I didn’t pay aenon to you.He said: You don’t care
about me; you don’t beat me like you beat my brothers. (Tesmony given to the author, 2025)
Post-Traumac Stress Disorder (PTSD) Resulng from Childhood Developmental
Trauma constutes the h category. We concur with the studies and authors that underpin
this research regarding the eects imprinted on both the physical body and the psyche of each
of our parcipants, who were raised within the framework of a violent form of educaon that
violates the dignity of human individuality (Araújo et al., 2023).
Both in our studies and research and in clinical pracce through aenve listening
and observaon, we can idenfy how individuals who experienced dierent forms of violence
present physical and psychological symptoms, such as low self-esteem, lack of self-conden-
ce, unawareness of their own capacies and potenals, disbelief and hopelessness in rela-
onships, as well as dicules related to a sense of belonging and self-agency. These factors
directly aect the construcon of a healthy identy and a posive self-image (Li & Liang, 2023;
Hyland et al., 2023).
In Taana’s accounts, we observe her struggles with insomnia, thoughts she herself
considers negave, impulsivity, mood uctuaons, dicules in her sexual relaonship with
her partner, as well as the suering experienced when revising her life history.
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In José’s case, there is denial regarding violence as harmful to individual develop-
ment—although, toward the end of his account, he acknowledges his sudden outbursts within
the marital relaonship, his remorse concerning his family demands and interacons, and,
nally, admits the connecon between his fathers violence and what he describes as his own
“harsh way of being.
Decades of studies conducted by Van der Kolk (2020) challenge the posion of the
American Psychiatric Associaon (APA, 2014) regarding the “lack of knowledge about the pa-
thophysiology of trauma.This author, along with other researchers such as Maté and Maté
(2023) and Levine and Frederick (2022), argues that trauma alters what Van der Kolk (2020)
refers to as the emoonal brain, where the limbic and replian systems are located.
During traumac experiences, the brain secretes high levels of corsol. This process
funcons—by analogy—as a kind of taoo on the emoonal brain, which overrides the ra-
onal brain. As a result, the individual remains in a constant state of anxiety and alertness
when exposed to triggering situaons or adverse contexts, potenally displaying three die-
rent types of responses: ght, ight, or freeze. This process acvates the vagus nerve (Porges,
2023), which becomes a pathway for emoonal processing—the biology of trauma—and ge-
nerally does not assist the traumazed individual in processing life through a more raonal
route with fewer impulsive and distressing emoons.
If we consider the categorizaon of PTSD symptoms according to the APA (2014), we
nd the following clusters: intrusion, avoidance, negave alteraons in cognion and mood,
and changes in arousal and reacvity. Frequent nightmares and unwanted memories that re-
produce the triggering event are common. Some individuals relive the traumac experience as
vivid recollecons, reacng as if the event were occurring again.
Taana’s account:
Some insomnia. Bad thoughts. Today, totally … totally (regarding mood changes). Even though
I know I can cope and that I’m not alone. I’m very aware of that within myself, yes. But its not
possible to sustain it all the me. So it leans more toward impulsive acons, but not so impul-
sive as to lead to physical confrontaon; I just won’t let things slide. So I’ve taken more than
one impulsive acon, more iniave than avoidance. I used to avoid a lot because that poem
… that poem by a Brazilian author whose name I’ve forgoen guided me for a long me: ‘stay
quiet, don’t say anything. Move on, you’ve already lost so much.
There was a moment when my ame turned into a matchsck. And I think that was when I
became very, very sad about my story. No, I no longer have sexual relaons with another per-
son. But I have a sexual relaonship with myself. No one else touches me—not that I forbid C.
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from touching me … we no longer sleep together either, which for me is also very violent, you
see? I remain within violence, right? And I soothe myself, I caress myself, don’t I? Thats my
relaonship with myself. But a lile memory always comes back. Today, I’m aware that I didn’t
lose my sexuality despite so many aggressions (Tesmony given to the author, 2025).
José’s account:
Things I did wrong that today, when I think about them, I shouldn’t have done. I could have
acted dierently, right? And I say to myself, well, its already done. I was very upset that my
wife passed away from cancer in 2021 … I feel very resenul because she wanted me to change
some things. I couldn’t change. She became resenul—very resenul—of my way of being, but
then, what do you call it? Explosions, right? I got angry and all that. Not to hit— I never laid a
hand on L.—but I was macho, tough, tough, right? Everything was harsh. Make a small mistake
and I’d throw a tantrum, you know? … She complained about my harsher behavior. These thin-
gs happened—my explosive behavior. I don’t see myself as having any trauma; for me, things
were ne. The only thing I regret is that I could have visited my mother more when I didn’t.
About my parents’ violence: yes, for sure. It may have shaped me—made me more irritable,
tougher, I don’t know—but in the beginning it wasn’t like that.
Parental Violence and Its Impact on Identy is the sixth and nal category. The rela-
onship between parental violence and its impact on the identy of abused children cons-
tutes one of the central quesons of this study. To what extent can a childhood marked by
aggression, neglect, and abuse in its various forms—along with lack of aecon and the non-
-recognion of a child’s individuality and freedom from early childhood—aect the develop-
ment and/or recognion (in José’s case) of identy in adulthood? (Hyland et al., 2023; Levine
& Frederick, 2022; Li & Liang, 2023; Maté & Maté, 2023; Van der Kolk, 2020).
In Taana’s case, we observe her developmental journey through therapeuc proces-
ses involving ayahuasca as a resource for self-analysis. On one hand, she recognizes how much
she carries an image of herself as someone who is violent in communicaon and behavior; on
the other, she nds within herself a space of self-love and care. Taana presents episodes of
resilience and strength, leadership posions in her professional career, and a constant pursuit
of independence as a way to free herself from the judgment imposed by family violence. Her
adult experiences of overcoming adversity and engaging with memory have shaped who she
has become in a more exible manner.
Identy in postmodernity has become uid, mutable, exible, decentered, and frag-
mented, as described by Hall (2019). In this regard, greater uidity and transformaon can be
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observed in Taana than in José. Here, we see Taana rethinking her previously violent way of
being in the world, whereas José maintains a self-image of a “harsh,explosive, and deman-
ding individual—characteriscs presented in a xed manner, with limited room for reecon
or transformaon.
Morin (2012, p. 82) discusses our polymorphic identy: “each individual is one, singu-
lar, irreducible. Yet, at the same me, double, plural, countless, and diverse. Thus, we encoun-
ter the problem of mulple unity.” It is therefore relevant to consider Taana as a subject who
embodies the characteriscs of being both one and mulple, marked by uidity, exibility,
and the type of identy discussed in this study from a postmodern perspecve (Hall, 2019;
Goman, 2014). In her accounts, she idenes a role she considers violent during a certain
phase of her biographical cycle and, in contrast, currently presents a self-image of a loving and
caring person in her professional role as a therapist—someone available for acon, with ener-
gy and courage to move forward, and in an evident pursuit of overcoming her traumas, which
are inscribed in memory, body, and mind.
Taana’s account:
I think that aer twenty-one or twenty-two, unl around thirty or thirty-ve, I was a very harsh
person with others, you know? And harsh—very harsh—with myself. It was anxiety, I think it
was an immense desire to have independence and say, ‘I’m out of here’ I wanted to leave
home to stop being assaulted. But I didn’t stop assaulng others. Right? I stayed in that cycle
for many years—of having been assaulted and of assaulng, of speaking harshly to people, of
not being a person who could negoate; it had to be my way. So, I was a dictator. I was a bull-
dozer. I always had this opposional presence mixed with a bit of authority. When I arrived, it
was Taana has arrived,because, on top of everything, I scared people. Back then, I didn’t
have that awareness of, ‘Wow, who am I? What a violent being I am.
I aribute that strength to independence. I couldn’t depend on anyone. My word was produc-
vity. So, I was always very proacve, very much so. Today, I’m a person with acve, empathec
listening. I’m very loving, very caring. I’m very polite. I’m someone who gets things done. Today,
I know how to say no—and I say no very calmly—and I work all the me with nonviolent com-
municaon. Marshall is in my mind (referring to nonviolent communicaon). I’m sll a violent
person. I’m very sorry about that. We’re not made of iron; we’re human beings, especially
human beings marked by so much pain, so much lack, so much violence. But today, I’m a very
dierent person from who I was many years ago. And a survivor for the good! In the name of
love—because if I’m not here now in the name of love, then I am in the name of love.
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I’m very grateful for my anger. I had anger; it was my driver of movement. I’m a very strategic
person. I was very black-and-white, yes. Very rigid, very harsh with myself and with others. Later,
I soened with others, but I remained harsh with myself—unexible with myself. (Tesmony
given to the author, 2025)
José’s account:
Yes, I was always a dicult father, right? Angry, coming from that system … because she wanted
me to change some things. I couldn’t change. She (my late wife) became resenul—very resen-
ul—of my way of being more, what do you call it, explosive. Regarding my parents’ violence:
yes, for sure. It may have shaped me, for example, making me angrier, tougher, I don’t know—
but in the beginning, it wasn’t like that. (Tesmony given to the author, 2025)
FINAL CONSIDERATIONS
As researchers, we understand that we follow a calling—one that urges us to look not
only inward, within our clinical pracces, but also outward, through research. In doing so,
we carried out the methodological pathway and, through it, fullled our mission in this stu-
dy by conrming that parental violence during childhood and adolescence impacts identy
construcon, generates trauma, and has clear implicaons for adult life.
Regarding physical violence, we observed and established that both physical aggres-
sion and sexual violence leave profound marks on the biography of aected individuals,
accumulang in their histories as memories and recollecons, and shaping how violence
inuences their ways of being, thinking, and acng in adulthood.
This research revealed two clearly contrasng polaries among the parcipants. On
one hand, Taana demonstrates understanding, meaning-making, and management of her
history, which she has worked—and connues to work—to reframe in a resilient manner, al-
beit with marks that we consider traumac in our analyses. We argue that trauma does not
displace” the individual marked by it; rather, it can be managed and reprocessed so that the
resonances of encounters with traumac repeons become tools for resilience, enabling
the ongoing construcon of purpose and meaning in life—despite the immanent persisten-
ce of its signs. Each individual manages trauma according to their own coping resources.
On the other hand, we nd José, marked by internalized paerns of violence that
operate in his worldview, his educaonal pracces, his communicaon style, and his self-
-image. In José’s case, we observe the denial of parental violence received and transge-
neraonally reproduced, with lile quesoning or reecon about what it meant to be an
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individual subjected to violence—although, in brief moments, he acknowledges that his epi-
sodes of “loss of temper” in relaonships may stem from his experience of being beaten by
his father.
These voices corroborate our clinical experiences and align with the ndings of rese-
archers dedicated to understanding childhood developmental trauma, which culminates in
post-traumac stress disorder across the course of these biographies.
In light of these results, we conclude that parental aggressiveness profoundly im-
pacts individuals’ lives, leaving persistent marks permeated by the scars of intrafamilial vio-
lence. We recognize that a long path sll lies ahead, as both science and clinical pracce are
in need of deeper understanding to develop mulple ways of caring for individuals whose
lives have been so deeply wounded by intrafamilial violence.
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Processing and eding: Editora Ibero-Americana de Educação
Proofreading, formang, standardizaon and translaon
CRediT Author Statement
Acknowledgements: Poncal Catholic University of São Paulo (PUC-SP); COGEAE
Lato Sensu Specializaon Program, PUC-SP; Prof. Dr. João Laurenno dos Santos; and
Prof. Dr. Claudia Bruscagin, who made it possible for this academic research to be con-
ducted as a pre-project for the Ph.D. program within a Lato Sensu course.
Funding: Self-funded.
Conicts of interest: None.
Ethical approval: Opinion number 7,932,952. Status: Approved. CONEP review requi-
red: No.
Data and material availability: Available with Luciana Ferreira, PhD candidate, PUC-SP.
Authors’ contribuons: Prof. Dr. João Laurenno dos Santos contributed through pro-
ject supervision and textual input.