image/svg+xmlOs capitais detidos por ministros e ministras dos governos Cardoso e Lula: Mapeando a distinçãoRev. Sem Aspas,Araraquara, v.11, n.esp.1, e022018,2022. e-ISSN2358-4238DOI:https://doi.org/10.29373/sas.v11iesp.1.176271OS CAPITAIS DETIDOS POR MINISTROS E MINISTRAS DOS GOVERNOS CARDOSO E LULA: MAPEANDO A DISTINÇÃO1CAPITALES EN MANOS DE MINISTROS Y MINISTROS DE LOS GOBIERNOS DE CARDOSO Y LULA: MAPEANDO LA DISTINCIÓNCAPITALS HELD BY MINISTERS OF CARDOSO AND LULA GOVERNMENTS: MAPPING THE DISTINCTIONMaria Chaves JARDIM2Márcio Rogério da SILVA3RESUMO:O retorno de Lula como presidente da república, nas eleições de outubro de 2022, revitaliza um tema que nunca esteve fora de moda nas ciências sociais, o estudo dos governos Lula, especialmente em comparação com os governos Cardoso. O artigo busca objetivar os principais capitais detidos pelos ministros e ministras do Estado dos períodos Cardoso e Lula, especificando a posição ocupada no espaço socia e a distinção. O estudo dos capitais detidos por estes pode somar esforços aos estudos que buscam entender esse período da história contemporânea. De forma geral, foi possível concluir que os ministros do governo Cardoso, do ponto de vista da posição, têmcapitais culturais, econômicos e simbólicos mais elevados sob a ótica do mainstreameconômico, configurandoum habitusde elite, ao passo que o os ministros Lula possuem menor capital econômico, cultural e simbólico, constituindo um habitusmais popular. Para tanto, realizamos estudo de trajetória desses ministros e em seguida, aplicamos a ACM. Os dados foram analisados a partir da sociologia relacional e praxiológica de Pierre Bourdieu.PALAVRAS-CHAVE:Governo Cardoso e governo Lula.Ministros.Distinção.Capitais.ACM. RESUMEN: El regreso de Lula como presidente de la república, en las elecciones de octubre de 2022, revitaliza un tema que nunca ha pasado de moda en las ciencias sociales, el estudio de los gobiernos de Lula, especialmente en comparación con los gobiernos de Cardoso. El artículo busca apuntar a las principales capitales ocupadas por losministros y ministros del Estado de los períodos Cardoso y Lula, precisando la posición ocupada en el espacio social y la distinción. El estudio de los capiteles que poseen estos puede sumar esfuerzos a los estudios que buscan comprender este período de la historia contemporánea. En general, se pudo concluir que los ministros del gobierno de Cardoso, desde el punto de vista de la posición, tienen capitales culturales, económicos y simbólicos superiores desde la perspectiva de la 1Esse artigo foi escrito a partir de pesquisas financiadas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Processo nº 2014/11804-6 e CNPQ. Agradecemos o apoio e suporte indispensável às nossasatividades científicas.2Universidade Estadual Paulista (UNESP), Araraquara SPBrasil. Professora Livre Docente do Departamento de Ciências Sociais. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5715-1430. E-mail: majardim@fclar.unesp.br3Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Lagoa do Sino SPBrasil.ORCID:https://orcid.org/0000-0002-8176-1551. E-mail:marciosilva@ufscar.br
image/svg+xmlMaria Chaves JARDIM e Márcio Rogério da SILVARev. Sem Aspas,Araraquara, v.11, n.esp. 1, e022018,2022. e-ISSN2358-4238DOI:https://doi.org/10.29373/sas.v11iesp.1.176272corriente económica dominante, configurando un habitus de élite, mientras que los ministros de Lula tienen menos capital económico, cultural y simbólico, constituyendo un habitus más popular. Para ello, realizamos un estudio de la trayectoria de estos ministros y luego aplicamos la ACM. Los datos fueron analizados a partir de la sociología relacional y praxiológica de Pierre Bourdieu. PALABRASCLAVE: Gobierno Cardoso y gobierno Lula.Ministros.Distinción.Capital.ACM.ABSTRACT: Lula's return as president of the republic, in the October 2022 elections, revitalizes a theme that has never been out of fashion in the social sciences, the study of the Lula governments, especially in comparison with the Cardoso governments. The article seeks to aim at the main capitals held by the ministers of the State of the Cardoso and Lula periods, specifying the position occupied in the social space and the distinction. The study of the capitals held by these can add efforts to studies that seek to understand this period of contemporary history. In general, it was possible to conclude that the ministers of the Cardoso government, from the point of view of position, have higher cultural, economic and symbolic capitals from the perspective of the economic mainstream, configuring an elite habitus, while the Lula ministers have less economic, cultural and symbolic capital, constituting a more popular habitus. Towards this objective, we conducted a study of the trajectory of these ministers and then applied the ACM. The data were analyzed from the relational and praxiological sociology of Pierre Bourdieu.KEYWORDS: Cardoso government and Lula government. Ministers. Distinction. Capital. ACM.Introdução O retorno de Lula como presidente da república,nas eleições de outubro de 2022, revitaliza um tema que nunca esteve fora de moda nas ciências sociais, o estudo dos mandatos presidenciáveis de Lula, especialmente em comparação com os governos Cardoso. O interesse por esses dois períodos é tão grande, que já existe uma tradição de estudos sobre os mesmos, muitas vezes comparando esses dois momentos da história democrática do Brasil. Nosso artigo se interessa por estudar esses dois governos, por meio da comparação dos capitais detidos pelos seus respectivos ministros. Importante dizer que no âmbito da sociologia são raras as iniciativas em estudos sobre ministros, tema que tem interessado, sobremaneira, à ciência política, especialmente pesquisas sobre o processo de seleção e sobre as trajetórias políticas e sociais de ministros. Segundo Codato e Franz (2017), esses estudos procuram levantar o perfil da elite ministerial de seus respectivos países, considerando variáveis padrões, tais como, idade, sexo, herança familiar,
image/svg+xmlOs capitais detidos por ministros e ministras dos governos Cardoso e Lula: Mapeando a distinçãoRev. Sem Aspas,Araraquara, v.11, n.esp.1, e022018,2022. e-ISSN2358-4238DOI:https://doi.org/10.29373/sas.v11iesp.1.176273formação escolar, trajetória profissional, orientação ideológica do partido, experiência em cargos legislativos e ocupação de posições no alto escalão do Estado ou em firmas privadas.Codato e Franz (2017) acrescentam que no presidencialismo brasileiro, os ministros cumprem uma dupla função: assegurar que a formulação e a implementação de políticas públicas estejam de acordo com as diretrizes do presidente da República e do programa do seu partido; e garantir, através de transações políticas, o apoio partidário para que esses projetos tenham sustentação e chances de aprovação pelo Congresso Nacional. Nesse sentido, a seleção de ministros e a formação de gabinetes teria um papel estratégico político e para a boa condução do governo do presidente da República.Os mesmos autores afirmam que as pesquisas sobre gabinetes do regime semipresidencialista francês, têm observado a ocupação de ministérios por indivíduos cada vez mais acostumados com as lógicas do campo político. François e Grossman (2012) têm percebido a presença de novos tipos profissionais, com a diminuição no número de tecnocratas, expertse ministros não partidários e o consequente incremento de quadros políticos com treinamento e carreiras cumpridas em entidades de representação, seja em cargos eletivos, seja na burocracia dos partidos políticos e mesmo em movimentos sociais (FRANÇOIS; GROSSMAN, 2012).No Brasil, D’Araújo (2009) fez uma radiografia do Executivo após a redemocratização e identificou que os “ministros são pessoas experientes na vida política, com forte enraizamento em atividades parlamentares e executivas em todos os níveis de governo” (D’ARAUJO, 2009, p.25). De acordo com Costa e Codato (2013), isso seria um indicativo da existência de expertisepolítica e administrativa como condição básica para nomeação ao ministério. Apesar de serem postos de nomeação e não posições eletivas, ministérios também podem ser um espaço de profissionalização política, a exemplo das casas legislativas. Codato e Franz (2017) defendem que no caso do Brasil, isso decorre da importância do critério partidário no recrutamento ministerial. No presidencialismo multipartidário, o partido do presidente da República dificilmente consegue ser o partido majoritário no Congresso Nacional, forçando o chefe do governo a fazer alianças comoutras legendas para conseguir apoio político e aprovar seus projetos de lei, emendas legislativas e medidas provisórias. Para garantir essa sustentação, o presidente precisa atrair os demais partidos, que não o seu, para o governo, alocando-os nos ministérios ou nas burocracias a eles subordinadas. Essa barganha entre cargos políticos de alto escalão e apoio parlamentar nas duas Casas do Congresso Nacional Brasileiro, impacta significativamente na composição dos ministérios
image/svg+xmlMaria Chaves JARDIM e Márcio Rogério da SILVARev. Sem Aspas,Araraquara, v.11, n.esp. 1, e022018,2022. e-ISSN2358-4238DOI:https://doi.org/10.29373/sas.v11iesp.1.176274(ABRANCHES, 1988) e revela as estratégias perseguidas pelo recrutamento ministerial no Brasil. Em nossa agenda de pesquisa, o tema dos ministros tem ganhado destaque. Em Jardim e Rosa (2021) foi feito um estudo da biografia de 151 ministros que atuaram entre 1994 e 2010 nas pastas titulares. Após apresentar uma cartografia do perfil de todos os ministros, por meio de diversasvariáveis, o artigo deu destaqueparatrês delas: ocupação dos pais e avós dos ministros, universidade pelas quais passaram e a circulação internacionaldesses. Os resultados indicam existir homologia entre as trajetórias individuais dos ministros e as crenças econômicas vigentes do período, expressa, sobretudo, a partir de crenças neoliberais ou desenvolvimentistas, divulgadas nas universidades pelas quais passaram, em formato de teoria econômica; em Jardim e Moura (2022) foram comparadasas tomadas de posição de ministros ligados à área econômica dos governos Lula da Silva e Dilma Rousseff, por meio de suas orientações econômicas. O fio condutor do artigo foi entender as tomadas de decisão econômicas dos governos petistas, por meio do estudo da biografia dos ministros ligados à economia do período estudado, partindo do princípio de que decisões econômicas e políticas estão enraizadas em elementos socioculturais, a saber, a visão de mundo dos ministros tomadores de decisões, cuja visão de mundo seria fabricada socialmente.Silva (2017) e Silva e Grün (2019) mostram como os diretores dos Bancos Centrais, nomeados no âmbito do presidencialismo de coalizão, apresentam posições e tomadas de posição a partir de uma perspectiva mais monetarista (governo Cardoso) ou mais neokeynesiana, mas ampliam o olhar para a economia das narrativas dos economistas chefe de instituições financeiras, que, em vários momentos, através de uma pressão performativa, conseguem criar ou ainda, performar nos diretorestomadas de posição divergentes das expectativas acerca de suas posições e disposições.Dando sequência a essa agenda de estudo já iniciadapor nós, sobre ministros, oartigo que ora apresentamos busca objetivar quais capitais detinham os ministros e ministras do Estado dos períodos Cardoso e Lula, especificando as distinções entre eles.Para tanto, realizamos estudo de trajetória desses ministros e em seguida, aplicamosa ACM.Acreditamos que o estudo dos seus capitais e da distinção pode nos ajudar a localizar suas posições no espaço social e o perfil desses ministros. Ainda que não seja nosso objetivo central, isso poderá, em alguma medida, nos ajudar a entender o perfil dos projetos nos quais estiveram engajados.O artigo está dividido da seguinte forma: além destaintrodução e da conclusão, no próximo item discutimoso referencial teórico que inspira essa pesquisa, baseado nasociologia relacional e praxiológica de Pierre Bourdieu; em seguida apresentaremos uma breve síntese
image/svg+xmlOs capitais detidos por ministros e ministras dos governos Cardoso e Lula: Mapeando a distinçãoRev. Sem Aspas,Araraquara, v.11, n.esp.1, e022018,2022. e-ISSN2358-4238DOI:https://doi.org/10.29373/sas.v11iesp.1.176275sobre os governos Cardoso e Lula, buscando destacar o perfil dos projetos existentes emcada governo (se mais neoliberal ou mais intervencionista); finalmente,apresentamos e analisamos nossos dados de pesquisa. A Distinção enraizada em elementos sociais: a posse de capitais e a definição do habitusPara Bourdieu, o estudo de trajetória, em diálogo com a ACM, nos ajuda a mapear os capitais detidos por um agente social.Para o autor as trajetórias seriam o resultado construídodeum sistema dos traços pertinentesdeumabiografiaindividualoudeumgrupo de biografias(BOURDIEU, 1998); ou seja, umatrajetóriaé a objetivação das relaçõesentreos agentes e as forças presentes no campo; um conjunto de relações pode provocar distinção e fronteiras simbólicas no grupo estudado.Em Bourdieu (1998), não existe análise de ACM sem um estudo sistematizado das trajetórias.Por sua vez, a Análise de Correspondência Múltipla (ACM) é parte de uma técnica mais ampla chamada Análise Geométrica de Dados (AGD), abordagem estatística elaborada pelo matemático francês Jean Paul Benzécri nos anos 1970, com o qual Bourdieu trabalhou. Esses trabalhados foram importantes para contrabalançar os modelos confirmatórios da estatística (GREENACRE; BLASIUS, 2006).Segundo Le Roux e Rouanet (2010), a análise descritiva precede a modelagem probabilística, não dependendo do tamanho dos dados. Complementar a essa ideia, para Bertoncelo (2022, p.17) “a causalidade socialconsiste nos efeitos globais de uma estrutura complexa de inter-relações, que não se reduz à combinação dos múltiplos efeitos”.Concretamente, a ACM é uma representação espacial no plano cartesiano de variáveis de grande variância e indivíduos em posição relacional entre essas variáveis e entre eles, de maneira que isso permite uma redução de dimensionalidade de dados, em que a distância entre indivíduos representa distâncias normalizadas de propriedade social, sendo, nesse sentido, de cunho exploratória (BERTONCELO, 2022).Assim sendo, a ACMé preditiva, pois uma vez que foi reconstruída a estrutura de finalidades e contrastes, os indivíduos podem ser projetados nesse espaço de dispersão (HUSSON; JOSSE, 2014).Por fim, Bertoncelo(2022) afirma que a ACM tem bons resultados quando produzimos diferenciações qualitativas, em que as categorias não podem ser ordenadas de maneira direta. Isso quer dizer que no nosso caso, por exemplo, o número e a complexidade das variáveis que compõe os capitais dos ministros dirigentes não podem ser hierarquizadas entre variáveis
image/svg+xmlMaria Chaves JARDIM e Márcio Rogério da SILVARev. Sem Aspas,Araraquara, v.11, n.esp. 1, e022018,2022. e-ISSN2358-4238DOI:https://doi.org/10.29373/sas.v11iesp.1.176276dependentes e independentes de maneira clara, dado seu volume e complexidade.Com base nesses pressupostos, Bourdieu pôde, em seus estudos, reconstruir o espaço das posições sociais (BOURDIEU, 2008), objetivando capitais e distinções.No que se refere ao conceito de capitais em Bourdieu (1996; 2006), primeiramente é necessário dizer que capital, é, em Bourdieu, um “recurso” que pode ser possuído e transmitido por um indivíduo,um casal, um estabelecimento, uma comunidade, ou mesmo um país. Para o autor, existem quatro tipos de capitais: econômico, cultural, social e simbólico, sendo que o capital de origem estaria ligado à família e o capital de chegada teria a ver com a reconversão no espaço social.O capital econômicocorresponde à noçãode patrimônio e é avaliado em termos monetários.Dinheiro na perspectiva de Pierre Bourdieu, é simbólico. Capital econômico em Bourdieu, pode ser convertido em capital simbólico, social e cultural.O capital socialé o conjunto de relações pessoais possuído por um agente, família e empresa, constituindo uma rede de relacionamento. O capital culturalfoi acionado por Bourdieu para explicar as desigualdades sociais em matéria educativa e cultural. Trata-se de um conjunto multidimensional de competências (por exemplo, o domínio da língua e do cálculo), e de disposições (certa sensibilidade para o mundo), que constitui a versão incorporada do capital cultural. Existem três estados incorporado do capital cultural em Bourdieu: 1)Hexis corporal; 2)Institucionalizado (por meio de diplomas, obras de arte etc.) e;3) Objetivado: obra de arte, pintura, música etc. O capital cultural seria o responsável por formar o gosto, que por sua vez, promove distinção e revela dominação.O quarto e último capital, o capital simbólicoé definido pelo “olhar” depositado (o valor dado) pela sociedade a um agente social, família, empresa. Há, portanto, uma dimensão relacional e coletiva, já que o capital simbólico significa reconhecimento e prestígio. Em Bourdieu (1996) os capitais existem de forma relacional, uma vez que um pode reforçar o outro.Segundo o método de Bourdieu, para mensurar a origem social de um agente e,portanto, seu capital de origem, é fundamental objetivar a profissão dos pais, sobretudo do pai, visto que no texto As contradições da herança, do livro A miséria do mundo (1993), Bourdieu mostra o papel da família na transmissão da herança cultural, com destaque para o pai, que segundo o autor, seria o maior responsável por transmitir a herança ao herdeiro.A mesma argumentação aparece em Bourdieue Passeron (2014, p.28) para quem: “(...), a origem social é, de todos os determinantes, o único que estende sua influência a todos os domínios e a todos os níveis da experiência dos estudantes e primeiramente as condições de existência”.Assim, a escola transforma-se no agente único e total da transmissão das posições
image/svg+xmlOs capitais detidos por ministros e ministras dos governos Cardoso e Lula: Mapeando a distinçãoRev. Sem Aspas,Araraquara, v.11, n.esp.1, e022018,2022. e-ISSN2358-4238DOI:https://doi.org/10.29373/sas.v11iesp.1.176277sociais. A ideia de que a origem social, bem como os marcadores de legitimidade (capitais simbólicos, processos de socialização) é natural, perde relevância diante das teses de Bourdieu (1996; 2006), que mostra o trabalho “mágico” da escola, reproduzindo e valorizando a cultura formada na classe dominante. Como demonstra Bourdieu (2006), a familiaridade com a cultura legítima a cultura legitimada, dominante traz ganhos na vida escolar, no campo universitário e no mercado de trabalho, favorecendo aqueles que em tenra infância tiveram acesso a essa cultura legítima, “como uma experiênciadireta”, um “simples deleite”, a princípio, “fora das disciplinas escolares”, marcadas como “pedantes”. Assim, “a aquisição da cultura legítima pela familiarização insensível no âmago da família tende a favorecer uma experiência encantada da cultura, que implica o esquecimento da aquisição e a ignorância dos instrumentos de apropriação” (BOURDIEU, 2006, p.10).Outro quesito importante na sociologia de Bourdieu, diz respeito à educação formal recebida pelos agentes sociais. A trajetória educacional dos indivíduos, formação básica, superior e as instituições nas quais estudaram, são constitutivas embora não exclusivamente daquilo que Bourdieu intitulou capital cultural legítimo. Em Bourdieu (2014) existiria uma correlação entre a classe de origem e os anos de estudos, que é refletida em aspectos como idade que iniciou os estudos, sexo e a questão geográfica. Para o caso da França, Bourdieu informa que os herdeiros legítimos ingressam em cursos prestigiados das melhores universidades francesas, enquanto os filhos das classes populares -quando ingressam no ensino superior -acabam frequentando cursos sem muito prestígio. Para o autor, as aspirações escolares desdobram-se em objetividades referentes à realidade de cada agente social, ou seja, as escolhas são delimitadas em função das trajetórias Sobre o argumento acima, Bourdieu defende no livro La Noblesse d´Etat: Grandes écoles et esprit de corps (1989),que nos cursos superiores de elite, existe uma ação de “consagração” e um rito que produz um grupo separado e sagrado, que se dá de forma mascarada, produzindo e reproduzindo a nobreza. Portanto, para Bourdieu (2007), o sistema escolar antes de ser caracterizado por uma marca libertadora, é uma das formas mais intensas de conservação social, pois tende a legitimar as desigualdades sociais a partir da herança cultural.Nessa perspectiva, um ato ou uma escolha de um agente não se explica por si só, pois, de acordo com o autor, esses atos estão ligados ao contexto social: além de sofrerem os constrangimentos sociais de um grupo, estão associadas às suasexperiências individuais, familiares (origem social) e também a sua socialização secundária (universidade e demais
image/svg+xmlMaria Chaves JARDIM e Márcio Rogério da SILVARev. Sem Aspas,Araraquara, v.11, n.esp. 1, e022018,2022. e-ISSN2358-4238DOI:https://doi.org/10.29373/sas.v11iesp.1.176278espaços sociais). As escolhas, portanto, se dão não só subjetivamente, mas estão circunscritas aelementos históricos, culturais e, principalmente, a um campo dado de possibilidades. As prioridades se darão de acordo com os recursos herdados e construídos socialmente dentro de histórias singulares de vida. Habitus: expressando visões de mundoEm Bourdieu, a posse dos capitais ajuda a gerar um habitus, que por sua vez forma a visão de mundo de um agente, que é constituída socialmente. Para tanto, a trajetória individual dos agentes ajuda a construir seu habitus, que são pré-disposições IN-corporadas(colocadas no corpo e na mente) pelos agentes sociais ao longo de seu processo de socialização. Nesse contexto, o habitus integra experiências passadas e atua como uma matriz de percepções, de apreciações, de ações, de gosto e de tomadas de decisões. Essa “matriz”, ou conjunto de disposições, fornece esquemas necessários para a intervenção dos agentes sociais na vida diária, de forma não necessariamente consciente. Conforme trata o autor, essas disposições não são fixas. Ademais, não são nem a personalidade e nem a identidade dos indivíduos: “habitus é um operador, uma matriz de percepção e não uma identidade ou uma subjetividade fixa” (BOURDIEU, 2002, p. 83). Sendo produto da história, o habitus é um sistema de disposições aberto, permanentemente afrontado a experiências novas e permanentemente afetado por elas. Ele é durável, mas não imutável (BOURDIEU, 2002, p. 83). Trata-se de um marcador simbólicoque pode expressar distinção ou desclassificação (BOURDIEU, 1979). Mostra distinção quando expressa a cultura dominante, que por sua vez contribui para aintegração da classe dominante, por meio do habitus,assegurando a comunicação imediata entre todos os seus membros e os distinguindo das demais classes sociais. Expressa desclassificação quando apresenta a cultura dos dominados.Considerando as contribuições de Pierre Bourdieu (2002), podemos definir o conceito de habitus como um instrumento conceptual que nos auxiliará a pensar a relação e a mediação entre os condicionamentos sociais exteriores e a subjetividade dos ministros estudados, levando em conta que o habitus é uma matriz cultural que predispõe os indivíduos a fazerem suas escolhas, sendo que a semelhança ou a afinidade de habitusformao habitusde classe (feixe de relações semelhantes).Importante nessa discussão é o conceito de Estado em Bourdieu, que passaremos a apresentar.
image/svg+xmlOs capitais detidos por ministros e ministras dos governos Cardoso e Lula: Mapeando a distinçãoRev. Sem Aspas,Araraquara, v.11, n.esp.1, e022018,2022. e-ISSN2358-4238DOI:https://doi.org/10.29373/sas.v11iesp.1.176279O Estado em Pierre BourdieuPara Bourdieu (2007), o Estado seria resultante das categorias de pensamento dos agentes que nele atuam. Nessa perspectiva, os agentes, por meio de suas visões de mundo influenciam e são influenciados pelo Estado. No caso dos ministros dos períodos estudados, estes teriam poder de atuação no Estado, ajudando a construir categorias de pensamento reproduzidas por este. Para além de um Estado abstrato, o Estado em Bourdieu é um Estado encarnado e objetivado em agentes sociais; que influencia e sofre a influência de outros agentes e do Estado.Em complemento, os agentes sociais que participam do Estado são representados como encarnadores do Estado; um Estado constituído como um espaço relativamente autônomo em relação às forças sociais em luta pelo poder, e assegurando uma posição de árbitro nos conflitos políticos. Dizer que o Estado é legítimo em Bourdieu, é dizer que ele pode obter a submissão da ordem que impõe, tendocomo única forma de constrangimento, o poder simbólico. Assim, a obediência generalizada não passa pela coerção em Bourdieu. O reconhecimento da legitimidade da obediência é um ato de conhecimento, que é um ato de submissão inconsciente à ordem social, ouseja, é um ato de crença, mais ainda, de crença coletiva. Nessa perspectiva, Bourdieu nos alerta para o fato que o Estado não tem, necessariamente, a necessidade de dar ordens, ou de exercer coerção física para produzir um mundo social ordenado, “pelo menos enquanto puder produzir estruturas cognitivas incorporadas que estejam em consonância com as estruturas objetivas, assegurando assim a crença da qual falava Hume, a submissão dóxica à ordem estabelecida” (BOURDIEU, 1996, p.119). Ou seja, o poder do Estado é produzir e impor categorias de pensamento aos agentes do mundo social, cujas categorias são aplicadas a todas as coisas do mundo, inclusive para falar do próprio Estado. Portanto, Bourdieu nos chama a atenção para o fato que pensamos o Estado a partir do próprio pensamento criado pelo Estado, pois o Estado é ele mesmo nosso próprio pensamento. Mais concretamente, o pensamento do Estado não é somente um discurso ou um metadiscurso. Este pensamento se inscreve no mundo social, já que o Estado seria o mundo social em forma de discurso. Assim, o Estado produz e inculta estruturas cognitivas, segundo as quais a ordem social é percebida e incorporada, especialmente pelo sistema escolar, que inculta as estruturas cognitivas comuns, contribuindo de forma implícita para a produção e a reprodução da ordem social. Essas estruturas são tão naturalizadas, que os agentes sociais nem se dão conta do processo de produção de crenças.
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