Rev. Sem Aspas, Araraquara, v. 12, n. 00, e023005, 2023. e-ISSN: 2358-4238
DOI: https://doi.org/10.29373/sas.v12i00.18008 1
BOLSA FAMÍLIA: O PROGRAMA DE REVERSÃO DA DESIGUALDADE
MANTIDA INSTITUCIONALMENTE NA HISTÓRIA DO BRASIL
BOLSA FAMÍLIA: EL PROGRAMA DE REVERSIÓN DE LA DESIGUALDAD
MANTENIDO INSTITUCIONALMENTE EN LA HISTORIA DE BRASIL
BOLSA FAMÍLIA: THE INSTITUTIONALLY MAINTENED INEQUALITY REVERSAL
PROGRAM IN THE HISTORY OF BRAZIL
Vinícius BERNARDES1
e-mail: bernardesociais@gmail.com
Como referenciar este artigo:
BERNARDES, V. Bolsa Família: O programa de reversão da
desigualdade mantida institucionalmente na história do Brasil.
Rev. Sem Aspas, Araraquara, v. 12, n. 00, e023005, 2023. e-
ISSN: 2358-4238. DOI:
https://doi.org/10.29373/sas.v12i00.18008
| Submetido em: 27/04/2023
| Revisões requeridas em: 18/07/2023
| Aprovado em: 31/07/2023
| Publicado em: 08/08/2023
Editor:
Prof. Dr. Carlos Henrique Gileno
Editor Adjunto Executivo:
Prof. Dr. José Anderson Santos Cruz
Universidade Estadual Paulista (UNESP), Araraquara SP Brasil. Discente do Departamento de Ciências
Sociais da Faculdade de Ciências e Letras.
Bolsa Família: O programa de reversão da desigualdade mantida institucionalmente na história do Brasil
Rev. Sem Aspas, Araraquara, v. 12, n. 00, e023005, 2023. e-ISSN: 2358-4238
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RESUMO: Este trabalho aborda um debate concernente a uma política pública redistributiva
que foi formulada com o intuito de abordar desigualdades historicamente mantidas no âmbito
institucional do Brasil. A questão central que se apresenta é a compreensão da trajetória da
formulação de políticas públicas no país como um processo de aprimoramento do conceito de
cidadania, tendo o Programa Bolsa Família como alicerce para sustentar essa argumentação.
Utilizando análise, interpretação e conexão com textos acadêmicos, o propósito primordial
deste artigo é desmistificar algumas falácias disseminadas na sociedade brasileira, as quais
procuram deslegitimar a eficácia desse programa, classificando-o como uma iniciativa
populista e eleitoreira. Chegamos, ao final, à conclusão de que o enfrentamento das
desigualdades requer medidas que vão além dos programas de redistribuição de renda.
PALAVRAS-CHAVE: Programa Bolsa Família. Desigualdade. Condicionalidades. História
do Brasil.
RESUMEN: Este trabajo trae um debate sobre una política pública redistributiva que se
formulo a partir del ímpetu en resolución de las desigualdades que se mantuvieron
institucionalmente em la historia de Brasil. La principal cuestión planteada es la de
compreender cómo la trayectoria de formulación de políticas públicas em Brasil fue um
processo de aumento de la categoria de ciudadanía, teniendo como sustancia argumentativa
las metas y objetivos del Programa Bolsa Família. Con el análisis, interpretación e
interrelación de textos académicos, el objetivo principal de este artículo es desmistificar
algunas falacias generalizadas en la sociedad brasileña que buscan deslegitimar la efectividad
del programa, pretendendo ser um programa populista y electoral, llegando a la conclusión de
que eso la lucha contra las desigualdades debe incrementarse con medidas más allá de los
programas de redistribución del ingresso.
PALABRAS CLAVE: Programa Bolsa Família. Desigualdad. Condicionalidades. Historia de
Brasil.
ABSTRACT: This work addresses a debate concerning a redistributive public policy
formulated to address historically maintained inequalities within Brazil's institutional
framework. The central question presented is understanding the trajectory of public policy
formulation in the country as a process of improving the concept of citizenship, with the Bolsa
Família Program serving as a foundation to support this argumentation. Through analysis,
interpretation, and connection with academic texts, the primary purpose of this article is to
demystify some fallacies disseminated in Brazilian society, which seek to undermine the
program's effectiveness by labeling it as a populist and electioneering initiative. In conclusion,
we find that tackling inequalities requires measures that go beyond income redistribution
programs.
KEYWORDS: Bolsa Família Program. Inequality. Conditionalities. History of Brazil.
Vinícius BERNARDES
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Introdução
Fazer um panorama da história do Brasil é uma tarefa desafiadora, devido não somente
à vasta quantidade de eventos ocorridos nos últimos quinhentos anos, mas também às diversas
reviravoltas, avanços e retrocessos, além das contradições e manchas deixadas por um passado
marcado por políticas prejudiciais aos direitos humanos. Autores como Schwarz e Starling, ao
tentarem biografar esse período, optaram por uma narrativa na qual o Brasil aparece na
categoria de personagem, dotado de interesses, vontades e dilemas” (ALVES, 2017, p. 424),
demonstrando, principalmente, a trajetória da formação da mão-de-obra no Brasil e “os desafios
e a violência enfrentados pelos e contra os negros de origem africana, trazidos à força ao longo
da história brasileira” (ALVES, 2017, p. 425). Essa introdução proporciona uma base sólida
para que COHN inicie a discussão sobre as “divergências de natureza” entre os indivíduos em
“As políticas de abate social no Brasil contemporâneo”. Na primeira parte, Costa reforça e
amplia o debate sobre desigualdade, evidenciando a vulnerabilidade dos mais desfavorecidos
mesmo em um contexto mais favorável.
O Programa Bolsa Família surge, portanto, como uma tentativa bem-sucedida de
corrigir esse sombrio passado, cujos impactos ainda ecoam atualmente, sendo comum a criação
de uma “mitologia do pobre contemplado”, que o retrata como alguém acomodado e incapaz
de participar do mercado de trabalho. O trabalho abrangente de Campello e Neri, intitulado
“Bolsa Família: uma década de inclusão e cidadania”, serve como base argumentativa para
desmistificar essas concepções na segunda parte do texto. O foco do trabalho está nas Políticas
Públicas, abordando uma perspectiva histórica de um fenômeno persistente na história do Brasil
- a perpetuação das desigualdades - e na atualidade da resolução dessas contradições legadas
pelo passado, tendo o principal programa de combate a esse aspecto da sociedade brasileira
como orientador.
A metodologia adotada para esta pesquisa é estritamente teórico-conceitual, pois não
envolveu nenhum trabalho de campo. Os nexos entre os autores foram estabelecidos através da
leitura direta e interpretação dos textos mencionados, assim como dos autores referenciados ao
longo do trabalho. A escolha da base teórica de autores foi pautada na preferência por uma
abordagem menos descritiva e mais crítica do processo de manutenção das desigualdades no
Brasil. Autores como Arretch e Costa, por exemplo, embora reconheçam a importância das
transformações proporcionadas pelo Programa Bolsa Família, ressaltam a fragilidade na
formulação de Políticas Públicas no país, percebendo-as mais como benefícios assistencialistas
do que direitos consolidados.
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O método empregado consiste em descrever o percurso histórico do fenômeno no Brasil,
identificando seus agentes e vítimas. O título do artigo, ao utilizar a expressão “mantida
institucionalmente”, coloca o Programa Bolsa Família como uma reversão dessa manutenção
institucional, confrontando mitos propagados pela burguesia nacional com dados estatísticos
provenientes da pesquisa do IPEA. O trabalho também culmina em um debate entre dois autores
sobre a necessidade de avançar para além da assistência social.
O principal objetivo da pesquisa é desmistificar algumas das “crenças populares” que
buscam deslegitimar a efetividade do Programa Bolsa Família, refutando quatro falácias
difundidas na sociedade brasileira com base no texto organizado por Campello e Neri. Essas
falácias ilustram o que as pessoas frequentemente têm em mente ao se discutir o programa.
Além disso, o trabalho visa destacar que, apesar de ter sido mantida pelas instituições durante
um longo período, a desigualdade tem uma explicação histórica e pode ser resolvida através das
próprias instituições, com o Programa Bolsa Família representando uma resposta positiva a
esses estigmas herdados. Outra parte do objetivo é apresentar um diálogo crítico entre autores
sobre soluções para as desigualdades que vão além de políticas públicas redistributivas,
enfocando a reforma tributária como tema central na conclusão do trabalho.
Desigualdade Social e de Natureza no Brasil: Uma contextualização
Para que o programa Bolsa Família seja introduzido e, sobretudo, para compreender
suas intenções de mudança na estrutura de distribuição de renda na sociedade brasileira, é
imprescindível revisitar as razões pelas quais essas desigualdades existem. Nesse sentido, é
necessário responder à seguinte pergunta: por que este processo pode ser chamado de
manutenção das desigualdades?
Desde o momento do “descobrimento” até a consolidação e legitimação social das
primeiras instituições que visavam garantir a justiça social, os habitantes de nosso país foram
divididos com base em critérios de natureza. Houve uma clara distinção entre cidadãos livres e
possuidores de bens materiais, que tinham acesso a serviços públicos de segurança e educação,
sendo predominantemente brancos e descendentes de diversas nacionalidades europeias, em
especial, portugueses e italianos, principalmente na região sul e sudeste do país. Por outro lado,
havia os negros escravizados, trazidos à força de suas terras natais para trabalhar nas lavouras
de café, engenhos e nas residências dos proprietários, conhecidos como a Casa Grande.
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Ao mencionar “diferença de natureza”, em contraste com uma mera questão de classe
social, busca-se enfatizar uma diferença que não pode ser superada somente pela erradicação
das discrepâncias materiais presentes na vida das pessoas. Essa distinção no acesso aos bens e
serviços está intrinsecamente ligada à “natureza divergente das raças”, como mencionado por
Schwarz.
mencionamos, mas é bom relembrar, que o Brasil foi formado a partir da
linguagem da escravidão, que é, por princípio, um sistema desigual no qual
alguns poucos monopolizam renda e poder, enquanto a imensa maioria não
tem direito à remuneração, à liberdade do ir e vir e à educação. A paisagem
colonial foi tomada por grandes latifúndios monocultores, onde os senhores
de terra tinham domínio absoluto e concentravam renda (SCHWARZ, 2015,
p. 127).
Além disso, é importante ressaltar que mesmo durante o período escravista da história
do Brasil, o conceito de cidadania era claramente regulado e restrito. Na verdade, o termo
“cidadania” era usado para se referir a uma “casta” privilegiada da sociedade, uma vez que
havia uma diferença de natureza que impedia que uma parte significativa da população fosse
considerada cidadã.
Contudo, foi apenas com o advento do Estado Novo que a ideia de regular a cidadania
ganhou maior força. Durante esse período, uma legislação social de caráter positivista foi
incorporada, e a cidadania passou a ser administrada “de cima para baixo”, buscando criar uma
aparente harmonia entre o capital e o trabalho. Vale ressaltar que, à época de Vargas, figuras
como Hitler, na Alemanha, e Mussolini, na Itália, também exerciam poder, e a categoria de
“Cidadania Regulada” não se limitava a uma invenção brasileira, sendo também presente em
outras partes do mundo capitalista.
Foi assim na Alemanha Nazista, com Adolf Hitler, que selecionava crianças e
adolescentes louros, os quais, comovidos, cantavam hinos de louvor à “mãe
pátria” em grandes estádios ou imensa praças ao ar livre, com a população os
acompanhando em alto e bom som. Foi assim nos tempos do Estado Novo de
Getúlio Vargas, que também recorreu aos estádios, usados tradicionalmente
para os jogos de futebol, mas que foram convertidos em novos e destacados
locais de patriotismo onde estudantes desfilavam carregando a foto do
presidente, animados ao som do hino nacional (SCHWARZ, 2015, p. 142).
Cohn ratifica, afirmando que:
A questão da pobreza e das desigualdades sociais naturalizadas, quando não
revestidas dos preconceitos inerentes a uma sociedade de origens
escravocratas, segue concebida como própria de nossa natureza” social,
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numa ordem em que cada segmento social deve ocupar seu lugar específico
(COHN, 2020, p. 133).
Um segundo fator que acentua as contradições não resolvidas do passado, e que
intensifica a inerente perversidade de um modelo escravocrata, “é a de que as formas de
regulação social forjadas por meio de políticas sociais, apesar de sua diversidade, tinham como
sentido essencial dar suporte ao mercado produtor desses serviços, e operador desses
benefícios” (COHN, 2020, p. 132). A filosofia do mérito pessoal é adotada como o regulador
para o acesso aos bens e serviços oferecidos pelo mercado, sendo amplamente respaldada pelo
Estado, uma vez que “o projeto econômico, assim, sempre prevaleceu sobre qualquer projeto
social, tornando-os mesmo incompatíveis entre si enquanto concepção, uma vez que o próprio
desenvolvimento econômico, acreditava-se, levava ao desenvolvimento social, subproduto
daquele” (COHN, 2020, p. 134).
Essa herança perversa foi perpetuada pelos modelos governamentais ao longo das
décadas. Inicialmente, ocorreu a acumulação de capital nas mãos de uma pequena parcela da
população, resultante de 300 anos de trabalho escravo forçado da população negra trazida à
América. Posteriormente, os modelos de governo utilizaram o mérito pessoal como critério
para enquadrar os cidadãos na categoria de cidadania. É relevante destacar que essa
contradição entre um passado escravocrata e um presente meritocrático representa um enorme
desafio para as políticas sociais destinadas a combater as desigualdades monetárias e não
monetárias após 1988. Por exemplo, o Programa Bolsa Família se tornou alvo de críticas e
desdém por parte da burguesia que se beneficiou das instituições perversas vigentes durante
esses períodos.
O termo “institucional” é utilizado porque além de referir-se ao conjunto de normas
que regem o Estado, também faz parte dos critérios que levam as elites governamentais a
fazerem escolhas, favorecendo seus interesses de classe de maneira instrumental e
racionalizada. É importante ressaltar que a formação dessas elites governamentais ocorreu
simultaneamente a processos históricos, como a escravidão, que foi uma prática oficialmente
reconhecida.
Além do poder investido na criação de mitos e discursos visando deslegitimar o
programa, ainda a dimensão de que “a implementação do Bolsa Família, das cotas nas
universidades e de outras políticas sociais como programas, não como direitos
constitucionais, tem também como consequência perversa o fato de que os obstáculos
institucionais e políticos para removê-los são pequenos” (COSTA, 2019, p. 69). Ao
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observarmos os últimos dez anos de política e as mudanças conjunturais, podemos concluir
que:
a fragilidade dos ganhos obtidos durantes os governos do PT pelos pobres e
pelos grupos mais afetados pelas desigualdades socioeconômicas e de poder
a exemplo da população afrodescendente e das mulheres tornou-se
evidente quando Temer assumiu o governo após o impeachment de Rousseff
(COSTA, 2019, p. 69).
Para introduzir o Programa Bolsa Família como a principal resolução para essas
contradições do nosso passado, deve-se responder à pergunta: por que o nosso histórico de
políticas sociais pode ser chamado de incrementação? Os direitos políticos, civis e sociais
são praticamente inexistentes anteriormente a Vargas, com uma diminuta parcela da população
sendo contemplada pela manutenção institucional dos privilégios. O período que engloba o
Estado Novo até a promulgação da Constituição Cidadã de 1988 foi marcado por avanços e
retrocessos na formulação de “políticas públicas” eficientes no combate direto às desigualdades
nas dimensões dos direitos civis, políticos e sociais. Isso resultava em uma espécie de balanço,
onde o fortalecimento de uma dimensão frequentemente ocorria às custas da diminuição de
outra. Por exemplo, durante a ditadura militar, inúmeros órgãos foram criados para assegurar a
proteção do cidadão e do trabalhador formal, que se enquadravam na categoria de cidadãos
conforme o contexto vigente, mas, ao mesmo tempo, a liberdade individual e política das
escolhas foi totalmente restringida, negando-se aos cidadãos os direitos políticos e de expressão.
A partir da promulgação da Constituição Cidadã em 1988, o caminho para a
implementação de políticas públicas focadas na resolução de problemas relacionados às
desigualdades em todos os âmbitos foi facilitado pela nova abordagem democrática do modelo
governamental. Esse processo foi ampliado e intensificado a partir de de janeiro de 2023,
com a posse de Luiz Inácio Lula da Silva e a implementação de novas políticas sociais, bem
como o fortalecimento das existentes nos governos democráticos anteriores, especialmente
durante o governo de FHC. O termo incrementação é utilizado para descrever esse fenômeno,
pois essas políticas sociais, que já existiam em governos anteriores ao de Lula, foram elevadas
a um nível sem precedentes na história do Brasil tanto em termos de atendimento a uma
parcela maior da população quanto em relação ao investimento destinado a essas políticas. O
Programa Bolsa Família é um exemplo notável disso, conforme discutido por Costa sobre
Bielschowsky em seu parecer intitulado “O modelo de desenvolvimento proposto por Lula e
Dilma”. Visto que,
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enquanto o programa anterior, criado durante o governo de Fernando
Henrique Cardoso, proporcionou benefícios para 3,6 milhões de famílias em
2002, o Bolsa Família beneficiou 14,1 milhões de famílias, com valores
mensais de cerca de R$ 142 milhões em 2013 observando-se, ainda, uma
grande maioria de mulheres e negros entre seus beneficiários (COSTA, 2014,
p. 65).
O presente trabalho tem como seu principal argumento o Programa Bolsa Família. Nesta
seção, após contextualizar a necessidade do programa, será abordada a sua relevância efetiva
para os beneficiários, bem como será desmistificado os argumentos reacionários que buscam
enfraquecer a sua eficácia, rotulando-o como um “criador de acomodados e preguiçosos
vivendo às custas da sociedade”.
Adicionalmente, uma exposição argumentativa irá respaldar a validade do programa por
meio das “condicionalidades” estabelecidas. Essas condicionalidades representam um filtro de
eficiência para várias outras políticas sociais, uma vez que funcionam como requisitos para as
famílias serem beneficiadas pelo Bolsa Família. Vale ressaltar que, além de desempenhar essa
função para o funcionamento de outras políticas sociais, as condicionalidades também refutam
as falácias reacionárias sobre populismo e fidelidade eleitoral.
É fundamental destacar que essas condicionalidades abarcam um amplo espectro de
proteção social sem distinção de gênero e cor, contrariando a lógica populista e fascista. Essas
ideologias têm como preocupação a estratificação dos cidadãos em categorias e a manutenção
de uma dependência da qual é impossível escapar.
O Programa Bolsa Família como um mecanismo de enfrentamento do passado:
desmistificando falácias e promovendo a inclusão
Esta seção do trabalho tem o propósito de debater e desmistificar quatro concepções
falaciosas relacionadas ao Programa Bolsa Família: (1) a suposição de que o programa
incentivaria a acomodação das famílias beneficiárias; (2) a alegação de que o Estado exerceria
controle excessivo sobre a vida dessas famílias; (3) a ideia de que o aumento do valor do
benefício resultaria em um aumento da taxa de fertilidade das mulheres; e (4) a percepção de
que o programa é organizado de forma populista. É importante salientar que esses argumentos
são amplamente utilizados pela burguesia reacionária com o intuito de deslegitimar os efeitos
positivos diretos nas condições materiais das famílias beneficiadas. Essa tentativa de
deslegitimação reflete uma prática histórica, que remonta aos modelos governamentais
anteriores, desde o período colonial do Brasil, marcado pelo sistema escravista, até os governos
ditatoriais de 1964 a 1985. Consequentemente, é compreensível que a burguesia se mostre
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desfavorável a qualquer esforço de reduzir a disparidade entre suas posições sociais e as do
proletariado.
O Programa Bolsa Família representa uma abordagem para interromper um ciclo
perverso de perpetuação de privilégios que persistiu durante séculos na sociedade brasileira, e
que ainda gera discursos depreciativos em relação às políticas públicas redistributivas. Além
disso, o programa cumpre sua promessa inicial de abordar as desigualdades tanto de natureza
monetária quanto não-monetária. Essas últimas se referem ao acesso aos serviços essenciais a
todos os cidadãos, como segurança, educação e lazer, enquanto as primeiras dizem respeito à
questão da renda. Dessa forma, o Programa Bolsa Família alcança sua proposta de assegurar o
status de cidadania, que antes era restrito e regulado em contextos anteriores, mas foi redefinido
em função de uma mudança conjuntural durante o governo Lula, o qual priorizava os direitos
sociais em seus discursos. Consequentemente, o programa cumpre tanto com as questões
monetárias quanto não-monetárias, bem como com a questão de pertencimento ao status de
cidadão, que se tornou mais inclusivo. À luz das promessas e realizações do programa, segue-
se uma exposição que desmistifica os discursos falaciosos mencionados no primeiro parágrafo
deste capítulo.
Em primeiro lugar, é importante destacar que os quatro pontos levantados no primeiro
parágrafo não seriam necessariamente eventos isolados, conforme argumentam os setores
reacionários. Segundo esses argumentos, essas questões ocorreriam de forma simultânea,
alegando que o objetivo seria manter o suposto “projeto petista de dominação” sobre os mais
pobres, através do fornecimento de benefícios assistenciais em vez de promover o
desenvolvimento de habilidades próprias, o que, segundo eles, reforçaria uma antiga prática
meritocrática. No entanto, esse posicionamento desconsidera a formação histórica do país e,
consequentemente, a falta de igualdade de acesso aos recursos necessários. O Programa Bolsa
Família, desde o início, demonstra um caráter democrático ao propor a adoção de
condicionalidades que visam combater as vulnerabilidades sociais,
o descumprimento de condicionalidades passa a ser reconhecido como um
indicador de vulnerabilidade social ou risco pessoal e social que permite
identificar famílias que necessariamente requerem inserção no serviço,
conforme avaliação das equipes de referência do PAIF e Paefi (COLIN;
GONELLI; PEREIRA, 2013, p. 59).
Uma política social populista é frequentemente associada à sua perpetuação em
detrimento da liberdade e da cidadania, à semelhança das políticas sociais desenvolvidas em
governos ditatoriais, especialmente no período do governo Médici. Em contraposição, o
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programa Bolsa Família “se consolidou como uma política de Estado e hoje figura como um
dos elementos centrais das políticas sociais brasileiras, em um patamar incontornável dentro da
proteção social” (CAMPELLO; NERI, 2013, p. 17), sendo que “o pagamento direto às famílias,
via cartão magnético, transparência ao gasto público, reduz os custos operacionais e fortalece
a autonomia do usuário” (CAMPELLO; NERI, 2013, p. 17).
Outro mito frequentemente reforçado por opiniões reacionárias é o de que o programa
provocaria uma tendência à acomodação nas famílias beneficiadas, o que acarretaria uma
diminuição na busca por emprego. No entanto, uma pesquisa realizada pela AIBF II,
demonstra que o programa não provoca efeito desmobilizador de beneficiários
no mercado laboral, seja em termos de ocupação, procura de emprego ou
jornada de trabalho. Chefes de famílias beneficiárias, de 30 a 55 anos de idade,
apresentam nível de atividade, ocupação e jornada muito próximo aos de chefe
de nível socioeconômico equivalente (JANNUZZI; PINTO, 2013, p. 186).
Ratifica, afirmando que:
O suposto “efeito preguiça” do programa seria, pois, mais mito que realidade.
Considerando as diferentes situações e atributos que afetam a situação de
inserção no mercado de trabalho idade, condição de chefia familiar, gênero
e maternidade , não diferença entre beneficiários e pessoas não
beneficiárias com renda equivalente (JANNUZZI; PINTO, 2013, p. 186).
O programa não apenas gera dinamismo no mercado de trabalho, mas também
impulsiona a circulação e aquisição de bens duráveis, resultando em um aumento significativo
e efetivo no poder de compra das famílias beneficiárias. Além disso, o programa contribui para
combater o estereótipo do “lugar natural da mulher”, uma vez que:
as mulheres beneficiárias que em sua larga maioria são as titulares do cartão
do Bolsa Família vêm adquirindo maior autonomia e poder nas decisões
familiares e na compra de bens duráveis, remédios e vestuário,
comparativamente a mulheres não beneficiárias (JANNUZZI; PINTO, 2013,
p. 187).
Sendo importante ressaltar que,
as mulheres que são titulares do benefício do PBF têm ganhos na relação de
gênero na medida em que se tornam mais independentes dos maridos
financeiramente, passando a ter maior poder de barganha no que tange a
alocação de recursos do domicílio e aumentando o nível de interação social
(SUAREZ; LIBARDONI, 2007, p. 187).
Em terceiro lugar, “também foi muito difundida a crença de que as famílias beneficiárias
passariam a ter mais filhos, lançando mão de um comportamento oportunista para ter acesso a
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um maior volume de recursos” (CAMPELLO; NERI, 2013, p. 17), uma vez que “o valor
recebido pelas famílias beneficiadas pelo Programa Bolsa Família (PBF) cresce à medida que
aumenta o número de crianças e adolescentes da família” (ALVES; CAVENAGHI, 2013, p.
234). Essa concepção é conhecida como “argumento Malthusiano”, que sugere que o aumento
da renda pode resultar em uma maior fertilidade, ou seja, no caso do PBF, que o aumento da
renda das famílias beneficiárias poderia desencadear um ciclo de crescimento populacional.
Alves e Cavenaghi, com base na pesquisa Impactos do Bolsa Família na
Reconfiguração dos Arranjos Familiares, nas Assimetrias de Gênero e na
Individuação das Mulheres, realizada na cidade do Recife em 2007-2008,
mostram que não existe diferença significativa no comportamento reprodutivo
entre as mulheres que vivem em famílias cadastradas no Cadastro Único
beneficiadas e não beneficiadas pelo PBF. Embora haja uma tendência de as
famílias beneficiadas terem uma fecundidade ligeiramente maior, assim como
uma proporção um pouco maior de mulheres com três ou mais filhos (22,7%
contra 16,4% das não beneficiadas), o fato é que o maior número de crianças
tende a reduzir a renda per capita, aumentando a probabilidade das famílias
se tornarem elegíveis aos benefícios do programa. Dessa forma, a direção da
causalidade entre número de filhos e os beneficiados pelo PBF seria inversa.
A mulher não tem mais filhos porque passou a receber o PBF, mas sim o
contrário: por ter mais filhos, e, com isso, reduzir a renda per capita familiar,
a mulher se credencia a participar dos benefícios do PBF (ALVES;
CAVENAGHI, 2011, p. 235).
Pode-se estabelecer uma correlação entre o fenômeno de elevadas taxas de fecundidade
e os menores níveis de renda e educação no Brasil. Isto ocorre devido ao fato de que famílias
inseridas nessas condições socioeconômicas tendem a iniciar a procriação em idades mais
precoces, muitas vezes ainda na adolescência. Ademais, essa relação de causa e efeito entre o
acesso aos serviços de saúde da família e o uso de métodos contraceptivos torna-se mais
evidente em relação à taxa de fecundidade.
Quando se pergunta sobre o número de filhos desejados (‘se pudesse escolher
o número de filhos, quantos seriam?’) as mulheres apontaram um número bem
menor do que os obtidos pela geração passada. Nota-se que a porcentagem das
mulheres que manifestaram o desejo de ter três ou mais filhos é bem menor
do que o número de filhos que elas ou suas mães tiveram (ALVES;
CAVENAGHI, 2013, p. 237).
E ratificam, afirmando que:
O que se pode constatar é que mesmo a população de baixa renda tem
apresentado uma redução no número médio de filhos à medida que o país vai
se urbanizando e a população vai tendo acesso às políticas públicas de
educação e saúde. Tanto as mulheres que recebem quanto as que não recebem
Bolsa Família: O programa de reversão da desigualdade mantida institucionalmente na história do Brasil
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os benefícios do PBF desejam ter menos filhos e possuem alto índice de
gravidez não planejada (ALVES; CAVENAGHI, 2013, p. 237).
Por último, promoveu-se a ideia de que o Estado assumiria a tutela das famílias
beneficiárias do programa, estabelecendo uma espécie de fidelidade eleitoral e mercadológica.
Essa abordagem reflete o imaginário do liberalismo, onde tudo é visto como uma questão
competitiva, relacionada à busca pelo melhor serviço e à angariação de “clientes” no mercado.
O argumento da tutela estatal, alegando que o Estado está “ganhando” clientes fiéis, é uma
validação do modo como a burguesia enxerga as políticas sociais no Brasil desde o princípio:
onde todo bem ou serviço deve ser adquirido no mercado, incluindo o tratamento das eleições
e processos decisórios como verdadeiros leilões.
O argumento da burguesia em relação a essa tutela é claramente uma tentativa de
expandir sua influência sobre a sociedade civil, que “a tradicional ausência do Estado para
lhes conceder e garantir direitos as colocou por muito tempo na situação de pessoa sem direito
a ter direitos” (REGO; PINZANI, 2013, p. 359). Completam, dizendo
Com isto, o próprio Estado brasileiro decretou por muitos anos sua “morte
civil”. Elas foram emudecidas porque direito de voz pública não existe, pois
não possuem condições e canais institucionais de expressão. São milhões de
brasileiros com praticamente nenhuma escolaridade, destituídos de
qualificações e habilitações para qualquer tipo de emprego que exija, por
exemplo, escrita e leitura e capacidade de obedecer a certos comandos mais
qualificados. Isto, per se, coloca em questão a natureza do crescimento
econômico desprovido de projeto democrático substantivo (REGO;
PINZANI, 2013, p. 359).
Pode-se concluir que a “tutela” exercida pelo Estado, moldada para servir aos interesses do
mercado, tem sido uma realidade séculos e exerceu um papel significativo no processo de
formação do Brasil como nação. A noção de tutelar o cidadão, no sentido de mantê-lo
perpetuamente em um patamar social inferior, sem oportunidade de ascensão, tem sido uma
política estatal desde os tempos da colonização até os últimos dias da ditadura militar,
totalizando mais de 400 anos de estratificação institucional e, “neste caso, a permanência da
pobreza em níveis tão altos evidencia, ou melhor, aponta sua insuficiência profunda como modo
de inclusão dos habitantes de um país no mundo dos direitos e da herança civilizatória da
humanidade” (REGO; PINZANI, 2013, p. 359).
Vinícius BERNARDES
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Considerações finais
Em um panorama abrangente que abarca uma herança marcada por injustiças e
privilégios, bem como os esforços para reverter os impactos deixados por esse legado, é
essencial manter um equilíbrio constante. Isso porque ainda persistimos na manutenção de um
sistema tributário que favorece aqueles que acumulam riquezas. Costa reconhece que:
Em termos gerais, pode-se afirmar que os governos do PT não representaram
uma inflexão de poder em favor das classes trabalhadoras e dos segmentos
mais pobres. Uma prova disso é a manutenção da estrutura tributária
regressiva, que isenta de tributação lucros financeiros e ganhos de capital e
grava de forma particularmente pesada comparando-se com países mais
igualitários o consumo e a renda advinda do trabalho (COSTA, 2019, p. 65)
E questiona:
Ora, se o PT e até mesmo a presidente deposta reconheciam o impacto
concentrador dos impostos na distribuição de renda e riqueza no país, por que
Dilma e seu antecessor, Lula, não mudaram a estrutura tributária brasileira
regressiva? (COSTA, 2019, p. 65).
A relação de poder estabelecida entre o modelo organizacional inerente ao capitalismo
e a lógica amplamente aceita pelos governos petistas, desempenha um papel significativo. Além
disso, a governabilidade em um contexto político dominado por políticas de austeridade é
outro fator relevante, conforme observado por Costa.
isto é, em função de seus aliados conservadores no Congresso brasileiro e do
apoio de diferentes naturezas recebido de setores que lucram com a estrutura
tributária regressiva como o agronegócio, grandes empresas dos setores de
mineração, bebidas e construção, além de bancos , os governos do PT não se
sentiram suficientemente fortes para aprovar uma reforma tributária contrária
aos interesses dos mais ricos (COSTA, 2019, p. 65).
Arretche afirma que:
O regime democrático contemporâneo não reduziu a parcela da renda total
apropriada pelo 1% mais rico no Brasil, tampouco eliminou um conjunto de
fatores que produzem desigualdade econômica, tais como: a desigualdade de
oportunidades educacionais nos níveis médios e superior de ensino, como
resultado da universalização do acesso ao nível fundamental, a resiliência das
desigualdades raciais e da desigualdade de gênero e cor no mercado de
trabalho, entre tantos outros fatores (ARRETCHE, 2018. p. 17).
De fato, pode-se afirmar de maneira categórica que ainda um longo caminho a
percorrer em relação à redução real das desigualdades sociais, especialmente se a tentativa de
redução for conduzida dentro da lógica do capitalismo. Nesse sentido, é impossível alcançar
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uma diminuição substancial das desigualdades, considerando que a própria estrutura de
organização do trabalho no sistema capitalista é a raiz do problema.
Entretanto, os governos petistas demonstraram, que é possível utilizar efetivamente a
máquina pública para combater os privilégios de classe que têm persistido por séculos no Brasil.
A compreensão de Arretche sobre a evolução do fator de resolução de desigualdades é uma
afirmação relevante nesse contexto.
A queda simultânea dessas desigualdades no Brasil não foi resultado de
nenhum fator isolado, mas da combinação no tempo do efeito de diferentes
políticas orientadas a públicos diferentes, cuja característica comum tem sido
a perspectiva de reverter a longa trajetória de estabilidade da elevada
desigualdade no Brasil (ARRETCHE, 2015, p. 454)
Porém, alerta sobre a necessidade de irmos além, afirmando que:
Se isso é verdade, estratégias adicionais à taxação para reduzir
desigualdades, que incluem decisões sobre o destino do gasto público e o
desenho das políticas. Mas, se estas são resultados de decisões, não
nenhuma garantia ex-ante de que não sejam revertidas no futuro, como mostra
a trajetória recente das democracias das economias avançadas (ARRETCHE,
2015, p. 454).
Os objetivos iniciais de redução das desigualdades foram alcançados durante o período
correspondente aos dois primeiros governos de Lula e o primeiro governo de Dilma. Contudo,
torna-se necessário um avanço significativo, considerando que a realidade brasileira demanda
soluções que exijam abordagens mais complexas e dinâmicas. É imprescindível visar à
obtenção de resoluções que efetivamente transformem a estrutura que perpetua a desigualdade,
como apontado por Arretche, e também reafirmado por Costa.
Qualquer que seja a perspectiva adotada, fica evidente que as políticas sociais
implementadas recentemente no Brasil tiveram baixo impacto nas
desigualdades, em comparação com o potencial redistributivo de reformas
tributárias (COSTA, 2019, p. 65)
O governo atual do PT tem a oportunidade de dar um passo significativo em direção a
uma estrutura que verdadeiramente transforme a realidade das desigualdades, tanto monetárias
quanto não-monetárias no Brasil. Isso pode ser alcançado por meio do aperfeiçoamento dos
programas de redistribuição de renda, como o Bolsa Família, além de promover mudanças no
sistema de tributação visando reduzir a disparidade entre as riquezas no país. É inquestionável
que:
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Quando adequadamente desenhada para compreender as desigualdades a
partir de seu caráter histórico, relacional, multidimensional e interdependente,
a intervenção do Estado promove a redistribuição de recursos materiais,
ambientais e de poder nas sociedades, aplainando as hierarquias sociais,
abjetas do ponto de vista moral e condenáveis do ponto de vista político
(COSTA, 2019, p. 72).
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Vinícius BERNARDES
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CRediT Author Statement
Reconhecimentos: Gostaria de agradecer à Profa. Dr. Carla Gandini Giani Martelli pela
atenção durante a confecção deste trabalho, na medida em que este é resultado de estudos
em uma disciplina ministrada por ela, intitulada Estado, Sociedade e Políticas Públicas”,
na UNESP/FCLAR, no segundo semestre de 2022. Foi fundamental contar com o retorno
de alguém com profundo conhecimento na área de Políticas Públicas para a confecção.
Financiamento: Não aplicável.
Conflitos de interesse: Não há conflitos de interesse.
Aprovação ética: O trabalho foi confeccionado sob a supervisão de uma docente da
UNESP/FCLAR (Profa. Dra. Carla Gandini Giani Martelli), tendo recebido nota máxima
(10) na disciplina em que foi utilizado para atestar proficiência no assunto, com referências
acadêmicas sugeridas por um programa de curso de graduação da UNESP/FCLAR.
Disponibilidade de dados e material: Todos os dados e materiais utilizados na confecção
do trabalho podem facilmente ser acessados via internet (por arquivo pdf. principalmente,
entre outros como textos escritos em sites), tendo sido essa a forma que utilizei, também,
para ter acesso a todos os dados que atesto no trabalho.
Contribuições dos autores: A escolha de autores para este trabalho foi pensada na relação
que queria ser feita dentro do tema: uma relação entre máculas do passado e tentativas de
eufemizar essas máculas na história do Brasil. Autores como SCHWARZ, STARLING e
COHN ajudam a compreender alguns pontos do passado que ainda perduram na realidade
brasileira atual, fazendo um panorama histórico da “evolução” e manutenção das
desigualdades; outros como ALVES, BIELSCHOWSKY, CAVENAGHI, JANNUZZI,
LIBARDONI, PINTO, PINZANI, REGO e SUAREZ nos ajudam a compreender o impacto
do Programa Bolsa Família em números e estatísticas, tendo sido retiradas as referências
desses autores do trabalho de organização de CAMPELLO e NERI, intitulado “Programa
Bolsa Família: uma década de inclusão e cidadania”; por fim, ARRETCHE e COSTA tecem
comentários que nos ajudam a compreender o percurso das políticas elaboradas contra a
desigualdade no Brasil contemporâneo, trazendo uma discussão que inclui, para além do
Programa Bolsa Família, desigualdades em níveis que extrapolam apenas a dimensão
monetária.
Processamento e editoração: Editora Ibero-Americana de Educação.
Revisão, formatação, normalização e tradução.
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BOLSA FAMÍLIA: THE INSTITUTIONALLY MAINTENED INEQUALITY
REVERSAL PROGRAM IN THE HISTORY OF BRAZIL
BOLSA FAMÍLIA: O PROGRAMA DE REVERSÃO DA DESIGUALDADE MANTIDA
INSTITUCIONALMENTE NA HISTÓRIA DO BRASIL
BOLSA FAMÍLIA: EL PROGRAMA DE REVERSIÓN DE LA DESIGUALDAD
MANTENIDO INSTITUCIONALMENTE EN LA HISTORIA DE BRASIL
Vinícius BERNARDES1
e-mail: bernardesociais@gmail.com
How to reference this paper:
BERNARDES, V. Bolsa Família: The institutionally maintened
inequality reversal program in the history of Brazil. Rev. Sem
Aspas, Araraquara, v. 12, n. 00, e023005, 2023. e-ISSN: 2358-
4238. DOI: https://doi.org/10.29373/sas.v12i00.18008
| Submitted: 27/04/2023
| Revisions required: 18/07/2023
| Approved: 31/07/2023
| Published: 08/08/2023
Editor:
Prof. Dr. Carlos Henrique Gileno
Deputy Executive Editor:
Prof. Dr. José Anderson Santos Cruz
São Paulo State University (UNESP), Araraquara SP Brazil. Student of the Social Sciences Department at
the School of Sciences and Languages.
Bolsa Família: The institutionally maintened inequality reversal program in the history of Brazil
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ABSTRACT: This work addresses a debate concerning a redistributive public policy
formulated to address historically maintained inequalities within Brazil's institutional
framework. The central question presented is understanding the trajectory of public policy
formulation in the country as a process of improving the concept of citizenship, with the Bolsa
Família Program serving as a foundation to support this argumentation. Through analysis,
interpretation, and connection with academic texts, the primary purpose of this article is to
demystify some fallacies disseminated in Brazilian society, which seek to undermine the
program's effectiveness by labeling it as a populist and electioneering initiative. In conclusion,
we find that tackling inequalities requires measures that go beyond income redistribution
programs.
KEYWORDS: Bolsa Família Program. Inequality. Conditionalities. History of Brazil.
RESUMO: Este trabalho aborda um debate concernente a uma política pública redistributiva
que foi formulada com o intuito de abordar desigualdades historicamente mantidas no âmbito
institucional do Brasil. A questão central que se apresenta é a compreensão da trajetória da
formulação de políticas públicas no país como um processo de aprimoramento do conceito de
cidadania, tendo o Programa Bolsa Família como alicerce para sustentar essa argumentação.
Utilizando análise, interpretação e conexão com textos acadêmicos, o propósito primordial
deste artigo é desmistificar algumas falácias disseminadas na sociedade brasileira, as quais
procuram deslegitimar a eficácia desse programa, classificando-o como uma iniciativa
populista e eleitoreira. Chegamos, ao final, à conclusão de que o enfrentamento das
desigualdades requer medidas que vão além dos programas de redistribuição de renda.
PALAVRAS-CHAVE: Programa Bolsa Família. Desigualdade. Condicionalidades. História
do Brasil.
RESUMEN: Este trabajo trae um debate sobre una política pública redistributiva que se
formulo a partir del ímpetu en resolución de las desigualdades que se mantuvieron
institucionalmente em la historia de Brasil. La principal cuestión planteada es la de
compreender cómo la trayectoria de formulación de políticas públicas em Brasil fue um
processo de aumento de la categoria de ciudadanía, teniendo como sustancia argumentativa
las metas y objetivos del Programa Bolsa Família. Con el análisis, interpretación e
interrelación de textos académicos, el objetivo principal de este artículo es desmistificar
algunas falacias generalizadas en la sociedad brasileña que buscan deslegitimar la efectividad
del programa, pretendendo ser um programa populista y electoral, llegando a la conclusión de
que eso la lucha contra las desigualdades debe incrementarse con medidas más allá de los
programas de redistribución del ingresso.
PALABRAS CLAVE: Programa Bolsa Família. Desigualdad. Condicionalidades. Historia de
Brasil.
Vinícius BERNARDES
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Introduction
Providing an overview of Brazil's history is a challenging task, not only due to the vast
number of events that have occurred in the last five centuries but also because of the many
twists, advancements, setbacks, contradictions, and blemishes left by a past marked by policies
detrimental to human rights. Authors such as Schwarz and Starling, in their attempts to
biographize this period, "opted for a narrative in which Brazil appears as a character, endowed
with interests, desires, and dilemmas" (ALVES, 2017, p. 424, our translation), demonstrating
mainly the trajectory of labor force formation in Brazil and "the challenges and violence faced
by and against Africans brought by force throughout Brazilian history" (ALVES, 2017, p. 425,
our translation). This introduction provides a solid foundation for Cohn to initiate the discussion
about "divergences of nature" among individuals in "Social Abatement Policies in
Contemporary Brazil." In the first part, Costa reinforces and expands the debate on inequality,
highlighting the vulnerability of the most disadvantaged, even in a more favorable context.
Therefore, the Bolsa Família Program emerges as a successful attempt to correct this
dark past, whose impacts still echo today, leading to the joint creation of a "mythology of the
favored poor," portraying them as complacent individual’s incapable of participating in the
labor market. The comprehensive work of Campello and Neri, entitled "Bolsa Família: uma
década de inclusão e cidadania," serves as the argumentative basis to demystify these
conceptions in the second part of the text. The focus of the work lies in Public Policies,
addressing a historical perspective of a persistent phenomenon in Brazil's history - the
perpetuation of inequalities - and the current efforts to resolve these contradictions inherited
from the past, with the main program combating this aspect of Brazilian society as a guiding
force.
The methodology adopted for this research is strictly theoretical-conceptual, as it did
not involve any field work. The connections between the authors were established through
direct reading and interpretation of the mentioned texts and references to other authors
throughout the work. The selection of theoretical basis and authors was based on a preference
for a less descriptive and more critical approach to maintaining inequalities in Brazil. For
instance, authors such as Arretch and Costa, while recognizing the importance of the
transformations brought about by the Bolsa Família Program, emphasize the fragility of
formulating Public Policies in the country, perceiving them more as welfare benefits than
consolidated rights.
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The method employed describes the historical trajectory of the phenomenon in Brazil
and identifies its agents and victims. Using the expression "institutionally maintained," the
article's title positions the Bolsa Família Program as a reversal of this institutional maintenance,
confronting myths propagated by the national bourgeoisie with statistical data from IPEA's
research. The work also culminates in a debate between two authors about the need to move
beyond social assistance.
The main objective of the research is to demystify some of the "popular beliefs" that
seek to undermine the effectiveness of the Bolsa Família Program, refuting four fallacies spread
in Brazilian society based on the text organized by Campello and Neri. These fallacies illustrate
what people often have in mind when discussing the program. Furthermore, the work aims to
highlight that despite having been perpetuated by institutions for an extended period, inequality
has a historical explanation and can be addressed through the institutions themselves, with the
Bolsa Família Program representing a positive response to these inherited stigmas. Another part
of the objective is to present a critical dialogue between authors about solutions to inequalities
that go beyond redistributive public policies, focusing on tax reform as a central theme in the
conclusion of the work.
Social and Natural Inequalities in Brazil: A Contextualization
In order to introduce the Bolsa Família program and, above all, to understand its
intentions to change the income distribution structure in Brazilian society, it is essential to
revisit the reasons why these inequalities exist. In this sense, we need to answer the following
question: why can this process be called the maintenance of inequalities?
From the moment of "discovery" to the consolidation and social legitimization of the
first institutions aimed at ensuring social justice, the inhabitants of our country were divided
based on criteria of nature. There was a clear distinction between free citizens and possessors
of material goods, who had access to public security and education services, predominantly
white and descendants of various European nationalities, especially Portuguese and Italians,
mainly in the south and southeast regions of the country. On the other hand, enslaved blacks
were forcibly brought from their native lands to work in coffee plantations, sugar mills, and the
households of landowners, known as the "Casa Grande."
By mentioning the "difference of nature," as opposed to a mere matter of social class,
the emphasis is placed on a difference that cannot be overcome solely by eradicating the
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material discrepancies in people's lives. This distinction in access to goods and services is
intrinsically linked to the "divergent nature of races," as mentioned by Schwarz.
We have already mentioned, but it is worth remembering, that Brazil was
formed from the language of slavery, which is, in principle, an unequal system
in which a few monopolize income and power while the vast majority is
denied remuneration, freedom of movement, and education. The colonial
landscape was dominated by large monoculture estates, where landowners had
absolute control and concentrated income (SCHWARZ, 2015, p. 127, our
translation).
It is essential to emphasize that even during slavery in Brazilian history, citizenship was
regulated and restricted. The term "citizenship" was used to refer to a privileged "caste" in
society, as a difference of nature prevented a significant portion of the population from being
considered citizens.
However, it was only with the advent of the Estado Novo (New State) that the idea of
regulating citizenship gained greater strength. During this period, positivist social legislation
was incorporated, and citizenship began to be managed "from the top down," seeking to create
an apparent harmony between capital and labor. It is worth noting that during Vargas' time,
figures like Hitler in Germany and Mussolini in Italy also wielded power, and the category of
"Regulated Citizenship" was not limited to a Brazilian invention, as it was also present in other
parts of the capitalist world.
It was like this in Nazi Germany, with Adolf Hitler selecting blond children
and teenagers who were moved by emotion and sang hymns of praise to the
"motherland" in large stadiums or immense open squares, with the population
accompanying them loudly and enthusiastically. It was like this during the
Estado Novo of Getúlio Vargas, which also used stadiums traditionally used
for soccer games, but which were converted into new and prominent venues
of patriotism where students paraded, carrying the president's photo, animated
by the national anthem (SCHWARZ, 2015, p. 142, our translation).
Cohn corroborates this, stating that
The issue of poverty and naturalized social inequalities, when not imbued with
the prejudices inherent in a society of slave origins, is still conceived as
inherent to our social ''nature,'' in an order where each social segment must
occupy its specific place (COHN, 2020, p. 133, our translation).
A second factor that accentuates the unresolved contradictions of the past and
intensifies the inherent perversity of a slave-based model is "the fact that the forms of social
regulation forged through social policies, despite their diversity, were essentially aimed at
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supporting the market that produces these services and operates these benefits" (COHN, 2020,
p. 132, our translation). The philosophy of personal merit is adopted as the regulator for access
to goods and services offered by the market, and it is widely endorsed by the State, as "the
economic project, thus, always prevailed over any social project, making them even
incompatible with each other as a conception, since it was believed that economic
development itself would lead to social development, a byproduct of the former" (COHN,
2020, p. 134, our translation).
Governmental models perpetuated this perverse legacy over the decades. Initially,
there was the accumulation of capital in the hands of a small portion of the population,
resulting from 300 years of forced slave labor of the Black population brought to America.
Subsequently, governmental models used personal merit as a criterion to classify citizens into
the category of citizenship. It is relevant to emphasize that this contradiction between a slave-
based past and a meritocratic present represents a considerable challenge for social policies to
combat monetary and non-monetary inequalities after 1988. For example, the Bolsa Família
Program has become a target of criticism and disdain from the bourgeoisie, who benefited
from the perverse institutions prevailing during those periods.
The term "institutional" is used because, in addition to referring to the set of rules that
govern the State, it is also part of the criteria that lead governmental elites to make choices,
favoring their class interests in an instrumental and rationalized manner. It is important to note
that the formation of these governmental elites occurred simultaneously with historical
processes such as slavery, which was an officially recognized practice.
In addition to the power invested in creating myths and discourses aimed at
delegitimizing the program, there is also the dimension that "the implementation of Bolsa
Família, quotas in universities, and other social policies as programs, not as constitutional
rights, also has the perverse consequence that the institutional and political obstacles to
remove them are small" (COSTA, 2019, p. 69, our translation). When we observe the last ten
years of politics and the conjunctural changes, we can conclude that:
The fragility of the gains made during the PT governments for people with
low incomes and the groups most affected by socioeconomic and power
inequalities - such as the Afro-descendant population and women - became
evident when Temer took office after Rousseff's impeachment (COSTA, 2019,
p. 69, our translation).
To introduce the Bolsa Família Program as the primary solution to these past
contradictions, we must answer the question: why can our history of social policies be called
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incremental? Political, civil, and social rights were practically nonexistent before Vargas, with
a tiny portion of the population benefiting from the institutional maintenance of privileges. The
period that includes the Estado Novo until the promulgation of the 1988 Citizen Constitution
was marked by advances and setbacks in formulating efficient "public policies" to directly
combat inequalities in civil, political, and social rights. This resulted in a balance where the
strengthening of one dimension often occurred at the expense of diminishing another. For
example, during the military dictatorship, numerous organizations were created to ensure the
protection of citizens and formal workers who fit into the category of citizens according to the
prevailing context. However, at the same time, individual and political freedom of choice was
severely restricted, denying citizens political and expression rights.
Since the promulgation of the Citizen Constitution in 1988, the path to implementing
public policies focused on resolving issues related to inequalities in all areas has been facilitated
by the new democratic approach of the governmental model. This process was expanded and
intensified from January 1, 2023, with the inauguration of Luiz Inácio Lula da Silva, the
implementation of new social policies, and the strengthening of those already existing in
previous democratic governments, especially during FHC's administration. The term
incrementation is used to describe this phenomenon because these social policies, which
already existed in previous governments before Lula's, were raised to an unprecedented level
in the history of Brazil both in terms of serving a more significant portion of the population
and about the investment allocated to these policies. The Bolsa Família Program is a notable
example of this, as discussed by Costa based on Bielschowsky in his report titled "The
development model proposed by Lula and Dilma."
While the previous program, created during Fernando Henrique Cardoso's
government, provided benefits to 3.6 million families in 2002, Bolsa Família
benefited 14.1 million families, with monthly payments of around R$ 142
million in 2013 with a significant majority of women and Black
beneficiaries (COSTA, 2014, p. 65, our translation).
The present work focuses on the Bolsa Família Program as its main argument. In this
section, after contextualizing the need for the program, its practical relevance for the
beneficiaries will be addressed, and the reactionary arguments seeking to weaken its efficacy
by labeling it as a "creator of complacent and lazy people living off society's expenses" will be
debunked.
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An argumentative exposition will also support the program's validity through the
established "conditionalities." These conditionalities represent an efficiency filter for several
other social policies, as they function as requirements for families to benefit from Bolsa Família.
It is worth emphasizing that, besides serving this function for the operation of other social
policies, the conditionalities also refute the reactionary fallacies about populism and electoral
loyalty.
It is essential to highlight that these conditionalities encompass a broad spectrum of
social protection without gender and race distinctions, contradicting populist and fascist logic.
These ideologies concern the stratification of citizens into categories and perpetuate a
dependence from which it is impossible to escape.
The Bolsa Família Program as a mechanism for addressing the past: demystifying
fallacies and promoting inclusion
This section of the paper aims to discuss and debunk four fallacious conceptions related
to the Bolsa Família Program: (1) the assumption that the program would encourage the
beneficiaries' complacency; (2) the claim that the State would exert excessive control over the
lives of these families; (3) the idea that an increase in the benefit amount would lead to a rise
in women's fertility rate; and (4) the perception that the program is organized in a populist
manner. It is important to emphasize that the reactionary bourgeoisie widely uses these
arguments to undermine the direct positive effects on the material conditions of the beneficiary
families. This attempt at delegitimization reflects a historical practice dating back to previous
government models, from Brazil's colonial period marked by slavery to the authoritarian
governments of 1964 to 1985. Consequently, it is understandable that the bourgeoisie would
oppose any effort to reduce the disparity between their social positions and those of the
proletariat.
The Bolsa Família Program represents an approach to breaking a vicious cycle of
perpetuating privileges that have persisted for centuries in Brazilian society, which still
generates depreciative discourses regarding redistributive public policies. Additionally, the
program fulfills its initial promise to address monetary and non-monetary inequalities. The
latter refers to access to essential services for all citizens, such as security, education, and
leisure, while the former pertains to the issue of income. In this way, the Bolsa Família Program
achieves its proposal to ensure citizenship status, which was previously restricted and regulated
in earlier contexts but was redefined due to a conjunctural change during the Lula
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administration, which prioritized social rights in its discourse. Consequently, the program
addresses monetary and non-monetary issues, as well as belonging to the status of a more
inclusive citizen. In light of the program's promises and accomplishments, a presentation
follows to debunk the fallacious discourses mentioned in the first paragraph of this chapter.
First and foremost, it is essential to highlight that the four points raised in the first
paragraph would not necessarily be isolated events, as argued by reactionary sectors. According
to their claims, these issues would co-occur, alleging that the goal would be to maintain the
supposed "PT's project of domination" over the poorest by providing welfare benefits instead
of promoting the development of their skills, which, according to them, would reinforce an old
meritocratic practice. However, this standpoint disregards the historical formation of the
country and, consequently, the lack of equal access to necessary resources. The Bolsa Família
Program, from the outset, demonstrates a democratic character by proposing the adoption of
conditionalities aimed at combating social vulnerabilities,
The non-compliance with conditionalities is now recognized as an indicator
of social vulnerability or personal and social risk, allowing for the
identification of families that necessarily require insertion into the service, as
assessed by the reference teams of PAIF and Paefi (COLIN; PEREIRA;
GONELLI, 2013, p. 59, our translation).
A populist social policy is often associated with its perpetuation at the expense of
freedom and citizenship, similar to social policies developed in dictatorial governments,
especially during the Médici administration. In contrast, the Bolsa Família program "has been
consolidated as a state policy and today stands as one of the central elements of Brazilian social
policies, at an unavoidable level within social protection" (CAMPELLO; NERI, 2013, p. 17,
our translation), and "the direct payment to families, via magnetic cards, brings transparency to
public spending, reduces operational costs, and strengthens user autonomy" (CAMPELLO;
NERI, 2013, p. 17, our translation).
Another myth often reinforced by reactionary opinions is that the program would lead
to a tendency for complacency among the beneficiary families, resulting in a decrease in the
pursuit of employment. However, a survey conducted by AIBF II,
It is shown that the program does not cause a demobilizing effect on
beneficiaries in the labor market in terms of employment, job-seeking, or
working hours. Heads of beneficiary families aged 30 to 55 present activity
levels, employment rates, and working hours very close to those of leaders of
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equivalent socioeconomic status (JANNUZZI; PINTO, 2013, p. 186, our
translation).
This confirms that:
The program's alleged "laziness effect" is, therefore, more myth than reality.
Considering the different situations and attributes that affect the insertion into
the labor market - age, family headship, gender, and motherhood - there is no
difference between beneficiaries and non-beneficiaries with equivalent
income (JANNUZZI; PINTO, 2013, p. 186, our translation).
The program not only generates dynamism in the labor market but also drives the
circulation and acquisition of durable goods, resulting in a significant and influential increase
in the purchasing power of beneficiary families. Furthermore, the program contributes to
combating the stereotype of the "natural place of women" as:
The female beneficiaries - who are the majority of Bolsa Família cardholders
- are gaining greater autonomy and power in family decisions and the purchase
of durable goods, medicine, and clothing, compared to non-beneficiary
women (JANNUZZI; PINTO, 2013, p. 187, our translation).
It is important to emphasize that:
Women who are beneficiaries of the PBF gain in gender relations as they
become more financially independent from their husbands, gaining greater
bargaining power in allocating household resources and increasing their social
interaction (SUAREZ; LIBARDONI, 2007, p. 187, our translation).
Thirdly, "there was also a widespread belief that beneficiary families would have more
children, resorting to opportunistic behavior to access a larger volume of resources"
(CAMPELLO; NERI, 2013, p. 17, our translation), given that "the amount received by families
benefiting from the Bolsa Família Program (PBF) increases as the number of children and
adolescents in the family grows" (ALVES; CAVENAGHI, 2013, p. 234, our translation). This
conception is known as the "Malthusian argument," which suggests that an increase in income
can result in higher fertility. In the case of the PBF, it implies that the increase in beneficiary
families' revenue could trigger a population growth cycle.
Alves and Cavenaghi, based on the research "Impactos do Bolsa Família na
Reconfiguração dos Arranjos Familiares, nas Assimetrias de Gênero e na
Individuação das Mulheres" (Impacts of Bolsa Família on Family
Arrangements, Gender Asymmetries, and Women's Individuation), conducted
in the city of Recife in 2007-2008, show that there is no significant difference
in reproductive behavior between women living in families registered in the
Unified Registry, whether beneficiaries or not of the PBF. Although there is a
tendency for beneficiary families to have slightly higher fertility rates, as well
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as a somewhat higher proportion of women with three or more children
(22.7% compared to 16.4% of non-beneficiaries), the fact is that the higher
number of children tends to reduce per capita income, increasing the
likelihood of families becoming eligible for program benefits. Thus, the
direction of causality between the number of children and those benefiting
from the PBF would be reversed. Women do not have more children because
they started receiving the PBF; it is the opposite: having more children and
thereby reducing the family's per capita income makes the woman eligible to
participate in the PBF benefits (ALVES; CAVENAGHI, 2011, p. 235, our
translation).
A correlation can be established between high fertility rates and lower income and
education levels in Brazil. This is because families in these socioeconomic conditions tend to
initiate procreation at earlier ages, often still in adolescence. Furthermore, the cause-and-effect
relationship between access to family health services and contraceptive methods becomes more
evident concerning the fertility rate.
When asked about the desired number of children ("If you could choose the
number of children, how many would it be?"), women indicated a much
smaller number than those obtained by the previous generation. It is observed
that the percentage of women who expressed the desire to have three or more
children is much lower than the number of children they or their mothers had
(ALVES; CAVENAGHI, 2013, p. 237, our translation).
They reaffirm that:
What can be noted is that even the low-income population has shown a
reduction in the average number of children as the country becomes more
urbanized and the population gains access to public policies on education and
health. Both women who receive and those who do not receive PBF benefits
desire to have fewer children and have a high rate of unplanned pregnancies
(ALVES; CAVENAGHI, 2013, p. 237, our translation).
The idea was promoted that the State would assume guardianship over the program's
beneficiary families, establishing electoral and market loyalty. This approach reflects the
imagery of liberalism, where everything is seen as a competitive issue related to the pursuit of
the best service and the acquisition of "clients" in the market. The argument of state
guardianship, claiming that the State is "winning" loyal clients, validates how the bourgeoisie
views social policies in Brazil from the beginning: where every good or service must be
acquired in the market, including the treatment of elections and decision-making processes as
actual auctions. The bourgeoisie's argument regarding this guardianship is an attempt to expand
its influence over civil society since "the traditional absence of the State to grant and guarantee
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their rights kept them for a long time in the situation of people without the right to have rights"
(REGO; PINZANI, 2013, p. 359, our translation). They add:
Thus, the Brazilian State decreed its "civil death" for many years. They were
silenced because the right to public voice does not exist, as they lack
conditions and institutional channels of expression. Millions of Brazilians
have virtually no schooling, devoid of qualifications and skills for any job that
requires, for example, writing and reading and the ability to obey specific,
more qualified commands. This, per se, questions the nature of economic
growth devoid of a substantive democratic project (REGO; PINZANI, 2013,
p. 359, our translation).
Indeed, it can be concluded that the "guardianship" exercised by the State, molded to serve the
market's interests, has been a reality for centuries and has played a significant role in forming
Brazil as a nation. Treating citizens as wards, perpetually keeping them in a lower social
position with no opportunity for upward mobility, has been a state policy from colonization to
the last days of the military dictatorship, totaling more than 400 years of institutional
stratification, and ''in this context, the persistence of poverty at such high levels reflects, or
instead points to, its profound inadequacy as a means of the inclusion of a country's inhabitants
in the world of rights and the civilizational heritage of humanity'' (REGO; PINZANI, 2013, p.
359, our translation).
Final considerations
It is essential to maintain a constant balance as well as efforts to reverse the impacts left
by this legacy. This is because we maintain a tax system that favors those who accumulate
wealth. Costa acknowledges that:
In general terms, the governments of the PT (Workers' Party) did not represent
a shift of power in favor of the working classes and the most impoverished
segments. Evidence of this lies in maintaining a regressive tax structure, which
exempts financial profits and capital gains from taxation and imposes a hefty
burden, compared to more egalitarian countries, on consumption and income
derived from labor (COSTA, 2019, p. 65, our translation)
And questions:
Now, if the PT, and even the ousted president Dilma, recognized the
concentration impact of taxes on income and wealth distribution in the
country, why didn't Dilma and her predecessor, Lula, change the regressive
structure of the Brazilian tax system? (COSTA, 2019, p. 65, our translation).
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The power relationship established between the organizational model inherent to
capitalism and the widely accepted logic by the PT (Workers' Party) governments plays a
significant role. Additionally, governability within a political context already dominated by
austerity policies is another relevant factor, as observed by Costa.
Due to their conservative allies in the Brazilian Congress and the support
received from various sectors that profit from the regressive tax structure
such as agribusiness, large companies in mining, beverages, construction, and
banks the PT governments did not feel strong enough to pass a tax reform
contrary to the interests of the wealthy (COSTA, 2019, p. 65, our translation).
Arretche asserts that:
The contemporary democratic regime has not reduced the share of total
income appropriated by the wealthiest 1% in Brazil, nor has it eliminated a set
of factors that produce economic inequality, such as the inequality of
educational opportunities at the intermediate and higher levels of education,
resulting from the universalization of access to elementary education, the
persistence of racial and gender inequality in the labor market, among many
other factors (ARRETCHE, 2018. p. 17, our translation).
It can be categorically asserted that there is still a long way to go regarding the actual
reduction of social inequalities, especially if attempts to reduce them are conducted within the
logic of capitalism. In this regard, achieving a substantial reduction of inequalities is impossible,
considering that the structure of work organization in the capitalist system is the root of the
problem.
However, the PT governments demonstrated that it is possible to effectively use public
machinery to combat the class privileges that have persisted for centuries in Brazil. Arretche's
understanding of the evolution of the resolution of inequalities is relevant in this context.
The simultaneous decline of these inequalities in Brazil was not the result of
any isolated factor but rather the combination over time of the effects of
different policies oriented towards other groups, whose common characteristic
has been the perspective of reversing the long trajectory of high inequality in
Brazil (ARRETCHE, 2015, p. 454, our translation)
However, Arretche warns about the need to go beyond taxation, stating that:
If this is true, there are additional strategies to reduce inequalities, which
include decisions regarding the allocation of public spending and the design
of policies. But if these are the results of decisions, there is no ex-ante
guarantee that they will not be reversed in the future, as shown by the recent
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trajectory of democracies in advanced economies (ARRETCHE, 2015, p. 454,
our translation).
The initial objectives of reducing inequalities were achieved during the period
corresponding to the first two governments of Lula and the first government of Dilma.
However, significant progress is necessary, considering that the Brazilian reality demands more
complex and dynamic solutions. It is essential to aim for resolutions that effectively transform
the structure perpetuating inequality, as pointed out by Arretche and also reaffirmed by Costa.
Whichever perspective is adopted, it becomes evident that the social policies
recently implemented in Brazil had a low impact on inequalities compared to
the redistributive potential of tax reforms (COSTA, 2019, p. 65, our
translation).
The present PT government has the opportunity to take a significant step towards a
structure that genuinely transforms the reality of monetary and non-monetary inequalities in
Brazil. This can be achieved by improving income redistribution programs like Bolsa Família
and promoting changes in the tax system to reduce the wealth disparity in the country. It is
unquestionable that:
When adequately designed to understand inequalities based on their historical,
relational, multidimensional, and interdependent nature, State intervention
promotes the redistribution of material, environmental, and power resources
in societies, leveling social hierarchies that are abhorrent from a moral
standpoint and condemnable from a political perspective (COSTA, 2019, p.
72, our translation).
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CRediT Author Statement
Acknowledgments: I would like to express my gratitude to Prof. Dr. Carla Gandini Giani
Martelli for her attention during the preparation of this work, as it is the result of studies in
a course taught by her entitled "State, Society, and Public Policies," at UNESP/FCLAR, in
the second semester of 2022. Having feedback from someone with profound knowledge in
the field of Public Policies was crucial for its development.
Funding: Not applicable.
Conflicts of interest: There are no conflicts of interest.
Ethical approval: The work was conducted under the supervision of a faculty member at
UNESP/FCLAR (Prof. Dr. Carla Gandini Giani Martelli) and received the maximum grade
(10) in the course, demonstrating proficiency in the subject and adherence to academic
references suggested by a graduation program at UNESP/FCLAR.
Data and material availability: All data and materials used to prepare this work can be
easily accessed via the Internet (mainly through PDF files, among other written texts on
websites). This method was used to access all the data presented in this work.
Authors' Contribuition: The selection of authors for this work was based on the
connection I wanted to establish within the theme: a relationship between the blemishes of
the past and attempts to euphemize these blemishes in the history of Brazil. Authors such
as SCHWARZ, STARLING, and COHN contribute to understanding certain aspects of the
past that persist in present-day Brazilian reality, providing a historical overview of the
"evolution" and maintenance of inequalities. Other authors, such as ALVES,
BIELSCHOWSKY, CAVENAGHI, JANNUZZI, LIBARDONI, PINTO, PINZANI,
REGO, and SUAREZ, aid in comprehending the impact of the Bolsa Família Program
through numbers and statistics, with references taken from the work organized by
CAMPELLO and NERI, titled "Programa Bolsa Família: uma década de inclusão e
cidadania." Finally, ARRETCHE and COSTA provide commentary that helps us
understand the trajectory of policies developed against inequality in contemporary Brazil,
engaging in a discussion that goes beyond the Bolsa Família Program and encompasses
inequalities on dimensions beyond the monetary aspect.
Processing and editing: Editora Ibero-Americana de Educação.
Proofreading, formatting, normalization and translation.