Milena Diamantino PESSI
Rev. Sem Aspas, Araraquara, v. 12, n. 00, e023014, 2023. e-ISSN: 2358-4238
DOI: https://doi.org/10.29373/sas.v12i00.18069 5
escolhido com base naquilo que faltou ao indivíduo ao longo de sua vida, em sua trajetória.
Contudo, é importante salientar que essa tese se fundamenta principalmente em percepções do
autor e não em uma pesquisa aprofundada sobre o tema. Atualmente, a psicologia continua
debatendo se o amor é ou não uma emoção e se deve ou não ser considerado uma variável de
influência relevante o suficiente para se tornar objeto de estudos.
Por outro lado, a sociologia, apesar de ter demorado a reconhecer a importância desse
tema como objeto de pesquisa, indiretamente, estuda o amor desde seus clássicos. Georg
Simmel, um sociólogo e muito respeitado professor universitário alemão, inicialmente defende
que a emoção está diluída na sociedade, precisa ser encontrada. Ela é um não lugar entre
lugares, além de se preocupar com o anestesiamento presente em Berlim, a não sensibilidade
pela dor alheia. E em 1993, lançou seu livro “Filosofia do Amor”, no qual argumentou que o
amor é como uma práxis empírica, ou seja, um elemento responsável pela sociabilidade do ser
humano, uma parte importante no desenvolvimento da psicologia humana, mas vista como um
jogo de sedução. Ele possibilitaria o conhecimento do outro, a sua integração com seu parceiro,
e resultaria na formação de um ser único. Existe o eu, o ele, e nós. E tudo seria possível e
suportado, a sua fragmentação inclusive, em nome do amor.
Para Platão, por outro lado, em seu livro “Banquete”, o amor é sentido individualmente,
sem que haja o contato ou a interação com um parceiro, abstrai-se do outro para conseguir
alcançar a transcendência do que é belo em si próprio. Já para o sociólogo e economista alemão
Werner Sombart, em seu livro “Amor, Luxo e Capitalismo”, publicado no ano de 1990, este
sentimento foi secularizado com o fim das Cruzadas, resultando no luxo, no prazer,
principalmente, dos homens, no amor como aquilo que se vive fora do casamento, no sexo, e
incentivada pela burguesia europeia através das relações com as mulheres cortesãs.
Para o autor, a secularização do amor começaria após o fim das cruzadas,
quando três acontecimentos concorreram para uma profunda mudança na
relação entre os sexos: a formação das cortes europeias, a necessidade de
esbanjamento dos burgueses enriquecidos e a criação das cidades como
centros de consumo. Sombart acrescente a participação ativa da mulher
cortesã, que, com uma impetuosidade refinada, contribuiu para desvincular
encantos e gozos do amor da instituição casamento, colocando-os em um outro
espaço, o da legalidade e da concubinagem. Sombart deu destaque ao prazer
proporcionado por mulheres cortesãs de diversas origens (mulheres casadas e
abandonadas por seus maridos, moças enganadas por seus noivos), enfim,
mulheres que tinham e que possuíam o bom gosto, que teria se difundido pela
Europa. Para o autor, o amor secularizado, lócus dos impulsos das paixões,
realizava-se na legitimidade, em paralelo com os casamentos formais para a
reprodução biológica e social da burguesia (JARDIM; SOUZA, p. 5-6, no
prelo).