Rev. Sem Aspas, Araraquara, v. 13, n. 00, e024005, 2024. e-ISSN: 2358-4238
DOI: https://doi.org/10.29373/sas.v13i00.19011 1
CAPITALISMO, NATUREZA E COVID-19: A CRISE BIOLÓGICA NA CRISE
SOCIAL
CAPITALISMO, NATURALEZA Y COVID-19: LA CRISIS BIOLÓGICA EN LA CRISIS
SOCIAL
CAPITALISM, NATURE AND COVID-19: THE BIOLOGICAL CRISIS IN THE SOCIAL
CRISIS
Letícia LUCIANO1
e-mail: leticia.luciano@unesp.br
Como referenciar este artigo:
LUCIANO, L. Capitalismo, natureza e COVID-19: A crise
biológica na crise social. Rev. Sem Aspas, Araraquara, v. 13, n.
00, e024005, 2024. e-ISSN: 2358-4238. DOI:
https://doi.org/10.29373/sas.v13i00.19011
| Submetido em: 06/02/2024
| Revisões requeridas em: 19/08/2024
| Aprovado em: 15/10/2024
| Publicado em: 28/11/2024
Editor:
Prof. Dr. Carlos Henrique Gileno
Editor Adjunto Executivo:
Prof. Dr. José Anderson Santos Cruz
Universidade Estadual Paulista (UNESP), Araraquara SP Brasil. Departamento de Ciências Sociais.
Graduada em Ciências Sociais.
Capitalismo, natureza e COVID-19: a crise biológica na crise social
Rev. Sem Aspas, Araraquara, v. 13, n. 00, e024005, 2024. e-ISSN: 2358-4238
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RESUMO: O século XXI é caracterizado por desafios ambientais significativos. As crises
sociais, decorrentes ou amplificadas por esses problemas, oferecem um retrato das
complexidades de nossa época. Este artigo analisa como as esferas do meio natural e social
estão interligadas, refutando a antiga concepção de uma “sociedade separada da natureza”, uma
vez que ambas se retroalimentam mutuamente. A pandemia da COVID-19 é um exemplo da
crise biológica inserida em uma crise social mais abrangente: a crise do capitalismo. Tanto as
questões ecológicas quanto as sociais resultam da interação complexa entre sociedade e
natureza.
PALAVRAS-CHAVE: Capitalismo. Natureza. COVID-19.
RESUMEN: El siglo XXI se caracteriza por desafíos ambientales significativos. Las crisis
sociales, derivadas o amplificadas por estos problemas, ofrecen un retrato de las
complejidades de nuestra época. Este artículo analiza cómo las esferas del medio natural y
social están interconectadas, refutando la antigua concepción de una “sociedad separada de
la naturaleza”, ya que ambas se retroalimentan mutuamente. La pandemia de COVID-19 es
un ejemplo de la crisis biológica insertada en una crisis social más amplia: la crisis del
capitalismo. Tanto los problemas ecológicos como los sociales resultan de la interacción
compleja entre la sociedad y la naturaleza.
PALABRAS CLAVE: Capitalismo. Naturaleza. COVID-19.
ABSTRACT: Significant environmental challenges characterize the 21st century. The social
crises, arising from or amplified by these problems, provide a portrait of the complexities of
our time. This article analyzes how the spheres of the natural and social environments are
interconnected, refuting the old conception of a "society separate from nature," as both feed
into each other. The COVID-19 pandemic is an example of a biological crisis embedded within
a broader social crisis: the crisis of capitalism. Both ecological and social issues result from
the complex interaction between society and nature.
KEYWORDS: Capitalism. Nature. COVID-19.
Letícia LUCIANO
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Introdução
O século XXI está atravessado por crises ambientais de diferentes origens e com as mais
diversas consequências. Conforme o consenso científico, tomam-se cada vez mais patentes
problemas como a crise climática e energética, o problema do desmatamento e poluição de rios,
lagos e oceanos. Apesar das diferenças específicas entre regiões e agentes causadores de cada
problemática, nota-se uma crise estrutural da natureza e do meio ambiente, concomitante ao
acirramento de conflitos sociais contemporâneos. Nesse sentido, faz-se necessário questionar:
o colapso ambiental resulta de problemas puramente relativos e originados da ‘esfera natural’?
Com as heranças sócio-históricas decorrentes dos anos da pandemia da COVID-19 e
seu entrelaçamento com o modo de produção capitalista, será desenvolvida a seguinte ideia: o
meio natural e o meio social não são esferas separadas ou “puros”, mas interagem de maneira
que resultam em modificações estruturais. A maneira específica pela qual o modo de produção
capitalista se relaciona com a natureza será abordada com base no conceito de natureza de Karl
Marx, conforme analisado por Rodrigo Duarte em sua obra Marx e natureza em O Capital Este
conceito leva em consideração a lógica do capital, que é sempre invasiva, imperativa e
desenfreada, e como essa dinâmica específica de interação com a natureza origem a
diferentes fenômenos sociais e biológicos. O texto de Chuang (2020), intitulado Contágio
Social: Coronavírus e a luta de classes microbiológica na China, será utilizado como apoio
para refletir sobre o capitalismo e a natureza no mundo contemporâneo, bem como suas diversas
consequências e alcances fenomenológicos. A obra A gente precisa lutar de todas as formas:
Povos Indígenas e o enfrentamento da covid-19 no Brasil também será utilizada para analisar
a perspectiva de outro país no mesmo contexto, com foco nos aspectos socioambientais.
O objetivo é entender o entrelaçamento entre as esferas do meio natural e social, mais
especificamente, entre a natureza e a sociedade capitalista contemporânea. Ao mobilizar o
pensamento marxiano, pretende-se demonstrar que tal entrelaçamento é inerente ao capitalismo
desde, ao menos, a forma analisada por Marx no século XIX. Os registros relativos à pandemia
de COVID-19 têm o propósito de ilustrar como esse entrelaçamento se manifesta na
contemporaneidade, evidenciando sua concretude. Importa ressaltar que adotar a perspectiva
marxiana não implica uma crítica moral à relação entre capitalismo e natureza, mas sim a
demonstração de que esse entrelaçamento resulta da historicidade atribuída ao conceito de
natureza dentro do sistema capitalista.
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O meio natural e o meio social
O ser humano habita o meio em que vive. A construção de uma casa, como a
conhecemos hoje, em suas diversas formas e composições, tem uma origem; sua matéria não
está pré-formada. Os tijolos e outros materiais utilizados na construção das casas urbanas
modernas passam por uma série de processos manuais e/ou industriais até chegar ao ponto de
abrigar a maior parte da população cotidianamente. As diferentes substâncias são extraídas e
modificadas pela atividade humana uma definição que Karl Marx emprega ao conceber parte
do conceito de trabalho no sistema capitalista. Habitar o planeta Terra, não apenas no tempo
contemporâneo, mas também nas sociedades capitalistas, implica muito mais do que
simplesmente ocupar um determinado local; envolve apropriar-se desse espaço, extraindo e
transformando seus recursos e atributos para satisfazer as necessidades humanas, como
alimentação, produção e reprodução.
Diferentemente das épocas passadas, atualmente o planeta inteiro está submetido a um
determinado modo de produção. Ou seja, interagimos e nos relacionamos com a natureza de
uma forma específica para implementar esse modelo sistêmico e estrutural capitalista. Mesmo
que existam países declaradamente comunistas ou socialistas, a hegemonia e o impacto do
capitalismo são tão intensos que tais países, como China, Vietnã, Laos, Coreia do Norte e Cuba,
ainda sofrem interferências da economia dominante externa a eles, seja no âmbito econômico,
social ou biológico, como será abordado nesta discussão. No entanto, isso não implica afirmar
que todos os problemas ambientais em curso derivam exclusivamente do sistema capitalista,
nem que não existam resistências e espaços de luta. O objetivo aqui é destacar o modo pelo
qual a sociedade se apropria do meio natural para a produção global, levando em consideração
a maioria dos países inseridos neste sistema. Como será exposto, esse modo de organização
possui um nome e, como demonstrado, uma dinâmica específica.
O texto Contágio social: Coronavírus e a luta de classes microbiológica na China, um
coletivo marxista chinês, descreve de forma sinestésica como a lógica do capital invade e se
infiltra, criando capilaridades nas profundezas das florestas mais distantes, chegando a moldar
e propiciar a existência e propagação de vírus.
[...] primeiro, é uma abertura instrutiva na qual podemos revisar
questões substanciais sobre como a produção capitalista se relaciona
com o mundo não humano em um nível mais fundamental como, em
resumo, o “mundo natural”, incluindo seus substratos microbiológicos,
não pode ser entendido sem referência a como a sociedade organiza sua
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produção (porque os dois não são, de fato, separados). Ao mesmo
tempo, é um lembrete de que o único comunismo que merece esse nome
é aquele que inclui o potencial de um naturalismo totalmente politizado
(Chuang, 2020, p. 20).
O fato é que a ‘esfera natural’ es subordinada a um sistema
capitalista totalmente globalizado que conseguiu alterar as bases do
sistema climático global e devastar tantos ecossistemas pré-capitalistas
que o que sobrou não funciona mais como antigamente. [...]. A
realidade, então, é que é impróprio pensar nessas áreas como a
"periferia" natural de um sistema capitalista. O capitalismo é global
e totalizante. Ele não tem mais um limite ou uma fronteira com alguma
esfera natural e não capitalista para além dele [...] (Chuang, 2020, p.
46).
O Coletivo Chuang elabora a ideia de que a origem da pandemia da COVID-19 não foi
estritamente um infortúnio biológico da natureza, decorrente apenas de combinações e
mutações “naturais”, mas sim uma consequência da submissão do meio natural ao nosso modo
de produção. O coletivo traça o cenário da luta de classes na China, mais especificamente na
cidade de Wuhan, conhecida, junto de outras três cidades chinesas, como “fornalha”, devido ao
seu verão intensamente quente e úmido. No entanto, no manifesto, essa designação assume um
novo significado, referindo-se ao local de funcionamento das fábricas como “A Fornalha”, um
ambiente extremamente quente em razão da concentração de indústrias siderúrgicas em um
núcleo de concreto. Como afirmam: “para além das quatro fornalhas, então, encontra-se uma
fornalha mais fundamental subjacente aos centros industriais do mundo: a panela de pressão
evolutiva criada pela agricultura e urbanização capitalistas” (Chuang, 2020, p. 23).
Refletir sobre o conceito de natureza pode ser complexo, pois sua definição abrange
diversas áreas do conhecimento, perspectivas teóricas e culturais. A palavra em si carrega uma
multiplicidade de significados. No pensamento ocidental, a natureza sempre foi chave para o
desenvolvimento do conhecimento, tanto nas ciências naturais quanto nas humanas, e, em sua
maioria, o ponto de partida trata-se da relação entre homem e natureza. Para discutir esse
conceito a partir de uma perspectiva marxiana, é necessário, antes de tudo, elaborar a
historicidade da natureza. Ao tratar de Karl Marx e sua teoria social sobre o funcionamento do
capitalismo, não se pode ignorar seu método materialista histórico-dialético, o que implica
analisar o objeto em questão à luz da história, a fim de compreender sua dinâmica social.
Rodrigo Duarte, em sua obra Marx e a Natureza em O Capital, aborda a relação entre
natureza e história, destacando a diferença entre história natural e natureza histórica, ou seja,
entre a história “percorrida” pela natureza e a “historicidade” como uma “qualidade natural” da
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sociedade. Seu ponto de partida para tal diferenciação são passagens dos escritos de Marx e
Engels na Ideologia Alemã, com destaque para uma em particular:
Conhecemos uma única ciência, a ciência da história. A história pode
ser examinada de dois lados, dividida em história da natureza e história
dos homens. Os dois lados não podem, no entanto, ser separados;
enquanto existirem homens, a história da natureza e história dos homens
se condicionarão reciprocamente. A história da natureza, a assim
chamada ciência natural, não nos diz respeito aqui; mas quanto à
história dos homens, será preciso examiná-la (Engels; Marx, 2007, p.
86-87).
O artigo de cunho geográfico História Natural, História da Natureza e História
Ambiental: três histórias sobre uma grande ideia, de Freitas (2014), também sugere a existência
de uma “história da natureza” (além da história ambiental, como explicitado no próprio título),
cujo conteúdo trata de como o pensamento ocidental abordou a ideia de natureza ao longo de
seu desenvolvimento. Duarte explica que, na história natural, se trata de todo o percurso
biológico, físico e químico de seres vivos, plantas e minérios ao longo da existência planetária.
Ou seja, é o caminho traçado pela natureza e o trajeto evolutivo que possui uma história a ser
contada e sistematizada. De acordo com o artigo de Freitas (2014), na história natural, antes de
se tornar o que hoje são chamadas de ciências naturais, o termo era utilizado como um guarda-
chuva que englobava todos os aspectos do mundo natural dentro de uma grande área do
conhecimento, sem as devidas especificações. Foi no final do século XVIII que Georges Cuvier
(1769-1832), em sua obra Quadro elementar da história natural dos animais, apresentou uma
definição mais aceita, na qual a história natural, ou como ele mesmo denomina:
‘ciência natural’ ou a física tem por meta o estudo dos seres móveis e
extensos que nós chamamos de corpos. Esta ciência se divide em
história natural geral e em história natural particular. A primeira
considera isoladamente as propriedades comuns à maior parte e
examina cada uma de suas propriedades. A física particular ou a história
natural particular tem por objetivo aplicar especialmente aos numerosos
e variados seres existentes na natureza, as leis reconhecidas pelos
diversos ramos da física geral, a fim de explicar os fenômenos
apresentados por cada um desses seres. A história natural geral abrange
em um único olhar, todos os corpos naturais, assim como, o resultado
comum de todas as suas ações no grande conjunto da natureza,
determinando as leis de coexistência de suas propriedades. Ela
estabelece, entre os diferentes corpos, os graus de semelhança, o que
permite classificá-los. A história natural geral podeser concluída
quando se tiver completado as histórias naturais particulares de todos
os corpos naturais (Cuvier, 1798, p.1 4).
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Desse modo, é possível afirmar que, até meados do século XIX, o cerne da história
natural e sua definição giravam em torno de uma construção descritiva e enumerativa. Com o
aprofundamento dos estudos sobre o mundo natural e o esforço dos pensadores em descobrir as
estruturas internas das mais variadas espécies, assim como o funcionamento e engendramento
dos corpos e das dinâmicas químicas e biológicas, a história natural passa a ser também
classificatória. Além disso, antes do século XX, ela começa a se individualizar, especificar e
dividir, pois o termo “história natural” torna-se obsoleto devido à sua generalidade e
uniformização dos conhecimentos. Assim, surgem as ciências naturais, cada uma com sua
especificidade. Por outro lado, desenvolve-se e são feitas diferentes utilizações da ideia de
natureza ao longo da trajetória histórica da sociedade e do conhecimento, o que Freitas (2014)
denomina de História da Natureza.
De maneira geral, pode-se afirmar que a história natural gira em torno da questão física
e corpórea, enquanto a história da natureza refere-se ao estudo da relação entre o ser humano e
a natureza a partir de uma perspectiva sociológica. Embora permeie outros campos das
humanidades, como a filosofia e a geografia, nesta última trata-se do estudo da relação social
entre o indivíduo/grupo e o ambiente. Retomando a caracterização de Duarte, a natureza
histórica é precisamente o que nos interessa para fazer a conexão fundamental entre o
pensamento marxiano/marxista e a ecologia. O significado atribuído à palavra “natureza”
refere-se ao que é natural, partindo do termo em latim: natura, nato. Ou seja, o ser humano é
naturalmente histórico, possuindo uma origem histórica. O uso do termo “nato” não significa
inato, como se os seres humanos nascessem com a história embutida em seus supostos
“espíritos”, mas sim que, enquanto seres sociais, são natos da história, assim como ela é nativa
dos seres humanos.
Nesse sentido, não somente o ser humano possui natureza histórica, mas também a
própria natureza. Ou seja, os rios, mares, plantas, animais e minérios possuem natureza
histórica, pois, como exposto até aqui, mantêm uma relação dialética e íntima com a atividade
humana em seu meio ambiente. Suas alterações, efeitos e crises são, em grande parte, resultados
da ação das pessoas sobre o planeta Terra, ação que, por sua vez, também é histórica. Na obra
História e Consciência de Classe: Estudos sobre a dialética marxista’ Georg Lukács aponta
que a história não serve apenas como uma ferramenta meramente descritiva do contexto sócio-
histórico que permeia um objeto, no caso uma relação social a ser estudada, mas como a própria
raiz de onde derivam todas as relações sociais. Com isso, Lukács oferece uma rica interpretação
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do método materialista histórico-dialético de Marx, explicando como a dialética é histórica e a
história é movimento, construção e processo.
[...] uma crítica histórica. Ela dissolve sobretudo o caráter fixo, natural
e não realizado das formações sociais; ela as desvela como surgida
historicamente e, como tal, submetidas ao devir histórico em todos os
aspectos, portanto, como formações predeterminadas ao declínio
histórico. Por conseguinte, a história não ocorre somente dentro do
domínio de validade dessas formas, segundo o qual a história
significaria apenas a mudança de conteúdos, de homens, de situações
etc., com princípios sociais eternamente válidos. [...]. Mas ela é, antes,
justamente a história dessas formas, sua transformação como formas da
reunião dos homens em sociedade, como formas que, iniciadas a partir
de relações econômicas objetivas, dominam todas as relações dos
homens entre si (e assim também as relações dos homens consigo
mesmo, com a natureza, etc.) (Lukács, 2003, p. 135- 36).
A natureza fez e continua a fazer parte do processo histórico e dialético da sociedade.
Isso implica que a natureza não é puramente biológica, geográfica, física ou química; sua
análise e estudo não se limitam aos aspectos “naturais”, entre aspas, pois, na sociedade, nada é
puramente natural, incluindo a própria natureza, de seu funcionamento ou desdobramentos, mas
também ao seu aspecto histórico. Assim, a natureza também é histórica e social.
A relação dialética entre o meio natural e o social não significa que ela ocorra entre
polos diametralmente opostos ou localizados em extremos. A explicação sobre a natureza
histórica (tanto do ser humano quanto da natureza) expõe a visão de que natureza e história não
são conceitos contrários e separados, como se a única circunstância em que interagissem fosse
apenas em uma figura “yin e yang”. Ambos são simultâneos. Ou seja, nem a História Natural,
nem a História da Natureza devem se dissolver na perspectiva de natureza histórica da
sociedade, na “história da humanidade”, ou vice-versa, pois, na realidade, a história da
humanidade também é a história da natureza, não apenas da maneira como foi descrita até então,
mas no sentido de que a natureza compõe a história humana, ao estar intrinsecamente ligada à
nossa subsistência e modo de produção.
Como foi dito, a natureza possui historicidade e constitui o palco em que a vida em
sociedade se desenvolve, não apenas como pano de fundo ou cenário, mas também como meio
e conteúdo. A forma como interagimos com e agimos sobre a natureza não foi sempre a mesma,
tanto cronologicamente quanto geograficamente, devido aos mais variados motivos de ordem
social e cultural. Assim, de acordo com cada modo de produção e reprodução existente, o ritmo
e a dinâmica entre sociedade e natureza se alteram e possuem sua própria especificidade. O
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modo de produção de uma determinada sociedade diz respeito a um aspecto sistêmico, resultado
de uma construção histórica e social. A interação entre o ser humano e a natureza sempre
existiu, afinal, nossa origem é planetária, mas essa interação muda conforme a época histórica.
Nos primórdios da humanidade, as alterações feitas no meio ambiente pelo homem eram
mínimas e limitadas ao necessário para a subsistência. Com o surgimento da agricultura, ocorre
uma mutação: gradativamente, a ação do indivíduo sobre a natureza cresce e se intensifica.
Mais do que isso, com o surgimento do sistema capitalista e a incorporação da agricultura neste
modo de produção, surge a necessidade de produção para a extração de mais-valia, em
consonância com a busca incessante do capital por lucro.
No capitalismo, é importante ressaltar que essa relação, assim como a relação entre ser
humano e natureza, afinal, o ser humano constrói sua própria história, é mediada pela indústria,
que, por sua vez, é movida pela lógica do capital. Nesse modo de produção, não se trata apenas
da atividade do indivíduo sobre o meio físico, mas, antes de qualquer coisa, da ação do capital
sobre a natureza.
O encontro de dois cantos do mundo
A necessidade intrínseca ao capitalismo de buscar incessantemente a criação de mais-
valia e a acumulação de capital, somada ao processo de apropriação da natureza, resulta
inevitavelmente em um excesso de “extração” e utilização dos recursos naturais, para além do
necessário para a satisfação das necessidades humanas, bem como além dos limites planetários.
Isso não implica dar razão aos chamados (para retomar a expressão de Michael Löwy)
“ambientalistas radicais”, defensores da visão de que a única solução para os problemas
ambientais seria abdicar totalmente da vida tecnologicamente desenvolvida, mas sim sustentar
a perspectiva de que a produção e a reprodução social não devem ser pautadas e guiadas pela
lógica do capital, pois, no século XXI, ao falar em “necessidades humanas”, quer-se referir não
apenas às necessidades fisiológicas.
O colonialismo protagonizado pelos países do Norte Global, termo utilizado para se
referir aos países chamados de ‘desenvolvidos’, como exemplificado na obra Modo de vida
Imperial: sobre a exploração de seres humanos e da natureza no capitalismo global,
evidenciava sua característica de exploração humana e ambiental, também dominadora.
Ricardo Junior de Assis Fernandes Goncalves, em Capitalismo extrativista na América Latina
e as contradições da mineração em grande escala no Brasil, evidencia que,
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Desde que os conquistadores europeus pisaram nos solos do continente
americano, nas ilhas caribenhas ainda no final do século XV e início do
XVI, a história não cessou de ilustrar páginas de conflitos e genocídio
dos povos originários, esgotamentos de solos férteis, metais e pedras
preciosas (Gonçalves, 2017, p. 4)
A lógica colonial está interligada à lógica do capital. A expropriação de terras, florestas,
solos, lagos, animais e pessoas é uma história antiga que persiste e impacta os povos originários
até os dias atuais. No Brasil, esse processo se desenrolou ao longo de séculos, transitando da
completa dominação e escravidão para a estigmatização, exclusão, negligência e tutela.
Com o advento do capitalismo, surgiu o Estado, instrumento do sistema para a
reprodução e disseminação dos interesses da classe dominante. Desde sua instauração, o Estado
apropriou-se das discussões sobre os direitos e deveres dos povos indígenas brasileiros,
justificando-se pela ideia de tutela. De acordo com Celia Correa, professora e ativista indígena
do povo Xakriabá de Minas Gerais, e atual deputada federal pelo Partido Socialismo e
Liberdade (PSOL), em sua dissertação intitulada O Barro, o Genipapo e o Giz no Fazer
Epistemológico de Autoria Xakriaba: Reativação da Memória por uma Educação
Territorializada, a tutelagem estatal, disfarçada de proteção e cuidado, visa dominar e
aprisionar, negando até mesmo o acesso a políticas públicas “com autoridade”.
Quando discorremos sobre o processo de tutelagem verifica- se que o
Estado, desde sua existência, sempre atuou com um arranjo
institucional amparado nos parâmetros jurídicos ocidentais, se
apropriando daqueles nossos sistemas de justiça tradicional, visando
exercer e dar continuidade a um domínio colonizador, assumindo o
protagonismo de nossas próprias vidas e situações que nos dizem
respeito. Embora existam significativos processos que expressam
resistências por parte dos povos indígenas, o Estado brasileiro não
incorporou os parâmetros jurídicos sobre o fim da tutela, uma vez que
até hoje vivemos uma tutela sistêmica sob o ponto de vista da estrutura
política, por exemplo quando ficamos à mercê dos processos de decisão
que são regulados pelo Congresso Nacional, por meio da bancada
ruralista, como podemos perceber em meio aos discursos tutelares e
racistas, reiterados recentemente a público no contexto de debate sobre
a discussão do chamado ‘marco temporal’ (Correa, 2018, p. 64).
Genocídio, de forma geral, é um termo que, no contexto do português-brasileiro,
significa “o assassinato de um povo por parte do governo”, motivado por questões étnicas,
raciais, culturais, entre outras. Esse ato pode ocorrer de maneira direta, por meio de violência
física, ou indireta, como ocorre quando negligência em relação a políticas públicas. A
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tutelagem, além de ser uma estratégia de controle, pode ser associada a um mecanismo de
permissão genocida estatal, acionado pelo Estado quando lhe convém. A própria forma de
caracterização dos povos indígenas pelo Estado configura um apagamento desse povo, uma vez
que, muitas vezes, por órgãos de saúde ou para fins estatísticos, são classificados como ‘pardos’
ou sequer são contabilizados. Isso gera dificuldades, por exemplo, na alocação de recursos para
o atendimento de saúde pública destinado a essa população.
Em decorrência da pandemia da COVID-19, milhares de brasileiros perderam suas
vidas, mas os povos indígenas, devido ao seu isolamento e à maior vulnerabilidade frente a
infecções, ficaram ainda mais expostos ao vírus. Além disso, foi negado ao povo brasileiro,
durante meses, o acesso a vacinas que já estavam disponíveis, em razão de interesses políticos
do ex-Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, que contribuiu para o negacionismo
científico relacionado à imunização. De acordo com o site do ISA (Instituto Socioambiental),
a Covid-19 se alastra pelos povos indígenas. Mostramos como o Estado
brasileiro não foi omisso como ajudou o vírus a se espalhar. Três
casos foram os mais comuns: profissionais da saúde que levaram o vírus
para aldeias, garimpeiros e grileiros que aumentaram as invasões
durante a pandemia e indígenas que se contaminaram ao buscar o
auxílio emergencial na cidade (ISA, 2020).
Ou seja, centenas de anos depois, a história se repete, agora com o neocolonialismo e o
neoextrativismo. O vírus, originado do outro lado do mundo na fornalha industrial, derivado da
apropriação capitalista da natureza e das grandes indústrias que exploram os recursos naturais
e suas misturas tóxicas, chega novamente aos povos da América Latina. E agora, quando
deveriam ter a proteção que o Estado supostamente oferece, ou a suposta biotecnologia infalível
e democrática dos grandes laboratórios detentores das patentes de vacinas, esses povos
morreram em 2020 como já haviam morrido em 1500.
A Gente Precisa Lutar de Todas as Formas: Povos Indígenas e o Enfrentamento da
covid-19 no Brasil, é uma análise descritiva e rica em detalhes dos impactos da pandemia sobre
os povos originários brasileiros. O estudo apresenta datas das primeiras mortes, fontes precisas
e confiáveis, subnotificações de óbitos, negligência governamental, reuniões e assembleias dos
indígenas, bem como relatos de garimpeiros e grileiros durante a pandemia.
no dia 9, um jovem Yanomami de 15 anos também faleceu em
decorrência da Covid-19. Em nota, a APIB informou que foi a terceira
vida indígena perdida para o novo coronavírus em menos de um mês,
denunciando que apenas esse caso foi registrado pela SESAI, por se
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tratar de um indígena ‘aldeado’. O documento destacava ainda a
existência de garimpos ilegais próximos à aldeia do jovem, reforçando
os alertas acerca da necessidade de proteção dos territórios indígenas e
de retirada dos invasores da TI Yanomami, que vêm enfrentando uma
nova corrida por ouro (Alarcon; Pontes, 2022, p. 48).
A causa das mortes durante a pandemia da COVID-19 não se deve exclusivamente à
ação viral no organismo humano. O contágio não é apenas biológico, mas também social. O
texto citado evidencia a forma de relação com a natureza e suas consequências para os povos
originários dos territórios alvos de garimpo ilegal. O Brasil está contaminado tempos pela
lógica de exploração e dominação da natureza, antes pelo imperativo colonial e, hoje, pelo
imperativo colonial/capitalista.
Por um lado, Wuhan, como manifestação da grande indústria do século XXI, é o palco
de indústrias que produzem automóveis elétricos e híbridos. Ironicamente, a proposta desses
produtos é a mobilidade limpa, que traria menores prejuízos à natureza e, consequentemente, à
vida dos seres. No entanto, seu modo de produção continua a contribuir para a deterioração de
ambos, com um ambiente propício a mutações biológicas perigosas e consequências
imprevisíveis, resultantes da exploração incansável dos trabalhadores, como sugerido por
Chuang (2020). Por outro lado, nas florestas brasileiras, ocorreram grandes queimadas em 2020
que, ao invés do calor úmido da fornalha chinesa, trouxeram o calor seco, formando uma cortina
de fumaça que, juntamente com o caos da COVID-19 no país, evidenciou o genocídio das
populações indígenas e/ou aquelas próximas a zonas de desmatamento, como consequência e
contribuição (na lógica do capital) do extrativismo e garimpo ilegais.
Considerações finais
A leitura de Duarte sobre o conceito de natureza no pensamento marxiano permite uma
análise mais aprofundada da relação entre sociedade e natureza, entendendo-a além de uma
mera interação. Ela possibilita reconhecer a farsa da separação estrita desses campos, tanto
como objeto de estudo quanto como modo de leitura do mundo. A história da natureza e a
natureza histórica da sociedade corroboram essa colocação.
No entanto, não basta apenas evidenciar a relação intrínseca entre o meio natural e o
meio social; é preciso perceber que ambos, já que não se separam, estão tomados por uma
dinâmica histórica específica do modo de produção, que se espalha e se infiltra para além da
esfera econômica, podendo afetar todo um ecossistema, além da forma social. O capitalismo
não só modifica o meio natural, como também não possui freio, visto que a lógica do sistema é
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a acumulação, o que implica na incessante invasão e transgressão de limites naturais para a
manutenção da constante produção, visando alcançar o objetivo maior do funcionamento
capitalista.
As florestas brasileiras não se diferem tanto da ‘grande fornalha’. Apesar do contraste
entre o verde de um lado e o cinza de outro, divididos por praticamente meia circunferência de
um oceano azul, ambos os territórios compartilham a mesma exposição ao risco da vida, que
não se limita a esses espaços geográficos. Cada um deles pode ser o palco do início, meio e fim
da produção de catástrofes biossociológicas. A contínua modificação da natureza pela grande
indústria resulta em consequências imprevisíveis para a saúde do planeta, dos seres vivos e para
as relações sociais, como as condições de trabalho dos proletários de Wuhan, a vida dos
habitantes e o ambiente propício ao desenvolvimento de vírus nocivos, ou o genocídio da
população brasileira e indígena devido à COVID-19 e à ‘corrida pelo ouro’ (e tantos outros
minérios e desmatamento) nos anos de 2020, 2021 e 2022.
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Capitalismo, natureza e COVID-19: a crise biológica na crise social
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LUKÁCS, G. História e consciência de classe: Estudos sobre a dialética marxista. São
Paulo: Martins Fontes, 2003.
CRediT Author Statement
Reconhecimentos: Gostaria de agradecer ao meu orientador, Profº Dr. Antonio Ianni
Segatto e à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pelo
apoio.
Financiamento: O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior Brasil (CAPES) Código de
Financiamento 001.
Conflitos de interesse: Não há conflitos de interesse.
Aprovação ética: O trabalho não foi submetido a um comitê de ética.
Disponibilidade de dados e material: Todos os livros precisam ser adquiridos, os artigos
e sites podem ser acessados através dos links indicados nas referências.
Contribuições dos autores: Letícia Luciano foi responsável pela leitura das obras, pela
redação e revisão do texto.
Processamento e editoração: Editora Ibero-Americana de Educação.
Revisão, formatação, normalização e tradução.
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CAPITALISM, NATURE AND COVID-19: THE BIOLOGICAL CRISIS IN THE
SOCIAL CRISIS
CAPITALISMO, NATUREZA E COVID-19: A CRISE BIOLÓGICA NA CRISE SOCIAL
CAPITALISMO, NATURALEZA Y COVID-19: LA CRISIS BIOLÓGICA EN LA CRISIS
SOCIAL
Letícia LUCIANO1
e-mail: leticia.luciano@unesp.br
How to reference this paper:
LUCIANO, L. Capitalism, nature and COVID-19: the biological
crisis in the social crisis. Rev. Sem Aspas, Araraquara, v. 13, n.
00, e024005, 2024. e-ISSN: 2358-4238. DOI:
https://doi.org/10.29373/sas.v13i00.19011
| Submitted: 06/02/2024
| Revisions required: 19/08/2024
| Approved: 15/10/2024
| Published: 28/11/2024
Editor:
Prof. Dr. Carlos Henrique Gileno
Deputy Executive Editor:
Prof. Dr. José Anderson Santos Cruz
São Paulo State University (UNESP), Araraquara SP Brazil. Department of Social Sciences. Bachelor’s
degree in Social Sciences.
Capitalism, nature and COVID-19: the biological crisis in the social crisis
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ABSTRACT: Significant environmental challenges characterize the 21st century. The social
crises, arising from or amplified by these problems, provide a portrait of the complexities of
our time. This article analyzes how the spheres of the natural and social environments are
interconnected, refuting the old conception of a "society separate from nature," as both feed
into each other. The COVID-19 pandemic is an example of a biological crisis embedded within
a broader social crisis: the crisis of capitalism. Both ecological and social issues result from the
complex interaction between society and nature.
KEYWORDS: Capitalism. Nature. COVID-19.
RESUMO: O século XXI é caracterizado por desafios ambientais significativos. As crises
sociais, decorrentes ou amplificadas por esses problemas, oferecem um retrato das
complexidades de nossa época. Este artigo analisa como as esferas do meio natural e social
estão interligadas, refutando a antiga concepção de uma “sociedade separada da natureza”,
uma vez que ambas se retroalimentam mutuamente. A pandemia da COVID-19 é um exemplo
da crise biológica inserida em uma crise social mais abrangente: a crise do capitalismo. Tanto
as questões ecológicas quanto as sociais resultam da interação complexa entre sociedade e
natureza.
PALAVRAS-CHAVE: Capitalismo. Natureza. COVID-19.
RESUMEN: El siglo XXI se caracteriza por desafíos ambientales significativos. Las crisis
sociales, derivadas o amplificadas por estos problemas, ofrecen un retrato de las
complejidades de nuestra época. Este artículo analiza cómo las esferas del medio natural y
social están interconectadas, refutando la antigua concepción de una “sociedad separada de
la naturaleza”, ya que ambas se retroalimentan mutuamente. La pandemia de COVID-19 es
un ejemplo de la crisis biológica insertada en una crisis social más amplia: la crisis del
capitalismo. Tanto los problemas ecológicos como los sociales resultan de la interacción
compleja entre la sociedad y la naturaleza.
PALABRAS CLAVE: Capitalismo. Naturaleza. COVID-19.
Letícia LUCIANO
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Introduction
The 21st century is marked by environmental crises of various origins and with diverse
consequences. According to the scientific consensus, issues such as the climate and energy
crises, deforestation, and the pollution of rivers, lakes, and oceans are becoming increasingly
evident. Despite the specific differences between regions and the agents responsible for each
problem, there is a noticeable structural crisis of nature and the environment, concurrent with
the intensification of contemporary social conflicts. In this context, it is necessary to question:
does the environmental collapse result from purely relative issues originating from the ‘natural
sphere’?
With the socio-historical legacies arising from the COVID-19 pandemic and its
entanglement with the capitalist mode of production, the following idea will be developed: the
natural environment and the social environment are not separate or “pure” spheres, but interact
in ways that result in structural modifications. The specific manner in which the capitalist mode
of production relates to nature will be examined based on Karl Marx’s concept of nature, as
analyzed by Rodrigo Duarte in his work Marx e natureza em O Capital (Marx and Nature in
Capital). This concept takes into account the logic of capital, which is always invasive,
imperative, and relentless, and how this specific dynamic of interaction with nature gives rise
to various social and biological phenomena. Chuang’s (2020) text, Contágio Social:
Coronavírus e a luta de classes microbiológica na China (Social Contagion: Coronavirus and
the Microbiological Class Struggle in China), will be used as support to reflect on capitalism
and nature in the contemporary world, as well as their diverse consequences and
phenomenological reach. The work A gente precisa lutar de todas as formas: Povos Indígenas
e o enfrentamento da covid-19 no Brasil (We Need to Fight in Every Way: Indigenous Peoples
and the Confrontation with COVID-19 in Brazil) will also be used to analyze another country’s
perspective in the same context, focusing on socio-environmental aspects.
The objective is to understand the interconnection between the natural and social
spheres, more specifically between nature and contemporary capitalist society. By mobilizing
Marxian thought, it is intended to demonstrate that this interconnection has been inherent to
capitalism since, at least, the form analyzed by Marx in the 19th century. The records related to
the COVID-19 pandemic aim to illustrate how this interconnection manifests in contemporary
times, highlighting its concreteness. It is important to emphasize that adopting the Marxian
perspective does not imply a moral critique of the relationship between capitalism and nature,
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but rather the demonstration that this interconnection results from the historicity attributed to
the concept of nature within the capitalist system.
The Natural and Social Environments
Human beings inhabit the environment in which they live. The construction of a house,
as we know it today, in its various forms and compositions, has an origin; its material is not
pre-formed. The bricks and other materials used in the construction of modern urban houses
undergo a series of manual and/or industrial processes before they can shelter most of the
population daily. These different substances are extracted and modified by human activitya
definition Karl Marx employs when conceiving part of the concept of labor within the capitalist
system. To inhabit planet Earth, not only in contemporary times but also in capitalist societies,
involves much more than simply occupying a given space; it entails appropriating that space by
extracting and transforming its resources and attributes to meet human needs, such as food,
production, and reproduction.
Unlike past eras, today, the entire planet is subjected to a specific mode of production.
In other words, we interact and relate to nature in a specific way to implement this systemic and
structural capitalist model. Even though there are countries that are explicitly communist or
socialist, the hegemony and impact of capitalism are so intense that such countrieslike China,
Vietnam, Laos, North Korea, and Cubastill suffer external interference from the dominant
economy, whether in the economic, social, or biological realms, as will be addressed in this
discussion. However, this does not imply that all ongoing environmental problems stem
exclusively from the capitalist system, nor that there are no resistances or spaces for struggle.
The goal here is to highlight how society appropriates the natural environment for global
production, considering the majority of countries within this system. As will be shown, this
mode of organization has a name and as demonstrated, a specific dynamic.
The text Contágio social: Coronavírus e a luta de classes microbiológica na China
(Social Contagion: Coronavirus and the Microbiological Class Struggle in China), by a Chinese
Marxist collective, describes in a synesthetic way how the logic of capital invades and
infiltrates, creating capillaries deep within the most distant forests, even shaping and enabling
the existence and propagation of viruses.
[...] First, it serves as an instructive opening in which we can review
substantial issues regarding how capitalist production relates to the non-
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human world on a more fundamental levelhow, in summary, the
“natural world,” including its microbiological substrata, cannot be
understood without reference to how society organizes its production
(because the two are, in fact, inseparable). At the same time, it serves
as a reminder that the only communism that deserves such a name is
one that encompasses the potential for a fully politicized naturalism
(Chuang, 2020, p. 20, our translation).
The fact is that the ‘natural sphere’ is already subordinated to a fully
globalized capitalist system that has managed to alter the foundations
of the global climate system and devastate so many pre-capitalist
ecosystems that what remains no longer functions as it once did. [...].
The reality, then, is that it is inappropriate to think of these areas as the
“natural periphery” of a capitalist system. Capitalism is already global
and totalizing. It no longer has a limit or boundary with any non-
capitalist, natural sphere beyond it [...] (Chuang, 2020, p. 46, our
translation).
The Chuang Collective elaborates on the idea that the origin of the COVID-19 pandemic
was not strictly a biological misfortune of nature, arising solely from “natural” combinations
and mutations, but rather a consequence of the subordination of the natural world to our mode
of production. The collective outlines the class struggle scenario in China, more specifically in
the city of Wuhan, known, along with three other Chinese cities, as a “furnace” due to its
intensely hot and humid summers. However, in the manifesto, this designation takes on a new
meaning, referring to the location of factory operations as “The Furnace,” a scorching
environment due to the concentration of steel industries within a concrete hub. As they assert:
“Beyond the four furnaces, then, lies a more fundamental furnace underlying the industrial
centers of the world: the evolutionary pressure cooker created by capitalist agriculture and
urbanization” (Chuang, 2020, p. 23, our translation).
Reflecting on the concept of nature can be complex, as its definition spans various fields
of knowledge, theoretical perspectives, and cultural understandings. The term itself carries a
multiplicity of meanings. In Western thought, nature has always been key to the development
of knowledge, both in the natural sciences and in the humanities, and, for the most part, the
starting point concerns the relationship between humans and nature. To discuss this concept
from a Marxian perspective, it is necessary, above all, to elaborate on the historicity of nature.
When addressing Karl Marx and his social theory on the workings of capitalism, one cannot
ignore his historical-dialectical materialist method, which implies analyzing the subject in
question in the light of history in order to understand its social dynamics.
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Rodrigo Duarte, in his work Marx e a Natureza em O Capital (Marx and Nature in
Capital), addresses the relationship between nature and history, highlighting the difference
between natural history and historical nature, that is, between the history “traversed” by nature
and the “historicity” as a “natural quality” of society. His starting point for such differentiation
is passages from Marx and Engels’ writings in Ideologia Alemã (The German Ideology), with
particular emphasis on one:
We know of only one science, the science of history. History can be
examined from two sides, divided into the history of nature and the
history of men. However, the two sides cannot be separated; as long as
men exist, the history of nature and the history of men will condition
each other reciprocally. The history of nature, the so-called natural
science, is not our concern here; but as for the history of men, it must
be examined (Engels; Marx, 2007, p. 86-87, our translation).
The geographical article História Natural, História da Natureza e História Ambiental:
três histórias sobre uma grande ideia (Natural History, History of Nature, and Environmental
History: Three Histories of a Great Idea), by Freitas (2014), also suggests the existence of a
“history of nature” (beyond environmental history, as explicitly stated in the title), the content
of which addresses how Western thought has approached the idea of nature throughout its
development. Duarte explains that in natural history, the focus is on the entire biological,
physical, and chemical trajectory of living beings, plants, and minerals throughout planetary
existence. In other words, it is the path traced by nature and the evolutionary journey that has a
history to be told and systematized. According to Freitas’s article (2014), in natural history,
before it became what we now call the natural sciences, the term was used as an umbrella
encompassing all aspects of the natural world within a vast area of knowledge, without the
necessary specifications. It was in the late 18th century that Georges Cuvier (1769-1832), in his
work Quadro elementar da história natural dos animais (Elementary Outline of the Natural
History of Animals), presented a more widely accepted definition, in which natural history, or
as he himself calls it:
‘Natural science’ or physics aims to study the mobile and extensive
beings we call bodies. This science is divided into general natural
history and particular natural history. The former considers the common
properties of most beings in isolation and examines each of their
properties. Particular physics or particular natural history aims to apply
the laws recognized by the various branches of general physics,
specifically to the numerous and varied beings that exist in nature, in
order to explain the phenomena presented by each of these beings. In a
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single view, general natural history encompasses all-natural bodies and
the common result of all their actions in the great whole of nature,
determining the laws of coexistence of their properties. It establishes,
among the different bodies, degrees of similarity, which allows them to
be classified. General natural history can only be completed once the
particular natural histories of all natural bodies have been finished
(Cuvier, 1798, p.1 4, our translation).
Thus, it is possible to affirm that until the mid-19th century, the core of natural history
and its definition revolved around a descriptive and enumerative construction. With the
deepening of studies about the natural world and the efforts of thinkers to discover the internal
structures of various species, as well as the functioning and formation of bodies and the
chemical and biological dynamics, natural history also became classificatory. Furthermore,
before the 20th century, it began to become individualized, specified, and divided, as the term
“natural history” became obsolete due to its generality and the standardization of knowledge.
Thus, natural sciences emerged, each with its specificity. On the other hand, the idea of nature
was developed and used in various ways throughout the historical trajectory of society and
knowledge, which Freitas (2014) refers to as the History of Nature.
In general terms, it can be stated that natural history revolves around the physical and
corporeal question, while the history of nature refers to the study of the relationship between
human beings and nature from a sociological perspective. Although it permeates other fields of
the humanities, such as philosophy and geography, in the latter, it involves the study of the
social relationship between the individual/group and the environment. Revisiting Duarte’s
characterization, historical nature is precisely what interests us in making the fundamental
connection between Marxian/Marxist thought and ecology. The meaning attributed to the word
“nature” refers to what is natural, based on the Latin term natura, nato. In other words, human
beings are naturally historical, possessing a historical origin. The use of the term nato does not
imply innate, as if human beings were born with history embedded in their supposed “spirits,”
but rather that, as social beings, they are native to history, just as history is native to human
beings.
In this sense, not only do human beings have a historical nature, but nature itself does
as well. That is to say, rivers, seas, plants, animals, and minerals possess a historical nature, as
they maintain a dialectical and intimate relationship with human activity in their environment.
Their changes, effects, and crises are, to a large extent, the results of human action on the planet
Earth, an action that, in turn, is also historical. In História e Consciência de Classe: Estudos
sobre a dialética marxista (History and Class Consciousness: Studies in Marxist Dialectics),
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Georg Lukács points out that history serves not merely as a descriptive tool for the socio-
historical context surrounding an object, in this case, a social relationship to be studied, but as
the very root of which all social relations derive. With this, Lukács offers a rich interpretation
of Marx’s historical-materialist dialectical method, explaining how dialectics is historical and
how history is movement, construction, and process.
[...] a historical critique. It primarily dissolves the fixed, natural, and
unrealized character of social formations; it unveils them as historically
arisen and, as such, subject to historical becoming in all aspects, thus as
formations predestined for historical decline. Therefore, history does
not occur merely within the scope of validity of these forms, according
to which history would mean only the change of contents, people,
situations, etc., with eternally valid social principles. [...]. Rather, it is
precisely the history of these forms, their transformation as forms of
human social organization, as forms that, initiated from objective
economic relations, dominate all relations among men (and thus also
the relations of men with themselves, with nature, etc.) (Lukács, 2003,
p. 135- 36, our translation).
Nature has been and continues to be part of society's historical and dialectical process.
This implies that nature is not purely biological, geographical, physical, or chemical; its analysis
and study are not limited to “natural” aspects, because, in society, nothing is purely natural,
including nature itself, in terms of its functioning or developments, but also its historical aspect.
Thus, nature is also historical and social.
The dialectical relationship between the natural and social environment does not imply
that it occurs between diametrically opposed poles or extremes. The explanation of historical
nature (both of human beings and nature) reveals the view that nature and history are not
contradictory and separate concepts, as if the only circumstance in which they interacted were
in a “yin and yang” figure. Both are simultaneous. That is, neither Natural History nor the
History of Nature should dissolve into the perspective of the historical nature of society, the
“history of humanity,” or vice versa, because, in reality, the history of humanity is also the
history of naturenot only as it has been described until now, but in the sense that nature
constitutes human history, being intrinsically linked to our subsistence and mode of production.
As mentioned, nature has historicity and constitutes the stage on which social life
develops, not merely as a backdrop or setting but also as both medium and content. The way
we interact with and act upon nature has not always been the same, both chronologically and
geographically, due to various social and cultural reasons. Thus, according to each mode of
production and reproduction, the rhythm and dynamics between society and nature change and
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possess their own specificity. The mode of production in a given society refers to a systemic
aspect, the result of a historical and social construction. The interaction between human beings
and nature has always existed, as our origin is planetary, but this interaction changes according
to the historical period. In the early stages of humanity, the alterations made to the environment
by humans were minimal and limited to what was necessary for subsistence. With the advent
of agriculture, a mutation occurs: gradually, the individual’s action upon nature grows and
intensifies. More than that, with the emergence of the capitalist system and the incorporation of
agriculture into this mode of production, the need for production to extract surplus value arises,
in line with the capital’s incessant search for profit.
In capitalism, it is important to emphasize that this relationship, just like the relationship
between human beings and nature, after all, human beings construct their history, is mediated
by industry, which, in turn, is driven by the logic of capital. This mode of production is not
merely about the individual’s activity in the physical environment but, above all, about the
action of capital upon nature.
The Meeting of Two Corners of the World
The intrinsic need of capitalism to relentlessly pursue the creation of surplus value and
capital accumulation, combined with the process of appropriation of nature, inevitably results
in an excess of “extraction” and the use of natural resources, beyond what is necessary to meet
human needs and the planet’s limits. This does not imply endorsing the view of so-called
“radical environmentalists,” who argue that the only solution to environmental problems is to
entirely abandon technologically developed life, but rather to uphold the perspective that the
production and reproduction of society should not be guided by the logic of capital. In the 21st
century, when we speak of “human needs,” we refer not only to physiological needs.
Colonialism, led by the countries of the Global North—referred to as “developed”
nations, as exemplified in the work Modo de vida Imperial: sobre a exploração de seres
humanos e da natureza no capitalismo global (Imperial Lifestyle: On the Exploitation of
Human Beings and Nature in Global Capitalism), has already highlighted its characteristics of
both human and environmental exploitation and domination. Ricardo Junior de Assis Fernandes
Goncalves, in Capitalismo extrativista na América Latina e as contradições da mineração em
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grande escala no Brasil (Extractivist Capitalism in Latin America and the Contradictions of
Large-Scale Mining in Brazil), emphasizes that:
Since the European conquerors set foot on the soils of the American
continent and the Caribbean islands at the end of the 15th and beginning
of the 16th century, history has continually illustrated pages of conflicts
and genocide of the indigenous peoples, depletion of fertile soils,
metals, and precious stones (Gonçalves, 2017, p. 4, our translation)
The colonial logic is intertwined with the logic of capital. The expropriation of lands,
forests, soils, lakes, animals, and people is an ancient history that persists and impacts
indigenous peoples to this day. In Brazil, this process unfolded over centuries, transitioning
from complete domination and slavery to stigmatization, exclusion, neglect, and tutelage.
With the advent of capitalism, the State emerged as an instrument of the system for
reproducing and disseminating the interests of the dominant class. Since its establishment, the
State has appropriated discussions about the rights and duties of Brazil’s indigenous peoples,
justifying its actions under the idea of tutelage. According to Celia Correa, an indigenous
Xakriabá activist from Minas Gerais and current federal deputy for the Socialism and Liberty
Party (PSOL), in her dissertation titled O Barro, o Genipapo e o Giz no Fazer Epistemológico
de Autoria Xakriaba: Reativação da Memória por uma Educação Territorializada (The Clay,
the Genipapo, and the Chalk in the Epistemological Making of Xakriabá Authorship:
Reactivation of Memory through a Territorialized Education), state tutelage, disguised as
protection and care, aims to dominate and imprison, even denying access to public policies
“with authority.”
When we discuss the process of tutelage, it becomes evident that the
State, since its inception, has always operated with an institutional
arrangement grounded in Western legal parameters, appropriating our
traditional justice systems in order to exercise and perpetuate colonial
domination, taking control of our lives and matters that concern us.
Although there are significant processes that express resistance from
indigenous peoples, the Brazilian State has not incorporated legal
standards to end tutelage, as we still live under systemic tutelage from
a political structure perspective. This is evident when we are subject to
decision-making processes regulated by the National Congress, through
the ruralist bench, as we can observe in the repeated tutelary and racist
speeches, recently made public in the debate over the so-called
“temporal framework” (Correa, 2018, p. 64, our translation).
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Genocide, in general, is a term that, within the context of Brazilian Portuguese, refers
to “the murder of a people by the government,” motivated by ethnic, racial, cultural, or other
factors. This act can occur directly, through physical violence, or indirectly, as when there is
negligence in public policy. Tutelage, in addition to being a strategy of control, can be
associated with a mechanism for state-sanctioned genocide, activated by the State when it is
convenient. The very characterization of Indigenous peoples by the State constitutes an erasure
of these peoples, as they are often classified as brown” or are not counted at all by health
agencies or for statistical purposes. This generates difficulties, for example, in the allocation of
public health resources meant for this population.
As a result of the COVID-19 pandemic, thousands of Brazilians lost their lives, but
indigenous peoples, due to their isolation and increased vulnerability to infections, became even
more exposed to the virus. Furthermore, the Brazilian population was denied access to vaccines,
which were already available, for months due to the political interests of former President Jair
Messias Bolsonaro, who contributed to the scientific denialism surrounding vaccination.
According to the website of the Socio-Environmental Institute (ISA):
COVID-19 spread among indigenous peoples. We show how the
Brazilian State was not only negligent but helped the virus spread.
Three cases were the most common: health professionals who brought
the virus to villages, gold miners and land grabbers who increased
invasions during the pandemic, and Indigenous people who became
infected when seeking emergency aid in the city (ISA, 2020, our
translation).
In other words, hundreds of years later, history repeats itself, now with neocolonialism
and neo-extractivism. The virus, originating from the other side of the world in the industrial
furnace, stemming from capitalist appropriation of nature and the large industries that exploit
natural resources and their toxic mixtures, reaches the peoples of Latin America once again.
And now, when they should have the protection supposedly offered by the State, or the infallible
and democratic biotechnology of the major pharmaceutical companies holding vaccine patents,
these peoples died in 2020 as they had died in 1500.
A Gente Precisa Lutar de Todas as Formas: Povos Indígenas e o Enfrentamento da
covid-19 no Brasil (We Need to Fight in Every Way: Indigenous Peoples and the Fight Against
COVID-19 in Brazil), is a descriptive and detailed analysis of the impacts of the pandemic on
Brazil’s indigenous peoples. The study provides dates of the first deaths, reliable and precise
Capitalism, nature and COVID-19: the biological crisis in the social crisis
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sources, underreporting of deaths, governmental negligence, Indigenous meetings, and
assemblies, as well as reports from miners and land grabbers during the pandemic.
On the 9th, a 15-year-old Yanomami youth also died from COVID-19.
In a statement, the APIB (Articulation of Indigenous Peoples of Brazil)
reported that this was the third Indigenous life lost to the new
coronavirus in less than a month, denouncing that only this case was
registered by SESAI (Special Secretariat for Indigenous Health)
because the individual was a ‘settled’ Indigenous person. The document
also highlighted the existence of illegal mining activities near the young
man’s village, reinforcing the need to protect indigenous territories and
remove invaders from the Yanomami Indigenous Land, which has been
facing a new gold rush (Alarcon; Pontes, 2022, p. 48, our translation).
The cause of death during the COVID-19 pandemic cannot be attributed solely to the
viral action on the human body. Contagion is not only biological but also social. The cited text
highlights the relationship with nature and its consequences for the indigenous peoples of
territories targeted by illegal mining. Brazil has long been contaminated by the logic of
exploitation and domination of nature, initially by the colonial imperative and today by the
colonial/capitalist imperative.
On one hand, Wuhan, as a manifestation of the great industry of the 21st century, is the
stage for industries producing electric and hybrid cars. Ironically, the proposed benefit of these
products is clean mobility, which would cause less harm to nature and, consequently, to life
itself. However, their production mode continues to contribute to the deterioration of both, with
an environment conducive to dangerous biological mutations and unpredictable consequences
resulting from the relentless exploitation of workers, as suggested by Chuang (2020). On the
other hand, in Brazil’s forests, large-scale fires occurred in 2020 that, instead of the humid heat
of the Chinese furnace, brought dry heat, forming a smoke screen that, along with the chaos of
COVID-19 in the country, highlighted the genocide of Indigenous populations and/or those
near deforestation zones, as a consequence and contribution (in the logic of capital) of illegal
extractivism and mining.
Final considerations
Duarte's reading of the concept of nature in Marxist thought allows for a deeper analysis
of the relationship between society and nature, understanding it as more than a mere interaction.
It enables the recognition of the fallacy of a strict separation between these two domains, both
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as objects of study and as ways of interpreting the world. The history of nature and the historical
nature of society corroborate this position.
However, it is not enough to merely highlight the intrinsic relationship between the
natural environment and the social realm; one must also recognize that, since they are
inseparable, both are shaped by a historical dynamic specific to the mode of production, which
spreads and infiltrates beyond the economic sphere, potentially affecting an entire ecosystem
in addition to the social form. Capitalism not only alters the natural environment but also
operates without restraint, as the logic of the system is accumulation, which implies the
relentless invasion and transgression of natural boundaries to sustain constant production,
aiming to achieve the overarching goal of capitalist functioning.
Brazil's forests are not so different from the 'great furnace.' Despite the contrast between
the green on one side and the gray on the other, divided by nearly half the circumference of a
blue ocean, both territories share the same exposure to the risk of life, which is not confined to
these geographic spaces. Each of them can be the stage for the beginning, middle, and end of
the production of biosociological catastrophes. The continuous alteration of nature by large
industry results in unpredictable consequences for the health of the planet, living beings, and
social relations, such as the working conditions of the proletarians in Wuhan, the lives of the
inhabitants, and the environment conducive to the development of harmful viruses, or the
genocide of the Brazilian and indigenous populations due to COVID-19 and the 'gold rush' (and
many other minerals and deforestation) in the years 2020, 2021, and 2022.
Capitalism, nature and COVID-19: the biological crisis in the social crisis
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indígenas e o enfrentamento da Covid-19 no Brasil. 1. ed. São Paulo: Hucitec, 2022.
CHUANG, C. Contágio social: Coronavírus e a luta de classes microbiológica na China.
Trad. Amauri Gonzo. São Paulo: Veneta, 2020. (Coleção Baderna).
CORREA, C. N. O barro, o genipapo e o giz no fazer epistemológico de autoria
Xakriabá: reativação da memória por uma educação territorializada. 2018. 218 f., il.
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CRediT Author Statement
Acknowledgements: I would like to thank my advisor, Prof. Dr. Antonio Ianni Segatto,
and the Coordination for the Improvement of Higher Education Personnel (CAPES) for
their support.
Funding: This work was conducted with the support of the Coordination for the
Improvement of Higher Education Personnel Brazil (CAPES) Funding Code 001.
Conflicts of interest: There is no conflict of interest.
Ethical approval: This work was not submitted to an ethics committee.
Availability of data and material: All books must be purchased; articles and websites can
be accessed through the links provided in the references.
Author contributions: Letícia Luciano was responsible for reading the works, writing, and
reviewing the text.
Processing and editing: Editora Ibero-Americana de Educação.
Proofreading, formatting, normalization and translation.