Rev. Sem Aspas, Araraquara, v. 13, n. 00, e024007, 2024. e-ISSN: 2358-4238
DOI: https://doi.org/10.29373/sas.v13i00.19760 1
PODER LOCAL E MODERNIZAÇÃO: A CONTRIBUIÇÃO DE LEAL E QUEIROZ
PARA A SOCIOLOGIA POLÍTICA BRASILEIRA
PODER LOCAL Y MODERNIZACIÓN: LA CONTRIBUCIÓN DE LEAL Y QUEIROZ A
LA SOCIOLOGÍA POLÍTICA BRASILEÑA
LOCAL POWER AND MODERNIZATION: THE CONTRIBUTION OF LEAL AND
QUEIROZ TO BRAZILIAN POLITICAL SOCIOLOGY
Bruno CAMARGOS 1
e-mail: bruno.camargos23@gmail.com
Como referenciar este artigo:
CAMARGOS, B. Poder local e modernização: a contribuição de
Leal e Queiroz para a sociologia política brasileira. Rev. Sem
Aspas, Araraquara, v. 13, n. 00, e024007, 2024. e-ISSN: 2358-
4238. DOI: https://doi.org/10.29373/sas.v13i00.19760
| Submetido em: 17/10/2024
| Revisões requeridas em: 19/11/2024
| Aprovado em: 21/11/2024
| Publicado em: 10/12/2024
Editor:
Prof. Dr. Carlos Henrique Gileno
Editor Adjunto Executivo:
Prof. Dr. José Anderson Santos Cruz
Universidade de Brasília (UnB), Brasília DF Brasil. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Mestre em
Sociologia.
Poder local e modernização: a contribuição de Leal e Queiroz para a sociologia política brasileira
Rev. Sem Aspas, Araraquara, v. 13, n. 00, e024007, 2024. e-ISSN: 2358-4238
DOI: https://doi.org/10.29373/sas.v13i00.19760 2
RESUMO: Este artigo analisa duas obras clássicas da literatura sociológica brasileira sobre o
poder local: “Coronelismo, Enxada e Voto” (1949) de Victor Nunes Leal e “Mandonismo local
na vida política brasileira e outros ensaios” (1976) de Maria Isaura Pereira de Queiroz. A partir
da análise desses ensaios e de suas revisões críticas selecionadas previamente, buscou-se
discutir os distanciamentos e as aproximações da discussão destes autores sobre o poder local
ao longo da história brasileira, assim como os limites e as possibilidades de sua contribuição
para a discussão sociológica sobre o poder local contemporâneo. Foi observado que essas obras
oferecem um arcabouço teórico-metodológico sólido para a compreensão do poder político
local, fundamentado na perspectiva da totalidade. No entanto, diante das transformações
sociais, urbanas e midiáticas recentes, há necessidade de recontextualizar e revisar criticamente
esses estudos clássicos para melhor abordar as questões contemporâneas relacionadas ao poder
local no Brasil.
PALAVRAS-CHAVE: Poder local. Política municipal. Victor Nunes Leal. Maria Isaura
Pereira de Queiroz. Sociologia brasileira.
RESUMEN: Este artículo analiza das obras clásicas de la literatura sociológica brasileña
sobre el poder local: "Coronelismo, Enxada e Voto" (1949) de Victor Nunes Leal y
"Mandonismo local na vida política brasileira e outros ensaios" (1976) de Maria Isaura
Pereira de Queiroz. A partir del análisis de estos ensayos y de sus revisiones críticas
previamente seleccionadas, se buscó discutir los distanciamientos y las aproximaciones en la
discusión de estos autores sobre el poder local a lo largo de la historia brasileña, así como los
límites y las posibilidades de su contribución a la discusión sociológica sobre el poder local
contemporáneo. Se observó que estas obras ofrecen un marco teórico-metodológico sólido
para la comprensión del poder político local, fundamentado en la perspectiva de la totalidad.
Sin embargo, frente a las recientes transformaciones sociales, urbanas y mediáticas, es
necesario recontextualizar y revisar críticamente estos estudios clásicos para abordar mejor
las cuestiones contemporáneas relacionadas con el poder local en Brasil.
PALABRAS CLAVE: Poder local. Política municipal. Victor Nunes Leal. Maria Isaura
Pereira de Queiroz. Sociología brasileña.
ABSTRACT: This article analyzes two classic works of Brazilian sociological literature on
local power: “Coronelismo, Enxada e Voto” (1949) by Victor Nunes Leal and “Mandonismo
local na vida política brasileira e outros ensaios” (1976) by Maria Isaura Pereira de Queiroz.
Based on the analysis of these essays and their previously selected critical reviews, this study
aims to discuss the divergences and convergences in these authors' views on local power
throughout Brazilian history, as well as the limits and possibilities of their contributions to
contemporary sociological discussions on local power. It was observed that these works offer
a solid theoretical and methodological framework for understanding local political power,
grounded in the perspective of totality. However, given recent social, urban, and media
transformations, there is a need to recontextualize and critically review these classic studies to
better address contemporary issues related to local power in Brazil.
KEYWORDS: Local power. Municipal politics. Victor Nunes Leal. Maria Isaura Pereira de
Queiroz. Brazilian sociology.
Bruno CAMARGOS
Rev. Sem Aspas, Araraquara, v. 13, n. 00, e024007, 2024. e-ISSN: 2358-4238
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Introdução
Este trabalho empreende um mapeamento do debate sociológico acerca do poder
político local a partir de duas obras clássicas da literatura brasileira: Coronelismo, Enxada e
Voto(1949), do jurista mineiro Victor Nunes Leal, e Mandonismo local na vida política
brasileira e outros ensaios(1976), da socióloga paulista Maria Isaura Pereira de Queiroz. Com
isso, intenta-se estabelecer um diálogo entre as abordagens destes autores acerca dessa
problemática e avaliar sua contribuição teórico-metodológica para os estudos sociológicos
empíricos sobre o poder local no contexto do Brasil urbanizado. O que motiva esta pesquisa é
a carência, apesar da relevância, de estudos sobre essa temática, tanto no que se refere ao poder
local enquanto poder municipal, uma vez que a Constituição de 1988 delega aos municípios
grande parte da responsabilidade pela oferta dos serviços básicos e pela implementação das
políticas públicas; quanto ao poder local enquanto base estruturada e estruturante de
mobilização política, onde se constroem subjetividades e lideranças políticas a partir da
interação entre tendências culturais globais e idiossincrasias de estratos sociais delimitados
espacialmente.
A retomada dos estudos de Leal e Queiroz não se dá por acaso, nem apenas por se tratar
de literaturas clássicas para a discussão do poder político local, mas porque ambos informam
uma perspectiva metodológica centrada na totalidade ao tratar de um fenômeno social
específico, isto é, o coronelismo, evitando polarizações analíticas (Carvalho, 1980; Botelho,
2007). Em Leal, o coronelismo é analisado a partir da combinação entre o arranjo político-
institucional federalista da Primeira República e a estrutura social e econômica
predominantemente agrária (Carvalho, 1997; Marino; Pereira, 2020); enquanto em Queiroz, o
fenômeno é avaliado desde a articulação entre a estrutura social e econômica e os sentidos
normativos que os agentes sociais empregam às suas práticas políticas (Botelho; Carvalho,
2011). Quando considerados em conjunto, estes trabalhos apontam um caminho metodológico
profícuo para a investigação sociológica dos fenômenos políticos locais a partir de sua
consideração como produtos da combinação entre arranjo político-institucional, configuração
social e econômica e normatividade que sustenta as práticas sociais dos indivíduos, sem que
qualquer desses elementos sejam entendidos como dispensáveis ou como faces de
antagonismos irreconciliáveis.
Os impactos da urbanização, das mudanças institucionais e do desenvolvimento dos
meios de comunicação e da cultura de massa, observados no Brasil ao longo das últimas cinco
décadas (Kerbauy, 2016), tornam imperativa a contextualização desses estudos, bem como uma
Poder local e modernização: a contribuição de Leal e Queiroz para a sociologia política brasileira
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revisão da literatura sobre os autores e a temática em questão. Isso é necessário para
compreender as possibilidades e os limites da aplicação do instrumento metodológico acima
mencionado diante das novas questões que se apresentam ao poder político local no Brasil
contemporâneo. Dessa forma, este artigo propõe discutir as seguintes questões: quais são as
afinidades e os pontos de divergência nas discussões desenvolvidas por Leal e Queiroz? Quais
são os limites e as possibilidades de suas contribuições para a análise sociológica do poder local
na Nova República?
Essas problemáticas são discutidas neste artigo a partir de um estudo sociológico
fundamentado na leitura de uma bibliografia levantada previamente, que consiste nos escritos
de Victor Nunes Leal (1949; 1980) e de Maria Isaura Pereira de Queiroz (1976), nos artigos
que revisaram criticamente a obra desses autores (Bôas, 2014; Botelho, 2007; Botelho;
Carvalho, 2011; Brasil Jr.; Botelho, 2016; Limongi, 2012; Marino; Pereira, 2020; Ortiz, 2020)
e nos artigos sobre “poder local”, “poder municipal”, “mandonismo”, “coronelismo” e
“clientelismo” (Borges, 2010; Braga et al., 2013; Carvalho, 1997; Dombrowski, 2008; Lopez,
2004; Lopez; Almeida, 2017; Ottmann, 2006; Santos, 2013). Todos publicados nos periódicos
científicos de ciências sociais indexados na plataforma SciELO.
Na primeira parte deste artigo, busca-se apresentar sumamente os ensaios
Coronelismo, Enxada e Voto(1949) e Mandonismo local na vida política brasileira e outros
ensaios (1976), assim como compará-los a fim de explorar suas aproximações e
distanciamentos teóricos, de modo que seja possível compreender o contexto sociopolítico com
o qual Leal e Queiroz dialogam. E, na segunda parte, apoiando-se na literatura revisada,
exploraremos os limites e as possíveis contribuições desses ensaios para a agenda sociológica
contemporânea sobre o poder local.
O coronelismo de Leal e Queiroz
Victor Nunes Leal e Maria Isaura Pereira de Queiroz discutiram o poder político local
na ocasião de redemocratização do Brasil após os anos de autoritarismo do Estado Novo. Leal
o fez em 1948, com a construção da tese intitulada O município e o regime representativo no
Brasil: contribuição ao estudo do coronelismo”, apresentada no concurso para a cadeira de
Ciência Política da Faculdade Nacional de Filosofia, que ele ocupava interinamente desde 1943.
Sendo um jurista, sua preocupação privilegiada foi a autonomia administrativa, política e
financeira dos municípios no momento de mudança constitucional que marcava o país. Por
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outro lado, em Queiroz, a questão do poder local compõe uma agenda de pesquisas apresentada
pela primeira vez no I Congresso Brasileiro de Sociologia, em 1954. Documentada nos anais
do evento sob o título Contribuição para o Estudo da Sociologia Política no Brasil”, sua
exposição reivindica um programa de pesquisa sociológica sobre os fenômenos políticos
brasileiros, que os compreendam como produtos da totalidade social, influentes e influenciados
pelos outros setores da vida social, e que tenham como objeto o passado político brasileiro, a
fim de possibilitar a construção de um pano de fundo para os estudos políticos sobre o presente.
Para isso, o locus privilegiado de investigação deveria ser o município, considerado o
núcleo de desenvolvimento da política brasileira desde a colônia. Um dos produtos desse
ambicioso projeto foi o ensaio Mandonismo local na vida política brasileira”, publicado em
1969. Além da convergência em relação ao período em que estes autores escreveram, destaca-
se que tanto Leal quanto Queiroz, nas obras acima citadas, recorrem à análise histórica para
enfatizar o que seria para eles o elemento constante da política brasileira: o amesquinhamento
da autonomia municipal e o mandonismo local, respectivamente.
A avaliação histórica que Leal apresenta, discute as ampliações e restrições da
autonomia municipal no Brasil. Segundo ele, nos primeiros anos coloniais as câmaras
municipais foram dominadas pelos senhores rurais e respondiam por todos os assuntos de
ordem local, não havendo separação dos poderes em função legislativa, executiva e judiciária.
Então, os latifundiários dispunham de funções públicas de qualquer natureza, limitadas pela
definição confusa de suas atribuições. Apesar das câmaras serem subordinadas à Metrópole, o
poder de suas autoridades era onipotente e se utilizava das câmaras para empreender atos legais
e extralegais no território.
A partir da metade do século XVII, essa situação começa a ser modificada
paulatinamente, em grande medida por conta da divergência entre os interesses dos
colonizadores e dos colonos que se intensificou com o desenvolvimento da economia colonial.
Então, a Metrópole passou a afirmar a autoridade estatal contra a autoridade dos patriarcas,
iniciando um “processo de vitalização da autoridade pública e decadência do poder privado”
(Leal, 2012, p. 83), assim como das câmaras municipais, acelerado ao longo do século XIX.
Durante o Império, a autonomia municipal foi sacrificada em favor do fortalecimento
das províncias diante do Governo Geral. Os presidentes de província, por sua vez, continuaram
sendo protagonistas do cenário provincial, tendo como função política mais importante
“garantir a vitória eleitoral dos candidatos apoiados pelo governo [poder central]” (p. 89). Na
Primeira República, a fraqueza dos municípios foi mantida, apesar da vitória da tendência
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federalista. A discussão sobre a autonomia municipal foi interessante aos constituintes de 1890,
mas as exigências imprecisas da Constituição federal deixaram os Estados à vontade para
regular sobre essa questão, que rapidamente alteraram suas constituições de modo a reduzir a
autonomia dos municípios.
Dessa forma, os governos Estaduais passaram a tutelar as comunas de acordo com o
interesse político dos legisladores na concentração de poder pelo Estado. Esta concentração era
interessante aos governos estaduais por razões eleitoreiras. O antigo presidente de província,
nomeado pelo Imperador, tornou-se governador de Estado, investido por eleição. Neste cenário,
entra em cena o sistema coronelista, pois os chefes políticos locais controlavam maços de votos
de cabresto.
Antes de pormenorizar o conceito de coronelismo, é importante mencionar que Queiroz
(1976) diverge com Leal em relação ao enfraquecimento do poder dos senhores rurais diante
do fortalecimento do poder público central. Seu argumento é de que o mandonismo local
concorreu, em todos os períodos históricos do Brasil, com o poder central, mas sempre se
afirmou como o poder mais forte. O poder central, durante a colônia, nunca conseguiu se
instalar plenamente; no Império, ele se entrelaçou com o mandonismo no amálgama localismo-
centralismo; e, na Primeira República, ele se afirmou enquanto poder independente do
mandonismo, mas não pôde prescindir desse para atuar, fundando o coronelismo.
Assim como Leal, ela afirma que, nos primeiros anos de colonização, os proprietários
rurais exerciam inteira autoridade sobre o território colonial. No entanto, contra a abordagem
de Leal, ela pondera que as medidas rígidas e severas adotadas pela Metrópole contra os
latifundiários não foram eficazes contra seu poder durante o período colonial e afirma que
houve um aumento de poder dos senhores rurais durante o Império, ultrapassando os limites
locais da administração e alcançando as províncias e o próprio Império por meio dos “políticos
profissionais”. Na primeira república, governo e proprietários rurais, agora chamados de
coronéis, continuaram sendo sinônimos, com a diferença de que não eram mais os senhores de
engenho do nordeste e os cafeicultores fluminenses que formavam a elite política, mas os
latifundiários paulistas. Para sustentar esse cenário, o governo da República se apoiava no
governismo - ou coronelismo.
O que se deduz dessas trajetórias é que o coronelismo não surge por acaso. É um
fenômeno que se baseia em estruturas sociais constituídas ao longo de vários séculos, em
especial o mandonismo, cujo efeito sistêmico foi o enfraquecimento da autonomia municipal.
Nesse sentido, o enfraquecimento das câmaras não necessariamente significa fraqueza do poder
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privado em relação ao poder público central. Além disso, dizer que o mandonismo foi um
fenômeno constante na vida política brasileira não significa dizer que a concentração do poder
político nas mãos dos latifundiários se manteve durante a história de forma estável.
Conforme argumenta Queiroz (1976, p. 22), a força econômica representava o esteio da
política e, então, na medida em que esta força se deslocava no tempo e no espaço em razão da
“ascensão de diferentes produtos e de diferentes zonas”, a elite política se renovou,
caracterizando períodos de desajustamento e crise que logo se acomodava quando o governo
passava às mãos dos representantes da zona econômica mais próspera. De acordo com esta tese,
o arranjo político da Primeira República foi resultado das demandas dos fazendeiros do Oeste
Paulista. Esse sistema combinou a ampliação dos quadros eleitorais e a manutenção do modelo
de exploração agrícola colonial, gestando um cenário em que grande parte dos eleitores estavam
dependentes dos fazendeiros para sobreviver. Nesse sentido, o sufrágio “universal” teve como
efeito o aumento do mero de eleitores rurais às ordens do mandão político. Daí a célebre
definição de Leal (2012), segundo a qual o coronelismo é um sistema de poder que tem origem
na combinação inadequada do regime representativo sobre uma estrutura econômica agrária.
De forma geral, o coronelismo descrito por Leal (2012) configura-se como um sistema
de “governismo”, nos termos de Queiroz (1976), que articula a relação entre o coronel, o
governador de Estado e o Presidente da República. Por um lado, se eram os fazendeiros que
decidiam o resultado das eleições, os presidentes de Estado e os deputados necessitavam
cortejá-los; no plano nacional, o mesmo ocorria na relação do Presidente da República com os
presidentes de Estado. Por outro lado, de fato, a dependência dos municípios em relação aos
Estados aumentou, pois o governo estadual possuía o “cofre das graças [para os favorecimentos]
e o poder da desgraça [para as perseguições]” (Leal, 2012, p. 63). Então, os fazendeiros
necessitavam cortejar os presidentes de Estado.
Tendo em vista o desconforto de ter o governo estadual como oposição, as guerras
travadas entre os chefes locais no município disputavam a preferência do governo do Estado.
Queiroz (1976) argumenta que esse sistema permitiu aos fazendeiros do Oeste Paulista
exercerem domínio sobre a política nacional, uma vez que gerou a necessidade de os municípios
estarem em harmonia com o governo estadual para que os chefes políticos eleitos para as
câmaras municipais e assembleias legislativas tivessem seus pleitos reconhecidos. De forma
similar, o governo estadual precisava estar alinhado com o Presidente da República para que
seus representantes federais (deputados e senadores) fossem devidamente diplomados.
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Em caso de desacordo entre os governos, os pleitos eram anulados. Como se observa, o
governo estadual era responsável por equilibrar as forças dos chefes políticos municipais e do
governo central. Para isso, os governadores, por um lado, apoiavam os chefes políticos
municipais mais fortes, vitoriosos, e, por outro lado, apoiavam constantemente o governo
central. Mas por quê foram especificamente os fazendeiros de São Paulo e seus aliados que
alcançaram o topo deste sistema de poder? Segundo Queiroz (1976), a máquina administrativa
foi tomada pelos representantes das lavouras cafeeiras porque nelas se concentrou, neste
período, a maior riqueza e, consequentemente, a maior densidade demográfica do país. Em suas
palavras, “toda a vida nacional girava em torno do café porque o café era a riqueza nacional”
(idem, p. 131). Por isso, por meio do governismo, mesmo nos menores municípios do Norte, só
eram eleitos simpatizantes dos paulistas.
É necessário ainda responder quais eram os interesses de Leal e Queiroz ao discutir o
poder local na Primeira República. Quanto a essa questão, destaca-se, no plano cognitivo, o
interesse em compreender o caráter conservador da modernização brasileira (Botelho;
Carvalho, 2011); e, no plano político, o anseio por uma efetiva democratização do país naquele
momento de transição do rural ao urbano. A “democratização”, em Leal, é entendida como
sinônimo da eliminação da estrutura social agrária, para a qual a industrialização e a
urbanização se apresentaram como etapas necessárias, atuando como elementos de
desintegração do mandonismo e, consequentemente, do coronelismo, em prol de um
federalismo adequado.
Leal (2012) considera que o sistema coronelista foi sendo enfraquecido paulatinamente
a partir dos processos de urbanização e industrialização do Brasil, acompanhados por mudanças
políticas evidenciadas pelo declínio da influência governista nas eleições estaduais e pela
execução do Código Eleitoral de 1932. A Constituição de 1946, por sua vez, atuou nesse mesmo
sentido, contudo diversos aspectos deste ordenamento jurídico preocupavam o autor em relação
a um possível retorno do sistema de tutela municipal. Somado a estes, a pobreza do povo,
especialmente dos camponeses, também se apresentava para o autor como um obstáculo para a
ampliação do espírito público e democrático do país.
Queiroz (1976), por outro lado, é mais pessimista em relação à identidade entre
urbanização e democratização. Em primeiro lugar, porque ela observa que a Revolução de 1930
ocorreu graças à adesão dos velhos coronéis. Embora tenha sido um movimento heterogêneo,
sua pedra de toque foi a Crise de 1929 que, ao mesmo tempo, desvalorizou o café e impediu a
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manutenção da política pública de valorização do café o que culminou no rompimento do
apoio dos fazendeiros governistas ao paulista Júlio Prestes.
Nesse sentido, embora a Revolução de 1930 não tenha sido produto de uma mudança
significativa na estrutura social e econômica, ela também fez parte de um processo gradual de
adaptação do coronel às novas condições de vida. Além disso, mesmo que houvesse uma
transformação na estrutura social agrária, a democratização do país não estaria automaticamente
assegurada. Embora a industrialização, o surgimento da pequena propriedade policultora e a
urbanização tenham suscitado, a partir de 1930, especialmente em o Paulo, o
desaparecimento da solidariedade familiar, esta foi seguida por uma solidariedade de classe
restrita às classes superiores.
Nas classes baixas, a modernização e “as possibilidades de ascensão social e de evasão
da camada em que se nasceu (...) favorecem o individualismo” (Queiroz, 1976, p. 28); assim,
“operários e colonos assumem atitudes de luta, que se revelam pela recusa em votar nos
candidatos dos patrões, mas reúnem-se, por outro lado, a legítimos representantes do
capitalismo, desde que acreditem que estes estão empenhados em defendê-los” (idem, p. 28).
Fenômeno que ela acusa como “coronelismo urbano”, que tem como núcleo a demagogia dos
seus partidos representantes.
Embora o fenômeno descrito pela autora não se configure exatamente como um tipo de
coronelismo, mas sim como uma manifestação do clientelismo, conforme destaca Carvalho
(1997), tal observação permite a Queiroz compreender que o rompimento da dependência do
eleitorado em relação ao grande proprietário, bem como do mandonismo característico da
estrutura agrária, não resulta necessariamente em um espírito democrático ou na consolidação
da cidadania. Assim, sua teoria passa a reconhecer o eleitor não apenas como sujeito, mas
também como agente social, aspecto que Queiroz desenvolve com precisão em seu célebre
ensaio O Coronelismo numa Interpretação Sociológica”(1976), no qual, cabe destacar, ela
define a estrutura coronelista como uma forma de clientela política, ou seja, como clientelismo.
Sobre a atualidade da discussão de Leal e Queiroz
Para analisar os limites da aplicação das teses de Leal e Queiroz ao estudo do poder
local no Brasil contemporâneo, é imprescindível destacar que o coronelismo é um fenômeno
político específico da Primeira República. Nesse sentido, fenômenos políticos atuais não devem
ser interpretados de forma precipitada como continuidades do coronelismo. De fato, as
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mudanças institucionais apontadas por Leal, como a criação da Justiça Eleitoral e as alterações
constitucionais que favoreceram a autonomia municipal, foram eficazes na desarticulação do
sistema coronelista (ou sistema governista). Nesse contexto, a eleição de 1945 pode ser
considerada o marco inaugural das eleições competitivas no Brasil, pelo menos no âmbito
federal (Limongi, 2012).
Além disso, deve-se destacar que a urbanização e a industrialização corroeram o
mandonismo, pois como afirma Queiroz (1976), a multiplicação dos núcleos urbanos somado
ao crescimento demográfico acelerado, complexificou a estrutura interna das cidades graças à
ampliação de antigas instituições e ao surgimento de novas. As relações personalistas da
parentela foram sendo substituídas por relações impessoais e indiferentes; o domínio das
cidades escapou aos coronéis e passou a ser das instituições burocráticas (como a polícia, o
poder judiciário, a prefeitura); e, mais importante, a solidariedade vertical, que unia os membros
da parentela aos mesmos interesses políticos independente da classe socioeconômica, foi
substituída pela solidariedade horizontal, pela consciência de classe”, especialmente entre as
classes superiores.
Embora esse processo o tenha acontecido de forma simultânea e homogênea em todas
as regiões brasileiras, ao longo do tempo as instituições foram se tornando independentes. A
urbanização multiplicou as possibilidades de trabalho e de serviços alienados dos mandões
locais, exigindo destes formas mais sofisticadas e indiretas de domínio político - o que não foi
uma grande dificuldade, pois a passagem da sociedade mandonista para a sociedade urbana se
processou, também, por meio de acomodações. Assim, é pertinente observar que foi possível
aos coronéis manterem seu poder econômico e político na sociedade urbana, apesar das
exceções. O poder econômico se manteve de forma direta e transparente, enquanto o poder
político se exerceu, principalmente, “por detrás do pano” (Queiroz, 1976, p. 210), por meio de
outros atores que atuam diretamente no cenário político, como seus representantes.
O desaparecimento dos fenômenos analisados por Leal e Queiroz representa, portanto,
o principal obstáculo à utilização de seus escritos para a interpretação social e política do Brasil
contemporâneo. Além disso, conforme argumenta Kerbauy (2016), o desenvolvimento dos
meios de comunicação, como rádio, televisão e internet, que acompanhou o processo de
urbanização e industrialização do país, o surgimento dos “políticos profissionais” como
resultado de mudanças institucionais implementadas no Regime Militar e o consequente
rompimento do isolamento dos eleitores, impulsionaram o surgimento de novos mecanismos
de mediação das relações políticas entre lideranças e eleitorado, como o clientelismo de massa,
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o burocratismo e o corporativismo. Estes novos fenômenos sociológicos desafiam a aplicação
apressada dos instrumentos teórico-metodológicos utilizados por Leal e Queiroz na análise da
política brasileira.
No entanto, a obra desses autores não pode ser considerada datada. Por um lado,
concordamos com Brasil Jr. e Botelho (2016) ao afirmar que o caráter “historicamente
circunscrito” dos fenômenos investigados por esses autores não diminui a importância teórica
e analítica de suas obras, na medida em que as condições específicas que deram origem a esses
fenômenos permitem “colocar em questão as possibilidades efetivas de suas persistência, sob
formas e com intensidades variadas” (Brasil Jr.; Botelho, 2016, p. 223), especialmente se
considerarmos que os desafios contemporâneos de qualquer sociedade estão ligados à sequência
de seu desenvolvimento histórico. Nesse sentido, as especificidades do processo de urbanização
brasileiro discutidas por Leal e Queiroz significam rugosidades históricas que interagem com
as mudanças institucionais introduzidas nas últimas décadas, servindo como pontos de partida
para avaliar a organização do nosso federalismo, o exercício da cidadania e as possibilidades e
os sentidos da participação social na esfera política.
Por outro lado, as questões levantadas por essas obras, especialmente por Coronelismo,
Enxada e Voto”, ainda persistem na literatura sociológica, o que demonstra sua relevância para
a compreensão do poder local. De maneira geral, os artigos analisados carecem de pesquisas
empíricas sobre a dinâmica do poder político em nível municipal, o que se explica pela
suposição de que as interpretações sobre esse tema formuladas no início do século XX seriam
suficientes para explicar “a política local e o padrão de relação intergovernamentais entre
municípios, estados e o governo federal” (Santos, 2013, p. 6). Em contrapartida, tem-se
apontado a necessidade de estudos que reavaliem empiricamente a problemática discutida por
Leal, considerando as mudanças estruturais e institucionais ocorridas ao longo dos últimos
anos.
Boa parte das análises empíricas recentes sobre o poder municipal sugerem a
persistência do clientelismo no vínculo entre lideranças e eleitores, especialmente nos pequenos
municípios (Borges, 2010; Braga et al., 2013; Dombrowski, 2008; Lopez; Almeida, 2016), mas,
ao mesmo tempo, é amplamente reconhecido pelos autores que essa dinâmica não é sinônimo
de coronelismo. A partir desses diagnósticos, é possível afirmar que as questões levantadas por
Queiroz em Coronelismo numa interpretação sociológica(1976) podem, no mínimo, inspirar
uma ampliação dessa discussão, com o objetivo de desenvolver uma antropologia política
voltada para a explicação sociológica da estrutura das relações clientelísticas nos municípios
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brasileiros. Isso se daria por meio da investigação da trajetória política das lideranças locais,
dos elementos que contribuem para a manutenção das oligarquias políticas locais, dos
significados atribuídos pelo eleitorado ao voto e também dos elementos normativos, assim
como dos agentes e das instituições que operam na mediação entre as elites políticas e o
eleitorado.
Mais importante do que isso, podemos extrair pelo menos duas hipóteses
epistemológicas dos estudos supracitados. A primeira, que caracteriza a singularidade de
Coronelismo, Enxada e Voto”, é que as problemáticas da política local surgem a partir das
mediações entre os níveis municipal, estadual e federal do poder político e, portanto, devem ser
analisadas como pontos de intersecção entre o todo e o local, e não como idiossincrasias
fatalistas de um ou outro município. A segunda questão, que se torna mais clara com as
contribuições de Queiroz à discussão ao esclarecer quais agentes foram beneficiados com o
governismo da Primeira República, ou seja, os latifundiários paulistas, é que as questões do
poder local são (re)produzidas historicamente por meio da ação do Estado. Dessa forma, elas
precisam ser discutidas também como produtos da relação entre a estrutura social e as decisões
políticas formais, em nível municipal, estadual e federal.
Nesse sentido, se o clientelismo persiste enquanto instrumento de ligação entre
lideranças e eleitorado, impõe-se questionar tanto os sentidos normativos que o voto assume
para o eleitorado nas sociedades capitalistas modernas quanto a caracterização sociológica dos
grupos que deliberam e se beneficiam politicamente pela reprodução das estruturas sociais
basilares das relações clientelísticas.
Considerações finais
Em suma, a presente pesquisa observou que Maria Isaura Pereira de Queiroz, ao discutir
o mandonismo na vida política brasileira, reitera uma série de avaliações realizadas por Victor
Nunes Leal, especialmente no que tange à Primeira República. No entanto, ela diverge com o
autor em relação à potência do poder privado dos latifundiários sobre o poder público, na
medida em que, para ela, estes conviveram em conflito a partir de determinado momento da
história colonial. Porém, o primeiro sempre se reafirmou como o mais forte, diferente do que
conclui Leal, para quem o enfraquecimento das câmaras municipais é tomado como fraqueza
do poder privado. O que fica evidente com a contribuição de Queiroz ao pensamento de Leal é
que os interesses políticos dos fazendeiros das regiões mais prósperas testemunharam seu
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próprio poder tanto em relação aos latifundiários de regiões decadentes economicamente quanto
em relação ao poder central, seja da Metrópole, seja do Imperador. Na República Velha, o
enfraquecimento dos municípios foi provocado justamente para manter o poder político nas
mãos dos coronéis paulistas, naquele momento os mais prósperos do Brasil, dada a importância
econômica do café no mercado global.
A avaliação das obras de Victor Nunes Leal e Maria Isaura Pereira de Queiroz sobre o
poder local, assim como dos estudos mais recentes sobre o tema, demonstrou que a atualidade
dessas obras está menos na possibilidade de reciclagem dos conceitos de “coronelismo” e
“mandonismo” para a retomada dessa agenda de pesquisas do que na sofisticação teórico-
metodológica que esses autores empregaram na construção e utilização desses conceitos. Isso
porque eles superam polarizações analíticas como “Brasil real” e “Brasil legal”, “tradição” e
“modernidade” ou “ordem privada” e “ordem pública” (Carvalho, 1980; Botelho, 2007), entre
outras que, em síntese, expressam uma suposta dualidade entre sociedade e Estado. A
perspectiva da totalidade observada nesses estudos, que se traduz no reconhecimento de uma
interdependência mútua entre os arranjos institucionais-legais e as estruturas sociais presentes
no núcleo do coronelismo, informa caminhos profícuos para a investigação dos fenômenos
políticos locais da Nova República.
Para finalizar, cabe ressaltar os limites da pesquisa empreendida, dentre tantos talvez o
mais importante seja o fato de que a revisão bibliográfica foi selecionada a partir de
determinadas palavras-chave, o que potencialmente exclui indeterminado número de trabalhos
sobre a discussão do poder local que poderiam responder às lacunas da literatura acima
mencionadas.
Além disso, considerando que o objetivo principal desta pesquisa foi buscar questões
orientadoras para a realização de estudos empíricos sobre o poder local nos municípios
interioranos, nossa discussão não esgota as possibilidades dos trabalhos de Leal e Queiroz para
o exame de problemáticas de valor heurístico, como a formação da cidadania brasileira, a
constituição de desigualdades de poder entre as diferentes regiões do país, bem como a
adequação dos modelos políticos institucionais à cultura política nacional, além de outras
questões de interesse estritamente histórico.
AGRADECIMENTOS: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
CNPq.
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LOCAL POWER AND MODERNIZATION: THE CONTRIBUTION OF LEAL AND
QUEIROZ TO BRAZILIAN POLITICAL SOCIOLOGY
PODER LOCAL E MODERNIZAÇÃO: A CONTRIBUIÇÃO DE LEAL E QUEIROZ
PARA A SOCIOLOGIA POLÍTICA BRASILEIRA
PODER LOCAL Y MODERNIZACIÓN: LA CONTRIBUCIÓN DE LEAL Y QUEIROZ A
LA SOCIOLOGÍA POLÍTICA BRASILEÑA
Bruno CAMARGOS 1
e-mail: bruno.camargos23@gmail.com
How to reference this article:
CAMARGOS, B. Local power and modernization: the
contribution of Leal and Queiroz to Brazilian political sociology.
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ISSN: 2358-4238. DOI:
https://doi.org/10.29373/sas.v13i00.19760
| Submitted: 17/10/2024
| Revisions required: 19/11/2024
| Approved: 21/11/2024
| Published: 10/12/2024
Editor:
Prof. Dr. Carlos Henrique Gileno
Deputy Executive Editor:
Prof. Dr. José Anderson Santos Cruz
University of Brasília (UnB), Brasília - DF - Brazil. Graduate Program in Sociology. Master in Sociology.
Local power and modernization: the contribution of Leal and Queiroz to Brazilian political sociology
Rev. Sem Aspas, Araraquara, v. 13, n. 00, e024007, 2024. e-ISSN: 2358-4238
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ABSTRACT: This article analyzes two classic works of Brazilian sociological literature on
local power: Coronelismo, Enxada e Voto(1949) by Victor Nunes Leal and Mandonismo
local na vida política brasileira e outros ensaios(1976) by Maria Isaura Pereira de Queiroz.
Based on the analysis of these essays and their previously selected critical reviews, this study
aims to discuss the divergences and convergences in these authors' views on local power
throughout Brazilian history, as well as the limits and possibilities of their contributions to
contemporary sociological discussions on local power. It was observed that these works offer
a solid theoretical and methodological framework for understanding local political power,
grounded in the perspective of totality. However, given recent social, urban, and media
transformations, there is a need to recontextualize and critically review these classic studies to
better address contemporary issues related to local power in Brazil.
KEYWORDS: Local power. Municipal politics. Victor Nunes Leal. Maria Isaura Pereira de
Queiroz. Brazilian sociology.
RESUMO: Este artigo analisa duas obras clássicas da literatura sociológica brasileira sobre
o poder local: “Coronelismo, Enxada e Voto” (1949) de Victor Nunes Leal e “Mandonismo
local na vida política brasileira e outros ensaios” (1976) de Maria Isaura Pereira de Queiroz.
A partir da análise desses ensaios e de suas revisões críticas selecionadas previamente, buscou-
se discutir os distanciamentos e as aproximações da discussão destes autores sobre o poder
local ao longo da história brasileira, assim como os limites e as possibilidades de sua
contribuição para a discussão sociológica sobre o poder local contemporâneo. Foi observado
que essas obras oferecem um arcabouço teórico-metodológico sólido para a compreensão do
poder político local, fundamentado na perspectiva da totalidade. No entanto, diante das
transformações sociais, urbanas e midiáticas recentes, necessidade de recontextualizar e
revisar criticamente esses estudos clássicos para melhor abordar as questões contemporâneas
relacionadas ao poder local no Brasil.
PALAVRAS-CHAVE: Poder local. Política municipal. Victor Nunes Leal. Maria Isaura
Pereira de Queiroz. Sociologia brasileira.
RESUMEN: Este artículo analiza das obras clásicas de la literatura sociológica brasileña
sobre el poder local: "Coronelismo, Enxada e Voto" (1949) de Victor Nunes Leal y
"Mandonismo local na vida política brasileira e outros ensaios" (1976) de Maria Isaura
Pereira de Queiroz. A partir del análisis de estos ensayos y de sus revisiones críticas
previamente seleccionadas, se buscó discutir los distanciamientos y las aproximaciones en la
discusión de estos autores sobre el poder local a lo largo de la historia brasileña, así como los
límites y las posibilidades de su contribución a la discusión sociológica sobre el poder local
contemporáneo. Se observó que estas obras ofrecen un marco teórico-metodológico sólido
para la comprensión del poder político local, fundamentado en la perspectiva de la totalidad.
Sin embargo, frente a las recientes transformaciones sociales, urbanas y mediáticas, es
necesario recontextualizar y revisar críticamente estos estudios clásicos para abordar mejor
las cuestiones contemporáneas relacionadas con el poder local en Brasil.
PALABRAS CLAVE: Poder local. Política municipal. Victor Nunes Leal. Maria Isaura
Pereira de Queiroz. Sociología brasileña.
Bruno CAMARGOS
Rev. Sem Aspas, Araraquara, v. 13, n. 00, e024007, 2024. e-ISSN: 2358-4238
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Introduction
This paper maps out the sociological debate on local political power based on two classic
works of Brazilian literature: "Coronelismo, Enxada e Voto" (1949), by the Minas Gerais jurist
Victor Nunes Leal, and "Mandonismo local na vida política brasileira e outros ensaios" (1976),
by the São Paulo sociologist Maria Isaura Pereira de Queiroz. The aim is to establish a dialogue
between these authors' approaches to this problem and evaluate their theoretical and
methodological contribution to empirical sociological studies on local power in the context of
urbanized Brazil. What motivates this research is the lack, despite its relevance, of studies on
this subject, both with regard to local power as municipal power, since the 1988 Constitution
delegates to municipalities a large part of the responsibility for providing basic services and
implementing public policies; and local power as a structured and structuring basis for political
mobilization, where subjectivities and political leaderships are built from the interaction
between global cultural trends and the idiosyncrasies of spatially delimited social strata.
The return to the studies of Leal and Queiroz is not by chance, nor just because they are
classic kinds of literature for the discussion of local political power, but because both inform a
methodological perspective centered on totality when dealing with a specific social
phenomenon, that is, coronelismo
, avoiding analytical polarizations (Carvalho, 1980; Botelho,
2007). In Leal, coronelismo is analyzed from the combination of the federalist political-
institutional arrangement of the First Republic and the predominantly agrarian social and
economic structure (Carvalho, 1997; Marino; Pereira, 2020); while in Queiroz, the phenomenon
is evaluated from the articulation between the social and economic structure and the normative
meanings that social agents employ in their political practices (Botelho; Carvalho, 2011). When
considered together, these works point to a fruitful methodological path for the sociological
investigation of local political phenomena based on their consideration as products of the
combination of political-institutional arrangements, social and economic configuration, and the
normativity that sustains the social practices of individuals, without any of these elements being
understood as dispensable or as irreconcilable antagonisms.
The impacts of urbanization, institutional changes, and the development of the media
and mass culture observed in Brazil over the last five decades (Kerbauy, 2016), make it
imperative to contextualize these studies, as well as to review the literature on the authors and
the subject in question. This is necessary in order to understand the possibilities and limits of
Coronelismo was a political practice, common during the Old Republic, in which colonels coerced their
subordinates to vote for their candidates in order to remain in power.
Local power and modernization: the contribution of Leal and Queiroz to Brazilian political sociology
Rev. Sem Aspas, Araraquara, v. 13, n. 00, e024007, 2024. e-ISSN: 2358-4238
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applying the aforementioned methodological tool in the face of the new issues facing local
political power in contemporary Brazil. Thus, this article proposes to discuss the following
questions: what are the affinities and points of divergence in the discussions developed by Leal
and Queiroz? What are the limits and possibilities of his contributions to the sociological
analysis of local power in the New Republic?
These issues are discussed in this article based on a sociological study based on the
reading of a bibliography previously collected, consisting of the writings of Victor Nunes Leal
(1949; 1980) and Maria Isaura Pereira de Queiroz (1976), articles that critically reviewed the
work of these authors (Bôas, 2014; Botelho, 2007; Botelho; Carvalho, 2011; Brasil Jr.; Botelho,
2016; Limongi, 2012; Marino; Pereira, 2020; Ortiz, 2020) and in articles on "local power",
"municipal power", "mandonism", "coronelismo" and "clientelism" (Borges, 2010; Braga et al.,
2013; Carvalho, 1997; Dombrowski, 2008; Lopez, 2004; Lopez; Almeida, 2017; Ottmann,
2006; Santos, 2013). All published in social sciences scientific journals are indexed on the
SciELO platform.
In the first part of this article, the aim is to briefly present the essays "Coronelismo,
Enxada e Voto" (1949) and "Mandonismo local na vida política brasileira e outros ensaios"
(1976), and to compare them in order to explore their theoretical similarities and differences,
so that it is possible to understand the socio-political context with which Leal and Queiroz
dialog. In the second part, based on the literature reviewed, we will explore the limits and
possible contributions of these essays to the contemporary sociological agenda on local power.
The coronelismo of Leal and Queiroz
Victor Nunes Leal and Maria Isaura Pereira de Queiroz discussed local political power
at the time of Brazil's re-democratization after the authoritarian years of the Estado Novo. Leal
did so in 1948, with a thesis entitled "O município e o regime representativo no Brasil:
contribuição ao estudo do coronelismo", presented in the competition for the chair of Political
Science at the National Faculty of Philosophy, which he had held on an interim basis since
1943. As a jurist, his main concern was the administrative, political, and financial autonomy of
the municipalities at a time of constitutional change. On the other hand, in Queiroz, the issue
of local power was part of a research agenda presented for the first time at the First Brazilian
Congress of Sociology in 1954. Documented in the proceedings of the event under the title "
Contribuição para o Estudo da Sociologia Política no Brasil (Contribution to the Study of
Bruno CAMARGOS
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Political Sociology in Brazil)", his presentation calls for a program of sociological research into
Brazilian political phenomena, which understands them as products of the social totality,
influencing and influenced by other sectors of social life, and whose object is the Brazilian
political past, in order to make it possible to build a background for political studies on the
present.
To this end, the privileged locus of investigation should be the municipality, which is
considered to be the center of the development of Brazilian politics since the colony. One of
the products of this ambitious project was the essay "Mandonismo local na vida política
brasileira", published in 1969. In addition to the convergence in relation to the period in which
these authors wrote, it is noteworthy that both Leal and Queiroz, in the aforementioned works,
resort to historical analysis to emphasize what would be, for them, the constant element of
Brazilian politics: the undermining of municipal autonomy and local mandonism, respectively.
Leal's historical assessment discusses Brazil's expansion and restrictions of municipal
autonomy. According to him, in the early colonial years, the town councils were dominated by
rural lords and were responsible for all local affairs, with no separation of powers into
legislative, executive, and judicial functions. At the time, the landowners had public functions
of all kinds, limited by the confusing definition of their attributions. Although the chambers
were subordinate to the Metropolis, the power of its authorities was omnipotent, and the
chambers were used to carry out legal and extralegal acts in the territory.
From the mid-17th century onwards, this situation began to change gradually, largely
due to the divergence between the interests of the colonizers and the settlers, which intensified
with the development of the colonial economy. Thus, the Metropolis began to assert state
authority against the authority of the patriarchs, initiating a "process of vitalization of public
authority and decay of private power" (Leal, 2012, p. 83, our translation), as well as of the
municipal councils, which accelerated throughout the 19th century.
During the Empire, municipal autonomy was sacrificed in favor of strengthening the
provinces in the face of the General Government. The provincial presidents, in turn, continued
to be the protagonists of the provincial scene, their most important political function being "to
guarantee the electoral victory of the candidates supported by the government [central power]"
(p. 89, our translation). In the First Republic, the weakness of the municipalities was
maintained, despite the victory of the federalist tendency. The discussion on municipal
autonomy was of interest to the 1890 constituents, but the imprecise requirements of the federal
Local power and modernization: the contribution of Leal and Queiroz to Brazilian political sociology
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constitution left the states free to regulate this issue, and they quickly amended their
constitutions to reduce the autonomy of municipalities.
In this way, the state governments began to protect the communes according to the
political interests of the legislators in the concentration of power by the state. This concentration
was of interest to state governments for electoral reasons. The former president of the province,
appointed by the emperor, became governor of the state and invested by-election. In this
scenario, the coronelista system came into play, as the local political bosses-controlled bundles
of cabresto
votes.
Before detailing the concept of coronelismo, it is essential to mention that Queiroz
(1976) disagrees with Leal concerning the weakening of the power of rural lords in the face of
strengthening central public power. His argument is that local bossism has competed with
central power in all of Brazil's historical periods, but has always asserted itself as the strongest
power. During the colony, central power was never able to fully establish itself; in the Empire,
it intertwined with mandonism in the localism-centralism amalgam; and in the First Republic,
it asserted itself as a power independent of mandonism, but could not do without it in order to
act, founding coronelismo.
Like Leal, she asserts that, in the early years of colonization, landowners wielded
complete authority over colonial territories. However, contrary to Leal's perspective, she argues
that the strict and severe measures implemented by the Metropolis against the landowners
proved ineffective in curbing their power during the colonial period. Furthermore, she posits
that the influence of rural elites expanded during the Empire, surpassing local administrative
boundaries to permeate the provinces and even the Empire itself through the presence of
"professional politicians." In the First Republic, government and landowners, now referred to
as colonels, remained synonymous. The key distinction was that the political elite was no longer
composed of northeastern mill owners and coffee growers from Rio de Janeiro but instead was
dominated by landowners from São Paulo. To sustain this dynamic, the Republic relied on
governismo, or coronelismo.
What can be deduced from these trajectories is that coronelismo does not arise by
chance. It is a phenomenon that is based on social structures built up over several centuries,
especially mandonism, the systemic effect of which has been to weaken municipal autonomy.
In this sense, the weakening of the chambers does not necessarily mean the weakness of private
The vote of cabresto is an electoral practice that involves intimidation or granting of favors by local power
brokers, known as coronels, so that voters would vote for specific candidates.
Bruno CAMARGOS
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power in relation to central public power. Furthermore, to say that mandonism has been a
constant phenomenon in Brazilian political life does not mean that the concentration of political
power in the hands of landowners has remained stable throughout history.
As Queiroz (1976, p. 22) argues, economic power was the mainstay of politics and,
therefore, as this power shifted over time and space due to the "rise of different products and
different zones", the political elite was renewed, characterizing periods of misalignment and
crisis that soon settled down when the government passed into the hands of the representatives
of the most prosperous economic zone. According to this thesis, the political arrangement of
the First Republic was the result of the demands of the farmers of western São Paulo. This
system combined the expansion of the electorate and the maintenance of the colonial
agricultural exploitation model, creating a scenario in which many of the voters depended on
the landowners for their livelihoods. In this sense, "universal" suffrage had the effect of
increasing the number of rural voters at the behest of the political boss. Hence, Leal's (2012)
famous definition that coronelismo is a system of power that stems from the inadequate
combination of representative rule and an agrarian economic structure.
In general, the coronelismo described by Leal (2012) is configured as a system of
"governismo
", in the terms of Queiroz (1976), which articulates the relationship between the
colonel, the state governor, and the President of the Republic. On the one hand, if it was the
landowners who decided the outcome of the elections, the state presidents and deputies needed
to court them; at the national level, the same happened in the relationship between the President
of the Republic and the state presidents. On the other hand, the dependence of the municipalities
on the states actually increased, as the state government had the "coffer of graces [for favors]
and the power of disgrace [for persecutions]" (Leal, 2012, p. 63, our translation). So, the farmers
needed to court the presidents of state.
In view of the discomfort of having the state government as opposition, the wars waged
between the local bosses in the municipality vied for the preference of the state government.
Queiroz (1976) argues that this system allowed the farmers of western São Paulo to exert their
dominance over national politics, since it meant that the municipalities had to be in harmony
with the state government in order for the political leaders elected to the municipal councils and
legislative assemblies to have their demands recognized. Similarly, the state government
Governismo refers to a system of government that is characterized by authoritarian or dictatorial practices in the
exercise of power, which may involve abuse and excessive control.
Local power and modernization: the contribution of Leal and Queiroz to Brazilian political sociology
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needed to be aligned with the President of the Republic in order for its federal representatives
(deputies and senators) to be duly sworn in.
In the event of a disagreement between the governments, the elections were annulled.
As we can see, the state government was responsible for balancing the forces of the municipal
political leaders and the central government. To this end, the governors, on the one hand,
supported the strongest municipal political leaders who were victorious and, on the other,
constantly supported the central government. But why was it specifically the o Paulo
landowners and their allies who reached the top of this power system? According to Queiroz
(1976), the administrative machinery was taken over by representatives of the coffee plantations
because the country's greatest wealth and, consequently, its highest population density were
concentrated in them during this period. In his words, "The whole of national life revolved
around coffee because coffee was the national wealth" (idem, p. 131, our translation). That's
why, through governismo, even in the smallest municipalities in the north, only supporters of
the Paulistas were elected.
It is also necessary to answer the questions about the interests of Leal and Queiroz when
discussing local power in the First Republic. With regard to this issue, on a cognitive level, the
interest in understanding the conservative nature of Brazilian modernization stands out
(Botelho; Carvalho, 2011), and, on a political level, the desire for effective democratization of
the country at that time of transition from rural to urban. In Leal's view, "democratization" is
understood as synonymous with the elimination of the agrarian social structure, for which
industrialization and urbanization were necessary steps, acting as disintegrating elements of
mandonism and, consequently, of coronelismo in favor of adequate federalism.
Leal (2012) considers that the coronelista system was gradually weakened as a result of
Brazil's urbanization and industrialization processes, accompanied by political changes
evidenced by the decline of government influence in state elections and the implementation of
the 1932 Electoral Code. The 1946 Constitution, in turn, acted in the same direction, but various
aspects of this legal system worried the author about a possible return of the municipal
guardianship system. In addition to these, the poverty of the people, especially the peasants,
also appeared to the author as an obstacle to the expansion of the country's public and
democratic spirit.
Queiroz (1976), on the other hand, is more pessimistic about the identity between
urbanization and democratization. Firstly, she notes that the 1930 Revolution took place thanks
to the support of the old colonels. Although it was a heterogeneous movement, its cornerstone
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was the 1929 Crisis, which both devalued coffee and prevented the public policy of valuing
coffee from being maintained - which culminated in the government farmers breaking their
support for Júlio Prestes.
In this sense, although the 1930 Revolution was not the product of a significant change
in the social and economic structure, it was also part of a gradual process of adaptation by the
colonel to the new living conditions. Moreover, even if there were a transformation in the
agrarian social structure, the democratization of the country would not be automatically
guaranteed. Although industrialization, the emergence of small polyculture farms, and
urbanization led to the disappearance of family solidarity from 1930 onwards, especially in São
Paulo, this was followed by class solidarity restricted to the upper classes.
In the lower classes, modernization and "the possibilities of social ascension and escape
from the stratum in which one was born (...) favor individualism" (Queiroz, 1976, p. 28, our
translation); thus, "workers and settlers assume attitudes of struggle, which are revealed by their
refusal to vote for the bosses' candidates, but they join, on the other hand, legitimate
representatives of capitalism, as long as they believe that these are committed to defending
them" (idem, p. 28, our translation). A phenomenon she accuses of "urban coronelismo", the
core of which is the demagoguery of its representative parties.
Although the phenomenon described by the author is not exactly a type of coronelismo,
but rather a manifestation of clientelism, as Carvalho (1997) points out, this observation allows
Queiroz to understand that breaking the electorate's dependence on the large landowner, as well
as the mandonism characteristic of the agrarian structure, does not necessarily result in a
democratic spirit or the consolidation of citizenship. Thus, her theory comes to recognize the
voter not only as a subject, but also as a social agent, an aspect that Queiroz develops with
precision in her famous essay "O Coronelismo numa Interpretação Sociológica" (1976), in
which, it should be noted, she defines the coronelista structure as a form of political clientelism.
On the topicality of Leal and Queiroz's discussion
To analyze the limits of applying Leal and Queiroz's theses to the study of local power
in contemporary Brazil, it is essential to point out that coronelismo is a political phenomenon
specific to the First Republic. In this sense, current political phenomena should not be hastily
interpreted as a continuation of coronelismo. In fact, the institutional changes pointed out by
Leal, such as the creation of the Electoral Court and the constitutional changes that favored
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municipal autonomy, were effective in dismantling the coronelista system (or governista
system). In this context, the 1945 election can be considered the inaugural milestone of
competitive elections in Brazil, at least at the federal level (Limongi, 2012).
It should also be noted that urbanization and industrialization eroded mandonism, since,
as Queiroz (1976) states, the multiplication of urban centers, together with accelerated
demographic growth, complexified the internal structure of cities thanks to the expansion of old
institutions and the emergence of new ones. Impersonal and indifferent relationships were
replacing the personal relationships of kinship; the domination of cities escaped the colonels
and became the domain of bureaucratic institutions (such as the police, the judiciary, and the
city council); and, most importantly, vertical solidarity, which united kinship members with the
same political interests regardless of socio-economic class, was replaced by horizontal
solidarity, by "class consciousness", especially among the upper classes.
Although this process did not happen simultaneously and homogeneously in all
Brazilian regions, over time, the institutions became independent. Urbanization multiplied the
possibilities of alienated work and services for local bosses, demanding more sophisticated and
indirect forms of political domination from them - which was no great difficulty, since the
transition from boss society to urban society also took place through accommodation. Thus, it
is pertinent to note that it was possible for the colonels to maintain their economic and political
power in urban society, despite the exceptions. Economic power remained direct and
transparent, while political power was exercised mainly "behind the scenes" (Queiroz, 1976, p.
210), through other actors who act directly on the political stage, such as their representatives.
The disappearance of the phenomena analyzed by Leal and Queiroz is, therefore, the
main obstacle to using their writings for the social and political interpretation of contemporary
Brazil. In addition, as Kerbauy (2016) argues, the development of the media, such as radio,
television, and the internet, which accompanied the country's urbanization and industrialization
process, the emergence of "professional politicians" as a result of institutional changes
implemented during the military regime and the consequent break in voter isolation, led to the
emergence of new mechanisms for mediating political relations between leaders and the
electorate, such as mass patronage, bureaucratism, and corporatism. These new sociological
phenomena challenge the hasty application of the theoretical-methodological tools used by Leal
and Queiroz to analyze Brazilian politics.
However, the work of these authors cannot be considered dated. On the one hand, we
agree with Brasil Jr. and Botelho (2016) that the "historically circumscribed" nature of the
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phenomena investigated by these authors does not diminish the theoretical and analytical
importance of their works, insofar as the specific conditions that gave rise to these phenomena
make it possible to "question the effective possibilities of their persistence, in varying forms
and with varying intensities" (Brasil Jr.; Botelho, 2016, p. 223, our translation), especially if we
consider that the contemporary challenges of any society are linked to the sequence of its
historical development. In this sense, the specificities of the Brazilian urbanization process
discussed by Leal and Queiroz mean historical roughness that interacts with the institutional
changes introduced in recent decades, serving as starting points for evaluating the organization
of our federalism, the exercise of citizenship and the possibilities and meanings of social
participation in the political sphere.
On the other hand, the issues raised by these works, especially by "Coronelismo, Enxada
e Voto", still persist in sociological literature, which demonstrates their relevance for
understanding local power. In general, the articles analyzed lack empirical research on the
dynamics of political power at municipal level, which is explained by the assumption that the
interpretations on this subject formulated at the beginning of the 20th century would be
sufficient to explain "local politics and the pattern of intergovernmental relations between
municipalities, states and the federal government" (Santos, 2013, p. 6). On the other hand, there
has been a need for studies that empirically reassess the problem discussed by Leal, taking into
account the structural and institutional changes that have taken place over the last few years.
Much of the recent empirical analysis of municipal power suggests the persistence of
clientelism in the link between leaders and voters, especially in small municipalities (Borges,
2010; Braga et al., 2013; Dombrowski, 2008; Lopez; Almeida, 2016), but at the same time, it
is widely recognized by the authors that this dynamic is not synonymous with coronelismo.
Based on these diagnoses, it is possible to state that the questions raised by Queiroz in
"Coronelismo numa interpretação sociológica" (1976) can, at the very least, inspire a
broadening of this discussion, with the aim of developing a political anthropology-focused on
the sociological explanation of the structure of clientelistic relations in Brazilian municipalities.
This would be done by investigating the political trajectory of local leaders, the elements that
contribute to the maintenance of local political oligarchies, the meanings attributed by the
electorate to the vote, and also the normative elements, as well as the agents and institutions
that mediate between the political elites and the electorate.
More importantly, we can draw at least two epistemological hypotheses from the
aforementioned studies. The first, which characterizes the uniqueness of "Coronelismo, Enxada
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e Voto", is that the problems of local politics arise from the mediations between the municipal,
state, and federal levels of political power and, therefore, must be analyzed as points of
intersection between the whole and the local, and not as fatalistic idiosyncrasies of one
municipality or another. The second issue, which becomes clearer with Queiroz's contributions
to the discussion by clarifying which agents benefited from the governorship of the First
Republic, i.e. the São Paulo landowners, is that issues of local power are (re)produced
historically through the action of the state. In this way, they also need to be discussed as
products of the relationship between the social structure and formal political decisions at
municipal, state, and federal levels.
In this sense, if clientelism persists as an instrument of connection between leaders and
the electorate, it is necessary to question both the normative meanings that the vote assumes for
the electorate in modern capitalist societies and the sociological characterization of the groups
that deliberate and benefit politically from the reproduction of the basic social structures of
clientelistic relations.
Final considerations
In short, this research has shown that Maria Isaura Pereira de Queiroz, in discussing
mandonism in Brazilian politics, reiterates a series of assessments made by Victor Nunes Leal,
especially with regard to the First Republic. However, she disagrees with the author in relation
to the power of the private landowners over public power, insofar as, for her, they coexisted in
conflict from a particular moment in colonial history. However, the former always reaffirmed
itself as the strongest, unlike Leal's conclusion, for whom the weakening of municipal councils
is seen as the weakness of private power. What is clear from Queiroz's contribution to Leal's
thinking is that the political interests of the landowners in the more prosperous regions testified
to their power, both in relation to the landowners in the economically decadent regions and in
relation to the central power, whether of the Metropolis or the Emperor. In the Old Republic,
the weakening of the municipalities was brought about precisely to maintain political power in
the hands of the São Paulo colonels, at that time the most prosperous in Brazil, given the
economic importance of coffee on the global market.
The evaluation of the works of Victor Nunes Leal and Maria Isaura Pereira de Queiroz
on local power, as well as more recent studies on the subject, has shown that the relevance of
these works lies less in the possibility of recycling the concepts of "coronelismo" and
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"mandonism" to revive this research agenda than in the theoretical-methodological
sophistication that these authors employed in the construction and use of these concepts. This
is because they overcome analytical polarizations such as "real Brazil" and "legal Brazil",
"tradition" and "modernity" or "private order" and "public order" (Carvalho, 1980; Botelho,
2007), among others which, in short, express a supposed duality between society and the state.
The perspective of totality observed in these studies, which translates into the recognition of
mutual interdependence between the institutional-legal arrangements and the social structures
present at the core of coronelismo, informs fruitful ways of investigating the local political
phenomena of the New Republic.
Finally, it is worth highlighting the limitations of the research undertaken, perhaps the
most important of which is the fact that the literature review was selected on the basis of certain
keywords, which potentially excludes an indeterminate number of works on the discussion of
local power that could respond to the gaps in the literature mentioned above.
Furthermore, considering that the main objective of this research was to find guiding
questions for empirical studies on local power in inland municipalities, our discussion does not
exhaust the possibilities of Leal and Queiroz's work for examining problems of heuristic value,
such as the formation of Brazilian citizenship, the constitution of power inequalities between
the different regions of the country, as well as the adaptation of institutional political models to
the national political culture, in addition to other questions of strictly historical interest.
ACKNOWLEDGMENTS: National Council for Scientific and Technological Development
- CNPq.
Local power and modernization: the contribution of Leal and Queiroz to Brazilian political sociology
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