
Marco Aurelio de Oliveira LEAL e Sérgio Roberto VELOSO FILHO
Rev. Sem Aspas, Araraquara, v. 14, n. 00, e025013, 2025. e-ISSN: 2358-4238
DOI: 10.29373/sas.v14i00.19924 3
Introdução
Florestan Fernandes é um dos grandes pensadores brasileiros a se dedicar à questão
social, em especial ao sofrimento enfrentado pela população
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negra e pobre. Ao longo de sua
carreira, seja como pesquisador, professor, ou mesmo como parlamentar, a sua preocupação
sempre teve como norte produzir uma ciência social que tivesse como objetivo compreender a
sociedade brasileira em todas as suas contradições.
A sua origem e seu processo de socialização foram fundamentais para se tornar o
sociólogo que se tornou, com uma empatia única e relação singular, sensível para com os grupos
que observava. A chamada “filosofia do folk” (Fernandes,1976, p. 144) foi essencial para que,
através da solidariedade existente entre as camadas pobres e marginalizadas da sociedade
pudesse se inserir nestes grupos desde a tenra idade e compreender as mazelas sociais de dentro.
Entre as diversas pesquisas produzidas por Fernandes, as consideradas mais importantes para o
autor era a pesquisa sobre a população negra. Nestas, o autor retira o sujeito negro da condição
de objeto de análise e o coloca na condição de sujeito, uma vez que produziu um método de
coleta de dados que envolvia diversas ferramentas como a observação em massa que permitia
aos sujeitos falarem de sua própria realidade dentro da sociedade brasileira.
Destaquemos neste breve artigo a sua contribuição sobre as bases da estrutura de classes
no Brasil, que com suas raízes coloniais submete homens e mulheres negras a uma condição de
subalternidade da qual é difícil escapar. Dentro ainda das suas contribuições, principalmente no
Projeto UNESCO
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, Fernandes sai em defesa da autonomia e afirmação do movimento negro,
pois foram os próprios resultados de suas pesquisas em parceria com Roger Bastide que lhe
permitiram acessar a raiz do dilema racial brasileiro e refletir em possíveis mudanças e
transformações da sociedade brasileira moderna. Uma das maiores preocupações de Florestan
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A fim de evitar uma problemática no que se refere aos termos povo e população, utilizamos a noção de população
para evidenciar um conjunto de indivíduos pretos e pretas que passaram pelo processo de degradação e não
inserção na ordem social competitiva no pós-abolição.
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Ainda no frisson da grande tragédia que fora o Holocausto, no início da década de 1950 a Organização das Nações
Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) patrocinou um conjunto de pesquisas sobre as relações
raciais no Brasil. Tendo como recorte a ideia de uma harmonia racial existente no Brasil, buscando refletir de que
forma isso poderia ser replicado para zonas de tenção racial latente, um conjunto de pesquisadores, onde
destaquemos Florestan Fernandes e Roger Bastide, se dedicou a compreender as dinâmicas raciais no Brasil. A
análise de Fernandes e Bastide acabou tendo a sua função desempenhada às avessas, onde os pesquisadores
evidenciaram que as relações raciais no Brasil possuíam instrumentos próprios de subordinação dos demais grupos
em detrimento da raça branca e dominante, denunciando com isso que a harmonia racial no Brasil não passava de
um mascaramento da subordinação, em especial da população negra. Outros pesquisadores envolvidos com o
projeto chegaram a diferentes conclusões, como os estudos de René Ribeiro (Pernambuco) e Thales de Azevedo
(Bahia) eram muito ambíguos a esse respeito; o de Luiz Aguiar da Costa Pinto confundia a discriminação racial
com as relações de classe. Nesse interim, focamos nas questões levantadas por Fernandes e Bastide, mas
compreendendo que o projeto UNESCO possuiu uma grande variedade de análises e conclusões.