Rev. Sem Aspas, Araraquara, v. 14, n. 00, e025013, 2025. e-ISSN: 2358-4238
DOI: 10.29373/sas.v14i00.19924 1
RAÇA, TRABALHO E CLASSE: A ABORDAGEM DE FLORESTAN FERNANDES
SOBRE A NÃO INSERÇÃO DA POPULAÇÃO NEGRA NA ORDEM SOCIAL
COMPETITIVA
RAZA, TRABAJO Y CLASE: EL ENFOQUE DE FLORESTAN FERNANDES SOBRE
LA NO INSERCIÓN DE LA POBLACIÓN NEGRA EN EL ORDEN SOCIAL
COMPETITIVO
RACE, LABOR, AND CLASS: FLORESTAN FERNANDES’S APPROACH TO THE
NON-INCORPORATION OF THE BLACK POPULATION INTO THE COMPETITIVE
SOCIAL ORDER
Marco Aurelio de Oliveira LEAL
1
e-mail: marco.leal.cs@gmail.com
Sérgio Roberto VELOSO FILHO
2
e-mail: sergio.velloso007@gmail.com
Como referenciar este artigo:
LEAL, M. A. de O.; VELOSO FILHO, S. R. Raça, trabalho e
classe: a abordagem de Florestan Fernandes sobre a não inserção
da população negra na ordem social competitiva. Rev. Sem
Aspas, Araraquara, v. 14, n. 00, e025013, 2025. e-ISSN: 2358-
4238. DOI: 10.29373/sas.v14i00.19924
| Submetido em: 07/01/2025
| Revisões requeridas em: 15/10/2025
| Aprovado em: 20/11/2025
| Publicado em: 29/12/2025
Editor:
Prof. Dr. Carlos Henrique Gileno
Editor Adjunto Executivo:
Prof. Dr. José Anderson Santos Cruz
1
Universidade Federal de Pernambuco (PPGS-UFPE), Recife PE Brasil. Mestre e doutorando pelo Programa
de Pós-Graduação em Sociologia do PPGS-UFPE.
2
Universidade Federal de Pernambuco (PPGS-UFPE), Recife PE Brasil. Graduado em Ciências Sociais, com
interesse em sociologia da comunicação, das emoções e do consumo.
Raça, trabalho e classe: a abordagem de Florestan Fernandes sobre a não inserção da população negra na ordem social competitiva
Rev. Sem Aspas, Araraquara, v. 14, n. 00, e025013, 2025. e-ISSN: 2358-4238
DOI: 10.29373/sas.v14i00.19924 2
RESUMO: Para Florestan Fernandes, a sociedade brasileira constituiu-se a partir da
subalternização de determinados grupos sociais, especialmente da população negra, cuja
posição social resultou de um longo processo histórico de silenciamento e dominação. Com o
fim do regime escravista, não houve um projeto político voltado à inserção efetiva dessa
população na emergente sociedade de classes, preservando-se, sob novas formas, a lógica
excludente da antiga ordem estamental. Desprovidos de acesso à escolarização e à
especialização exigidas pelo processo de modernização, os negros foram sistematicamente
relegados do desenvolvimento econômico e social. Este artigo analisa a contribuição de
Florestan Fernandes para compreender como a estrutura de classes no Brasil se consolidou de
maneira excludente, destinando à população negra funções subalternas, dissociadas do trabalho
livre, republicano e capitalista em formação. A partir das análises de Fernandes, busca-se
evidenciar a complexidade que moldou a desigual inserção da população negra na ordem social
competitiva.
PALAVRAS-CHAVE: Florestan Fernandes. Movimento negro. Segunda abolição. Ordem
social competitiva.
RESUMEN: Para Florestan Fernandes, la sociedad brasileña se constituyó a partir de la
subalternización de determinados grupos sociales, especialmente de la población negra, cuya
posición resultó de un prolongado proceso histórico de silenciamiento y dominación. Tras el
fin del régimen esclavista, no existió un proyecto político orientado a la inserción efectiva de
esa población en la emergente sociedad de clases, manteniéndose, bajo nuevas formas, la
lógica excluyente del antiguo orden estamental. Privados del acceso a la escolarización y a la
especialización exigidas por la modernización, los negros fueron relegados a los márgenes del
desarrollo económico y social. Este artículo analiza la contribución de Florestan Fernandes
para comprender cómo la estructura de clases en Brasil se consolidó de manera excluyente,
destinando a la población negra funciones subalternas y una inserción desigual en el orden
social competitivo.
PALABRAS CLAVE: Florestan Fernandes. Movimiento negro. Segunda abolición. Orden
social competitiva.
ABSTRACT: For Florestan Fernandes, Brazilian society was constituted through the
subalternization of specific social groups, especially the Black population, whose social
position resulted from a long historical process of silencing and domination. After the end of
slavery, there was no political project aimed at effectively incorporating this population into
the emerging class society, as the exclusionary logic of the old estate order was preserved in
new forms. Deprived of access to schooling and the specialization required by modernization,
Black people were relegated to the margins of economic and social development. This article
examines Fernandes’s contribution to understanding how Brazil’s class structure consolidated
itself in an exclusionary manner, assigning the Black population subaltern roles and producing
their unequal incorporation into the competitive social order.
KEYWORDS Florestan Fernandes. Black movement. Second abolition. Competitive social
order.
Marco Aurelio de Oliveira LEAL e Sérgio Roberto VELOSO FILHO
Rev. Sem Aspas, Araraquara, v. 14, n. 00, e025013, 2025. e-ISSN: 2358-4238
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Introdução
Florestan Fernandes é um dos grandes pensadores brasileiros a se dedicar à questão
social, em especial ao sofrimento enfrentado pela população
3
negra e pobre. Ao longo de sua
carreira, seja como pesquisador, professor, ou mesmo como parlamentar, a sua preocupação
sempre teve como norte produzir uma ciência social que tivesse como objetivo compreender a
sociedade brasileira em todas as suas contradições.
A sua origem e seu processo de socialização foram fundamentais para se tornar o
sociólogo que se tornou, com uma empatia única e relação singular, sensível para com os grupos
que observava. A chamada “filosofia do folk” (Fernandes,1976, p. 144) foi essencial para que,
através da solidariedade existente entre as camadas pobres e marginalizadas da sociedade
pudesse se inserir nestes grupos desde a tenra idade e compreender as mazelas sociais de dentro.
Entre as diversas pesquisas produzidas por Fernandes, as consideradas mais importantes para o
autor era a pesquisa sobre a população negra. Nestas, o autor retira o sujeito negro da condição
de objeto de análise e o coloca na condição de sujeito, uma vez que produziu um método de
coleta de dados que envolvia diversas ferramentas como a observação em massa que permitia
aos sujeitos falarem de sua própria realidade dentro da sociedade brasileira.
Destaquemos neste breve artigo a sua contribuição sobre as bases da estrutura de classes
no Brasil, que com suas raízes coloniais submete homens e mulheres negras a uma condição de
subalternidade da qual é difícil escapar. Dentro ainda das suas contribuições, principalmente no
Projeto UNESCO
4
, Fernandes sai em defesa da autonomia e afirmação do movimento negro,
pois foram os próprios resultados de suas pesquisas em parceria com Roger Bastide que lhe
permitiram acessar a raiz do dilema racial brasileiro e refletir em possíveis mudanças e
transformações da sociedade brasileira moderna. Uma das maiores preocupações de Florestan
3
A fim de evitar uma problemática no que se refere aos termos povo e população, utilizamos a noção de população
para evidenciar um conjunto de indivíduos pretos e pretas que passaram pelo processo de degradação e não
inserção na ordem social competitiva no pós-abolição.
4
Ainda no frisson da grande tragédia que fora o Holocausto, no início da década de 1950 a Organização das Nações
Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) patrocinou um conjunto de pesquisas sobre as relações
raciais no Brasil. Tendo como recorte a ideia de uma harmonia racial existente no Brasil, buscando refletir de que
forma isso poderia ser replicado para zonas de tenção racial latente, um conjunto de pesquisadores, onde
destaquemos Florestan Fernandes e Roger Bastide, se dedicou a compreender as dinâmicas raciais no Brasil. A
análise de Fernandes e Bastide acabou tendo a sua função desempenhada às avessas, onde os pesquisadores
evidenciaram que as relações raciais no Brasil possuíam instrumentos próprios de subordinação dos demais grupos
em detrimento da raça branca e dominante, denunciando com isso que a harmonia racial no Brasil não passava de
um mascaramento da subordinação, em especial da população negra. Outros pesquisadores envolvidos com o
projeto chegaram a diferentes conclusões, como os estudos de René Ribeiro (Pernambuco) e Thales de Azevedo
(Bahia) eram muito ambíguos a esse respeito; o de Luiz Aguiar da Costa Pinto confundia a discriminação racial
com as relações de classe. Nesse interim, focamos nas questões levantadas por Fernandes e Bastide, mas
compreendendo que o projeto UNESCO possuiu uma grande variedade de análises e conclusões.
Raça, trabalho e classe: a abordagem de Florestan Fernandes sobre a não inserção da população negra na ordem social competitiva
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estava na emancipação da população negra das estruturas sociais e mentais que a mantinham
em tal situação de subalternidade. Ficou evidente para Fernandes que algo de grave ocorria no
Brasil, o que fez com que seu trabalho militante e teórico fosse na contramão do discurso
vigente de uma falsa democracia racial.
Contribuímos ainda destacando os elementos pertinentes ao processo de mudança social
presente em seus estudos referentes ao movimento negro, que trazem consigo o que pode ser
visto como um potencial de transformação para o futuro da população negra e pobre do país.
Abordaremos enquanto questão teórica fundamental em Fernandes as relações intrínsecas entre
a raça e a classe para a interpretação do capitalismo brasileiro. A contemporaneidade de
Fernandes é exaltada e digna de nota pelos autores a partir da discussão acerca da questão racial
na obra de um dos mais importantes sociólogos brasileiros, trazendo contribuições para a
reflexão do Brasil contemporâneo.
A estruturação da subalternidade
Florestan Fernandes possui diversas ferramentas analíticas essenciais à discussão sobre
os fundamentos da estratificação social no Brasil, tendo como horizonte os processos históricos
pelos quais a sociedade passou no decorrer dos séculos. Desde o processo de colonização o
sistema de dominação deixou profundas marcas na sociedade brasileira, em especial nos
homens e mulheres da população negra.
A digressão histórica que faremos possui o objetivo de destacar a interpretação de
Fernandes e seus usos históricos para compreender o social e as divergências com os
paradigmas em voga dentre os quais destacaremos Gilberto Freire e a assim chamada
democracia racial no Brasil. Retornando às bases do sistema colonial em A sociedade escravista
no Brasil (1976), Fernandes propõe uma reconstrução histórica nos termos marxistas, buscando
as causas do fenômeno da estratificação social no Brasil tal qual ela se desenha, remontando
quase quatro séculos de escravidão e destacando os “elementos estruturais e dinâmicos”
(Fernandes, 1976, p. 11) que colocaram a população negra na condição em que estava no seu
momento de produção. Diferentemente da escravidão antiga, a escravidão que trouxe os cativos
de África para o Brasil é necessariamente moderna ao colocar os indivíduos como uma
mercadoria, o que configuraria esse particular modelo de escravidão como uma escravidão
mercantil se torna evidente no argumento, posto a influência marxiana na produção de
Fernandes. O sujeito escravizado constituiria assim uma mercadoria no sistema de produção
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colonial, mercadoria essa que era esmagada e utilizada até as últimas possibilidades e
substituída
5
quando assim fosse necessário ao bel prazer do senhor rural,
Embora o senhor comprasse o escravo, o que ele queria era a energia humana,
não como simples variedade equivalente da “energia animal em geral”, porém
como uma modalidade de energia que podia ser concentrada e utilizada
intensivamente, através da organização do trabalho escravo, como se o
organismo humano fosse uma máquina (Fernandes, 1976, p. 16).
A população negra, contudo, não era escravizada unicamente pelo senhor rural. Dada a
extensa teia de dominação que se engendrou colocando todo esse grupo de sujeitos na base de
uma subalternização ferina. No sistema colonial a mão de obra escravizada era necessária, uma
vez que o Brasil se configurava como uma colônia de exploração (Fernandes, 1976). A estrutura
desse sistema vinha do financiamento dos países europeus, em especial da Inglaterra, passando
pela coroa portuguesa, aos Senhores Rurais e os homens livres.
O proprietário do escravo e, portanto, proprietário de sua força de trabalho e
do seu produto, não era proprietário exclusivo do excedente gerado pela
produção escravista, cujo valor, nos setores de maior significação econômica,
se realizava, necessariamente fora e acima da Colônia (Fernandes, 1976, p.
20).
Na base desse sistema de dominação se encontrava a mão de obra negra, Florestan
elenca que além de mercadoria eram a força motriz de todo o regime de produção e tinham sua
energia humana expropriada por todos esses agentes acima destacados. A dominação não era
nesse sentido linear entre o senhor rural e o indivíduo escravizado, outros atores precisaram ser
destacados para compreendermos de modo mais producente o sistema agroexportador que
estava em voga no Brasil colonial.
A base da economia colonial era, portanto, a força de trabalho negra sem a qual o
acúmulo de riquezas não teria sido possível. Tal acúmulo foi justamente o que possibilitou o
enriquecimento da elite branca rural que aos poucos transplantou o seu braço de dominação
para os centros urbanos. Era necessário desvencilhar a fazenda (Fernandes, 1976) da ordem
patrimonial, obrigando o fazendeiro a desenvolver uma mentalidade típica do empresário
capitalista, constantemente atento à produtividade e à remuneração dos fatores de produção
(Fernandes, 2008a). Esse processo de dominação da elite rural adentrando aos centros urbanos
5
Segundo a análise de Lilia Schwarcz sobre o quão danoso era o processo de trabalho escravo nas fazendas: “O
regime de trabalho era o grande vilão, acabando com o vigor das mães e elevando a taxa de morte de “velhos”
trabalhadores com quarenta anos ou mais. […] Com dados tão negativos, não se confirma a imagem de uma
escravidão mais benevolente no Brasil, onde a expectativa de vida dos escravos homens ficava abaixo da que se
tinha nos Estados Unidos 25 para 35 anos” (Schwarcz, 2015, p. 94).
Raça, trabalho e classe: a abordagem de Florestan Fernandes sobre a não inserção da população negra na ordem social competitiva
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foi intensificado com a vinda da família real portuguesa para o Brasil em 1808, o deslocamento
da estrutura da metrópole para a colônia foi significante para o processo de modernização que
estava por vir.
O tipo de trabalho desempenhado pela população negra, como destacado acima,
utilizava a força humana desses homens e mulheres até a exaustão (Fernandes,2008a),
principalmente no regime das plantações, quase sem descanso e com condições de vida
totalmente insalubres impostas aos cativos. Poucos negros e negras desempenhavam funções
dentro da casa grande, funções relacionadas principalmente aos trabalhos domésticos, não que
este trabalho forçado fosse menos ferino e menos humilhante, mas sem sombra de dúvidas era
menos desgastante do que a lida diária nas plantações.
Com relação às plantações em específico, nos foquemos por um momento, que grande
parte do contingente negro cativo no Brasil trabalhava nessas funções. Os homens e mulheres
que exerciam esses postos não possuíam graus de especialização em suas funções, uma vez que
pela exaustão poderiam facilmente ser substituídos por nova mão-de-obra cativa (Fernandes,
1976). Essa não especialização para um tipo de trabalho mais específico atrelado ao alto nível
de analfabetismo serviu como a ferramenta que faltava para deixar o negro à margem da
sociedade moderna e industrial que já dava seus sinais de chegada no Brasil.
A desagregação do estado colonial ocorreu de modo gradual diante de diversos fatos
históricos que não cabem em desenvolvimento devido aos limites propostos por este artigo,
contudo, o limiar da ordem social escravocrata e estabelecimento da ordem social competitiva
6
no Brasil foram destacadas para que possamos evidenciar a exclusão da população negra dessa
sociedade de classes que se desenhou. Na análise de Fernandes é necessário compreender
porque foi esse contingente da população nacional que teve o pior ponto de
partida para a integração ao regime social que se formou ao longo da
desagregação da ordem social escravocrata e senhorial e do desenvolvimento
posterior do capitalismo no Brasil (Fernandes, 2008a, p. 21).
Após a abolição, segundo Fernandes, a população negra foi jogada à própria sorte sem
possibilidades de entrar na ordem social competitiva, onde grande parte do contingente negro
acabou se deslocando para os centros urbanos em busca de condições de trabalho, (Fernandes,
1976), grande parte das vezes sem sucesso. Tratemos do recorte dado por Florestan à cidade de
6
Fernandes destaca em diversos momentos de suas obras a passagem de um regime de castas para um regime de
classes, competitivo e capitalista. Mas que excluiu o negro de participação nessa ordem social competitiva que
estava se desenvolvendo com a passagem da estrutura colonial para a estrutura urbana. Deixamos evidente,
contudo, que Fernandes considerava a sociedade escravocrata como um regime de castas e estamentos.
Marco Aurelio de Oliveira LEAL e Sérgio Roberto VELOSO FILHO
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São Paulo, cuja figura dominante, outrora, do fazendeiro, agora homem de negócios, e a figura
do imigrante europeu constituem personagens centrais no quadro da ordem social competitiva,
bem como, no deslocamento das relações produtivas. a população negra e mulata estava
fadada a permanecer fora dos processos de modernização e europeização que ocorriam no
Brasil, que possuíam influência direta no mundo do trabalho especializado, para o qual a
população liberta não obteve instrução,
[…] a sociedade brasileira largou o negro ao seu próprio destino, deitando
sobre seus ombros a responsabilidade de se reeducar e de se transformar para
corresponder aos novos padrões e ideais de ser humano, criados pelo advento
do trabalho livre, do regime republicano e do capitalismo (Fernandes, 2008a,
p. 35-36).
A sociedade de classes propriamente moderna que se engendrou a partir de fatos
históricos como a abolição, independência do país e estabelecimento da república que favoreceu
a poucos, uma vez que as elites nacionais ainda desempenhavam comportamentos, costumes
próprios da colonização atribuídos à “ideais de vida e (aos)os hábitos de dominação
patrimonialista” (Fernandes, 2008a, p.61). Logo, os centros urbanos eram centros de dominação
de poucos, em especial dos grandes homens de negócios.
Mesmo nos centros urbanos em crescimento tumultuoso e rápido (como
acontecia em São Paulo), ela se configura como uma sociedade de classes que
é igualitária nos extratos dominantes e é aberta para aqueles que
detinham o poder ou para os que participassem vantajosamente das novas
tendências à concentração regional da renda, inauguradas com o surto cafeeiro
e a expansão econômica do sul do país (Fernandes, 2008a, p. 61).
Dentro da ordem social competitiva (Fernandes, 2008a) que se edificou, simplesmente
não existia espaço para a população negra dentro das funções especializadas exigidas pela
sociedade moderna e capitalista, ao levarmos em conta o fato de que “a ordem social
competitiva se fechava discretamente para o negro, pois sua mobilidade vertical dependia
estreita e diretamente da vontade pessoal do branco’” (Fernandes, 2008a, p.360).
Demonstremos no próximo tópico como aspectos no pós-abolição acabaram por empurrar a
população negra ainda mais à margem do mundo do trabalho brasileiro e como tal população
reagiu.
Raça, trabalho e classe: a abordagem de Florestan Fernandes sobre a não inserção da população negra na ordem social competitiva
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O mundo do trabalho especializado
O negro e o mulato foram eliminados das posições que ocupavam no
artesanato urbano pré-capitalista ou no comércio de miudezas e de serviços,
fortalecendo-se de modo severo a tendência a confina-los a tarefas ou
ocupações brutas, mal retribuídas e degradantes (Fernandes, 2008a, p. 41).
A afirmação destacada expõe com bastante clareza o que ocorreu com a população negra
no período pós abolição. Discutiremos ao longo desse tópico a continuidade do trabalho
subalterno e sem especialização que não permitia a grande parte deste contingente participar do
regime de produção industrial e moderno que se estabelecia aos poucos no Brasil, destacando
mais uma vez o exemplo de Fernandes sobre o processo de modernização da cidade de São
Paulo.
O chamado mito da democracia racial foi fundamental para isentar a elite branca da
culpa pelo regime escravista e também de qualquer obrigação com a população negra recém
liberta. No passado o regime escravocrata foi legitimado pelo clero que defendia que a
população negra fosse tratada como uma coisa (Fernandes, 2008a). no pós-abolição foi na
estrutura da lei, embebida no mito da democracia racial, que ignorou o drama de toda a
população negra no Brasil e
isentou o branco de qualquer obrigação, responsabilidade ou solidariedade
morais de alcance social e de natureza coletiva, perante os efeitos sociopáticos
da espoliação abolicionista e da deterioração progressiva da situação
econômica do negro e do mulato (Fernandes, 2008a, p. 311).
Florestan denuncia a hipocrisia senhorial e a falácia do mito da democracia racial
sofrendo duras penas, inclusive sendo acusado de desenvolver o racismo no Brasil. Através de
suas análises se torna possível observar as relações análogas entre os demais homens livres e a
população negra, em especial ao que concerne o mundo do trabalho. Essa análise desenvolvida
em parceria com Roger Bastide resulta em uma nova interpretação do dilema racial no Brasil,
concorrendo com a interpretação vigente de Gilberto Freire
sob a égide da ideia de democracia racial justificou-se, pois, a mais extrema
indiferença e falta de solidariedade para com um setor da coletividade que não
possuía condições próprias para enfrentar as mudanças acarretadas pela
universalização do trabalho livre e da competição (Fernandes, 2007, p. 29).
O mito em questão vai se mostrar como uma ideologia dominante, permitindo ainda que
estruturas arcaicas de dominação se estruturem e funcionem como “um fator de retenção do
desenvolvimento da ordem social competitiva e democrática” (Fernandes, 2008a, p. 319),
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edificando um muro de relações intransponíveis no mundo do trabalho segundo as análises de
Fernandes na época.
A população branca pertencente à elite nacional possuiu diversas vantagens com o fim
da escravidão, mas a principal denúncia de Fernandes é com relação a esta não responsabilidade
dos membros desse estrato para com a população negra recém-liberta, ao se sentiram isentos
do fardo de educar e prepará-los para o mundo do trabalho livre fora das fazendas. Segundo
Florestan “a Abolição equivalia nas zonas de vitalidade da lavoura cafeeira a condená-lo
à eliminação no mercado competitivo de trabalho ou, no mínimo, ao aviltamento de sua
condição, como agente potencial de trabalho livre” (Fernandes, 2008a, p. 59).
Antes da abolição o modelo agroexportador precisava da figura do escravizado tanto
para se manter como para sustentar a demanda do sistema, entretanto, com o processo de
modernização a escravidão acabou se tornando obsoleta e a mão de obra especializada se tornou
necessária. Em meio a este cenário surge a figura do imigrante europeu. As cidades, em especial
São Paulo, passaram a ser vistas como o local de grande possibilidade para o trabalho livre
dentro da ordem social competitiva, contudo “o fator humano preponderante passou a ser o
agente do trabalho livre, o imigrante” (Fernandes, 2008a, p. 40). Se faz necessário também
destacar que a mão de obra branca e europeia, além de especializada para o mundo do trabalho
industrial também fez parte de uma política de embranquecimento da população brasileira, indo
portanto além da esfera do trabalho e evidenciando questões raciais particulares que foram
observadas por Fernandes de modo inseparável, por sua vez o pesquisador Abdias do
Nascimento (1978) definiu a política de embranquecimento como um instrumento que
evidencia uma das políticas de genocídio em sua obra Genocídio do povo negro brasileiro:
processo de um racismo mascarado.
O peso da competição direta com a mão de obra imigrante foi maçante para a população
negra, que sem a especialização necessária já elencada, não era aceita facilmente em atividades
propriamente modernas como o trabalho nas fábricas e indústrias como um todo, onde não
encontrava aceitação, mesmo nas funções que pediam uma especialização mínima.
Diante do negro e do mulato se abrem duas escolhas irremediáveis e sem
alternativas. Vedado o caminho da classificação econômica e social pela
proletarização, restava-lhes aceitar a incorporação gradual à escória do
operariado urbano em crescimento ou se abster penosamente, procurando no
ócio dissimulado, na vagabundagem sistemática ou na criminalidade fortuita
meios para salvar as aparências e a dignidade do “homem-livre” (Fernandes,
2008a, p. 44).
Raça, trabalho e classe: a abordagem de Florestan Fernandes sobre a não inserção da população negra na ordem social competitiva
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Os imigrantes vieram para ocupar a posição que os antigos escravos ocupavam nas
fazendas, mas estavam em pé de igualdade com os demais homens livres queviviam no país
na busca de melhores trabalhos e uma condição de vida mais digna do que a de onde vinham.
Portanto, possuíam elementos que lhes garantia a entrada na ordem social competitiva que
estava germinando no país. Entretanto, aonde esses imigrantes não chegaram, a mão de obra
negra continuou a ser utilizada, mesmo que a contragosto dos proprietários de terra. Como
advoga Fernandes, o grande proprietário deu preferência ao imigrante onde a prosperidade
econômica e a abundância relativa de mão-de-obra estrangeira foram acentuada; nas regiões em
que isso não sucedeu (ou ocorria em menor escala), teve que apelar para os libertos” (Fernandes,
2008a, p. 54).
Desprovida de semelhante aceitação, coube à população negra viver desempenhando
funções subalternas dentro do cenário urbano. Florestan destaca que para as mulheres negras
foi mais fácil
7
conseguir empregos e ocupar as funções como faxineiras, lavadeiras etc.
(Fernandes, 2017). Nesse sentido, acabavam desempenhando funções muito semelhantes que
as antigas negras da casa grande desempenhavam. Nos ombros das mulheres negras acabou
repousando a responsabilidade de sustentar suas famílias que os homens estavam desprovidos
de participação na ordem social competitiva.
Os homens negros por sua parte acabaram desempenhando funções subalternizantes, se
entregando ao que Fernandes destaca como ócio, na vagabundagem sistemática ou na
criminalidade. “Para serem livres, eles tiveram de arcar com a opção de se tornarem
vagabundos, boêmios, desordeiros, ladrões’, etc. A estigmatização do negro, associada à
condição escrava ganhou uma nova densidade negativa” (Fernandes,2017, p. 80). Uma vez que
não conseguiam competir em pé de igualdade com o imigrante europeu que era mais bem visto
pelos homens de negócios, a população negra se encontrará, portanto, em um estado de anomia
social
8
ainda a ser superado.
Reconhecemos a anomia como conceito de origem durkheimiana, que aponta uma
situação transitória de ausência de regramento social em momentos de transformações sociais.
7
Era mais fácil conseguir o emprego nas funções domésticas, mas nem por isso o trabalho deixa de ser humilhante
e degradante para as mulheres negras, ao realizar funções subalternas em detrimento das mulheres brancas que as
empregavam.
8
No caso de Florestan Fernandes, a própria estrutura da ordem social tradicionalista se reproduz na moderna
sociedade de classes, por isso algumas vezes ele passa a utilizar o termo disnomia. Mas ao mesmo tempo Florestan
Fernandes percebia a importância da herança cultural do negro como um fator capaz de equilibrar a desorganização
social e a desestruturação psíquica dos momentos de transição do negro da sociedade de castas (e estamentos) para
a sociedade de classes. Essa questão pode ser examinada em A integração do negro na sociedade de classes
(2008a).
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Sem trabalho digno e remuneração adequada, ele foi jogado em um processo
de anomia (desorganização e desintegração social e psíquica, nos termos de
Durkheim), o que por sua vez dificultou o seu acesso aos mecanismos de
ascensão como a formação escolar, o voto democrático, a realização pelo
trabalho (Freitag, 2005, p. 235).
Com a população branca dominante virando as costas para o drama negro, que estava
falseado pela ideologia do mito da democracia racial, acabou por se estruturar no país uma
dinâmica cultural que subalternizava e subalterniza a população negra, tendo isso como um fato
natural e não como todo um engendrar de estruturas que se edificaram desde a colônia até o
tempo em que nos escreveu Florestan.
Fernandes advoga sobre a não inserção da população negra na sociedade de classes que
estava em formação. A defesa de Florestan Fernandes focava na imagem da população negra
brasileira, nas questões raciais dentro da revolução burguesa no Brasil e de modo evidente nas
relações de raça e classe no cenário brasileiro, mesmo com um trabalho acadêmico primoroso,
Fernandes jamais deixou de lado a sua preocupação com a emancipação da população negra
em seus mais diversos aspectos.
Em O negro no mundo dos brancos o autor denuncia, assim como fez em outros escritos,
o drama negro e a incapacidade da população branca dominante de lidar com essa questão
abertamente, ignorando inclusive a existência do racismo no Brasil, onde a posição periférica
do negro era colocada como um fruto do seu não esforço de participação na ordem social
competitiva. “O negro teve a oportunidade de ser livre; se não conseguiu igualar-se ao
branco o problema era dele não do branco” (Fernandes, 2007, p. 29). Contudo, como foi
esboçado anteriormente, tal participação se encontra entravada nas próprias estruturas que
formaram a sociedade brasileira tal qual a conhecemos.
Esse processo será chamado de falsa abolição por Fernandes, onde a liberdade do povo
negro estava apenas nas linhas da lei. Em vez de libertar as mulheres e homens negros para
viver em igualdade na ordem social competitiva que se formou no Brasil, a abolição apenas
libertou os senhores de qualquer responsabilidade com todo esse contingente populacional, a
problemática apresentada discorre sobre a exclusão negra e o legado da população branca que,
ao ser isenta, evidencia a formação de classes no Brasil e as exclusões que esta convocou
(Fernandes, 2017). A falsa abolição denunciada pelos movimentos negros e por Fernandes em
suas análises será motivo de discussão nas décadas seguintes, principalmente pensando na
superação da subalternidade negra e de como isto poderia ocorrer.
Raça, trabalho e classe: a abordagem de Florestan Fernandes sobre a não inserção da população negra na ordem social competitiva
Rev. Sem Aspas, Araraquara, v. 14, n. 00, e025013, 2025. e-ISSN: 2358-4238
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O autor ainda destaca que a posição periférica da população negra, em especial na cidade
de São Paulo, era fruto, como ilustramos aqui, de uma dinâmica cultural subalternizante que
tentava manter o status quo existente desde o período colonial e impedia os homens e mulheres
negras de ascenderem socialmente. Mesmo quando a custo de muita luta, conseguiam atingir
uma posição um pouco menos subalterna, não desfrutavam do mesmo status social que uma
mulher ou homem branco, mostrando o quão perene era o drama dessa população. Afinal,
Fernandes destaca que pouquíssimos conseguiram, mas atingiram o status que poderíamos
chamar de classe média negra, contudo, utilizando uma linguagem Weberiana, a mesma poderia
alcançar o status de classe, mas nunca o de estamento
9
(Weber, 1974).
Viver na cidade não significava viver em liberdade, já que a abolição foi uma revolução
de brancos para brancos que não trouxe mudanças de vida dignas para a população negra.
Pesquisas contemporâneas a Fernandes evidencia que “os não-brancos experimentam uma
desvantagem na conversão de sua educação formal em posições ocupacionais, o que pode estar
vinculado a processos de discriminação racial no mercado de trabalho” (Pastore; Silva, 2000,
p. 95), tal afirmação só evidencia que as reflexões de Fernandes ainda reverberam nos estudos
contemporâneos sore a temática das relações raciais no Brasil.
Apenas com o período de industrialização intensificada nos idos de 1950, a população
negra consegue se incluir minimamente na ordem social competitiva que era necessária a
mão de obra para todo o desenvolvimento que estava em voga. Entretanto, as funções
desempenhadas pelo contingente ainda eram funções subalternas e sem um nível de
especialização que permitisse competir em de igualdade com os demais homens livres no
mercado de trabalho brasileiro. Em diálogo com essas questões Fernandes discute a
participação dos diversos movimentos negros que lutaram por melhores condições de vida no
Brasil, que tinham como bandeira, inclusive, a chamada segunda abolição (Fernandes, 2017).
Nos dediquemos no próximo tópico sobre a atuação de alguns desses grupos e a análise de
Fernandes acerca da atuação política destes.
9
Aqui referenciamos o texto clássico de Max Weber, Classe, Estamento e Partido (1974), mesmo compreendendo
que Weber trabalhava com os seus tipos ideais, essas ferramentas nos auxiliam a pensar a não inserção da
população negra, mesmo aquela que a duras penas atingiu o estado de classe média, não desprovia do mesmo
status social da população branca.
Marco Aurelio de Oliveira LEAL e Sérgio Roberto VELOSO FILHO
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A luta pelo desmascaramento
A população negra não viveu de modo passivo o processo de subalternização pela qual
passou no cenário brasileiro. Evidenciemos neste tópico por um momento a atuação da Frente
Negra Brasileira (FNB) fundada na cidade de São Paulo em 1931, que teve como um de seus
principais objetivos a luta por melhores condições de vida para a população negra e se tratou
de “uma coletividade que luta por sua redenção e contra a espoliação secular’” (Fernandes,
2008b, p. 122). Esta luta em diversas frentes incluía principalmente o mundo do trabalho, pois,
como foi dito, a população negra conseguiu entrar de modo mais fecundo na ordem social
competitiva nos idos de 1950.
Tratou-se de uma tentativa por parte da população negra de se unir, organizar-
se em tomo de uma entidade que lutasse pelos seus direitos e, finalmente,
contar com um local onde pudesse exercer a sua sociabilidade. Ademais, o
momento político era propício ao surgimento de instituições desse tipo. Após
a Revolução de 1930, nasceram várias instituições que se proclamavam
frentes (Schwarcz; Gomes, 2018, p. 249).
A FNB
10
chegou a contar com 50 mil associados (Schwarcz; Gomes, 2018), suas lutas
variavam dos empregos dignos até a questão da moradia e segurança. Outros movimentos
também de mesmo cunho e com participação efetiva no jornalismo, lutaram ainda pelo
desmascaramento de uma suposta democracia racial que não existia no Brasil. Os
desmascaramentos dos discursos falaciosos sobre a situação do negro no Brasil “engendram a
necessidade de desmascarar, também certos símbolos e valores que serviam de fundamento, na
sociedade inclusiva, para se conceber a realidade racial segundo a situação de interesses dos
brancos’, como e enquanto raça dominante” (Fernandes, 2008b, p. 117).
Esses desmascaramentos incluíam ainda a citada segunda abolição, que retirasse da
hegemonia branca a libertação dos negros cativos do regime escravocrata
[…] a democracia racial somente seria possível após a “Segunda Abolição”,
ou seja, depois de um processo que garantisse igualdade civil, política e social
de fato para o negro, acabando com o preconceito e a discriminação ainda
existentes e dando condições mais justas de concorrência no mercado de
trabalho” (Macedo, 2005 apud Caldas; Silva, 2021, p. 93).
10
Criada em outubro de 1931 na cidade de São Paulo, a FNB foi uma das primeiras organizações no século XX a
exigir igualdade de direitos e participação dos negros na sociedade brasileira. Sob a liderança de Arlindo Veiga
dos Santos, José Correia Leite e outros, a organização desenvolvia diversas atividades de caráter político, cultural
e educacional para os seus associados.
Raça, trabalho e classe: a abordagem de Florestan Fernandes sobre a não inserção da população negra na ordem social competitiva
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Ainda era uma grande dificuldade explicitar o preconceito racial uma vez que ele não
aparece de modo escancarado, mas sim na ausência de um sistema de reciprocidade nas relações
entre negros e brancos (Fernandes, 2008b). É no mundo do trabalho que essa não reciprocidade
se torna ainda mais evidente para a população negra, que sem dúvidas, via em todos os aspectos
das suas vidas a tentativa de manutenção do status quo por parte de uma elite branca de tradições
seculares.
Os embates políticos acabavam por marginalizar ainda mais a população negra, vivendo
em uma sociedade mentalmente estruturada para o domínio branco com raízes senhoriais.
Apesar do processo de industrialização pelo qual a sociedade brasileira passou em sua transição
do regime estamental ao regime de classes, não se observou uma mudança positiva na qualidade
de vida destes grupos. Desta forma, a posição em que se coloca a população negra ainda nos
mostra que as estruturas estamentais de subjugação permaneciam presentes.
O “negro” pretendia se elevar à condição de “raça” livre, autônoma e
respeitada, projetando-se no processo histórico como agente de uma revolução
social que abortara. Ele não retoma a ideologia do abolicionismo construída
pelos “brancos e para os “brancos”. Elabora ele mesmo os seus mitos
avaliações e aspirações sociais, tentando dar à segunda Abolição o conteúdo
de uma afirmação do “negro” para o “negro” dentro da ordem social
estabelecida (Fernandes, 2008b, p. 121).
Os movimentos buscaram superar as barreiras sociais e mentais que se edificaram tão
fortemente na história, sem com isso se colocar à margem de um espectro político diferente,
mas buscar o seu próprio espaço na ordem social competitiva. Era uma tentativa de “se afirmar
com uma raça em si e para si” (Fernandes, 2008b, p. 125). Fernandes destaca ainda a
necessidade da intervenção estatal para a criação de políticas públicas para a inserção negra na
ordem social competitiva. Todo o conjunto da população negra e pobre estava, em suas
palavras, no limiar de uma nova era (Fernandes, 2008b) dotada de possibilidades de contestar
a ordem vigente. Seria não apenas papel dos movimentos negros lutar pela superação da
subordinação secular, mas também papel das estruturas legislativas garantir essas mudanças,
causa pela qual Florestan também defendeu enquanto deputado e que os movimentos negros
lutam até os dias de hoje.
Considerações finais
A atuação de Florestan Fernandes, seja como sociólogo, seja como militante político,
sempre esteve direcionada à mudança social e em desmascarar diversas falácias existentes na
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hipocrisia tradicionalista brasileira. Por este motivo denominou sua sociologia como uma
Sociologia Política e Militante. Um de seus grandes nortes de atuação, como foi exposto em
minha discussão foi o drama negro. O que salta aos olhos na atuação de Fernandes é que ele
não tomou para si o papel da linha de frente dessas lutas e isso se revela não apenas nos seus
escritos teóricos, como também na sua atuação enquanto parlamentar sobre a bandeira do
Partido dos Trabalhadores.
Também esteve presente no processo de estruturação do PT e de modo extremamente
didático sempre expôs as suas ideias refletindo acerca das mudanças sociais necessárias na
sociedade brasileira, denunciando a história hegemônica das classes dominantes ainda em voga
no Brasil e promovendo uma discussão sobre a ascensão das classes subalternas, sem se
distanciar de uma reflexão acerca das relações raciais. Segundo o mesmo, “as sequelas da
colônia e da sociedade escravista iriam sobreviver e alimentar o subdesenvolvimento”
(Fernandes, 2017, p. 81), o que evidencia a forte presença no capitalismo periférico.
É necessário se ter um olhar atento para as condições histórico-culturais que reproduzem
as dinâmicas herdadas do sistema colonial, também nas palavras de Fernandes, “jogou o negro
na sarjeta e ele teve que se reerguer-se aos poucos e penosamente” (Fernandes, 2017, p. 80). O
presente artigo buscou articular a questão racial em Florestan Fernandes com a caracterização
das relações de trabalho no capitalismo brasileiro. A maioria dos críticos de Florestan Fernandes
lhe atribuem a tese de que o mero desenvolvimento da ordem social competitiva seria capaz de
eliminar o preconceito de cor e a discriminação racial. Indo nessa contramão não abraçamos tal
crítica, a qual não se sustenta numa análise mais atenta da obra de Fernandes.
Florestan defendeu ainda que era preciso se posicionar frente a subalternidade negra
secular, não apenas nos moldes da classe, mas entendendo que na complexidade que representa
a sociedade brasileira, classe e raça andam de mãos dadas e uma não pode ser compreendida
em detrimento da outra, classe e raça se fortalecem reciprocamente e combinam forças
centrífugas à ordem existente” (Fernandes, 2017, p. 85). Apenas através de bandeiras, que
Florestan levantou ao longo da vida seria possível a superação desse estado de subalternidade
que o drama negro configura. A educação universal e pública, superação do colonialismo
cultural e uma compreensão racional dos problemas sociais foram algumas dessas bandeiras
defendidas até o fim de sua vida.
A ideia de que o desenvolvimento da ordem social competitiva apresentaria condições
mais favoráveis para eliminar o preconceito de cor e a discriminação racial aparece nos anos
1950 e 1960 como uma possibilidade histórica, desde que os movimentos sociais negros
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conseguissem mobilizar a sociedade com tal objetivo, rompendo seu isolamento (Fernandes,
2017). Florestan Fernandes nunca afirmou que o desenvolvimento dessa ordem social
eliminaria o racismo, como afirmam seus críticos, mas apontou a possibilidade de, com a luta
do movimento negro, esse racismo ser superado. A par disso, também considerou a hipótese de
o racismo se tornar uma realidade estrutural do capitalismo brasileiro. Para Fernandes, em
trabalhos posteriores, dos anos 1970 e 1980, será esta segunda possibilidade que, de fato, se
concretizou historicamente. Evidenciando a ligação intrínseca entre racismo e capitalismo no
Brasil, questão que ainda se encontra em voga e demonstra a importância do pensamento de
Florestan Fernandes no debate que convocamos ao longo do artigo.
Marco Aurelio de Oliveira LEAL e Sérgio Roberto VELOSO FILHO
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CRediT Author Statement
Reconhecimentos: Agradecemos ao PPGS-UFPE.
Financiamento: Nenhum.
Conflitos de interesse: Não há.
Aprovação ética: O trabalho não precisou de aprovação em comitê de ética em pesquisa.
Disponibilidade de dados e material: Os dados e materiais utilizados no trabalho estão
disponíveis para acesso em bibliotecas e no SciELO.
Contribuições dos autores: Os autores Marco Leal e Sérgio Veloso contribuíram com a
reflexão acerca da temática abordada na conceituação de Fernandes.
Processamento e editoração: Editora Ibero-Americana de Educação
Revisão, formatação, normalização e tradução
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RACE, LABOR, AND CLASS: FLORESTAN FERNANDES’S APPROACH TO THE
NON-INCORPORATION OF THE BLACK POPULATION INTO THE
COMPETITIVE SOCIAL ORDER
RAÇA, TRABALHO E CLASSE: A ABORDAGEM DE FLORESTAN FERNANDES
SOBRE A NÃO INSERÇÃO DA POPULAÇÃO NEGRA NA ORDEM SOCIAL
COMPETITIVA
RAZA, TRABAJO Y CLASE: EL ENFOQUE DE FLORESTAN FERNANDES SOBRE
LA NO INSERCIÓN DE LA POBLACIÓN NEGRA EN EL ORDEN SOCIAL
COMPETITIVO
Marco Aurelio de Oliveira LEAL
1
e-mail: marco.leal.cs@gmail.com
Sérgio Roberto VELOSO FILHO
2
e-mail: sergio.velloso007@gmail.com
How to reference this paper:
LEAL, M. A. de O.; VELOSO FILHO, S. R. Race, labor, and
class: Florestan Fernandes’s approach to the non-incorporation
of the black population into the competitive social order. Rev.
Sem Aspas, Araraquara, v. 14, n. 00, e025013, 2025. e-ISSN:
2358-4238. DOI: 10.29373/sas.v14i00.19924
| Submitted: 07/01/2025
| Revisions required: 15/10/2025
| Approved: 20/11/2025
| Published: 29/12/2025
Editor:
Prof. Dr. Carlos Henrique Gileno
Deputy Executive Editor:
Prof. Dr. José Anderson Santos Cruz
1
Federal University of Pernambuco (PPGS-UFPE), Recife PE Brazil. Master’s degree holder and Ph.D.
candidate in the Graduate Program in Sociology (PPGS-UFPE).
2
Federal University of Pernambuco (PPGS-UFPE), Recife PE Brazil. Bachelor’s degree in Social Sciences,
with research interests in the sociology of communication, emotions, and consumption.
Race, labor, and class: Florestan Fernandes’s approach to the non-incorporation of the black population into the competitive social order
Rev. Sem Aspas, Araraquara, v. 14, n. 00, e025013, 2025. e-ISSN: 2358-4238
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ABSTRACT: For Florestan Fernandes, Brazilian society was constituted through the
subalternization of specific social groups, especially the Black population, whose social
position resulted from a long historical process of silencing and domination. After the end of
slavery, there was no political project aimed at effectively incorporating this population into
the emerging class society, as the exclusionary logic of the old estate order was preserved in
new forms. Deprived of access to schooling and the specialization required by modernization,
Black people were relegated to the margins of economic and social development. This article
examines Fernandes’s contribution to understanding how Brazil’s class structure consolidated
itself in an exclusionary manner, assigning the Black population subaltern roles and producing
their unequal incorporation into the competitive social order.
KEYWORDS: Florestan Fernandes. Black movement. Second abolition. Competitive social
order.
RESUMO: Para Florestan Fernandes, a sociedade brasileira constituiu-se a partir da
subalternização de determinados grupos sociais, especialmente da população negra, cuja
posição social resultou de um longo processo histórico de silenciamento e dominação. Com o
fim do regime escravista, não houve um projeto político voltado à inserção efetiva dessa
população na emergente sociedade de classes, preservando-se, sob novas formas, a lógica
excludente da antiga ordem estamental. Desprovidos de acesso à escolarização e à
especialização exigidas pelo processo de modernização, os negros foram sistematicamente
relegados do desenvolvimento econômico e social. Este artigo analisa a contribuição de
Florestan Fernandes para compreender como a estrutura de classes no Brasil se consolidou
de maneira excludente, destinando à população negra funções subalternas, dissociadas do
trabalho livre, republicano e capitalista em formação. A partir das análises de Fernandes,
busca-se evidenciar a complexidade que moldou a desigual inserção da população negra na
ordem social competitiva.
PALAVRAS-CHAVE: Florestan Fernandes. Movimento negro. Segunda abolição. Ordem
social competitiva.
RESUMEN: Para Florestan Fernandes, la sociedad brasileña se constituyó a partir de la
subalternización de determinados grupos sociales, especialmente de la población negra, cuya
posición resultó de un prolongado proceso histórico de silenciamiento y dominación. Tras el
fin del régimen esclavista, no existió un proyecto político orientado a la inserción efectiva de
esa población en la emergente sociedad de clases, manteniéndose, bajo nuevas formas, la
lógica excluyente del antiguo orden estamental. Privados del acceso a la escolarización y a la
especialización exigidas por la modernización, los negros fueron relegados a los márgenes del
desarrollo económico y social. Este artículo analiza la contribución de Florestan Fernandes
para comprender cómo la estructura de clases en Brasil se consolidó de manera excluyente,
destinando a la población negra funciones subalternas y una inserción desigual en el orden
social competitivo.
PALABRAS CLAVE: Florestan Fernandes. Movimiento negro. Segunda abolición. Orden
social competitiva.
Marco Aurelio de Oliveira LEAL and Sérgio Roberto VELOSO FILHO
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Introduction
Florestan Fernandes is one of the foremost Brazilian thinkers to devote himself to the
social question, particularly to the suffering experienced by the Black and poor population
3
.
Throughout his careeras a researcher, professor, and even as a parliamentarianhis guiding
concern was to produce a social science aimed at understanding Brazilian society in all its
contradictions.
His origins and process of socialization were fundamental to the sociologist he became,
endowing him with a unique empathy and a singular, sensitive relationship with the groups he
observed. The so-called “philosophy of the folk” (Fernandes, 1976, p. 144, our translation) was
essential in enabling him, through the solidarity existing among the poor and marginalized strata
of society, to integrate into these groups from an early age and to understand social ills from
within. Among the many studies produced by Fernandes, those he himself regarded as most
important were his investigations into the Black population. In these works, he removes the
Black subject from the condition of an object of analysis and places them in the position of
subject, as he developed data collection methods that involved multiple toolssuch as mass
observationthat allowed subjects to speak about their own realities within Brazilian society.
In this brief article, we highlight his contribution to the understanding of the foundations
of the class structure in Brazil, which, rooted in colonial legacies, subjects Black men and
women to a condition of subalternity from which it is difficult to escape. Among his
contributions, particularly within the UNESCO Project
4
, Fernandes defended the autonomy and
affirmation of the Black movement, as the results of his research conducted in partnership with
Roger Bastide enabled him to access the roots of the Brazilian racial dilemma and to reflect on
possible changes and transformations in modern Brazilian society. One of Florestan’s central
3
In order to avoid conceptual problems regarding the terms people and population, we adopt the notion of
population to emphasize a set of Black men and women who underwent processes of degradation and exclusion
from the competitive social order in the post-abolition period.
4
Still under the immediate impact of the great tragedy that was the Holocaust, in the early 1950s the United Nations
Educational, Scientific and Cultural Organization (UNESCO) sponsored a series of studies on race relations in
Brazil. Taking as its point of departure the idea of an existing racial harmony in Brazil and seeking to reflect on
how this model could be replicated in areas of latent racial tension, a group of researchersamong whom Florestan
Fernandes and Roger Bastide stand outdedicated themselves to understanding racial dynamics in the country.
The analysis conducted by Fernandes and Bastide ultimately fulfilled its role in reverse, as the researchers
demonstrated that race relations in Brazil were structured around specific mechanisms of subordination that
privileged the dominant white race, thereby exposing so-called racial harmony as nothing more than a masking of
subordination, particularly of the Black population. Other researchers involved in the project reached different
conclusions: the studies by René Ribeiro (Pernambuco) and Thales de Azevedo (Bahia) were highly ambiguous
in this regard, while Luiz Aguiar da Costa Pinto conflated racial discrimination with class relations. In this context,
we focus on the issues raised by Fernandes and Bastide, while recognizing that the UNESCO project encompassed
a wide range of analyses and conclusions.
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concerns was the emancipation of the Black population from the social and mental structures
that maintained it in such a condition of subalternity. It became evident to Fernandes that
something profoundly wrong was occurring in Brazil, which led his militant and theoretical
work to run counter to the prevailing discourse of a false racial democracy.
We further contribute by highlighting elements pertinent to the process of social change
present in his studies on the Black movement, which carry what may be understood as a
potential for transformation for the future of the country’s Black and poor population. As a
fundamental theoretical issue in Fernandes’s work, we address the intrinsic relationship
between race and class in the interpretation of Brazilian capitalism. The contemporaneity of
Fernandes is emphasized and deemed noteworthy by the authors through the discussion of the
racial question in the work of one of Brazil’s most important sociologists, offering contributions
to reflections on contemporary Brazil.
The Structuring of Subalternity
Florestan Fernandes developed several analytical tools essential to the discussion of the
foundations of social stratification in Brazil, with a focus on the historical processes through
which society has evolved over the centuries. Since the colonial period, the system of
domination has left deep marks on Brazilian society, particularly on Black men and women.
The historical digression undertaken here aims to highlight Fernandes’s interpretation
and his historical uses for understanding the social, as well as his divergences from prevailing
paradigms, among which we emphasize Gilberto Freyre and the so-called racial democracy in
Brazil. Returning to the foundations of the colonial system in A sociedade escravista no Brasil
(1976), Fernandes proposes a historical reconstruction in Marxist terms, seeking the causes of
the phenomenon of social stratification in Brazil as it took shape, tracing nearly four centuries
of slavery and highlighting the “structural and dynamic elements” (Fernandes, 1976, p. 11, our
translation) that placed the Black population in the condition it occupied at the time of his
analysis. Unlike ancient slavery, the slavery that brought captives from Africa to Brazil is
necessarily modern in that it reduced individuals to commodities. This characterization of the
model as mercantile slavery becomes evident in Fernandes’s argument, given the Marxian
influence on his work. The enslaved subject thus constituted a commodity within the colonial
Marco Aurelio de Oliveira LEAL and Sérgio Roberto VELOSO FILHO
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production systema commodity that was crushed and exploited to its final limits and
replaced
5
whenever deemed necessary at the discretion of the rural landowner.
Although the master purchased the slave, what he sought was human energy
not as a mere equivalent variety of “animal energy in general,” but as a form
of energy that could be concentrated and intensively used through the
organization of slave labor, as if the human organism were a machine
(Fernandes, 1976, p. 16, our translation).
The Black population, however, was not enslaved solely by the rural landowner. A vast
web of domination was engendered, placing this entire group at the base of a harsh
subalternization. In the colonial system, enslaved labor was necessary, as Brazil was configured
as a colony of exploitation (Fernandes, 1976). The structure of this system was financed by
European countriesparticularly Englandpassing through the Portuguese Crown to rural
landowners and free men.
The owner of the slaveand therefore the owner of his labor power and its
productwas not the exclusive owner of the surplus generated by slave
production, whose value, in the sectors of greatest economic significance, was
necessarily realized outside and above the Colony (Fernandes, 1976, p. 20,
our translation).
At the foundation of this system of domination was Black labor. Florestan points out
that, beyond being treated as a commodity, Black workers constituted the driving force of the
entire productive regime, having their human energy expropriated by all the agents mentioned
above. Domination, in this sense, was not linear between the rural landowner and the enslaved
individual; other actors must be considered in order to more productively understand the agro-
export system that prevailed in colonial Brazil.
The basis of the colonial economy was therefore Black labor, without which the
accumulation of wealth would not have been possible. This accumulation enabled the
enrichment of the rural white elite, which gradually extended its structures of domination into
urban centers. It became necessary to detach the plantation (fazenda) (Fernandes, 1976) from
the patrimonial order, compelling landowners to develop a mentality typical of the capitalist
entrepreneur, constantly attentive to productivity and to the remuneration of the factors of
production (Fernandes, 2008a). This process of domination, whereby the rural elite moved into
5
According to Lilia Schwarcz’s analysis of how damaging the slave labor process was on plantations, “the labor
regime was the great villain, draining the vigor of mothers and increasing the mortality rate of the ‘old’workers
aged forty or older. […] With such negative data, the image of a more benevolent form of slavery in Brazil is not
confirmed, as the life expectancy of enslaved men was lower than that observed in the United States25 to 35
years” (Schwarcz, 2015, p. 94, our translation).
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urban centers, was intensified with the arrival of the Portuguese royal family in Brazil in 1808;
the transfer of metropolitan structures to the colony was significant for the modernization
process that would follow.
The type of labor performed by the Black population, as noted above, exploited the
human strength of these men and women to the point of exhaustion (Fernandes, 2008a),
especially under the plantation regime, with little rest and with entirely unhealthy living
conditions imposed on the enslaved. Few Black men and women worked within the casa-
grande, performing mainly domestic tasks. This forced labor was no less brutal or humiliating;
however, it was undoubtedly less physically exhausting than daily work in the plantations.
Focusing specifically on plantation labor, as a large portion of the enslaved Black
population in Brazil was employed in these activities, the men and women who occupied these
positions did not possess any degree of specialization. Due to exhaustion, they could easily be
replaced by new enslaved labor (Fernandes, 1976). This lack of specialization, combined with
high levels of illiteracy, functioned as a key mechanism for keeping the Black population at the
margins of the modern and industrial society that was already beginning to emerge in Brazil.
The disintegration of the colonial state occurred gradually in light of several historical
events that cannot be fully developed here due to the limits of this article. Nevertheless, the
threshold between the slave-based social order and the establishment of a competitive social
6
order in Brazil is highlighted in order to demonstrate the exclusion of the Black population from
the class society that took shape. In Fernandes’s analysis, it is necessary to understand
why it was this segment of the national population that had the worst starting
point for integration into the social regime that formed during the
disintegration of the slaveholding and seigneurial social order and the
subsequent development of capitalism in Brazil (Fernandes, 2008a, p. 21, our
translation).
After abolition, according to Fernandes, the Black population was left to its own
devices, with no real possibilities of entering the competitive social order. A large portion
migrated to urban centers in search of work opportunities (Fernandes, 1976), often without
success. Considering Fernandes’s focus on the city of São Paulo, the formerly dominant figure
of the landownernow transformed into a businessmanand the European immigrant
6
Throughout his works, Fernandes repeatedly highlights the transition from a caste-based regime to a competitive,
capitalist class system. However, this transition excluded the Black population from participation in the
competitive social order that was taking shape as Brazil moved from a colonial to an urban structure. It should be
made clear, nonetheless, that Fernandes understood slaveholding society as a regime structured around castes and
estates.
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emerged as central actors in the competitive social order and in the reconfiguration of
productive relations. The Black and mulatto population, by contrast, was fated to remain outside
the processes of modernization and Europeanization taking place in Brazil, which directly
shaped the world of specialized labor, for which the formerly enslaved population had received
no training:
[…] Brazilian society abandoned the Black population to its own fate, placing
upon its shoulders the responsibility to re-educate itself and to transform itself
in order to correspond to the new standards and ideals of the human being
created by the advent of free labor, the republican regime, and capitalism
(Fernandes, 2008a, p. 35-36, our translation).
The modern class society that emerged from historical events such as abolition, national
independence, and the establishment of the republic benefited only a few, as national elites
continued to reproduce behaviors and customs rooted in colonization, associated with “life
ideals and habits of patrimonial domination” (Fernandes, 2008a, p. 61, our translation). As a
result, urban centers became spaces of domination for a minority, particularly large
businessmen.
Even in rapidly and chaotically growing urban centers (as was the case in São
Paulo), it took shape as a class society that was egalitarian only within the
dominant strata and open only to those who held power or who could
advantageously participate in the new tendencies toward regional
concentration of income inaugurated by the coffee boom and the economic
expansion of the southern region of the country (Fernandes, 2008a, p. 61, our
translation).
Within the competitive social order (Fernandes, 2008a) that was established, there was
simply no space for the Black population in the specialized functions demanded by modern
capitalist society, especially considering that “the competitive social order discreetly closed
itself to the ‘Black person,’ since their vertical mobility depended narrowly and directly on the
personal will of the ‘white person’(Fernandes, 2008a, p. 360, our translation). In the next
section, we demonstrate how post-abolition dynamics further pushed the Black population to
the margins of the Brazilian labor market and how this population responded.
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The World of Specialized Labor
Black and mulatto individuals were removed from the positions they held in
pre-capitalist urban craftsmanship or in small-scale trade and services, thereby
strongly reinforcing the tendency to confine them to crude, poorly paid, and
degrading tasks or occupations (Fernandes, 2008a, p. 41, our translation).
This statement clearly exposes what occurred to the Black population in the post-
abolition period. Throughout this section, we discuss the continuity of subordinate and non-
specialized labor, which prevented most of this population from participating in the industrial
and modern production regime that was gradually taking shape in Brazil, once again
highlighting Fernandes’s analysis of the modernization process in the city of São Paulo.
The so-called myth of racial democracy was fundamental in absolving the white elite of
responsibility for the slave regime and of any obligation toward the newly freed Black
population. In the past, the slaveholding system was legitimized by the clergy, who defended
the treatment of the Black population as property (Fernandes, 2008a). In the post-abolition
period, however, it was through the legal frameworkimbued with the myth of racial
democracythat the drama of the Black population in Brazil was ignored, thereby
absolving the “white” population of any moral obligation, responsibility, or
collective social solidarity in the face of the sociopathic effects of abolitionist
spoliation and the progressive deterioration of the economic condition of
Black and mulatto populations (Fernandes, 2008a, p. 311, our translation).
Florestan denounced the hypocrisy of the slaveholding elite and the fallacy of the myth
of racial democracy at great personal cost, including accusations that he was promoting racism
in Brazil. Through his analyses, it becomes possible to observe the analogous relations between
other free men and the Black population, particularly with regard to the world of work. This
analysis, developed in partnership with Roger Bastide, resulted in a new interpretation of the
racial dilemma in Brazil, challenging the prevailing interpretation advanced by Gilberto Freyre,
under whose influence the idea of racial democracy justified
the most extreme indifference and lack of solidarity toward a sector of the
population that lacked the means to confront the changes brought about by the
universalization of free labor and competition (Fernandes, 2007, p. 29, our
translation).
The myth in question revealed itself as a dominant ideology, allowing archaic structures
of domination to persist and to function as “a factor that restrains the development of a
competitive and democratic social order” (Fernandes, 2008a, p. 319, our translation), erecting
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an insurmountable barrier within the world of work, according to Fernandes’s analysis at the
time.
The white population belonging to the national elite gained several advantages with the
end of slavery, but Fernandes’s principal criticism concerns the lack of responsibility assumed
by members of this stratum toward the newly freed Black population. Feeling absolved of the
burden of educating and preparing them for participation in the free labor market beyond the
plantations, the elite allowed their exclusion to persist. According to Florestan, “Abolition
meantespecially in the most dynamic areas of coffee agriculturecondemning [the Black
population] to elimination from the competitive labor market or, at the very least, to the
degradation of their condition as potential agents of free labor” (Fernandes, 2008a, p. 59, our
translation).
Before abolition, the agro-export model depended on enslaved labor both to sustain
itself and to meet the demands of the system. With the process of modernization, however,
slavery became obsolete and specialized labor became necessary. Within this context, the figure
of the European immigrant emerged. Citiesparticularly São Paulocame to be seen as spaces
of great opportunity for free labor within the competitive social order; nevertheless, “the
predominant human factor became the agent of free labor, the immigrant” (Fernandes, 2008a,
p. 40, our translation). It is also necessary to emphasize that white European labor, in addition
to being specialized for the industrial labor market, was part of a broader policy of whitening
the Brazilian population. This policy extended beyond the sphere of labor and highlighted
specific racial issues that Fernandes analyzed as inseparable from economic dynamics. In turn,
Abdias do Nascimento (1978) defined the whitening policy as an instrument that reveals one of
the forms of genocidal policy in his work Genocide of the Brazilian Black Population: The
Process of a Masked Racism.
The burden of direct competition with immigrant labor was particularly severe for the
Black population, which, lacking the required specialization, was not readily accepted into
modern forms of employment such as factory and industrial work. Even positions requiring
minimal specialization were largely inaccessible to them.
Faced with this reality, Black and mulatto individuals were confronted with
two irreversible and inescapable choices. Barred from economic and social
advancement through proletarianization, they were left either to accept
gradual incorporation into the growing urban working-class underclass or to
withdraw painfully, seeking in disguised idleness, systematic vagrancy, or
sporadic criminality ways to preserve appearances and the dignity of the “free
man” (Fernandes, 2008a, p. 44, our translation).
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Immigrants arrived to occupy the positions formerly held by enslaved people on
plantations, but they competed on equal footing with other free men already living in the
country in the search for better jobs and more dignified living conditions than those they had
left behind. Therefore, they possessed attributes that ensured their entry into the competitive
social order that was emerging in Brazil. Where these immigrants did not arrive, however,
Black labor continued to be used, albeit often reluctantly by landowners. As Fernandes argues,
“large landowners gave preference to immigrants where economic prosperity and the relative
abundance of foreign labor were pronounced; in regions where this did not occur (or occurred
on a smaller scale), they had to resort to the freed population” (Fernandes, 2008a, p. 54, our
translation).
Lacking similar acceptance, the Black population was left to perform subordinate
functions within the urban setting. Florestan notes that Black women found
7
it relatively easier
to obtain employment, occupying positions such as cleaners, laundresses, and similar roles
(Fernandes, 2017). In this sense, they ended up performing tasks very similar to those
previously carried out by Black women in the casa-grande. The burden of supporting their
families ultimately fell on the shoulders of Black women, as Black men were largely excluded
from participation in the competitive social order.
Black men, in turn, came to occupy subalternizing roles, often being pushed toward
what Fernandes characterizes as idleness, systematic vagrancy, or criminality. “In order to be
free, they had to bear the option of becoming ‘vagrants,’ ‘bohemians,’ ‘disorderly,’ ‘thieves,’
and so on. The stigmatization of the Black individual, associated with the condition of slavery,
acquired a new negative density” (Fernandes, 2017, p. 80, our translation). Unable to compete
on equal terms with the European immigrant, who was more favorably regarded by
businessmen, the Black population thus found itself in a state of social anomie
8
that had yet to
be overcome.
We recognize anomie as a concept of Durkheimian origin, which refers to a transitional
situation marked by the absence of social regulation during periods of social transformation.
7
It was easier to obtain employment in domestic service; nevertheless, such work was no less humiliating and
degrading for Black women, as they performed subordinate functions in deference to the white women who
employed them.
8
In Florestan Fernandes’s analysis, the very structure of the traditionalist social order is reproduced within modern
class society, which is why he at times employs the term dysnomia. At the same time, Fernandes recognized the
importance of Black cultural heritage as a factor capable of mitigating social disorganization and psychic
disintegration during transitional moments, as Black individuals moved from a caste- (and estate-) based society
to a class-based society. This issue is examined in The Integration of the Black into Class Society (2008a).
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Without decent work and adequate remuneration, the Black population was
thrown into a process of anomie (social and psychic disorganization and
disintegration, in Durkheim’s terms), which in turn hindered access to
mechanisms of social mobility such as formal education, democratic
participation through voting, and fulfillment through work (Freitag, 2005, p.
235, our translation).
As the dominant white population turned its back on the Black predicamentmasked
by the ideology of the myth of racial democracya cultural dynamic took shape in Brazil that
subordinated and continues to subordinate the Black population, treating this condition as
natural rather than as the outcome of a complex set of structures built from the colonial period
through the time of Fernandes’s writings.
Fernandes argues that the Black population was not incorporated into the class society
that was in formation. His defense focused on the image of the Brazilian Black population, on
racial issues within the Brazilian bourgeois revolution, and, most explicitly, on raceclass
relations in the Brazilian context. Despite the rigor of his academic work, Fernandes never
abandoned his concern with the emancipation of the Black population in its multiple
dimensions.
In The Black in the World of Whites, the author denouncesmuch as he did in other
writingsthe Black predicament and the inability of the dominant white population to confront
this issue openly, even denying the existence of racism in Brazil, where the peripheral position
of Black people was framed as the result of their own failure to participate in the competitive
social order. The ‘Black person’ had the opportunity to be free; if he failed to become equal to
the ‘white person,’ the problem was his—not the white person’s” (Fernandes, 2007, p. 29, our
translation). However, as outlined above, such participation was obstructed by the very
structures that shaped Brazilian society as we know it.
Fernandes refers to this process as a false abolition, in which the freedom of the Black
population existed only on paper. Rather than liberating Black men and women to live as equals
within the competitive social order that emerged in Brazil, abolition merely freed slaveholders
from any responsibility toward this population. The problem thus centers on Black exclusion
and on the legacy of the white population, whose exemption from responsibility reveals the
formation of classes in Brazil and the exclusions this process entailed (Fernandes, 2017). The
false abolition denounced by Black movements and by Fernandes in his analyses would become
a subject of debate in subsequent decades, particularly in discussions about overcoming Black
subalternity and how this might be achieved.
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The author further emphasizes that the peripheral position of the Black population
especially in the city of São Paulowas the result, as illustrated here, of a subordinating
cultural dynamic that sought to preserve the colonial-era status quo and prevented Black men
and women from achieving social mobility. Even when, through great struggle, some managed
to attain a slightly less subordinate position, they did not enjoy the same social status as white
men or women, underscoring the enduring nature of this population’s predicament. Fernandes
notes that very few succeeded in reaching what might be termed a Black middle class; however,
using Weberian language, they could attain class status but never that of a status group (Stand)
9
(Weber, 1974).
Living in the city did not mean living in freedom, as abolition was a revolution of whites
for whites and did not bring dignified living conditions to the Black population. Research
contemporary to Fernandes shows that “non-whites experience a disadvantage in converting
formal education into occupational positions, which may be linked to processes of racial
discrimination in the labor market” (Pastore; Silva, 2000, p. 95, our translation). This finding
underscores the continued relevance of Fernandes’s reflections in contemporary studies on race
relations in Brazil.
Only with the intensified industrialization of the 1950s did the Black population achieve
minimal inclusion in the competitive social order, as labor was required for the development
then underway. Even so, the roles performed by this population remained subordinate and
lacked the level of specialization necessary to compete on equal terms with other free workers
in the Brazilian labor market. In dialogue with these issues, Fernandes discusses the
participation of various Black movements that fought for better living conditions in Brazil,
many of which adopted the banner of a so-called second abolition (Fernandes, 2017). In the
next section, we turn to the actions of some of these groups and to Fernandes’s analysis of their
political engagement.
9
Here we also refer to Max Weber’s classic text Class, Status, and Party (1974). Although Weber worked with
ideal types, these analytical tools help us to understand the non-incorporation of the Black populationeven of
those who, through great effort, reached a middle-class positionwho nonetheless did not enjoy the same social
status as the white population.
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The Struggle for Unmasking
The Black population did not experience passively the process of subalternization
imposed upon it in the Brazilian context. In this section, it is worth highlighting the role of the
Brazilian Black Front (Frente Negra Brasileira FNB), founded in the city of São Paulo in
1931. One of its main objectives was to fight for better living conditions for the Black
population, constituting “a collectivity that struggles for its ‘redemption’ and against ‘centuries-
old spoliation’” (Fernandes, 2008b, p. 122, our translation). This struggle unfolded on multiple
fronts, most notably in the sphere of labor, since, as previously noted, the Black population only
managed to enter the competitive social order more effectively in the 1950s.
This movement represented an attempt by the Black population to unite and
organize around an institution capable of defending their rights and,
ultimately, to secure a space in which sociability could be exercised.
Moreover, the political context was conducive to the emergence of such
organizations. After the 1930 Revolution, several institutions identifying
themselves as “fronts” came into existence (Schwarcz; Gomes, 2018, p. 249,
our translation).
At its peak, the FNB
10
reportedly had around 50,000 members (Schwarcz & Gomes,
2018). Its struggles ranged from access to dignified employment to issues related to housing
and public safety. Other movements of a similar nature, with active participation in journalism,
also fought to unmask the supposed racial democracy that did not, in fact, exist in Brazil. The
unmasking of fallacious discourses regarding the situation of Black people in Brazil “generated
the need to unmask certain symbols and values that served as foundations, within inclusive
society, for conceiving racial reality according to the interests of ‘whites’ as and while the
dominant race” (Fernandes, 2008b, p. 117, our translation).
These processes of unmasking also encompassed the already mentioned “second
abolition,” which aimed to remove from white hegemony the narrative of the liberation of
enslaved Black people from the slave regime:
[…] Racial democracy would only be possible after the ‘Second Abolition,’
that is, after a process capable of effectively guaranteeing civil, political, and
social equality for Black people, eliminating the still-existing prejudice and
discrimination and providing fairer conditions of competition in the labor
market (Macedo, 2005 apud Caldas; Silva, 2021, p. 93, our translation).
10
Founded in October 1931 in the city of São Paulo, the Brazilian Black Front (FNB) was one of the first
organizations in the twentieth century to demand equal rights and the participation of Black people in Brazilian
society. Under the leadership of Arlindo Veiga dos Santos, JoCorreia Leite, and others, the organization carried
out a wide range of political, cultural, and educational activities for its members.
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Articulating racial prejudice explicitly remained a major challenge, as it did not manifest
itself overtly but rather through the absence of a system of reciprocity in relations between
Black and white populations (Fernandes, 2008b). It was in the sphere of labor that this lack of
reciprocity became even more evident for the Black population, which undoubtedly perceived,
across all aspects of life, persistent attempts by a white elite with centuries-old traditions to
maintain the status quo.
Political disputes ultimately contributed to the further marginalization of the Black
population, which lived within a society mentally structured for white domination, rooted in
patriarchal and slaveholding traditions. Despite the process of industrialization that Brazilian
society underwent during its transition from an estate-based regime to a class-based one, no
significant improvement in the quality of life of these groups was observed. Thus, the position
occupied by the Black population continued to reveal the persistence of estate-based structures
of subjugation.
The “Black individual” sought to rise to the condition of a free, autonomous,
and respected “race,” projecting themselves into the historical process as an
agent of a social revolution that had been aborted. They did not reclaim the
ideology of abolitionism constructed by “whites and for whites.” Instead, they
developed their own myths, evaluations, and social aspirations, seeking to
imbue the Second Abolition with the content of an affirmation of Black people
for Black people within the established social order (Fernandes, 2008b, p. 121,
our translation).
These movements aimed to overcome the social and mental barriers so deeply
entrenched in history, without positioning themselves on the margins of an alternative political
spectrum, but rather by seeking their own place within the competitive social order. It was an
effort “to affirm themselves as a race in itself and for itself” (Fernandes, 2008b, p. 125, our
translation). Fernandes also emphasized the need for state intervention in the creation of public
policies aimed at integrating the Black population into the competitive social order. According
to him, the entire Black and impoverished population stood at the threshold of a new era
(Fernandes, 2008b), marked by possibilities for contesting the existing order. It was not only
the responsibility of Black movements to fight against centuries-old subordination, but also the
duty of legislative structures to guarantee these changesa cause that Florestan Fernandes
himself defended during his tenure as a congressman and that Black movements continue to
pursue to this day.
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Final Considerations
The work of Florestan Fernandes, whether as a sociologist or as a political militant, was
consistently oriented toward social change and toward unmasking the various fallacies
embedded in Brazilian traditionalist hypocrisy. For this reason, he described his sociology as a
Political and Militant Sociology. One of his central analytical concerns, as discussed in this
article, was the Black condition. What stands out in Fernandes’s trajectory is that he did not
position himself at the forefront of these struggles, a stance reflected both in his theoretical
writings and in his parliamentary activity under the banner of the Workers’ Party (PT).
He also played a role in the structuring of the PT and, in an explicitly didactic manner,
consistently articulated his ideas while reflecting on the social changes required in Brazilian
society. He denounced the hegemonic history of the dominant classes still prevalent in Brazil
and fostered debate on the ascent of subaltern classes, without distancing himself from a critical
reflection on racial relations. According to Fernandes, “the remnants of the colony and of slave
society would survive and fuel underdevelopment” (Fernandes, 2017, p. 81, our translation),
highlighting their strong presence within peripheral capitalism.
It is therefore essential to adopt a careful perspective on the historical and cultural
conditions that reproduce dynamics inherited from the colonial system. As Fernandes himself
stated, this system “threw Black people into the gutter, and they had to rebuild themselves
slowly and painfully” (Fernandes, 2017, p. 80, our translation). This article sought to articulate
the racial question in Florestan Fernandes’s work with the characterization of labor relations in
Brazilian capitalism. Many of Fernandes’s critics attribute to him the thesis that the mere
development of the competitive social order would be sufficient to eliminate color prejudice
and racial discrimination. Contrary to this interpretation, this article does not endorse such
criticism, which does not withstand a more careful and comprehensive analysis of Fernandes’s
body of work.
Florestan also argued that it was necessary to take a clear stance against the long-
standing subalternity of the Black population, not solely in class-based terms, but with the
understanding that, given the complexity of Brazilian society, class and race go hand in hand
and cannot be understood in isolation from one another: “class and race mutually reinforce each
other and combine centrifugal forces against the existing order” (Fernandes, 2017, p. 85, our
translation). Only through the banners that Florestan upheld throughout his life would it be
possible to overcome the condition of subalternity embodied in the Black predicament.
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Universal public education, the overcoming of cultural colonialism, and a rational
understanding of social problems were among the causes he defended until the end of his life.
The idea that the development of a competitive social order could create more favorable
conditions for eliminating color prejudice and racial discrimination emerged in the 1950s and
1960s as a historical possibility, provided that Black social movements were able to mobilize
society toward this goal by breaking their isolation (Fernandes, 2017). Florestan Fernandes
never claimed, as some of his critics suggest, that the development of such an order would
eliminate racism; rather, he pointed to the possibility that racism could be overcome through
the struggle of the Black movement. At the same time, he also considered the hypothesis that
racism might become a structural reality of Brazilian capitalism. In his later works from the
1970s and 1980s, Fernandes concluded that this second possibility was, in fact, historically
realized, thereby highlighting the intrinsic link between racism and capitalism in Brazila
linkage that remains highly relevant and underscores the importance of Florestan Fernandes’s
thought in the debate advanced throughout this article.
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REFERENCES
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balanço dos comentadores. Tematicas, Campinas, SP, v. 29, n. 57, p. 88116, 2021. DOI:
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15 Aug. 2022.
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Race, labor, and class: Florestan Fernandes’s approach to the non-incorporation of the black population into the competitive social order
Rev. Sem Aspas, Araraquara, v. 14, n. 00, e025013, 2025. e-ISSN: 2358-4238
DOI: 10.29373/sas.v14i00.19924 18
CRediT Author Statement
Acknowledgements: We thank the PPGS-UFPE.
Funding: None.
Conflicts of interest: There are none.
Ethical approval: The study did not require approval from a research ethics committee.
Data and material availability: The data and materials used in this study are available in
libraries and on SciELO.
Authors’ contributions: The authors Marco Leal and Sérgio Veloso contributed to the
reflection on the theme addressed, based on Fernandes’s conceptual framework.
Processing and editing: Editora Ibero-Americana de Educação
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