Culpe (a falta de) o narrador
mais romance, menos ironia nas adaptações cinematográficas de Jane Austen
DOI:
https://doi.org/10.58943/irl.v1i62.20803Palavras-chave:
Jane Austen, adaptação cinematográfica, narrador irônicoResumo
A acidez austeniana nem sempre é bem traduzida no cinema, na TV e no streaming. Esta é a hipótese norteadora do presente estudo, que relaciona o ganho sistemático de romantismo que acompanha a migração da obra de Jane Austen para as mídias audiovisuais à obliteração do narrador em terceira pessoa. Ilustramos esse fenômeno selecionando trechos de variadas adaptações de Orgulho e Preconceito e Emma, seus romances com o maior número de recriações audiovisuais. Nossa discussão mostra como, apesar de sua enorme popularidade na atualidade, as obras de Austen são frequentemente mal interpretadas como mais amorosas e ingênuas do que de fato são, exemplificando, assim, como pode ser difícil adaptar a literatura a um novo meio. Como contraexemplo, no entanto, examinamos a adaptação da novela epistolar Lady Susan, cuja ausência de um guia narrativo no texto original permite que o filme Amor e Amizade (2016), de Whit Stillman, recrie a ironia de Austen por meio de recursos cinematográficos como intertítulos e enquadramento visual. Neste caso, o diretor mobiliza estratégias cinematográficas para recuperar o humor afiado, muitas vezes silenciado nas adaptações dos principais romances, demonstrando que a ironia austeniana pode, sob certas condições, ser transposta com sucesso para o cinema.
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