Chamada Edição Especial 1/2026 Dossiê Temático – Publicação Bilíngue "Violência Intrafamiliar: Perspectivas Multidisciplinares sobre a Dinâmica do Sofrimento, do Trauma e da Resiliência (temas interseccionais)"

20/02/2026

Chamada Edição Especial 1/2026

Dossiê Temático – Publicação Bilíngue

Violência Intrafamiliar: Perspectivas Multidisciplinares sobre a Dinâmica do Sofrimento, do Trauma e da Resiliência (temas interseccionais)

Este dossiê propõe-se a constituir um espaço qualificado de produção científica acerca das múltiplas manifestações da violência no contexto familiar. Considerando que a família representa uma microssociedade que projeta seus membros na macrossociedade, esta iniciativa busca responder às demandas sociais relacionadas àqueles que trabalham, pesquisam, ensinam e intervêm junto às famílias, com vistas a promover impacto sistêmico na dinâmica relacional coletiva.

A Revista DOXA: Revista Brasileira de Psicologia e Educação (Qualis A4), da Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara (FCLAr/Unesp) – Grupo NUSEX, abre suas páginas para uma reflexão urgente e necessária na intersecção entre sofrimento humano e produção de conhecimento crítico.

Organizadora / Curadoria: Responsável pela seleção temática, interlocução com autores convidados e organização da seção.

 

Profa. Me. Luciana Ferreira (CRP 06/70528/SP)
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2974-1377

Doutoranda e pesquisadora em Psicologia Clínica, com foco na violência sexual na infância e seus impactos na vida adulta de mulheres. Mestre pela mesma instituição, com pesquisa voltada aos conflitos na relação mãe-filha em contextos de violência doméstica. Especialista em terapia de famílias e casais (PUC-SP), com investigação sobre violência parental e seus efeitos na constituição identitária dos filhos.

Atua com escuta terapêutica fundamentada em abordagem intergeracional e sistêmica, com aportes narrativos, construtivistas e construcionistas sociais, com ênfase em situações de violência intrafamiliar, abuso sexual infantil, trauma e vínculos afetivos. Possui experiência clínica no manejo de pessoas com TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático) relacionado a traumas do desenvolvimento na infância, incluindo violência sexual, psicológica, física e negligência, bem como seus impactos na vida adulta de homens e mulheres.

 

 Cronograma Proposto

Lançamento da chamada 20/02/2026
Prazo final para submissão 30/04/2026
Avaliação por pares aberta 01/05/2026 a 30/05/2026
Publicação do dossiê Até 30/08/2026

 

Normas de submissão: https://periodicos.fclar.unesp.br/doxa/about/submissions (30 a 40% das referências deverão ser dos últimos 4 anos).

Objetivos

  • Estimular abordagens interdisciplinares sobre a violência intrafamiliar;
  • Promover reflexões sobre dispositivos legais e políticas públicas existentes;
  • Mapear impactos psicológicos, sociais e simbólicos do trauma familiar;
  • Oferecer espaço para vozes minoritárias e perspectivas decoloniais;
  • Analisar processos de construção da resiliência frente a contextos de sofrimento prolongado.

Justificativa do Dossiê

Este dossiê pretende reunir contribuições interdisciplinares que analisem criticamente as múltiplas expressões da violência no ambiente familiar, suas consequências psicológicas, sociais, jurídicas e espirituais, bem como os dispositivos de enfrentamento e superação construídos por indivíduos e comunidades.

A escolha do tema justifica-se pela urgência em aprofundar o debate acadêmico sobre o papel das instituições — Estado, escola, sistema judiciário e saúde pública — na visibilidade das vítimas, responsabilização dos agressores e fortalecimento dos mecanismos de cuidado e acolhimento.

Também se faz fundamental analisar vulnerabilidades específicas que atravessam determinados grupos sociais, como mulheres, crianças, pessoas idosas, população LGBTQIAPN+ e pessoas com deficiência, sob perspectiva interseccional.

Eixos Temáticos (sugestões para submissões)

  1. Subtipos de violência doméstica e familiar
  2. Violência parental contra crianças e adolescentes
  3. Violência conjugal
  4. Violência contra mulheres em contexto doméstico
  5. Violência contra homens em contexto doméstico
  6. Violência contra a população LGBTQIAPN+
  7. Violência intrafamiliar com base religiosa e espiritual
  8. Violência contra pessoas idosas
  9. Violência contra pessoas com neurodivergência
  10. Suicídio em famílias marcadas pela violência
  11. Traumas do desenvolvimento decorrentes de violências na infância
  12. Resiliência nas dinâmicas familiares

Público-alvo

Pesquisadores(as), docentes, estudantes de pós-graduação e profissionais das áreas de saúde, serviço social, direito, educação, psicologia, estudos de gênero, religião, sociologia e áreas afins.

Apontamentos Iniciais

A violência intrafamiliar permanece como uma das formas mais alarmantes de violação dos direitos humanos no Brasil, atingindo diferentes grupos em contextos de vulnerabilidade. Em muitos casos, o lar — tradicionalmente associado à proteção e cuidado — torna-se o cenário da violência.

Dados recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP, 2025) indicam que mais de 21,4 milhões de mulheres acima de 16 anos relataram ter sofrido algum tipo de violência nos últimos 12 meses. Foram registrados 1.450 feminicídios em 2024, além de milhares de homicídios dolosos e lesões corporais seguidas de morte. A violência psicológica (32,6%) e a física (29,7%) figuram entre as mais recorrentes.

Entre crianças e adolescentes, o Disque 100 registrou 289,4 mil denúncias em 2024. Houve aumento significativo de casos de negligência. Estudos indicam concentração de violência sexual na região amazônica e elevado número de mortes violentas no período analisado.

A violência contra pessoas idosas também apresentou crescimento expressivo, com aumento substancial de denúncias no primeiro trimestre de 2025. Medidas normativas recentes passaram a priorizar casos envolvendo idosos acima de 80 anos.

Em relação à população LGBTQIAPN+, o Brasil segue apresentando índices elevados de assassinatos de pessoas trans e travestis. Parte significativa dessas ocorrências está associada à violência e expulsão no núcleo familiar.

No campo da saúde mental, a taxa de suicídio entre jovens cresceu de forma contínua entre 2011 e 2022. A exposição à violência por parceiro íntimo foi associada a risco significativamente maior de suicídio entre mulheres.

Esses dados evidenciam que a violência intrafamiliar não constitui questão privada, mas problema público, estrutural e sistêmico, exigindo respostas institucionais robustas e políticas de cuidado interseccionais.

Proposta Teórica: A Análise Sistêmica da Violência Familiar

Sob a perspectiva do pensamento sistêmico, a violência intrafamiliar é compreendida como fenômeno relacional e circular, e não como evento isolado. Essa abordagem rompe com a leitura linear centrada exclusivamente na dicotomia vítima–agressor.

O comportamento individual é analisado em relação ao sistema familiar como totalidade. As interações produzem circuitos de retroalimentação que perpetuam padrões relacionais.

A violência pode manifestar-se tanto como fenômeno transgeracional — transmitido ao longo das gerações (eixo vertical) — quanto intergeracional — reproduzido nas relações contemporâneas (eixo horizontal).

Estudos recentes indicam que a circularidade da violência compromete processos de diferenciação do self e estrutura identitária, mantendo sistemas familiares disfuncionais.

O pensamento sistêmico compreende o mundo como rede de interconexões. Autores como Bertalanffy, Wiener e Capra fundamentam essa abordagem, posteriormente consolidada por Vasconcellos no campo das ciências humanas.

Assim, este dossiê propõe ultrapassar explicações lineares e investigar as dinâmicas complexas que sustentam e perpetuam a violência no contexto familiar.

 

REFERÊNCIAS

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WIENER, Norbert. Cibernética e sociedade: o uso humano de seres humanos. 4. ed. São Paulo