Educação em direitos humanos e desenvolvimento moral na formação docente: a influência da religiosidade em tempos de “ideologia de gênero”

Matheus Estevão Ferreira da Silva, Tânia Suely Antonelli Marcelino Brabo, Alessandra de Morais

Resumo


Este artigo, resultante de uma pesquisa de caráter interdisciplinar financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), tem como objetivo analisar, no que se refere à formação docente, os contrapontos apresentados à proposta de (re)educação em valores da educação em direitos humanos, especificamente às temáticas de gênero e sexualidades, em meio a conjuntura política contemporânea. Desenvolvido a partir de revisão bibliográfica e análise documental, o texto se segmenta em três partes: primeiramente, discute-se afirmação da educação em direitos humanos no sistema educacional brasileiro abordando sua trajetória histórica junto às articulações para capacitação de profissionais para exercê-la. Em seguida, relembrando brevemente as conquistas dos movimentos Feminista e LGBT para reconhecimento formal e pleno de seus direitos, ressaltam-se os impasses para consolidação da educação em direitos humanos que contemple gênero e sexualidades diante da criação da “ideologia de gênero” junto ao movimento reacionário que as políticas públicas têm sofrido nos últimos anos. Por fim, apropriando-se da teoria cognitiva do desenvolvimento moral, propõe-se uma reflexão sobre a influência da religiosidade quando processada de forma dogmática e literal, entre os vários aspectos culturais, na formação moral brasileira, que se evidencia como um dos fatores responsáveis pelos contrapontos à educação em direitos humanos e, assim, refletindo o cenário político de indiferença à lutas históricas, ao processo de empoderamento de sujeitos de direitos e interferindo na natureza laica e democrática do país.


Palavras-chave


Educação. Direitos humanos. Desenvolvimento moral. Gênero. Sexualidades. Formação docente.

Texto completo:

PDF

Referências


BATAGLIA, P. U. R.; MORAIS, A.; LEPRE, R. M. A teoria de Kohlberg sobre o desenvolvimento do raciocínio moral e os instrumentos de avaliação de juízo e competência moral em uso no Brasil. Estud. psicol., Natal, v. 15, n. 1, p. 25-32, jan./abr., 2010.

BEAUVOIR, S. O segundo sexo: os fatos e os mitos. 3. ed. São Paulo: Difel, 1975. v. 1.

BENEVIDES, M. V. Educação em direitos humanos: de que se trata?. In R. L. BARBOSA (Org.). Formação de Educadores: Desafios e Perspectivas. S. e Perspectivas Paulo: UNESP. 2003, p. 309-318.

BIAGGIO, A. Lawrence Kohlberg: ética e educação moral. 2. ed. São Paulo: Moderna, 2006.

BRABO, T. S. A. M. Movimentos sociais e educação: feminismo e equidade de gênero. In: DAL RI, N. M.; BRABO, T. S. A. M. (Org.). Políticas educacionais, gestão democrática e movimentos sociais. Marília: Oficina Universitária/Cultura Acadêmica, 2015. p. 109-128.

BRASIL. Ministério da educação, conselho nacional de educação. Resolução nº 1, de 30 de maio de 2012. Estabelece diretrizes nacionais para a educação em direitos humanos. CNE/CP: Diário Oficial da União, Brasília, 2012.

BRASIL. Plano nacional de educação em direitos humanos. Brasília: Secretaria de Direitos Humanos, Ministério da Educação, UNESCO, 2007.

BRASIL. Plano nacional de educação em direitos humanos. 2. ed. Brasília: Secretaria de Direitos Humanos, Ministério da Educação, UNESCO, 2013.

CANDAU, V. M. Educação em direitos humanos e formação de professores(as). São Paulo: Cortez, 2013.

CARVALHO, J. S. Educação, cidadania e direitos humanos. Petrópolis: Vozes, 2004.

CASCAIS, A. F. Um nome que seja seu: dos estudos gays e lésbicos à teoria queer. In: SANTOS, A. C. Indisciplinar a teoria: estudos gays, lésbicos e queer. Lisboa: Fenda, 2004. p. 21-90

CASTRO, R. P. Educação, relações de gênero e sexualidades: experiências de estudantes de pedagogia. Revista da FAEEBA - Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 25, n. 45, p. 203-214, jan./abr. 2016.

DESLANDES, K. Formação de professores e direitos humanos: construindo escolas promotoras de igualdade. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

DIÓGENES, E. M. N.; ROCHA, M. C. J.; BRABO, T. S. A. M. Os movimentos feministas brasileiros na luta pelos direitos das mulheres. In: BRABO, T. S. A. M. Educação, Mulheres, Gênero e Violência. Marília: Oficina Universitária; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2015. p. 305-322.

DURIEZ, B.; SOENENS, B. Religiosity, moral attitudes and moral competence: A critical investigation of the religiosity-morality relation. International Journal of Behavioral Development, 30. p. 76-83, January 2006.

ERNSBERGER, D.J.; MANASTER, G.J. Moral development, intrinsic/extrinsic religious orientation and denominational teachings. Genetic Psychology Monographs, v. 104, p. 23–41, 1981.

FERREIRA, G. R.; LEÃO, A. M. Estudo dos cursos de formação em educação sexual que utilizam as tecnologias digitais. In: IV Seminários Enlaçando Sexualidades: Moralidades, Famílias e Fecundidade. Anais do IV Seminários Enlaçando Sexualidades: Moralidades, Famílias e Fecundidade. Salvador, UNEB, 2015.

FURLANI, J. “Ideologia de Gênero"? Explicando as confusões teóricas presentes na cartilha”. Versão Revisada 2016. Florianópolis: FAED, UDESC. Laboratório de Estudos de Gênero e Família, 2016. Disponível em: https://www.facebook.com/jimena.furlani. Acesso em: 21 ago. 2016.

GORISCH, P. O reconhecimento dos direitos LGBT: de Stonewall à ONU. Curitiba: Appris, 2014.

KOHLBERG, L. Moral Development. New York: Holt, Reinhart and Winston, 1970.

KOHLBERG, L. Psicologia del desarrollo moral. Bilbao, Espanha: Editorial Desclée de Brower, 1992.

LEPRE, R. M. et al. A formação ética do educador: competência e juízo moral de graduandos de pedagogia. Revista Educação e Cultura Contemporânea, v. 11, n. 23, p. 113-137, 2014.

MORAIS, A. et al. Relações com os dados de nossa pesquisa e a discussão da eutanásia na cultura brasileira: limites e tensões entre o laico e o religioso. In: BATAGLIA, P. U. R; MORAIS, A.; LEPRE, R. M.; CARVALHO, S. M. A influência do ambiente acadêmico na construção da competência moral em graduandos de pedagogia. Relatório de Pesquisa chamada MCTI /CNPq /MEC/CAPES N º 07/2011. Não-publicado. Relatório de pesquisa enviado para o CNPq. Marília, 2014. p. 84-88.

SHIMIZU, A. M. Defining Issues Test-2: fidedignidade da versão brasileira e p1onderações acerca de seu uso em pesquisas sobre moralidade. Psicologia: Reflexão e Crítica, v. 17, n. 1, p. 5-14, 2004.

SUÁREZ, M. Enfoques feministas e antropologia. In: AGUIAR, N. Gênero e Ciências

Humanas. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1995. p. 31-48.

SILVA, A. M. M. A educação em direitos humanos no Brasil. Conferencia apresentada na III Jornada Escola e Violência sobre o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos, Caxias, 2005.

SILVA, H. P. Educação em direitos humanos: conceitos, valores e hábitos. 1995. 189f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1995.

SILVEIRA, E. L. Édipo (não é) rei: foucault, Butler e o sexo em discurso. 2016. 120f. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Centro de Comunicação e Expressão, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2016.

UNESCO. UNESCO discute sexualidade e gênero na formação de professores. São Paulo, 2015. Disponível em: www.unesco.org/new/pt/brasilia/about-this-office/single-view/news/unesco_discusses_sexuality_and_gender_in_teacher_training. Acesso em: 02 jun. 2017.




DOI: https://doi.org/10.22633/rpge.v21.n.esp2.2017.10173



Rev. on line de Política e Gestão Educacional, Araraquara, SP, Brasil, e-ISSN: 1519-9029

DOI prefix: 10.22633/rpge

Licença Creative Commons 

Este obra está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.