“Eu não tenho cara de estudante de medicina”

Trajetória de um estudante e os guichês discriminantes na universidade pública

Autores

DOI:

https://doi.org/10.21723/riaee.v17iesp.2.16111

Palavras-chave:

Implementação de políticas públicas, Trajetórias escolares, Desigualdade e oportunidades educacionais, Universidade pública

Resumo

O artigo analisa a trajetória de um estudante de camada popular, as interações com guichês discriminantes em uma universidade pública mineira e suas percepções sobre seu cotidiano como estudante-alvo de políticas sociais. A partir de uma abordagem qualitativa, realizou-se uma entrevista-narrativa, contemplando quatro dimensões: (1) sua trajetória familiar e escolar antes do ingresso na universidade; (2) estratégias e percepções sobre políticas de inclusão social que contribuíram para seu ingresso na universidade; (3) sua experiência como estudante de Medicina e as interações com os pares; (4) sua interação com os setores na universidade, nos seus guichês. Os resultados indicam mudança no perfil socioeconômico nas universidades públicas a partir do governo Lula e o ingresso dos “estudantes improváveis”, por meio da Lei de Cotas e outras políticas destinadas às famílias. Revelam, também, guichês discriminantes e estigmas que se processam, a partir da reprodução de desigualdades no processo de implementação de políticas.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Natália Rigueira Fernandes, Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), Mariana – MG – Brasil

Doutoranda em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação.

 

Breynner Ricardo de Oliveira, Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), Mariana – MG – Brasil

Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação. Doutorado em Educação (UFMG).

Referências

AUYERO, J. Patients of the state: An Ethnographic Account of Poor People is waiting. Latin American Research Review, v. 46, n. 1, p. 5-29, 2012. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/41261368. Acesso em: 16 maio 2020.

BRASIL. Lei n. 11.892, de 29 de dezembro de 2008. Institui a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, cria os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia, e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 2008. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11892.htm. Acesso em: 14 out. 2021.

BRASIL. Lei n. 12.711, de 29 de agosto de 2012. Dispõe sobre o ingresso nas universidades federais e nas instituições federais de ensino técnico de nível médio e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 2012. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12711.htm. Acesso em: 14 out. 2021.

COSTA, J.; SILVEIRA, F. G.; COSTA, R.; WALTENBERG, F. (org.). Expansão da educação superior e progressividade do investimento público. Brasília, DF: Ipea, 2021.

COULON, A. O sucesso estudantil e sua avaliação: Que política universitária é possível? In: SANTOS, G.; SAMPAIO, S. (org.). Observatório da Vida Estudantil. Estudos sobre a vida e cultura universitárias. Salvador: EDUFBA, 2012.

DUBET, F. As desigualdades multiplicadas. Revista Brasileira de Educação, n. 17, p. 5-19, 2001. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n17/n17a01. Acesso em: 23 dez. 2021.

DUBOIS, V. Políticas no guichê, políticas do guichê. In: PIRES, R. Implementando Desigualdades: Reprodução de desigualdades na implementação de políticas públicas. Rio de Janeiro: IPEA, 2019.

DUBOIS, V. Lower Classes and Public Institutions: A research program. France: University of Strasbourg, 2020.

FONAPRACE. V Pesquisa Nacional de Perfil Socioeconômico e Cultural dos(as) Graduandos(as) das IFES – 2018. Brasília, DF: Observatório do Fórum Nacional de Pró-Reitores de Assuntos Estudantis 2019. 318 p. Disponível em: https://www.andifes.org.br/wp-content/uploads/2019/05/V-Pesquisa-Nacional-de-Perfil-Socioeconomico-e-Cultural-dos-as-Graduandos-as-das-IFES-2018.pdf. Acesso em: 14 out. 2021.

GOFFMAN, E. Estigma: Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores S. A., 1982.

GUSSI, A. F.; OLIVEIRA, B. R. Políticas públicas e outra perspectiva de avaliação: Uma abordagem antropológica. Revista Desenvolvimento em Debate, v. 4, n. 1, p. 83-101, 2016. Disponível em: https://repositorio.ufc.br/handle/riufc/32515. Acesso em: 12 abr. 2021.

HIRATA, H. Gênero, classe e raça: Interseccionalidade e consubstancialidade das relações sociais. Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 26, n. 1, jun. 2014. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ts/a/LhNLNH6YJB5HVJ6vnGpLgHz/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 4 abr. 2021

JACCOUD, L. Questão Social e Políticas Sociais no Brasil Contemporâneo. Brasília, DF: IPEA, 2005.

JACCOUD, L.; BICHIR, R.; MESQUITA, A. C. O SUAS na proteção social brasileira: Transformações recentes e perspectivas. Novos estud. – CEBRAP, São Paulo, v. 36, n. 02, p. 37-53, jul. 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/j/nec/a/Vkv7r47xGw7Hd6XmZdh7HfL/abstract/?lang=pt. Acesso em: 15 mar. 2021.

KERSTENETZKY, C. L. Desigualdade como questão política. CEDE, Texto para discussão n. 11, 2008. Disponível em: https://cede.uff.br/wp-content/uploads/sites/251/2021/04/TD-001-KERSTENETZKY-C.-2008.-Desigualdade-como-questao-politica.pdf. Acesso em: 12 fev. 2021.

LAHIRE, B. Sucesso escolar nos meios populares: As razões do improvável. São Paulo: Ática, 1997.

LAISNER, R. C. et al. O reconhecimento a partir da diferença: Olhares interseccionais para a construção de ferramentas de avaliação de políticas públicas. Revista AVAL, v. 5, n. 19, jan./jun. 2021. Disponível em: https://repositorio.ufc.br/handle/riufc/63394. Acesso em: 25 out. 2021.

LAVINAS, L. GENTIL, D. L. Brasil anos 2000: A política social sob regência da financeirização. Dossiê balanço crítico da economia brasileira (2003-2016). Novos estudos – CEBRAP, São Paulo, v. 37, n. 2, p. 191-211, maio/ago. 2018. Disponível em: https://www.scielo.br/j/nec/a/5fqGSvyFTytWTNkQBJNGM3M/abstract/?lang=pt. Acesso em: 11 ago. 2021.

LEJANO, R. Parâmetros para análise de políticas: Fusão de texto e contexto. Campinas: Arte Escrita, 2012.

LIPSKY, M. Burocracia de nível de rua: Dilemas do indivíduo nos serviços públicos. Brasília, DF: Enap, 2019. Disponível em: https://repositorio.enap.gov.br/bitstream/1/4158/1/Burocracia%20de%20nível%20de%20rua_Michael%20Lipsky.pdf. Acesso em: 11 ago. 2021.

MAYNARD-MOODY, S.; MUSHENO, M. Cops, teachers, counselors: Narratives of street-level judgment. Ann Arbor: University of Michigan Press, 2003.

NERI, M. C. A Década Inclusiva (2001-2011): Desigualdade, Pobreza e Políticas de Renda”. Rio de Janeiro: IPEA, 2012. Disponível em: http://repositorio.ipea.gov.br/handle/11058/4639. Acesso em: 03 maio 2020.

NOGUEIRA, M. A. O capital cultural e a produção das desigualdades escolares contemporâneas. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, v. 51, e07468, 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/cp/a/pdTJTSCfQhzpWjZSGGy8gqK/abstract/?lang=pt. Acesso em: 15 maio 2020.

NOGUEIRA, M. A. A relação família-escola na contemporaneidade: Fenômeno social/interrogações sociológicas. Análise Social, v. 40, n. 176, p. 563-578, 2005. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/41012165. Acesso em: 14 maio 2020.

OLIVEIRA, A. L. M. Educação Superior brasileira no início do século XXI: Inclusão interrompida? 2019. Tese (Doutorado) – IE, UNICAMP, Campinas, São Paulo, 2019. Disponível em: https://repositorio.unicamp.br/Acervo/Detalhe/1088834. Acesso em: 14 mar. 2021.

OLIVEIRA, B. R. A implementação de políticas educacionais no nível micro: uma análise a partir dos profissionais da escola no contexto da prática. Revista de Estudios Teóricos y Epistemológicos en Política Educativa, v. 4, p. 1-17, 2019. Disponível em: https://www.revistas2.uepg.br/index.php/retepe/article/view/12972. Acesso em: 22 dez. 2021.

OLIVEIRA, B. R.; LACERDA, M. C. R. Trazendo à tona aspectos invisíveis no processo de implementação de políticas públicas: uma análise a partir do Programa Oportunidades. In: PIRES, R. R. C. (org.). Implementando desigualdades: Reprodução de desigualdades na Implementação de políticas públicas. Rio de Janeiro: IPEA, 2019.

PNAD. Pesquisa nacional por amostra de domicílios. Microdados. Rio de Janeiro: IBGE, 2019. Disponível em: http://www.ibge.gov.br. Acesso em: 29 dez. 2021.

PIRES, R. Implementando desigualdades: Reprodução de desigualdades na Implementação de políticas públicas. Rio de Janeiro: IPEA, 2019.

PIRES, R.; LOTTA, G.; TORRES JUNIOR, R. D. Burocracias Implementadoras e a (Re) produção de Desigualdades sociais: perspectivas de análise no debate internacional. In: PIRES, R.; LOTTA, G.; OLIVEIRA, V. E. Burocracia e políticas públicas no Brasil interseções analíticas. Brasília, DF: IPEA; ENAP, 2019.

PORTES, E. A. Estratégias escolares do universitário das camadas populares: A insubordinação aos determinantes. 1993. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1993.

PORTES, E. A.; SOUSA, L. O nó da questão: A permanência de jovens dos meios populares no ensino superior público. Rio de Janeiro: Flacso, 2012. Disponível em: http: //flacso.org.br/files/2015/03/Apresentacao_Ecio_Portes.pdf. Acesso em: 21 dez. 2021.

SENKEVICS, A. A expansão recente do ensino superior: Cinco tendências de 1991 a 2020. Cadernos de Estudos e Pesquisas em Políticas Educacionais, v. 3, n. 4, p. 199-246, 2021. Disponível em: http://www.emaberto.inep.gov.br/ojs3/index.php/cadernos/article/view/4892. Acesso em: 19 set. 2021.

SILVA, J. S. Por que uns e não outros? Caminhada de estudantes da Maré para a universidade. 1999. Tese (Doutorado em Educação) – PUC, Rio de Janeiro, 1999.

TERRAIL, J-P. L’issue scolaire: de quelques histoires de transfuges. In: TERRAIL, J-P. Destins ouvriers – La fin d’une classe? Paris: PUF, 1990.

THIN, D. Para uma análise das relações entre famílias populares e escola: Confrontação entre lógicas socializadoras. Revista Brasileira de Educação, v. 11, n. 32, p. 211- 225. maio/ago. 2006. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbedu/a/8gBjdVbfWbNyNft4Gg7THbM/abstract/?lang=pt. Acesso em: 10 abr. 2021.

VIANA, M. J. B. Longevidade escolar em famílias de camadas populares: Algumas condições de possibilidade. 1998. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1998. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/FAEC-85SJUP. Acesso em: 16 maio 2020.

VIANA, M. J. B. As práticas socializadoras familiares como lócus de constituição de disposições facilitadoras de longevidade escolar em meios populares. Educação e Sociedade, Campinas, v. 26, n. 90, p. 107-125. jan./abr. 2005. Disponível em: https://www.scielo.br/j/es/a/JSkvyDGwXQJRWvyJBWdqQxN/abstract/?lang=pt. Acesso em: 06 maio 2020.

ZAGO, N. Do acesso à permanência no ensino superior: Percursos de estudantes universitários de camadas populares. Revista Brasileira de Educação, São Paulo, v. 11, n. 32, p. 226-237, 2006. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbedu/a/wVchYRqNFkssn9WqQbj9sSG/abstract/?lang=pt. Acesso em: 22 mar. 2021.

Publicado

30/06/2022

Como Citar

FERNANDES, N. R.; OLIVEIRA, B. R. de. “Eu não tenho cara de estudante de medicina”: Trajetória de um estudante e os guichês discriminantes na universidade pública. Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 17, n. esp.2, p. 1279–1300, 2022. DOI: 10.21723/riaee.v17iesp.2.16111. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/iberoamericana/article/view/16111. Acesso em: 4 out. 2022.