Infância e medicalização da vida: uma análise sobre a produção diagnóstica e seus nexos com os processos de escolarização

Autores

DOI:

https://doi.org/10.21723/riaee.v15iesp5.14559

Palavras-chave:

Educação especial, Diagnóstico, Medicalização, Patologização

Resumo

Nas últimas décadas tem ocorrido uma ampliação dos diagnósticos referentes aos transtornos e deficiências, principalmente no que tange ao público infantil. Esse aumento associa-se a modificações de critérios diagnósticos, ao avanço da produção diagnóstica no contexto escolar e à influência de interesses associados aos conglomerados da produção farmacológica descritos por estudiosos dessa temática. Este artigo se propõe a analisar a medicalização da vida infantil e a produção diagnóstica que se vincula aos processos de escolarização. Para tanto, apresenta-se um breve histórico a respeito da constituição do DSM, em sintonia com o debate acadêmico contemporâneo. Busca-se discutir como os engendramentos desse manual contribuem com a produção do que se compreende por inflação diagnóstica. A análise considera o processo de medicalização da vida no contexto infantil, com base em procedimentos que tendem a reduzir os fenômenos humanos a manifestações comportamentais que poderiam ser codificadas em dinâmicas que reafirmam o sujeito como centro da falta a ser corrigida.

Biografia do Autor

Aniê Coutinho de Oliveira, Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), Pelotas – RS

Professora Adjunta no Departamento de Ginástica e Saúde da Escola Superior de Educação Física. Doutorado em Educação (UFRGS).

Carla Maciel da Silva, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre – RS

Doutoranda no Programa de Pós-graduação em Educação. Apoio CAPES.

Claudio Roberto Baptista, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre – RS

Professor Titular em Educação Especial da Faculdade de Educação e no Programa de Pós-Graduação em Educação. Doutorado em Educação (UNIBO) – Itália.

Referências

APA. American Psychiatriac Association. Diagnostic and statistical manual of mental disorder. 5 ed. Washington: American Psychiatric Association, 2013.

ASSIS, M. O alienista. São Paulo: FTD, 2008.

BANZATO, C. E. M.; PEREIRA, M. E. C. O lugar do diagnóstico na clínica psiquiátrica. In: ZORZANELLI, R.; BEZERRA JR., B.; COSTA, J. F. (Org.). A criação de diagnósticos na psiquiatria contemporânea. Rio de Janeiro: Garamond, 2014.

BEZERRA JUNIOR, B. A psiquiatria contemporânea e seus desafios. In: ZORZANELLI, R.; BEZERRA JR., B.; COSTA, Jurandir Freire. (Org.). A criação de diagnósticos na psiquiatria contemporânea. Rio de Janeiro: Garamond, 2014.

BRIDI, F. S.; BAPTISTA, C. R. Deficiência mental e pesquisa: atualidade e modos de conhecer. In: ANPED SUL, 9., 2012, Caxias do Sul. Anais [...]. Caxias do Sul, RS: ANPED, 2012.

BURKLE, T. S. Uma Reflexão Crítica Sobre as Edições do Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais – DSM. Orientador: André Martins. 2009. 108 f. Dissertação (Mestrado em Saúde Coletiva) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2009.

CAPONI, S. Vigiar e medicar: o DSM-5 e os transtornos Obulercos na Infância. In: CAPONI, S.; VALENCIA, M. F. V.; VERDI, M. (Org.). Vigiar e medicar: estratégias de medicalização da infância. Liberas: São Paulo, 2016. p. 29-54.

CORDEIRO S. M. N.; YAEGASHI, S. F. R.; OLIVEIRA, L. V. Representações sociais sobre TDAH e medicalização. RIAEE – Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 13, n. 3, p. 1011-1027, jul./set. 2018. E-ISSN: 1982-5587. DOI: https://doi.org/10.21723/riaee.v13.n3.2018.10883

COSGROVE, L.; KRIMSKY, S. A comparison of DSM-IV and DSM-5 panel members' financial associations with industry: a pernicious problem persists. PLoS Med., v. 9, n. 3, e1001190, 2012. Disponível em: https://doi.org/10.1371/journal.pmed.1001190

DEMAZEUX, S. Qu’est-ce que le DSM? Paris: Les Ed. D’Ithaque, 2013.

DINIZ, D. O que é deficiência? Coleção Primeiros Passos. São Paulo: Brasiliense, 2007.

FARIAS, Elizabeth Regina Streisky; CRUZ, Gilmar de Carvalho. A inclusão de pessoas com deficiência e necessidades educativas especiais no ensino regular: vozes e significados. RIAEE – Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 14, n. 3, p. 1139-1151, p. 1139-1151, jul./set. 2019. e-ISSN: 1982-5587.DOI: https://doi.org/10.21723/riaee.v14i3.11777

FENDRIK, S. O DSM-IV, uma metafísica comportamental? In: JERUSALINSKY, A.; FENDRIK, S. (Org.). O livro negro da psicopatologia contemporânea. São Paulo: Via Lettera, 2011.

FRANCES, A. ¿Somos todos enfermos mentales? Manifesto contra los abusos de la psiquiatria. Ciudad Autònoma de Buenos Aires: Ariel, 2014a.

FRANCES, A. Transformamos problemas cotidianos em transtornos mentais. El País Brasil, 28 set. 2014b. Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2014/09/26/sociedad/1411730295_336861.html. Acesso em: 10 out. 2014.

FRANCES, A. voltando ao normal: como o excesso de diagnósticos e a medicalização da vida estão acabando com a nossa sanidade e o que pode ser feito para retomarmos o controle. Rio de Janeiro: Versal, 2016. 368 p.

FREITAS, C. R.; BAPTISTA, C. R. Mais rápidas que a escola: crianças referidas como hiperativas no contexto escolar. RIAEE – Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 14, n. esp. 1, p. 791-806, abr. 2019. e-ISSN: 1982-5587. DOI: https://doi.org/10.21723/riaee.v14iesp.1.12207

FOUCAULT, M. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1990.

GAINES, A. From DSM – I to DSM – II, voices old self, mastery and other: cultural cronstructivist Reading of U.S. psychiatric classification. Soc. Sci. Med., v. 35, n. 1, p. 3-24, 1992.

GIROTO, C. R. M.; ARAUJO, L. A.; VITTA, F. C. F. Discursivização sobre “doenças do não aprender” no contexto educacional inclusivo: o que dizem os professores de Educação Infantil? RIAEE – Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 14, n. esp. 1, p. 807-825, abr. 2019. E-ISSN: 1982-5587. DOI: https://doi.org/10.21723/riaee.v14iesp.1.12208

GROB, G. Origins of DSM-I: a study in appearance and reality. American Journal of Psychiatry, v. 148, n. 4, p. 421-431, 1991. DOI: https://doi.org/10.1176/ajp.148.4.421

IZAGUIRRE, G. Elogio ao DSM-IV. In: JERUSALINSKY, A.; FENDRIK, S. (Org.). O livro negro da psicopatologia contemporânea. São Paulo: Via Lettera, 2011.

MOYSES, M. A. A. A medicalização na educação infantil e no ensino fundamental e as políticas de formação docente: a medicalização do não-aprender-na-escola e a invenção da infância anormal. In: Reunião Anual da Anped, 31., 2008, Caxambu. Anais [...]. Caxambu, MG: UNICAMP, 2008.

MEMÓRIA da Reforma Psiquiátrica. Entrevista com Paulo Amarante. 2015. Disponível em: https://youtu.be/5tHKT5fg_Sk. Acesso em: 5 nov. 2018.

RAMOS, F. Do DSM-III ao DSM-5: traçando o percurso médico-industrial da psiquiatria de mercado. In: ZORZANELLI, R.; BEZERRA JR., B.; COSTA, J. F. (Org.). A criação de diagnósticos na psiquiatria contemporânea. Garamond Universitária. Rio de Janeiro: FAPERJ, 2014.

ROCHA, A. M.; CAVALCANTI, A. E. Riscos e limites do uso do diagnóstico psiquiátrico na infância. In: ZORZANELLI, R.; BEZERRA JR., B.; COSTA, J. F. (Org.). A criação de diagnósticos na psiquiatria contemporânea. Rio de Janeiro: Garamond, 2014.

SANTOS, R. L.; OLIVEIRA, F. N.; BIANCHINI, L. G. B. Medicalização da aprendizagem e resiliência: significações produzidas na escola. RIAEE – Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 13, n. 4, p. 1792-1813, out./dez. 2018. e-ISSN: 1982-5587. DOI: https://doi.org/10.21723/riaee.unesp.v13.n4.out/dez.2018.10190

SIBEMBERG, N. Autismo e Psicose Infantil. O diagnóstico em debate. In: JERUSALINSKY, A.; FENDRIK, S. (Org.). O livro negro da psicopatologia contemporânea. São Paulo: Via Lettera, 2011.

SILVA, C. M. Deficiência intelectual no Brasil: uma análise relativa a um conceito e aos processos de escolarização. Orientador: Claudio Roberto Baptista. 2016. 103f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2016.

SOUZA, M. P. R. Retomando a patologia para justificar a não aprendizagem escolar: a medicalização e o diagnóstico de transtornos de aprendizagem em tempos de neoliberalismo. Medicalização na Educação Infantil e no Ensino Fundamental e as políticas de Formação Permanente. In: Reunião Anual da Anped, 31., 2008, Caxambu. Anais [...]. Caxambu, MG: UNICAMP, 2008.

ZORZANELLI, R. Sobre os DSMs como objetos culturais. In: ZORZANELLI, R.; BEZERRA JR., B.; COSTA, J. F. (Org.). A criação de diagnósticos na psiquiatria contemporânea. Rio de Janeiro: Garamond, 2014.

Downloads

Publicado

01/12/2020

Como Citar

Oliveira, A. C. de, Silva, C. M. da, & Baptista, C. R. (2020). Infância e medicalização da vida: uma análise sobre a produção diagnóstica e seus nexos com os processos de escolarização. Revista Ibero-Americana De Estudos Em Educação, 15(esp5), 2803–2819. https://doi.org/10.21723/riaee.v15iesp5.14559