O que sabemos (ou não sabemos) sobre a precarização do trabalho docente nas escolas privadas paulistas?

Autores

  • Franciele Del Vecchio dos Santos Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Faculdade de Ciências e Letras, Programa de Pós-graduação em Educação Escolar, Araraquara, SP, Brasil https://orcid.org/0000-0002-9021-0583
  • Maria José da Silva Fernandes Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Faculdade de Ciências e Letras, Programa de Pós-graduação em Educação Escolar, Araraquara, SP, Brasil. Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Faculdade de Ciências de Bauru, Departamento de Educação, Bauru (SP), Brasil https://orcid.org/0000-0002-4747-6570

Palavras-chave:

Precarização do trabalho docente, Educação Básica Privada, Escolas Privadas Paulistas

Resumo

Este artigo investiga transformações profundas no ambiente laboral decorrentes do neoliberalismo e da reestruturação produtiva, enfatizando a tecnologia, desregulamentação e flexibilização como motores dessas mudanças. Esses processos redefinem a organização social e de trabalho, impactando setores e alterando funções de instituições como família, Estado e escola. Especificamente, observa-se que a escola pública enfrenta desafios crescentes diante da alteração dos papéis tradicionalmente desempenhados pelo Estado, em um contexto em que a mercantilização da educação ganha proeminência. Este cenário é evidenciado pelo aumento na oferta de vagas em instituições educacionais privadas no Brasil, o que resultou em uma expansão das oportunidades de emprego para professores. No entanto, apesar desse crescimento, a Educação Básica privada ainda carece de investigações aprofundadas e análises críticas. Portanto, o propósito central deste artigo é examinar as condições de trabalho nas escolas privadas do estado de São Paulo. Os resultados da pesquisa indicaram uma precarização no trabalho docente, evidenciada por cargas horárias excessivas, instabilidade, e falta de plano de carreira. Revela-se também a desvalorização docente em um ambiente onde a atuação é pautada por aspectos performáticos e mercadológicos, com muitos professores atuando como horistas, sem jornada definida ou remuneração adequada diante da carga exigida. Observa-se ainda a fragilidade nas relações coletivas escolares, prejudicando a saúde mental dos professores. A cultura da performatividade sobrecarrega e despersonaliza o profissional, diminuindo a valorização e autonomia docente. Destaca-se a baixa participação em movimentos sociais como sindicatos, cruciais para negociações trabalhistas no setor privado educacional paulista.

https://doi.org/10.21723/riaee.v21i00.1972101

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Biografia do Autor

Franciele Del Vecchio dos Santos, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Faculdade de Ciências e Letras, Programa de Pós-graduação em Educação Escolar, Araraquara, SP, Brasil

Doutora em Educação Escolar. E-mail: fran.delvecchio@gmail.com

Maria José da Silva Fernandes, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Faculdade de Ciências e Letras, Programa de Pós-graduação em Educação Escolar, Araraquara, SP, Brasil. Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Faculdade de Ciências de Bauru, Departamento de Educação, Bauru (SP), Brasil

Livre-Docente em Gestão Escolar e Doutora em Educação Escolar. E-mail: mj.fernandes@unesp.br

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Publicado

09/03/2026

Como Citar

SANTOS, F. D. V. dos; FERNANDES, M. J. da S. O que sabemos (ou não sabemos) sobre a precarização do trabalho docente nas escolas privadas paulistas?. Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 21, p. e19721, 2026. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/iberoamericana/article/view/19721. Acesso em: 11 mar. 2026.

Edição

Seção

Artigo de pesquisa